DOAÇÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DE DOMÍNIO PÚBLICO: EXEMPLO DE POLÍTICA FLORESTAL COMPENSATÓRIA QUE PROTEGE A BIODIVERSIDADE

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1 DOAÇÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DE DOMÍNIO PÚBLICO: EXEMPLO DE POLÍTICA FLORESTAL COMPENSATÓRIA QUE PROTEGE A BIODIVERSIDADE DONATION IN UNITS OF CONSERVATION OF PUBLIC DOMAISN: EXAMPLE OF COMPENSATORY FOREST POLITICS THAT PROTECTS BIODIVERSITY Tatiana Monteiro Costa e Silva Marcel Alexandre Lopes RESUMO A presente tese pretende demonstrar a importância da modalidade compensatória doação em unidades de conservação de domínio publico instituída pelo Código Florestal, como mecanismo que aumenta a proteção da biodiversidade existente dentro dos espaços territoriais protegidos unidades de conservação pendentes de regularização fundiária. o instituto tem a missão de resolver o passivo ambiental das áreas de reserva legal das propriedades rurais e também solucionar o impasse da regularização fundiária das unidades de conservação já criadas e, por fim, conter a expansão da fronteira agrícola. Para o êxito da compensação da área de reserva legal em unidades de conservação padrão adotado para o desenvolvimento, além da necessária participação de todos os atores envolvidos no processo, produtores rurais, poder público e sociedade civil organizada, também é essencial que os critérios para sua aplicação restem efetivamente esclarecidos e delimitados, função que em princípio é dever dos órgãos ambientais. PALAVRAS-CHAVES: PALAVRAS-CHAVE: COMPENSAÇÃO, UNIDADES DE CONSERVAÇÃO, DOMÍNIO PÚBLICO, REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA. ABSTRACT The present thesis intends to demonstrate to the importance of the compensatory modality donation in units of domain conservation publishes instituted for the Forest Code, as mechanism that inside increases the protection of the existing biodiversity of the territorial spaces protected hanging units of conservation of agrarian regularization. The institute has the mission to decide the ambient liabilities of the areas of legal reserve of the country properties and also to solve the impasse of the agrarian regularization of the units of conservation already created e, finally, to contain the expansion of the agricultural border. For the success of the compensation of the area of Trabalho publicado nos Anais do XVII Congresso Nacional do CONPEDI, realizado em Brasília DF nos dias 20, 21 e 22 de novembro de

2 legal reserve in units of conservation - standard adopted for the development, beyond the necessary participation of all the involved actors in the process, agricultural producers, to be able public and organized civil society, also is essential that the criteria for its application remain effectively clarified and delimited, function t KEYWORDS: WORD-KEY: COMPENSATION, UNITS OF CONSERVATION, PUBLIC DOMAIN, AGRARIAN REGULARIZATION. INTRODUÇÃO A degradação da biodiversidade brasileira aumentou assustadoramente nas últimas décadas. O Poder Público, como responsável direto pela proteção do meio ambiente, vem instituindo políticas públicas florestais com o intuito de reverter esse quadro que impera no território nacional, conforme o artigo 225 da Constituição Federal de O Código Florestal instituiu várias modalidades compensatórias da área de reserva legal: compensação da área de reserva legal extrapropriedade, servidão florestal, cota de reserva florestal CRF, doação em unidades de conservação de domínio público, compensação em RPPN. Porém, cabe neste momento destacar a modalidade nomeada de doação em unidades de conservação de domínio público, pendente de regularização fundiária, como mecanismo de proteção da biodiversidade brasileira, já que aumenta a proteção nos espaços territoriais protegidos unidades de conservação, além de compensar a ausência da área de reserva legal daqueles proprietários rurais que desmataram antes de 14 de dezembro de 1998, limite determinado na lei florestal para se utilizar o beneficio da compensação da área de reserva legal. Como política florestal, a compensação da área de reserva legal mediante a doação em unidades de domínio público é meio de proteger os recursos naturais para as presentes e futuras gerações. 2 BIODIVERSIDADE A análise do instrumento compensatório doação para unidades de conservação de domínio público, como política florestal requer abordagem técnica e jurídica da biodiversidade, como elemento principal de uma política pública florestal imprescindível para o desenvolvimento sustentável na região amazônica. O termo biodiversidade foi introduzido em meados dos anos 80 e popularizada na época da Conferência do Rio de Janeiro de Diversidade biológica significava riqueza de espécies; já em 1982 o termo adquiriu novas acepções, como diversidade genética e riqueza de espécies; em 1986, houve a contração da expressão, abrigando além da diversidade genética, diversidade de espécies e diversidade ecológica.[1] 1691

