Conhecimento e Desigualdade

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1 Conhecimento e Desigualdade Marcos Cavalcanti CRIE Centro de Referência em Inteligência Empresarial Programa de Engenharia de Produção - COPPE/UFRJ Segundo a OCDE o conhecimento gerou, em 1999, cerca de 55% da riqueza mundial. Os restantes 45% estavam relacionados aos fatores tradicionais de produção: terra, capital, matéria prima, energia e trabalho. Alguns países parecem estar mais bem preparados para a competição global nesta nova sociedade onde o conhecimento passa a ser o principal fator de produção. Dentre estes, o caso da Coréia do Sul é o mais significativo. Após uma rápida discussão de como a Coréia conseguiu aliar altas taxas de desenvolvimento econômico com evidentes progressos sociais, apresentamos alguns pontos para uma agenda que contemple tanto a redução da desigualdade no Brasil quanto a sua inserção competitiva na Sociedade do Conhecimento. 1. Introdução Desde Adam Smith 1 diferentes correntes do pensamento econômico concordam que os fatores básicos de produção são terra, capital, trabalho, matéria-prima e energia. Esta classificação teve um profundo impacto no processo de desenvolvimento da Economia enquanto ciência e marcou o pensamento de gerações de economistas. Embora os trabalhos de Adam Smith sejam os mais reconhecidos, na realidade o primeiro a definir terra, capital e trabalho como os três principais fatores de produção foi o economista francês Jean Baptist Say ( ). 2 Mas esta realidade parece estar ficando para trás. Relatório da OCDE aponta que, em 1998, cerca de 55% da riqueza mundial foi gerada pelo conhecimento. 3 Pela primeira vez o conhecimento supera os fatores tradicionais de produção no processo de criação de riqueza. O relatório destaca, ainda, que a crescente redução dos custos e a facilidade de obtenção da informação apontam, claramente, para um aumento da participação do conhecimento no processo de criação de riqueza para organizações, regiões e países. Na verdade, a economia do conhecimento desloca o eixo da riqueza e do desenvolvimento de setores industriais tradicionais intensivos em mão-de-obra, matéria-prima e capital - para setores cujos produtos, processos e serviços são intensivos em tecnologia e conhecimento. Mesmo em setores mais tradicionais, como a agricultura, a indústria de bens de consumo e de capital, a competição é cada vez mais baseada na capacidade de transformar informação em conhecimento e este último 1. Adam Smith. A Riqueza das Nações, cuja primeira edição foi em Jean Baptiste Say, Cours d Economie Politique, Flammarion, Paris, OECD economic outlook. OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), Paris,1998.

2 RIO DE JANEIRO: TRABALHO E SOCIEDADE - ano 2 - nº especial - dezembro 2002 em decisões e ações de negócio. O valor dos produtos e serviços depende, assim, cada vez mais, do percentual de inovação, tecnologia e inteligência a eles incorporados 4. O conhecimento parece ser, portanto, o novo motor da economia. Este texto se divide em três seções, além desta introdução. A próxima seção apresenta, de forma resumida, um quadro comparativo entre o Brasil e a Coréia do Sul neste processo de transição para a Sociedade do Conhecimento. A seção três discute os riscos de que o caminho adotado por nós leve a um aumento da desigualdade interna e a nível internacional. A última seção apresenta as conclusões. 2. O Brasil e a Coréia na Sociedade do Conhecimento 4. Cavalcanti, Gomes e Pereira Neto, A Gestão de empresas na sociedade do conhecimento, Editora Campus, Fonte: The World Economic Outlook (WEO) Database May 2001, Fundo Monetário Internacional. 6. Idem. A Coréia e a China são apontados como dois dos países que, na última década, apresentaram as maiores taxas de crescimento do PIB. A China apresentou taxas de crescimento do PIB de 11% ao ano, em média, entre 1990 e 1998, mas com um impacto pequeno na redução da desigualdade social. 5 A Coréia, por outro lado, cresceu a taxas um pouco menores (7,5% ao ano, em média, entre 1990 e 1998), mas com um sucesso muito maior no combate a desigualdade. 6 Em 1975, a renda per capita da Coréia era de U$ 250, cerca de metade da brasileira, enquanto que o PIB brasileiro era quatro vezes maior que o PIB coreano 7. O PIB per capita da Coréia, em 1970, era de US$ 275, cerca de 75% do PIB per capita brasileiro. Em 2001, o PIB per capita coreano é mais de 2,5 vezes maior que o brasileiro (figura 1), e as projeções são de que o PIB da Coréia ultrapasse o do Brasil em 2003! 8 Entre 1980 e 1999, o crescimento médio do PIB coreano foi de 7,6% ao ano, contra um crescimento médio do PIB brasileiro de 2,9% ao ano, no período. FIGURA 1 PIB per capita (Brasil e Coréia) O PIB brasileiro, em 1975, era de US$ 82,5 bilhões, enquanto que o PIB coreano era de US$ 21 bilhões. Fonte: The World Economic Outlook (WEO) Database May 2001, Fundo Monetário Internacional. 8. PIB per capita Coréia (2001): US$ 9.130; PIB per capita Brasil (2001): US$ Fonte: The World Economic Outlook (WEO) Database May 2001, Fundo Monetário Internacional PIB per capita Coréia PIB per capita Brasil

