DELIBERAÇÃO. Relatório

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1 P.º n.º R. P. 188/2008 SJC-CT- Escritura de revogação de justificação notarial. Cancelamento do registo de aquisição titulado por escritura de justificação. Direitos inscritos a favor de terceiros. DELIBERAÇÃO Relatório 1 O presente recurso vem interposto contra a decisão de recusa proferida pela Senhora Conservadora sobre o pedido de cancelamento da inscrição G-1, apresentado na Conservatória do Registo Predial de em 26 de Junho de 2008, e anotado sob a ap. 9, respeitante ao prédio misto descrito sob o n.º 3 824, da freguesia de, a que correspondem os artigos matriciais n.ºs e 53, da secção. O pedido foi instruído com certidão da escritura de revogação da justificação que tinha servido de base à inscrição de aquisição (G-1 ap. 121/ ), e duas cadernetas prediais. A situação tabular pertinente a nível descritivo e inscritivo dá-nos conta que do prédio em causa foi desanexada a parte urbana que veio a ser descrita sob o n.º 4230/ e, posteriormente, anexada ao prédio n.º 4 376/050706, a coberto da ap. 7/ , dando origem ao n.º 4 461/051129, inscrito a favor de Maria Elizabete e marido e de Maria Albertina e marido, por doação dos justificantes. Por seu turno, da leitura da ficha deste último prédio recolhe-se ainda a informação de que dele foi desanexado o descrito sob o n.º 4 809/061128, não constando, porém, do processo quaisquer elementos alusivos à sua situação inscritiva. 2 A Senhora Conservadora recusou o registo pedido por o facto não estar titulado no documento apresentado artigos 68.º e 69.º, n.º 1, alínea b), do CRP. Salienta que a revogação opera efeitos relativamente a negócios jurídicos não sendo este o caso da usucapião (que reconhece o direito de propriedade artigos 1287.º e 397.º do Código Civil). Acresce, ainda, que se os intervenientes na escritura de revogação da justificação pretenderam destruir os efeitos da justificação notarial não se podem esquecer de que do prédio objecto do registo foi desanexado o descrito sob o n.º 4230/011006, que se encontra inscrito a favor de pessoas diversas dos justificantes, o que constitui obstáculo à pretensão do requerente. 1

2 3 Inconformados com a qualificação que recaiu sobre o seu pedido, os interessados interpõem recurso hierárquico refutando, por um lado, a impossibilidade de se revogar uma escritura de justificação e, por outro, afirmando a suficiência do título apresentado para o cancelamento peticionado, nos termos que aqui se dão por integralmente reproduzidos. 3.1 De qualquer modo, destacamos ainda que os recorrentes aceitam (pretendem mesmo, melhor dizendo) que a revogação opere efeitos relativamente à totalidade do prédio, mas como a desanexação teve também por pressuposto o erro originário referido deve proceder-se à rectificação da desanexação (e posterior anexação), com a intervenção dos actuais proprietários inscritos, de modo a que o prédio regresse novamente à sua configuração inicial. 3.2 Consequentemente, requer que seja concedido provimento ao presente recurso e se ordene a elaboração do registo em conformidade com o pedido formulado. 4 Os argumentos expendidos pelos recorrentes levaram a Senhora Conservadora a reponderar a sua posição inicial aceitando a possibilidade de revogação da escritura de justificação (embora conteste, e bem, a equiparação que aqueles fazem entre esta escritura e a de rectificação de justificação), mas mantendo, quanto ao resto, o despacho proferido. 4.1 Reafirma que o problema aqui suscitado se prende com o facto de figurarem nas tábuas terceiros que não intervieram na escritura de revogação não se podendo, por isso, proceder ao cancelamento pretendido que retirava suporte aos registos destes sem a sua intervenção. 4.2 O prédio objecto da justificação sofreu algumas vicissitudes derivadas da celebração de negócios jurídicos posteriores existindo actualmente dois prédios com identidade diferente da anterior e com titulares inscritos também diversos, cujos direitos cumpre acautelar, pelo que o registo de cancelamento em causa tem de ser recusado. 5 O processo é o próprio, as partes têm legitimidade, o recurso é tempestivo e inexistem questões prévias ou prejudiciais que obstem ao conhecimento do mérito do presente recurso. 2