3 A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como ECO 92, foi evento de grande repercussão mundial. Reuniu vários países do mundo na busca do mesmo objetivo comum: a preservação da natureza. Dessa Conferência resultaram várias recomendações e 5 (cinco) documentos importantes: a Declaração do Rio de Janeiro, a Declaração de Princípios sobre Florestas, a Convenção sobre Biodiversidade, a Convenção sobre o Clima e a Agenda 21. A Convenção sobre Diversidade Biológica, ou Convenção da Biodiversidade, trouxe a definição de diversidade biológica como sendo a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, entre outros, ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade de espécies e de ecossistemas. Essa convenção foi ratificada pelo Brasil, surgindo no ordenamento jurídico brasileiro o Decreto Legislativo nº 02, de 02/02/94, que aprovou o texto da Convenção da Biodiversidade assinado na Conferência do Rio de Janeiro e atualmente está subscrita por mais de 170 países. A Constituição Federal de forma inovadora também protegeu a biodiversidade no seu art. 225, 1º, II, determinando que compete ao poder público o dever de preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do país e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e a manipulação do material genético, assegurando a todos um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Recentemente, foi introduzida no cenário brasileiro a norma que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação Lei 9.985, de 18 de julho de 2000, estabelecendo critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação. Dada a relevância do assunto, o art. 2º, inciso III, trouxe mais uma vez o conceito de diversidade biológica, definindo-o como a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas. A ação antrópica sobre a biodiversidade está ocasionando a sua rápida extinção, num período de tempo muito exíguo, prenunciando futuro incerto às gerações futuras, que poderão não conhecer as várias espécies da fauna e flora que hoje conhecemos. As evidências indicam que as atividades humanas estão levando a uma extinção quase total da diversidade biológica do planeta, antes mesmo que algumas unidades percentuais do total de espécies sejam pelo menos descritas.[2] Verifica-se violação de valores caros à espécie humana, pois que a biodiversidade constitui a base de sustentação da vida, principalmente para as comunidades pobres dos trópicos. Estes concentram a maior parte da biodiversidade, sendo reservas de matériaprima para multinacionais, influentes no mercado financeiro e na arena política globalizada. 1692

4 Ressalte-se que a biodiversidade fornece benefícios econômicos diretos em termos de alimentação, medicina e materiais industriais e ingredientes funcionais para os ecossistemas naturais, cumprindo uma série de funções essenciais ao homem: por exemplo as funções vitais da fotossíntese e oxigenação do ar, sem falar do valor de sua conservação para usos futuros e a própria reabilitação de ambientes degradados pelo uso inadequado do solo, pela construção de barragens, hidrelétricas, rodovias, pela exploração mineral. Na atualidade, a preservação da biodiversidade está na pauta como meta a ser cumprida, como bem relatado por Oliveira: a biodiversidade é tema que tem despertado bastante interesse no Brasil e no mundo, devido, por um lado, ao potencial para criar alternativas de proteção ambiental com geração de renda para as comunidades locais, e por outro, aos avanços científicos que podem advir da biotecnologia. Vários aspectos da biodiversidade estão em debate, desde como preserva-la até como gerar riquezas a partir do seu uso sustentável, repartindo-se entre os que desenvolvem produtos comerciais da biodiversidade e as populações locais que a preservam. Para o Brasil, o tema é de extrema importância, já que o país conta com uma das maiores biodiversidades, com 10 a 20% das espécies descritas no mundo.[3] Decorre enorme prejuízo ambiental, da predatória ação de alguns segmentos da sociedade, que no afã da exploração econômica, comprometem à coletividade, o meio ambiente e também as comunidades tradicionais cujo conhecimento tradicional vai assim sendo perdido. É inquestionável que o desenvolvimento da biotecnologia e os componentes da biodiversidade para fins terapêuticos têm o seu lado positivo para a melhoria da qualidade de vida da coletividade, no entanto, existem alguns problemas que cercam o assunto, tais como: novas tecnologias, propriedade intelectual e exclusão; prioridades de pesquisa, interesses econômicos e, mais uma vez, exclusão; acesso aos componentes da biodiversidade; conhecimento tradicional e o uso da biodiversidade[4]. Desse modo, a modalidade compensatória doação para unidades de conservação de domínio público como política florestal institucionalizada no ordenamento brasileiro baliza alternativas econômicas e ambientais, surgindo como opção técnica para a preservação e conservação da biodiversidade nacional, já que fomenta ainda mais a proteção desses espaços protegidos, pois possibilita reverter o passivo ambiental da área de reserva legal nas propriedades rurais e ao mesmo tempo enfrentar o problema da regularização fundiária das unidades de conservação. 3 POLÍTICAS PÚBLICAS NO SETOR FLORESTAL 1693

