Relações entre Brasil e Estados Unidos estão em impasse

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1 relações Brasil-EUA Relações entre Brasil e Estados Unidos estão em impasse Peter Hakim Muito antes de os presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama decidirem adiar a viagem da líder brasileira a Washington, já estava claro que essa visita tão esperada não produziria muitos resultados concretos, ainda que o evento estivesse sendo enfeitado com a roupagem de um assunto de Estado. Certamente, o governo brasileiro recebeu com satisfação o convite, feito a apenas outros seis países durante o mandato de Obama na Casa Branca. Para Brasília, o gesto representou uma expressão forte e muito visível da importância do Brasil no cenário mundial. Em Washington, a visita era vista como um esforço sério para reconhecer publicamente a importância do Brasil e tornar mais produtiva a conturbada e desajeitada relação bilateral dos EUA com o gigante sul-americano. As conversas entre os dois líderes, sem dúvida, abordariam questões importantes e de interesse para ambos os governos. Mas, a exemplo de outros encontros entre os presidentes do Brasil e dos EUA nas últimas duas décadas, não havia propostas ou iniciativas sendo preparadas para ajudar a resolver as numerosas divergências entre os dois países ou para fomentar a cooperação das duas nações em assuntos regionais e internacionais críticos. Nas palavras de um ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, pessoa altamente conceituada, a agenda para a visita era, simplesmente, não presidencial. A história da visita e de seu cancelamento, assim como as desavenças em relação à Peter Hakim é presidente emérito do Inter-American Dialogue. 86 RBCE - 117

2 espionagem dos EUA no Brasil, revelam muito sobre o conteúdo e a forma das relações EUA- Brasil. Os líderes dos países declaram a todo momento que a relação entre ambos nunca esteve melhor segundo eles, o relacionamento estaria, inclusive, melhorando a cada dia. Não é incomum que refiram-se um ao outro como parceiro global ou regional, ou que sugiram que os dois países estão trabalhando em prol de um relacionamento mais forte, ou mesmo estratégico. No entanto, apesar da retórica, nenhum governo tem se mostrado disposto a investir muito no avanço ou na melhoria do relacionamento. Os acordos formais entre o Brasil e os Estados Unidos têm sido inconsistentes ou, em grande medida, de interesse periférico para as preocupações prioritárias dos dois países. E aqueles que focaram em questões de preocupação prioritária não foram efetivamente implementados. Nem Washington nem Brasília parecem prontos para se empenhar na reformulação dessa relação, que tem sido quase sempre amigável, embora marcada por cooperação limitada, discórdias consideráveis e alguns confrontos desagradáveis. Nos últimos 20 anos, não houve muitas mudanças nesse cenário. Mesmo quando os dois países identificaram objetivos comuns capazes de promover os interesses de ambos, raramente encontraram formas de alcançá-los. Os líderes dos EUA e do Brasil falam, frequentemente, sobre o seu vasto leque de interesses econômicos em comum. No entanto, eles não assinaram um único pacto econômico de relevância em mais de duas décadas período em que Washington firmou acordos de livre comércio com cerca de 20 países em todo o mundo, 11 só na América Latina (e agora está em negociações com as 28 nações da União Europeia e com quase uma dúzia de potenciais parceiros asiáticos). O Brasil atualmente está mostrando mais interesse do que nunca para chegar a um acordo de livre comércio com a União Europeia, mesmo que isso possa significar se separar de seus parceiros do Mercosul. Mas negociações sobre o livre comércio com os EUA, o que poderia ser muito mais importante para o Brasil, já não são sequer cogitadas. Como são os dois maiores exportadores agrícolas mundiais, Brasil e EUA têm consciência de quanto ganhariam se diminuíssem a complexa rede de barreiras ao comércio mundial de produtos agrícolas. No entanto, nunca foram capazes de colaborar efetivamente para alcançar esse objetivo. Em 2007, os dois países, que produzem cerca de 90% do etanol do mundo, concordaram em trabalhar juntos para estabelecer mercados mundiais para o combustível e desenvolver melhores tecnologias para a sua produção. Mas não houve muito progresso nesse sentido até agora. A cooperação tem sido igualmente decepcionante em diversas outras áreas de interesse para os dois governos, como, por exemplo, a não proliferação nuclear, o combate ao crime e ao tráfico internacional de drogas e as mudanças climáticas. Há, no entanto, algumas notícias encorajadoras. Conquistas promissoras, embora ainda modestas, foram alcançadas para o estabelecimento de intercâmbios bilaterais contínuos na área de ciência e tecnologia, e os dois países estão cada vez mais colaborando em programas de ajuda internacional na África. Brasil e EUA têm sido parceiros efetivos no Haiti desde 2004, quando o Brasil assumiu o comando da missão de segurança das Nações Unidas nesse conturbado país. Mas essas são questões secundárias para ambas as nações. São inúmeras as oportunidades para uma cooperação mais produtiva. Os EUA são a maior, mais rica e mais avançada economia do mundo, em termos tecnológicos. O país importa mais bens e serviços e investe mais no exterior do que qualquer outra nação. Embora represente, em termos de tamanho, apenas cerca de 15% da economia dos EUA, o Brasil possui o sexto ou sétimo maior mercado do mundo e deve chegar à quarta ou quinta posição dentro de uma geração. Apesar de a China haver substituído os EUA como principal parceiro econômico do Brasil, o comércio dos EUA com o Brasil prosperou na última década, tendo mais do RBCE

