EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA ÚNICA DA COMARCA DE PLANALTO - BAHIA

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1 EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA ÚNICA DA COMARCA DE PLANALTO - BAHIA O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA, por intermédio da Promotora de Justiça infrafirmada, nos termos do art.129, III, da Constituição Federal, art.72, IV, a, da Lei Complementar Estadual n.º11/96, e das Leis n.º 7.345/85 e n.º 8.429/92, e lastreado nos autos do Inquérito Civil número --/2004, que seguem anexos, vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, propor a presente AÇÃO CIVIL POR ATO DE IMPROBIDADE, com pedido liminar, contra JOSÉ MARIVALDO CALAZANS, brasileiro, casado, atual prefeito do Município de Planalto/Ba, residente e domiciliado na Pç. Raul Lopes Moitinho, n.º 655, nesta cidade, podendo ser encontrado, para fins de notificação, citação e intimação, no seu local de trabalho, sede da Prefeitura de Planalto; LEANDRA SANTOS CALAZANS COSTA, brasileira, estado civil ignorado, portadora do RG n.º , SSP/BA, servidora

2 pública municipal, residente e domiciliada nesta cidade, podendo ser encontrada na Rua Manoel Inácio de Oliveira, nº 193, centro, ou na sede da Prefeitura de Planalto-BA; LORENZO SANTOS CALAZANS, brasileiro, estado civil ignorado, portador do RG n.º , SSP/BA, inscrito no CPF sob o n.º , servidor público municipal, residente e domiciliado nesta cidade, podendo ser encontrado na Pç. Raul Lopes Moitinho, n.º 655, centro, ou na sede da Prefeitura de Planalto-BA; CÉLIO EUSTÁQUIO RIBEIRO CAMPOS, brasileiro, casado, servidor público municipal, portador do RG n.º , SSP/SP, inscrito no CPF sob o n.º , residente e domiciliado nesta cidade, podendo ser encontrado na Rua Manoel Inácio de Oliveira, nº 193, centro, ou na sede da Prefeitura de Planalto-BA, pelos motivos de fato e de direito que passa a expor: PRIMEIRO GRAU. I - DA COMPETÊNCIA DO JUÍZO DE DIREITO DO Inicialmente, para que não se suscitem argumentos desarrazoados acerca do assunto, cumpre apontar que é este juízo de primeiro grau que deve processar e julgar o presente feito. 2

3 Com efeito, é cediço que a matéria de competência originária dos Tribunais de Justiça dos Estados foi remetida pelo Poder Constituinte originário aos constituintes estaduais, que, no Estado da Bahia, apenas estabeleceu a competência originária do Tribunal de Justiça para julgar os feitos em que os prefeitos municipais figurem como réus, única e exclusivamente em matéria criminal (art.123, inc.i, alínea a, da Constituição Estadual), seguindo, assim, a ressalva do art.29, inciso VIII, da Constituição Federal. Destarte, em atendimento ao comando constitucional acima citado, a jurisprudência majoritária e mais abalizada firmou o entendimento de que é o juízo de primeiro grau o foro competente para processar e julgar as ações cíveis por ato de improbidade administrativa propostas em desfavor de prefeitos municipais. Veja-se: AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA MOVIDA PELO MINISTÉRIO PÚBLICO CONTRA PREFEITO E OUTROS AGENTES POLÍTICOS DO MUNICÍPIO JUÍZO COMPETENTE LOCAL DO FATO DANOSO DECISÃO FUNDAMENTADA QUANTUM SATIS. A Ação Civil Pública por improbidade administrativa, sob qualquer ângulo que se examine, é sempre uma ação que vise o ressarcimento do poder público pelos atos atentatórios à moralidade da administração pública, praticados por agentes políticos, servidores ou terceiros e, assim, 3

