Imobiliárias esperam que imigração dourada renda mil milhões este ano

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1 Pág: 4 Área: 27,41 x 30,48 cm² Corte: 1 de 7 VISTOS GOLD Imobiliárias esperam que imigração dourada renda mil milhões este ano Previsão das mediadoras portuguesas baseia-se sobretudo no mercado da China, cujos cidadãos não podem ter dupla nacionalidade. Novo regime de vistos gerou um novo negócio Maria Lopes Os investimentos imobiliários necessários à obtenção por estrangeiros de vistos gold poderão representar este ano uma injecção de pelo menos mil milhões de euros no mercado imobiliário. Esta é a previsão feita por agentes do sector imobiliário que lidam directamente com estes processos. O investimento mínimo de 500 mil euros num imóvel é um dos requisitos quantitativos para a obtenção do chamado visto gold ou golden visa, a autorização de residência para actividade de investimento lançada no ano passado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. A par da obrigatoriedade de ter um registo criminal limpo, a formalização do investimento e depois permanecer em Portugal alguns dias por ano são as exigências mínimas para a manutenção de um cartão que dá a um cidadão de fora da União Europeia a possibilidade de se mover livremente nos 26 países do espaço Schengen. A visão de Portugal assim como da Grécia ou de Chipre, que também lançaram programas do género como porta aberta para a Europa tem feito aumentar o interesse pelo programa lançado no ano passado e que já atribuiu 787 autorizações até agora. O programa tem sido um pequeno balão de oxigénio para o sector imobiliário do segmento médio-alto e de luxo. Nuno Durão, sócio-gerente da IRGLux, uma imobiliária afiliada do grupo internacional Fine&Country, dedicado ao segmento de luxo, tem trabalhado essencialmente com clientes chineses nos últimos meses, apesar de ter boas expectativas para os mercados africano e do Médio Oriente para os próximos meses. Na montra preta, em pleno Chiado, com informações em inglês e em caracteres chineses, há fotos de casas enormes, em locais paradisíacos, que prendem o olhar. Investidos 472 milhões Se nos primeiros meses do programa o investimento no imobiliário captou quase todos os 472 milhões de euros investidos até agora, segundo os números oficiais, a expectativa dos operadores é que em 2014 a fatia do mercado dos vistos gold chegue aos mil milhões de euros, afirma Nuno Durão. A maior fatia vem da China (ver gráfico na página 6). O empresário admite que a única intenção dos clientes chineses é obterem o visto para poderem circular na Europa alguns nunca tinham ouvido falar de Portugal. Apesar de não estarem interessados em ficar em Portugal isso não significa que não queiram tornar o investimento obrigatório em algo rentável. Por isso os agentes imobiliários preferem olhar para além da simples compra do imóvel. Como o proprietário, por regra, não irá ocupar a casa durante praticamente todo o ano, ela pode ser rentabilizada através do aluguer, tanto de longa duração como de curta, para férias sobretudo também de estrangeiros. É todo um sistema de rentabilização contínua que pode ser montado em torno do negócio, salienta Nuno Durão. Há chineses que estão interessados em comprar restaurantes, hotéis, quintas no Douro ou no Alentejo para produzir vinho ou cogumelos e a actual crise económica facilita os bons negócios para quem quer investir. O gerente da IRGLux salienta ainda o valor acrescentado para a economia da presença de cidadãos chineses, como na restauração, hotelaria, lojas de luxo. Os clientes para o visto gold gostam de ver o que estão a comprar, preferem casas acabadas e normalmente já mobiladas, sejam a estrear, sejam palacetes recuperados. Os eixos mais procurados são os de Lisboa, Cascais, Sintra, Tróia, Algarve, Porto e Douro. O negócio da reabilitação é outro que pode ganhar com o processo, realça Nuno Durão, que tem clientes que querem casas com alma e história. Normalmente vêm a Portugal durante três ou quatro dias, visitam os imóveis, decidem o que querem e iniciam o processo burocrático com os escritórios de advogados. A IRGLux era uma empresa com uma facturação que rondava os 10 a 15 milhões de euros. Em 2013, quando apostou no mercado dos vistos gold, facturou 60 milhões e este ano conta duplicar esse valor. Dois terços dos seus clientes que se candidatam ao visto gold são chineses. São grandes empresários, pessoas com muito dinheiro, sobretudo das áreas da construção e da indústria. A larga maioria chega-lhe através das subagências de emigração com que o departamento de emigração da China trabalha e que estão espalhadas pelo mundo. Em Portugal, nos últimos meses terão sido constituídas quase duas dezenas de empresas para trabalhar para essas agências. A CBIEC é uma dessas subagências de emigração da China, uma multinacional com filial localizada no edifício do Tivoli, em plena Avenida da Liberdade. Foi registada em Outubro do ano passado e tem como único 500 mil euros é o investimento mínimo num imóvel requerido para ter um visto gold 472 milhões de euros é o montante investido até agora proprietário Lian Zhenwen, com residência em Shenzhen, na China, que é citado em notícias internacionais como estando ligado aos serviços de emigração do Governo. Na CBIEC trabalham dez pessoas alguns são portugueses que falam chinês, todas com menos de 30 anos, descreve ao PÚBLICO o gerente, Alistair Kong, que recebem uma média de 20 clientes novos por mês. Já ajudaram na obtenção de uma centena de vistos gold e o processo demora entre poucas semanas e três meses.