3 A discussão sobre o que levou o Brasil, que já foi a oitava economia do mundo, a ir ficando para trás no ranking das maiores economias no espaço de uma geração, foge ao escopo deste artigo. O que nos interessa destacar aqui são algumas lições sobre os caminhos escolhidos pela Coréia e o Brasil para se inserirem de forma competitiva na economia mundial. Na verdade veremos que, no caso brasileiro, não podemos falar de um caminho para inserção na sociedade do conhecimento. A discussão sobre sociedade do conhecimento é claramente marginal no Brasil, ao contrário da Coréia que, explicitamente, elaborou uma estratégia de inserção competitiva nesta nova sociedade desde meados da década 70. Um dos pilares desta estratégia na Coréia foi a importância dada à educação. Desde 1980 não existe mais analfabetismo entre jovens com menos de 24 anos, e o índice de analfabetismo geral (cidadãos com mais de 15 anos) caiu de 15% da população em 1970 para menos de 2,5% da população em Em 1970 a Coréia tinha apenas 41% da população em idade escolar (1 o e 2 o graus) devidamente matriculada em alguma escola de ensino fundamental ou médio. Em 1990 este número já era de 90% e em 1999 a totalidade da população em idade escolar freqüenta as escolas, com níveis de aproveitamento elevados. 9 Mais impressionante ainda foi o aumento na escolaridade de nível superior. O percentual dos coreanos em idade de cursar uma universidade que estavam matriculados passou de 15% em 1980 para 70% em Em breve, três quartos da população coreana em idade de freqüentar uma universidade estará efetivamente freqüentando algum curso superior. Um número mais elevado do que o de alguns países desenvolvidos. Ao contrário da China, que a despeito de ter crescido a taxas médias anuais de mais de 10%, na última década, pouco fez para reduzir as desigualdades sociais, a Coréia obteve avanços significativos na redução da pobreza e da desigualdade. O resultado é que a evolução do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) coreano passou de 0,687 em 1975 para 0,875 em 1999, retirando-a do grupo de países intermediários e colocando-a no grupo de países desenvolvidos socialmente. 11 Outro pilar do desenvolvimento coreano foi o investimento em ciência e tecnologia. Desde 1985 a Coréia investe mais de 3% do PIB em ciência e tecnologia, com percentuais crescentes. O Brasil vem aumentando o percentual de maneira muito mais lenta e em 2000 chegou a cerca de 1% do PIB, o percentual mais alto da nossa história mas absolutamente ridículo frente ao investimento coreano. O resultado se faz notar no número de patentes depositadas no exterior. Em 1980 a Coréia depositou oito patentes nos Estados Unidos, enquanto o Brasil depositou 24 patentes. Em 1999, a Coréia tinha depositado patentes contra apenas 98 patentes brasileiras Estes números não são produtos do acaso, mas de um planejamento estratégico que definiu áreas e setores onde a Coréia se dispunha a ser competitiva garantindo, durante um período de tempo limitado, uma espécie de reserva de mercado. Mas ao contrário de modelos de reserva de mercado e incentivos fiscais tradicionais, a Coréia adotou um modelo onde se previa a cobrança de resultado em termos de desempenho e produtividade. As empresas que não atingissem determinadas metas de exportação e de produtividade teriam seus privilégios eliminados. 9. World Development Indicators 2001, Banco Mundial. 10. Idem. 11. Idem. 12. Korea and the Knowledgebased Economy, World Bank Institute, The World Bank, 2000.

