Carta de Intenções. Dos Wajãpi e dos moradores do Assentamento Perimetral Norte

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1 Carta de Intenções Dos Wajãpi e dos moradores do Assentamento Perimetral Norte Nós, indígenas Wajãpi, agricultores familiares moradores do Projeto de Assentamento Perimetral Norte e estudantes da Escola Família Agrícola da Perimetral Norte, que somos vizinhos, nos envolvemos no Projeto Carteira Indígena, que o Conselho das Aldeias Wajãpi Apina e a Associação Wajãpi Terra, Ambiente e Cultura Awatac desenvolveram com apoio do Iepé e do Ministério do Meio Ambiente, para fortalecer nossas relações e, assim, realizar na prática a proposta da Faixa da Amizade. Por isso, nos reunimos no Centro de Formação e Documentação Wajãpi, Terra Indígena Wajãpi, durante a última reunião do Projeto, entre 07 e 08 de dezembro de 2015,e pactuamos os seguintes objetivos comuns para a gestão socioambiental integrada, participativa e de base comunitária de nossa região, que chamamos de Faixa da Amizade: 1. Queremos continuar nos relacionando, nos conhecendo e, assim, lutando juntos pelos direitos (diferenciados) uns dos outros. 2. Queremos que o Estado reconheça nossos direitos, como a Consulta Prévia, Livre e Informada (Convenção 169 da OIT) aos indígenas, e os direitos à participação nas políticas públicas para os moradores do Assentamento, para que, assim, a Faixa da Amizade possa ser definitivamente instalada e reconhecida pelo Estado. 3. Queremos continuar trabalhando unidos, fortalecendo nossas alianças, para conseguirmos fazer, juntos, a gestão socioambiental integrada e participativa da região, reflorestando a Faixa da Amizade com frutíferas nativas, construindo um Plano de Gestão Comunitário da Faixa e, assim, obrigando o Estado (Incra, Sema, IEF, Imap, Funai, ICMBio, Rurap, e outros) a cumprir seu papel, realizando políticas públicas e garantindo Página 1 de 5

2 nossos direitos, respeitando nossas diferentes culturas e conhecimentos. 4. Queremos continuar trabalhando juntos para que o Estado respeite nossas decisões quanto à gestão socioambiental da região, dando assistência aos moradores do Assentamento, para que possam desenvolver-se através de iniciativas e políticas públicas sustentáveis (como projetos de cultivo e reflorestamento, e especialmente apoio e assistência técnica à agricultura familiar e consolidação de suas cadeias produtivas). Para isso, queremos continuar unidos para conseguir que processos de formação continuada sobre legislação agrária, fundiária, indigenista, ambiental, e sobre associativismo, cooperativismo, fortalecimento de cadeias produtivas, sistemas agroflorestais, e permacultura de frutíferas nativas para os Wajãpi e para os assentados sejam implementados. 5. Para isso, decidimos continuar trabalhando unidos para ocupar espaços como conselhos consultivos do Parque Nacional, da Resex Beija-Flor Brilho de Fogo, do Mosaico e da Flota, desenvolver mais projetos como o Carteira Indígena, fortalecer a Efapen e para continuar formando e valorizando os jovens como temos feito em todo esse processo, para que eles ocupem as instâncias de governança como os conselhos consultivos, comitês de bacias, e outros. Queremos fortalecer os jovens da Perimetral, através do Fórum de Jovens para que, assim, os jovens influenciem positivamente as políticas públicas e promovam a formação para a cidadania em suas comunidades. Também diagnosticamos e entramos em acordo que os seguintes problemas estão nos impedindo de realizar esses objetivos: 1. A falta de apoio para o fortalecimento das associações das nossas comunidades do Assentamento, o que faz com que os assentados duvidem das decisões de seus representantes, não consigam reunir suas comunidades e chegar a consensos, e não consigam se organizar para conseguir cursos e Página 2 de 5