2 Pág: 5 Área: 27,55 x 30,82 cm² Corte: 2 de 7 DANIEL ROCHA No Chiado, junto ao café A Brasileira, vende-se casas de luxo, em chinês Sobre as verdadeiras intenções dos seus compatriotas em relação aos vistos gold, Kong coloca como prioridade a mobilidade na Europa mas também as vantagens indirectas do facto de um chinês poder apresentar um documento europeu. Em quase todo o mundo, é muito difícil viajar com um passaporte da China. Talvez com a excepção de África, diz o gerente da CBIEC referindo-se ao facto de o pequeno cartão ajudar a facilitar a obtenção de outros vistos para viajar para a América. Ou seja, o gold visa, do tamanho do cartão de cidadão português, é visto como um espécie de passaporte não só para a Europa (directo) mas para o resto do mundo (indirectamente). Dupla nacionalidade O receio de que uma das intenções futuras seja a da aquisição de nacionalidade portuguesa não faz sentido para Alistair Kong. A China não permite que os seus cidadãos tenham dupla nacionalidade. Não me parece que um chinês aceite renunciar à sua cidadania original, justifica o gerente da CBIEC. A lei chinesa da nacionalidade estipula que um cidadão chinês que fixe residência no estrangeiro e requeira ou adquira nacionalidade estrangeira perde automaticamente a nacionalidade chinesa. Sobre os recentes problemas com cidadãos chineses com vistos gold acusados por burla na China, Kong enumera as condições do registo criminal limpo e das transferências de dinheiro entre bancos registados para assegurar que se trata de divisas limpas. Mas admite, porém, que não há, da parte das autoridades portuguesas, exigências de prova da actividade profissional do cidadão a quem se confere o visto gold. Sem querer entrar em pormenores sobre o custo das suas comissões, Alistair Kong diz que somando as taxas devidas ao SEF, aos encargos com os advogados, comissão à imobiliária e à agência de imigração, um processo para visto com um imóvel de 500 mil euros custará pelo menos 600 mil euros. Portugal é uma aposta da CBIEC para os próximos tempos. Alistair Kong salienta as vantagens de ser um programa novo, com condições atractivas por comparação com Espanha, Grécia ou Chipre. E lembra que outros países ou estão a restringir o acesso, como Chipre, ou a fechá-lo, como aconteceu recentemente com o Canadá. Diz mesmo que haverá maior procura em Portugal este ano precisamente por causa do fim do programa canadiano, onde havia dezenas de milhares de candidatos chineses. Um artigo recente da China Globe Newswire sobre os programas de países europeus para atrair imigrantes referia as vantagens do português, apesar de exigir um investimento mais alto do que a Grécia. O tempo de permanência exigido em Portugal, entre os sete dias no primeiro ano e os 14 por cada dois anos subsequentes, não afecta a vida do investidor na sua pátria [China]. Sobre a vantagem de os programas permitirem o reagrupamento familiar e admitirem que os filhos estudem na Europa, referia-se especificamente o facto de em Portugal o ensino primário e secundário serem gratuitos e de o sistema de ensino universitário ser bem reconhecido por outras instituições universitárias no Reino Unido e nos EUA. A par, claro, de serem destinos turísticos conhecidos mundialmente, com belas paisagens naturais, uma costa paradisíaca, onde cidadãos ricos podem ter alta qualidade de vida. Também em pleno Chiado, no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, a empresa Libertas abre uma nova loja da rede Casa em Portugal. O mercado do visto gold é muito atractivo e está em franca expansão, mas Luísa Tavares, directora de marketing, realça que Portugal está também a ser alvo de grande procura por europeus que querem beneficiar do regime de fiscalidade para não residentes habituais, e que estão dispostos a investir mais do que os limites mínimos fixados para os vistos gold. A empresa contratou recentemente um vendedor chinês para trabalhar o mercado do visto gold com o Oriente e diz que tem também procura de