Dez. Carlos Relva Charles Dias Joshua Falken Leonardo Carrion Ubiratan Peleteiro. Bia Nunes de Sousa

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1 Dez TRIPULAÇÃO Aguinaldo Peres Carlos Relva Charles Dias Joshua Falken Leonardo Carrion Ubiratan Peleteiro PASSAGEIROS ESPECIALMENTE CONVIDADOS Douglas Eralldo Karen Alvares Rita Maria Felix da Silva Sabrina Picolli da Silva Zé Wellington NOVAS DICAS PARA ESCRITORES COM Bia Nunes de Sousa

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3 Editorial 4 Revista de Ficção Científica Número 06 - Dezembro 2013 Coordenação e Edição CHARLES DIAS Revisão BIA NUNES DE SOUSA Editoração CARLOS RELVA Para contatar os autores: Aguinaldo Peres Bia Nunes de Sousa Carlos Relva Charles Dias Douglas Eralldo Joshua Falken Karen Alvares Leonardo Carrion Rita Maria Felix da Silva Sabrina Picolli da Silva Ubiratan Peleteiro Zé Wellington Ilustração da capa: Victor Flk Negreiro Os mortos caminharão sobre a terra [artigo] Sabrina Picolli da Silva 5 Violência doméstica no Natal Zé Wellington 10 Trégua de Natal Aguinaldo I. Peres 14 O Peru de Natal Carlos Relva 20 Feliz Vermelho Karen Alvares 30 Desejo a vocês natais mais felizes Charles Dias 36 Missão rotineira Joshua Falken 44 Necromania Rita Maria Felix da Silva 52 A guerra dos inomináveis Leonardo Carrion 56 O número um Ubiratan Peleteiro 78 Desconectados Douglas Eralldo 88 Revisório Bia Nunes de Sousa 93 3

4 Confesse que por esta você não esperava: uma semana depois de lançarmos a quinta edição da Revista Black Rocket que atingiu a marca de mais de dois mil downloads em apenas quarenta e oito horas, publicamos esta edição especial de Natal. Esta é a primeiríssima edição de contos de ficção científica com a temática Natal Zumbi lançada no Brasil. É a Revista Black Rocket inovando como sempre! Assim, o sucesso de nossa missão é total: surpreendemos nossos leitores com este ataque duplo de excelentes contos de ficção científica 100% brasileiros e conquistamos a todos definitivamente. Por que juntar natal e zumbis para esta edição especial? Primeiro, porque os zumbis nunca foram tão populares. De personagens desprezados, ganharam os holofotes e se tornaram estrelas. Segundo, porque, de todas as épocas do ano, o Natal durante um apocalipse zumbi seria muito mais duro para os coitados que lutam pela sobrevivência. Esta edição, com toda certeza, será uma ótima companhia para o seu Natal, um lembrete para aproveitar esta época antes que os parentes passem a te ver como parte da ceia e você se sinta como o pobre Godofredo. Não sabe quem é o Godofredo? Então leia esta edição da Revista Black Rocket e descubra da melhor maneira. Charles Dias Coordenador e Editor 4

5 PASSAGEIRO ESPECIALMENTE CONVIDADO Os mortos caminharão sobre a terra: a trajetória dos zumbis na história, na tradição e na ficção Detentores de todos os holofotes da ficção científica nos últimos anos, os zumbis, cujas origens históricas e folclóricas podem ser remontadas até os tempos bíblicos, estão longe de ser um fenômeno recente. Ainda que sua popularidade e sua presença no imaginário popular se devam, em especial, às obras de George Romero e, mais recentemente, ao hit das HQs adaptado para a TV The Walking Dead, de Robert Kirkman, a mitologia desses seres envolve rica simbologia e abre espaço para amplas discussões em várias áreas do conhecimento. Origem: o zumbi histórico A palavra zumbi é de origem africana e historicamente tem o significado de essência da alma, a centelha mais pura da existência, sem a influência de nenhum outro aspecto cognitivo. Não há muitos pontos em comum para comparação entre o estereótipo do zumbi de hoje e aquele que surgiu a partir das crenças e rituais relacionados aos povos afro-caribenhos praticantes do vodu: atualmente, o zumbi é descrito como um ser que morreu, foi enterrado e posteriormente retornou à vida por meios não conhecidos, em estado catatônico, desprovido de personalidade e guiado por instinto. Por sua vez, o zumbi oriundo do vodu caracteriza-se como a pessoa morta que é ressuscitada por um sacerdote ou feiticeiro e se torna seu servo, incapaz de expressar vontade própria. A finalidade do zumbi no contexto histórico-cultural caribenho era a servir como mão de obra escrava, em especial na lavoura, e tal era a justificativa para sua criação. Algo completamente diferente da ideia que domina o imaginário dos fãs de ficção científica. Zumbi real? Um dos primeiros registros sobre zumbis foi um artigo escrito pelo jornalista e antropólogo Lafcadio Hearn para a Harper s Magazine em Ele passou dois anos na Martinica recolhendo histórias locais, e sua atenção foi imediatamente captada pelos mortos que ca- - 5

