REUNIÃO DE CONDOMINIO: UMA (RE) INVENÇÃO À SAÚDE MENTAL

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1 REUNIÃO DE CONDOMINIO: UMA (RE) INVENÇÃO À SAÚDE MENTAL Bárbara Leite 1 Paula Filippom 2 Francilene Raimone 3 Stelamaris Gluck 4 O problema é procurar aquilo que sai da terra, isto é, o que acontece quando se permite que o oprimido tome posse de sua voz. Quando se abre um manicômio, o doente exprime finalmente sua própria voz, não mais a que o médico quer, mas sua própria voz. (Franco Basaglia, 1985) O presente trabalho visa relatar a experiência desenvolvida em um Serviço Residencial Terapêutico, - Morada São Pedro localizado na cidade de Porto Alegre/RS. A partir das vivencias e acontecimentos durante o período de estagio da Residência Integrada em Saúde Mental Coletiva da UFRGS. A formação, intervenção com a utilização de recursos e dispositivos de cuidado que foram desenvolvidos nos atuais conceitos na atenção a saúde mental em consonância com a Lei da Reforma Psiquiátrica, com destaque no contexto de moradia, relação com a cidade e produção de vida O morada São Pedro, contempla os conceitos de integralidade da atenção e o entendimento de que saúde não é apenas direito ao melhor tratamento, mas também acesso à habitação, educação, trabalho, cultura e lazer. Este residencial, em sintonia com os princípios e propósitos da Política de Atenção Integral á Saúde Mental, tem proporcionado a participação de muitos segmentos sociais, num ambiente de discussão e de apropriação dos 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, SRT- Morada São Pedro 2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, SRT- Morada São Pedro 3 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, SRT- Morada São Pedro 4 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, SRT- Morada São Pedro

2 princípios da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica, o que tem instituído um cenário favorável ás mudanças em curso na área de saúde mental. Na história da Psiquiatria, a segregação e exclusão foram secularmente os caminhos mais percorridos pelos portadores de transtorno mental no modelo de tratamento asilar. Atualmente, estas concepções passaram a ser ressignificadas com novas propostas de mudança no modelo de atenção à saúde mental, que revê o antigo paradigma da segregação e apresenta novas proposições calcadas na reabilitação psicossocial. Tais mudanças sugerem novas formas de compreender e tratar o ser humano surgindo assim, a necessidade de criação de novos dispositivos. Novos dispositivos são inventados para dar conta da complexidade da realidade humana, compreendendo e contextualizando-a, em um espaço que é da singularidade e da cidadania que tem historia inserida em uma cultura, com necessidades, desejos, sofrimentos, conflitos, rompendo com uma lógica fragmentada do manicômio. As práticas do campo da saúde mental e da atenção psicossocial contem muitos princípios oriundos de experiências que pretendiam ser inovadoras e substitutivas ao hospital psiquiátrico. Como exemplo, pode-se citar a comunidade terapêutica que introduziu atividades como assembléia reuniões de equipe, clube de pacientes, dentre outras, que pensavam o conviver coletivo. As assembléias como eram chamadas, realizavam se periodicamente com finalidade de combinar rotinas, dividir tarefas, impor regras, exercendo muitas vezes o lugar dos chamados grupos operativos onde cada um tinha suas tarefas. Na saúde mental, utiliza-se esta prática emprestada, humanizando-a, colocando no centro desta a palavra e seu valor de contratualidade. Na definição preconizada pelo Ministério da Saúde a assembléia é caracterizada como um instrumento de importante relevância para o funcionamento dos CAPS como um lugar de convivência, pois, reúne na maioria das vezes semanalmente, técnicos, usuários com o objetivo de discutir, avaliar e propor encaminhamentos para o serviço. É neste espaço em que são problematizadas e levantadas sugestões sobre as atividades, os espaços de

