RAFAEL VIAPIANA PADILHA PROJETO INTEGRADO DE VEÍCULOS A INCLUSÃO DO PROJETO PARA RECICLAGEM

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1 RAFAEL VIAPIANA PADILHA PROJETO INTEGRADO DE VEÍCULOS A INCLUSÃO DO PROJETO PARA RECICLAGEM Trabalho de conclusão de curso apresentada à Escola Politécnica de São Paulo da Universidade de São Paulo para a obtenção do Título de Mestre em Engenharia Automotiva São Paulo 2005

2 RAFAEL VIAPIANA PADILHA PROJETO INTEGRADO DE VEÍCULOS A INCLUSÃO DO PROJETO PARA RECICLAGEM Trabalho de conclusão de curso apresentada à Escola Politécnica de São Paulo da Universidade de São Paulo para a obtenção do Título de Mestre em Engenharia Automotiva. Área de Concentração: Engenharia Automotiva Orientador: Prof. Doutor Ronaldo de Breyne Salvagni São Paulo 2005

3 FICHA CATALOGRÁFICA Padilha, Rafael Viapiana Projeto integrado de veículos : a inclusão do projeto para reciclagem / Rafael Viapiana Padilha. -- São Paulo, p. Trabalho de curso (Mestrado Profissionalizante em Engenharia Automotiva). Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. 1. Indústria automobilística (Reciclagem) 2. Materiais (Reciclagem I. Universidade de São Paulo. Escola Politécnica. II. t.

4 (...) a empresa produtora não é detentora de um direito divino à livre iniciativa, à livre escolha. Nem seus consumidores. O interesse maior da comunidade deve ser bem protegido, assim como o futuro, e deve haver uma preocupação com os recursos esgotáveis. Como os automóveis têm de ser construídos, ter combustível e ser dirigidos (...), um compromisso entre o interesse público mais longo é essencial e inevitável. Entretanto, como regra geral, esse compromisso deve favorecer os interesses da comunidade com um todo e também os das gerações futuras (...)(3) John Kenneth Galbraith, A Sociedade Justa

5 RESUMO O gerenciamento adequado do fim de vida dos veículos implica na proposição de tecnologias ambientalmente adequadas durante a fase de projeto e após o fim de vida, quando da chegada do momento da reciclagem. Mundialmente, no caso de veículos no fim de vida, existem diversas legislações e formas de processamento que tem resultados diferentes, de acordo com estas legislações e peculiaridades econômicas. Entretanto, um ponto comum é que por força destas legislações e um mercado cada vez mais globalizado, e necessário a aplicação de técnicas para a melhoria do percentual de reciclagem dos veículos no fim de vida. A metodologia estudada reúne subsídios para a coleta, gerenciamento e disposição de informações sobre reciclagem de materiais e componentes automotivos, tendo em vista o peculiar cenário econômico e territorial brasileiro. Esta, por sua vez, consiste em aplicar técnicas de análise do valor em componentes e sistemas oriundos da desmontagem de veículos, para a correta obtenção de dados sobre a reciclabilidade de veículos, tendo em vista o emprego destas informações durante a fase de projeto do veículo para a melhoria do índice de reciclabilidade. O potencial de aplicação do proposto está nos fabricantes de veículos, podendo ser estendida para fabricantes de componentes. Finalmente tem-se a aspiração de transmitir alguma experiência vivida pelo autor para benefício da preservação ambiental.

6 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO Objetivo Escopo A DEFINIÇÃO DO PROBLEMA DA RECICLAGEM O universo Reciclagem e descarte A dependência da pureza dos materiais Condições para o descarte e coleta dos produtos: Disponibilidade de tecnologia e a demanda para reciclagem Incentivos governamentais Porque planejar veículos para a reciclabilidade O projeto e planejamento de veículos visando a reciclabilidade Porcentagem de reciclabilidade e recuperação no fim de vida O fim de vida e a reciclagem de veículos no mundo O ESTADO DA ARTE EM TERMOS DE RECICLAGEM O veículo e seus subsistemas Seção 10: Trem de força Seção 15: Integração do trem de força Seção 20: Chassis Seção 30: Ventilação e arrefecimento Seção 40: Interior Seção 50: Carroceria Seção 55: Fechamento da Carroceria Seção 60: Exterior Seção 70: Elétrica e eletrônica A PROPOSTA A abrangência da proposta A coleta de dados: Avaliando o veículo por funções A coleta de dados: O atendimento as funções Análise durante o processo de desmontagem do veículo A coleta de dados... 84