6 minham, que acabaram sendo o fio condutor de sua reportagem, a despeito de toda a relutância por parte dos povos caribenhos em fornecer mais detalhes sobre o assunto. Ao longo da década de 1980, o antropologista e botânico canadense Wade Davis passou quatro anos no Caribe, três deles no Haiti, estudando os fundamentos da zumbificação relacionada aos rituais vodu. Em seus ensaios A serpente e o arco-íris (1985) e Passagem das trevas: a etnobiologia do zumbi do Haiti (1988), ele descreve a administração e os efeitos de pelo menos duas drogas uma neurotóxicas, a tetrodotoxina (TTX) e outra dissociativa, derivada da Datura, que causam, respectivamente, um status de morte aparente, que permite o enterro do indivíduo e a reanimação em um período de cerca de oito horas, e um estado de confusão mental e dissociação da realidade. Isso tudo associado à crença local e seus efeitos psicológicos levaria o zumbi a aceitar sua nova condição de trabalhador escravo. Os trabalhos de Davis foram bastante criticados pela comunidade científica, que não os ratificou em momento algum. Atualmente trabalhando como explorador da National Geographic, Wade Davis ainda sustenta a validade de seu trabalho e afirma que o intuito de sua pesquisa não é mostrar que exista uma linha de produção de zumbis no Haiti, mas que o conceito se baseia em algo real. A teoria do zumbi farmacológico voltou à tona recentemente, quando a imprensa divulgou o surgimento de novas drogas recreativas sintéticas (uma delas foi denominada sais de banho nos Estados Unidos) capazes de gerar comportamentos de violência extrema, quadros psicóticos com dissociação da realidade e atos de canibalismo que, rapidamente, foram comparados ao comportamento zumbi, mas dessa vez levando em conta a definição de zumbi midiático que veremos a seguir. O zumbi midiático Os zumbis nunca tiveram o mesmo status dos lobisomens e dos vampiros, que contavam com amplo retrospecto cultural e folclórico e apresentavam em seu currículo várias lendas e até mesmo livros, a exemplo de Dracula, de Bram Stoker. Considerados irrelevantes no cenário da indústria cinematográfica ligada ao terror, os zumbis acabavam sendo os protagonistas de filmes de baixo orçamento ou quando se desejava mostrar o pior cenário de terror possível. White Zombie Foi em 1932, com White Zombie, estrelado por Bela Lugosi, que os zumbis ganharam as telas dos cinemas pela primeira vez, após o sucesso tímido das produções de terror iniciadas na década anterior. Uma aposta ousada dos produtores Victor e Edward Halperin, tanto em termos de investimento quanto em relação à incerteza da aceitação do projeto. Filmado em onze dias e com um orçamento de 50 mil dólares, o filme acabou sendo um sucesso inesperado, rendendo cerca de 8 milhões de dólares em bilheteria. Estes números tornam-se ainda mais impressionantes quando lembramos que a estreia ocorreu no período póscrise de 1929, em uma época em que a população americana já estava previamente aterrorizada pela Grande Depressão. Se o contexto histórico foi uma das influências para o filme ou se o sucesso pode 6 SABRINA PICOLLI DA SILVA

