A RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM MEIOS DE HOSPEDÁGEM DE PARATY: UMA ANÁLISE EXPLORATÓRIA

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1 FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS CURSO DE MESTRADO EM GESTÃO EMPRESARIAL A RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM MEIOS DE HOSPEDÁGEM DE PARATY: UMA ANÁLISE EXPLORATÓRIA DISSERTAÇÃO APRESENTADA À ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE RAQUEL LENZIARDI Rio de Janeiro

2 Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Mario Henrique Simonsen/FGV Lenziardi, Raquel A responsabilidade social corporativa e o desenvolvimento sustentável em meios de hospedagem de Paraty : uma análise exploratória I Raquel Lenziardi f. Dissertação (mestrado) - Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas, Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa. Orientadora: Fátima Bayma de Oliveira. Inclui bibliografia. 1. Responsabilidade social da empresa - Estudo de casos. 2. Desenvolvimento sustentável - Estudo de casos. 3. Turismo ecológico - Estudo de casos. 4. Indústria hoteleira - Estudo de casos. I. Oliveira, Fátima Bayma de. 11. Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas. Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa Título. CDD

3 A RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM MEIOS DE HOSPEDAGEM DE PARATY: UMA ANÁLISE EXPLORA TÓRIA Por RAQUEL LENZlARDI Dissertação apresentada à Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas para obtenção do grau de Mestre em Gestão Empresarial sob a orientação da professora Doutora Fátima Bayma de Oliveira. RIO DE JANEIRO JUNHO, 2011

4 FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS CURSO DE MESTRADO PROFISSIONAL EXECUTIVO EM GESTÃO EMPRESARIAL DISSERTAÇÃO DE MESTRADO A RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM MEIOSDE HOSPEDAGEM DE PARATY: UMA ANÁLISE EXPLORATÓRIA. APRESENTADA POR: RAQUEL LENZIARD E APROV ADA EM: PELA BANCA EXAMINADORA,/,~){){L7~ Fátima' Bayma de Oliveira Doutor a em Educação ( Paulo Emílio lhos ~rtms Doutor em Administração de Empresas Doutor em Administração

5 AGRADECIMENTOS Agradeço a todos que me apoiaram antes. durante e depois do mestrado. tais como a minha família. amigos. namorado Bruno Pereira Seque ira e Verônica Mayer. Agradeço aos participantes da banca - professores Anderson Sant' Anna e Paulo Emílio Martins - a minha orientadora Fátima Bayma. por toda ajuda e por tornar a elaboração da dissertação algo mais leve. Agradeço a todos os meus novos amigos do mestrado. que me acompanharam em todo esse processo. que foi essencial para a conclusão do curso. Agradeço a todos os professores. pelo conhecimento compartilhado e pelos momentos de reflexão.