4 competente será o Juízo Cível para conhecer e aplicar as cominações respectivas. Agravo improvido. (1ª CCv., AI n.º , de Girua, j , rel.des.luiz Felipe Silveira Difini http//www.tj.rs.gov.br jurisprudência - Primeira Câmara Cível) Todavia, em 24 de dezembro de 2002, foi promulgada a Lei n /2002, que alterou o art. 84 do Código de Processo Penal, estendendo o foro por prerrogativa de função às ações por ato de improbidade administrativa, inclusive quando dita ação tenha sido intentada após a cessação do exercício da função. Segundo, pois, o teor da alteração legislativa sob comento, a competência para processar e julgar as ações civis por ato de improbidade administrativa ajuizadas contra chefes do poder executivo municipal, como ocorre no caso vertente, seria do Tribunal de Justiça dos respectivos Estados. À evidência, a Lei /2002 é inconstitucional, conforme sustentou a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público CONAMP em Ação Direta de Inconstitucionalidade ajuizada perante o Supremo Tribunal Federal, da lavra do Doutor Aristides Junqueira. In verbis: Com esses dispositivos, o legislador ordinário arvorou-se em Poder Constituinte e acrescentou mais uma competência originária ao rol exaustivo de competências de cada 4

5 tribunal, além de se arvorar, desastradamente, em intérprete maior da Constituição. Com efeito, é cediço que constitui tradição vetusta do ordenamento jurídico pátrio que a repartição da competência jurisdicional, máxime da competência originária para processo e julgamento de crimes comuns e de responsabilidade, é fixada na Constituição da República, de forma expressa e exaustiva, vedada qualquer interpretação extensiva. Se assim é com relação ao Supremo Tribunal Federal, aos tribunais superiores, aos tribunais regionais federais e aos juízes federais, também o é com relação aos tribunais estaduais, cuja competência também há de ser fixada em sede constitucional estadual, segundo expresso mandamento da Constituição Federal (...) Ora, definir é pôr limites e, se os limites da competência dos tribunais estão no texto constitucional, quer federal, quer estadual, não pode o legislador ordinário ultrapassálos, acrescentando nova competência ao rol exaustivo posto na Constituição, como se poder constituinte fosse. Que o rol de competência dos tribunais é de direito estrito e tem fundamento constitucional trata-se de entendimento reiteradamente proclamado por essa 5

6 excelsa Corte, como se extrai, a título exemplificativo, da ementa do v. acórdão relativo à Petição 693 AgR/SP, Relator o eminente Ministro Ilmar Galvão, assim redigida (...) Inúmeros são, também, os julgados desse colendo Supremo Tribunal Federal, relativamente à falta de sua competência originária para processo e julgamento de ação popular contra o Presidente da República, por se tratar de matéria não contemplada no exaustivo rol de competência fixado em sede constitucional. Não pode, pois, a lei ordinária, como o Código de Processo Penal, regular matéria que só pode ter sede constitucional. O que já se expôs é bastante para demonstrar a inconstitucionalidade de ambos os parágrafos, aqui questionados. Especificamente quanto ao 1º, ora impugnado, o legislador ordinário se arvora em intérprete do texto constitucional, no que diz respeito à própria competência dos tribunais, inclusive dessa Suprema Corte, dando-lhe interpretação divergente daquela já firmada por esse Tribunal Maior, consubstanciada no cancelamento da Súmula 394, que tinha o seguinte enunciado: 6

7 Cometido o crime durante o exercício funcional, prevalece a competência especial por prerrogativa de função, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados após a cessação daquele exercício. Ora, se o intérprete maior da Constituição, o Supremo Tribunal Federal, já decidiu, há quase um lustro, que o texto constitucional não contempla a hipótese de prorrogação do foro por prerrogativa de função, quando cessado o exercício desta, não pode o legislador ordinário editar norma de natureza constitucional, como se esta tivesse o condão de compelir a Suprema Corte a voltar à interpretação, já abandonada, de uma norma da Constituição. Já quanto ao 2º, o legislador ordinário, a par de travestir-se em poder constituinte e, também em intérprete da Constituição, tal como quanto ao 1º, pretende revelar, ainda, poderes premonitórios ou servirse do seu mister legislativo como forma de pressão sobre esse Supremo Tribunal Federal, pois o tema nele posto constitui questão que é objeto de julgamento em curso. Outrossim, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, ao apreciar a matéria sob exame assim pronunciou-se sobre o teor da Lei /2002: 7