5 No território brasileiro, a legislação que dá sustento e orientação à política florestal é a Lei nº 4.771, de 1965, representada pelo Código Florestal Brasileiro, a Lei nº 6.938, de 1981 (Política Nacional do Meio Ambiente), e pelas leis estaduais dos vários Estados Brasileiros que legislaram concorrentemente sobre a matéria, e ainda pela Constituição Federal de 1988, como também mais recentemente pelas normas federais, Lei nº 9.605, de 1998 (Lei de Crimes Ambientais), Lei nº 9.985, de 2000, conhecida como Sistema Nacional de Unidades de Conservação SNUC, Decreto Federal nº 3.420, de 20 de abril de 2000 (Programa Nacional de Florestas PNF), e Lei nº , de 2006 (Concessão de Florestas Públicas). O Código Florestal é ressaltado por Viana, ao abordar que o diploma mais importante, sem dúvida, é a Lei nº 4.771, de 1965 (Código Florestal), que foi inteiramente recepcionada pela Constituição de 1988 e constitui norma geral que disciplina a preservação e a utilização de florestas e demais formas de vegetação [5]. No entanto, existem críticas quanto a efetividade das políticas florestais elencadas no Código Florestal, tendo em vista ser considerada uma letra morta, como outras do mundo, pela ausência eficaz de concessões, controle e proteção, se verificando na prática vários modos de burlar a lei florestal.[6] Desse modo, as políticas públicas podem ser traduzidas como programas de ação governamental visando a cooperar os meios à disposição do Estado e as atividades privadas, para a realização de objetivos socialmente e politicamente determinados [7]. Séguin ratifica essa compreensão quando aborda que as políticas públicas têm o sentido de conjunto de objetivos informativos dos programas de ação governamental e medidas executadas para atingir o fim colimado [8]. Na atualidade, o Estado Democrático de Direito possibilita essa sistematização de ações governamentais para a implementação de políticas públicas.[9] Neste contexto, agentes externos (Estado, sociedade civil e mercado) conduzem para a articulação das políticas públicas.[10] Assim, as políticas públicas são sistematizações de ações de Estado voltadas para a consecução de determinados fins setoriais ou gerais, baseados na articulação entre a sociedade, o próprio Estado e o mercado [11]. O Estado como principal agente de articulação deve assumir a sua função de gestor das políticas públicas de interesse de toda a coletividade, como também os meios de proteger os recursos naturais para as presentes e futuras gerações, cumprindo a determinação legal do artigo 225 da Constituição Federal de 1988, que atribui ao Poder Público e Coletividade essa responsabilidade compartilhada.[12] Soma-se ao conceito de políticas públicas outro elemento importante, que é o espaço geográfico....há um componente prático e finalístico na idéia de política pública como programa de ação governamental para um setor da sociedade ou um espaço geográfico [13]. A política florestal que versamos no presente estudo envolve o meio rural e toca socialmente ao segmento dos produtores rurais, como também aos proprietários de imóveis rurais (mesmo que não desenvolva qualquer atividade em sua área). 1694