6 RESUMO Atualmente, há uma grande cobrança da sociedade para que as empresas privadas se desenvolvam de forma sustentável e responsável. ou seja. tenham práticas de Responsabilidade Social Corporativa (RSC). No turismo. esse debate é ainda mais eminente. pois muitas localidades vivem e dependem do setor. que ao mesmo tempo, traz muitos impactos nocivos. Algumas cidades brasileiras. como Paraty (RJ). revitalizaram a sua economia por meio do turismo. após longos anos de abandono. entretanto elas tentam manter o seu desenvolvimento de forma equilibrada. sem prejudicar as peculiaridades locais. Ao analisar os temas sustentabilidade e RSC. observa-se que os mesmos possuem uma literatura ainda em construção. com resultados fragmentados. pouco conclusivos e deixando muitas lacunas teóricas. Além disso. também há poucos estudos sobre a gestão hoteleira em Paraty. sendo este o principal subsistema do turismo. Sendo assim. esse estudo investigou de forma exploratória. operacionalizadas por meio de entrevistas em profundidade. qual a percepção e formas de atuação dos gestores dos meios de hospedagem de Paraty. localizados em seu centro histórico. Com isso. foram entrevistados gestores de oito meios de hospedagem da cidade. selecionados por faixa de preços. O universo desse estudo é composto por cerca de 30 pequenas empresas. Os dados foram analisados por meio da técnica de análise conteúdo. Os gestores foram os sujeitos entrevistados. porque são os principais decisores e promotores do desenvolvimento sustentável nesses empreendimentos. Concluiu-se que. as características dos meios de hospedagem estudados diferem de acordo com a sua faixa de preço. Ao mesmo tempo. independente das diferenças veriticadas. as formas de gestão. assim como a percepção e formas de atuação de RSC. se assemelham a estudos analisados em pequenas empresas. estes pouco abordados na Administração. Além disso. todos os gestores entrevistados têm consciência em relação aos aspectos positivos e negativos da cidade. dos impactos do turismo e das suas responsabilidades para minimizar/potencializar esses impactos. Apesar do seu conhecimento sobre a RSC não ser sistematizado e as suas formas de atuação não estarem incluídas no planejamento constante da empresa. os mesmos demonstram ter senso de cidadania, consciência e propensão em investir cada vez mais na gestão sustentável do turismo na cidade. Por fim. constatou-se que a percepção e formas de atuação desses gestores. não é exatamente convergente pelo que é proposto por grande parte da literatura de RSC e sustentabilidade. apesar de serem formas autênticas e concretas de promover um desenvolvimento sustentável e equilibrado.

7 ABSTRACT Nowadays. there is a huge demand of society for the private companies to develop in a sustainable way and to have practices of Corporate Social Responsibility (CSR). In tourism. this debate is even more imminent. as many eommunities live and depend on the sector. \\hich at the same time. brings many adverse impacts. Some Brazilian cities. like Paraty (RJ). revitalized its eeonomy through tourism. after long years of govern negleet. However they try to maintain its development in a balanced \\ay. \vithout harming the local peeuliarities. In analyzing the sustainability and CSR issues. it is observed that they literature is still under construetion. \\ith fragmented and inconclusive results. leaving many theoretieal gaps. In addition. there are fe\\ studies about the hotel management in Paraty. \\hich is the main subsystem of tourism. Therefore. this study investigates the pereeption and praetiees of CSR. that Paraty's lodgin managers made. It was studied in a exploratory way. operationalized through in-depth interviews. It was interviewed managers of eight lodging facilities in the historie eity. seleeted by price range. The universe ofthis study is eomposed of about 30 small businesses. The data \Vere analyzed using content analysis teehniques. It was concluded that the charaeteristies of the lodging facilities studied differ aecording to your priee range. At the same time, regardless of the differences. fonns of management. as well as the pereeption and practices of CSR are similar to studies analyzed in small tinns. that are rarely approached in Business. In addition. ali managers interviewed have a great awareness of the positive and negative aspects of the city. the impacts of tourism and its responsibilities to minimize / maximize these impaets. Despite their knowledge of the CSR is not systematic and its praetiees are not eonstant and included in eompany' 5 planning. the managers show that have a high sense of citizenship. awareness and propensity to invest more in sustainable tourism in the city. Finally. it \\as found that the forms of perception and action of these managers differs from that proposed for much of the literature on CSR and sustainability. although they are authentic and concrete ways to promote a balanced and sustainable development.

