REVISTA ADM.MADE - ANO 6 / Nº 2

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1 REVISTA ADM.MADE - ANO 6 / Nº 2 APRESENTAÇÃO No primeiro número da Revista ADM.MADE foram apresentados seis trabalhos de professores e alunos do nosso Programa de Mestrado em Administração e Desenvolvimento Empresarial aprovados no ENANPAD2000. Com este segundo número estamos apresentando um total de onze artigos, sendo oito aprovados no Congresso de BALAS2001 em San Diego, dois aprovados no Fifth International Management Control Systems Research Conference em Londres, e um artigo resumindo os resultados de tese de doutorado recentemente defendida na Universidade de Campinas. Como o leitor pode verificar, a característica marcante dos trabalhos publicados em nossa Revista é o fato de estarem todos baseados em resultados de pesquisas. Embora, neste número, muitos artigos sejam de professores desta Universidade, todos foram previamente avaliados por Comitês de Congressos Internacionais de prestígio na área. Além dos mil volumes a serem distribuídos gratuitamente aos nossos leitores cadastrados, todos os artigos estarão disponíveis no site a partir do mês de agosto. Para os próximos números, ficamos no aguardo das contribuições de nossos leitores com vistas ao aperfeiçoamento contínuo de nossa Revista. O Editor ARTIGOS As Organizações Cooperativas e o Mercado - o caso de uma cooperativa de trabalho médico, a UNIMED Autor: Lucilaine Pascucci, Silvio César de Castro Elisa Emília Resende Bernardo Rocha (in memorian) Estratágias de Cooperação e Competição de Organizações em Rede - Uma Realidade Pós-Fordista? Autor: Lamounier Erthal Villela Arranjos Produtivos Locais e Governança Autores: Adelaide Maria Coelho Baeta Luis Aureliano Gama de Andrade Flávia Maria Coelho Baêta-Lara Pressões Contingenciais versus Dinâmica de Inovação em Arranjos Cooperativos Autor: Alsones Balestrin Cooperação Empresarial - Teoria e Evidência Empírica Business Cooperation - Theory and Empirical Evidence Autores: Elvio Valente

2 As Organizações Cooperativas e o Mercado - o caso de uma cooperativa de trabalho médico, a UNIMED Autor: Lucilaine Pascucci, Silvio César de Castro (Economista, Mestre em Administração pela Universidade Estadual de Maringá. Professora adjunta da Faculdade Paranaense FAPAR, em Curitiba. ) Silvio César de Castro (Possui graduação em CIÊNCIAS CONTÁBEIS pela Universidade Estadual de Maringá (1998) e mestrado em Administração - UEM/UEL pela Universidade Estadual de Maringá em consórcio com a Universidade Estadual de Londrina (2006). Professor da graduação e Pós Graduação do CESUMAR - Centro de Ensino Superior de Maringá.) Elisa Emília Resende Bernardo Rocha (in memorian)(doutora em Economia pela Unicamp e Professora do Mestrado do Programa de Mestrado em Administração da Universidade estadual de Maringá em Consórcio com a Universidade Estadual de Londrina.) Resumo A discussão sobre cooperativismo e mercado capitalista tem levantado questionamentos a respeito dos princípios que norteiam o sistema cooperativista, no ambiente competitivo. A pressão que as cooperativas sofrem por parte das forças do mercado faz com que elas alterem sua conduta, para poderem sobreviver no mercado competitivo. Neste contexto, o presente artigo buscou verificar através de um estudo qualitativo, como tais forças impulsionam a organização cooperativa a se comportar em relação ao ambiente, suas características, problemas e desafios. O estudo tem como base o caso da terceira maior Cooperativa de Trabalho Médico do Paraná. Foram também verificados quais os propósitos da fundação da cooperativa, o contexto no qual ela se desenvolveu, bem como sua forma de gestão e capacidade de transformação em relação aos seus concorrentes diretos, do setor privado. Palavras-chave: cooperativismo; UNIMED; cooperativa médica; competitividade. [topo] Abstract The discussion on cooperativism and capitalist market has triggered a debate on the principles that underpin the cooperative system in a competitive environment. Market pressures made on coops force a change in their behavior so that they may survive in a competitive market. Using a qualitative approach, this research aims at verifying how such forces push cooperative organizations to compete within the market environment, their