A POLÍTICA NACIONAL DE HUMANIZAÇÃO E AS IMPLICAÇÕES DE UM

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1 A POLÍTICA NACIONAL DE HUMANIZAÇÃO E AS IMPLICAÇÕES DE UM NASCIMENTO PREMATURO Francisca Daniela de Morais Roberto Regina Célia Pinheiro da Silva Orientadora UNITAU INTRODUÇÃO São considerados bebês prematuros os nascidos antes de completarem 37 semanas de gestação. A prematuridade de um bebê traz uma série de implicações não só para este, mas também para sua família. Ao nascer, o prematuro é levado à Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTINeo). A preocupação e apreensão da mãe acentuam-se por quase não ter contato com seu bebê. Ela percebe-se só, com poucas informações e frágil para enfrentar essa nova etapa que lhe é desconhecida. Muitas das implicações que a mãe e a família têm durante esse período são pouco valorizadas. As indagações sobre a falta de informações e até mesmo o desconhecimento dos direitos apontam a relevância de pesquisar como as instituições de saúde estão atendendo a demanda da mãe de um bebê prematuro em relação, principalmente, às diretrizes da Política Nacional de Humanização

2 (PNH) do Ministério da Saúde que já está em vigor, porém ainda é "desconhecida". Vários foram os fatores que levaram o Ministério da Saúde a refletir sobre a perda da humanização não só na formação dos profissionais da área, mas, também, nos serviços de saúde e no atendimento aos usuários. Assim, em 2004 foi elaborada a Política Nacional de Humanização a partir das experiências encontradas no cotidiano do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o Ministério da Saúde, a humanização do SUS se dá através da: - Valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores; - Fomento da autonomia e do protagonismo desses sujeitos; - Aumento do grau de co-responsabilidade na produção de saúde e de sujeitos; - Estabelecimento de vínculos solidários e de participação coletiva no processo de gestão; - Identificação das dimensões de necessidades sociais, coletivas e subjetivas de saúde; - Mudança nos modelos de atenção e gestão, tendo como as necessidades dos cidadãos, a produção de saúde e o próprio processo de trabalho em saúde; valorizando os trabalhadores e as relações sociais no trabalho; - Compromisso com a ambiência, melhoria das condições de trabalho e de atendimento. (BRASIL, 2006a, p.15) O contato humano nem sempre foi foco da atenção dos profissionais. O acolhimento sintetiza a humanização na saúde e faz a diferença no atendimento ao usuário. É uma das diretrizes da PNH de maior relevância. O acolhimento como ato ou efeito de acolher expressa, em suas várias definições, uma ação de aproximação, um estar com e um estar perto de, ou seja, uma atitude de inclusão. Essa atitude

3 implica, por sua vez, estar em relação com algo ou alguém. (BRASIL, 2006b, p.6) O foco na doença e não no sujeito e suas necessidades é comum nos serviços de saúde, o que favorece ainda mais a forma fragmentada e verticalizada de atendimento. Muitos afirmam que já existe a humanização no serviço hospitalar, porém, quando somos usuários visualizamos o distanciamento dessa humanização. O acolhimento se efetiva através da escuta qualificada, da linguagem verbal e não verbal, nos tornando capacitados para construir uma rede de significados por meio das imagens, das palavras, do relacionamento com nossos semelhantes, o que faz a diferença no atendimento aos usuários. (...) o sofrimento humano e as percepções de dor ou de prazer no corpo, para serem humanizados, precisam tanto que as palavras que o sujeito expressa sejam reconhecidas pelo outro, quanto esse sujeito precisa ouvir do outro palavras de seu reconhecimento. Pela linguagem fazemos as descobertas de meios pessoais de comunicação com o outro, sem o que nos desumanizamos reciprocamente. (BETTS, 2008, p.1) O acolhimento está presente em todas as relações do cotidiano. Para que aconteça, é necessário, segundo Feldman; Miranda (2004), primeiramente ter um ambiente que acolha, ou seja, cores, cheiros, que implicam em sensações de bem-estar provocadas por ambientes que se apresentem aconchegantes, limpos e calorosos. O contrário, a existência de um ambiente frio, sujo e impessoal, provoca sentimentos como preocupação, rejeição e medo. Enfim, podemos entender que: Humanizar a atenção à saúde é valorizar a dimensão subjetiva e social, em todas as práticas de atenção e de gestão no SUS,