8 LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA I: Mapa da região da Costa Verde (RJ) FIGURA 2: Mapa do Município de Paraty FIGURA 3: Mapa dos bairros de Paraty FIGURA 4: Modelo do SISTUR FIGURA 5: Tipos de Meios de Hospedagem FIGURA 6: Curva de crescimento no número de estabelecimentos turísticos FIGURA 7: Quantidade de meios de hospedagem do município de Paraty por região FIGURA 8: Impactos positivos e negativos do turismo na economia FIGURA 9: Impactos positivos e negativos do turismo na sociedade FIGURA 10: Impactos positivos e negativos do turismo no meio ambiente FIGURA 11: Impactos positivos e negativos do turismo no meio ambiente FIGURA 12: Vantagens e desvantagens para o desenvolvimento sustentável por porte de elnpresa FIGURA 13: Formas de atuação de RSC em Paraty FIGURA 14: Lista de pousadas do centro histórico de Paraty FIGURA 15: Meios de hospedagem escolhidos e suas tàixas de preço FIGURA 16: Amostra representada geograficamente FIGURA 17: Variáveis e categorias estabelecidas a priori FIGURA 18: Variáveis e categorias do estudo FIGURA 19: Principais citações da categoria percepção positiva sobre Paraty FIGURA 20: Principais trechos da categoria percepção negativa de Paraty FIGURA 21: Principais comentários sobre os impactos positivos do turismo em Paraty FIGURA 22: Principais comentários sobre os impactos negativos do turismo em Paraty FIGURA 23: Citações sobre o conhecimento do conceito de RSC pelos gestores FIGURA 24: Gráfico de freqüência - RSC e seus âmbitos FIGURA 25: Citações sobre as formas de atuação de RSC nos meios de hospedagem de Paraty FIGURA 26: Citações sobre as "não ações" de RSC nos meios de hospedagem de Paraty

9 LISTA DE TABELAS TABELA 1: Quantidade de empreendimentos de Parat)'. por porte TABELA 2: Faixas de preço da amostra selecionada TABELA 3: Principais temas sobre Parat)' abordados de forma positiva TABELA 4: Principais comentários positivos sobre Parat)' por pousadas TABELA 5: Freqüência dos principais comentários negativos sobre Parat)' TABELA 6: Principais comentários negativos sobre Parat)' por pousadas TABELA 7: Percentual dos impactos do turismo mencionados nas entrevistas TABELA 8: Proporção da percepção dos impactos do turismo por pousadas TABELA 9: Quantidade de ações de RSC citadas pelos gestores TABELA 10: Quantidade de "não ações" de RSC citadas pelos gestores TABELA 11: Proporção da percepção dos impactos do turismo por pousadas

10 SUMÁRIO 1 O PROBLEMA Introdução Objetivos Suposições Delimitação do estudo Relevância do estudo REFERENCIAL TEÓRICO O município de Para~' Contexto histórico de Paraty O turislno eln Paraty Turismo e sustentabilidade Impactos econômicos do turismo Impactos sociais do turismo Impactos históricos e culturais do turismo Impactos ambientais do turismo Responsabilidade social corporativa (RSC) - Revisão conceitual Contexto histórico da RSC RSC no turismo e na hotelaria Percepções sobre a RSC e sustentabilidade em Paraty Formas de atuação de RSC e desenvolvimento sustentável em Paraty O turismo e as pequenas empresas Estudos sobre RSC em pequenas empresas METODOLOGIA Tipo de pesquisa Sujeitos de Pesquisa Coleta de dados Tratamento dos dados Limitações do método ANALISE DOS RESULTADOS Os meios de hospedagem selecionados: descrição e análise A percepção de Paraty pelos gestores Percepção dos gestores sobre Paraty: aspectos positivos... 78

11 4.2.2 Percepção dos gestores sobre Paraty: aspectos negativos Percepção dos gestores sobre os impactos do turismo em Para~' A RSC nos meios de hospedagem de Para~' A percepção dos gestores sobre a RSC Formas de atuação de RSC nos meios de hospedagem de Paraty CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS APENDICE