8 Inicialmente, fica rejeitada a preliminar de incompetência de foro por prerrogativa de função, pois a Lei Federal n /2002 não encontra fundamento na Constituição Federal de O art. 37, 4º, da Magna Carta trata da suspensão dos direitos políticos, perda da função pública, indisponibilidade dos bens e ressarcimento ao Erário, para os atos de improbidade administrativa, sem prejuízo da ação penal cabível. A ação proposta tem natureza eminentemente civil, não obstando possa ser ajuizada a competente ação penal (trecho do Acórdão do Agravo de Instrumento número /1-00 Rel. Elzio Stelato Júnior). Finalmente, como já deve ser do conhecimento desse MM. Juízo, o pleno do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, acompanhando o entendimento dos Tribunais de Justiça de São Paulo e Goiás, nos autos de uma ação de improbidade administrativa que o Ministério Público Estadual ajuizou contra o prefeito do Município de Tucano/Ba, reconheceu a inconstitucionalidade da Lei /02 e determinou o retorno do expediente para o juízo de primeiro grau, por ser o órgão competente para processá-lo e julgá-lo (vide cópia do DJU de 09 de março de 2004 acostado ao ICP anexo). Como se observa, não resta alternativa razoável senão concluir-se que é da competência do Juízo de Direito da Comarca de Planalto/Ba o processo e julgamento do presente feito, eis que os 8

9 dispositivos contrários a este entendimento, contidos na Lei /2002, são flagrantemente inconstitucionais, na medida em que se tratando de lei ordinária, acabou por versar sobre matérias pertinentes à Constituição Federal. II DOS ATOS DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA PRATICADOS PELOS RÉUS. Após analisar representação formulada por vereadores deste Município de Planalto, que provocou a instauração do processo administrativo n.º /2003, a colenda Corte de Contas dos Municípios constatou a existência de irregularidades em contratações de serviços e locações de veículos praticadas pelo Prefeito Municipal, ora Demandado. Em razão disso, decidiu pela imputação de multa no valor de R$ 2.000,00 (dois mil reais) ao Chefe do Poder Executivo Municipal, bem como representação ao Ministério Público Estadual, para adoção das medidas pertinentes. Apresentada, então, a representação, pelo Tribunal de Contas dos Municípios, à Procuradoria-Geral de Justiça, foram os dois primeiros réus prontamente denunciados, junto ao egrégio Tribunal de Justiça deste Estado, pela prática dos crimes previstos nos artigos 89 da Lei n.º 8.666/93 e art. 1º, XIV, do Decreto-Lei n.º 201/67, em concurso material. Foi requerido, outrossim, o afastamento do Prefeito Municipal de Planalto, durante a instrução criminal, objetivando obstar a reiteração delitiva e resguardar a moralidade administrativa. Em seguida, a eminente Procuradora-Geral de Justiça Adjunta para Assuntos 9

10 Institucionais, subscritora da peça acusatória, acolhendo parecer criminal do ilustre Promotor de Justiça Auxiliar, remeteu cópia do expediente a esta Promotoria de Justiça, para adoção das medidas julgadas cabíveis, na área de improbidade administrativa. Em razão, pois, daquela representação formulada pelo Tribunal de Contas dos Municípios, que narra a prática de atos de improbidade administrativa pelos Demandados, causador de dano ao erário do Município de Planalto/Ba e desobediente aos princípios da Administração Pública, esta Promotoria de Justiça instaurou o Inquérito Civil tombado sob o número 02/2004, para apuração do fato específico de contratação irregular de serviços e locação de veículos junto a familiares do Prefeito Municipal, sem a necessária observância do princípio licitatório. Os demais fatos relatados no expediente estão sendo objeto de investigação em expediente apartado. Concluídas as investigações, no âmbito do Inquérito Civil Público anexo, restou evidenciado que o primeiro demandado, na condição de Prefeito do Município de Planalto/Ba, autorizou, no período compreendido entre os meses de janeiro e março de 2003, sem observar quaisquer das regras de licitação estabelecidas pela legislação vigente, a contratação direta de veículos para serviços diversos e a prestação da coleta de lixo pelos demais réus, todos eles servidores públicos municipais e parentes seus. 1