characteristics, problems and challenges. This study has been based on the third largest coop in the state of Paraná, Brazil, that is, UNIMED, a healthcare coop. It has also been examined the purposes underlying the foundation of the cooperative, the framework within which it has grown, how it has been managed, and its transformation capabilities compared to its private-owned competitors in the healthcare industry. Key words: cooperativism; UNIMED; healthcare cooperative; competitiveness. [topo] 1. INTRODUÇÃO As discussões sobre o cooperativismo, das últimas décadas, concentraram sua atenção em cooperativas agrícolas e agropecuárias, por estas representarem, em muitas regiões, uma das poucas possibilidades de agregação de valor à produção rural, além da inserção de pequenos e médios produtores em mercados concentrados (FERREIRA; BRAGA, 2004). Todavia, o cooperativismo, desde seus primórdios em Rochdale, tem sido edificado sobre os valores da solidariedade e eqüidade, independente do tipo de profissionais que participa do movimento. E, o que teve início a partir de um grupo de artesãos (que criaram a primeira cooperativa, de consumo, em 1844, em Rochdale, Inglaterra), hoje se espalha pelo mundo através de cooperativas agrícolas, cooperativas de crédito, cooperativas de consumo, cooperativas de produção, cooperativas médicas, entre outras que, apesar de suas particularidades, encontram-se sob uma doutrina de princípios comuns. Num ambiente de dificuldades econômicas, o advento da economia solidária e a busca por melhores condições deram origem a iniciativas populares e disseminou o conhecimento e a discussão sobre vários assuntos, dentre eles, o cooperativismo. A Unimed, Cooperativa de Trabalho Médico é uma destas que, apesar de ser nacionalmente conhecida e respeitada pelos planos de saúde que comercializa, pouco é percebida pelo público, em relação à sua formação cooperativa. A discussão proposta pretende verificar as influências que esta organização cooperativa sofre do mercado capitalista no qual está inserida e como administra a situação, dado

3 seu caráter cooperativo e sua relevante participação no mercado de saúde nacional. A reestruturação do sistema de saúde pública a partir de meados de 1980, decorrente da ineficácia do Estado em administrar o atendimento à saúde da população, culminou na mercantilização da saúde por parte do próprio Governo e das organizações de iniciativas privadas que passaram a atuar no mercado de prestação de serviços médicos. Neste contexto, a iniciativa privada voltada ao mercado de prestação de serviços se estruturou de duas formas: através de empresas privadas e cooperativas de trabalho médico. Todavia, tanto as cooperativas quanto as empresas privadas encontram-se no mesmo ambiente competitivo, regido por um sistema capitalista, o que pode tornar essas duas organizações muito similares e em determinados aspectos, descaracterizando as organizações cooperativas em relação aos seus princípios, tendo em vista o ambiente no qual ela se encontra. Diante disto, este artigo tem como objetivo verificar, através de um estudo de caso, como uma cooperativa de serviços médicos se comporta em relação a esse ambiente competitivo, suas características, problemas e desafios. Num primeiro momento são apresentadas algumas considerações sobre o cooperativismo e o cooperativismo médico, especificamente. Num segundo momento faz-se uma discussão acerca do cooperativismo em um ambiente competitivo sob o sistema econômico capitalista. Por fim, tem-se o estudo de caso realizado, a apresentação e discussão dos resultados e a conclusão a respeito dos resultados obtidos. 