O DIÁLOGO DE SABERES NO PROCESSO ENSINO APRENDIZAGEM DA EDUCAÇÃO INFANTIL RIBEIRINHA NO CONTEXTO DO BAIXO AMAZONAS

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1 1 O DIÁLOGO DE SABERES NO PROCESSO ENSINO APRENDIZAGEM DA EDUCAÇÃO INFANTIL RIBEIRINHA NO CONTEXTO DO BAIXO AMAZONAS Maria das Graças Pereira Soares 1 Eixo Temático 2: Didática e prática de ensino nas diversidades culturais Subeixo 2: Didática e prática de ensino na inclusão e no reconhecimento de saberes RESUMO Este texto foi elaborado a partir de resultados parciais da pesquisa de doutorado em andamento Educação Infantil Ribeirinha: as vozes da infância na reflexão e transformação das práticas pedagógicas e traz uma reflexão acerca do diálogo de saberes na educação infantil ribeirinha no contexto amazônico, especificamente na Comunidade Paraná do Espírito Santo/Parintins-AM, localizada no Baixo Amazonas. O trabalho tem como objetivo refletir sobre a contribuição do diálogo de saberes no processo ensino aprendizagem da educação infantil ribeirinha, considerando as experiências socioculturais desse contexto. Assim, partimos do seguinte problema de pesquisa: qual a contribuição do diálogo de saberes no processo ensino aprendizagem da educação infantil ribeirinha? Trata-se de uma pesquisa qualitativa e utilizamos como estratégia metodológica um estudo teórico e a observação da prática pedagógica em uma turma multisseriada de educação infantil nos meses de setembro e outubro do ano de Utilizamos como referências os estudos de Freire (1979, 1997, 2001), Diegues (2008), Oliveira (2008), Lüdke e André (2013) e Brandão (2014). Nossas primeiras análises apontam que a educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem um relevante papel no desenvolvimento humano e social de todas as crianças de zero a cinco anos. Para tanto, o diálogo é um instrumento fundamental para propiciar a constituição de uma prática pedagógica pensada com as crianças, na perspectiva da valorização dos saberes e experiências da infância. As crianças ribeirinhas são atores sociais, sujeitos dialógicos e devem por meio do diálogo participar da construção/reconstrução das práticas pedagógicas, tendo as vivências do contexto ribeirinho como ponto de partida para o processo ensino aprendizagem na educação infantil. PALAVRAS-CHAVE: Educação infantil ribeirinha. Diálogo de saberes. Processo ensino aprendizagem. INTRODUÇÃO A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem um relevante papel no desenvolvimento humano e social de todas as crianças de zero a cinco anos. Para tanto, o diálogo é um instrumento fundamental para propiciar a constituição de uma prática pedagógica pensada com as crianças, na perspectiva da valorização dos saberes e experiências da infância, suas percepções sobre o mundo, seus sonhos, suas curiosidades para a construção de novos saberes e o protagonismo infantil. Este artigo tem por finalidade refletir sobre o diálogo de saberes no processo ensino aprendizagem na educação infantil em uma escola ribeirinha localizada no baixo Amazonas, destacando o lugar dos sujeitos, os saberes e suas relações com as práticas educativas. 1 Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Educação: Currículo da Pontifícia Universidade Católica da PUC/SP. Bolsista do CNPq