11 Com efeito, evidenciou-se nos autos do IC 02/2004, anexo, que o primeiro Demandado contratou com CÉLIO EUSTÁQUIO RIBEIRO CAMPOS, seu genro e Assessor Administrativo NI da Prefietura Municipal de Planalto, serviço de recolhimento de lixo, com a utilização do suposto veículo caminhão Ford de placa policial JMD 1514, placa esta correspondente, inexplicavelmente, ao veículo GM/CORSA WIND, da propriedade de ANTÔNIO MOREIRA e licenciado no Município de São Gonçalo dos Campos, Bahia. Para tanto, empenhou o valor total correspondente a R$ 5.200,00 (cinco mil e duzentos reais), conforme constam das notas empenho respectivas ao referido contrato, anexas. Comprovou-se nos autos do Inquérito Civil Público o efetivo pagamento de, ao menos, R$ 2.536,00 (dois mil quinhentos e trinta e seis reais), em duas parcelas, relativas aos processos de pagamento n.º 393/03 e 722/03. Embora não hajam sido juntadas as provas do pagamento da quantia restante, está claro que o negócio efetuado, sem o necessário procedimento licitatório, configurou enriquecimento ilícito por parte do contratado e gerou um prejuízo final ao erário correspondente a R$ 5.200,00 (cinco mil e duzentos reais). Insta acentuar, outrossim, que a contratação referida faz referência ao Programa Municipal Limpeza Geral é Cidade Limpa (v. notas de empenho respectivas), sendo de se considerar que, em se tratando de um programa de governo, com dotação orçamentária própria (cf. nota de empenho respectiva), não esteve inserido o negócio nas supostas iniciativas voltadas a atender a calamitosa situação de seca absoluta instalada no município, com elevados índices de desidratação e infecção de cidadãos. 1

12 Com efeito, o Prefeito Municipal não explicou porque, certamente, não tem explicação, em qualquer das oportunidades que teve para se defender, a contratação flagrantemente ilícita realizada com o seu genro. Ressalte-se, ainda, que sequer juntou cópia do contrato efetuado, embora lhe tivesse sido requisitado. Com LEANDRA SANTOS CALAZANS COSTA, filha do Alcaide e ocupante do cargo comissionado denominado Assessor da Secretaria de Governo Nível I, o Alcaide contratou, pelo valor total de R$ 4.500,00 (quatro mil e quinhentos reais), a locação do veículo de placa policial CBL 5332, de sua propriedade, tendo como objeto a manutenção de serviços diversos no período de 02 de janeiro a 31 de março de Note-se o absurdo constatado na nota de empenho n.º 263/2003, referente ao processo de pagamento n.º 721: a referida demandada é, ao mesmo tempo, credora e agente liquidante de parcela do valor empenhado. Além disso, observa-se, da informação juntada pelo DETRAN, após requisição ministerial, que o veículo se trata de caminhão com carroceria aberta, dado este que desperta, tal como em relação a CÉLIO EUSTÁQUIO, toda suspeita acerca do efetivo cumprimento do serviço de fornecimento de água, por meio de carros pipa, alegado pelo prefeito Municipal tanto na defesa que fez ao TCM quanto no documento dirigido ao Ministério Público. Vejam-se, neste diapasão, as seguintes declarações, todas constantes do Inquérito Civil Público anexo: 1

13 ...as cópias de todos os empenhos (n.º 260,262, 263 e 264) que motivaram os processos de pagamento epigrafados em vosso ofício, onde consta exatamente o aluguel dos veículos tipo Caminhões Pipa e Basculhantes, unicamente durante os meses de janeiro e fevereiro,... (cf. informação prestada ao MP) Já com LORENZO SANTOS CALAZANS, filho do Demandado e ocupante do cargo público municipal correspondente a Assessor de Governo, contratou-se o aluguel do automóvel de placa JLS 4427, da propriedade da PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAPETINGA, pelo montante global de R$ 4.500,00 (quatro mil e quinhentos reais), tendo por objeto a manutenção de serviços diversos junto à Secretaria de Infraestrutura, no período compreendido entre os dias 02 de janeiro e 31 de março de Verifica-se que o contrato celebrado com LORENZO é idêntico àquele efetuado com LEANDRA, à exceção de que o veículo supostamente locado é, também inexplicavelmente, um BEM PÚBLICO, pertencente à PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAPETINGA, do qual o contratado não poderia dispor, em qualquer hipótese. É, da mesma forma, de acordo com os dados produzidos pelo DETRAN, um caminhão com carroceria aberta, tal como o automóvel referente à sua irmã, LEANDRA. Ao todo, a saída de numerário sem observância das regras de licitação totalizou o importe de R$ ,00 (quatorze mil e duzentos reais), na forma discriminada no quadro a seguir: 1