2. O COOPERATIVISMO As idéias cooperativistas começaram a ser pensadas sob influência do pensamento econômico e social dos chamados socialistas utópicos franceses e ingleses do século XIX. Foi num ambiente bastante fecundo ao surgimento de movimentos sociais (liberalismo econômico no qual a Europa Ocidental se encontrava no século XVIII), que teve origem o movimento cooperativo que, sob os efeitos das conseqüências sociais da Revolução Industrial, teve como pressupostos básicos a solidariedade, a eqüidade, o trabalho em grupo e a liberdade e, como principais idealizadores Owen, Fourier, Buchez, Blanc. (BERNARDO ROCHA, 1999, p.3). Os primeiros precursores do cooperativismo Owen e Fourier referiram-se às associações agrícolas enquanto que Buchez e Blanc, às associações de trabalhadores urbanos. As principais idéias de Robert Owen tratavam de recorrer primeiro ao governo e às autoridades para estabelecer um novo sistema; combatiam o lucro e a concorrência, por considerá-los responsáveis pela deturpação do meio social, pelos males e injustiças sociais; acreditavam que para mudar o homem é necessário mudar o meio social, ou seja, o caráter é modificado através da educação e do meio social. Em meio às discussões entre ingleses e franceses e orientada por razões idealistas foi fundada, em 1895, a ACI Aliança Cooperativa Internacional, com o objetivo maior de preservar os valores cooperativos e o anseio de solidariedade em dimensão mundial, além de representar o ideal da cooperação rochdaleana em oposição aos excessos de competição capitalista. A doutrina cooperativa pode ser assim resumida: é uma proposta de mudança do meio econômico-social, que se concretizará de modo pacífico e gradativo, por meio de cooperativas de múltiplos tipos. Ou, tentando resumir em uma frase, é a reforma do meio social por um instrumento econômico as cooperativas (PINHO, 2000, p.46). Neste sentido, Bernardo Rocha (1999, p.9) ressalta que o cooperativismo está alicerçado sobre os valores da liberdade, solidariedade e eqüidade; (...), pressupõe o desempenho de papel econômico e social. A distinção das organizações cooperativas em relação às outras formas de organização dá-se através de princípios pelos quais são regidas. Ainda de acordo com o autor, e a última alteração realizada no Congresso da ACI, em 1995 são sete os princípios cooperativistas: adesão livre e voluntária; controle democrático pelos sócios; participação econômica do sócio; autonomia e independência; educação, treinamento e informação; cooperação entre cooperativas; e preocupação com a comunidade. O cooperativismo, através de seus princípios, reconhece os indivíduos como sujeitos e provoca transformações na sociedade. Neste sentido, Touraine (1996, p.264) já afirmou que uma sociedade somente se torna democrática se a lei e os costumes vierem a corrigir a desigualdade dos recursos e sua concentração, e permitir a comunicação. A organização cooperativa, apesar de sua origem remota, não esteve presente na vida cotidiana das pessoas até bem pouco tempo atrás, chegando mesmo a ser desconhecida por parte da maioria destes. Ou ainda, em se tratando de organização cooperativa, a associação feita era em relação às grandes cooperativas de produção agrícola ou agropecuária. Este cenário sofreu mudanças profundas ainda no final do século XX e hoje é comum falar-se em cooperativas de trabalho, de crédito, de consumo, de produção e cooperativa médica, não apenas no meio profissional e acadêmico, mas também, em ambientes populares (PINHO, 1966; FLEURY, 1983). A proposta de que trata este artigo, pretende considerar a situação específica de uma cooperativa de trabalho médico e, devido às particularidades do cooperativismo na área médica, considerou-se apropriado tecer esclarecimentos sobre Sistema Unimed e sua estrutura de funcionamento. 2.1 O Cooperativismo Médico A Unimed é uma cooperativa de trabalho médico que nasceu em Santos, em 1967 por iniciativa de um grupo de médicos liderados por Edmundo Castilho, então presidente do sindicato médico da cidade de Santos. Em meados de 1960, os institutos previdenciários foram unificados no INPS Instituto Nacional de Previdência Social, prometendo a democratização da saúde. Esse período da saúde pública foi retratado, por Bertolli Filho (2000), como um momento marcado pelo clientelismo onde partidos e líderes políticos trocavam por votos,