3 convívio e a organização do serviço, o que tem ajudado na melhoria da assistência em saúde mental. Tal concepção reforça o caráter de mudança do modelo assistencial no Brasil que propõe a participação do usuário enquanto protagonista nos processos que envolvem a saúde, através de sua inclusão na co-gestão dos serviços que prestam assistência ao mesmo. Saraceno nos conta que a Reabilitação Psicossocial prevê um processo de restituição, construção e reconstrução de direitos políticos legais e sociais para o cidadão. A Reabilitação Psicossocial implica numa ética de solidariedade que facilite aos sujeitos com limitações para os afazeres cotidianos, o aumento da contratualidade afetiva, social e econômica que viabilize o melhor nível possível de autonomia para a vida na comunidade. Sempre lembrando que a reabilitação psicossocial acontece melhor nas casas, nos mercados, nos templos, no trabalho, nos serviços comunitários de saúde, que em qualquer hospital que limite sua atenção. nos seus muros. Assim introduzindo um jeito novo de conversar sobre o convívio coletivo, conferindo espaço significativo ao sujeito que se apresenta com questões sobre o laço social. Priorizar o social em Reabilitação Psicossocial implica em sair de centros de reabilitação, de hospitais e de oficinas abrigadas para criar espaços de intervenção na própria comunidade. Nesta atividade especifica da Reunião de condomínio observa-se que a partir do termo emprestado da comunidade terapêutica apesar de seu uso nos serviços de saúde mental, pensou-se como utiliza-ló em um residencial terapêutico, reformula-se o conceito, apropria-se deste o conceito de condomínio, onde várias pessoas moram e convivem e pensa-se no termo reunião de condomínio. Ao pensar estes conceitos reconstrói através das reuniões de condomínios a conquista desse espaço para o exercício do controle social, visando a discussão e ação para redemocratização das práticas terapêuticas e as relações sociais, o resgate da cidadania do sujeito que carrega consigo uma marca de portador de transtorno mental. Em resumo, o que seria reabilitar senão reconstruir estes valores, aumentar o poder contratual do morador? Criar as condições de possibilidade para que um morador possa de alguma maneira participar do processo de reconstrução, um exercício pleno de cidadania e trocas sociais. Torna-se imprescindível, então, o acontecimento de uma reunião de condomínio, no

4 Morada São Pedro, nas quartas- feiras pela tarde, exatamente às 13h e 30mim, quinzenalmente na conhecida CASA 01. Se caracterizar por ser um espaço aberto a todos os moradores e equipe técnica, ocorre temas que implica tanto a vida cotidiana e questões coletivas. Durante os encontros aconteceram momentos de ampla participação, tomada de decisões, vários momentos de reflexão, discussão e organização de atores sociais moradores que não se mostraram tão passiveis ás dificuldades, como se falava em um primeiro momento. A perspectiva desses encontros coletivos, tem cumprido com a tarefa de horizontalização de poder e possibilitado a co-gestão do cotidiano, oportunizado espaço de produção de sentido e saúde do sujeito/usuário. O objetivo de proporcionar que atinjam patamares cada vez mais altos de gerenciamentos de suas vidas, possibilidades sempre maiores de autonomia, qualquer que seja a medida desta para eles, aumentar-lhes a capacidade de escolha, e a inserção em espaços de movimento social. As questões cotidianas passam a exigir dos usuários ações que envolvem papeis sociais até então não experimentados pelos sujeitos portador de direitos, deveres e de consumidor. Valorizar a interlocução como meio de apropriação de normas existentes, e da (re) invenção possível, a conquista desse espaço, pois acredito que durante esse tempo consegui capturar esse lugar de encontro, movimentos, denúncias, solução de conflitos e convivência, sem esquecer de um lugar privilegiado de elaboração das experiências vivenciadas. É muito mais que reabilitação psicossocial, é tentar proporcionar momentos de dignidade e de potência de vida que muitas vezes foi impedido durante o período de institucionalização. Procurou-se acolher e valorizar aquilo que é mais desvalorizado pelo entorno social destas pessoas, que é o conteúdo de suas falas.

5 REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICAS BASAGLIA, F. (Coord). A instituição negada. Rio de Janeiro: Graal, SARACENO, B. A reabilitação como cidadania. In: libertando identidades: da reabilitação psicossocial a cidadania possível. Rio de Janeiro: Te Coroá, KINOSHITA, Roberto Tykanori. Contratualidade e Reabilitação Psicossocial. In: Pitta, Ana (org.). Reabilitação Psicossocial no Brasil. São Paulo: Hucitec, Desinstitucionalização. A experiência dos Serviços residenciais terapêuticos. UFRJ. Cadernos do IPUB, Rio de Janeiro, 2006.

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