3 Assim, a posição deste Conselho vai expressa na seguinte Deliberação 1 A «revogação» de justificação notarial titulada por escritura pública em que os justificantes, com a confirmação de três declarantes, declararam destruir os efeitos do acto jurídico da invocação da usucapião da propriedade do imóvel dela objecto, por a declaração de ciência relativa aos factos integradores dessa forma de aquisição enfermar de erro é, em princípio, título suficiente para o cancelamento do registo de aquisição efectuado a favor dos justificantes cfr. o disposto nos artigos 89.º e segs do Código do Notariado, 1287.º e segs do Código Civil e 13.º do Código do Registo Predial 1. 1 Como é sabido, a justificação notarial consiste na declaração feita pelo interessado, e confirmada por três declarantes, em que este se afirme, com exclusão de outrem, titular do direito que se arroga, especificando a causa da sua aquisição e referindo as razões que o impossibilitam de a comprovar pelos meios normais artigos 89.º e 96.º do Código do Notariado. Na escritura de justificação notarial dá-se, portanto, testemunho de factos passados integradores da aquisição fundada na usucapião (artigo 1287.º do Código Civil), envolvendo uma declaração mais de ciência do que de vontade, com vista à obtenção de um título para o registo. Veja-se, neste sentido, o Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra, de 14 de Abril de 1993, in CJ, XVIII, Tomo II, págs.34 e 35. Acompanhando a jurisprudência do citado acórdão e a doutrina dos eméritos autores nele referenciados, adiantamos já que a justificação notarial integra, dentro dos actos jurídicos, a categoria dos quase negócios (ou actos jurídicos quase negociais), afirmação que nos remete para a apreciação, sumária que seja, dos negócios jurídicos e dos actos jurídicos. A destrinça entre estes, como ensina MOTA PINTO, in Teoria Geral do Direito Civil, 4.ª edição, por António Pinto Monteiro e Paulo Mota Pinto, 2005, págs. 355 e segs., «assenta na relação que intercede entre a vontade ou volição das partes dirigida a um resultado e os efeitos jurídicos produzidos. Os negócios jurídicos são factos voluntários cujo núcleo essencial é integrado por uma ou mais declarações de vontade a que o ordenamento jurídico atribui efeitos jurídicos concordantes com o conteúdo da vontade das partes, tal como este é objectivamente (de fora) apercebido ( ). Os efeitos produzem-se como se diz comummente ex-voluntate e não apenas ex-lege. Os simples actos jurídicos são factos voluntários cujos efeitos se produzem, mesmo que não tenham sido previstos ou queridos pelos seus autores, embora muitas vezes haja concordância 3