6 O próprio governo e a sociedade enxergam a discussão de políticas públicas como ações meramente secundárias num contexto de políticas finalísticas e econômicas que ocupam hodiernamente o espaço público, como bem diz Cavalcanti:...a discussão de políticas para melhorar a gestão do setor público ainda não alcançou a prioridade necessária nem no âmbito do próprio governo nem no âmbito da sociedade, provavelmente porque ambos a consideram uma dimensão secundária diante das prioridades de políticas finalísticas e de política econômica que ocupam agenda e espaço de discussão pública.[14] A trajetória de uma política pública é baseada essencialmente em processos políticos, inexistindo a falsa dicotomia política-administração.[15] Por parte das autoridades governamentais do País é forte a tendência da aplicação lógica do mercado dentro do escopo de políticas públicas, especificadamente em política ambiental, como se tem vislumbrado a saída lenta do Poder Público da gestão das políticas públicas para a entrada de outros agentes, como é o caso da Agência Nacional de Energia Elétrica[16]. Mas isso não impede que o País aprecie e avance em questões importantes para o crescimento correto e sustentável, enxergando como resultado positivo o grande arcabouço legal-institucional e projetos socioambientais existentes e que possam ser criados para o território brasileiro. Oliveira destaca que temos que inovar nos mecanismos de elaboração e implementação de políticas públicas, de forma a utilizar de maneira eficaz e eficiente os tradicionalmente escassos recursos alocados ao setor sociambiental [17]. A política florestal insere-se na conjuntura de uma política ambiental maior, como bem ressaltado por Silva, conforme Lapoix: a gestão ecológica implica uma política de Meio Ambiente segundo a qual um país determina, organiza e põe em prática diversas ações que visam à preservação e ao melhoramento da vida natural e humana. Acrescenta, ainda, Silva: tal política deve orientar-se estritamente por considerações de ordem ecológica, sociológica e econômica, e pela análise das motivações individuais e coletivas expressas pelo corpo social sob a forma de necessidades, desejos e aspirações. Para ser eficaz, deve apoiar-se os diferentes níveis que constituem uma ambiência administrativa favorável. A educação, informação, a realização e a coordenação constituem, enfim, os meios privilegiados que favorecem a melhor tomada de consciência dos problemas relacionados com o meio ambiente.[18] 1695

7 A política ambiental exige harmonização e equilíbrio entre o meio ambiente e os direitos essenciais ao homem. Ela diz respeito a todos: ao governo, que as dita, à comunidade, que deve participar da tomada de decisões, e ao empresariado, cujas atividades são, ou deveriam ser, disciplinadas e fiscalizadas por elas [19], ensina-nos Seguin. O que se almeja, tanto na política ambiental (macro), quanto na política florestal (setorizada), é o equilíbrio e harmonização quando da utilização desses recursos pelo homem que, para tanto, necessita de meios políticos. Buscar o equilíbrio, através da sustentabilidade dos recursos, na natureza, é missão política, haja vista ser este o instrumento passível de encontrar as soluções para os diferentes conflitos existentes sobre as áreas com florestas[20]. Relata, Zanetti, que a política florestal e os interesses envolvidos geram grandes conflitos decorrentes da potencialidade que esse recurso natural oferece: os diferentes interesses estão direta e obviamente ligados à diversidade de potencialidades que podem ser utilizadas dentro do ambiente florestal; a dificuldade de identificar estas capacidades tem gerado conflitos que se prolongam no tempo.[21] Sabemos que o uso indiscriminado e ilegal da flora brasileira não pode mais se prolongar no tempo, até mesmo pela escassez e importância desse recurso dentro do contexto da teoria dos múltiplos usos da florestal[22] na atualidade, uma vez que pode produzir muito mais do que a madeira, também servindo de proteção do solo, das águas, do ar. Também dela depende o turismo, as atividades de pesca e caça, a enorme fonte de material genético. A teoria das funções da floresta é instrumento político de avaliação e capacitação, para garantir a harmonia entre as diferentes funções, seus objetivos materiais e éticos[23]. Desse modo, a modalidade compensatória doação para unidades de conservação de domínio público busca justamente corrigir esse descompasso na utilização desse recurso natural, possibilitando ao proprietário rural que já suprimiu a área de reserva legal em sua propriedade compensá-la em área inserida em unidade de conservação pendente de regularização fundiária. Esse instrumento de política florestal é uma das formas de garantia das várias funções que a floresta é capaz de proporcionar ao homem, assegurar a sadia qualidade de vida sob a égide do art. 225 da Constituição Federal de Requer conscientização e disciplinamento de todos os interessados e envolvidos nesse processo, porque o uso de todas as possibilidades representadas por este patrimônio é o elemento de ligação entre as populações rurais e a floresta, gerando condições necessárias ao estabelecimento do homem no campo como bem ressaltado por Zanetti[24]. 1696

