ILDA E RAMON. - Sussurros de Liberdade - Romance

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1 ILDA E RAMON - Sussurros de Liberdade - Romance

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3 Mírian Cintra ILDA E RAMON - Sussurros de Liberdade - Romance São Paulo 2010

4 Copyright 2010 by Editora Baraúna SE Ltda Capa André Cintra Projeto Gráfico Alline Benitez Revisão Priscila Loiola CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C518I Cintra, Mirian Ilda e Ramon : sussurros de liberdade: romance / Mirian Cintra. - São Paulo: Baraúna, ISBN Romance brasileiro. I. Título CDD: CDU: (81) Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA Rua João Cachoeira, 632, cj.11 CEP Itaim Bibi São Paulo SP Tel.:

5 Ao Juquinha Cintra, meu pai, por me ensinar caminhos, sobretudo os do livro; À Meiri, minha irmã-amiga, sobretudo por ter pré visto um livro das minhas mãos, estimulandome a escrevê-lo; Ao André, meu filho, sobretudo por ter me levado à Xury; Ao Tânio, minha tardia retribuição. Meus agradecimentos à querida Arlete Moysés, que generosamente fez uma leitura crítica dos originais, muito me ajudando com suas observações.

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7 Sumário A vida visceral A Chegada O Inferno é Aqui Mesmo, o Céu Também Mina e Tatá Paris Manda Recado A Briga pela Vida A Vida Ganha Espaço e a Morte Também Minha Direita Não Está Vaga A Escolha da Velha Senhora Estácio E a Velha Senhora O Condão de Elisabete Da Chácara Xury à Ibyxury

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9 A vida visceral [...] Escrevo porque sou um desesperado e estou cansando, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. A Hora da Estrela, Clarice Lispector Não faz muito tempo Mírian comentou comigo: estou escrevendo um livro. Apesar da novidade, não foi uma surpresa. Pareceu-me natural que assim fosse. Dos muitos anos que nos conhecemos, mesmo com breves encontros, sempre imaginei que ela um dia seguiria o rumo da literatura. E eis a primeira cria. Primeira, certamente. Ilda e Ramon sussurros de liberdade é na verdade um grito visceral. Não é um sussurro. Aqui, a vida pulsa com a intensidade das tempestades: a vida da autora e a vida da narradora. Mírian e Mariana são um amálgama. Mulheres que carregam em si rebeldia, questionamento, paixão, dor e muita ternura. São mulheres que jamais saberiam viver no raso. É nas profundezas que elas se encontram. E a vida profunda é dilacerante tanto quanto as dores físicas vividas por Mariana. Com Ilda, Ramon ou com 9

10 Bei (seus bichos-companheiros) Mariana sangra corpo e alma. Parecem acidentes, mas não. Não existem acidentes nas vidas dessas mulheres. Elas fazem escolhas, abrem caminhos. Em meio ao quase-nada, fincaram seu lugar no mundo: a chácara Xury. Tudo por fazer. Construíram. Tudo por plantar. Semearam. O que era um refúgio do eu, se transforma em aconchego de muitos. Pois para elas, mesmo a mais íntima solidão é um exercício de solidariedade com o outro. A vida é para ser compartilhada, comungada... A vida é para ser profunda. Talvez toda a intensidade das vidas aqui narradas tenha nascido da junção de duas grandes paixões dessas mulheres: pela terra e pela liberdade. A paixão pela terra é algo que quase brota com elas. Oriundas dos rincões, criadas em fazendas e educadas ao sabor dos ventos impossível seria que não despertassem a outra paixão fundante em seus seres: a liberdade. Uma paixão finca raízes e alimenta o cotidiano. A outra paixão dá asas e alimenta a alma. Parecem caminhos contraditórios, mas não. São reveladores da beleza do humano ser. Quando essas mulheres trilham seus caminhos elas o fazem abrindo mata fechada. É uma lida dura, muitas vezes solitária, mas somente as gentes que têm os pés no chão e a cabeça nas nuvens conseguem. É caminhada de gigantes. É caminhada de mulheres ousadas. É a vida visceral. Com café e afeto, Jaqueline Lemos 10