clientes russos a Primavera e o Verão são as melhores épocas, salienta. Na zona de Lisboa, os chineses têm muita apetência pela zona da Expo por lhes fazer lembrar Xangai, e procuram zonas de frente rio ou mar, com boas vistas. Claramente não há grande simpatia dos nossos parceiros europeus pelo que estamos a fazer, realça Luísa Tavares que participou, via Skype, há semanas numa mesa redonda da BBC em Estrasburgo, e recorda as fortes críticas de alguns eurodeputados do centro e do Norte da Europa aos programas de vistos em troca de casas de Portugal e Espanha. E vinca: É uma atitude sem sentido. Não se está a dar cidadania, que é um processo bem mais complexo, e nem sequer é líquido que a venham a requerer. com Margarida Gomes PERGUNTAS & RESPOSTAS O que é o visto gold? É uma autorização de residência para actividade de investimento (ARI) que permite a cidadãos de Estados fora da UE dispensarem o visto para entrarem em território nacional, poderem residir noutro país, circular pelo espaço Schengen sem necessidade de visto e beneficiar de reagrupamento familiar. Ao fim de cinco anos, e respeitando os requisitos da lei, poderá aceder à residência permanente em Portugal; ao fim de seis anos e também cumprindo as premissas legais, pode aceder à nacionalidade portuguesa. Quais os requisitos para a candidatura? Fazer um dos investimentos mínimos obrigatórios durante cinco anos (o cumprimento do prazo é atestado por declaração de compromisso de honra), ter um registo criminal limpo (não ter sido condenado por crime que em Portugal seja punível com pena privativa de liberdade de duração superior a um ano; não estar no período de interdição de entrada em território nacional por ter sido expulso; não estar referenciado no sistema de informação Schengen; não estar referenciado no sistema integrado de informações do SEF para efeitos de não admissão). Quais os investimentos mínimos? Têm que estar concretizados no momento da entrega da candidatura pelo menos um de três investimentos: transferência para um banco português de capitais no montante igual ou superior a um milhão de euros, ou criação de pelo menos 10 postos de trabalho, ou a aquisição de bens imóveis de valor igual ou superior a 500 mil euros. Como se comprovam os investimentos? No caso da transferência de capitais (incluindo investimento em acções ou quotas de sociedades) é necessária a declaração de uma instituição financeira autorizada para a actividade em território nacional, que prove a transferência. No caso dos dez postos de trabalho é preciso provar que foram criados e que os trabalhadores foram inscritos na Segurança Social. No caso da aquisição de imóveis é necessária a prova da propriedade dos bens através do contrato de compra ou do contrato promessa de compra e venda dos imóveis, incluindo a declaração de uma instituição financeira autorizada a actuar em Portugal que ateste a transferência efectiva para a aquisição ou concretização do sinal de promessa de compra no valor igual ou superior a 500 mil euros. Que outros documentos são exigidos? Passaporte ou outro documento válido, comprovativo da entrada e permanência legal em território nacional, um comprovativo de seguro de saúde, requerimento para consulta do registo criminal português pelo SEF, um certificado de registo criminal e a prova da situação contributiva regularizada. A que outras obrigações estão vinculados? Para as renovações no final do primeiro, terceiro e quinto ano, os detentores do visto gold poderão ter que demonstrar, respectivamente, que estiveram em Portugal pelo menos sete dias seguidos ou interpolados no primeiro ano, e 14 dias seguidos ou interpolados nos seguintes períodos de dois anos. Também têm que comprovar o pagamento dos impostos sobre os imóveis. Quais os custos processuais? O SEF cobra 513,75 euros pela abertura do processo e mais 80,08 euros por cada membro da família. O visto inicial para o candidato e para a família custa, por pessoa, 5137,5 euros. A renovação custa 2568,75 euros. M.L.