2 2 Partimos da concepção da necessidade de compreendermos o contexto ribeirinho, o modo de vida dos sujeitos em interlocução com as práticas de ensino. Nessa perspectiva, o estudo partiu da seguinte questão norteadora: Qual a contribuição do diálogo de saberes no processo ensino aprendizagem da educação infantil ribeirinha, considerando as experiências socioculturais desse contexto? CONTEXTO DA INFÂNCIA RIBEIRINHA NO BAIXO AMAZONAS A comunidade São José Paraná do Espírito Santo de Cima está localizada no município de Parintins/AM, região do Baixo Amazonas 2 e no maior sistema fluvial do mundo, a Bacia Amazônica. Está situada em uma área de várzea, região caracterizada pela inundação anual do rio Amazonas e na região do complexo de lagos Macuricanã. Faz parte da Unidade de Conservação, na Categoria Área de Proteção Ambiental, denominada APA Nhamundá. A comunidade está situada à margem direita do rio Amazonas, distante 2 km em linha reta da cidade de Parintins. Nesse contexto vivem 63 (sessenta e três) famílias que possuem uma renda mensal de aproximadamente um a dois salários mínimos. As principais atividades desenvolvidas pelos comunitários são a pesca, o cultivo de plantações, o extrativismo vegetal, a confecção de artesanatos e a criação de animais. Os alimentos mais consumidos pelos moradores são os peixes, as frutas e hortaliças cultivadas na região. Para Brandão (2014, p.24), contexto é onde as pessoas estão juntas, vivem juntas e aprendem a viver juntas. É onde se planta e se colhe o milho e é onde está a minha casa com a minha família. Neste cenário de biodiversidade e riquezas naturais, os povos ribeirinhos produzem e expressam seus conhecimentos tradicionais que estão vinculados às suas práticas socioculturais nas atividades religiosas, econômicas, ambientais, culturais e educacionais. Esse conhecimento, segundo Diegues (2008, p.179), é [...] o saber e o saber-fazer, a respeito do mundo natural, sobrenatural, gerados no âmbito da sociedade não urbano/industrial, transmitidos oralmente de geração em geração. [...] nessas comunidades, a dimensão trabalho, portanto, é compreendida enquanto processos de trabalho, que se constituem em lócus de autêntica transmissão de múltiplos saberes, valores e costumes de geração para geração 2 O Baixo Amazonas é constituído por sete municípios: Urucará, São Sebastião do Uatumã, Parintins, Barreirinha, Nhamundá, Boa Vista do Ramos e Maués (WITKOSKI; FRAXE, 2011)

3 3 historicamente, expressando um campo extremamente fértil de educação [...] (OLIVEIRA, 2008, p. 46, destaque da autora). Os ribeirinhos encontram-se familiarizados com a natureza por meio da terra, dos rios e da floresta. Nela, adentram para retirar os recursos que necessitam, não têm receio de fazer usos das águas no curso dos rios, respeitam o tempo das cheias e de intensas chuvas. As crianças logo cedo aprendem a nadar, pescar, remar, conhecer os animais da floresta, escamar os peixes e cultivar a terra. DIÁLOGO DE SABERES: UM CAMINHO POTENCIALIZADOR PARA O PROCESSO ENSINO APRENDIZAGEM DAS CRIANÇAS RIBEIRINHAS A infância é uma construção histórica, social, cultural e novas histórias e novas concepções são construídas constantemente. Assim, destaca-se nesse processo o diálogo de saberes como um instrumento importante nessa construção, porque possibilita ouvir as vozes das crianças, suas percepções sobre o mundo, os seus questionamentos e suas curiosidades para repensar e transformar as práticas pedagógicas. A escuta como fundamento do diálogo é uma prática essencial na educação das crianças, uma vez que não há diálogo sem escuta. [...] uma espécie de postura necessária, na medida em que os seres humanos se transformam cada vez mais em seres criticamente comunicativos. O diálogo é o momento em que os seres humanos se encontram para refletir sobre sua realidade tal como a fazem e a refazem. (FREIRE, 2008, p.123). Em se tratando do diálogo de saberes da educação infantil das crianças ribeirinhas apresenta pouca visibilidade, ainda há poucos estudos que retratem esta realidade, daí a necessidade de discutir a relação entre educação escolar e os saberes das crianças que residem em comunidades ribeirinhas na Amazônia. As vivências da infância ribeirinha são tecidas por múltiplos saberes e representações sociais, as quais são imprescindíveis na tessitura do projeto educativo, uma vez que sua proposição exigirá a construção de um fazer que contemple as experiências socioculturais dessa infância. Portanto, evidenciamos que os processos cotidianos, mediados por ações e simbologia são essenciais para postular a prática de ensino na educação infantil, porque toda ação educativa só fará sentido se pensada a partir e com os sujeitos em suas necessidades. A educação não é um instrumento válido se não estabelecer uma relação 12679