12 10 I O PROBLEMA o problema principal que essa pesquisa visa compreender é: qual a percepção e formas de atuação de gestores de meios de hospedagem de Paraty (RJ) em relação à Responsabilidade social corporativa (RSC) e ao turismo sustentável? 1.1 Introdução Atualmente. o turismo tem sido utilizado como estratégia de desenvolvimento econômico e social em muitas localidades no Brasil e no mundo. o que tem fomentado o seu crescimento (WORLD TOURISM ORGANIZATION. 2010: MINISTÉRIO DO TURISMO. 2011). Com isso. tanto o fenômeno turístico quanto a sua indústria tem sido importante tema de debates e pesquisa. No Brasil. podemos citar algumas cidades históricas. como Paraty (RJ) e Tiradentes (MG). que após um período de abandono nas últimas décadas. foram redescobertas e requalificaram as suas funções econômicas por meio do turismo. Isso foi possível porque elas possuíam o patrimônio histórico e cultural praticamente intocado. o que possibilitou investimentos públicos e privados no setor (FREITAG 2003: OLIVEIRA. 2010: SANT'ANNA. NELSON e OLIVEIRA. 2011). No caso específico da cidade de Paraty. após ficar alguns anos abandonada com a decadência do ciclo do ouro. cana de açúcar e café. a cidade voltou a se revitalizar com o avanço do turismo. intensificado com a abertura da estrada Rio-Santos na década de 70 (OLIVEIRA. 20 I O: MELLO. 2011). Como a cidade manteve aspectos singulares relacionados à natureza. artes. cultura e arquitetura urbana. ainda sendo protegida pelo Patrimônio Histórico Nacional. ela recebeu um forte investimento do setor. que contribuiu para a sua revitalização (GURGEL e AMARAL. 1973: MELLO. 1994: FREITAG 2003: OLIVEIRA. 20 I O: MELLO. 2011). Nesse período. um dos pnnclpals setores turísticos que cresceu na cidade foi a indústria hoteleira. Ao se observar a taxa de crescimento desses estabelecimentos nos últimos anos. percebe-se que ela cresceu de forma disforme. No final da década de 70. houve um pico de crescimento do setor. com um aumento de 22%. comparado ao ano anterior. Até a maior taxa de crescimento dessa indústria na cidade foi em onde a quantidade desses empreendimentos aumentou 38.46% em um ano (PREFEITURA MUNICIPAL DE PARATY. 2003).

13 11 Atualmente. esse crescimento está mais lento. entretanto. ainda ocorre. De acordo com dados oficiais obtidos pela Prefeitura Municipal de Paraty (2010). a cidade hoje possui 272 meios de hospedagem. Já o mesmo levantamento. realizado em apontou que a cidade continha 227 meios de hospedagem (PREFEITURA MUNICIPAL DE PARATY. 2003). ou seja. houve um aumento desses estabelecimentos de 20% em sete anos. No centro histórico. principal parte turística da cidade. existe cerca de 30 meios de hospedagem (PREFEITURA MUNICIPAL DE PARATY. 2003: 20 I O). Outra importante característica desses meios de hospedagens. é que apesar deles se diferenciarem pelo seu grau de sofisticação. são pequenas empresas. com poucas unidades habitacionais I (UH). dez em média. (PREFEITURA MUNICIPAL DE PARATY. 2003). Concomitantemente ao crescimento do turismo e da sua indústria. muito se tem discutido sobre o seu desenvolvimento sustentável. O conceito de desenvolvimento sustentável. por ser muito complexo. é muitas vezes utilizado de forma vaga e confusa na literatura (GLAVIC: LUKMAN. 2007). Ao analisar vários conceitos e termos ligados a sustentabilidade. Glavic e Lukman (2007). concluíram que a sua melhor definição seria: "a busca por um desenvolvimento que satisfàz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades". No turismo. o conceito de turismo sustentável. proposto pela World COl1sermrtion Union (2001 apllel Organização Mundial do Turismo (OMT) p. 245). converge para a mesma ideia: é "o processo que permite o desenvolvimento sem degradar ou esgotar os recursos que tornam possíveis o mesmo desenvolvimento". Ou seja. é o melhor aproveitamento possível entre potencializar os impactos positivos e minimizar os negativos. Entretanto. para que esse desenvolvimento sustentável seja possível. é necessário que as empresas turísticas atuem com esse propósito. ou seja. possuam práticas definidas como Responsabilidade Social Corporativa (RSC). Para Ashley et al.(2005) e para o Instituto ETHOS de Empresas e Responsabilidade Social~(20 II a). a RSC representa uma série de atitudes empresariais que. além do objetivo de gerar lucro. visam contribuir com o desenvolvimento econõmico. social e ambiental do local onde se inserem. Entretanto. definir RSC. assim como o conceito de sustentabilidade é muito complexo. pois é difícil determinar quais são os limites dessa responsabilidade e seus I "UH é o espaço. atingí\el a partir das áreas principais de circulação comum do estabelecimento destinado à utilização pelo hóspede. para seu bem-estar. higiene c repouso" (F\1BRATlIR. 2002). : Associação de empresários que \isa au:\iliar as empresas a aprofundarem seu compromisso com a responsabilidade social e o desen\ohimento sustentável (!~STITlITO ETHOS DE EMPRESAS E RESPONSABILIDADE SOCIAL b).