3 Pág: 6 Área: 27,28 x 30,75 cm² Corte: 3 de 7 VISTOS GOLD Intermediários é o que mais há no negócio da nova imigração chinesa rica Negócio envolve agências de emigração chinesas, escritórios de advogados portugueses, imobiliárias portuguesas e chinesas instaladas em Portugal e consultores de investimento Rosa Soares A obtenção de um visto gold implica um conjunto de procedimentos legais e administrativos, e envolve um conjunto elevado de intermediários, que podem fazer disparar o custo final do investimento e dificultar a sua rentabilização futura, constatou o PÚBLICO numa consulta a vários agentes no mercado. Do lado português, grandes escritórios de advogados, mediadoras imobiliárias portuguesas e chinesas instaladas em Portugal e consultores de investimento mobilizaram-se para aproveitar este novo negócio. Proliferam também redes informais de angariação de clientes, que incluem funcionários de embaixadas, empregados de hotéis ou de conhecidas casas de alterne de Lisboa, e cidadãos estrangeiros radicados em Portugal, com destaque para a comunidade chinesa, contam todos os que conhecem este negócio e com quem o PÚBLICO falou, mas pedindo anonimato. Do lado chinês, existem as agências de emigração públicas e privadas, estas últimas a trabalhar em regime de subcontratação ou licenciadas pelas primeiras. Na ofensiva para conquistar clientes, os grandes escritórios de advogados/mediadoras e consultoras portugueses estão a abrir instalações ou a deslocar-se regularmente ao país asiático para apresentar imóveis, que têm de se encontrar em condições de venda imediata característica fundamental para a concretização do negócio neste mercado. São oferecidos pacotes de imóveis Vistos dourados De onde vêm os imigrantes ricos 787 atribuições de residência (por ordem de investimento) China 622* Rússia 29 Brasil 21 Angola 16 *China 604; Hong Kong 13; Macau 5 Países com menos de dez atribuições África do Sul Líbano Paquistão Índia Iraque Síria Ucrânia Venezuela Colômbia EUA S. Cristovão e Nevis Tunísia Moçambique Egipto Jordânia Myanmar Líbia Arábia Saudita Vietname Marrocos Turquia Guiné-Bissau Taiwan Palestina Argélia Nova Zelândia Canadá FONTE: MNE Total investido 472,67 milhões de euros PÚBLICO para residência, com exigências de localização, e pacotes para rendimento (arrendamento), que valorizam mais a taxa de rentabilidade do que a localização. Neste aspecto, os chineses exigem taxas de rentabilidade da ordem dos 4 a 5%, comparativamente a investidores angolanos ou brasileiros, que pretendem valores próximos ou mesmo acima dos 10%. Os russos procuram o país essencialmente para residência familiar, temporária ou permanente. Do lado chinês também há prospecção activa de negócios, através das agências de emigração. Estas encarregam-se de convidar potenciais investidores, que depois reencaminham para as entidades portuguesas ou agências chinesas já a trabalhar em território português. Depois de identificados os potenciais clientes, da visita aos imóveis e da aceitação do preço, vem a contratação dos serviços de um advogado, para dar início às formalidades legais. Segue-se a abertura de uma conta num banco português e, neste caso, o BES e o BCP têm merecido a preferência, muitas vezes determinada pela proximidade das agências ao escritório de advogados. Seguem-se as primeiras diligências para pedir o ARI, com a deslocação dos potenciais beneficiários (não é possível a representação por terceiros) aos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, para recolha de dados biométricos (impressões digitais, entre outros). Estes dados são indispensáveis para a emissão de um cartão de identificação, que não é dourado, mas sim cor-de-rosa, semelhante ao cartão de cidadão português, e que é o documento que permite a entrada e estadia em Portugal e a circulação no espaço Schengen. Cumprida esta formalidade, segue-se a assinatura de um contrato de promessa de compra e venda e o pagamento de um sinal que, nos negócios que seguem a via mais formal, é paga pelas agências de emigração. Concluída esta fase, o investidor regressa à China, entrega o contrato de promessa de compra e