11 1. A Chegada Ilda e Ramon chegaram à Chácara Xury alguns dias depois de Ernesto e por isso tiveram certa dificuldade em serem recebidos para uma permanência definitiva. Ernesto havia sido procurado, eles não. Chegaram sem qualquer chamado e tive alguma resistência em aceitá-los. Permaneceram em frente ao portão desde manhã, numa insistência sábia. Lembrei-me de que também comigo fora assim. Era quase noite, o mato sujo, alto, sem sequer uma trilha para se chegar à casa e intui que aquele era o meu lugar. Acabara a busca de mais de um mês por uma chácara, nas cercanias de São Paulo. A desculpa para a decisão foi o corretor ter afirmado existir uma nascente no terreno. Quis ver. O rapaz, com uma deficiência na perna, tinha dificuldade de descer até o tubo que indicava o olho d água. Fui, vi o tubo e comprei a chácara. Era urgente. Meu coração doía muito com a ausência do filhão que fora estudar em Londres, ali... depois do Atlântico. Minhas angústias, há muito, aprendera amenizá-las no colo da Terra. A chácara, já no próximo final de semana, foi batizada de Xury, apelido escolar do homenageado, o ausente tão presente André. A partir de então, iniciei um trabalho duro de preparar minha morada, sonho de muitos anos. Enquanto isso, continuei trabalhando em São Paulo, três 11

12 dias por semana, numa jornada que perfazia 40 horas, para manter as despesas que aumentaram bastante devido às exigências da chácara. Os quatro dias na Xury me alimentaram de energia durante todo o período londrino do meu filho, que expandiu os seis meses para dois anos. A dor da ausência era superada pelo trabalho que a Xury eficientemente sempre trouxe. Quando vim ver a chácara, pensei que a construção de um caminho, que permitisse o carro chegar até o pequeno chalé, seria a primeira coisa a fazer. O terreno era delimitado por uma cerca bastante precária. Na entrada, uma porteira, que logo pediria sua substituição, separava as árvores de um pequeno horto que fazia uma bela barreira encobrindo, com a ajuda da declividade, a casa, bem mais distante. Esta, construída por um artesão da madeira que soube localizá-la com perfeição, recebe Sol o dia todo. Após o portão, só havia um matagal, mas dava para perceber dois pés de limão, onde decidi plantar o pomar. Um pouco mais abaixo, o contorno de três canteiros me inspirou uma horta. No primeiro dia como dona do pedaço, descobri que havia algo ainda mais urgente, a troca da bomba que levava a água do poço precaríssimo até a caixa d água, localizada perto do que seria a horta e bem acima da casa. Esta localização era necessária para dar um pouco mais de pressão à água utilizada, sobretudo no chuveiro. A chácara não tinha energia elétrica ou qualquer outra infraestrutura básica. Achei que havia uma promessa inequívoca de beleza no lugar. A primeira noite, apesar da sujeira de meu próprio corpo e do chão-colchão, dividido com algumas aranhas, foi dormida graças à exaustão. 12

13 Mateus e Valéria, os dois garotos da Morada do Buda, a chácara vizinha, continuaram gritando: - Mariana, os gatinhos ainda estão aqui, no portão. Eles estão miando de fome. - Não posso ficar com mais dois. Não moro o tempo todo aqui e teria que carregá-los pra cá e pra lá. Já tenho o Ernesto que carinhosamente eu chamava de Nesto -. Depois de várias vezes, os garotos insistindo, acabei dizendo: - Tudo bem. Vou dar comida pra eles e pronto. Vocês podem trazê-los e me ajudar? Mateus, um lindo menino com seus 12 anos, pegou os gatinhos e empurrando Valéria, sua irmãzinha, desceu correndo para me entregar os novos moradores da Xury. Como a casa fica bem distante da entrada, cerca de 400 metros, foi quando os gatinhos chegaram perto que vi as pulgas pulando como se fossem enxame de mosquitinhos. - Teremos que dar banho neles, passar o pente fino, enxugá-los e depois dar a comida. Ainda bem que temos a ração do Nesto. O banho foi, rápido, no chuveiro com água morna. Os gatinhos, apesar de muito assustados, não causaram maiores estragos além de esparramarem água pelo banheiro todo. À época, lia uma biografia de Ernesto Che Guevara e o gatinho macho amarelo passou a ser chamado de Ramon, enquanto a fêmea, rajada de preto e branco, Ilda. Ramon e Ilda comeram com muito apetite e os garotos ficaram maravilhados pela grande vitória, pois perceberam que os gatinhos não mais sairiam da Xury e, assim, teriam muito tempo para brincar com eles. 13