14 12 parâmetros são muito discutíveis e sensíveis. o que acaba sendo um desafio para os empresários de empresas privadas (GARNER p.50 aplld OLIVEIRA p. 204). Mesmo sem se saber ao certo o que é o conceito. muitos estudos retratam que a RSC tem sido cada vez mais valorizada pelos consumidores (MOHR e WEBB. 2005: INSTITUTO ETHOS. 2006: MANAKTOLA: JAUHARI. 2007: SERPA: FOURNEAU. 2007: LENZIARDI. MAYER e FERREIRA. 2010). pela comunidade (FILIPPIM: HOFFMANN: FEGER. 2006: LIMA. 2007) e por outros stakeholders (SEN. BHATTACHARYA e KORSCHUN. 2006). entretanto. pouco se sabe sobre a opinião dos gestores. Como os gestores são os principais tomadores de decisões dentro dessas organizações e. assim. os principais agentes promotores da sustentabilidade. é de extrema importância investigar se os mesmos conhecem e valorizam essas práticas. o que eles entendem sobre elas e o que procuram fàzer para implementá-ias. No caso específico da indústria hoteleira de Parat)'. composta por pequenas empresas e gerenciadas por poucos gestores. esse questionamento é ainda mais relevante. Sendo assim. em um contexto onde os temas sustentabilidade e RSC são vistos como mandatórios e como a solução para os problemas produzidos pela indústria do turismo. mas que ao mesmo tempo seus conceitos são estudados de forma difusa e vaga. questiona-se: o que pensam e como agem os gestores dos meios de hospedagem de Parat)' em relação a essa temática? De forma mais específica. vários questionamentos emergem: esses gestores. de fato sabem o que é RSC e sustentabilidade? O que eles acham que seja a RSC e sustentabilidade? Qual a importância do tema para eles? Eles executam ações de RSC nas suas empresas? De que forma e por quê? Quais são as suas principais dificuldades? Eles têm idéia dos impactos que sua empresa e o turismo promovem? Para eles. quais são esses impactos e quais são as suas responsabilidades perante a eles? O que eles fàzem e/ou podem fazer a respeito? Para isso. foi utilizada uma metodologia qualitativa exploratória. por meio de entrevistas em profundidade. com um roteiro semi-estruturado. Os pesquisados foram gestores de oito meios de hospedagem. de diferentes fàixas de preços. situados no centro histórico de Parat)'. Os resultados foram analisados por meio da técnica de analise de conteúdo. O estudo foi dividido em cinco partes: o primeiro capítulo introduz o estudo. explicita os seus objetivos - principal e intermediários - a sua delimitação e relevância. O segundo capítulo fàz uma revisão conceitual sobre os elementos que constituem os temas sustentabilidade e a RSC. assim como descreve a cidade de Parat)'. O terceiro apresenta a

