SEREMOS GRANDES SE CONTRIBUIRMOS PARA QUE A SOCIEDADE O SEJA CONOSCO

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2 SEREMOS GRANDES SE CONTRIBUIRMOS PARA QUE A SOCIEDADE O SEJA CONOSCO Na FUNDACIÓN MAPFRE, por meio dos seus diferentes Institutos, trabalhamos pela integração dos grupos que mais o necessitam e fomentamos a segurança e as atividades culturais para contribuir com o progresso da sociedade.

3 editorial Crises e oportunidades Enquanto o aperto da recessão econômica torna-se mais forte e o comércio mundial diminui, a necessidade de segurança aumenta sem parar. As crescentes taxas de desemprego e a contração dos principais indicadores financeiros indicam que a recuperação econômica não poderá ser anunciada antes de Assim sendo, a metáfora sobre os brotos verdes, expressão repetida em toda parte, é uma mensagem para a esperança que, em plena crise e diante de visões menos otimistas, procura evitar uma crise social maior. Entretanto, a crise atual pode se tornar uma oportunidade para enfrentar o futuro? Não seria a primeira vez que os nossos diretores e gerentes de riscos fazem da necessidade uma virtude. Nesse sentido, devemos lembrar que as estatísticas não são um consolo e, claro, muito mais pessoas sofrem de malária do que de gripe A. Mesmo assim, as nossas preocupações e a nossa atenção não mudam somente porque a razão diz que deve ser assim. O profissional da Gerência de Riscos que entrevistamos neste número da revista nos revela como além de administrar os riscos da maior multinacional privada de Portugal, a Sonae, com presença em vinte seis países consegue ter tempo para dirigir o quinto broker de resseguros em nível mundial, e inclusive presidir de uma fundação musical a um clube de futebol da primeira divisão lusa. O primeiro estudo, resumo da palestra premiada na terceira reunião de pesquisa em seguros e gestão do risco (RISCO 2009), é um claro paradigma da importância dos métodos quantitativos na medição e gestão do risco e do crescente interesse nestes temas, inclusive em nível de rua, na hora de diversificar carteiras. O segundo estudo apresenta a primeira das duas partes do trabalho no qual o seu autor anterior diretor desta revista apoiando-se em abundante informação estatística, analisa a mortalidade por acidentes na Espanha e sua comparação com outros países. 3

4 editorial O último estudo apresentado indica as virtudes de um centro de documentação ou biblioteca digital diante do risco da superabundância de informação que trouxeram consigo as novas tecnologias e que, apesar de ter suposto para o pesquisador uma liberdade maior, pode levar a uma falta de análise e à desinformação. O relatório elaborado pelo Centro de Estudos da FUNDACIÓN MAPFRE, sobre o ranking dos maiores grupos seguradores Não Vida 2008, mostra o resultado obtido a partir da análise dos relatórios anuais das próprias companhias. O Observatório de Sinistros nos explica quem cuida do acompanhamento das ações criminosas realizadas contra os bens culturais e ilustra a seção com uma pesquisa desenvolvida em Como, sem dúvida alguma, os bons desejos fazem parte dos planos de recuperação, não queremos encerrar este editorial sem desejar aos nossos leitores que tenham um feliz ano em expediente EDITOR FUNDACIÓN MAPFRE INSTITUTO DE CIENCIAS DEL SEGURO PASEO DE RECOLETOS, MADRI (ESPANHA) TEL.: (34) FAX: (34) DIRETOR JOSÉ LUIS IBÁÑEZ GÖTZENS REDATORA CHEFE ANA SOJO GIL COORDENAÇÃO MARÍA RODRIGO LÓPEZ CONSELHO DE REDAÇÃO IRENE ALBARRÁN LOZANO, ALFREDO ARÁN IGLESIA, FRANCISCO ARENAS ROS, MONTSERRAT GUILLÉN ESTANY, ALEJANDRO IZUZQUIZA IBÁÑEZ DE ALDECOA, CÉSAR LÓPEZ LÓPEZ, JORGE LUZZI, MIGUEL ÁNGEL MACÍAS, FRANCISCO MARTÍNEZ GARCÍA, IGNACIO MARTÍNEZ DE BAROJA Y RUÍZ DE OJEDA, FERNANDO MATA VERDEJO, EDUARDO PAVELEK ZAMORA, Mª TERESA PISERRA DE CASTRO, CÉSAR QUEVEDO SEISES, FRANÇOIS SETTEMBRINO. REALIZAÇÃO EDITORIAL COMARK XXI CONSULTORES DE COMUNICAÇÃO E MKT DESENHO GRÁFICO ADRÍAN Y UREÑA IMPRESSÃO GRÁFICAS CGA VERSÃO BRASILEIRA: JORNALISTAS RESPONSÁVEIS TATIANA CEREZER - MTB , ANDRÉ GUERRA - MTB CONSELHO DE REDAÇÃO ANTONIO CÁSSIO DOS SANTOS, DIRCEU TIEGS, SÉRGIO W. MARINS BARBOSA TRADUÇÃO ELIZABETH PINHEIRO COLABORADORES CARINA RODRIGUES E MICHELL NIERO PROJETO GRÁFICO ADAPTADO bmew PROPAGANDA DESIGNERS FLÁVIO BARÃO E MIGUEL DALLACQUA JUNIOR PRÉ-IMPRESSÃO E IMPRESSÃO IPIIS GRÁFICA EDITORA GERÊNCIA DE RISCOS E SEGUROS Não é responsável pelo conteúdo de nenhum artigo ou trabalho assinado por seus autores. O fato de publicá-los não implica conformidade ou identificação com os trabalhos expostos. Está proibida a reprodução total ou parcial dos textos e ilustrações desta revista sem autorização prévia e por escrito dos editores. 4