14 Que belo problema! Nada entendia de gatos, embora já tivesse tido a primeira e dolorosa lição com o Ernesto, que chegou quase morto, depois de ser separado da mãe antes da hora. Teve que ficar dias dentro de uma incubadora improvisada, causando-me momentos de angústia. Não podia deixar os gatos dentro da casa que ficava fechada três dias por semana, não conseguiria viajar com os três e, agora, já não podia ignorá-los. Foi meu pai quem resolveu pregar, no alto de uma parede de fora da casa, numa área coberta, uma grande caixa de madeira, com acesso por um pau grosso que os conduzia até o buraco lateral, porta da casa. O refeitório foi montado sobre a caixa: três vasilhas com a ração e a água. Ramon e Ilda descobriram, rapidinho, o caminho de sua nova casa. Nos meus dias paulistanos, o refeitório era abastecido por Acácio que substituiu o sr. Pedro nos trabalhos da chácara. A mulher do sr. Pedro já havia feito o escândalo quando da chegada de Ilda e Ramon. Ela descobrira que a dona da chácara era mulher. Seu marido - um homem que chegava aos 60 anos, alto, magro, caladão, de quem a vida preferiu exigir muito e dar pouco recebeu sua visita inesperada, na chácara. Na minha ausência, veio até o portão e cometeu alguns gritos que pareciam recados para o mundo saber que marido meu num trabaia pra ninhuma otra muié. Quando, na 6ª feira, cheguei, o sr. Pedro me disse: - Tô indo imbora. Num guento a vergonha. Ele me contou o que havia acontecido. - Seu Pedro, eu não quero que o senhor vá. Quem deu o vexame não foi o Senhor. 14

15 - Vou. Tenho vergonha na cara. Insisti até quase à imprudência. Agradei, elogiei, nada o demoveu de sua decisão. Ele não me olhava, com os olhos pesquisando o chão, contou-me um caso complicado, de difícil entendimento. Parece ter agredido um dos homens da família, o sogro ou o cunhado. Algo que, se denunciado, poderia, segundo sua crença na chantagem da mulher, levá-lo para trás das grades ou apenas servia de justificativa para permanecer com uma esposa que lhe causava tanta vergonha. Lá se foi o homem que, no enxadão, em menos de uma semana, fez a estrada por onde, ainda hoje, a Preta uma caminhonete S10 que me carrega há um bocado de tempo me traz até a casa. Depois de algum tempo, o sr. Pedro apareceu por duas vezes. Uma para me trazer um presente, duas mudas de paineiras que foram plantadas no primeiro platô, logo na entrada da chácara. Após alguns anos ficaram altas e bonitas, mas ainda não floriram. Na outra vez, veio me pedir permissão para fazer, no terreno da Xury, um barraco para ele e a família morarem. Não pude atendê-lo, mas parece que o episódio que tanto o envergonhou estava esquecido. Ou aquele seu momento era ainda pior. Desta última vez, o sr. Pedro me contou que Ângelo, o rapaz que trabalhou apenas no primeiro dia quando cheguei à chácara, estava hospitalizado. - Hoje em dia, os moços gosta de vivê no perigo começou o sr. Pedro - O Ângelo mais aquele um que mora no quartinho, atrás da imobiliária do Km 60, usa muita coisa ruim, as droga que a polícia diz. Daí, devia uma grana, diz que era uma grana grossa, pros cara que vendia pra eles. 15