14 Contratados Valor Célio Eustáquio R$ 5.200,00 Leandra R$ 4.500,00 Lorenzo R$ 4.500,00 TOTAL R$ ,00 Veja-se ainda que o réu JOSÉ MARIVALDO CALAZANS reconheceu, tanto perante o TCM em diversos trechos da defesa que àquela Corte apresentou, como à Promotoria de Justiça, haver contratado o serviço de coleta de lixo e locado os veículos dos seus parentes sem observar a regra da obrigatoriedade da licitação, deixando claro, ainda, que não foi formalizada excepcional e eventual - dispensa de certame, mesmo porque, na realidade, não concorria qualquer das hipóteses legais autorizadoras da exceção, previstas no artigo 24 da Lei n.º 8.666/93. Neste sentido, vale transcrever os seguintes trechos, constantes da peça acostada ao expediente e subscrita pelo próprio Alcaide:...preferiu contratar, nestes dois únicos meses, janeiro e fevereiro do ano em curso, os dois únicos veículos de propriedade de sua família, quais sejam, dois caminhões pipa (Docs. 02)(...) (destacou-se) (...) seria absoutamente desarrazoado que o Prefeito Municipal da cidade, responsável pelo seu povo e pelo seu destino, único obrigado por suprir as necessidades públicas 1

15 e os interesses coletivos, àquele tempo, permanecesse inerte, ou fosse providenciar licitação pública, ou mesmo saísse em outras cidades ou na sua própria cidade atrás de quem teria um maquinário daquele tipo, e estava disposto a alugar, para aquele serviços, à Prefeitura Muncipal.(...) (sic, destacou-se) É de se chamar a atenção para o fato de que o primeiro Demandado buscou ocultar a verdade ao afirmar, tanto ao Tribunal de Contas dos Municípios quanto ao Ministério Público, que os contratos em questão referiram-se tão somente aos meses de janeiro e fevereiro de 2003, sendo que, ao menos em relação a LEANDRA SANTOS CALAZANS COSTA e LORENZO SANTOS CALAZANS COSTA, os bens foram locados pelo período de três meses, compreendidos entre os dias 02 de janeiro a 31 de março de Não juntando o contrato concernente ao genro CÉLIO EUSTÁQUIO RIBEIRO CAMPOS, o Alcaide omitiu a informação sobre o tempo de execução do suposto serviço, mas o valor do seu contrato e a quantia paga em cada parcela deixam transparecer que a execução do serviço foi por tempo não inferior a 04 (quatro meses). Por outro lado, ressalta-se, mais uma vez, que ao Prefeito Municipal de Planalto o TCM ofereceu a oportunidade de juntar cópias dos procedimentos de dispensa de licitação do serviço contratado e dos automóveis locados; contudo, o Demandado nada apresentou que comprovasse a existência dos referidos procedimentos. Isto porque 1

16 conclui-se, irrefutavelmente não há justificativa plausível às contratações efetuadas, da forma como foram feitas. Finalmente, restou apurado no Inquérito Civil Público n.º 02/2004, por informação do próprio Prefeito Municipal, que os réus CÉLIO EUSTÁQUIO RIBEIRO CAMPOS, LEANDRA SANTOS CALAZANS COSTA e LEANDRO SANTOS CALAZANS COSTA, à época da locação, já eram servidores públicos do Poder Executivo de Planalto, o contratante, e por isso não poderiam participar dos negócios em questão. Essa ilegalidade, inclusive, ensejou denúncia da ré LEANDRA SANTOS CALAZANS COSTA e do seu genitor pela infração ao art. 89 da Lei n.º 8.666/93. III DO DIREITO Primeiramente, cumpre chamar a atenção para a hipótese de que, aparentemente, os três veículos objetos das contratações ora impugnadas não se mostraram hábeis à execução dos serviços a que, supostamente, seriam destinados, quais sejam, a coleta de lixo e o fornecimento de água à população carente. Isto porque o automóvel fornecido pelo Demandado CÉLIO EUSTÁQUIO RIBEIRO CAMPOS, cuja placa apontada, no respectivo empenho, é JMD 1514, correspondente, segundo informações do DETRAN, ao veículo GM/CORSA WIND, da propriedade de ANTÔNIO MOREIRA e licenciado no Município de São Gonçalo dos Campos, Bahia. A menos que a informação esteja equivocada, ou que todas as declarações 1