5 índice PRIMEIRO QUADRIMESTRE 2010 Obs.: Versão brasileira traduzida, originalmente, da edição espanhola da Revista Gerencia de Riesgos y Seguros, 3º Quadrimestre de Atualidade 6 Novidades legislativas. Risco de pandemia. II Congresso Ibérico de Atuários. Jornada em Madri sobre a Teoria da Credibilidade. Congresso Risco Apresentação do IGREA. Entrevista 12 José Manuel Dias da Fonseca, conselheiro delegado da MDS Holding A Gerência de Riscos tem que ser ativa e motivadora Estudos Novas oportunidades de diversificação de riscos. Avaliação e cobertura de derivados de volatilidade. RAQUEL BALBÁS APARICIO Análise de mortalidade por acidentes FRANCISCO MARTÍNEZ GARCÍA...36 Risco de excesso de informação MARISOL REVILLA GUZMÁN Relatório Ranking dos maiores grupos seguradores europeus Não Vida 2008 CENTRO DE ESTUDOS FUNDACIÓN MAPFRE...58 Observatório de sinistros Crimes contra o patrimônio histórico. Proteger o nosso passado cultural para assegurar o futuro GERÊNCIA DE RISCOS E SEGUROS...74 Livros 86 Notícias AGERS 90 Caderno Brasil EIMA-7 resulta em carta pela sustentabilidade...92 Alternativas para geração de energia limpa e renovável

6 LEGISLAÇÃO Novidades RISCO DE PANDEMIA Lei 5/2009, de 29 de junho, pela qual se altera a Lei 24/1988, de 28 de julho, de Mercado de Valores, a Lei 26/1988, de 29 de julho, sobre Disciplina e Intervenção das Instituições de Crédito, e o texto consolidado da Lei de Ordenamento e Supervisão dos Seguros Privados, aprovado pelo Real Decreto Legislativo 6/2004, de 29 de outubro, para a alteração do regime de participações significativas em empresas de serviços de investimento, em entidades de crédito em empresas seguradoras. B.O.E. número 157, de 30 de junho de Resolução de 19 de maio de 2009, da Diretoria Geral de Seguros e Fundos de Pensões, pela qual se publica a atualização do valor do fundo de garantia e dos limites para determinar a quantia mínima da margem de solvência das empresas seguradoras e resseguradoras. B.O.E. número 134, de 3 de junho de Diretiva 2009/20/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de abril de 2009, relativa ao seguro dos proprietários de navios para as reclamações de Direito marítimo. D.O.U.E. número L 131/128, de 28 de maio de Resolução de 19 de maio de 2009, da Diretoria Geral de Seguros e Fundos de Pensões, pela qual é aprovado o encargo a favor do Consórcio de Compensação de Seguros para financiar as suas funções com relação ao seguro obrigatório de responsabilidade civil na circulação de veículos a motor. B.O.E. número 128, de 27 de maio de Atualidade Enquanto o capítulo da gripe aviaria H5N1 ainda não foi totalmente encerrado, nos deparamos com a ameaça de uma nova pandemia: a gripe suína ou gripe aviar A/H1N1. Não é a primeira vez na história que ocorre uma pandemia. Existem abundantes fontes escritas que descrevem a propagação de doenças entre diferentes países e continentes, como a peste do século VI oque assolou o Império Bizantino na época de Justiniano. A mais conhecida por sua extrema virulência é a denominada peste negra, do século XIV, que acabou com um terço da população mundial, afetando especialmente a Europa, a Ásia e a África. Ocorreram outras epidemias graves no passado século XX, que tiveram como protagonista o vírus influenza. A gripe de 1918, também chamada gripe espanhola, embora os primeiros casos tenham sido detectados na América do Norte, é considerada a terceira catástrofe de saúde da história, junto com a peste bizantina e a peste negra do século XIV. Em 1957 estendeu-se uma nova pandemia, denominada gripe asiática, por sua origem ter ocorrido na cidade de Pequim. Posteriormente, estendeu-se pela Austrália e pela América. Esta epidemia fez um bilhão e 4 milhões de vítimas. Entre 1968 e 1970 ocorreu a terceira pandemia do século XX provocada pelo vírus influenza. Sua origem ocorreu novamente na 6