4 RIO DE JANEIRO: TRABALHO E SOCIEDADE - ano 2 - nº especial - dezembro 2002 No caso brasileiro, não podemos falar sequer de um caminho para inserção na sociedade do conhecimento. Esta discussão ainda não foi colocada em nossa agenda. Na próxima seção levantamos alguns aspectos que nos parecem relevantes para discutir o caminho brasileiro para a sociedade do conhecimento. 3. Menos desigualdade e mais conhecimento No processo de transição da sociedade agrícola para a sociedade industrial, no início do século passado, o Brasil era o maior exportador mundial de café. Nossa pauta de exportações era composta, quase que exclusivamente, de produtos agrícolas, enquanto nossas importações se concentravam em produtos industriais, de maior valor agregado. Agora, na transição da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, que papel queremos desempenhar? Os números de nossa balança comercial parecem indicar que trilhamos o mesmo caminho: exportamos produtos de baixo valor agregado e importamos produtos de maior valor agregado. A diferença é que hoje exportamos café, soja, minério de ferro e também produtos industrializados como automóveis ou aparelhos celulares, mas que, na verdade, são commodities, produtos de baixo valor agregado. E continuamos a importar produtos de maior valor agregado, produtos intensivos em conhecimento como software, consultoria, produtos da indústria cultural (filme, música, programas de televisão), pagamentos de royalties e patentes. Em 1997 despendemos 96 vezes mais com patentes do que em 1992! O crescimento nas despesas de outros serviços intensivos em conhecimento (como tecnologia) também foi significativo (tabela 1). TABELA 1 Gastos do Brasil com licenciamentos externos Itens /92 ($ milhões) ($ milhões) (%) Patentes Tecnologia Serviços Técnicos Cópias softwares Outros Total fonte: Banco Central do Brasil

5 O valor global das exportações brasileiras, no ano 2000, foi de mais de US$ 55 bilhões, constituindo-se em um recorde. Se calcularmos, no entanto, o valor médio por tonelada exportada, de 1993 até 2000, veremos que o valor se manteve relativamente estável, em torno de US$ 220 por tonelada, com um pico de US$ 253 por tonelada em Enquanto isto, o valor médio das importações passou de US$ 329/ton em 1993 para mais de US$ 600/ton em 2000! (Figura 2). FIGURA 2 Valor médio (US$) por tonelada exportada/importada pelo Brasil ton importada ton exportada fonte: Knapp, Estes números confirmam o que dissemos: exportamos produtos de baixo valor agregado e importamos cada vez mais produtos de alto valor agregado. Como tradicionalmente sempre fizemos. A pergunta que nos cabe responder neste momento é a seguinte: Qual o papel que queremos desempenhar nesta nova sociedade? Será que estamos, mais uma vez, condenados a ocupar um papel de coadjuvante no cenário mundial? Devemos nos conformar ou devemos reagir à opinião corrente que afirma que o Brasil e os brasileiros são incapazes de competir nas áreas e setores mais dinâmicos e de maior valor agregado? E mesmo em setores tradicionais, será que não temos condição de incorporar mais valor (conhecimento) a estes produtos e serviços? A resposta que cada país dá a estas perguntas determina a fatia que ele terá na divisão internacional da riqueza. Paul Strassman alerta que a concentração de poder e riqueza é cada vez maior nas organizações e países cujo principal ativo é o conhecimento. 13 Somente seis países (EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, França e Itália), que juntos possuem apenas 11% da população mundial de 5.9 bilhões de pessoas, geraram 62% do PIB mundial (estimado em 13. STRASSMAN, Paul. Global Knowledge Power: Further accumulation and consolidation of knowledge is likely to exarcebate global conflicts. Knowledge Management, volume 3, number 6, june, 2000.