8 O Código Florestal, quando instituiu as figuras da área de reserva legal e áreas de preservação permanente, buscou de forma equilibrada balancear essas condições necessárias ao estabelecimento do homem no campo, de forma ordenada e sustentável, sendo uma norma de incidência geral, submetendo, portanto, todos quantos tenham imóveis rurais no território brasileiro. As políticas florestais devem estar concatenadas a um contexto mais amplo, envolvendo todos os níveis de governo, de forma sistematizada, organizada e operacional. A participação parlamentar foi decisiva para a tutela florestal e a efetivação de políticas públicas ao longo dos tempos, como bem descrito por Viana: a contribuição parlamentar para a tutela florestal ao longo da história brasileira processou-se mediante extensa legislação, com o objetivo tanto de proteger as florestas, quanto de regular a sua exploração. Mesmo hoje, são inúmeras as iniciativas legislativas versando a respeito do tema, ora sobre flora e florestas no sentido mais amplo, ora sobre aspectos específicos deste ou daquele bioma ou unidade de conservação, ora, até mesmo, sobre uma única espécie florestal, como nos casos em que a proposição visa tornar essa espécie imune de corte, por exemplo.[25] As políticas públicas voltadas para o meio ambiente e sua proteção, devem ser vistas do aspecto qualitativo, antes que do quantitativo. A enérgica ação estatal deve pautar-se em medidas corretivas, mitigadoras, compensatórias e/ou indenizatórias[26], e a modalidade compensatória doação em unidades de conservação de domínio público visa justamente a corrigir essa falta de perspectiva ambiental no território nacional. 4 DOAÇÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DE DOMÍNIO PÚBLICO A compensação da área de reserva legal está disciplinada no Código Florestal que prevê a possibilidade da compensação da área de reserva legal por outra área equivalente em importância ecológica e extensão, desde que pertencente ao mesmo ecossistema e localizada na mesma microbacia. Além desse requisito, devem ser observadas outras exigências, como o fator temporal: dispensa o proprietário de reflorestar a área que hoje está sendo utilizada desde que desmatada anteriormente a 14/12/1998. Após essa data, o proprietário ou possuidor não pode utilizar os benefícios da compensação da área de reserva legal, mas sim recompor a reserva legal de sua propriedade mediante o plantio, a cada 3 (três) anos, de no mínimo 1/10 (um décimo) da área total necessária a sua complementação, com espécies nativas, de acordo com critérios estabelecidos no órgão ambiental estadual competente, como também conduzir a regeneração natural.[27] 1697

9 Desse modo, existem várias modalidades compensatórias da área de reserva legal: compensação da área de reserva legal extrapropriedade, servidão florestal, cota de reserva florestal CRF, doação para unidades de conservação de domínio público, compensação em RPPN. Neste trabalho, vamos nos ater a modalidade compensatória doação de área localizada no interior de unidades de conservação pendente de regularização fundiária. Recentemente, o dispositivo foi alterado pelo artigo 49 da Lei , de dezembro de 2006, que dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica.[28] Na verdade, com a citada alteração, corrigiu-se uma impropriedade da norma federal que feria os princípios da isonomia e da razoabilidade, [29] conforme Irigaray. Eis a antiga redação do 6º do artigo 44 da Lei n.º 4.771, de 1965: 6º O proprietário rural poderá ser desonerado, pelo período de 30 (trinta) anos das obrigações previstas neste artigo, mediante a doação, ao órgão ambiental competente, de área localizada no interior de Parque Nacional ou Estadual, Florestal Nacional, Reserva Extrativista, Reserva Biologia ou Estação Ecológica pendente de regularização fundiária, respeitados os critérios previstos no inciso III do caput deste artigo. Na realidade, a antiga redação do dispositivo do 6º do artigo 44, estabelecia favoravelmente ao proprietário rural uma moratória, porque com recursos próprios contribuía para a regularização fundiária de uma das unidades de conservação elencadas expressamente no dispositivo referendado, desonerando desta feita o Poder Público da obrigação indenizatória decorrente do processo expropriatório.[30] Sobre tal dispositivo Vulcanis destacou que: a compensação temporária da reserva legal parte de um fato real que é a descaracterização ou inexistência da reserva legal nas propriedades, certamente, em algum momento, suprimidas de forma ilegítima ou não, mas que de qualquer forma, não se justifica sua ausência; por outro lado, parte também do fato real e concreto de que a criação de Unidades de Conservação está vinculada à existência de terras que se mantém com características naturais relevantes. Em outras palavras: a opção legislativa partiu da constatação de que entre a notória inexistência da reserva legal nas propriedades privadas e que, portanto, estão cumprindo sua destinação ambiental e a existência de espaços territoriais que ainda mantém efetiva conservação ambiental, opta-se por garantir prioritariamente a manutenção destes, pois ainda sustentam íntegros. Para tanto, eleva-se, a regularização fundiária, como pressuposto fundamental a efetiva constituição desses espaços, já que, como dito, permite a maior efetividade das Unidades de Conservação no que diz respeito ao cumprimento de seus objetivos. Nesse 1698