7 Ásia, mais precisamente em Hong Kong, onde houve mais de afetados. Felizmente, a mortalidade desta terceira epidemia foi relativamente baixa em proporção ao número de afetados. Em 11 de junho/09, depois de realizar as correspondentes consultas com a comissão de emergências, e conforme os procedimentos previstos no Regulamento de saúde Internacional, a diretora geral da OMS, Dra. Margaret Chan, decidiu elevar o nível de alerta de pandemia de gripe da fase 5 para fase 6. Segundo fontes do Ministério da Saúde e Política Social da Espanha, a situação de pandemia declarada pela OMS referese à extensão do vírus e à sua transmissão sustentada, não à gravidade clínica da doença. De fato, a OMS qualifica o estado da nova gripe como de pandemia moderada, ao referir-se à situação global do vírus, ainda que destaque que o desenvolvimento da pandemia depende das características sociais e de saúde de cada país. Por exemplo, na Europa e, portanto, na Espanha, a doença é leve e evolui sem graves complicações. II CONGRESSO IBÉRICO DE ATUÁRIOS Durante os dias 11 e 12 de junho celebrou-se o II Congresso Ibérico de Atuários, que ocorreu no campus da Universidad do País Vasco Euskal Herriko Unibertsitatea, nas instalações da Faculdade de Ciências Econômicas e Empresariais. A Faculdade de Ciências Econômicas e Empresariais é, desde a sua origem, uma das que têm ministrado os ensinos que levam à formação destes profissionais. A organização do II Congresso Ibérico de Atuários ficou por conta do Colégio de Atuários do País Vasco / Euskal Herriko Aktuarioen Elkargoa, junto com o Col. legi d Actuaris de Catalunya, o Instituto de Atuários Espanhóis e o Instituto dos Actuários Portugueses, contando com a colaboração do Instituto de Estudos Financeiro-Atuariais da UPV-EHU. A presidência do congresso, na sessão de abertura, foi encabeçada pelos respectivos presidentes, Amancio Betzuen, Albert Ferrando (em representação), Julián Oliver e María de Nazaré Barroso. E contou com a presença de Katsumi Hikasa, presidente da Associação Internacional de Atuários. As sessões permitiram, como 7

8 nos objetivos do congresso, que a centena de assistentes que se distribuíram ao longo das diferentes sessões pudessem escutar daqueles que estão participando da construção da própria normativa as posições existentes em um projeto de grande impacto para a profissão, como o Solvência, e o que o mesmo envolve consolidação, por um lado, e de geração de novos requisitos por outro. As diferentes visões foram abordadas pelos Srs. Borginho, Peraita e Ferrando e pela Sra. Duque. Junto ao Solvência, nas sessões plenárias, foi alvo de atenção a gestão da informação documentária em seguros e gerência de riscos. O aporte de conhecimentos e experiências entre os atuários na sua vertente financeira e atuarial foi abordado também no programa técnico e nas diferentes sessões, que foram agrupadas em diferentes blocos: Gestão de Riscos de Sobrevivência. Gestão de Riscos Financeiros. Solvência II e Dependência. Seguro Social. Vida, Planos de Previdência, EPSV e Mutualidades. Com o programa técnico, desenvolveu-se um intenso programa social que permitiu aos assistentes não somente atualizar conhecimentos, mas também desfrutar da riqueza cultural, paisagística e gastronômica de Vizcaya. O encerramento do congresso contou com a presença de Arturo Rodríguez, decano da Faculdade de Ciências Econômicas e Empresariais; Antonio Gallarreta, diretor geral de Inovação e Promoção Econômica da Câmara de Deputados de Bizkaia, e Katsumi Hikasa, presidente da Associação Internacional de Atuários, bem como de Amancio Betzuen, presidente do Colégio de Atuários do País Vasco, que cedeu o testemunho a Juan Oliver, presidente do Instituto de Atuários Espanhóis, a quem caberá liderar a organização do próximo congresso. 8