3 formações que melhorem sua participação nas instâncias decisórias. Isso acontece porque o Estado não dá apoio para que nossas organizações sejam fortalecidas, e, algumas vezes, atrapalha nossa organização comunitária. 2. A falta de informação, formações e divulgação das iniciativas dos órgãos de governo. 3. Falta de consulta prévia, livre e informada aos indígenas por parte do Estado. 4. Alguns órgãos públicos servem a interesses políticos e econômicos, e não participam de reuniões de instâncias de governança e controle social (como reuniões do Mosaico, das associações, de conselhos consultivos). 5. Iniciativas como PEC 215, PAC 2, e políticas que não respeitam os direitos dos povos indígenas, usando seu nome para conseguir legitimidade. 6. Falta de implementação das políticas públicas para fortalecer a agricultura familiar, em detrimento do vasto apoio ao agronegócio dado pelo Estado. 7. Falta de estrutura para a reforma agrária adequada no Assentamento Perimetral Norte. Como as politicas públicas a que temos direito não nos contemplam, nossas atividades produtivas são fragilizadas, e isso enfraquece a proteção territorial. Isso causa pressões sobre o Assentamento e sobre as áreas protegidas da região. 8. Incentivos à atividades madeireiras, construções de barragens e à grandes empreendimentos (como hidrelétricas, agronegócio, pecuária e mineração), que tomam conta de todo o mercado comercial, afetando a agricultura familiar e até os indígenas. 9. Falta de fiscalização adequada e de espaços para nosso controle social sobre esses empreendimentos e pautas de interesse regional. 10.Falta de apoio do Estado para a formação cidadã e falta de projetos para beneficiar os cidadãos. Para chegar a esses objetivos comuns, concordamos que devemos superar esses problemas, e pactuamos trabalhar em conjunto: Página 3 de 5

4 - Fortalecendo as formações dos jovens Wajãpi e jovens da Perimetral para que, assim, possamos fortalecer sua participação em instâncias de governança importantes para influenciar as políticas públicas de maneira positiva e, com isso, mobilizarem e organizarem suas comunidades. Para fazer isso, queremos fortalecer o Coletivo de Jovens e Meio Ambiente na Perimetral e envolver os Wajãpi. - Fortalecendo as instâncias de governança e participação como os conselhos consultivos do Mosaico, da Flota, do Parque, e conselhos de saúde, comitês de bacias, Conselho Municipal de Desenvolvimento Comunitário. - Fortalecendo iniciativas como os Fóruns da Juventude, as atividades que fizemos pelo Projeto Carteira Indígena e, agora, o Projeto GATI, para que os jovens troquem experiências sobre as formações que recebem, como a formação dos Agentes Socioambientais e Pesquisadores Wajãpi. - Fazendo capacitações sobre legislação em geral, ambiental e fundiária, associativismo, cooperativismo, fortalecimento de cadeias produtivas, para assentados e Wajãpi (jovens, homens e mulheres). Essas formações devem ser diferenciadas, para respeitar e valorizar suas especificidades. - Fortalecendo a participação das mulheres (indígenas e assentadas) em fóruns de governança. - Fortalecendo iniciativas como as do Carteira Indígena e a Faixa da Amizade para continuarmos debatendo problemas comuns e construindo soluções comuns; - Criando um Comitê Gestor Paritário (Associações Wajãpi e dos assentados), incluindo jovens e mulheres, para possibilitar a gestão socioambiental compartilhada da Faixa da Amizade, independentemente de qual base territorial ela venha e a ter, e criar e implementar o Plano de Gestão Socioambiental da Faixa. Esse Comitê deve reunir Wajãpi e vizinhos, de maneira representativa e legítima, para apreciar problemas e pactuar soluções comuns, que devem ser apresentadas aos órgãos públicos, através das instâncias competentes, como o Conselho Consultivo do Mosaico e da Flota. Página 4 de 5

5 - Lutando juntos para continuar fortalecendo a Efapen. - Ajudando os moradores do Assentamento a criar o Conselho das Vilas do Assentamento Perimetral Norte, para ajuda-los a fortalecer sua organização e a pactuar consensos, como os Wajãpi fazem com o Apina. Assim, nós produzimos essa Carta de Intenções, e queremos que o Estado e nossos parceiros respeitem as nossas decisões quanto ao nosso futuro e nosso desenvolvimento, nos termos da legislação que nos ampara e dessa Carta. Assinamos, Conselho das Aldeias Wajãpi Apina Associação Wajãpi Terra Ambiente e Cultura Instituto Iepé Escola Família Agrícola da Perimetral Norte Efapen Moradores do Projeto de Assentamento Perimetral Norte envolvidos no Projeto Mosaico de Áreas Protegidas da Amazônia Oriental Página 5 de 5

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