3 O mercado norte-americano é fundamental para a industrialização do Brasil, que tem sido vacilante nos últimos anos que duplicado desde Os EUA são o maior comprador das exportações de manufaturados do Brasil e a principal fonte de capital estrangeiro e de novas tecnologias. O mercado norteamericano é fundamental para a industrialização do Brasil, que tem sido vacilante nos últimos anos. Ano após ano, o Brasil vem recebendo quantidades cada vez maiores de investimentos e exportações norte-americanos. Suas descobertas de petróleo offshore poderiam transformar o Brasil em um grande fornecedor de energia dos EUA, possivelmente superando a Venezuela e o México. A maior parte das empresas norteamericanas que fazem negócios na América do Sul já tem sedes no Brasil, e as empresas brasileiras, por sua vez, estão investindo cada vez mais nos EUA. Obstáculos consideráveis se colocam no caminho de uma relação econômica mais robusta entre o Brasil e os EUA. Primeiro, os dois países ainda têm profundas discordâncias em questões comerciais cruciais. Ao longo dos anos, tais opiniões divergentes têm impedido o progresso em áreas como comércio bilateral, impostos e acordos de investimento. As desavenças entre os EUA e o Brasil também foram diretamente culpadas pelo fracasso das negociações comerciais hemisféricas, e impediram as duas nações de unir forças nas negociações comerciais globais. As tarifas e subsídios agrícolas dos Estados Unidos, que dificultam as exportações brasileiras para os EUA e dão aos norte-americanos uma vantagem nos mercados globais, têm sido uma fonte de tensão ao longo de décadas. O mesmo vale para as restrições sobre tecnologias importadas dos EUA, que, por sua vez, há muito tempo pressionam, sem êxito, o Brasil para reduzir suas barreiras de importação a serviços e bens manufaturados (o que inclui tarifas, quotas, empréstimos subsidiados pelo Estado e exigências de conteúdo local). O Brasil também vem rejeitando reiteradamente os persistentes pedidos de Washington para que reforce as salvaguardas dos direitos de propriedade intelectual. Ainda que pareçam complexas e imutáveis, essas questões e políticas específicas talvez não sejam o principal obstáculo ao fortalecimento das relações econômicas Brasil-EUA. Um problema maior pode ser que nem os EUA, nem o Brasil estejam ainda convencidos do valor de uma parceria mais forte, ou simplesmente acreditem que não seja possível atingir uma parceria assim. No início da década de 1990, os EUA e o México conseguiram avançar de forma significativa nas principais questões comerciais, indo muito além do ponto em que EUA e Brasil estão hoje. Mas Washington e o México estavam totalmente empenhados em chegar a um acordo, e negociaram até alcançar o Nafta. Nem o Brasil, nem os EUA mostraram até agora nada parecido com esse tipo de compromisso. 88 RBCE - 117