16 Foi lá buscá mais coisa sem um tostão. Num deu outra, o fulano lá da droga ficou fulo da vida e chamou os capanga pra batê neles. O Ângelo, quando viu os baita purrete dos home, saiu correndo, entrou no meio do mato, tropeçou num toco que não era toco nada, era um uriço-cachero. O moço ficô caído e o bichinho tacando espinho nele. Como caiu de cara no chão, os espinho ficou tudo naquele lugar. Também é mesmo um lugar macizinho, bom de pegá espinho. Ele gritou tanto que os home dos porrete largou o outro e foi vê o que era aquela gritaria. - Mais, não é que achei uma armofada de custurera cá no mato! - Ô Mané, ocê imbirutô? - Vem vê, João. - João e Mané se divertiu, rindo do coitado, de bunda furada. Com perdão da má palavra, né, Dona Mariana. - E o Ângelo está no hospital por causa dos espinhos? Pude, então, perguntar. - Puis num tá? Aquele lugar macizinho ficô furado e inchado, diz que até parece um travissero. É, dona, a senhora num sabe do que se livrou. - O sr. Pedro é que não sabia o que eu iria viver por culpa de um ouriço. Acácio veio substituir o sr. Pedro. Foi um desastre. Hoje sei o porquê. Era um empregado preguiçoso, não aceitava qualquer reclamação, mas me trouxe um presente que acabou sendo muito querido. Como a casa estava habitada por muitos bichinhos sob o império das aranhas, comecei a procurar um gato. Acácio me trouxe, dentro de um saco, um gatinho que mais parecia um rato, pequenininho, magérrimo e quase 16

17 morrendo. Para lhe inspirar o espírito de luta, mesmo aquela que parecia já perdida, dei-lhe o nome de Ernesto. Valeu, foi meu companheiro por cinco anos. Já morávamos em Guarulhos há mais de um ano quando Nesto sumiu. Passamos dias procurando por ele. Andava pelas calçadas, perto da casa, gritando Nesto, Nesto. Nesto foi um gato muito especial. Ele me acompanhava nas viagens e uma vez, na estrada da chácara para São Paulo, achei que ele queria fazer xixi. Parei o carro, abri a porta e Nesto saiu exatamente no momento em que uma carreta passava, fazendo o maior barulho, ele se assustou e correu para o mato e se escondeu, morrendo de medo do barulho da estrada. Tive de entrar num brejo para pegá-lo. Outro episódio difícil foi quando Ilda entrou no cio e Ramon brigou com um gato do mato. Depois de três dias, apareceu com a perna muito ferida e cheia de bichos. Deixei Nesto na Xury e levei Ramon para São Paulo. Ao retornar, entrei na casa com o Ramon, ainda convalescente, no colo, Ernesto rosnou, pulou para atacar Ramon e minha mão foi a vítima. Passei a noite urrando de dor, sem coragem de sair àquela hora da noite, dirigindo na estrada com chuva. No dia seguinte, voltamos Ramon e eu para São Paulo e foi bastante doloroso o processo de cura. Aprendi que mordida de gato é uma das mais doídas e perigosas, mesmo que o animalzinho seja sadio e vacinado. Posso, agora, afirmar que dói muito mais que a de cachorro. Acácio já entrou na Xury em desvantagem, pois o sr. Pedro foi um empregado eficiente, honesto, dava conta do recado e ainda esbanjava a sabedoria da experiência. Acácio, bem mais jovem, magro, nervoso, não era amigo 17

18 da enxada, da foice ou de qualquer ferramenta agrícola. Casou-se com Joana, uma jovem do bairro rural vizinho e construiu uma casinha no terreno da família da noiva, cuja aparência era contrastante à do marido. Joana era calma, quase apática, cabelos longos presos na nuca, saias abaixo dos joelhos, pouco esbelta. O casal demorou um pouco para se decidir se moraria perto da família dele ou da dela. Após mudar para lá e para cá, vendeu a casa e foi morar numa chácara perto da família dele. Joana teve uma batalha silenciosa. Queria ficar perto da mãe que lhe dava a segurança que o marido ainda não conseguia lhe passar. Venceu apenas o primeiro round. Após o parto da segunda filha, ficou muito fragilizada, a criança nasceu com um problema cardíaco e a ajuda da avó materna foi um alívio para a jovem família. No entanto, a avó tinha suas próprias crianças, marido e casa, e logo teve de retornar. No momento de sua saída, vendo filha e neta na cama, começou a chorar e pediu para que a filha e o netos fossem com ela. Voltaram todos. Joana se fortaleceu para, em seguida, engravidar novamente. Dessa vez, a gravidez foi trabalhosa, muitas visitas ao hospital e o parto, uma cesariana. A situação financeira ficou difícil com mais um filho e Joana com a saúde abalada. Acácio, indo visitar o irmão, viu uma tabuleta no muro de uma chácara precisa-se de caseiro. De volta à casa, falou para Joana: - Vou vendê esta casa e vamo morá de caseiro. Vi uma chácara que tá precisando. No domingo, vou lá conversá com o patrão. 18