15 13 metodologia geral da pesquisa. O quarto explicita a análise dos resultados obtidos nas entrevistas. O quinto e último capítulo consolida as conclusões e apresenta algumas sugestões para futuras pesquisas sobre o tema. 1.2 Objetivos O objetivo final dessa pesquisa é investigar qual a percepção e as formas de atuação dos gestores dos meios de hospedagem de Paraty (RJ) em relação à Responsabilidade social corporativa (RSC) e ao turismo sustentável. Para atingir esse propósito. foram desenvolvidos os seguintes objetivos intermediários: a) Descrever e contextualizar o turismo na cidade de Paraty: b) Analisar o conceito de sustentabilidade no turismo. assim como os seus principais impactos positivos e negativos: c) Analisar os principais conceitos. perspectivas teóricas e definições que se aplicam a RSC: d) Investigar empiricamente a percepção e formas de atuação de gestores de meios de hospedagem de Paraty. em relação à RSC. os impactos do turismo e sustentabilidade: e) Relacionar os resultados identificados nas pousadas estudadas com o que foi proposto pela teoria. 1.3 Suposições Como os meios de hospedagem de Paraty são pequenos empreendimentos. acredita-se que a percepção e formas de atuação dos seus gestores sobre o desenvolvimento sustentável e ações de RSC. são diferentes do que é encontrado na maior parte da literatura sobre o tema. que privilegia as empresas de grande porte (OLIVEIRA. 1984). A percepção é possivelmente diferente. porque os gestores de empresas pequenas são normalmente pessoas mais simples. que nào estudaram em grandes escolas de negócios e que tem dificil acesso a profissionais especializados. como consultores e professores. diferentemente dos gestores de grandes empresas (OLIVEIRA. 1984). Esse fato é ainda mais incidente em Paraty. que é uma cidade do interior. Assim. eles podem não estar atualizados sobre os principais debates sobre o tema. Além disso. os gestores de pequenos negócios.

16 14 principalmente de empresas familiares, estão mais preocupados com a manutenção da sua qualidade de vida do que com altas performances financeiras (PETERS; BUHALIS, 2004). Com isso, acredita-se que essas empresas costumam atuar de forma menos sistemática e racional, sem um planejamento estruturado. Entretanto, a sua atuação é mais voluntária e espontânea, normalmente comprometida com muitos âmbitos, principalmente o social, e não são divulgadas (OLIVEIRA, 1984). 1.4 Delimitação do estudo Para que os objetivos desse estudo sejam atendidos e para que as suas fronteiras sejam claras, é necessário que se destaquem algumas delimitações, que nesse caso são geográficas e conceituais. a) Delimitação geográfica O estudo foi realizado no município de Paraty, localizado no Estado do Rio de Janeiro, na região denominada Costa Verde (figura 1), composta pelos municípios de: Angra dos Reis, Itaguaí, Mangaratiba e Paraty, como indica o Serviço de apoio às micro e pequenas empresas (SEBRAE, 2008). Figura 1: Mapa da região da Costa Verde (RJ) Fonte: SEBRAE (2008) O município de Paraty é composto por três distritos: Paraty (Distrito-sede), que compreende as áreas do centro e arredores; Paraty-Mirim (2 Distrito) que abrange a face sul do município até a divisa com o Estado de São Paulo; Tarituba (3 Distrito), que vai da face

17 15 norte até a divisa com Angra dos Reis (PREFEITURA MUNICIPAL DE PARATY, 2003), assim como demonstra a figura 2. Esse estudo analisa uma parte específica do distrito-sede. Figura 2: Mapa do Município de Paraty Fonte: Prereitura do Rio de Janeiro (20 I O) Já os bairros de Paraty são: centro histórico e arredores (Pontal e bairros próximos ao centro), Caboré, Jabaquara, Patrimônio - Parati-Mirim, Portal das Artes, Paraty - Cunha e Trindade (PREFEITURA MUNICIPAL DE PARATY, 2003). Especificamente, esse estudo analisou os meios de hospedagem situados no centro histórico (figura 3).