7 4.6 A classificação das funções O gerenciamento e divulgação das informações coletadas A aplicação da proposta ESTUDO DE CASO O Estudo do filtro de óleo lubrificante O passivo ambiental Os requisitos Estudo do filtro de óleo lubrificante do motor família I As funções e a classificação para reciclagem Análise econômica da peça atual e das propostas A e B Resultado final do estudo de caso CONSIDERAÇÕES FINAIS Conclusão e Recomendações Futuras ANEXOS Anexo A - Divisão do veículo em subgrupos Anexo B - Detalhamento do VPPS Anexo C - Cálculo da porcentagem de reciclagem e recuperação Anexo D - Restrições para aplicação de materiais perigosos em veículos comercializados e produzidos na Comunidade Européia Anexo E - Requisitos técnicos mínimos para o centro de tratamento de veículos no fim de vida Anexo F - O projeto para reciclagem de plásticos Anexo G - Requisitos funcionais e de desempenho do filtro de óleo do motor Chevrolet Família I LISTA DE REFERÊNCIAS Livros Artigos e Teses Resoluções, Deliberações e Normas Eventos

8 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Taxas de reciclagem e recuperação no fim de vida (38) Tabela 2 - Resumo das diretivas para o fim de vida de veículos (39) Tabela 3 - Síntese da Resolução número 258 do CONAMA (36) Tabela 4 - Modelo para coleta de dados das funções para reciclabilidade Tabela 5 - Notas atribuídas em função do investimento necessário Tabela 6 - Frota brasileira de automóveis por ano de fabricação (37) Tabela 7 - Estimativa de filtros de óleo utilizados no ano de Tabela 8 - Composição do filtro de óleo do motor família I Tabela 9 - Composição do filtro de óleo da proposta A Tabela 10 - Composição do filtro de óleo da proposta B Tabela 11 - Funções de reciclagem atendidas pelas propostas do filtro de óleo Tabela 12 - Custo estimado de cada componente do filtro de óleo Tabela 13 - Custo estimado da proposta A Tabela 14 - Custo estimado da proposta B Tabela 15 - Plásticos mais utilizados pela indústria automobilística (2) Tabela 16 - Compatibilidade entre os diversos tipos de plásticos usados na indústria automobilística (2)

9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Caixa do filtro de ar e coletor de admissão do Volkswagen Polo Figura 2 - Exemplo de componente com a penas um material plástico e com contaminantes de fácil remoção Mercedez-Benz A Figura 3 - Aplicação de fixação de fácil remoção no defletor do escapamento do Volkswagen Polo Figura 4 - Secção transversal de um típico tanque plástico automotivo de construção do tipo multicamadas (9) Figura 5 - Protótipo de aplicação de matéria prima reciclada em painéis de porta e estrados (9) Figura 6 - Painel com dutos de ar integrados Chevrolet Corsa Figura 7 - Defletor do radiador com reservatório de líquido de arrefecimento integrado Toyota Corolla Figura 8 - Estrutura do painel de instrumentos em Magnésio Fiat Stilo Figura 9 - Aplicação de materiais compostos, porém totalmente compatíveis em um painel de instrumentos (2) Figura 10 - Isolador inferior do painel de instrumentos com facilidade de remoção de materiais incompatíveis Honda Fit Figura 11 - Isolador do carpete composto por espuma reciclada Toyota Yaris.. 59 Figura 12 - Pára-lama de plástico Mercedes-Benz A160 e Renault Clio Figura 13 - Moldura lateral do tipo encaixa e trava - Renault Clio Figura 14 - Pára-choque com absorvedor de impacto de mesmo material que a capa externa - Renault Clio Figura 15 - Tela para inclusão de dados Figura 16 - Tela para a geração de relatórios Figura 17 - Diagrama de blocos de aplicação da proposta Figura 18 - Filtro de óleo em estudo antes e depois do corte transversal Figura 19 - Vista explodida do filtro de óleo em estudo Figura 20 - Análise sistêmica do filtro de óleo Figura 21 - Proposta A para projeto para reciclagem do filtro de óleo Figura 22 - Proposta B para projeto para reciclagem do filtro de óleo