4 Pág: 7 Área: 27,48 x 30,68 cm² Corte: 4 de 7 Em pleno Chiado, a empresa Libertas abriu uma nova loja da rede Casa em Portugal DANIEL ROCHA venda no seu banco e dá instruções para uma transferência directa para a conta aberta em Portugal. Quando o dinheiro chega a Portugal, é marcada a escritura de venda do imóvel (ou imóveis, dado que em alguns casos são comprados vários apartamentos no mesmo prédio, de forma a atingir os 500 mil euros) e só com cópia desse documento é pedida a emissão do ARI. Nesta fase entram novamente em acção os escritórios de advogados, que surgem como representantes legais dos investidores estrangeiros, uma exigência que visa assegurar o pagamento de impostos. Os advogados passam a ter um negócio extra, que resulta do serviço de pagamento dos impostos e posteriores pedidos de renovação das autorizações, mas também, no caso dos imóveis para investimento, o recebimento de rendas e o pagamento de encargos, como o condomínio. A obtenção dos vistos pela via formal implica o pagamento de várias comissões, a começar pelas agências de emigração chinesas, e a acabar nos advogados, mediadores, consultores. Estas comissões correspondem a uma percentagem do valor do imóvel, podendo atingir percentagens acima da prática normal do mercado. A actividade tradicional de mediação imobiliária envolve comissões que rondam os 5%, mas no caso dos vistos gold têm sido referido valores da ordem dos 20 a 25%. A par dos negócios formais, contam-se muitas histórias de informalidades, mas também sob a condição de anonimato. Como é o caso de imóveis com preços de mercado de 300 mil euros vendidos acima dos 500 mil euros para permitir o ARI, mas em que o proprietário acaba por devolver ao investidor parte do excesso de valor declarado na escritura, algumas vezes sem acautelar o acerto de mais-valias que vai ter de fazer com as Finanças. São referidas ainda saídas clandestinas de dinheiro da China, através das regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau. Estas saídas de capital terão um custo aproximado de 20%. Se a este custo forem somadas as comissões de 20 a 25 por cento aos intermediários, praticadas com frequência, o custo do investimento pode subir para 45% do montante a realizar. Ou seja, para garantir em Portugal a aquisição de um imóvel no valor de 600 mil euros, o empresário pode gastar mais de 900 mil, o custo da lavagem do dinheiro. Governo escreve em relatório que vai apertar controlo, mas discurso oficial é cauteloso Rosa Soares, Ana Henriques, Samuel Silva O negócio dos vistos gold está a gerar, no Governo e no meio empresarial, um ambiente de euforia, pelo fluxo crescente de vendas. Mas também um clima de medo de que o aperto de critérios de concessão e renovação das autorizações de residência possa desviar os investidores para países mais flexíveis. O Relatório Anual de Segurança Interna, divulgado na última terçafeira, refere, no capítulo dedicado às orientações estratégicas para 2014, que ainda no corrente ano serão adoptados novos procedimentos tendo em vista assegurar que, mesmo após a concessão de Autorização de Residência para Actividade de Investimento (ARI), é verificada com regularidade a inexistência de situações que, pela sua relevância criminal, possam obstar à manutenção da autorização concedida. Até aqui, o registo criminal dos candidatos aos chamados vistos gold ou dourados apenas era exigido na altura da concessão da autorização de residência. Contactado repetidamente pelo PÚBLICO, o gabinete de imprensa do ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, não deu nenhum tipo de esclarecimento sobre o significado e o alcance dos novos procedimentos referidos no relatório, no capítulo do combate à imigração ilegal. Questionado pelo PÚBLICO sobre o assunto, à margem de uma visita que fez na última sexta-feira a Guimarães, Miguel Macedo mostrou-se cauteloso, remetendo a autoria da ideia [novos procedimentos] para um grupo de trabalho criado para acompanhar os vistos gold, composto pelo director-geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas, pelo director do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e pelo presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal. Não posso ainda especificamente enumerar quais sejam os novos procedimentos, embora tenha uma Paulo Portas e Miguel Macedo: sinais contraditórios noção daqueles que estão a ser ponderados, referiu o ministro. Acrescentou ainda que, a comissão de acompanhamento tem feito várias recomendações ao longo do tempo, que estão ainda em avaliação e que não estão formalmente apresentadas como procedimentos. A cautela de Miguel Macedo contrasta com o teor afirmativo do documento oficial. Pode ser este ano ainda, limitou-se a afirmar o ministro. O reforço do mecanismo de controlo surge numa altura em que foi detido pela Polícia Judiciária um cidadão chinês, na sequência de um mandado de captura internacional emitido pela Interpol, a pedido das autoridades chinesas, e que tinha