4 4 dialética com o contexto da sociedade na qual o homem está radicado (FREIRE,2001, p.39). O diálogo é o instrumento para conhecer os saberes trazidos pelas crianças, suas experiências vivenciadas, como uma categoria social e histórica. Por meio do diálogo podemos compreender que não existe ensinar sem aprender e com isto eu quero dizer mais do que diria se dissesse que o ato de ensinar exige a existência de quem ensina e de quem aprende (FREIRE, 1997, p.19). A educação do cuidar baseiase no diálogo, estabelecendo-se por meio da cultura de conversa, um ensinoaprendizagem, cujo conteúdo é o produzido e refletido no saber-fazer cotidiano de homens e mulheres das comunidades rurais-ribeirinhas [...] (OLIVEIRA, 2008, p. 75). O diálogo na prática pedagógica é o instrumento para problematizar as condições do mundo das crianças, para gerar a curiosidade epistemológica e para a construção de novos conhecimentos. O diálogo como instrumento potencializador da prática de ensino possibilita ouvir as vozes da infância para que possamos entender: quem são as crianças ribeirinhas? Quais são os seus saberes? Quais suas curiosidades e sonhos? Quais os saberes significativos que devem contemplar o currículo da educação infantil ribeirinha? METODOLOGIA Neste estudo utilizamos a pesquisa teórica e a pesquisa de campo que tem como foco investigativo a prática pedagógica na educação infantil em uma escola ribeirinha localizada na comunidade São José Paraná do Espírito Santo/Parintins/AM. O aporte teórico utilizado nessa investigação está fundamentado nos estudos de Freire (1979, 1997, 2001), Diegues (2008), Oliveira (2008), Lüdke e André (2013) e Brandão (2014). Outro procedimento metodológico utilizado foi a observação das práticas pedagógicas da educação infantil em uma turma multisseriada nos meses de setembro e outubro do ano de Para Lüdke e André (2013, p. 31), a observação direta permite também que o observador chegar mais perto da perspectiva dos sujeitos, um importante alvo nas abordagens qualitativas. DISCUSSÃO E RESULTADOS A pesquisa apontou, ao longo das discussões, que as crianças ribeirinhas são atores sociais, sujeitos dialógicos. O diálogo na educação infantil ribeirinha é fundamental para conhecer as vivências dessas crianças que desde pequenos aprendem 12680

5 5 a nadar, pescar, remar no Rio Amazonas, conviver com os animais da floresta e cultivar a terra. As crianças devem por meio do diálogo participar da construção/reconstrução das práticas pedagógicas, tendo as vivências do contexto ribeirinho como ponto de partida para as práticas na educação infantil. O diálogo, instrumento interlocutor da prática pedagógica pensada com as crianças possibilitará ouvir as vozes da infância para que possamos entender quem são as nossas crianças ribeirinhas da Amazônia. CONSIDERAÇÕES FINAIS O texto teve como finalidade refletir sobre o diálogo de saberes no processo ensino aprendizagem na educação infantil em uma escola ribeirinha localizada na Comunidade Paraná do Espírito Santo/Parintins-AM, região do baixo Amazonas, destacando o lugar dos sujeitos, os saberes e suas relações com as práticas educativas. As reflexões apresentadas demonstram que o diálogo é um instrumento interlocutor e potencializador na construção de uma prática pedagógica pensada com as crianças de forma a refletir criticamente as contribuições trazidas pelas crianças, suas experiências vivenciadas, como uma categoria social e histórica discutida dialogicamente com os seus principais autores/atores que são as crianças. O diálogo é um instrumento essencial no processo ensino aprendizagem para ouvir as vozes da infância na perspectiva da melhoria e transformação das práticas pedagógicas das escolas infantis ribeirinhas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRANDÃO, C. R. História do menino que lia o mundo. São Paulo: Expressão Popular, DIEGUES, A. C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec/Nupaub-USP, FREIRE, P. A educação na cidade. 5. ed. São Paulo: Cortez, Política e educação. 5. ed. São Paulo: Cortez, Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d Água, LÜDKE M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. 6 ed. São Paulo: EPU, OLIVEIRA, I. A. de (Org.). Cartografias ribeirinhas: saberes e representações sobre práticas sociais cotidianas de alfabetizandos amazônidas. Belém-PA: EDUEPA,

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