17 da Prefeitura sejam erradas o que é absurdo infere-se que a contratação foi FORJADA, visando a que o repasse da verba municipal ao patrimônio do suposto contratado se justificasse. Da mesma forma com LEANDRA SANTOS CALAZANS COSTA e LORENZO SANTOS CALAZANS COSTA. Ora, se os caminhões locados, nos termos das informações produzidas pelo DETRAN, no curso do ICP respectivo, têm carroceria aberta, certamente não correspondem esses automóveis aos carros pipas a que se refere o Alcaide, pessoalmente, em ambos os documentos que assina, dirigidos ao TCM e ao MP, todos constantes do autos. Depreende-se, pois, que o fornecimento de água restou prejudicado e, portanto, A LOCAÇÃO NÃO OCORREU E O SERVIÇO NÃO FOI PRESTADO. Em assim sendo, conclui-se que os acionados incidiram na hipótese do art. 9º, XI, da Lei n.º 8.429/92, segundo o qual: Art. 9º. Constitui ato de improbidade administrativa importando enriquecimento ilícito auferir qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida em razão do exercício de cargo, mandato, função, emprego ou atividade nas entidades mencionadas no art. 1º desta Lei, e notadamente: (...) XI incorporar, por qualquer forma, ao seu patrimônio bens, rendas, verbas ou valores integrantes do acervo 1

18 patrimonial das entidades mencionadas no art. 1º desta Lei; Por outro ângulo, nota-se que os Demandados incidiram em outra norma tipificadora do ato de improbidade administrativa, prevista no art. 10, VIII, da multicitada Lei, consistente em causar prejuízo ao erário por intermédio da desobediência ao processo licitatório. No caso, dispensando-o indevidamente, para autorizar a locação dos caminhões junto a LEANDRA SANTOS CALAZANS COSTA e LORENZO SANTOS CALAZANS COSTA, bem assim a contratação do suposto serviço de coleta de lixo com o genro, CÉLIO EUSTÁQUIO RIBEIRO CAMPOS. Por outro prisma, nota-se também a incidência dos Acionados nos ditames do art. 10, caput, da Lei n /92 (Lei de Improbidade Administrativa), que preceitua que constitui ato de improbidade administrativa que causa lesão ao erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa, que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das entidades de direito público. Outrossim, o inciso VIII, do citado artigo da Lei de Improbidade Administrativa, preceitua, de forma mais específica, que configura ato de improbidade administrativa lesiva ao erário frustrar a licitude de processo licitatório ou dispensá-lo indevidamente. (grifou-se) 1

19 Cotejando-se os dispositivos legais acima mencionados com a narrativa constante da presente exordial, verifica-se a perfeita subsunção do fato à norma, eis que há sérias evidências de que o primeiro Demandando praticou, juntamente com os demais, ato de improbidade administrativa lesivo ao patrimônio municipal, ao autorizar a saída de recursos, a título de locação de veículos para o fim de realização do serviço de coleta de lixo e serviços diversos, sem o devido processo licitatório ou a regular dispensa do certame. A dispensa de licitação é considerada uma exceção à regra do art. 2º da Lei n.º 8.666/1993, que reza: Art. 2º. As obras, serviços, inclusive de publicidade, compras, alienações, permissões, e locações da Administração Pública, quando contratadas com terceiros, serão necessariamente precedidas de licitação, ressalvadas as hipóteses previstas nesta lei. Neste sentido, ensinam Emerson Garcia e Rogério Pacheco Alves, na obra intitulada Improbidade Administrativa (ed. Lúmen Juris, Rio de Janeiro, 2002,p. 288), in verbis: O procedimento administrativo em que seja identificado caso de dispensa ou inexigibilidade de licitação o que motivará a contratação direta deve ser devidamente 1