9 JORNADA EM MADRI SOBRE A TEORIA DA CREDIBILIDADE Em 17 de junho ocorreu no salão de atos da FUNDACIÓN MAPFRE a jornada de divulgação sobre a Teoria da credibilidade: desenvolvimento e aplicações em prêmios de seguros e riscos operacionais, organizada pela FUNDACIÓN MAPFRE e o Instituto de Atuários Espanhóis. No evento, ao qual compareceram mais de 80 pessoas dos campos profissional e acadêmico de seguros, foi apresentado o trabalho vencedor do IV Prêmio Internacional de Seguros Julio Castelo Matrán, de Emilio Gómez Déniz e José Ma. Sarabia Alegría. Na sequência, Ángel Vegas Montaner, presidente da Escola de Prática Atuarial e Financeira do Instituto de Atuários Espanhóis, palestrou sobre aplicações atuariais da teoria da credibilidade, e Inmaculada Peña Sánchez, atuária da MAPFRE FAMILIAR, sobre a aplicação prática de modelos de credibilidade na tarifação de seguros de saúde. CONGRESSO RISCO 2009 A FUNDACIÓN MAPFRE acolheu em 18 e 19 de junho a Terceira Reunião de Pesquisa em Seguros e Gestão do Risco (RISCO 2009). A reunião foi organizada pelo Grupo de Pesquisa de Métodos Matemáticos Aplicados à Ciência Atuarial da Universidad Complutense de Madri, em colaboração com o Grupo de Pesquisa do Risco em Finanças e Seguros da Universidad de Barcelona. 9

10 A grande participação registrada no congresso, onde foram apresentados 34 trabalhos de 70 autores, reflete o interesse que atualmente desperta na Espanha, o estudo dos problemas relacionados aos seguros e à gestão do risco. A FUNDACIÓN MAPFRE, além de acolher esta terceira edição do congresso, concedeu um prêmio de euros à melhor comunicação apresentada, que recaiu na intitulada Valoración y cobertura de derivados de volatilidad [Avaliação e cobertura de derivados de volatilidade], de Raquel Balbás. Outrossim, na coleção Cadernos da Fundación foi publicado o livro que contém as exposições realizadas. APRESENTAÇÃO DA IGREA Em 7 de julho foi apresentado em Madri, diante de um seleto grupo de gerentes de riscos das principais empresas do nosso país, uma iniciativa que aspira reunir os profissionais da gerência de riscos na Espanha em um forum profissional e empresarial. Iniciativa dos Gerentes de Riscos Espanhóis Associados (IGREA), nome com o qual é apresentada esta nova associação, pretende alcançar os seguintes objetivos: 1. Potencialização da Gerência de Riscos e Seguros e da Gestão Integral do Risco Empresarial (Enterprise Risk Management ERM). 2. Fomento e desenvolvimento da profissão de gerente de riscos e seguros. 3. Constituição de um órgão de representação das empresas associadas na qualidade de compradores de seguros e gestão de riscos em relação ao mercado segurador e às instituições. 4. Intercâmbio de experiências e conhecimento sobre controle de riscos empresariais. 5. Defesa das melhores práticas profissionais. As suas atividades, portanto, estarão focadas principalmente em: Forum de debate e encontro permanente sobre aspectos relevantes de caráter profissional, potencializando a comunicação com o mercado de seguros, autoridades reguladoras, associações e a universidade, obtendo informação necessária para a melhor realização das práticas profissionais entre os seus membros. Intercâmbio de experiências que possam enriquecer o debate e ajudar seus membros na sua atividade profissional. Apresentações e debates sobre temas de interesse (coberturas, melhores práticas, gestão e serviço de fornecedores...). Reuniões setoriais para membros da mesma atividade. Por último, esta associação nasce com uma idéia integradora da profissão que ajude a modernizar as práticas atuais e aporte valor às empresas que forem incorporadas. O processo de constituição está em andamento e já foi assinada a ata de fundação, ficando pendente a sua inscrição no correspondente registro. 10