4 fortalecendo o compromisso com os direitos do cidadão, destacando-se o respeito às questões de gênero, etnia, raça, orientação sexual e às populações específicas (índios, quilombolas, ribeirinhos, assentados, etc). É também garantir o acesso dos usuários às informações sobre saúde, inclusive sobre os profissionais que cuidam de sua saúde, respeitando o direito a acompanhamento de pessoas de sua rede social (de livre escolha). É ainda estabelecer vínculos solidários e de participação coletiva, por meio da gestão participativa, com os trabalhadores e os usuários, garantindo educação permanente aos trabalhadores do SUS de seu município. (BRASIL, 2008, p.1) Assim, por meio desta política, a pesquisa teve como objetivo conhecer as demandas da mãe de um bebê prematuro. Mais especificamente, verificar o atendimento prestado no hospital a essa mãe relacionando-o à Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde; compreender o que significa para a mãe o nascimento de seu filho(a) prematuramente; e identificar o conhecimento que tem frente a essa problemática. Relacionar um nascimento prematuro com o estado socioeconômico baixo, má nutrição, com a raça e a classe social, além de aspectos genéticos e ambientais leva a questionamentos. As expressões da questão social que se manifestam em uma família podem ou não interferir numa gestação? Será que os profissionais que trabalham com saúde, nesse caso, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, estão buscando compreender a vida do usuário para de fato perceberem a demanda que ele traz? MÉTODO

5 Na operacionalização desta pesquisa foi utilizada a metodologia qualitativa (MINAYO, 2004), pois por meio desta foram levantados dados que levaram em consideração os sentimentos, emoções e dificuldades da mãe de prematuro. A coleta de dados foi realizada por meio de um formulário, através de uma entrevista semi-estruturada possuindo perguntas abertas e fechadas, contendo nove questões relacionadas com o tema. Os sujeitos foram três mães de bebês prematuros escolhidas da seguinte forma: duas mães foram selecionadas na UTINeo (2008) convivendo com essa problemática e de acordo com o interesse delas em participar; a terceira mãe foi escolhida fora da instituição (filho nascido em 1994), já tendo passado por isso quando seu bebê nasceu. Posteriormente, apesar de não estar previsto no projeto, uma quarta mãe foi inserida pelo seu grande interesse em contribuir com a pesquisa (filho nascido em 2004). Os dados coletados foram organizados através de associação de idéias em agrupamentos de aspectos comuns, e analisados a partir dos subsídios teóricos. PRINCIPAIS RESULTADOS O período de internação é percebido pelas mães com medo, insegurança e angústia pela possibilidade de perda do filho, agravados pela falta de informações, o que é relatado por todos os sujeitos. Para as mães, segundo a pesquisa realizada, é um momento de explosão de diferentes sentimentos, principalmente porque o alcance e poder da mãe não pode ser considerado. Os dados também mostram que o atendimento hospitalar oferecido ainda não está adequado a PNH. Pudemos notar por meio das respostas dos

6 formulários, que desde 2003/04 quando a Política surgiu, esta não foi considerada para nenhum dos sujeitos. Em relação a identificar o conhecimento da mãe em relação a essa problemática, apenas dois dos sujeitos entrevistados afirmaram ter recebido informações: uma do pediatra e outra, de uma enfermeira, nos dias que estes estavam de plantão. Constatamos que as mães são submetidas a esperarem e esperarem sobre informações do bebê, não conhecem os profissionais que cuidam dos respectivos filhos(as); não foram abordadas por um profissional que considerasse a demanda que a mãe de bebê prematuro tem; não receberam acompanhamento quando foram a UTINeo pela primeira vez; não foram considerados os sentimentos da mãe quando esta recebeu alta e seu filho(a) ficou. Enfim, há pouca humanização no atendimento a demanda da mãe de bebê prematuro. Todos os sujeitos sugerem que haja um profissional especializado que acompanhe a mãe durante o período de internação do bebê, oferecendo informações sem precisar que sejam solicitadas e os apoiando durante a permanência do bebê na UTI Neo. CONSIDERAÇÕES FINAIS A demanda da mãe de prematuro é uma condição intersubjetiva e social que deve ser respeitada e tratada para que não surjam maiores implicações mentais, sociais, etc. Apesar do tempo decorrido do nascimento das crianças entre o primeiro e o último sujeito investigado ser de 14 anos, pudemos notar que muito