10 Figura 23 - Estruturas moleculares dos diversos tipos de plásticos (2) Figura 24 - Exemplo de aplicação de encaixe em caixas de bateria (2) Figura 25 - Os diversos tipos de plásticos e suas combinações (2) Figura 26 - Melhorando as propriedades dos plásticos através de mistura (2)

11 LISTA DE SIGLAS ABIP - Associação Brasileira da Indústria de Pneumáticos ANFAVEA - Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores CONAMA - Conselho Nacional de Meio Ambiente CONFAZ - Conselho Nacional de Política Fazendária IPI - Imposto sobre Produtos Industrializados ISO - International Organization for Standardization MERCOSUL - Mercado Comum do Sul VPPS - Vehicle Partitioning and Product Structure

12 1 1 INTRODUÇÃO 1.1 Objetivo O objetivo deste trabalho é a criação de uma sistemática para avaliação de projeto de componentes automotivos com relação à capacidade e facilidade de reciclagem e/ou recuperação. A definição de um determinado projeto para componentes automotivos deve basear-se em diversos requisitos, sendo um destes a reciclagem, que normalmente é deixada em segundo plano em detrimento de outras prioridades do projeto. Este trabalho visa contribuir com a criação de uma metodologia simples e de fácil compreensão para a coleta de informações sobre a reciclagem de componentes, possibilitando assim o emprego destas informações durante a fase de projeto. Além disso, um estudo de caso será analisado visando a análise do componente para a reciclabilidade, com a apresentação dos resultados e os benefícios de cada proposta. 1.2 Escopo O trabalho apresentado tem como escopo o entendimento da atual situação de coleta de informações sobre reciclabilidade na industria automobilística, de forma a criar uma sistemática para coleta destas informações de componentes automotivos. Ainda terá como contribuição, a análise do material pesquisado sobre esse tema, sua análise crítica e viabilização do emprego do proposto.

13 2 2 A DEFINIÇÃO DO PROBLEMA DA RECICLAGEM 2.1 O universo O automóvel já foi de tudo na história do Brasil. Nos anos 50, quando Jucelino Kubitscheck, embalado pelos sonhos de Vargas, anunciava mais uma revolução em nossa indústria, era o motor do progresso nacional. A produção em terras brasileiras, uma espécie de passaporte para a modernidade. Se os carros transpiravam força, poder e riqueza, o que dizer então dos complexos engenhos dedicados a sua produção? No pós-guerra, poucas foram as visões de desenvolvimento que prescindiram da indústria de autoveículos. Não foi a toa que o automóvel circulou por todas as alamedas do imaginário nacional. Freqüentou os sonhos de ricos e pobres, de governantes e governados. Foi sinônimo de progresso. Sua locomotiva. E, literalmente, o carro chefe da nação (1). Segundo Posthuma (6), o Brasil conseguiu atrair os maiores produtores internacionais de veículos, que passaram a produzir localmente e não apenas montar veículos com peças importadas. Este processo estimulou o crescimento de uma indústria auxiliar, que surgiu a partir da transformação de pequenos produtores de peças de manutenção para importados e, muitas vezes, de funilarias de fundo de quintal, em uma autêntica indústria nacional de autopeças. Deixando raízes em vários setores da economia, esse setor foi capaz de atender quase 100% do índice de nacionalização dos veículos nos anos 60. O surpreendente é que quarenta anos depois, apesar de todas as metamorfoses da economia brasileira e mundial neste final de século, a indústria automobilística continua destilando seus encantos. Ocupando a décima posição no ranking mundial, ao lado de países como a Canadá e Reino Unido, a indústria automotiva brasileira tem motivos para comemorar com orgulho seus mais de 40 anos de vida. No Brasil dos anos 90, as corporações do setor automotivo, levadas a produzir em um novo ambiente econômico, realizaram uma profunda inflexão em sua trajetória, (re) estruturandose, (re) investindo ou implantando novas fábricas de um modo só comparável a primeira