19 Joana meio assustada tentou protestar: - Pai fala que a gente num deve de vendê casa de morá. - É preciso. As criança têm de comê. No domingo, ele foi ver o emprego que não era bem o que esperava. Ficou acertado que Joana tomaria conta da pequena chácara e Acácio ficaria livre para procurar outros serviços. Ele, por falta de dinheiro para pagar o conserto de sua velha moto, desmontou-a, descobriu o defeito, consertou-a e tomou gosto. Hoje, tem uma pequena oficina, lá mesmo ao lado da morada da caseira. É o mecânico que conserta nossas máquinas. Descobriu as ferramentas suas amigas. Meus pais vieram passar uma temporada comigo. Na realidade por pouco tempo, porque Mamãe já não suportava ficar muitos dias fora da sua casa. Papai, como sempre em todas as chácaras onde morei, me ajudou a transformar o terreno sujo no lugar de onde não quero sair. Também, como sempre, me chamou a atenção: - Para de plantar árvore, já são mais do que precisa. Você vai ficar sem Sol. Como ele tinha razão! Já tive que podar algumas árvores para permitir que outras tivessem acesso ao Sol. Um ipê, que plantei muito perto de outras, conseguimos levá-lo para a matinha da frente, num vazio feito pelo corte de cipós e folhagens. Agora estamos vendo a briga de uma jaqueira com um pinheiro-do-paraná e de um outro pé de pinhão com um abacateiro. A jaqueira vai perder porque a Xury não tem clima para as frutas tropicais. Já desisti de tentar ter manga, mamão, maracujá e caju, mas ainda estou insistindo com a cajá- 19

20 manga, cuja muda trouxe de Minas Gerais. É uma fruta ácida, cheia de fribras, difícil de comer, mas deliciosa, originária da Oceania. Papai resolveu limpar o terreno do outro lado do buracão. A chácara tem a marca de onde havia um córrego, cuja nascente era no terreno do vizinho que desmatou tudo, secando a nascente e todo o riacho. Acácio ficou, então, encarregado de trazer um auxiliar para roçar o mato. Trouxe seu sobrinho torto, Valdir, casado com Cecília, filha de um irmão de Acácio. Depois de uns 10 dias, Papai me disse: - O serviço para os dois já acabou. Manda embora o tio e fica com o auxiliar que é duas vezes melhor. Assim, lá se foi um péssimo lavrador que se transformou num bom mecânico e ficou um pedreiro que se tornou um excelente lavrador. Na realidade, Valdir foi aprendendo com as orientações de Papai e com alguns cursos - que eu propus e ele nunca rejeitou. Chegou a cuidar quase que sozinho da horta e do pomar orgânicos, do minhocário, das ervas medicinais, do apiário e da compostagem, além de resolver problemas de bombas e encanamento, fios elétricos e tantas outras complicações que uma chácara sabe apresentar. Valdir é sem dúvida uma pessoa especial. Mulato, magro, estatura média, calmo, honesto, muito responsável, gosta de aprender e descobrir as coisas, muito religioso, sendo o segundo na hierarquia de sua igreja evangélica. É de Iguape, litoral Sul paulista. Filho de pescador, tornou-se auxiliar de pedreiro após a morte do pai e veio ajudar a construir uma casa, aqui, em Ibiúna. No terreno, 20