11 Agenda AGENDA 2010 CONGRESSOS E JORNADAS JORNADA DATAS LOCAL EXPOSITORES CONFERÊNCIA ANUAL CONGRESSO ANUAL XIII CONGRESSO ABRIL ABRIL MAIO STAFFORDSHIRE (REINO UNIDO) BOSTON, MA (ESTADOS UNIDOS) PARIS (FRANÇA) IRM RIMS AIDA CONGRESSO ANUAL MAIO MADRI (ESPANHA) AGERS CONFERÊNCIA ANUAL 6-9 JUNHO ORLANDO, FLÓRIDA (ESTADOS UNIDOS) PRIMA CONGRESSO ANUAL JUNHO MANCHESTER (REINO UNIDO) AIRMIC CONGRESSO ANUAL JUNHO NOORDWIJCK (HOLANDA) NARIM 2º CONGRESSO MUNDIAL DE RISCOS E SEGUROS FINANCEIROS JULHO SINGAPURA (SINGAPURA) APRIA XIII CONGRESSO 7-9 SETEMBRO MUNIQUE (ALEMANHA) DVS

12 entrevista Na hora de investir, diversificar, inovar, criar... sempre há um risco. É importante, quando se dá um passo a frente, fazê-lo com segurança, diz José Manuel Dias da Fonseca, Conselheiro Delegado da MDS, o principal broker de seguros de Portugal, integrado nas empresas Sonae. O grupo luso, presente em uma infinidade de mercados e com grande diversificação de atividades, criou um modelo quase único de Gerência de Riscos e seguros, com base na motivação, no diálogo e na transparência. TEXTO: ALICIA OLIVAS FOTOS: ALBERTO CARRASCO José Manuel Dias da CONSELHEIRO DELEGADO DA MDS HOLDING 12

13 A Gerência de Riscos tem que ser ativa e motivadora. Fonseca13 13

14 entrevista Transparência, ética e responsabilidade são os princípios básicos da atuação da Sonae. Como a sua política de Gerência de Riscos é aplicada a estes princípios? Também acrescentaria a independência, um princípio que está presente na nossa estratégia global. A Sonae é um grupo de grande dimensão, com ativos em países diferentes, grande diversificação de negócios e liderança. Pode-se dizer que, direta ou indiretamente, todos os portugueses, de uma forma ou de outra, pelo menos uma vez na vida, são clientes da Sonae: em centros comerciais, lojas de telecomunicações, supermercados, como usuários de tabuleiros de madeira ou como público alvo de meios de comunicação. Por outro lado, o grupo inclui mais de trabalhadores que dependem da empresa. Tudo isso envolve uma responsabilidade, e obriga a uma transparência e ética enormes nos negócios, bem como a uma estrutura econômica sustentável. A Sonae tem um respeito muito grande por seus empregados e clientes, que são a sua razão de ser. Por isso, a Gerência de Riscos deve levar em conta tudo: clientes, colaboradores, ativos... Além disso, a Sonae envolve toda a organização na cultura da proteção. Há alguns anos lançamos, com uma consultoria internacional, uma iniciativa para criar nos centros comerciais da Sonae do mundo inteiro uma cultura de segurança, que começa, inclusive, na construção do centro. E temos exemplos muito interessantes, como o da Romênia, onde não paramos um minuto sequer desde o início das obras até a abertura do centro, graças à segurança que conseguiu envolver todo o projeto. Esta iniciativa conta com um investimento muito importante de 5 milhões de euros em cinco anos, e os resultados são realmente bons. A Sonae é um grande grupo formado por três sociedades holdings (Sonae, A GERÊNCIA DE RISCOS DEVE LEVAR EM CONTA TUDO: CLIENTES, COLABORADORES, ATIVOS... UM MUNDO MUITO GRANDE QUE DEVEMOS CUIDAR E RESPEITAR MUITO. Sonae Indústria e Sonae Capital) que contém negócios tão variados como o retail, os centros comerciais, as telecomunicações, a mediação de seguros (MDS), os derivados da madeira, o turismo... Existe uma estratégia comum para a Gerência de Riscos em todos os segmentos de atividade? Efetivamente, existe um denominador comum baseado em dois pilares muito importantes. Em primeiro lugar, desde o ano 2000, o grupo conta com uma unidade muito importante: o Conselho Consultivo de Gerência de Riscos, que se reúne quatro vezes ao ano e agrupa todos os responsáveis de riscos. Além disso, tem um presidente, que é, por sua vez, um dos vice-presidentes do Grupo. O Conselho 14