14 3 grande entrada no país quando do nascimento da indústria automobilística. A partir de 1993, a indústria brasileira de veículos bateu sucessivos recordes de produção, destacando-se pela exibição de um dos maiores desempenhos do cenário mundial e beneficiando-se também de um dos maiores índices atuais de crescimento do mercado interno. Essa performance atraiu a atenção dos principais mercados e dos incentivos propiciados pelo Novo Regime Automotriz decidido pelo governo brasileiro no final de A partir das mudanças no ambiente econômico nacional e internacional, das experiências inovadoras da câmara setorial (Março 1992 e Fevereiro de 1993) e da consolidação do Mercosul, pode-se observar diversas mudanças que dentre elas destacamos: reduções reais nos preços dos veículos, alteração do nível de qualidade da indústria, atualização tecnológica, nova gama de produtos, alteração do mix de produção, aumento do emprego de tecnologia da informação e renovação profunda das formas de gestão. Novos veículos foram introduzidos no mercado brasileiro em tempo recorde. Modelos globais começaram a ser produzidos a partir de melhorias substantivas nos indicadores de qualidade e de produtividade. Durante o pico de vendas de 1997, a indústria automobilística no Brasil teve um período de ouro de investimentos, com vários projetos de aberturas de fábricas e chegada de novos fabricantes. Havia uma expectativa muito grande de todo o segmento no que tange a crescimento, entretanto, apesar do número de plantas fabricantes de veículos terem crescido de 30 para 38 no período de 1997, para 1999 as vendas recuaram mais de unidades no mercado interno. Devido a isto os fabricantes buscaram outras alternativas para escoar o excesso de capacidade, sendo que a principal delas foi recorrer a exportação. Desde o ano 2002 esses números não param de crescer, sendo que chega-se ao ano de 2004 com vendas no mercado interno de unidades e produção de mais de 2,1 milhões de veículos. 2.2 Reciclagem e descarte A recuperação e utilização de materiais descartados são atividades muito antigas e universais, cuja importância econômica geralmente não é reconhecida. Reciclagem é um elemento

15 4 valioso no uso racional de materiais escassos ou potencialmente escassos. Sua produtividade e benefícios podem ser aumentados pelo emprego de novas tecnologias e materiais. O termo reciclagem refere-se no sentido puro da palavra a re-assimilação do material no fluxo de matéria prima virgem, de uma forma que este material possa ser usado em um propósito idêntico ou similar ao seu primeiro uso. Reciclagem deve ser diferenciada do termo re-uso, que se refere à reutilização de um objeto, como por exemplo, uma garrafa de cerveja feita de vidro. Deve também ser diferenciada de diversas atividades que fazem com que descartes de material em processo sejam reaproveitados por um fabricante. Pode-se definir que somente quando um material for recuperado, ou obtido de um canal de descarte é que este é considerado como sendo reciclagem e que a recuperação deve preceder a reciclagem (32). De uma forma bastante simplista, o termo reciclabilidade refere-se à facilidade técnica de re-introduzir um material recuperado de produtos que estão em canais de descarte após o uso, em uma nova fonte de matéria prima. Isso leva à recuperação de materiais como sendo oposto à extração de energia. Em uma análise mais geral, reciclabilidade também inclui: - A facilidade de recuperação ou separação do descarte; - Especificação e aceitabilidade dos produtos recuperados; - Mercado para os produtos recuperados; - Disposição para os resíduos, deixados após a recuperação dos materiais valiosos; - Custo de recuperação dos materiais valiosos e disposição dos resíduos. De acordo com Henstock (5), a máxima quantidade de um material que pode ser recuperada em qualquer tempo é em função da quantidade de material colocada em serviço durante um período de tempo e levando em consideração o tempo de vida do material. Por exemplo, para cobre temos que a vida útil do mesmo é de 30 anos. Em 1953, a produção mundial de cobre refinado foi de 3,4 x 10 6 toneladas. Mesmo que esta quantidade pudesse ser recuperada completamente impossível na prática esta poderia prover não mais do que 35% da produção de 1985 que foi de 9,7 x 10 6 toneladas de metal refinado.