7 pouco foi acrescido no atendimento do serviço de saúde no que diz respeito à informação e aos cuidados à mãe de um bebê prematuro. Para que a PNH seja efetivada, há necessidade de profissionais especializados, entre eles, o assistente social, que garantam a esses sujeitos seus direitos, como o de serem acolhidos. O assistente social é um profissional que pode e deve realizar esse atendimento. A necessidade desse profissional para acompanhamento à mãe durante o período de internação do bebê para dar suporte, oferecer acesso à informação do que é uma UTINeo e quais os cuidados a que seu filho(a) será submetido é apontada por todos os sujeitos. Além de ouvir a demanda da mãe, o que ela precisa, quais são as dificuldades persistentes à prematuridade, deve informar quais são os nomes dos médicos e enfermeiros que estarão com seu filho(a) durante a permanência de internação, onde fica a UTINeo, quais são os horários em que poderá visitá-lo, quantas pessoas podem visitar, como é tirado e armazenado o leite materno e como levá-lo ao hospital, quais são os cuidados que um bebê prematuro exige quando vai embora para casa, quais são as redes do serviço de saúde que poderão ser acessadas nos casos de necessidade, como, por exemplo, fonoaudióloga, fisioterapeuta, neurologista. Enfim, um profissional competente que possa orientar tanto a equipe como a mãe e a família sobre o tema em questão. A relação da Política Nacional de Humanização e as implicações de um nascimento prematuro se dão por meio do acolhimento, da valorização dos sujeitos, da autonomia dos mesmos, da identificação das necessidades sociais da

8 saúde. Essa política foi formulada e deve ser operacionalizada, dentre outros aspectos, para que seja possibilitado um atendimento acolhedor e se possa garantir os direitos dos usuários e são exatamente esses dois pontos que insistimos para que aconteça em uma UTINeo. Sugerimos que os hospitais, privados ou públicos, se proponham ver e tratar das demandas da mãe de bebê prematuro para que consigam atender as suas necessidades. Dentro dessa perspectiva, é importante considerar a implantação do Método Mãe Canguru (MÉTODO, 2007). Acreditamos que investir em um trabalho preventivo desde o pré-natal pode mudar a realidade de muitas famílias. Se a mãe for avaliada em todos os âmbitos pelos profissionais que a acompanham, poderão até antecipar problemas com a saúde desta, bem como, com a saúde dos bebês. A UTINeo pode também se preparar, melhorar, ou seja, ter profissionais adequados para o atendimento. Acreditamos, segundo o artigo de Eduardo Goldenstein (2007), que a equipe da UTINeo também está vulnerável merecendo ser ouvida em suas angústias, e cuidada para que possa cuidar melhor, a cada dia. Portanto, faz-se necessário ser efetivada a PNH não só para os usuários do SUS como, também, para os profissionais que vivem essa realidade. Referências:

9 BETTS, Jaime. Considerações sobre o que é o humano e o que é humanizar. Portal humaniza: humanização da saúde. Disponível em: < Acesso em: 30 mar BRASIL. Ministério da Saúde. Documento base para gestores e trabalhadores do SUS. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2006a. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/saude/area.cfm?id_area=1342>. Acesso em: 20 jun BRASIL. Ministério da Saúde. Acolhimento nas práticas de produção de saúde. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2006b. BRASIL. Ministério da Saúde. Humanização e ampliação (PNH). Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=27147>. Acesso em: 29 jan FELDMAN, Clara; MIRANDA, Márcio Lúcio de. Construindo a relação de ajuda. Belo Horizonte: Crescer, GOLDENSTEIN, Eduardo. Voz aos médicos de UTI pediátrica humanizada. Ser médico: revista do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, São Paulo, ano X, n. 38, jan./fev./mar

10 MÉTODO Mãe-Canguru traz benefícios para mãe e filho. Jornal Saúde. Disponível em: < a=1... >. Acesso em: 18 set MINAYO, Maria Cecília de Souza (Org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 23. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.

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