SOBRE A INTERAÇÃO ENTRE PALAVRA FONOLÓGICA E PALAVRA MORFOLÓGICA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

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1 P 19: Fonologia: Teoria e Análise SOBRE A INTERAÇÃO ENTRE PALAVRA FONOLÓGICA E PALAVRA MORFOLÓGICA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO Luiz Carlos Schwindt (UFRGS, Brasil) 0 Introdução Neste trabalho, tratamos da correspondência entre palavra fonológica e palavra morfossintática no português brasileiro, a partir de dados do português falado no sul do Brasil, envolvendo especificamente o processo de neutralização da vogal pretônica (cf. Câmara Jr., 1970). O objetivo principal é discutir, na perspectiva da Teoria da Otimidade (McCarthy and Prince, 1993), o não-isomorfismo entre palavra fonológica e palavra morfossintática em português, propondo uma reflexão sobre a relação de dominância entre restrições que dizem respeito à fonologia e restrições concernentes ao isomorfismo entre os tipos de palavras envolvidos. 1. Palavras fonológicas versus palavras morfossintáticas Apesar de ser o elemento da hierarquia prosódica que promove o pareamento entre categorias fonológicas e morfossintáticas, a palavra fonológica (PW) não se confunde necessariamente com a palavra morfossintática (MW). 1 Segundo Nespor & Vogel (1986), palavras fonológicas podem ser iguais ou menores do que palavras morfossintáticas. Para as autoras, o principal elemento definidor é o acento principal, isto é, uma PW não pode possuir mais do que uma proeminência. Assim, vocábulos compostos morfossintaticamente apresentam-se com duas ou mais PWs. Como afirma Bisol (2004), seguindo os argumentos de Booij (1983) e Peperkamp (1997), se considerarmos a possibilidade de reestruturação pós-sintática da PW, em 1 Neste momento, não estamos estabelecendo distinção entre palavra morfológica ou lexical e palavra morfossintática, para evitar desenvolver uma discussão sobre o caráter lexical ou pós-lexical dos compostos. O argumento central, contudo, deste trabalho, não fica comprometido com esta generalização.

2 português brasileiro, ela pode ser também maior do que um átomo sintático. É o que se mostra no esquema a seguir. (1) Isomorfismo entre PW e MW em português brasileiro a. PW = MW [[kaza]pw]mw] casa b. PW < MW [[pasa]pw[tempo]pw]mw passatempo c. PW > MW [[mj]mw[ajuda]mw]pw me ajuda 2 A configuração de (1a) revela perfeito isomorfismo, ao passo que (1b) e (1c) falham nesse sentido. Não trataremos, aqui, dos casos previstos em (1c), porque extrapolam nossos objetivos. Contudo, este exemplo sinaliza para um paradoxo na organização da hierarquia prosódica: se é possível reestruturar duas palavras fonológicas lexicais em uma única palavra, isso também deve acontecer com o composto de (1b). A configuração puramente prosódica de (1b) está em (2). (2) Configuração prosódica de um composto morfológico em PB [[pasa]pw[tempo]pw]pw passatempo O exemplo em (2) mostra uma violação à exigência de não-recursividade da PW, prevista num princípio conhecido como Strict Layer Hypothesis 3, uma vez que uma palavra fonológica maior domina duas outras palavras. O fenômeno observado em (2), todavia, não é privilégio da composição morfológica em português. O mesmo ocorre com palavras derivadas, em que o afixo pode ser considerado PW independente, como pré-escola, pós-operatório, neo-sacerdote, sozinho e 2 Usamos um exemplo de clítico + hospedeiro aqui, ignorando a categoria grupo clítico, a fim de ilustrar uma situação em que duas palavras morfológicas se convertem em uma só fonológica. Contudo, mesmo se admitindo a validade do grupo clítico, formações como [ma]pw[r]mw[azul]mw,pw (mar azul), citada por Bisol (2004), servem para ilustrar palavras fonológicas maiores do que palavras morfológicas. Neste exemplo, há que se discutir, ainda, a violação ao princípio de exaustividade, já que há uma reestruturação envolvendo sílabas de diferentes PWs. 3 Nespor e Vogel (1986) definem assim Strict Layer Hypothesis: a. A given non-terminal unit is composed of one or more units of the immediately lower category. b. A unit of a given level is exhaustively contained in the superordinate unit of which it is part. Para uma crítica a esse princípio, ver Peperkamp (1995). A autora aponta que a segunda cláusula da Strict Layer Hypothesis não cobre nenhuma das quatro condições de dominância prosódica (Layeredness, Headedness, Nonrecursivity and Exhaustivity), o que a torna menos indispensável. 2