6 RIO DE JANEIRO: TRABALHO E SOCIEDADE - ano 2 - nº especial - dezembro 2002 U$ 29 trilhões) em Destes U$ 29 trilhões, os EUA detinham 27% e os outros 5 países citados detinham 35%. 14 Strassman comenta ainda que as empresas listadas em bolsa em todo o mundo faturaram U$ 24 trilhões em 1998 (83% do PIB mundial). Destas, quase metade é formada por empresas americanas (49%) e 30% pertencem aos outros cinco países mencionados. O capital de conhecimento detido por estas empresas foi de U$ 12 trilhões (metade do faturamento destas empresas) em 1998, de forma crescente. As empresas americanas respondem por 57% deste total e as dos outros países 12%. Ou seja, 70% do capital de conhecimento está concentrado nestes seis países. Uma situação parece estar se desenhando: os países em desenvolvimento, como o Brasil, concentrariam suas atividades na industrialização tradicional, enquanto os países ricos dominariam a economia do conhecimento. Se isto ocorrer aumentará de maneira nunca vista, e em velocidade inédita, o fosso que divide os dois mundos, aumentando ainda mais a dependência de um em relação ao outro. 4. Conclusões 14. Idem 13. O conhecimento sempre foi importante para o desenvolvimento econômico, mas apenas nos últimos anos, quando as atividades econômicas tornaram-se mais intensivas em conhecimento, sua centralidade foi reconhecida. Esta nova sociedade, onde o conhecimento passa a ser o motor da economia, possibilita que pessoas, empresas, paises, tendo acesso a este ativo, tenham condições de redefinir seus papéis para se adaptarem às novas regras do jogo. Surge concretamente a oportunidade de virar o jogo ou, pelo menos, torná-lo mais equilibrado. A sociedade do conhecimento traz a ameaça de aprofundar o fosso entre países pobres e ricos, se aceitarmos passivamente o papel que nos é reservado, de país consumidor de bens intensivos em conhecimento. Mas pode ser a oportunidade de nos transformarmos em um país desenvolvido e justo, caso saibamos aproveitar nossa capacidade de adaptação às mudanças e joguemos o novo jogo do desenvolvimento com uso do conhecimento. A primeira pergunta que devemos responder é qual deve ser o papel do Brasil nesta nova sociedade: produtor ou consumidor de produtos e serviços intensivos em conhecimento? Não se trata aqui de dar exclusividade a setores claramente intensivos em conhecimento como a indústria de informática, a biotecnologia, o setor aeroespacial, a cultura ou o turismo. Estes são, seguramente, setores onde temos condições de competir em pé de igualdade com os grandes, e que podem gerar muita riqueza, desde que criemos as condições ambientais adequadas. Crescer com mais conhecimento e menos desigualdade significa também dar formação, informação e crédito adequado aos nossos micro e pequenos empresários. As micro e pequenas

7 empresas que produzem pedras no norte fluminense conseguem exportar suas pedras brutas, que voltam depois de transformadas por pequenas e médias empresas italianas, a um preço quase 10 vezes maior para ornamentar a fachada de nosso prédios e hotéis. Precisamos criar estruturas de apoio a estas empresas de maneira a identificar oportunidades de negócio aqui dentro e lá fora, capacitando-os a agregar valor a seus produtos e garantindo crédito adequado para suas exportações. Crescer com mais conhecimento e menos desigualdade passa por capacitar melhor nossa juventude. Quando 61% dos jovens e adultos brasileiros não concluíram o ensino fundamental. 15 Que perspectiva de trabalho podem ter estes cidadãos? Precisamos garantir uma maior eficiência e eficácia em nossos gastos com educação, de forma a diminuir a deficiência de nosso sistema educacional básico, principal causa da desigualdade no mercado de trabalho 16. Num mundo onde o processo de criação de riqueza passa, principalmente, pelo conhecimento, seria um equívoco não nos preocuparmos com a redução da brutal desigualdade no acesso e uso do conhecimento. Esta nova sociedade pode ser uma ameaça para países como o Brasil mas pode se transformar na nossa grande oportunidade de virar o jogo promovendo um desenvolvimento com mais conhecimento e menos desigualdade. 15. André Urani, Menos Desigualdade para o Brasil, IETS Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, Policy paper, julho de Idem.

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