7 ser atribuído ao estado de terror da população americana naquele momento, ainda é motivo de debate. Naquela época, os zumbis ainda eram inspirados pelo que se conhecia das crenças caribenhas. Muitas produções de baixa qualidade surgiram após White Zombie, condenando os filmes de terror por décadas à má fama. Até 1964, com I eat your skin, de Del Tenney, não seríamos apresentados ao zumbi com características canibais e, portanto, mais próximo da imagem que temos na atualidade. Mais uma vez o contexto histórico precedeu à ressurreição do gênero. A Guerra Fria, o anticomunismo e a caça às bruxas, a rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética e o temor da ameaça nuclear deixaram marcas na indústria cinematográfica e, consequentemente, nos filmes de terror, que adotaram nuances de ficção científica e deixaram para trás em defini- tivo o zumbi haitiano para entrar em um universo ficcional completamente diverso. Da mistura de extraterrestres e zumbis (como em Invasores invisíveis, de 1959) a outras obras pouco dignas de nota, o caminho estava pronto para a grande virada, que viria em 1968, com George Romero e seu A noite dos mortos-vivos. Com baixo orçamento (114 mil dólares), praticamente pago do bolso dos produtores, A noite dos mortos-vivos alcançou, no mundo inteiro, uma bilheteria aproximada de 30 milhões de dólares. Romero consolidou a figura do zumbi como um canibal de movimentos lentos e marcha arrastada, irracionais e, de certa forma, letárgicos. Aqui também consolida-se o estereótipo da aparência zumbi: esfarrapados, fétidos, corpos decompostos e, com frequência, perdendo pedaços. Os filmes de Romero trouxeram novo fôlego ao gênero terror, não poupando o público de cenas sangrentas, corpos despedaçados e cabeças destruídas. Romero também trouxe outra conotação ao zumbi, totalmente afastada do mito original que o inspirou: o de representante de pesadas críticas sociais dirigidas ao mundo contemporâneo. Tanto nesse filme como nos que o sucederam, Romero parte da premissa de que o zumbi não passa de um reflexo da humanidade, sendo considerado o ser humano em seu mais alto grau de pureza, livre de todas as imposições sociais. O holocausto zumbi retratado em seus filmes mostra seu descrédito no contexto social americano da época, no governo americano e na defesa do país, não poupando críticas também à sociedade de consumo e ao preconceito. Romero, ao longo de suas obras, parece deixar bem claro o tempo todo o quanto já estamos vivendo o apocalipse zumbi, ainda que não haja corpos em decomposição perambulando pelas ruas e atacando pessoas, elevando o entretenimento e a adrenalina gerada pelos filmes de terror ao patamar de reflexão. O cenário de desolação e a completa desesperança da raça humana tiveram em sua obra a sua mais forte metáfora. O zumbi de Romero também sofreu adaptações ao longo dos anos, ao, por exemplo, transformarem-se em seres dotados de velocidade (Extermínio, 2008) ou mesmo alguma A noite dos mortos-vivos OS MORTOS CAMINHARÃO SOBRE A TERRA 7

8 Guerra Mundial Z capacidade cognitiva, como o uso de ferramentas (Dia dos mortos, 2007), ou de comunicação e planejamento de objetivos (Survival of the Dead, 2010), chegando à extrema velocidade e violência (Guerra Mundial Z, 2013). As teorias sobre o surgimento dos zumbis também cortaram definitivamente seus laços com suas origens haitianas, sendo atribuídas mais frequentemente a infecções por vírus mutantes ou criados em laboratório, influências extraterrestres ou castigo divino; em muitos casos, nem se fala em uma possível origem. Também há grande variação nas espécies que podem ser atingidas pela zumbificação, que pode ser exclusivamente humana ou extensiva a outras espécies, animais e vegetais, como nos jogos da série Resident Evil. Os zumbis na atualidade Ao que tudo indica, a partir de 2010, finalmente os zumbis conseguiram conquistar o mesmo status de vampiros, lobisomens e outras criaturas fantásticas, e tudo começou com a adaptação para a TV da premiada história em quadrinhos do escritor americano Robert Kirkman. A série The Walking Dead estreou na televisão em 31 de outubro de 2010 e, desde então, vem quebrando recordes de audiência; no presente momento, é a série de televisão de maior audiência na história da TV americana. A saga de Rick Grimes e seu grupo de sobreviventes, em um cenário pósapocalíptico, no qual toda a civilização como a conhecemos desapareceu e a Terra está tomada por zumbis, chamados na série de walkers, foi recentemente criticada por George Romero, que referiu-se a ela como uma novela que, de vez em quando, mostra zumbis ; Romero considera que os produtores se afastaram completamente do zumbi enquanto crítica social criado por ele. Público e crítica especializada, no entanto, não compartilham a mesma opinião de Romero. Para eles, o foco, de fato, não são os zumbis, mas sim a natureza humana e as perguntas existenciais que eventualmente nos fazemos: em uma situação de extremo perigo, quem realmente somos? Quais serão nossos valores? Qual o lugar da ética e da moral em um mundo que já não é mais aquele que conhecemos? Os zumbis, nesse contexto, não são mais apresentados como veículos de uma crítica The Walking Dead 8 SABRINA PICOLLI DA SILVA