visto gold. Controlo das autorizações Para um advogado de um escritório habituado a lidar com clientes de vistos gold, faz sentido que exista um controlo destas autorizações. Mas o mesmo jurista alerta para o risco de se afugentar potenciais investidores se esse controlo se revelar excessivo. Contactado pelo PÚBLICO, Luís Lima, presidente da APEMIP, a associação das empresas de mediação imobiliária, defende que há todo o interesse em reforçar os mecanismos de transparência deste negócio. É importante a cooperação entre as diferentes entidades envolvidas, portuguesas e chinesas, de forma a DANIEL ROCHA garantir maior transparência e segurança destes investimentos, que têm um grande potencial para o nosso país, referiu. Nuno Durão, sócio-gerente da imobiliária IRGLux a trabalhar com chineses, considera que o caso do chinês detido mostrou que o programa de checking funciona de tal maneira bem que o indivíduo foi apanhado em pouco tempo, realça e conta que sabe de apenas dois casos em que os clientes não conseguiram provar a proveniência do dinheiro. A APEMIP assinou recentemente, em Xangai, no âmbito de uma feira imobiliária, vários protocolos com congéneres locais, com vista a reforçar a troca de informações e melhorar a divulgação do imobiliário português. Ponce Leão, ex-presidente do Instituto da Construção e do Imobiliário e que agora trabalha numa consultora ligada à captação de investimento estrangeiro, disse recentemente ao PÚBLICO que a existência de abusos pode matar a actual galinha dos ovos de ouro do sector imobiliário, defendendo que o investimento deve ser pensado numa lógica sustentável, ou seja, garantindo rentabilidade aos investidores. Para o responsável, vários ministérios, incluindo o da Economia, deveriam estar a olhar para a forma como está a correr este programa, porque, como já aconteceu noutros países, com a mesma rapidez com estes investidores chegam também partem. Com Maria Lopes

5 Pág: 8 Área: 27,28 x 30,61 cm² Corte: 5 de 7 VISTOS GOLD Depois dos russos, os chineses chegam ao Algarve à procura de ar puro e do golfe Chegam de Xangai e de Pequim e a praia não é o que mais os atrai. Vilamoura vendeu as primeiras moradias a chineses Reportagem Idálio Revez Albertino Galvão, agente imobiliário na empresa Garvetur, acaba de chegar de uma viagem de uma semana a Xangai, onde foi promover o Algarve. Depois de divulgar os campos verdes e a leveza do ar que se respira, trouxe de lá uma missão: Pediram-me para organizar um torneio de golfe. O Algarve ainda não recebe um número significativo de visitantes dos chamados mercados emergentes asiáticos, mas há sinais de mudança. Vendemos a chineses, nos últimos cinco meses, cerca de duas dezenas de vivendas, em Vilamoura, convicto de que não será pelo sol e praia que se conquistam os turistas de Xangai ou Pequim. A praia não está na preferência dos chineses, mas o golfe começa a ser praticado pelas elites, sublinha. A região tem para oferecer o chamado triângulo dourado dos campos de golfe Quinta do Lago, Vale do Lobo e Vilamoura. O torneio que Albertino Galvão vai organizar, enfatiza, terá como convidados pessoas ligadas ao cinema. A última vaga de residentes estrangeiros que chegou ao Algarve nos anos mais recentes veio sobretudo da Rússia. Chegaram como investidores, integraram-se na sociedade, compraram casa, trouxeram a família e puseram os filhos a estudar em escolas internacionais. Numa das maiores escolas do Algarve, o Colégio de Vilamoura, representam hoje a terceira maior comunidade. Dmitry Sidorov reside no Algarve há 12 anos. Tenho sempre o mar em frente dos olhos, diz, referindo-se à vista privilegiada de que desfruta a partir da sua moradia, situada numa zona de barrocal, debruçada sobre a costa algarvia. É fantástico, o Algarve, diz o empresário russo, de 44 anos, que escolheu a região para viver com a família, incluindo quatro filhos. Ganhei o meu primeiro dinheiro, aos 20 anos, importando produtos da China para vender na Rússia, afirma Dmitry. No Algarve, desenvolve projectos na hotelaria e similares, mas refere a possibilidade de entrar em novas áreas. Na Quinta do Lago, Elísio Martins, da empresa O&O-Luxury Real Estate, tem a experiência de trabalhar com o mercado russo. Há mais de um ano que tenta furar a muralha dos negócios na China. No quadro dos colaboradores conta com o apoio de dois consultores chineses e uma russa, para melhor se inserir na cultura local. Os russos são dos nossos, diz o empresário especializado na comercialização de imóveis do segmento médio e alto, referindose às afinidades