4 entre a vontade destes e os referidos efeitos. ( ) Os efeitos dos simples actos jurídicos, ou actos jurídicos stricto sensu, produzem-se como é comum dizer-se ex-lege e não ex-voluntate. Na economia do parecer importa ainda salientar que os actos jurídicos se dividem em duas categorias fundamentais. A saber: quase negócios jurídicos ou actos jurídicos quase negociais e operações jurídicas, também designadas na doutrina estrangeira pelas expressões actos materiais, actos reais ou actos exteriores. Nos actos quase negociais é preciso que o agente queira e entenda o acto a produzir, enquanto que nos actos materiais basta uma vontade natural de agir. Cfr., neste sentido, HEINRICH EWALD HÖRSTER, in A Parte Geral do Código Civil Português, págs. 207 e 208, que refere implicitamente que a usucapião se inclui na categoria dos actos quase negociais, e, ainda, CASTRO MENDES, in Teoria Geral do Direito Civil, II Vol., pág. 18. Justificada assim a afirmação de que a escritura de justificação corporiza um acto quase negocial, vejamos então o regime jurídico que é aplicável ao referido acto e se o mesmo é compaginável com o regime da revogação. Como acto jurídico que é aplicam-se-lhe, consabidamente, as disposições consagradas no Código Civil para o negócio jurídico, com as devidas adaptações, por força do disposto no seu artigo 295.º. Como a este respeito ensina HEINRICH E. HÖRSTER, ob cit., a aplicabilidade das regras do negócio jurídico é tanto mais necessária quanto mais decisivo for o alcance da vontade como elemento provocador do acto jurídico. Ora, em matéria de revogação vigora a regra de que a mesma vontade que constitui o negócio jurídico pode livremente destruí-lo a revogação consiste, assim, na destruição voluntária da relação contratual pelos próprios autores do contrato. Veja-se, em conformidade, ANTUNES VARELA, in Das Obrigações em Geral, II Vol., pág. 268, CASTRO MENDES, ob. cit., pág. 262, e INOCÊNCIO GALVÃO TELLES, in Manual dos Contratos em Geral, 4.ª edição, 2002, pág Mas poder-se-á, com todo o rigor, falar em revogação do acto jurídico da justificação notarial no caso em apreço nos autos? De harmonia com o disposto no artigo 294.º, aplicável por força do disposto no artigo 295.º, ambos do Código Civil, os actos jurídicos celebrados contra disposição legal de carácter imperativo são nulos, salvo nos casos em que outra solução resulte da lei. Sendo nulo o acto jurídico da justificação notarial, por a declaração de ciência proferida não ser verdadeira, o fundamento e o efeito aquisitivos ficam inquinados, afigurando-se-nos que não se poderá falar em revogação já que esta, no âmbito do direito civil, pressupõe a existência de um acto válido. Veja-se, neste sentido, a deliberação do Conselho Técnico proferida no proc.º R.P. 241/2004 DSJ-CT. Assente assim que o acto jurídico da justificação notarial é nulo, o registo de aquisição a favor dos justificantes será igualmente nulo, o que demanda as perguntas, aliás, já colocadas na citada deliberação, que repetimos transcrevendo-as: «a declaração de nulidade terá de ser 4

5 2 No caso dos autos, a «revogação» de justificação titulada pela escritura apresentada não terá a virtualidade de repristinar a situação anteriormente existente, visto que figuram nas tábuas terceiros com inscrição de aquisição sobre o prédio desanexado do justificado, em relação aos quais o facto e inoponível, revelando-se, assim, insuficiente para titular o cancelamento do registo de aquisição peticionado, pelo que deve ser recusado ao abrigo do prescrito nos artigos 69.º, n.º 1, alínea b), e n.º 2, do Código do Registo Predial. Em face do exposto, entendemos que o presente recurso hierárquico não merece provimento. Lisboa, 28 de Janeiro de declarada por decisão judicial (art. 17.º, n.º 1, do C.R.P.), ou em processo de rectificação quanto aos registos indevidamente lavrados (cfr. art. 121.º, n.º 2, C.R.P.)? Não poderá o registo nulo ser cancelado com base em acordo das partes acerca da invalidade do acto jurídico? O registo deste acordo sobre a invalidade está expressamente previsto no artigo 291.º, n.º 1, do CC, e parece-nos que esta norma é aplicável aos actos jurídicos, ex vi do citado art. 295.º do CC». Nestes termos expostos, não nos parece demasiado ousado sustentar que, independentemente do nomen juris que o acto constante do documento assuma (vd. FERREIRA DE ALMEIDA, in Texto enunciado na Teoria do Negócio Jurídico, Vol. II, pág. 1030, nota 216, e o acórdão do STJ, in CJ, Ano III, 1995, pág.100), a escritura de «revogação» de justificação aqui em apreço, acolhendo uma manifestação de vontade dos outorgantes em sentido inverso ao daquela que lhes permitiu dar vida ao acto jurídico inicial, se poderá considerar como uma «declaração acerca da invalidade do acto jurídico», que está igualmente coberta (tal como o acordo) pela norma consagrada na parte final do n.º 1 do artigo 291.º, aplicável ao acto jurídico, com as devidas adaptações, ex vi do citado artigo 295.º do Código Civil. Deste modo, viabilizava-se o cancelamento do registo efectuado com base na escritura revogada, salvo se razões atinentes a vicissitudes que perpassassem o prédio (do ponto de vista descritivo ou inscritivo) obstaculizarem tal escopo. Ora, in casu, as tábuas revelam precisamente a existência de um registo de aquisição sobre o prédio desanexado do justificado a favor de terceiros o que impede que, à margem destes, se proceda ao cancelamento do registo peticionado, por inoponibilidade do facto aos titulares desse registo. 5

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