18 16 \ " Patrimô nio \ + Trindade ' Paraty - M irim J '" '*' /. I I '* Figura 3: Mapa dos bairros de Paraty Fonte: PARATY. COM.BR (2011 a) b) Tipos de organizações estudadas As organizações analisadas especificamente nesse estudo foram os meios de hospedagem. Para a OMT (200 I, p.79) os meios de hospedagem são: "o sistema comercial de bens materiais e inatingíveis dispostos para satisfazer às necessidades básicas de descanso e alimentação dos usuários fora de seu domicilio" (OMT, 200 I, p. 79). Sendo assim, a função básica dos empreendimentos hoteleiros, que os diferem de outros tipos de negócios, é o serviço de alojamento (MEDLIK ; lngram, 2002). Apesar disso, os meios de hospedagem também costumam oferecer uma série de serviços complementares, como por exemplo, a alimentação (OMT, 2001). De acordo com a perspectiva sistêm ica do modelo de Beni (200 l), o turismo pode ser composto por três grandes conjuntos - conjunto da organização estrutural, conjunto das relações ambientais e conjunto das ações operacionais - e respectivamente por subconjuntos, denominados subsistemas - superestrutura, infra-estrutura, ecológico, social, econômico, cultural, produção, mercado, consumo e distribuição - que funcionam de forma integrada (BENI, 200 I) (Figura 4).

19 17 Os empreendimentos da indústria hoteleira estào inseridos no conjunto das ações operacionais. já que os mesmos fazem parte oferta e distribuição turística (BENI. 200 I). Os meios de hospedagem têm essa característica dupla (produção e distribuição). pois ao mesmo tempo em que produz o seu espaço físico (instalações. móveis. serviços). também o distribui. com vendas diretamente no hotel. por exemplo (BENI. 2001). Conjunto das relações ambientais 1 Conjunto da organização estrutural SIJ peres:rutu ra ) Conjunto das ações operacionais In fro ~str'.. t:j re:; Figura 4: Modelo do SISTL'R Fonte: Beni (2001. p, -(7) A quantidade e complexidade dos serviços oferecidos pelos meios de hospedagem dependem diretamente do seu tipo e no caso dos hotéis. da categoria. De acordo com a Deliberação Normativa n. 387 de 1998 os tipos básicos de meios de hospedagem podem ser definidos conforme ilustra a figura 5: TIPO Hotel Hotel histórico DESCRI ÃO Meio de hospedagem do tipo convencional e mais comum localizado em perímetro urbano. Tem como clientela especial a mista. com executivos e turistas. predominando ora uns. ora outros. É edificado em vários pavimentos. com partido arquitetônico vertical. A infraestrutura volta-se para serviços de hospedagem e. dependendo da categoria. revela alguma infra-estrutura para lazer e negócios. Meio de hospedagem instalado. total ou parcialmente. em edificação de valor histórico ou de significado regional ou local reconhecido pelo Poder Público e que. em razão disso. está normalmente sujeito a restrições da natureza arquitetônica e construtiva. localizados em