21 onde a casa seria erguida, havia uma moradia tosca, de dois cômodos: uma sala-quarto-cozinha e um banheiro com chuveiro, vaso sanitário e uma torneira com uma balde à guisa de pia. Lá ficaram o pedreiro e seu auxiliar que também era o cozinheiro. A jornada de trabalho era puxada porque o patrão tá com pressa de se mudar. Uma semana após sua chegada, Valdir estava deitado, depois de lavar os teréns da janta, quando ouviu uma algazarra: gritos, risadas. Curioso saiu para ver o que era, uma menina, magrinha, com cerca de 1,50m, tentava ajudar uma senhora enorme, muito gorda a se levantar de uma poça de água. Lá estava caída, esparramada, toda suja de lama e um garotinho que parecia assustado, mas ria muito e, querendo auxiliar, deu a mão à menina e escorregou, levando os dois para junto da senhora, no chão, na lama. Valdir achou o quadro cômico, porém sentiu que devia ir lá e tirar aquelas pessoas da poça. - Primeiro eu tenho de ficar sério senão vai ficar é danado de ruim pensou alto. Tomou um copo de água e saiu correndo. Ao ver a menina que se levantava para, em seguida, ser levada de volta para a lama pela força da mulher caída, uma puxava para cima e o outra para baixo, não se controlou e deu uma bela gargalhada. A garota ficou muito brava e começou a bater na água suja. Valdir conseguiu levantar a gorda e elas saíram para um lugar seco da estrada. Ele ofereceu um pano para limparem o rosto e percebeu que havia uns olhos muito verdes e medrosos naquele rostinho aonde o marrom da lama ia cedendo lugar a uma pele muito branca. A zanga da garota fazia seus olhos 21

22 faiscarem de luz, lindos de morrer. A senhora agradeceu e pegou a mão das duas crianças e se foi andando o mais depressa que suas pernas podiam. Valdir viu que a garota não era assim tão criança. Entrou na casa e encontrou o pedreiro que quis logo saber da barulhada. - Ela deve ter uns 16 anos Valdir falou como se esta fala respondesse à pergunta do pedreiro. - Quem? - A moça que foi ajudar a avó e caiu também. Ele percebeu que havia ficado fascinado pelos olhos da branquinha. - Não sei o nome, então, é Branquinha. Hoje, 10 anos depois da chegada de Valdir à Xury, estávamos trocando a capota da Preta quando fui lhe entregar uma ferramenta, ele me disse: - Tenho companhia. Achei que havia chegado alguém e falei, rindo: - Este cachorro gosta muito de você. - Um bocado Valdir concordou orgulhoso. Bei estava deitado, ao lado dele, dentro da carroceria e lá ficou até que Bia latiu e os dois saíram na disparada para perto do portão de entrada. - A senhora já reparou que Bei não aceita que a Bia passe na frente dele? - É um machista, ciumento, egoísta, coisas próprias de macho! provoquei. Valdir sorriu não muito à vontade, como quem concorda, sem gostar. 22

23 - Está havendo um problema entre os dois que aparece à noite. Bei é o líder e não abre mão disso nem por um instante, mas, nas últimas noites, Bia tem deitado na cama dele, enquanto ele fica emburrado do lado de fora. Como se à noite ela é quem mandasse. - Deve ser coisa de marido e mulher - Valdir disse meio encabulado, pegando a chave de roda para continuar a briga com um parafuso teimoso. - Gostaria de entender a cabeça desses cachorros. Eles parecem entender mais a nossa do que nós a deles. - A senhora lembra? Quando fomos lá pra comprar eles e a senhora falou que o macho ia chamar Bei, que nem o cachorro de quando a senhora era menina, e eu dei o nome dela de Bia? - Valdir sempre lembra, vaidoso, que foi ele quem deu o nome à cadela. - É verdade. Eu não queria porque passou uma Bia ruim pela minha vida e... uma hora lhe conto. Eles nos têm dado muito trabalho, mas são a própria viabilidade da minha permanência na Xury. Enfim, depois de todas as cercas que me vi obrigada a fazer para eles não fugirem, para não pegarem os espinhos do demônio do ouriço, agora me sinto segura. - Com a cerca na casa e Bei e Bia, os caras não voltam não. - Pelo menos aqueles que entraram aqui, não mesmo. A gente sabe que foram jovens conhecidos que queriam qualquer coisa para vender por quase nada para comprar o seu craque. Acho que esses não vão mais querer enfrentar B&B. - É uma dupla boa. Parece mentira, mas os ladrões tão quase tudo morto. Nessa vida deles não duram mui- 23