9 social, mas sim como a concretização de todos os nossos maiores temores, a personificação de todas as situações ameaçadoras que colocam em xeque nossas crenças, até mesmo naquilo que somos; passaram a ser uma metáfora do mundo em que vivemos e do horror que nos faz perder o sono, sob diversos aspectos. Essa é a visão que, declaradamente, todos os que estão envolvidos na série são unânimes em defender. A despeito de quaisquer diferenças ideológicas, The Walking Dead também busca inspiração, em parte, nos zumbis de Romero o que não é novidade, uma vez que Gregory Nicotero, produtor executivo e responsável pelo departamento de maquiagem e efeitos especiais da série,começou sua carreira em Terra dos mortos (1985). Os zumbis no cotidiano Graças a esse grande sucesso, a figura dos zumbis curiosamente também tem sido utilizada com finalidade educacional e de orientação à população. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência federal americana, lançou uma série de materiais em seu site visando orientar as pessoas sobre o que fazer e como se preparar para o apocalipse zumbi, acrescentando que tais medidas podem e devem ser tomadas em caso de outros tipos de desastres, tais como terremotos, guerras, ataques terroristas, tsunamis, tornados etc.. Ou seja, uma maneira bem humorada de orientar e preparar a população para a ocorrência de todo e qualquer desastre. Mais recentemente a Universidade da California/Irvine lançou um curso online de quatro semanas chamado Society, science, survival: Lessons from the AMC s The Walking Dead [Sociedade, Ciência, Sobrevivência: lições de The Walking Dead], que aborda todos os aspectos científicos, médicos, sociológicos e antropológicos apresentados pela série de TV, com vasto material e palestras de especialistas nas mais diversas áreas do conhecimento. É o apocalipse zumbi como fator de promoção da cultura geral e do estudo em vários âmbitos. Não pode deixar de ser citado também o popular The Zombie Survival Guide [Guia de sobrevivência zumbi], de Max Brooks, um manual de sobrevivência totalmente geek e cercado de zumbis por todos os lados, leitura obrigatória para os fãs de terror e ficção científica e que, de uma maneira descontraída, atinge o mesmo objetivo ainda que não propositadamente das páginas zumbis do CDC. SABRINA PICOLLI DA SILVA é apaixonada por cultura pop, terror, literatura e Comic Con. É, orgulhosamente, membro da equipe de tradução e de criadores de conteúdo do fansite brasileiro walkingdeadbr.com. É formada em medicina e estudante de fotografia. OS MORTOS CAMINHARÃO SOBRE A TERRA 9

10 PASSAGEIRO ESPECIALMENTE CONVIDADO Zé Wellington Um pesadelo que parecia ter ficado no passado precisa ser enfrentado novamente quando os mortos começam a caminhar sobre a terra. Zé Wellington é administrador por formação, escritor por paixão. Quadrinista amador, nerd profissional. Com a banda Sobre o Fim, lançou dois trabalhos, participou de diversos festivais musicais regionais, incluindo a seletiva nordestina da VANS TOUR 2009, e obteve o primeiro lugar no Concurso Bem-Vindo Clube Empire Records. Nos quadrinhos, é o criador e roteirista do projeto Interlúdio, indicado ao Troféu HQMIX 2010 na categoria Melhor Edição Única Independente. Tem participado de diversas coletâneas e revistas especializadas em literatura fantástica e quadrinhos. 10

11 Quando deu a notícia no jornal na TV, a apresentadora não evitava olhar torto para seu colega e marido do outro lado da bancada. Imaginava como estariam os trigêmeos em casa, aguardando os pais para a ceia de Natal. Estão por todo o planalto. O Ministério da Defesa ainda não se pronunciou, mas acredita-se que se trate de algum experimento descontrolado. Que Deus nos ajude. Boa noite. Encerrou categórica e sem conseguir evitar um soluço. Foi seguida de um boa-noite ainda menos animado do outro jornalista. Em casa, Penha estremeceu. O dia sobre o qual o pastor sempre falara havia chegado. Podia ficar tranquila, tendo pagado o dízimo religiosamente em dia nos últimos meses? Dispensou os convidados da ceia de Natal, sentou-se na velha rede e começou a rezar. Pela internet, especialistas especulavam a origem da infecção. Os primeiros casos, rapidamente isolados na China e na Índia, eram quase iguais no restante do mundo. Rússia, Japão, um caso isolado na Alemanha, mas suficiente para infectar Berlim inteira. A lógica apontava para um caso no Brasil nos próximos dias. No aniversário de um mês da aparição do primeiro morto-vivo, um gari do Espírito Santo teve um enfarto e, dois segundos depois de cair morto, avançou no pescoço de uma mendiga que, trinta segundos depois, deixou cair no chão o apetitoso sanduíche que tinha ganhado de um executivo e abocanhou seu bebê maltrapilho. Rapidamente as regiões sul e sudeste do país estavam dominadas, assim como Argentina, Uruguai e uma parte do Chile. Penha tinha desistido de ir à igreja logo na primeira semana. Nenhum monstro havia aparecido na sua cidade ainda. Sem monstros, sem mordidas. Sem mordidas, sem monstros. Simples assim. Com o exército barrando as entradas da cidade, aquele local parecia seguro. Foi quando ouviu que em alguns cemitérios os velhos mortos também estavam querendo levantar. Mandou Osmar Filho e Vera Lúcia para a casa de sua irmã. Sozinha em casa sentouse na cadeira de balanço e se pôs a tricotar. Não ia demorar. As maiores capitais do mundo estavam em quarentena. A ONU aconselhava a cremação de todos os que morressem durante aquele período. Houve protesto de diversos grupos religiosos contrários a transformação dos defuntos em cinzas. Nos Estados Unidos, duas igrejas pregavam a autotransmortização como um retorno aos primórdios e à inocência despida dos pecados capitalistas. Uma onda de suicídios se iniciou. Agora bastava morrer para se tornar um morto-vivo. A porta do quintal gemeu e Penha se agitou. Desajeitada, pegou a única arma que dispunha: uma velha vassoura de palha. Ficou tremendo atrás da porta, esperando, até o momento em que um gato preto entrou na sala. Respirou aliviada e pensou que deveria se preparar melhor para o que estava por vir. Com a infecção, as licenças para armas de fogo tinham sido dispensadas. Penha comprou um calibre trinta e oito, mesmo o vendedor oferecendo um modelo automático. Seu pai tinha tido um desses e uma vez até deixou que ela atirasse em uma porção de garrafas. Penha precisava de algo familiar naquele momento