20 18 TIPO Hotel de lazer Pousada DESCRIÇÃO prédios. locais ou cidades históricas. tanto no meio urbano e rural. A edificação onde é estruturado. portanto. é prédio tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) ou de significado histórico ou valor regional reconhecido. A clientela deste tipo de empreendimento é uma clientela mista com executivos e turistas e com predominância variável de uns e outros. Sua infraestrutura. normalmente. está restrita à hospedagem. Meio de hospedagem normalmente localizado em áreas rurais ou locais turísticos fora do centro urbano. com áreas não edificadas amplas. em pavimento único com partido arquitetônico horizontal. Tem como clientela preferencial os turistas em viagens de recreação e lazer. Seu aspecto arquitetônico e construtivo. áreas. instalações. equipamentos e serviços são destinados a recreação e ao entretenimento. Meio de hospedagem localizado em locais turísticos normalmente fora do centro urbano. É edificado predominantemente. com partido arquitetônico horizontal e possui aspectos arquitetônicos e construtivos. instalações. equipamentos e serviços mais simplificados. normalmente limitados ao necessário à hospedagem do turista para aproveitamento do atrativo turístico junto ao qual o estabelecimento se situa. Predominantemente construído em partido arquitetônico horizontal. destina-se preferencialmente a turistas em viagens de recreação e lazer. Sua infra-estrutura volta-se predominantemente para a hospedagem. Figura 5: Tipos de T\.ICIOS de Ilospedagem Fonte: Elaboração própria a partir do \lll\isti~rio DO n IRIS\I0. Deliberação?\ormati\a (1998. p. 50). Nesse estudo foram analisados meios de hospedagem classificados como hotel histórico ou pousada. Ressalta-se. que o nome fàntasia do hotel não tem relação com essa classificação (ex.: um hotel histórico pode ser chamar "Pousada X'). c) RSC - âmbitos estudados Segundo Melo Neto e Froes (200 I) a gestão da RSC pode ter um âmbito interno e externo. No âmbito interno. a gestão da empresa se foca nos seus funcionários e dependentes. Já no âmbito externo. a gestão se refere aos aspectos sociais. econômicos e ambientais. Já de acordo com a OMT (200 I). o turismo traz impactos positivos e negativos no âmbito econômico. sócio-cultural e meio ambiente. Ainda de acordo com (FREITAG 2003: TORRENTES. 2007). no caso de cidades históricas. o turismo também pode impactar o patrimônio histórico.

21 19 Esse estudo. então. contempla o âmbito interno e as quatro abordagens externas a organização: econômico. social. histórico-cultural e ambiental. Sendo assim. se investigou quais desses âmbitos os gestores pesquisados valorizam e realizam ações de RSC. 1.5 Relevância do estudo Esse trabalho estudou o fenômeno turístico. porque ele tem sido um setor de grande destaque no Brasil. nos últimos anos. O turismo tem sido utilizado por várias cidades como estratégia de desenvolvimento econômico. o que tem fomentado o crescimento de sua indústria. compostas por vários tipos de empresas (agências de viagens. meios de hospedagem. companhias aéreas e rodoviárias. dentre outros). Além disso. no Brasil especificamente. dois grandes eventos esportivos de projeção mundial- a Copa do Mundo no Brasil em 2014 e as Olimpíadas no Rio de Janeiro em aumenta ainda mais o crescimento e as expectativas sobre o setor. assim como a sua complexidade de estudo. Outros dois temas que têm sido muito abordados na administração são os conceitos de sustentabilidade e RSC. Em um contexto na qual os impactos promovidos pelas empresas no ambiente (social. cultural. ambiental). estão sendo muito debatidos. é importante entender como é possível promover um desenvolvimento mais sustentável (OMT. 200 I) e se e quais responsabilidades as organizações privadas têm nesse sentido. O turismo é um setor muito sensível nesse aspecto. pois além de impactar vários âmbitos mais subjetivos (como a cultura e tradições. por exemplo) ele depende dos mesmos para sobreviver (OMT. 200 I). Nesse contexto. foi estudada especificamente a cidade de Paraty. por ser um exemplo de cidade que se revitalizou por meio do turismo e que hoje possui a sua economia fortemente ligada ao setor (FREITAG. 2003: PREFEITURA MUNICIPAL DE PARATY. 2003). Além disso. ela é uma das cidades mais visitadas pelos turistas estrangeiros no país (norte americanos e franceses) (MINISTÉRIO DO TURISMO. 2009). Na cidade de Paraty. foi estudado o seu centro histórico. tanto por facilidade logística da pesquisa. quanto porque é nele que se concentram as principais características que tornam o destino peculiar. como a arquitetura colonial e principais pontos turísticos (PREFEITURA MUNICIPAL DE PARATY. 2003: PARATY.COM. 2011a). Dentre os vários subsistemas da indústria do turismo (BENI. 2000). foram estudados os meios de hospedagem. Esses empreendimentos são considerados os mais importantes do

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