4 Washington considera que o Brasil não está disposto a abrir mão de muitas coisas e, ao mesmo tempo, faz muitas exigências, boa parte das quais com forte teor político e vistas como capazes de prejudicar a posição dos EUA em negociações com a UE e outros parceiros comerciais. Por sua parte, o Brasil, como muitos dos outros grandes países em desenvolvimento, mostra-se relutante em abrir sua economia para os EUA (ou para outras grandes potências econômicas, como Europa, China e Japão). Apesar dos recentes sucessos do Brasil e de seu enorme potencial, muitas autoridades políticas e líderes empresariais não têm confiança na capacidade do país para competir de igual para igual com as principais economias do mundo. Eles permanecem desconfiados em relação aos EUA e a outros gigantes econômicos, e temem que a superioridade tecnológica e o poder de mercado desses países (incluindo a capacidade de vigilância e de espionagem) deixem o Brasil em desvantagem considerável. As revelações de Snowden nos últimos meses só aumentaram a desconfiança e a preocupação. As divergências e diferenças entre o Brasil e os EUA extrapolam, é claro, as questões econômicas e comerciais. Os EUA veem o Brasil, em larga medida, como uma potência regional, e, de forma geral, valorizam a sua cooperação em assuntos do hemisfério ocidental. As discordâncias com o Brasil sobre as políticas em relação ao Irã e a outros países do Oriente Médio e à questão da não proliferação nuclear deixaram os EUA pouco confiantes no Brasil como um ator global. Washington, hoje, não confia na posição do Brasil em assuntos internacionais ou na sua visão da política externa. Mesmo no nível regional, os EUA não veem com bons olhos a relutância do Brasil em se envolver de forma efetiva em questões críticas fora de suas próprias fronteiras. O Brasil, por exemplo, não vem se mostrando muito disposto a ajudar a Colômbia em sua luta contra guerrilhas, grupos armados e traficantes de drogas, e tem, consistentemente, ignorado violações de práticas democráticas e o desrespeito aos direitos humanos na Venezuela, em Cuba e em outros países. Nos locais em que atuou concretamente, o Brasil geralmente acabou entrando em conflito com os EUA como em Honduras e no Paraguai, por exemplo. Embora os dois governos tenham trabalhado em conjunto de tempos em tempos, o Brasil demonstrou pouco interesse em construir uma cooperação sustentada com os EUA na América Latina, especialmente na América do Sul, da qual se considera o líder natural e onde quer operar de forma independente. Para o Brasil, a colaboração regional significa, principalmente, trabalhar com outras nações sulamericanas. Na ótica brasileira, a cooperação com os EUA deve se concentrar principalmente em questões bilaterais ou globais. O envolvimento dos EUA em questões políticas ou de segurança na região, geralmente, não é bem acolhido pelo Brasil, embora ocasionalmente ocorra algum tipo de colaboração entre os dois países. No ano passado, por exemplo, o Brasil buscou o apoio dos EUA para conter o tráfico de cocaína proveniente da Bolívia. Não será fácil para nenhum dos dois países superar a desconfiança que se acumulou nos últimos anos ou mudar a forma com que habitualmente se relacionam com o outro. Não foi por meio da cooperação que o Brasil alcançou sua posição e influência atuais, mas sim, em grande parte, agindo por conta própria e, regularmente, dizendo não a Washington enquanto que os Estados Unidos passaram a desconfiar de um Brasil cada vez mais poderoso e cheio de energia. Mesmo quando os interesses e objetivos dos dois países eram compatíveis, eles raramente buscaram alinhar suas abordagens e estratégias. As diferenças de atitude de cada país em relação às revelações de Snowden ilustram, de forma poderosa, a distância que o Brasil e os EUA terão de percorrer para encontrar um terreno comum. A Casa Branca e o Departamento de Estado consideram a reação do Brasil exagerada. Sua visão é de que o país precisa se acalmar, entender que a segurança dos EUA exige uma vigilância cada vez maior em todo o mundo, e reconhecer que os EUA não RBCE

5 O melhor caminho para os dois países, agora, é evitar recriminações e fazer o que for possível para baixar a temperatura desse relacionamento pretendem causar nenhum dano ao Brasil. Em poucas palavras, Washington acredita que, se o país quer ter um papel global, tem que aceitar a responsabilidade e as feridas que vêm junto com isso. Em questões como essa, o Brasil vê os EUA como uma espécie de valentão que não joga o jogo de forma justa. Para o Brasil, a vigilância maciça de Washington é outro exemplo da intenção norte-americana de usar sua força econômica e tecnológica para obter uma vantagem indevida sobre o Brasil e outros países (e, às vezes, até mesmo para intimidá-los e humilhá-los). As diferenças de perspectiva e os pontos de vista distintos sobre tantas questões específicas tornam a colaboração entre Brasil e EUA difícil e, de tempos em tempos, já estremeceram seriamente o relacionamento. Mas, durante a maior parte das últimas duas décadas, os dois países foram extraordinariamente bemsucedidos em conciliar suas diferenças e administrar com habilidade suas divergências, mantendo suas desavenças dentro de limites e cultivando sempre relações amistosas. No entanto, pode ser que essa capacidade não persista indefinidamente. Houve dois confrontos mais graves em relação ao Irã, em 2010, e, agora, envolvendo as operações de vigilância dos EUA em menos de três anos. Washington não aproximasse o Brasil dos EUA em termos de uma cooperação ou parceria, mas seu valor simbólico, por si só, teria ajudado a recuperar a reserva de boa vontade entre os dois países, o que já teria sido motivo suficiente para a viagem. A oportunidade, no entanto, se perdeu, e a reserva acabou ficando consideravelmente menor. E as coisas ainda podem piorar. O melhor caminho para os dois países, agora, é evitar recriminações e fazer o que for possível para baixar a temperatura desse relacionamento. Os EUA e o Brasil precisam aproveitar ao máximo a boa vontade remanescente para, em primeiro lugar, resolver amigavelmente suas desavenças sobre a vigilância e, em seguida, encontrar outra data para a visita de Dilma Rousseff a Washington. Pode ser que a visita de Estado da presidente Dilma Rousseff a 90 RBCE - 117

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