16 5 Um outro ponto a ser considerado é com relação à pureza dos materiais obtidos durante ou após o processo de reciclagem. Isso vai determinar o valor comercial do material obtido, bem como a sua facilidade de utilização. No próximo tópico será abordado esse assunto. 2.3 A dependência da pureza dos materiais Materiais são substâncias que são usadas para se fazer objetos. Estas devem possuir uma combinação de propriedades satisfatórias, como por exemplo: resistência a corrosão, a deformação, a impactos, condutividade elétrica e diversas outras. Esta combinação de propriedades deve ser atingida com o mínimo de custo. O custo total não somente depende do custo do material propriamente dito, mas também do custo de conversão, na taxa de perda do material e no valor dos resíduos. Este último item será positivo em caso de descarte de metais e negativo em caso de termos esses resíduos misturados com detritos não metálicos, como por exemplo, os resíduos obtidos após o processo de moagem (shredder).(5) Muitas propriedades dos materiais dependem de sua composição. Um exemplo, citado em Henstock (5), mostra que a condutividade elétrica do cobre tem uma relação inversamente proporcional a contaminação, especialmente por metais de alta valência. A facilidade de moldabilidade do aço é melhorada pela adição Manganês e Enxofre. A resistência à corrosão de ferramentais fundidos em Zinco é adversamente afetada por traços de Cádmio, Chumbo ou Estanho. A formabilidade a quente do aço é dependente da limitação de Cobre e Estanho até 0,2% e 0,06% respectivamente. Ou seja, a contaminação é um fator crítico para uma determinada classe de resíduo, pois essa contaminação pode limitar ou até impedir a aplicação destes materiais. A natureza e extensão da contaminação dependem da aplicação inicial do material. A fabricação, fixação, acabamento e reparo podem ser fontes de contaminação por outros materiais. Um motor de um veículo usado e desmontado é muito mais valorizado do que um veículo inteiro compactado em prensa, que contem diversos contaminantes que faz com que o valor econômico seja bastante reduzido, a ponto de inviabilizar qualquer tentativa de reciclagem.

17 6 Uma outra tendência é em direção de atingir certas propriedades requeridas através do uso de materiais compostos e revestimentos. Estas medidas geralmente são adotadas com o objetivo de se reduzir o custo inicial do material e conseqüentemente da peça, mas essas atitudes têm um efeito totalmente oposto no valor do material recuperado. Levando isso a uma conclusão lógica, esta tendência pode levar a uma virtual parada na recuperação de materiais secundários de resíduos pós-consumo e o correspondente aumento do material descartado de forma irrecuperável. 2.4 Condições para o descarte e coleta dos produtos: Se a recuperação de materiais é o objetivo final, muitos produtos descartados não têm atratividade financeira e muitas vezes são recuperados, oficialmente ou não, para a retirada de peças reservas e metais não-ferrosos, que são mais valiosos. Outros são menos atrativos, porque estes contêm pequenas quantidades de materiais menos desejados e ainda podem ser recuperados, através do uso de mão de obra intensiva. Países como o Brasil são beneficiados neste aspecto, devido ao baixo custo da mão de obra. Contudo, em países desenvolvidos, a recuperação destes materiais tem que ser incentivada através de legislações ambientais e incentivos governamentais. A linha de divisão entre resíduos atrativos e não-atrativos para a reciclagem não é rígida e pode ser mudada no curto prazo. Quando mudanças nos mercados para materiais recuperados tornam um material sem atração para os recuperadores, os produtos tornam-se um problema na hora de descarte e os materiais são perdidos. Não existe dúvida de que certos materiais podem fazer com que haja certa preferência ou não por certos tipos de produtos. A razão disto acontecer, é que muitas vezes o custo de coleta, separação e transporte excedem o valor obtido com a reciclagem inviabilizando a operação. Uma mudança em um desses fatores ou ainda uma nova tecnologia que faça com que se recupere uma quantidade maior de material podem alterar essa equação, evitando-se assim, grandes problemas para descarte.

18 7 Muitos produtos descartados contêm somente pequenas quantidades de matérias recuperáveis e seus valores unitários são baixos. Se os produtos são fisicamente pequenos, por exemplo, calculadoras portáteis, onde unidades quebradas podem convenientemente e sem custo serem descartadas e com isso perdidas. Objetos maiores, como máquinas de lavar, por exemplo, contém grande quantidade de materiais, e estes podem pagar os custos de coleta e recuperação. (5) Apesar da coleta dos materiais trazerem obstáculos significativos à recuperação, devem-se levar em conta os problemas com a separação dos materiais. Se a separação pode ser executada de uma forma mais barata, a coleta pode se tornar uma operação atrativa. A viabilidade financeira dos sistemas de coleta depende das condições atuais dos mercados de materiais reciclados. O problema da coleta assume particular importância em artigos de baixo valor e de pequenas dimensões, que geralmente são dispostos nos canais de descarte e por conseqüência, perdidos. Neste caso, no exemplo da calculadora acima citado, cada uma contém quantidades diminutas de materiais preciosos. No entanto, como elas são vendidas em larga escala e são tão baratas, raramente vale a pena repara-las, sendo assim, podem ser consideradas descartáveis. A questão levantada nesses casos é que se não vale a pena obter de volta esses metais preciosos, em função da grande disponibilidade de calculadoras para descarte? Pergunta essa, que somente pode ser respondida encaixando-se uma série de fatores relevantes para a reciclagem, e o importante destes é se existe tecnologia para a recuperação destes metais preciosos. 2.5 Disponibilidade de tecnologia e a demanda para reciclagem A contaminação de materiais recuperados pode ser evitada pela segregação eficiente. A separação manual, na maioria dos casos, é muito eficiente na desmontagem de estruturas complexas, mas custos marginais de mão de obra podem facilmente exceder o lucro, geralmente marginal também. Este sistema também não pode lidar com combinações como, por exemplo, ligas ou materiais com revestimentos superficiais.