4 em fases eleitorais, estruturas - ambulâncias, leitos hospitalares, médicos e enfermeiros, vacinas às vezes incompatíveis com as reais demandas. Contudo, as más condições de atendimento oferecidas pelo sistema público de saúde abriram espaço para a crescente atuação das empresas de medicina de grupo, o que desencadeou um processo de mercantilização do setor da saúde no Brasil. Neste sentido, Bertolli Filho (2000), comenta que praticamente desde a criação do Ministério da Saúde, em 1953, a iniciativa privada tem pressionado o governo a não investir na saúde, e sim financiar os empresários da saúde, que finalmente ocorreu em Como uma resposta da classe a mercantilização cada vez maior da medicina, foi fundada a Unimed Cooperativa de Trabalho Médico, administrada nos moldes de uma empresa, porém sem fins lucrativos, uma iniciativa brasileira que mudou o perfil da medicina suplementar no país e é considerado hoje, o maior sistema cooperativo de trabalho médico do mundo. Novas cooperativas médicas são fundadas em diversas cidades do Brasil e, a partir de 1970, surgem as Federações, com o objetivo de padronizar os procedimentos operacionais e estimular a troca de experiências entre as Unimeds de um mesmo Estado. Com o passar dos anos, são fundadas novas cooperativas que se espalham por todo o país. Já, na década de 1990, com o investimento e a participação efetiva em campanhas institucionais, a Unimed conquista a liderança e o reconhecimento no setor de saúde do Brasil. Ao mesmo tempo, intensifica os contatos internacionais em função da procura crescente, em muitos países, de novos modelos para a saúde. Sendo que, em 1995, a Unimed é reconhecida como a entidade cooperativista líder do setor de saúde nas Américas no "I Fórum Latino de Cooperativismo de Saúde e Afins", primeiro encontro do setor a reunir entidades de mais de trinta países das Américas e Europa. Neste mesmo ano, a Unimed do Brasil Confederação Nacional das Cooperativas Médicas filia-se à Aliança Cooperativa Internacional ACI. Mesmo sujeitas a políticas de âmbito nacional, as atuais 386 Cooperativas Médicas do país são independentes, com suas peculiaridades, portanto, tendo autonomia e liberdade de administração. No universo de Operadoras registradas, segundo dados de julho/2004 da Agência Nacional de Saúde Suplementar ANS, o Sistema de Cooperativas Unimed representa em torno de 17% do total de Operadoras registradas e ainda assim é responsável por 25% do mercado de saúde brasileiro, sendo considerada a maior rede de assistência médica do país. Segundo Pinho (2004) o Sistema Unimed reúne cerca de um terço dos profissionais médicos do país em cinco mil municípios, ou seja, quase 90% das cidades brasileiras, possuindo mais de 13 milhões de usuários. Por ser o cooperativismo uma forma de trabalho democraticamente constituída e administrada, a Unimed é aberta a todos médicos. A diferença em relação às demais organizações do gênero é que, ao ingressar nela, o médico, através da aquisição de uma cota, torna-se um de seus donos, com direito a participar das Assembléias que decidem os seus rumos. A partir da Unimed, o médico teve ampliado o seu mercado de trabalho, sem ser explorado, uma vez que aboliu o intermediário e o paciente passou a ter um atendimento personalizado, preservando a relação médicopaciente tão importante para a prática da boa medicina. 3. AS ORGANIZAÇÕES E O MERCADO Em termos conceituais, empresa é a organização destinada à produção e/ou comercialização de bens e serviços tendo como objetivo o lucro. A organização cooperativa, por sua vez,... é uma forma de negócio de propriedade democrática e controle por parte dos membros que têm necessidades comuns, e que por sua vez trabalham para o negócio sem fins lucrativos e recebem benefícios proporcionais a sua participação BERNARDO ROCHA, 1999). No entanto, nascidas em meio ao capitalismo do século XIX, as cooperativas surgiram como uma forma de reação às práticas de livre concorrência e também como uma tentativa de enfraquecer os desequilíbrios resultantes do liberalismo econômico (PINHO, 1966). Para Medeiros, apesar de seu caráter diferenciado uma cooperativa não se distancia muito de uma empresa não cooperativa, principalmente quando ela está inserida em um mercado capitalista, uma vez que se busca também a obtenção de um excedente físico ou monetário (sobras operacionais), ao final de cada operação (1995, p.47). A margem do mercado exige uma inserção competitiva, isto é, as organizações cooperativas precisam ser empresas eficientes, buscando aquilo que até recentemente pareceria heresia: lucro, resultados positivos. Portanto, as organizações cooperativas são empresas que, também, precisam competir no disputado mercado global, mas diferente das empresas capitalistas com as quais concorrem, não podem deixar de