24 to. Uns matam os outros, os que sobram morrem na mão da polícia. - Prefiro falar dos meus bichinhos. Valdir começou a rir e disse: - Bichinhos, heim?! - De inhos, eles não têm nada, não é? São muito eficientes. Bia com seu faro excepcional e Bei com toda a ferocidade... Você tem razão, formam uma dupla e tanto! Olhei para os cachorros e senti algo gostoso, parecido com gratidão. E Valdir, com o parafuso teimoso na mão, completou: - O pessoal morre de medo deles. Depois que Bei mordeu a orelha da senhora, aí é que o povo fala que o Bei é mais bravo que um petibu. Sempre que este assunto vem à tona, sinto um vazio no estômago. - Não gosto nem de me lembrar. Fiquei tão desesperada quando vi o Bei coberto de espinhos que só pensava em livrá-lo deles. Ele bem que me avisou, muitas vezes, que era para eu parar. Ele me empurrava, depois rosnou. Imagino a dor que o coitado sofreu antes de me morder! O veterinário me falou que só com anestesia para tirar o tal espinho e pela quantidade que foi teve mesmo que levá-lo para a clínica. - Diz que espinho de ouriço parece anzol, quando a gente puxa, ele sai rasgando e que anda no corpo. - Ai, nem fala, Valdir, morro de remorso, mas isso de espinho andar no corpo é crença errada. O corpo tem a tendência natural de expelir o que lhe é estranho, então, o espinho que entrou pode procurar um lugar para sair 24

25 e aparecer furando a pele. Você se lembra que depois de uma semana saíram dois espinhos da cabeça da Bia? E eu acho que o Bei ainda tem um espinho na perna. - É. Também acho. A veterinária tinha dado anestesia neles e tirado um monte. Pensou que tinha tirado tudo. Ó eles aí. Voltaram, estão cansados de tanto correr. A Bia é que nem a senhora fala, um doce. - O Bei também é carinhoso, mas só com os seus amigos de infância. Sentindo que falávamos deles, Bei veio me lamber a mão, enquanto Bia quase me derruba passando no meio de minhas pernas, a sua forma de pedir carinho. 25

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27 2. O Inferno é Aqui Mesmo, o Céu Também Fui a São Paulo levar a Preta para a vistoria de segurança do kit do gás. Ainda bem que o abastecimento desse combustível parece normalizado, pois teria problemas para manter minha companheira de tantas estradas se tivesse de suportar o preço da gasolina. Os Governos do nosso País e da Bolívia devem chegar logo a um acordo quanto ao fornecimento do gás boliviano e à atuação da Petrobrás naquele país vizinho. Quando retornei da viagem e parei em frente ao portão da entrada, Bei e Bia já me esperavam. A sensação de que cheguei ao meu ponto, meu lugar, é algo tão pleno, certo, gostoso! Ver a chácara tão bonita, transformada para me acolher, dá a sensação do acerto. Coloquei-me numa situação financeira bastante precária ao decidir me afastar do mercado de trabalho formal, devido a enormes contradições de valores ético-ideológicos com os meus superiores hierárquicos. Essa minha decisão trouxe algumas consequências dolorosas que foram se avolumando até envolver quase todos os aspectos de minha vida. Tive um tempo longo demais de total tristeza. Mais uma vez corri para me aninhar na mãe-terra, a minha Chácara Xury. 27