10 sentido, deu-se preferência a manutenção do que ainda mantém-se conservado, postergando-se, no tempo, a reconstituição da reserva legal cujos objetivos de cunho ambiental serão perseguidos no futuro.[31] O dispositivo de forma expressa obrigava a necessidade de recomposição da área de reserva legal in loco após o período de 30 anos da doação de área localizada em unidade de conservação. Ainda é mote de dúvidas e polêmicas a obrigatoriedade de recomposição da reserva legal passado 30 anos, haja vista o dispositivo em vigor deixar ao órgão ambiental competente a exigência ou não da recomposição, depois do procedimento compensatório, quando definiu o verbo poderá e não deverá. A alternativa anterior deixava límpida a obrigatoriedade da exigência da recomposição, no entanto, a partir de agora encontra-se diante de um ato discricionário do órgão ambiental competente ou de critério a ser definido por lei por meio da competência legislativa concorrente dos Estados. Neste caso, impera a discricionariedade da Administração Pública em matéria de preservação e conservação ambiental? A fonte da discricionariedade é a própria lei; aquela só existe nos espaços deixados por esta. Nesses espaços a atuação livre da Administração é previamente legitimada pelo legislador. [32] De qualquer maneira, é positiva a alteração da parte final do dispositivo quando definiu a doação de áreas localizadas em qualquer categoria de unidade de conservação, pendente de regularização fundiária, podendo deste modo, qualquer unidade de conservação receber compensação de reserva legal, pois permite que tanto as unidades da categoria proteção integral ou uso sustentável possam ser regularizadas, conforme os ditames estabelecidos na Lei nº de 2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação SNUC. A regularização fundiária também pressupõe procedimentos legais, que devem ser observados, como ressalta Seixas, Barreto Filho, Tosato et al. (2003, p. 364): a maioria dos procedimentos de regularização fundiária no Brasil pauta-se em parâmetros tecnicistas, executados de forma homogênea e sem considerar as possíveis diferenças entre os grupos sociais existentes na área. Vale ressaltar que a regularização compreende diferentes fases, que incluem desde os estudos fundiários de campo e cartoriais, para a verificação da documentação comprobatória de propriedade da terra, até o processo de avaliação do imóvel, que inclui vistoria e determinação do preço do mercado. Todas estas etapas obedecem a uma extensa fundamentação legal que inclui leis, instruções normativas, normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), procedimentos técnicos d agrimensura, topografia e cartografia etc. Esses procedimentos legais não são observados quando da criação das unidades de conservação. Existem até alguns autores que asseguram a criação de parques de papéis, sem os critérios técnicos definidos no Sistema Nacional de Unidades de Conservação SNUC, Lei n /

11 A criação de uma unidade de conservação deve ser precedida de estudos técnicos e de consulta pública que permitam identificar a localização, a dimensão e os limites mais adequados para a unidade, conforme se dispuser em regulamento. A fase da consulta pública é fundamental para a participação de todos os envolvidos: proprietários, comunidade do entorno e do local, e o próprio Poder Público. Neste momento, o Poder Público é obrigado a fornecer informações adequadas e inteligíveis à população local e a outras partes interessadas. Quando criadas as unidades de conservação, as mesmas devem dispor de um plano de manejo. Este deve ser elaborado no prazo de 5 anos a partir da data de sua criação. O plano de Manejo deve abranger a área da unidade de conservação, sua zona de amortecimento e os corredores ecológicos, incluindo medidas com o fim de promover sua integração à vida econômica e social das comunidades vizinhas. Figueiredo e Leuzinger (2001, p. 465) descrevem a real situação da criação de unidades de conservação no Brasil, que ficam a mercê dos proprietários que ainda permanecem na área, considerando também o posicionamento da jurisprudência nacional: a jurisprudência nacional vem exibindo diuturnamente as graves conseqüências que decorrem da criação dos chamados parques de papel unidades de conservação criadas por lei, geralmente alcançando áreas bastante extensas e ainda preservadas, porém não precedidas de estudos técnicos acerca das características dominiais dos imóveis que as integram e da viabilidade financeira para a sua implantação. Arruda, de forma categórica, afirma que as alterações ocorridas no Código Florestal trouxeram sensíveis mudanças para essa modalidade de recuperação da área de reserva legal degradada, assegurando mesmo que o proprietário se desonera por completo da obrigação de ter a reserva legal, preconizando até que não se trata mais de compensação, por via da qual o proprietário não terá de recompor a sua reserva legal passados trinta anos, reduzindo-se o índice de espaços protegidos no território brasileiro.[33] Posicionamo-nos no sentido de ser uma modalidade compensatória, uma vez que o proprietário para ser desonerado precisar observar os critérios legais estabelecidos no inciso III do artigo 44. O proprietário, ao proceder a doação em unidade de conservação, aí sim, será totalmente desonerado da exigência legal de possuir a área de reserva legal em sua própria propriedade. Vislumbram-se dois momentos específicos: o primeiro da compensação e o segundo da desoneração. Mas essa discussão só será resolvida quando os órgãos estaduais ambientais competentes aplicarem o dispositivo para então verificar-se na prática a necessidade ou não desses espaços territoriais protegidos, atendendo as suas peculiaridades e vocações. De mais a mais, o instituto tem a missão de resolver o passivo ambiental das áreas de reserva legal das propriedades rurais e também solucionar o impasse da regularização fundiária das unidades de conservação já criadas e, por fim, conter a expansão da fronteira agrícola. 1700