culturais que, de forma relativamente fácil, se estabelecem entre os dois povos. Já no que diz respeito à China, observa, a negociação é extremamente difícil. No processo de venda, refere, encontrou pelo meio as agências de imigração a colocarem 10% nas comissões de venda, exigindo 8% só para indicarem o potencial cliente e o contacto. A percentagem habitual no imobiliário, diz, é de 5%. Por outro lado, acrescenta, não se consegue fazer directamente uma campanha de marketing na China. Lucros de 5% As relações de confiança mútua são a chave do sucesso, lembram os agentes imobiliários. Não se pense que os vistos gold, por si só, atraem investidores, diz Albertino Galvão, adiantando ter clientes chineses que vivem na Inglaterra e na Alemanha, e querem comprar propriedades em Vilamoura. O que os atrai? Negócio, perspectivas de rentabilidade do investimento. Argumento de vendas: oferecemos 5% de rentabilidade na compra dos imóveis. Os preços das moradias V2 e V3, em Vilamoura, variam entre os 350 e os 550 mil euros. Mas há quem FOTOS: FILIPE FARINHA Duas moradias de luxo na zona de Vilamoura que foram compradas por investidores estrangeiros. Albertino Galvão (na fotografia do meio) é agente imobiliário na empresa Garvetur

6 300 Em Portugal e em Espanha, vistos dourados dependem de investimento mínimo de 500 mil euros. No Chipre são precisos 300 mil e na Grécia 250 mil Pág: 9 Área: 27,41 x 31,33 cm² Corte: 6 de 7 compre três ou quatro, observa o agente imobiliário para chegar aos requisitos dos vistos gold, só concedido com uma compra superior a 500 mil euros. A oferta sente, porém, limites. Falta modernidade e rejuvenescimento na arquitectura portuguesa, diz Elísio Martins, sublinhando que, nos últimos seis anos, o Algarve não tem novas construções. Os chineses gostam de modernidade, e essa é uma das razões por que têm preferido o Parque das Nações, em Lisboa. A qualidade de vida e do ar no Algarve, diz, é um bom argumento de venda a um povo que sente o peso da poluição, mas o Algarve, no Inverno, padece do problema da sazonalidade. Tive clientes que chegaram cá, em Outubro, e ficaram desapontados. Restaurantes vazios, casas comerciais encerradas e blocos de apartamentos sem ninguém, foi a imagem que levaram de uma terra que se diz cosmopolita. Dmitry, sentado na esplanada do Bar 7, junto à marina, goza o sol depois de uma manhã de chuva. Viajei por toda a Europa, e foi aqui que escolhi para viver com a minha família,, diz o empresário, lembrando que um dos factores da escolha foi o facto de o Colégio de Vilamoura, onde pôs os filhos a estudar, estar certificado e ter uma relação directa com Cambridge. Esta escola internacional tem cerca de 600 alunos, de 25 nacionalidades. Os estudantes de origem russa representam a terceira comunidade e os chineses ocupam o quarto lugar. Não tenho dúvidas. Dentro dois a três anos, vamos ter uma grande presença de chineses, enfatiza Albertino, lembrando que o Colégio, juntamente com a Escola Internacional de Porches, constitui uma mais-valia na oferta turística da região. No mesmo sentido, Elísio Martins defende a necessidade de existir na região uma grande universidade, com reputação internacional. O perfil dos clientes chineses com quem trabalha são casais entre os 35 e os 45 anos, com filhos entre os cinco e os 14 anos. Para Dmitry Sidorov, é importante a necessidade de clareza na imagem que Portugal passa para os potenciais investidores estrangeiros. Em 2009, uma empresa de capitais russos, por intermédio de uma offshore, comprou, por 50 milhões de euros, 529 hectares no Pontal. A propriedade, inserida na área do Parque Natural da Ria Formosa, estende-se da Quinta do Lago ao aeroporto de Faro. O projecto de construir 2500 camas e campo de golfe não avançou por incompatibilidade ambiental. Um embaraço europeu que quase todos sacodem para o lado Isabel Arriaga e Cunha, Bruxelas A tendência crescente de grande parte dos países da União Europeia (UE) de vender autorizações de residência em troca de investimento no território nacional mais conhecidas em Portugal por vistos gold está a causar algum embaraço em Bruxelas, sobretudo porque ninguém parece saber o que fazer. Oficialmente, várias fontes europeias contactadas pelo PÚBLICO sacodem a água do capote, lembrando que a concessão de autorizações de residência a cidadãos de países exteriores à UE constitui uma competência nacional. Juridicamente, não é totalmente assim: desde o Tratado de Lisboa de 2009 que esta passou a ser uma competência partilhada entre a UE e os seus Estados-membros. Só