12 Com as transmissões de TV interrompidas, as pequenas rádios AM locais eram a única forma de as pessoas ficarem atualizadas sobre a infestação. Eram cinco da manhã quando o repórter policial noticiou que um cientista indiano havia descoberto uma vacina à base de alho capaz de evitar a infecção. Não vai trazer de volta seu parente, mas vai evitar o súbito apetite por miolos caso você seja mordiscado disseram com palavras mais bonitas na coletiva de imprensa. Sem novas infecções, em um mês a população de zumbis tinha diminuído em sessenta por cento. Voluntários, a maioria caipiras das cidades interioranas sobreviventes, formaram o exército de espingardas que parou a proliferação dos desmortos. Em mais alguns dias tudo aquilo seria passado. Hollywood já tinha pelo menos três filmes engatilhados, um deles o inusitado ponto de vista de um zumbi, estrelado por Bill Murray. Era dia vinte e quatro de dezembro quando Penha ouviu as boas-novas no rádio, sentada no quintal de casa. Pensava em ligar novamente para as pessoas convidando-as para a ceia. Respirou devagar, deliciando-se com o cheiro das fezes do galo que criava no fundo da casa. Mal tinha se virado para entrar quando uma mão brotou do terreno arenoso e segurou seu calcanhar. Penha reagiu instintivamente chutando o membro, que parecia estar em estado avançado de decomposição. Correu para dentro de casa, mas antes de fechar a porta observou o cadáver levantar-se desajeitadamente. Ainda parece o mesmo bêbado de sempre, não conseguiu evitar pensar. Empurrou a velha máquina de costura à frente da porta e correu até seu quarto, desenrolando o trinta e oito de um velho lenço, primeiro presente de namoro. Podia ouvir o som da porta do quintal sendo esmurrada com violência. A última pancada pareceu ter derrubado a velha Singer no chão. Penha se posicionou no corredor. Queria encarálo. O invasor caminhava lentamente com a cabeça baixa, puxando uma perna. Penha tremia, mas mantinha a arma apontada para o defunto, que interrompeu sua caminhada e olhou nos olhos da desesperada mulher. Precisa engatilhá-la, meu bem disse o desmorto, com suas carcomidas cordas vocais. Penha deu um pulo para trás quando percebeu que ele podia falar. Como estão os meninos? O Osmarzinho ainda tá dando trabalho pra professora? prosseguiu o cadáver, puxando uma minhoca de dentro da boca. Comparado a isto, sua comida até que não é tão ruim continuou tagarelando com aquele meio sorriso irônico que Penha tinha aprendido a odiar. O zumbi sentou-se na cadeira de balanço no corredor da casa. Parecia tranquilo e à vontade enquanto olhava os enfeites de Natal. Pilhas de corpos eram queimadas em praças públicas sob muitas comemorações. Na televisão, várias pessoas diziam ter voltado da desmorte. Uma mulher lutava na justiça para continuar casada com um morto-vivo. Dois chineses anunciaram fábricas de calçados movidas a trabalho zumbi. Podia ser o fim da mão de obra barata e do trabalho escravo nos países subdesenvolvidos. Eu devia saber que cada surra que te dei foi pouca continuou o desmorto na sala de Penha. Achei que tu sabia onde era teu lugar e olha o que tu fez comigo no dia de Natal. 12 ZÉ WELLINGTON