12 CONCLUSÃO A ação antrópica sobre a biodiversidade está ocasionando a sua rápida diminuição, sendo necessário a efetivação de políticas que visem garantir sua existência para as presentes e futuras gerações; uma alternativa é o instrumento que possibilita a criação e manutenção de espaços territoriais protegidos, como é o caso da compensação da área de reserva legal em unidades de conservação. O instrumento compensatório da doação em unidades de conservação de domínio público, além de fomentar a manutenção de unidades de conservação pendentes de regularização fundiária, também permite a regularização das propriedades particulares desprovidas do percentual de reserva florestal exigido por lei, pois tanto disponibiliza ao Poder Público meios para regularizar as áreas destinadas a unidades de conservação, viabilizando, por exemplo, recursos para a indenização de eventuais proprietários e que estas áreas sejam delimitadas em perímetros maiores, como permite ao proprietário rural a regularização de sua atividade, o que importa na possibilidade de licenciamento e a retomada do acesso as linhas de crédito oficiais. É uma política florestal positiva, que possibilita o saneamento da ausência do percentual de reserva legal nos imóveis rurais, aumentando a criação e manutenção de espaços protegidos, e conseqüentemente, protegendo ainda mais a biodiversidade. Portanto, para o êxito da compensação da área de reserva legal em unidades de conservação padrão adotado para o desenvolvimento, além da necessária participação de todos os atores envolvidos no processo, produtores rurais, poder público e sociedade civil organizada, também é essencial que os critérios para sua aplicação restem efetivamente esclarecidos e delimitados, função que em princípio é dever dos órgãos ambientais. [1] BENSUSAN, Nurit. A impossibilidade de ganhar a posta e a destruição da natureza. Seria melhor mandar ladrilhar? Biodiversidade como, para que, por quê [2] PENNA, Carlos Cabagilia. O estado do planeta: sociedade de consumo e degradação ambiental. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, [3] OLIVERIA, José Antonio Puppim de. Meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento e construção nacional: políticas públicas. CAVALCANTI, Bianor Scelza; RUEDIGER, Marco Aurélio; SOBREIRA, Rogério, (org.). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005, p [4] BENSUSAN, Nurit. Biodiversidade, recursos genéticos e outros bichos esquisitos. O direito e o desenvolvimento sustentável. Curso de direito ambiental. RIOS, Aurélio Virgilio Veiga (org.) São Paulo: Peirópolis, Brasília, DF: IEB Instituto Internacional e Educação do Brasil, p. 48. [5] VIANA, Maurício Boratto. A contribuição parlamentar para a política florestal no Brasil. Brasília, Câmara dos Deputados: retirado do site: 1701