19 8 Segundo Henstock (5), estes sistemas são do tipo que utilizam energia intensivamente e são menos eficientes nas economias altamente industrializadas. É muito usado o sistema de separação mecânica, como por exemplo, o processo de moagem (shredding). Caso deseja-se separar manualmente um motor de um veículo gasta-se aproximadamente 10MJ de energia, enquanto uma máquina de moagem com uma potência de 5000HP irá processar um veículo inteiro a cada 30 segundos, requerendo para isso pelo menos 112MJ de energia. Uma vez que a mão de obra em países em desenvolvimento pode chegar a valores ínfimos de US$ 1,00 por dia, geralmente não compensa instalar equipamentos de grande capital para executar tarefas que podem ser feitas adequadamente pela farta e barata mão de obra. Existe uma necessidade na indústria de reciclagem de métodos de identificação de materiais eficientes, confiáveis e baratos. Em muitos casos a identificação é ainda feita pelo conhecimento da aplicação na quais certos materiais são encontrados, o que dificulta a separação e o emprego dos materiais obtidos. A demanda para materiais reciclados é em função de sua utilidade. Mas, por exemplo, no caso do alumínio, para a produção de certas ligas requer uma grande quantidade de material virgem com uma composição química conhecida que dificilmente será atingida pela maioria das fontes de material reciclável (5). A única possibilidade de isto ocorrer é de reciclarmos separadamente cada objeto, como vem sendo aplicado atualmente pela indústria de latas de bebidas, o que faz com que o material reciclado obtido através de latas tenha sempre a mesma composição química. O uso para materiais altamente contaminados é limitado, pois estes perdem em flexibilidade em relação aos materiais novos. No entanto, eles comandam o preço baixo e os mercados para eles são extremamente voláteis (5). Um fator que pode mudar a relação de comércio de materiais reciclados é a questão da interferência governamental sobre carga de impostos e leis de responsabilidade ambiental, que será abordado no próximo tópico.

20 9 2.6 Incentivos governamentais Apesar de o Brasil ser um país complexo em termos de legislações, tem-se desenvolvido novas leis que visem à redução da carga tributária incidente sobre matérias primas recicladas advindas de pressões da sociedade e influência do exterior. Em 01 de novembro de 2002 entrou em vigor a Medida Provisória número 75, que alterou a legislação tributária federal, beneficiando recicladores de produtos plásticos. De acordo com esta medida provisória, a empresa que comprar resíduos plásticos terá direito a crédito presumido de IPI. Na prática, isso acaba significando a isenção do imposto. Existia até então uma situação bastante incompreensível: a indústria que consome matériaprima virgem pagava 15% menos IPI do que a indústria que consumia insumos reciclados. Uma grande possibilidade de melhoria nos índices de reciclagem pode ser observada com a reciclagem de garrafas do tipo PET, normalmente usadas para o acondicionamento de refrigerantes. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, em 1994 a produção era de 1,7 bilhão, já no ano 2000 esse número pulou para 5,7 bilhões, sendo que a média de reciclagem destes produtos não passa de 17%.(25) Também está em tramitação junto ao Conselho Nacional de Política Fazendária (CONFAZ) um projeto para a isenção de ICMS para produtos produzidos a partir de matéria-prima reciclada (25). Todos os incentivos são de extrema importância para que possa-se considerar o planejamento para a reciclagem de um veículo, visando a necessidade de estabelecer-se um fluxo de reciclagem. 2.7 Porque planejar veículos para a reciclabilidade A principal preocupação dos projetistas é que os produtos devem cumprir a função desejada com o mínimo custo. Isto tem sido tradicionalmente atingido através da economia de escala.