15 tem inúmeras funções. A primeira delas é propor políticas de Gerência de Riscos, para que sejam incorporadas nas diferentes sociedades e atividades do grupo, estabelecer as mudanças nas estratégias colocadas em funcionamento, ver como evoluem... Também serve como fórum para trocar experiências e saber quais são os resultados que o restante do grupo está fazendo em segurança, proteção, e conhecer. O segundo pilar se refere aos seguros, que são coordenados globalmente para todas as unidades e áreas do grupo através da MDS, a corretora da Sonae, que inclui os riscos de danos materiais, perdas de negócio, avarias de maquinaria, responsabilidade civil, D & O, crédito... e também os riscos pessoais: acidentes, saúde, vida, o que aporta enormes vantagens do ponto de vista de custos e uma experiência muito grande, já que a MDS também atua com independência no mercado. Dentro do Sonae sempre existiu uma grande preocupação pelos seguros e pelo controle dos riscos. A Sonae é um grupo amante do risco inerente a qualquer negócio na hora de investir, diversificar, inovar, criar... Nos negócios sempre existe um risco, mas também é importante, quando damos um destes passos, fazê-lo com segurança, protegendo os ativos, as pessoas... Por isso a Sonae criou a sua própria corretora para administrar os riscos do grupo no mundo inteiro e depois verificar a sua atuação no mercado. É um modelo quase único. DENTRO DO SONAE SEMPRE EXISTIU UMA GRANDE PREOCUPAÇÃO PELOS SEGUROS E CONTROLE DOS RISCOS. Como está organizada a gestão do risco na Sonae? Quais departamentos ou áreas interferem neste processo e qual é o funcionamento? Além do Conselho Consultivo, na holding há uma Diretoria Corporativa de Riscos, à frente da qual há um diretor que é o encarregado da política de gestão de riscos de todo tipo: marca, reputação, operacionais etc. Depois, todos os negócios têm um responsável ou administrador executivo desta atividade, um diretor de primeira linha que em alguns negócios também cuida da auditoria. Existe uma visibilidade e uma transparência muito grandes na Gerência de Riscos das empresas da Sonae. Sabe-se perfeitamente quem são os responsáveis da Gerência de Riscos e quais são os projetos que desenvolvem. Criar valor é o objetivo primordial da gestão do risco na Sonae. Como alcançarão esta meta? A filosofia da nossa política de Gerência de Riscos é proteger o grupo e permitir que se desenvolva e cresça, ou seja, que não seja um obstáculo ao crescimento e à diversificação, mas totalmente o contrário: criar oportunidades e facilitar o avanço do grupo. A Gerência de Riscos deve acompanhar o crescimento, a diversificação, a inovação, resumindo, deve ser ativa e motivadora, porque qualquer obstáculo impede de nos mover. Também é crucial ser muito realistas, a comunicação, e que exista muita transparência na gestão dos riscos... Na Sonae não escondemos nada: se é bom, é bom; se é ruim, é ruim. A comunicação e a transparência com os seguradores são muito importantes. A Gerência de Riscos deve permitir que o grupo siga adiante, cresça, se diversifique e inove com segurança. A Gerência de Riscos é aplicada em todos os processos do grupo, seguindo os critérios da Entrerprise Risk Management (ERM). Por que optaram por esta metodologia? Trata-se de uma ferramenta que já foi testada. Por outro lado, é uma metodologia que nos agrada muito porque envolve o negócio como um todo e não como partes muito específicas. Permite ver uma imagem completa e não centrada em um risco e esquecer o restante; e estabelecer relações entre algumas ame- 15