13 www2.camara.gov.br/publicações/estnottec/tema14/pdf/2004_10446.pdf às 19:27h do dia 14/02/07. p.11. [6] BRASIL JÚNIOR. Antônio C. P. Um cenário desejável para conter o desmatamento na região de Belo Monte. Amazônia; dinamismo econômico e conservação ambiental. NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do; DRUMMOND, José Augusto (org.). Rio de Janeiro: Garamond, p [7] BUCCI, Maria Paula Dallari. Direito Administrativo e Políticas Públicas. São Paulo: Saraiva, 2002, p [8] SEGUIN, Elida. O Direito Ambiental. Nossa casa planetária. 3 ed, Rio de Janeiro: 2006, p [9] DIAS, Jean Carlos. Políticas Públicas e Questão Ambiental. Revista de Direito Ambiental. BENJAMIM, Antonio Herman (coord.) Ano 8 Julho setembro, São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, p [10] SCHIMIDT, João Pedro. Direitos sociais e políticas públicas. Santa Cruz do Sul, Santa Catarina: Edunisc, 2001, p [11] Idem, DIAS, p. 121 [12] SCAFF, Fernando Facury; TUPIASSU, Lise Vieira da Costa. Tributação e Políticas Públicas: O Icms Ecológico. Revista de Direito Ambiental. BENJAMIM, Antonio Herman (coord.) Ano 10 Abril Junho, São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2005, p. [13] SILVA, Solange Teles da. Políticas Públicas e Estratégias de sustentabilidade. Hiléia. Revista de Direito Ambiental da Amazônia. Ano 1, Nº 1 Agosto- Dezembro de Universidade Estadual do Amazonas. p [14] CAVALCANTI, Bianor Scela; PECI, Alketa. Além da (re)forma do aparelho do Estado: para uma nova política de gestão pública. Desenvolvimento e Construção Nacional: políticas públicas. CAVALCANTI, Bianor Scela, et al (org.) Rio de Janeiro: FGV, p. 45. [15] CAVALCANTI, Bianor Scela; PECI, Alketa. op. cit. p. 47. [16] RIBAS, Luiz César. Capitalismo, Meio Ambiente e Políticas Públicas; o ambiente atual para um projeto político. In:Revista de Direito Ambiental nº 10. São Paulo: RT, p [17] OLIVERIA, José Antonio Puppim de Oliveira. Meio Ambiente e desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento e construção nacional: políticas públicas. [18] SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. P Cf. F. Lapoix, Uma política nacional do meio ambiente, in J-P. Charboneau e outros, Enciclopédia de Ecologia. P [19] SEGUIN, Elida. O Direito Ambiental. Nossa casa planetária. 3 ed, Rio de Janeiro: 2006, p [20] ZANETTI, Eder. Meio Ambiente e Setor Florestal. Curitiba: Juruá: p. 30. [21] ZANETTI, Eder. Op. cit. [22] A teoria dos múltiplos usos da floresta, que começou a ganhar corpo em 1960 e hoje é objeto de constantes pesquisas em todo o planeta, incorpora ferramentas poderosas ao manejo de recursos naturais, para um país ecologia socialeconomicamente equilibrado. ZANETTI, Eder. p. 27. [23] DIETERICH, V. Forest Policy. Forest Functions, in: Foresta Policy I. Albert- Luwigs-Universitat Institut fur Forestpolitik. Freiburg. Freiburg, Alemanha, [24] ZANETTI, Eder. op. cit. p. 27. [25] VIANA, Maurício Boratto. op. cit. p. 3. [26] RIBAS, Luiz César. Capitalismo, Meio Ambiente e Políticas Públicas; o ambiente atual para um projeto político. São Paulo: Revista de Direito Ambiental nº 10. p

14 [27] SILVA, Tatiana Monteiro Costa. Compensação de reserva legal. In: Direitos Humanos e meio ambiente. BENJAMIM, Antonio Herman (org.). São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, p [28] Redação dada pelo Art. 49 da Lei n.º de O 6 o do art. 44 da Lei n o 4.771, de 15 de setembro de 1965, alterada pela Medida Provisória n o , de 24 de agosto de 2001, passa a vigorar com a seguinte redação: Art o O proprietário rural poderá ser desonerado das obrigações previstas neste artigo, mediante a doação ao órgão ambiental competente de área localizada no interior de unidade de conservação de domínio público, pendente de regularização fundiária, respeitados os critérios previstos no inciso III do caput deste artigo. (NR) [29] IRIGARAY, op. cit. p. 58. [30] VULCANIS, Andréa. Doação em áreas de unidades de conservação e compensação temporária da reserva legal. In Revista de Direito Ambiental. Ano 11. n. 41. janeiro-março. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, p. 33. [31] VULCANIS, Andréa., op. cit. p. 35. [32] DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella., op. cit. p [33] ARRUDA, Domingos Sávio de. Compensação na reserva legal. São Paulo, Instituto o Direito por um Planeta Verde; 01 de junho de Palestra proferida no 12º congresso brasileiro de direito ambiental 1703

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