13 Penha tentava respirar devagar e se concentrar quando alguém tocou a campainha. Era Tonico, vizinho da frente. Penha não queria abrir a porta e ter de explicar por que o cadáver do marido, que ela dizia ter fugido de casa sem dar explicações, estava ali, balançando-se na velha cadeira. Permaneceu em silêncio e mal percebeu quando o zumbi levantou-se rapidamente e agarrou-a pelo pescoço. Faz um ano, né? Tu bota veneno na minha comida e acha que eu vou deixar por isso mesmo? Vou te dar uma surra que você nunca mais vai esque... Antes que o zumbi pudesse terminar de falar, Penha enfiou o cano do revolver em seu olho putrefato. Atordoado, o morto-vivo cambaleou até a porta do quintal, onde Penha o acertou com sua panela de pressão, forçando-o a sair da casa. Ficou tentada a terminar o serviço com o trinta e oito, mas o barulho podia chamar a atenção do vizinho. Pegou a garrafa de álcool embaixo da pia da cozinha e despejou sobre o marido. Antes de acender o fósforo, Penha contemplou o desmorto por alguns segundos. Ele parecia incomodado com a ardência do combustível. O zumbi queimou durante pelo menos quinze minutos. Discursos decorados por cientistas condecorados se tornaram um clichê na televisão. Por um instante todas as guerras foram esquecidas e as diferenças entre raças e religiões pareciam nunca ter existido. O mundo parecia ter mais paz do que antes. Na ceia de Natal, as famílias mais unidas. À meia-noite, Penha chorava enquanto varria as cinzas do alpendre do seu quintal. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NO NATAL 13

14 Aguinaldo Peres Uma das mais terríveis guerras da história da humanidade termina de forma muito pior que qualquer soldado jamais imaginou. 14

15 A charrete sacolejou pela estrada de terra por alguns quilômetros até chegar ao chalé de dois andares próximo ao lago Wakapitu na província de Otago. O homem de terno e chapéu cinza subiu os degraus do alpendre e bateu na porta. Foi atendido por um senhor com mais de sessenta anos, barba e cabelos rajados de branco, olhos azuis, que vestia camisa branca, colete e calças de lã escuras. Esta é a casa do senhor Henri Walker? O velho estudou o visitante com cuidado. Você dever ser o repórter do Canberra Guardian. John Newman, ao seu dispor. Os dois homens trocaram um firme aperto de mão e entraram. Henri apontou uma cadeira à mesa de jantar rústica. Aceita uma bebida? Por que não? Foi um longo caminho desde Queenstowt. Meu uísque escocês acabou há muitos anos, mas esse DoubleWood não é mal. Henri encheu dois copos com o líquido dourado. John deu um bom trago. Pela janela viam-se os picos brancos dos Alpes do Sul. A Nova Zelândia é um bonito lugar... Nós, escoceses do norte, gostamos do frio e das montanhas. Isto aqui não me deixa esquecer o que perdemos por causa da Grande Guerra. John tirou do bolso do paletó um caderno e um lápis. É sobre isso que vim entrevistá-lo. O senhor estava lá em 1914? Durante a trégua de Natal? Sim, eu estava lá. Estava com os Gordons! Oitavo batalhão do primeiro Gordon Highlanders. Fomos mobilizados após a Batalha de Flandres. Desembarcamos em Calais no dia vinte e quatro de novembro e seguimos em marcha rápida até a Frente Ocidental. Henri sorriu. Foram os dois dias mais gloriosos de minha vida. Mais de quinhentos homens marchando sob o sol do final de outono francês. E eu ia à frente, como o membro mais novo do Corpo de Gaitas, intercalávamos a The Cock O the North com a St. Andrew s Cross. As pessoas deixavam seus afazeres e saíam de casa para nos ver passar. Crianças nos seguiam, mulheres lançavam flores. O velho soldado ergueu o copo num brinde. Aos Gloriosos Gordons! John acompanhou o brinde e aguardou em silêncio. Coisa bem diferente nos aguardava em Ypres. Acampamos numa fazenda nos arredores da cidade. A plantação sumira dando lugar a mato seco pisado, a casa exibia buracos de bala, o celeiro queimara até o chão. A cidade estava pior, quase reduzida a escombros pelos bombardeios de ambos os lados. Costumávamos brincar, dizendo que quem derrubasse o último prédio seria o vencedor. Como estava contando, acampamos e fomos direto para as trincheiras, que se estendiam de Paris ao Mar do Norte. Um labirinto de ratos para ratos, protegido com arame farpado e montes de terra, nunca fundo o suficiente para ficarmos em pé ou largo para deitarmos