28 Aqui vivo com Ilda, Ramon, Bia, Bei e, durante os dias úteis, conto com o apoio do Valdir. Longe estou de me sentir só, bem ao contrário, sinto-me uma privilegiada por ter percebido o que era bom para mim no momento e lugar certos. Acabei, então, descobrindo que a sensação deliciosa de liberdade, de lugar adequado vem do simples fato do pensar, do sentir, do fazer começarem dentro de mim. Estou dizendo que o estar bem é possível e sua busca só pode começar com a nossa certeza de que o que queremos é nosso. Nossos sonhos começam em nós, mas, às vezes, são mascarados por valores alheios e demoramos muito para descobrir que algo nos dá mais prazer que outra coisa. O coletivo sempre foi e é relevante para mim, o que me levou a militar seriamente em causas exigentes do meu tempo, da minha dedicação e do meu partido político. Meus valores socialistas não mudaram. Entretanto, dói muito a percepção de que um partido político é apenas uma fração do todo que queremos mudar. Mesmo essa parte não é homogênea, como um todo, mas formada de pessoas diferentes, que nem sempre conseguem suportar a chamada intimidade com o poder. A falta de perspectiva é a dor maior. Um amigo me presenteou com o livro Marxismo sem Utopia do Jacob Gorender, onde encontrei, na sua atualização do marxismo, novo ponto de partida. Na medida em que fui entendendo a proposta do mestre, fiquei mais leve. Posso até voltar a ver uma nova forma de luta coletiva, porém percebi a importância da reflexão sobre as minhas causas e os métodos empregados. Dou a mim o direito de ter prazeres trazidos por todos os meus 28

29 sentidos, acariciados pelas flores do jardim, pelos passarinhos que, ao meu café da manhã, vêm me oferecer sua música, pelos bichinhos que, ao procurarem comida no pomar, me emprestam sua graça, como os esquilos que vêm apreciar as castanhas. Ai! Na última safra, a castanheira foi generosa. Colhemos uma quantidade enorme de castanha portuguesa e resolvi, numa inspiração pouco minha, criar algumas receitas culinárias. Tive dificuldade de sensibilizar meus amigos portugueses para uma ajuda efetiva com algumas receitas de marrom glacê. Como sou mais do sal, acabei conseguindo fazer um delicioso patê de castanha com berinjela. Até ofereci para algumas pessoas que aprovaram com honesto entusiasmo. Não dispondo de muitas berinjelas, pedi ao Valdir para semeá-las e, na minha santa ignorância, coloquei as castanhas para secar ao Sol, por vários dias, tendo o cuidado de recolhê-las ao final da tarde, mexê-las, virando-as para que secassem por igual, como se fossem grãos de café. Quando considerei que estavam prontas, as armazenei em um lugar fresco e seco. Algum tempo depois, enquanto aguardava as berinjelas, resolvi cozinhar algumas castanhas e ai, ai, ai que decepção! Todas secas, emborrachadas. Prontas para a compostagem! E eu não tive outra saída a não ser me preparar para a próxima safra. Os esquilos foram os que mais aproveitaram as castanhas da Xury. Valdir abriu o portão, parei o carro perto da casa, desci e o cumprimentei: - Tudo bem aqui, Valdir? 29

30 Ele, sempre atencioso, veio me ajudar com os inevitáveis pacotes de compras e respondeu do seu jeito tranquilizador: - Tudo. - Alguém ligou? - Só um seu João. - João?! - Ele disse que ligará outra vez, amanhã. - João do quê? perguntei esperançosa de não ser quem poderia me tirar do meu canto. - Seu João Oliveira. Anotei o telefone na agenda. Ele disse que está em São Paulo. - Está bem. Obrigada. Entrei em casa com uma sensação esquisita. Parecia que o meu lugar estava sendo invadido. Empurrei para longe as lembranças e chamei: - Ilda, Ramon. Eles vieram receber meu carinho e me puxar para longe das inquietações. Em seguida, fui dar comida para Bia e Bei. Valdir me perguntou: - Quando a senhora chegou, buzinou muitas vezes? - Duas e depois desci e toquei o cincerro. Para fazer o papel de campainha, colocamos um antigo cincerro no portão. Como tenho dificuldade de abri-lo, Valdir o faz para mim. Com muita seriedade Valdir me disse: - Bei achou que eu tava demorando e veio me buscar. Parecia que queria dizer ocê tá demorando, anda logo, vai abri o portão. Achei graça, Valdir chama os cachorros de meninos e, pelas brincadeiras dos dois, parece achar que Bei é um 30

MEU TIO MATOU UM CARA

MEU TIO MATOU UM CARA MEU TIO MATOU UM CARA M eu tio matou um cara. Pelo menos foi isso que ele disse. Eu estava assistindo televisão, um programa idiota em que umas garotas muito gostosas ficavam dançando. O interfone tocou.

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