16 entrevista aças, já que há riscos que contaminam... Embora também seja uma ferramenta que exige muito, principalmente em determinadas áreas. Por isso, muitas vezes tem que ser implantada com consenso e passo a passo, e é isso o que estamos fazendo. A Sonae é um grupo que dá grande valor à autonomia e independência de cada negócio. Existe uma grande cultura de autonomia e, por conseguinte, de responsabilidade. O mundo inteiro deve perceber que a Gerência de Riscos é muito importante para sua atividade e implantar a ferramenta por etapas. A gestão do risco é uma responsabilidade de todos os colaboradores, mas a quem cabe semear uma cultura do risco em toda a organização? Poderíamos dizer que ao presidente do Conselho Consultivo de Riscos, uma pessoa que fica no mais alto degrau hierárquico e muito envolvida nesta faceta há anos. Conhece muito bem o mundo do seguro, está muito perto de nós e trabalha diretamente com os gerentes de riscos. Entre os desafios da Sonae está a identificação de todas as ameaças que afetam a sua atividade. Como desenharam o seu mapa de riscos? Não é fácil. No nosso caso, não se trata do mapa de riscos, mas dos mapas de riscos, que desenhamos com ajuda de uma grande consultoria internacional, que nos permitiu também fazê-lo de uma forma mais rápida e consistente. Começamos na base, em sentido ascendente, ou seja, construindo mapas de risco de negócio e não do grupo; perguntando aos gerentes em cada negócio, em cada país, para depois ir subindo, tecendo a rede. É o que se denomina mapa de cima. Os mapas de riscos do Sonae são claros, muito práticos, nada teóricos, construídos por etapas e muito no estilo do A GERÊNCIA DE RISCOS TEM QUE PERMITIR QUE O GRUPO CONTINUE, CRESÇA, SE DIVERSIFIQUE E INOVE COM SEGURANÇA. Sonae, de forma nada burocrática, com muita participação, diálogo; todos intervieram, deram a sua opinião... Se for feito de forma contrária, perde-se um grande conhecimento do que está abaixo: o mercado, os clientes, os corretores... E tem que ter muita motivação. Se as equipes estão muito motivadas para sua empresa, o envolvimento é maior, e, no caso de sinistro, as incidências costumam ser menores que em outras empresas com sinistros parecidos mas equipes menos motivadas. As pessoas devem fazer parte do projeto e sentirem-se integradas nele. Neste momento, quais são os riscos que o preocupam? As ameaças presentes no âmbito do planejamento estratégico de novos negócios ou projetos? Os riscos que afetam o cumprimento de objetivos? Os que afetam os ativos tangíveis ou as pessoas? Os riscos financeiros? Eu acrescentaria também os riscos de reputação, de marca, que para uma empresa como a Sonae são muito importantes. A Sonae é um grupo crucial para a economia do seu país, com muitos colaboradores, diversificado, descentralizado, com muitos clientes e uma reputação muito grande. Muitas marcas são reconhecidas pelos portugueses como símbolos de absoluta confiança. A marca Continente, por exemplo, é considerada todos os anos como uma das primeiras de Portugal, e tudo isto tem que ser protegido permanentemente, porque não podem ocorrer falhas. Em todos os países onde estamos presentes temos padrões muito claros de respeito à lei, cumprimento de obrigações fiscais... Eu diria que isto é uma obsessão para a Sonae. Assim, a nossa reputação é um objetivo permanente, independente da conjuntura econômica, se há mais ou menos crise. Outro objetivo permanente para a Sonae, outra das suas obsessões, são as pessoas: seus clientes, seus colaboradores. 16

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18 entrevista Além disso, hoje podemos falar de outros riscos: da crise; do crédito, um risco muito importante para um grupo que cresce muito; dos riscos relacionados à expansão geográfica, problemas relacionados à insegurança ou arbitrariedade jurídica de alguns países ou as inadimplências; dos riscos de taxa de câmbio... Todos eles também são muito importantes para nós. E, claro, os riscos que afetam os nossos ativos, principalmente em alguns negócios, como no caso da Sonae Industria, que tem 34 andares especializados na fabricação de tabuleiros de madeira, onde o risco de ocorrer de um sinistro pode ter conseqüências importantes. Outros ocorrem, por conta da grande afluência de público, com os centros comerciais mais de 50 no mundo inteiro de grandes dimensões e, por conseguinte, multitudinários; as lojas de retail em Portugal. HÁ UMA GRANDE VISIBILIDADE E TRANSPARÊNCIA NA GERÊNCIA DE RISCOS DAS EMPRESAS DO SONAE. A Gerência de Riscos acompanha como o desenvolvimento internacional da Sonae? A expansão internacional é muito importante para a Sonae porque a curto prazo, em alguns negócios, como no caso da venda no varejo, onde a Sonae já conta com uma quota de mercado importante, é muito difícil crescer mais em Portugal. Por isso, apostamos em outros mercados. O primeiro deles por extensão, a Espanha, onde abrem-se lojas quase todos os dias; mas também nos interessam outros países, como a Turquia ou os países do leste da Europa. Quando vamos a um país procuramos conhecer a fundo esse mercado, sua cultura, como funciona, sua língua, suas normas etc. A Gerência de Riscos nos acompanha. Do ponto de vista geográfico, onde estão localizados atualmente os maiores riscos? É difícil responder. Há países onde 18