16 Com a neve fria e úmida a região tinha se tornado um imenso lamaçal. Não foi preciso muito para descobrir que não eram somente as balas inimigas que matavam; bastava uma visita às enfermarias improvisadas. Henri encheu os copos. As trincheiras inimigas ficavam tão perto que podíamos ouvir os boches peidando. Na primeira semana xingávamos eles em inglês, na segunda em alemão e na terceira, já trocávamos cumprimentos e cigarros que lançávamos amarrados em pedras. O rosto do repórter denotava espanto. Acha estranha esse camaradagem entre inimigos? Pois fique sabendo que a guerra deveria ter terminada na Batalha de Marne se não fosse a soberba dos generais e dos políticos; os alemães não tinham força suficiente para conquistar a França ou nós para expulsá-los. Aquilo era uma briga de crianças birrentas que brincavam com a vida de milhares de soldados e civis. Enquanto isso, nós, os soldados, tratávamos apenas de sobreviver mais um dia nas trincheiras, nos escondendo das balas, dos obuses e das bombas de gás. Quando surgia algum comandante com ordens do quartel-general para tomarmos uma colina ou recuperarmos um riacho, fazíamos a nossa parte. Tudo tão inútil. O que conquistávamos num dia era perdido no outro e vice-versa, sempre ao custo de muito sangue, nosso e dos alemães. Ao final de cada escaramuça, somente nos restava a tarefa de erguer a bandeira da trégua e recolher os corpos. Por isso, não estranhe a nossa camaradagem. Éramos todos pobres-diabos, famintos, enregelados. Atolados na lama, lutando numa guerra sem fim, sem vencedores, esperando pela bala que nos levaria para casa. E então a guerra terminou lembrou John, sabendo que aquele era o momento pelo qual esperava. No Natal de As notícias corriam rápidas pelas trincheiras continuou Henri. Sabíamos que os ataques franceses ao longo da Frente Ocidental tinham fracassado por causa do mau tempo, que os alemães estavam reforçando suas defesas, que os britânicos estudavam a possibilidade de trazer tropas da África, que até o papa havia conclamado as nações que cessassem as hostilidade para celebrar o nascimento de Cristo. Ninguém queria lutar na neve e nos dois lados do front comentava-se sobre uma trégua de Natal, uma grande festa de confraternização, um movimento pelo fim da guerra. Isso deixou o Estado-Maior da Força Expedicionária preocupado. Então o major-general Aylmer Haldane convocou uma reunião da terceira divisão no dia vinte e dois de dezembro. Eu fui, acompanhando o tenente-coronel Kingsley Doyle. A reunião foi na sede de uma vinícola na região de Hazebrouck. No rádio, antes do encontro, o primeiro-ministro inglês conclamara os soldados à luta: Se não acabarmos com a guerra, a guerra vai acabar conosco. Foi uma reunião conturbada. Os comandantes dos batalhões estavam apreensivos, os soldados estavam cansados; a trégua seria boa para a moral das tropas. O Estado-Maior achava a situação um absurdo, uma ruptura na cadeia de comando. Os generais mais afoitos queriam uma grande ofensiva. Contudo, a solução final foi dada pelo MI10. O serviço secreto inglês? John perguntou, anotando os detalhes. 16 AGUINALDO I. PERES

17 Ele se identificou como capitão Smith, da Diretoria de Inteligência Militar. Suas instruções foram para que ninguém interferisse na rotina dos soldados, para que fosse mantida a normalidade no front. Ele também distribuiu aos oficiais uma caixa com fogos de artifício que deveriam ser usados na noite da véspera de Natal. Fogos de artifício? Era o que pareciam. Alguns oficiais chegaram a ficar ofendidos, mas o capitão Smith explicou que aquilo era uma nova arma desenvolvida por um americano chamado Howard Lovecraft. Já ouviu falar dele? Não que eu me lembre. Quando retornar à redação vou procurar nos arquivos. O que aconteceu depois? Nada. Os auxiliares pegaram as caixas e todos retornaram aos seus batalhões. As ordens vieram de cima, do próprio marechal John French. O dia vinte e quatro de dezembro amanheceu com chuva fria e fina, do tipo que escorre pelo capacete e entra por dentro do casaco. Os soldados se revezavam na vigília: olho no Fritz, dedo no gatilho. As trincheiras alemãs pareciam abandonadas. No almoço foi servida uma porção extra, a chuva parara. Os rifles e os morteiros permaneceram em silêncio. Sereno. Tranquilo. Aquilo foi muito estranho. No front nunca se está em paz, há sempre uma tensão no ar, a espera por um disparo ou uma explosão. Parecia um sonho, um dia de domingo ou feriado. Alguns homens fumavam apoiados nas armas, outros jogavam cartas onde o chão já estava seco. Ao cair da noite, algo começou. Nas linhas inimigas, surgiram pequenas luzes. Do nosso lado foi uma correria! Os soldados se posicionaram, rifles apontados, aguardando o ataque ou ordens para atacar. Contudo os oficias não sabiam o que fazer, eles apenas observavam pelos binóculos os alemães colocarem velas acessas ao longo da trincheira. Então eles começaram a cantar. Henri sorriu. Pode imaginar a nossa situação, escondidos e assustados, apontando nossas armas para alemães cantores. Os soldados caíram na risada. Alguém gritou: Feliz Natal, Fritzs! E de lá gritaram: Feliz Natal, Tommies! Outras saudações foram gritadas. Nossos homens largaram as armas e começaram a cantar, eu toquei Silent Night com a gaita. Não demorou para que saíssemos de nossos postos para cumprimentar os novos amigos numa noite de céu claro e lua crescente. Assim começou a Trégua de Natal. À meia-noite, ambos os lados saudaram os fogos de artifício. O Comando ficou estarrecido com as notícias, sempre existe alguém para dar com a língua nos dentes. Um grupo foi formado para vigiar o front e montar um relatório com o nome de todos os oficiais e soldados que ousassem confraternizar com o inimigo no dia de Natal. Antes que o dia amanhecesse, dois cabos, o tenente responsável pela operação e eu subimos uma colina próxima e nos abrigamos num ninho de metralhadora que estava abandonado por ser alvo fácil para a artilharia alemã. Pelos binóculos, observávamos a movimentação e informávamos ao tenente que anotava nomes, postos e atividades. O primeiro foi um oficial alemão que deixou sua trincheira e começou a atravessar o que chamávamos de Terra de Ninguém. Logo um capitão do regimento de Nottinghamshire TRÉGUA DE NATAL 17