lado a vertente social que faz parte de seus princípios (RODRIGUES, 1997). O equilíbrio entre as vertentes social e econômica, necessárias à manutenção dos princípios cooperativistas, é o grande desafio das cooperativas na economia atual. Uma, dentre as inúmeras pressões competitivas exercidas pelo mercado, diz respeito a necessidades de mudanças e exigências na capacidade de inovação. Então, a organização cooperativa já não existe apenas para proporcionar trabalho em condições justas aos cooperados. Para que seja possível a oferta de trabalho e remuneração justa, a organização cooperativa necessita criar as condições para tal, o que significa, acompanhar o mercado e evoluir, para nele permanecer. Do contrário, ela não sobrevive. A manutenção de uma posição no mercado exige das organizações aprimoramento e, conseqüentemente, a construção de diferenciais, a partir dos quais se constroem vantagens competitivas. O caráter democrático da cooperativa em nada impede que ela seja eficiente, apenas é imperativo que, na busca desta eficiência, ela não ignore os princípios a ela inerentes. Neste contexto, algumas organizações cooperativas conseguiram não apenas sobreviver, mas se destacar e aumentar a participação no mercado em que atuam, devido a decisões acertadas e atitudes estratégicas do corpo administrativo. A preocupação com a concorrência existe para ambos os tipos de organizações. Assim como as organizações privadas, de cunho capitalista, preocupam-se e criam mecanismos de proteção em relação às forças do seu ambiente, as cooperativas, quaisquer que seja sua área de atuação, fazem parte do mesmo ambiente e não estão isentas dessa influência. Neste contexto, remetendo à obra de Porter (1980), a estratégia de negócios deveria ser baseada na estrutura do mercado no qual as empresas operam. No caso do mercado de saúde, as operadoras de planos de saúde e, portanto, também a UNIMED, disputam mercado e, na maioria das vezes, seus produtos são dirigidos a um público específico sendo que, a concorrência diz respeito, principalmente, ao tipo e preço do produto.

5 As diferenças básicas entre conceitos e objetivos dos dois tipos de organizações consideradas podem ser mais bem visualizadas no Quadro 1, a seguir. Quadro 1 Sociedade Cooperativa & Sociedade Capitalista Fonte: Benato (1998). Como demonstrado, os motivos pelos quais os dois tipos de organizações existem são preponderantemente diferentes. A permanência da organização cooperativa neste ambiente desperta um conflito entre seus princípios cooperativistas e as exigências de comportamento advindas das forças de mercado. Como resultado, as cooperativas são envolvidas por ações capazes de produzir alterações em sua forma, forças adversas pouco benéficas ao sistema cooperativo e estes, além de outros fatores acabam determinando a necessidade de adaptação ao meio econômico-social, como garantia de sua sobrevivência. Neste contexto, a economia dominante, hegemônica, deixa pouco espaço para alternativas. Sobre o assunto, Pinho (1966, p.84) comenta que [...] o ambiente, além de exercer pressão contrária ao desenvolvimento do cooperativismo, influi, também, de modo profundo no seu funcionamento interno. Diante de tantas condições pouco favoráveis, a cooperativa vem sofrendo diversas alterações, muitas voluntárias e conscientes, outras, aceitas quase inconscientemente. Ainda de acordo com a autora, tais modificações refletem na doutrina cooperativa, obrigando-a a um reajustamento de ordem finalista e normativa. Neste contexto, surgem mudanças de ordem interna, visíveis a partir da mentalidade capitalista de cooperados e dirigentes. Partindo desta premissa, Pinho (2004, p.303) postula que se o meio em que vive o cooperado o condicionou apenas a reagir aos imperativos de eficácia, de rentabilidade e de responsabilidade, de acordo com a racionalidade do homem capitalista, por exemplo, não se pode esperar que ele atue segundo a ética