21 10 Componentes tem sido re-projetados para reduzir o consumo de materiais, ou facilitando a substituição de materiais por alternativos mais baratos. Estas ações são prováveis empecilhos para a reciclabilidade. Por exemplo, um radiador composto inteiramente de latão e cobre removido de um veículo pode simplesmente ser derretido, tornando-se matéria prima de ótima qualidade. Um radiador re-projetado pode incluir alumínio, cobre, polímeros e aço. Entretanto, este deve ser primeiramente desmontado, incorrendo em custos e na geração de materiais de baixo valor monetário por unidade. A eficiente separação dos materiais de qualquer produto não pode ser executada sem custos. Até então, os processadores e consumidores de resíduos estão conscientes a pertinente afirmação. A questão é quando a soma de todo o custo de obtenção e separação dos materiais excede a soma de todo o lucro, sendo que tanto o processador quanto o consumidor estão preocupados com os custos individuais. Outro questionamento e quando a soma de todos os custos individuais e externos associados ao uso de determinada quantidade de material reciclado de um objeto é maior do que se o objeto fosse disposto como sendo resíduo ao fim de sua vida útil. A razão pela qual um material descartado não é re-absorvido nos canais de materiais é geralmente porque este não tem sido valioso financeiramente a ponto de que isso aconteça. Uma redução dos custos de recuperação resultante de um trabalho de engenharia ou mudanças dos materiais para melhorar a reciclabilidade pode mudar este cenário. Essa redução é facilitada através da adoção das seguintes diretrizes (5): - Facilidade de desmontagem mecânica em produtos complexos; - Aumento da padronização de materiais; - Compostos químicos de materiais específicos facilmente identificáveis através de mecanismo de marcação e rastreamento; - Melhorias na separação química e física; - Melhoria nas técnicas de separação de materiais complexos; - Uso de combinações de materiais que não sejam mutuamente incompatíveis.

22 11 Levando em consideração que a maioria dos produtos é projetada para minimizar o custo inicial, o que segue é que mudanças no design quase certamente aumentarão o custo. Os mercados são competitivos e não existe evidência que o consumidor está disposto a pagar um prêmio por um benefício tão remoto, o da melhoria da reciclabilidade no fim de vida. Um projeto de um produto para a reciclabilidade, provavelmente seria uma desvantagem competitiva e tem poucas chances de acontecer por livre e espontânea vontade de um fabricante, a não ser que uma legislação pertinente exija. É também evidente que a preferência do consumidor pelo estilo e acabamento pode ser inconsistente com a máxima reciclabilidade, criando mais uma barreira para o projeto para a reciclagem. Tem sido sugerido que os engenheiros de projeto e executivos de design deveriam tratar reciclabilidade com a mesma importância que aparência, durabilidade e custos de seus produtos. Mas a indústria não pode, e com razão tomar essa posição. Entretanto, este cenário tem mudado naturalmente, em função das empresas assumirem compromissos ambientais perante a sociedade. Segundo Henstock (5), em conversações com fabricantes de eletrodomésticos nos Estados Unidos e na Inglaterra, estes deixaram claro que apesar de estarem conscientes dos problemas da reciclagem, os conceitos não chegam a entrar em suas listas de prioridades, as quais devem ser baseadas em custo e competitividade. Além disso, o estilo e a redução de tamanho são itens altamente em destaque nesta área, mas sem controle quanto à possibilidade de efeitos adversos das mudanças feitas e que possam provocar dificuldades na desmontagem. A lucratividade na desmontagem de produtos do dia a dia para gerar quantidades usáveis de material, é geralmente complicada por fatores construtivos que foram adotados para a redução do custo de manufatura. Materiais compostos e componentes com revestimento trazem o material em uma associação íntima e geralmente permanente a um outro material, o qual pode danificar suas propriedades. Alguns componentes, especialmente em equipamentos eletrônicos, foram reduzidos a tamanho muito pequeno, tal recuperação é muito complicada e com pouco retorno. Não existe dúvida que o desejo para reduzir custos tem sido responsável pelas mudanças nos materiais e nos processos de manufatura. Na média, cerca de 40% do custo do produto é

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