18 saiu do nosso lado. Mas eles não se cumprimentaram, passaram um ao largo do outro sem se olhar. De ambos os lados, soldados deixavam suas trincheiras e caminhavam lentamente. Não havia alegria, não havia confraternização, eles apenas vagavam. E nos anotávamos. Então estourou o inferno. Disparos e gritos de horror, não das trincheiras; os sons vinham dos acampamentos, das enfermarias, dos ranchos. Corremos esperando encontrar alemães infiltrados, mas o que vimos foram soldados atirando nos próprios companheiros. E o que mais atemorizava era que eles não caíam, não gritavam, não sangravam; cambaleavam com o impacto das balas e continuavam caminhando, a pele pálida, a boca aberta, os olhos arregalados. Grunhindo baixinho e constantemente, eles não usavam armas, apenas as mãos e os dentes. Estavam mortos, e os mortos andavam e matavam os vivos que, mortos, voltavam a andar e matar, num círculo amaldiçoado e aterrador. No caos atirava-se nos mortos e nos vivos. Quando alguma resistência era organizada, provava-se inútil. Os malditos não se detinham, nem as granadas os paravam. Eles se arrastavam pelo chão ou seguiam sem partes do corpo, e quem fosse pego estava condenado. Fugimos. Não foi uma retirada organizada, simplesmente corríamos para o mais longe que podíamos, corríamos para casa, para a segurança. E pelo caminho pegávamos o que aparecia: comida, água, cavalos, carroças. Caíamos exaustos e lá ficávamos sem dormir, atentos, assustados, prontos para correr ao primeiro sinal de perigo. Quando cheguei a Calais, o porto estava caótico. Alguns oficiais tentavam impor a ordem e eram ignorados, escaramuças ocorriam ao redor dos barcos, e os fugitivos embarcavam ou tomavam qualquer coisa que flutuasse. Num desses distúrbios fui lançado ao mar, mas tive sorte: um grupo de soldados irlandeses me içou para o barco deles. No dia trinta de dezembro, desembarquei em Dublin. Henri esvaziou seu copo. Assim terminou a guerra. Para mim foi apenas um mês entre a glória, a desilusão e o desespero. John apertou o ombro do velho soldado. Fiquei vagando por Dublin por dois dias até conseguir transporte num cargueiro que ia para Aberdeen. Mas nunca cheguei à Escócia. A tripulação, com medo das notícias que chegavam pelo rádio, sequestrou o navio e rumou para os Estados Unidos. No porto, ficamos de quarentena; os ianques temiam que uma nova variante da raiva estivesse levando à loucura a população da Europa. O New York Times anunciava a queda de Paris e Berlim, os inimigos na guerra compartilhavam o mesmo destino. Henri suspirou. O resto é história. Você acha que a infecção foi causada pelos fogos de artifício do MI10? perguntou o repórter. Somente Deus sabe a resposta, os demais já estão mortos. Henri deu de ombros. Pode ter sido coisa dos boches, eles gostavam de fazer experiência com bombas de gás. Ou algum ato de desespero dos franceses, ou vingança dos belgas. No final, o primeiro-ministro Herbert Wells estava certo, aquela foi a guerra que acabaria com todas as guerras. Obrigado pelo uísque e pela história. John se levantou. Velhos soldados gostam de contar velhas histórias. 18 AGUINALDO I. PERES

19 Os dois homens trocaram um aperto de mão. Na saída, quando o repórter já se aproximava da charrete, Henri perguntou: É verdade que o Japão caiu? Ainda não há confirmação oficial, mas navios que passaram ao largo da costa japonesa informaram terem visto grandes nuvens de fumaça. O mar não é empecilho para eles; pode atrasá-los, mas não os detém. Que o Senhor tenha piedade da nossa alma. TRÉGUA DE NATAL 19

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