A tradição traditio-onis remete à 'entrega', à 'transmissão', deriva de tradère: transmitir, entregar.

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1 29 Congresso Latino-Americano de Psicanálise Invenção - Tradiçào Tradição e invenção no tornar-se psicanalista Adriana Sorrentini Pensar o complexo tema da formação psicanalítica à luz da proposta do Congresso da FEPAL Invenção-Tradição levanta sérias questões quanto a como compreender de que se trata o adquirir a formação necessária para se tornar um psicanalista. A tradição traditio-onis remete à 'entrega', à 'transmissão', deriva de tradère: transmitir, entregar. Pensado a partir desta perspectiva, transmitimos e entregamos todos os nossos conhecimentos e experiência psicanalítica aos colegas em formação, que desejam tornarem-se psicanalistas e vêm para o nosso Instituto solicitando essa entrega. Da mesma forma, a partir desta transmissão é que podemos, juntos, inventar, encontrar e descobrir novos desenvolvimentos, imaginar e criar caminhos não percorridos que enriquecem e ampliam as fronteiras da Psicanálise. Esta é a acepção de invenção que eu admito ser compatível com o nosso trabalho, muito distante da que se refere a "fingir fatos falsos ou levantar mentiras", mas que infelizmente também acontece, a serviço de outros interesses. Abandonada a hipnose, surge em Freud a percepção da singularidade da Psicanálise, "... um procedimento sui generis, algo novo e peculiar...", que conta com a particular influência pessoal do analista, influência que desempenha um grande papel na análise, embora este fator sugestivo seja utilizado de uma maneira e com propósitos muito diferentes do que os da hipnose. Estamos em 1926, dialogando com "um juiz imparcial" sobre a Psicanálise, imparcialidade e interesses que não encontramos frequentemente hoje em dia ao se colocar em discussão o método.

2 Já em 1922, em Dois artigos de Enciclopédia: Psicanálise e Teoria da Libido, a define como: a) um procedimento para investigar os processos mentais pouco acessíveis por outros meios, b) um método de tratamento de transtornos neuróticos, e c) uma série de intelecções psicológicas que lentamente se integraram em uma nova disciplina científica. É com isso que trabalhamos na formação pós-graduada de profissionais médicos e psicólogos que desejam ser psicanalistas. Formação que implica transmissão. Se ëdûcare de dûcere: conduzir permite o educere, tirar para fora, criar, forma parte da ideia de transmitir a possibilidade de que "per vía di levare" seja possível, diminuindo a repressão neurótica, chegar a conduzir à superfície psíquica, à consciência, o saber ampliado que o ego pode alcançar de si mesmo. Se por educação não se entende a acumulação "per via di porre" de uma série de conceitos e conhecimentos acadêmicos, mas criar alguém que já adquiriu conhecimentos e saberes científicos para que assuma capacidade mediante análise de conduzir e reconduzir o profundo não conhecido unbekannt - para a condição de conhecido pelo acesso ao próprio inconsciente, podendo por sua vez captar o inconsciente que o analisando, sem o saber, passou através de seu discurso, interpretá-lo em alguns casos, ou construí-lo a partir de indícios em outros; penso que disso se trata a transmissão da Psicanálise. Transmissão que é possível apenas a partir do vivencial, a partir da convicção que se adquire com a própria experiência de contato com o inconsciente. Freud afirma que o analista deve primeiro aprender a psicologia do inconsciente, a fim de aplicar a Psicanálise aos seus pacientes e, como a sinceridade nas comunicações é uma regra, lhe cabe uma severa responsabilidade ética e moral, que também é internalizada mediante a própria experiência analítica. Aqui vale ressaltar a responsabilidade que nos cabe como analistas didatas, nossa ética psicanalítica, o sustentáculo do setting psicanalítico em que se desenvolve a sessão e o tratamento. A análise do analista se fundamenta em que o instrumento de que dispõe para analisar é o seu próprio inconsciente, e percorrendo com outro a análise das resistências sempre inconscientes que pode acessar o conhecimento e

3 convicção sobre elas (Freud, 1912), enquanto que pode adquirir "certo refinamento de ouvido para o reprimido inconsciente" e a convicção na existência do inconsciente psicanalítico, diferente daquele da psicologia ou da filosofia. É necessário destacar a diferença na análise do candidato a analista de qualquer outra análise ou reanálise do psicanalista já formado, em quem está presente a capacidade de autoanálise desenvolvida na primeira, profunda e prolongada. A conveniência de sucessivas reanálises é parte da luta contra as resistências e embasa o conceito de formação permanente. Existe a liberdade de escolher colegas dentro da instituição ou fora dela, de acordo com suas transferências, e também analisar o porquê de uma ou outra escolha, os fantasmas persecutórios ou a confiança, seus conflitos com os pares ou com a instituição. Escolher com um compromisso de analisar tudo, evitando cair na negação ou outras defesas a serviço da resistência. A análise, chamada de didática porque transcorre, em meu entender, acompanhando todo o período de formação, enquanto assiste a seminários e realiza as supervisões oficiais itens que formam o tripé da formação estabelecida pela IPA e aceito pelas sociedades componentes é levada a cabo por um analista didata pertencente à instituição escolhida para a formação, e com experiência suficiente para prestar com responsabilidade seus serviços a quem a ele ela é confiada. A responsabilidade do analista substitui toda regra, regulamento, disposição ou mandato, ineficazes para legislar sobre o desejo. Da mesma forma, o acompanhamento com um analista didata não implica um como fazer, a aprendizagem de uma técnica a aplicar, mas compartilhar um diálogo clínico com um analista de maior experiência que o acompanha em sua interrogação sobre o desejo de se tornar um analista, a expressão da transferência e a contratransferência que se desdobra na sessão com o seu analisado, seus pontos cegos a partir da repressão, os complexos inconscientes e a angústia que pode desencadear-se diante de exposições trágicas na sessão. A apresentação escrita dos relatórios de supervisão é outra