19 é maior a insegurança jurídica, em outros são mais importantes as catástrofes naturais... Depende do risco. No contexto da economia global existe um reconhecimento expresso da importância dos riscos ambientais. Na sua opinião, a Gerência de Riscos está preparada para assumir estas ameaças? Não sei se já está suficientemente preparada, mas é evidente que terá que estar. A gestão do risco do meio ambiente na Sonae é anterior às diretivas. Dentro da empresa sempre concebeu-se como um compromisso com a sociedade, que deve ser garantido no futuro. Os proprietários da Sonae adquiriram um compromisso muito ativo relacionado também com o conceito da Responsabilidade Social Corporativa. Assim sendo, em 2008, a Sonae contratou um seguro de Responsabilidade Social do OS RATINGS SÃO MUITO IMPORTANTES PORQUE POR ELES OS SEGURADORES TRABALHAM COM GRANDE CONFIANÇA CONOSCO. Meio Ambiente de acordo com a diretiva comunitária, ainda que a norma não obrigue a contratar esta apólice até Em 1984 a Sonae criou a corretora MDS com o propósito de dirigir os seguros e a política de riscos do grupo. Qual é o seu papel atual no controle dos riscos do grupo? A MDS foi criada como corretora cativa para coordenar os riscos do grupo, que era bem menor que agora. A sua constituição responde à grande preocupação dentro do grupo pelos seguros e riscos. Mas a MDS atua hoje também no mercado e, como negócio, tem que ser rentável, competitivo e destacarse por sua excelência em tudo que esteja relacionado a riscos e seguros. A MDS também apóia o grupo na sua expansão internacional, já que hoje está presente em numerosos mercados mun- 19

20 entrevista diais. Por exemplo, por meio da Cooper Gay tem presença em todas as grandes capitais do mundo. A capacidade que a MDS desenvolveu para estabelecer laços e relações muito fortes em uma grande quantidade de mercados do mundo pode ser muito importante para um grupo que aposta no mercado internacional, porque cria conhecimento e torna mais fácil a informação. Digamos que as relações estabelecidas com a presença internacional da MDS são muito importantes para o grupo e, ao mesmo tempo, o grupo também pode ajudar a corretora a se desenvolver. No ano de 2000, ainda, constituíram a sua própria cativa, a Sonae Re. Por que deram este passo? Principalmente, pela Gerência de Riscos. Nos últimos anos, a Sonae realizou grandes investimentos industriais, principalmente na Alemanha e na França. Cresceu dentro e fora de Portugal e tornou-se líder mundial, não somente diversificando-se geograficamente, mas também em outros negócios, uns com mais risco e outros com menos; e para as novas atividades ou aquisições fazia falta ter um veículo, uma estrutura que nos permitisse contar com coerência no nosso programa de resseguro, e pensamos que a forma ideal era criar uma cativa que nos ajudasse a construir um programa mundial, eliminando qualquer dependência dos mercados locais. Também, assim seria mais fácil chegar ao mercado de resseguro, com ativos mais importantes, mais prêmios; encontrar melhores preços em coberturas, mais capacidade, transparência. A cobertura dos riscos é negociada dentro de um programa mundial, de forma integrada. Depois divide-se o custo do seguro entre todos os países e os negócios, para o qual se levam em conta alguns fatores. Um dos fatores está claro: os custos locais. A Alemanha pode ser um mer- OS RISCOS ESTÃO HOJE MUITO INTEGRADOS E NÃO PODEM SER VISTOS DE FORMA ISOLADA. SE AS EQUIPES ESTÃO MUITO MOTIVADAS COM RELAÇÃO À SUA EMPRESA, AS INCIDÊNCIAS SÃO MENORES. Licenciado em Ciências Econômicas em 1981 e com pós-graduação em Administração Pública, José Manuel Dias da Fonseca conta um uma extensa carreira profissional, principalmente no mundo financeiro. Em 1983 passou a fazer parte do BPA, o banco líder português, onde desenvolveu o primeiro projeto de bancaseguros de Portugal. Além disso, foi membro do conselho de administração de numerosas companhias financeiras e presidente de uma companhia de seguros que introduziu o Assurfinance no país luso. No setor público, foi vice-prefeito da Prefeitura de Matosinhos e chefe do ICEP (o equivalente ao ICEX na Espanha). No ano de 2000, Dias da Fonseca incorporou-se como gerente de Riscos e Seguros ao Sonae Group, a maior multinacional privada de Portugal, presente em 20 países e líder mundial em produtos derivados da madeira. Atualmente, dentro do grupo, é o conselheiro delegado da MDS (o mais importante broker de seguros de Portugal); presidente da Sonae Re (sua resseguradora cativa); diretor da Cooper Gay & Co (o quinto broker de resseguros em nível mundial, com sede em Londres); diretor da Lazam / MDS (um dos mais destacados brokers no Brasil); e presidente da Brokers Link, uma das mais importantes redes de brokers de seguros, presente em mais de 50 países ao redor do mundo. José Manuel Dias da Fonseca é também presidente da Fundação Casa da Música e da APOGERIS (Associação Portuguesa de Gerente de Riscos). Além disso, é presidente do Leixões Sport Club, que milita na primeira divisão do futebol português. Como consegue ter tempo para tantas atividades? Tempo? É uma pergunta que eu faço a mim mesmo. Mas trabalho em um 20

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