Quando o inominável se manifesta no corpo: a psicossomática psicanalítica no contexto das relações objetais

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1 Apresentação em pôster Quando o inominável se manifesta no corpo: a psicossomática psicanalítica no contexto das relações objetais Bruno Quintino de Oliveira¹; Issa Damous²; 1.Discente-pesquisador do Deptº Psicologia UFF/Pólo Rio das Ostras; 2. Profª Adjuntapesquisadora do Deptº Psicologia UFF/Pólo Rio das Ostras Palavras-chaves: Psicossomática. Psicanálise. Limites psíquicos. Subjetividade O trabalho tem como proposta relacionar a psicossomática com o campo teórico dos chamados casos-limite, bastante em voga na clínica psicanalítica contemporânea. Com efeito, atualmente, nos deparamos constantemente com as demandas psicossomáticas nas quais o corpo é o palco da manifestação do indizível, ou seja, de algo que carece de representação. Isto coloca em xeque a organização da subjetividade, o narcisismo e os processos de simbolização, questões que, por sua vez, se referem aos casos-limite. Este cenário traz discussões sobre a constituição dos limites, intrapsíquicos e intersubjetivos, articuladas às relações de objeto. Este é o viés da pesquisa intitulada Limites psíquicos e relações objetais primárias que realizamos no Dept de Psicologia da Universidade Federal Fluminense Pólo Rio das Ostras/RJ, junto ao CNPQ. Nesta pesquisa, adotamos uma metodologia eminentemente bibliográfica, com destaque para a importância do ambiente na constituição subjetiva, sobretudo relacionado aos objetos, representações e afetos que permeiam as primeiras relações mãe-bebê. Nesta proposta de trabalho, seguimos principalmente o referencial psicanalítico de Freud, Winnicott, Mc Dougall e Maria Helena Fernandes. Exploramos nesse sentido a importância das relações de objeto na vida anímica do sujeito à medida que embasam tanto a constituição de si em relação à alteridade, como os processos de simbolização. Sustentamos nosso percurso na hipótese de o adoecimento psicossomático refletir prejuízos no contexto dessas relações. Em geral, compreendemos o corpo na psicanálise como sendo sustentado e atravessado pela linguagem, pelo contato possível com a alteridade. Especificamente no âmbito psicossomático, o drama narrado não é passível de representação para o sujeito: ele transborda no corpo, se enclausurando organicamente num discurso pouco simbolizável e altamente catártico (Fernandes, 2001). Desse modo, a segunda teoria pulsional freudiana é bastante útil

2 uma vez que a pulsão se situa como conceito limite entre o psíquico e o somático empregando o corpo como a manifestação fundamental da expressão do sujeito, assim como pressupõe uma articulação entre pulsão de vida e de morte na forma como se organiza o circuito pulsional (Laplanche&Pontalis, 1992) justamente o que, considerando-se ainda o contexto das relações de objeto, parece estar prejudicado no adoecimento psicossomático. Com o avanço do movimento psicanalítico e os consequentes desdobramentos pósfreudianos, Winnicott marca uma importante contribuição no que diz respeito ao desenvolvimento emocional primitivo e que toca na questão da psicossomática. Winnicott (1945) pressupõe que um ambiente facilitador incluindo-se nesta expressão os cuidados físicos e simbólicos que nos rodeiam potencializa o vir a ser do sujeito, seu self verdadeiro. Este processo é essencial para a integração do sujeito no percurso de seu processo maturacional que inclui a integração psique-soma: fator fundamental para empreender a simbolização e que importa muito para o estudo da psicossomática. A organização da subjetividade é discutida então em termos de integração, personalização e realização trabalhando com a ideia de uma interdependência inicial mãe-bebê a partir da qual os aspectos psicológicos da individualidade emergem e o ego passa de um estado de não-integração para uma integração estruturada, diferenciada do outro. Do mesmo modo, para McDougall (1983), o infans, que ainda se encontra num contexto pré-verbal, é caracterizado pelo próprio corpo como alheio ao seu ego. Aqui, a percepção da diferença Eu/Outro se encontra nebulosa. Segundo Fernandes (2001), o corpo do infans investido libidinalmente pelo outro maternal pode ser situado no campo da erogeneidade e não mais puramente no plano biológico. Pensamos que essa atribuição corporal de que fala Fernandes organiza os processos do desenvolvimento emocional primitivo de que fala Winnicott e, portanto, o narcisismo, além de viabilizar para a criança o acesso à simbolização, justamente o que, ao nosso ver, falha na esfera do adoecimento psicossomático e remonta aos casos-limite. Adentrando no contexto da clínica, podemos considerar que na relação transferocontratransferencial com o analista o paciente psicossomático pode ter um encontro diferenciado com a palavra. Nessa perspectiva, torna-se possível uma reverberação verbal inconsciente que atravessa o corpo do transbordamento, facilitando-lhe um recurso à representação: Trata-se, na verdade, de descobrir e recontar velhas histórias que, na novidade da repetição instaurada da transferência, permitem a criação de outras histórias (Fernandes,

3 2001:93). Ou seja, possibilitar que o paciente possa identificar a sua doença num plano imagético no qual possa se inserir numa narratividade histórica, ganhando contornos e símbolos.

4 2 Referências: Fernandes, M.F. (2001). Corpo. São Paulo: Casa do Psicólogo. Laplanche & Pontalis. (1992). Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes. McDougall, J. (1983). A dor psíquica e o psicossoma. In: Em defesa de uma certa anormalidade: teoria e clínica psicanalítica (n.22, pp ). Porto Alegre: Artes médicas. Winnicott, D.W. (1978). Desenvolvimento emocional primitivo. In: Da pediatria à psicanálise (Artigo original publicado em 1945, pp ). Rio de Janeiro: Francisco Alves.

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