que, como a Comissão Europeia, o órgão executivo da UE, ainda não regulamentou esta competência, a questão permanece efectivamente nas mãos dos Estados. Quase todos os membros da UE têm esquemas de concessão acelerada e facilitada de residência a cidadãos endinheirados de países terceiros. A tendência acentuou-se nos últimos anos, sobretudo nos países com maiores dificuldades financeiras. Nestes casos, a concessão destas autorizações está sobretudo ligada à compra de imobiliário, no valor mínimo de 500 mil euros no caso de Portugal e Espanha, 300 mil em Chipre e 250 mil na Grécia. Nos outros países europeus, a regra tem mais a ver com investimentos em empresas ou em títulos do tesouro. A Holanda tem um esquema de concessão de residência para quem invista 1,250 milhões em empresas nacionais. A Alemanha é menos exigente: 250 mil euros para o arranque e operação de empresas. No Reino Unido, a condição é a compra de títulos do Tesouro no valor mínimo de 1,5 milhões de libras. Outros esquemas comparáveis existem em países da UE como Bélgica, França, Irlanda, Áustria ou Chipre, e em vários países terceiros, como EUA, Canadá ou Singapura. Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia No caso da UE, a grande questão que estes vistos especiais levantam é que permitem aos seus detentores deslocarem-se pela totalidade da zona Schengen sem controlos nas fronteiras. Os peritos europeus consideram que todos estes esquemas, sem serem exactamente ilegais, desvirtuam as regras europeias porque permitem aos imigrantes ricos contornar a política comum de vistos, comprando o seu direito de residência. Tanto mais, alegam, que o direito de residência resulta por definição de uma ligação efectiva do imigrado ao país em causa, sobretudo em termos de residência efectiva e de trabalho, o que não é o caso da maior parte dos vistos gold. Em Portugal, por exemplo, a lei determina que os detentores de vistos gold só precisam de estar fisicamente presentes no país durante 7 dias no primeiro ano, e 14 nos anos seguintes. O que significa que as condições para os imigrantes ricos são muito menos exigentes do que para os imigrantes que entram pela via normal e que, apesar de viverem, trabalharem e pagarem impostos no país de destino, perdem o direito de residência se se ausentarem por alguns meses. Por todas estas razões, os vistos gold contrariam, para estes peritos europeus, um princípio básico do tratado da UE, que é o da cooperação leal entre Estados, porque representa, no mínimo, uma entorse, à política comum de vistos e ao espírito de Schengen. A Comissão reconhece nas entrelinhas precisamente a mesma coisa mas insiste em lavar as mãos da questão insistindo em que se trata de uma competência dos Estados. Só que, mesmo nas áreas de competência nacional, o princípio da cooperação leal implica, segundo o que está estipulado logo no artigo 4.º do Tratado da UE, que os Estadosmembros facilitam à União o cumprimento da sua missão e abstêm-se de qualquer medida susceptível de pôr em perigo a realização dos objectivos da União. Por que é que a Comissão nunca se deu ao trabalho de regulamentar as autorizações de residência é uma questão para a qual ninguém parece ter resposta. Por enquanto, Bruxelas só se insurgiu verdadeiramente no caso de Malta, que foi bem mais longe do que todos os outros países ao vender já não tanto autorizações de residência, mas a própria nacionalidade, ou cidadania. Na minúscula ilha do Mediterrâneo, a lei permitia inicialmente a concessão imediata da nacionalidade a todos os cidadãos dispostos a transferir 1,1 milhões de euros para o país em investimentos e depósitos. Depois dos protestos vigorosos da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu, o Governo alterou a lei para acrescentar uma obrigação de residência de um ano prévia à concessão da nacionalidade. Com este esquema, o Estado maltês espera arrecadar uma receita anual de mil milhões de euros para investimentos em infra-estruturas. Os defensores dos vistos dourados consideram os dois casos muito diferentes, alegando que a concessão de residência é um direito temporário, enquanto a cidadania é permanente e permite aos visados não só deslocarem-se, mas instalarem-se efectivamente em qualquer país de Schengen. Os opositores dos vistos dourados lembram, no entanto, que, na maior parte dos países europeus, o direito de residência de cidadãos de países terceiros abre a porta à obtenção da nacionalidade ao fim de cinco ou seis anos, como é o caso em Portugal.

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