6 cooperativista. A questão é objeto de discussão e análise por diversos autores. Uma crítica ao capitalismo e a competitividade que ele gera é feita por Singer (2002), segundo o qual, tal situação culmina em desigualdades entre ganhadores e perdedores, ou seja, entre os detentores de capital e os que vendem sua força de trabalho. Em concordância com o autor, Karl Marx (citado por BOTTOMORE, 2000, p.1) argumenta que Por força da concorrência, a mera preservação do capital é impossível sem que ele mesmo se expanda. Para Fleury (1983), a cooperativa, ampliando-se e prosperando, tende a transformar-se em uma organização capitalista. Por fim, Singer (2002) alerta que, mesmo em uma economia composta por empresas solidárias, algumas se sairiam melhor que outras por diversos fatores, desde contingenciais até humanos. Portanto, o mercado competitivo, e sua própria necessidade de manutenção e crescimento, abre novos horizontes à organização cooperativa fazendo com que sejam assumidas novas condutas e metodologias que contribuam para sua adequação ao ambiente competitivo do qual ela faz parte. Neste sentido, a doutrina cooperativa não poderia deixar de sofrer reflexos e adaptações à economia capitalista. Por mais ufanistas que alguns defensores dos princípios cooperativistas possam ser, as cooperativas atualmente estão inseridas em uma economia de mercado, um mercado cada vez mais exigente, fazendo com que os meios de produção e distribuição, quer sejam proporcionados por empresas privadas ou cooperativas, sejam cada vez mais competitivas no sentido de atingirem um padrão máximo de excelência em produtos e serviços. Mendes (2004, p.17), tratando sobre o capitalismo, afirma que tal sistema segue rigorosamente a economia ortodoxa de mercado, ou seja, quem comanda a economia são as forças de demanda (que refletem o interesse dos consumidores) e de oferta (que devem expressar o desejo dos produtores). Tanto as organizações privadas quanto as organizações cooperativas compartilham os mesmos recursos (naturais, humanos, tecnológicos e capitais), fazem uso das mesmas instituições (jurídicas, políticas, sociais e econômicas), todavia, há diferenças doutrinárias entre unidades de produção privadas e cooperativas, que caracterizam a grande diferença de comportamento entre estas organizações. Enquanto a doutrina cooperativa destaca a pessoa humana (PINHO, 1966), o capitalismo lança foco sobre o capital (BARKER, 1997) e esse acaba sendo o início dos conflitos entre cooperativismo e empresas privadas. Esta situação decorre do fato de que a competitividade é fruto do mercado privado sob uma economia capitalista, enquanto que o cooperativismo não. Diante disto, Luxemburgo (1986, p.87) afirma que as cooperativas são instituições híbridas no seio da economia capitalista: [...] elas constituem uma produção socializada em miniatura, que é acompanhada por uma troca capitalista. Mas na economia capitalista a troca domina a produção; em virtude da concorrência, para que a empresa possa sobreviver, ela exige uma exploração implacável da força de trabalho, que quer dizer, a dominação completa do meio de produção pelos interesses capitalistas. Singer (2002) já houvera se posicionado a respeito, ao afirmar que, por ser o mercado capitalista o dominador dos meios de produção, aos indivíduos cabe a venda da força de trabalho. Para Polanyi (2000, p.97), a comunidade pode sucumbir neste processo, na medida em que o ritmo desse transtorno é exagerado, pois [...] como regra, o progresso é feito à custa da desarticulação social. E, na evolução determinista dos acontecimentos, surge como alternativa a economia solidária, como uma resposta ao processo de exclusão inerente do mercado capitalista neoliberal (RUFINO, 2003). 4. METODOLOGIA Tendo em vista que este artigo busca discutir a questão da competitividade imposta pelo capitalismo em relação aos princípios cooperativistas em uma cooperativa de serviços médicos, a pesquisa foi desenvolvida através da metodologia do estudo de caso, utilizando-se como unidade empírica uma cooperativa médica que atua no ramo de prestação de serviços médicos através da comercialização de planos de saúde, no norte do Paraná. Para Gimenez (2001) o estudo de caso é ferramenta poderosa para conseguir entendimentos mais abrangentes de fenômenos complexos. O nível de análise é o organizacional e a unidade de análise, os recursos da empresa pesquisada, conforme Yin (1989). Segundo Bressan (2000) este método, assim como os métodos qualitativos, são úteis quando o fenômeno a ser estudado é amplo e complexo, onde o corpo de conhecimentos existente é insuficiente para