20 fundamentado, conferindo publicidade ao ato e permitindo o devido controle. Nota-se, no caso particular, que ao administrado foi negado, pelo Administrador, o direito de conhecer o ato praticado, ante a inexistência de formalidade garantidora da sua lisura, transformando-o em negócio escuso, danoso ao patrimônio público e infiel à noção de probidade que devem nortear os atos da Administração. Com a irregularidade acima esposada, portanto, foram desobedecidos, além da própria regra jurídica consistente na obrigatoriedade da licitação, os próprios princípios noteadores da Administração Pública, sobretudo os da legalidade, moralidade e também o da publicidade, tendo em vista que a motivação de uma eventual dispensa de licitação era procedimento exigível, em nome desse princípio e do seu corolário: o princípio da transparência dos atos administrativos perante os administrados. Decerto, ainda, que, no caso em tela, a irregularidade constitui violação acintosa do casto princípio da IMPESSOALIDADE, que também serve de norte aos atos administrativos. Isto porque o procedimento licitatório foi previsto pela Carta da República e pela legislação infraconstitucional justamente para garantir isonomia entre os administrados, quando da celebração de um contrato com o poder público. Esta é uma forma de oportunizar a todos os possíveis interessados a execução dos seus serviços perante os entes administrativos, evitando-se apadrinhamentos, favoritismo e o tão combatido, ao menos em discurso, nepotismo. O parentelismo, contudo conduta de evidente imoralidade 2

21 prevaleceu no caso que ora se trata, tendo em vista que, sendo alheio ao procedimento licitatório, o Administrador escolheu, como contratados do Poder Executivo Municipal, os próprios filhos e o genro. Ademais, sublinhe-se que os princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade foram mais uma vez violentadas no desrespeito ao artigo 9º, III, da Lei n.º 8.666/93, que diz: Art. 9º. Não poderá participar, direta ou indiretamente, da licitação ou da execução de obra ou serviço e do fornecimento de bens a eles necessários: (...) III servidor ou dirigente de órgão ou entidade contratante ou responsável pela licitação. Como se não bastasse o fato de haver designado os seus parentes, aqui também acionados, para exercer cargos de confiança junto à Administração Pública, o Alcaide ainda lhes possibilitou a negociação com o Município, a despeito da regra acima esposada, que veda a contratação entre o órgão ou entidade contratante e o seu servidor. É inegável, pois, que, descumprindo a lei, da forma como fez, os demandados feriram o princípio da impessoalidade, porque exerceram ato de evidente favorecimento; e o da moralidade, aquele que impõe que o agente público não dispense os preceitos éticos que devem estar presentes em sua conduta. Ora, aproveitar-se da sua condição de Administrador da Máquina Pública Municipal para contratar com parentes seus, dispensando, sem motivação e 2

22 publicidade, a obrigatória licitação, configura, sem sombra de dúvida, um ato de flagrante imoralidade, voltado para a realização de interesses particulares, apenas. O papel do Administrador e demais agentes públicos é servir à comunidade, com vistas à promoção do bem coletivo. A satisfação de interesses pessoais, que descumpre, inclusive, norma legal expressa, não pode ser aceita com naturalidade, sob pena de se ter em risco o contrato social, a segurança jurídica e a confiança do povo nas instituições democráticas. Observa-se, por fim, pela acurada análise dos fatos apurados, a evidente infração, pelos Demandados, ao artigo 11, caput e inciso IV, da Lei de Improbidade Administrativa, que dizem: Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios da administração pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade e lealdade às instituições, e notadamente: (...) IV negar publicidade aos atos oficiais; É de se ter em vista, pois, de todo o exposto, que os demandados incidiram nas três hipóteses ventiladas pela Lei n.º 8.429/92 como atos de improbidade administrativa: aqueles que importam enriquecimento ilícito; os que causam prejuízo ao erário e os que atentam contra os princípios da administração pública. 2

23 Diante de todas as evidências, assim, de que os Acionados efetivamente praticaram atos de IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA, devem ser a eles aplicadas as sanções previstas no art. 12, inciso I, da multicitada Lei de Improbidade Administrativa: perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio, ressarcimentos integral dos danos; perda da função pública; suspensão dos direitos políticos de 8 (oito) a 10 (dez) anos; pagamento de multa civil; e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefício ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de 10 (dez) anos. Caso não seja acolhida a hipótese do art. 9º, e fixadas as penas do inciso acima (art. 12), que sejam então aplicadas as penas do inciso II: ressarcimentos dos danos; perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao seu patrimônio; perda da função pública; suspensão dos direitos políticos pelo prazo de 5 (cinco) a 8 (oito) anos; pagamento de multa civil; e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefício ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de 5 (cinco) anos. Admitindo-se a remota hipótese de não serem determinadas as penalidades dos incisos I ou II do art. 12, acima explicitado, devem ao menos ser aplicadas aos Acionados as sanções previstas inciso III do mesmo dispositivo legal, concernentes à incidência 2

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