4 enriquecedora maneira de elaborar o vivenciado na tarefa comum, e deve ser apoiada e incentivada pelo supervisor. Os seminários, eixo teórico da formação-transmissão, conjunto de conhecimentos que constituem a bagagem para a sistematização ou formalização de múltiplas intelecções a questionar, discutir e integrar em um corpo teórico sustentável. O estudo e a pesquisa da teoria, a clínica e a técnica da Psicanálise encontram no seminário um âmbito privilegiado, o espaço de discussão criativa, curiosa e entusiasta que se dá entre um analista em função docente e um grupo de candidatos; inter-relação entre aquele que se supõe possuidor de maior conhecimento e experiência psicanalítica, e os jovens colegas dispostos à leitura, discussão e elaboração de um texto escolhido para esta finalidade. Texto da obra freudiana, autores pós-freudianos, ou material e casos clínicos a discutir. No prefácio do livro comemorativo do 10 º aniversário do Instituto de Berlim, Freud salienta a importância de "procurar um centro para ensinar a teoria da análise, e onde a experiência de analistas veteranos possa ser transmitida a alunos ansiosos por aprender." Ensino da teoria e experiência que flui na transmissão de uma estrutura teórica fundada na prática psicanalítica, na construção de ideias e intelecções que são suporte teórico são das produções do inconsciente. Isto é, em seu aspecto formal o ensino transita pela instância Prec.-Cc., enquanto que a transmissão reconhece as formações do inconsciente, a sua produção articulada nas duas tópicas freudianas com todas as suas manifestações. O ensino da Psicanálise alcança seu efeito se ele tem caráter de ato psicanalítico, uma vez que todo discurso é sobredeterminado pelo inconsciente. Psicanálise, palavra multivocal que designa um procedimento terapêutico, bem como uma ciência do inconsciente psíquico (Freud, 1925) que hoje inclui toda manifestação somática.

5 Tradição remete a entrega e transmissão de um saber vivo que irá pela mão da invenção que permita imaginar e encontrar novos desenvolvimentos para aliviar o sofrimento humano em suas diversas apresentações, através da Psicanálise. Vai mais além das questões de época, culturais e circunstanciais. Eixo temático: Formação psicanalítica. Educação-Transmissão. Tradição e invenção no tornar-se psicanalista. Adriana Sorrentini Resumo: Este é um trabalho sobre o desejo de se tornar um analista e o atravessar das etapas necessárias contidas na proposta da IPA Análise, Supervisão e Seminários, tendo em conta os conceitos propostos de "Tradição" junto a "Invenção" e situando-os nos sentidos possíveis que concordam com nossa disciplina. Ambos os conceitos transcendem as dificuldades inerentes à Psicanálise em todos os tempos, à exigência de que seja cito, tuto, jucunde que tampouco constitui novidade, à pretendida resposta ao mercado de hoje em dia, e outras formas de resistência que desvirtuam nosso trabalho psicanalítico. A expectativa é que seja um estímulo claro para a discussão sobre a formação de psicanalistas e nossa capacidade e transmitir e entregar o nosso saber vivencial e teórico, a tempo de manter vivo o espírito inovador, capaz de inventar novas maneiras de abordar os fundamentos do legado freudiano às novas gerações de analistas e pacientes que formam a cultura de hoje. O inconsciente é atemporal, a consciência é a que percebe mudanças de época; saber lê-los e encontrar a forma de comunicar é a nossa missão.

6 DESCRITORES: Psicanálise; Transmissão; Inconsciente; Didático. BIBLIOGRAFIA Corominas J.- Diccionário etimológico de la lengua castellana. Gredos,Es Freud, S.- Contribución a la historia del movimiento psicoanalítico. (1914). AE, vol.xiv, BA. Arg..- Trabajos sobre técnica psicoanalítica ( ) AE, Vol. XII. BA, Arg..- Dos artículos de enciclopedia: Psicoanálisis y Teoría de la libido (1923) AE, vol. XVIII, BA, Arg..- Presentación autobiográfica (1925) Pueden los legos ejercer el análisis? Diálogos con un Juez imparcial (1926) Psicoanálisis (1926). AE, vol XX

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