suportar a proposição de questões causais e nos casos em que o fenômeno não pode ser estudado fora do contexto onde naturalmente ocorre Coleta e Análise dos Dados Tendo em vista a característica qualitativa do artigo, utilizou-se como forma de coleta de dados a entrevista pessoal semi-estruturada, que ocorreu entre os dias 06 e 08/12/2004. Esta é uma das fontes de dados mais importantes para os estudos de caso, apesar de haver uma associação usual entre a entrevista e metodologia de survey (YIN, 1989). Babbie (1999, p. 259) ressalta a importância da presença do entrevistador ao se utilizar surveys por entrevistas, -que implicam em questões e respostas mais estruturadas- pois, segundo ele, a presença de um entrevistador geralmente reduz a quantidade de não sei e sem resposta, além da possibilidade de se buscar respostas com perguntas do tipo: se tivesse que escolher uma das respostas, qual você acha que aproximaria mais dos seus sentimentos? (grifo do autor), além da possibilidade do entrevistador explicar os itens do questionário, caso haja confusão por parte do entrevistado. A coleta de dados foi feita a partir de entrevistas semi-estruturadas e focadas aos objetivos propostos no estudo. Os sujeitos da pesquisa que forneceram as informações fazem parte do alto escalão diretivo da Cooperativa, sendo os três Diretores cooperados há mais de vinte anos. Entre os cooperados: o Coordenador de Protocolos, pessoa responsável pela atualização das tabelas de acordo com as economias regionais, o Diretor Presidente e o Diretor Médico, sendo este último, responsável pelas deliberações de ordem clínica. Foi entrevistado também o Superintendente Financeiro da Cooperativa, o qual não é cooperado, todavia, faz parte da administração há mais de oito anos. A entrevista foi semi-estruturada de tal forma que pudesse explorar, na visão da alta direção da Cooperativa, a problemática dos princípios cooperativistas e do mercado competitivo no qual ela está inserida. Inicialmente,

7 obtiveram-se os dados relacionados ao perfil de cada entrevistado (gênero, idade, tempo de profissão, especialidade), a fim de caracterizar cada um deles. As entrevistas foram gravadas e transcritas a fim de se assegurar a análise completa do conteúdo. As identidades dos entrevistados foram protegidas, não sendo registradas na entrevista e, por conseqüência, na transcrição das mesmas. As entrevistas semi-estruturadas são trabalhadas por meio da técnica da análise de conteúdo, sobre a qual Richardson (1999) esclarece que é, particularmente, utilizada para se estudar material do tipo qualitativo, onde o uso de técnicas aritméticas não pode ser aplicado. E ainda, segundo Chizzotti (2001), tais técnicas são utilizadas em mensagens escritas ou não, sendo possível utilizar diversos procedimentos. 5. A ORGANIZAÇÃO PESQUISADA A Unimed Regional Maringá Cooperativa de Trabalho Médico, unidade empírica deste estudo, foi fundada em agosto de 1982, constituída inicialmente pela cooperação de 40 médicos e, dentre as operadoras de plano de saúde paranaenses, ocupa o terceiro lugar em termos de porte e número de usuários. Possui um quadro atual de 617 médicos cooperados e, em julho/2004, contava com usuários, além do atendimento aos usuários de todo o território nacional, via intercâmbio. Além de Maringá, seu campo de ação se estende a 24 Municípios da região e, por seu caráter integrado, atende usuários de Singulares de todo o território nacional, via intercâmbio (ou seja, a condição de atendimento dada ao usuário do Sistema Unimed, em qualquer outra Singular que não a sua Unimed de origem). A concorrência direta é composta por algumas empresas de planos de saúde e algumas seguradoras. A venda de planos é apenas uma das muitas atividades dessas concorrentes, de fato representando participação muito discreta no setor especificamente de planos de saúde. Dentre os concorrentes diretos destacam-se três, dois deles ligados a hospitais locais. O maior interesse desses dois concorrentes é gerar maior procura por seus próprios serviços. A Unimed Regional Maringá, ao contrário, procurar atender as preferências dos usuários por meio da oferta de rede de prestadores conveniados. Os produtos comercializados pelos concorrentes locais são bastante limitados, direcionados a usuários de menor poder aquisitivo, que buscam produtos básicos de menor valor. 6. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS As entrevistas realizadas exaltaram manifestações que confirmam a tese dos autores anteriormente apresentados, descaracterizando em determinados momentos quase que por completo a unidade de pesquisa como cooperativa, tendo em vista as forças do sistema econômico capitalista exigirem um comportamento competitivo, tornando-a uma organização híbrida. Tendo em vista que os dirigentes da cooperativa são, também, cooperados, portanto, ativos profissionalmente, mantendo consultórios e atendimento em hospitais, foi questionado a princípio, sobre o porquê de se associarem a uma cooperativa. Todos os entrevistados, sem exceção, demonstraram o interesse de facilitar o acesso dos consumidores aos seus consultórios. Com base nos depoimentos, pode-se afirmar que, a princípio, o interesse dos cooperados não estava calcado na preocupação com a sociedade ou com uma classe menos favorecida, mas, muito mais no objetivo de maximização de resultados para seus associados, o que contraria um dos princípios da doutrina cooperativista que afirma que seu objetivo é prestar serviços e não gerar lucros para os sócios. Segundo um dos entrevistados: [...] em uma época que em Maringá ainda predominava a medicina privada, a medicina particular, acontece que ficava fora do meu alcance, ou eu ficava fora do alcance de muitos pacientes, porque eu não tinha acesso a outros convênios. E aí surge uma opção...a cooperativa de Maringá é uma das primeiras do Brasil, também. Aí surge uma opção que é você próprio dentro de um grupo de cooperativismo, montar um acesso do paciente ao seu consultório. Então, uma cooperativa de trabalho médico onde você organiza a sua atividade médica. (Relato de entrevista). Enquanto o movimento cooperativo, de forma geral, tem a finalidade de contrapor-se às grandes corporações capitalistas de caráter monopolístico, na concepção dos entrevistados não havia a quem se contrapor, pois a concorrência local era composta apenas por seguradoras, cujo principal objetivo não era a venda de planos de saúde. Além de outras, a importância dada aos resultados financeiros é percebida e o relato seguinte demonstra o fato, quando um dos entrevistados é questionado sobre o que os médicos cooperados esperam da cooperativa. [...] remuneração é a primeira coisa. Liberdade para aplicar as técnicas que ele julgue necessário que ele [sic], os exames que ele acha que deva solicitar, a indicação de outro colega que ele acha que deva fazer, liberdade técnica pra trabalhar, remuneração, liberdade técnica, a princípio essas duas coisas são as principais [..].(Relato de entrevista). Em última instância, a criação da Cooperativa Médica veio de encontro à doutrina cooperativista, que tem por objetivo a solução de problemas sociais por meio da formação de comunidades de cooperação. As cooperativas e empresas privadas de planos de saúde se instalaram explorando o mercado, mas também, auxiliando a população em relação a uma ineficiência do Estado. Neste contexto, enquanto o Estado não tem competência, em nível de recursos, para manter a saúde pública da população, a criação de empresas que comercializassem planos de saúde foi facilitada e incentivada, o que transferiu grande parcela desta problemática para a esfera privada. Hoje, segundo a ANS são cerca de beneficiários de planos de saúde no Brasil, representando 21,3% de uma população de habitantes, algo extremamente difícil de ser absorvido pelo Estado, através do Sistema Único de Saúde. Neste sentido, a cooperativa pode ser percebida como auxiliando na solução de um problema econômico-social. Todavia, o próprio Estado tem fomentado as operadoras de plano de saúde a serem mais competitivas. Isso tem ocorrido através da ANS, que atua fiscalizando e coibindo atitudes, tais como, reajustes de preços livres, por parte das operadoras de planos de saúde, o que faz com que elas reduzam ao máximo o seu custo de operação para poderem sobreviver. As entrevistas realizadas ressaltaram a extrema dificuldade deste processo, pois, se por um lado a ANS não for coerente na liberação de reajustes de preços, a operadora pode falir,

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