3 somente. À semelhança dos compostos, esses vocábulos parecem constituir uma única MW mas duas PWs, que precisam se reestruturar numa terceira PW para não serem confundidos com frases. 4 Como garantir, contudo, que esses vocábulos compostos ou derivados possuem, de fato, mais de uma PW? O argumento precisa ser buscado no acento. 5 Para isso, nos restringimos neste trabalho aos casos em que o processo de neutralização da vogal pretônica falha em sua aplicação. 2. O processo de neutralização da vogal pretônica Segundo Câmara Jr. (1970: 33), o português possui um sistema de sete vogais, que se reduz a cinco na posição pretônica e a três na postônica. Na posição pretônica, a que nos toca neste trabalho, desaparece a oposição entre vogais médias-altas e vogais médiasbaixas. O autor exemplifica com a palavra forma (modo, maneira), que, em posição tônica, se opõe ao vocábulo fôrma (recipiente para moldar algo), em virtude da abertura da vogal, mas que na forma derivada, formoso, tem essa oposição neutralizada. Esse fenômeno pode ser mais facilmente percebido naqueles dialetos que não possuem variação entre médias altas e baixas na posição pretônica - que é o caso do sul e sudeste do Brasil. Nesses dialetos, vogal média-baixa é, na grande maioria dos contextos, sinônimo de vogal tônica. O processo de neutralização da vogal pretônica, assim, nos interessa particularmente neste trabalho porque serve como uma espécie de limitador, nos dialetos em questão, do que se entende por palavra fonológica. Se, numa palavra como s/o/mente, preserva-se a vogal média-baixa, sugere-se que so e mente são palavras fonológicas separadas, já que estamos assumindo a concepção de Nespor e Vogel (1986), de que uma PW não possui mais do que um acento. 4 Nessa concepção, a distinção entre vocábulos derivados por afixos composicionais e compostos propriamente ditos é de natureza, portanto, estritamente morfológica. 5 Estamos nos restringindo ao acento como definidor da PW, embora, de acordo com a literatura, outra característica de PWs é ser domínio de processos fonológicos. Evitamos falar de processos, todavia, pelo fato de que justamente queremos olhar pelo lado inverso de um típico processo da fonologia do PB: a nautralização. Em outras palavras, perseguimos os casos em que a neutralização da pretônica não se aplica, para provar que a vogal permanece acentuada e que, portanto, trata-se de uma PW independente. 3

4 Realizamos, então, dois tipos de buscas para mapear o uso de vogais médias-baixas em palavras complexas no português do sul do Brasil. Primeiramente, olhamos para 36 entrevistas do Projeto VARSUL (Variação Lingüística Urbana na Região Sul), sendo 12 de cada capital dos três estados que integram o projeto, a saber, Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba. Em segundo lugar, montamos um instrumento de leitura de frases e o aplicamos a 45 informantes de nível médio ou superior. Nas duas buscas, o objetivo era localizar contextos de palavras complexas (prefixadas, sufixadas ou compostas) que tivessem na sua forma primitiva uma vogal média-baixa. Consideramos como variável dependente a manutenção da vogal média-baixa. O único fator lingüístico controlado foi o tipo de formação e não se consideraram fatores sociais, já que não entendemos esse fenômeno como produto de variação. Nos dados do VARSUL, observamos 57% de manutenção da vogal média-baixa nos 394 contextos levantados. Nos dados do experimento, a manutenção foi de 51% do total de 435 contextos. Esses resultados precisam ser apreciados (i) por categoria de formação e (ii) por item envolvido na formação, a fim de que se possam traçar algumas conclusões. Todavia, de partida, é possível dizer que o conceito de isomorfismo entre palavra fonológica e morfossintática, no que respeita a palavras complexas é definitivamente questionável, considerando-se o processo de neutralização da vogal pretônica. Neste texto, que visa a fomentar discussão, trataremos de (i) e (ii) apenas com base nos dados do VARSUL, embora os resultados preliminares da aplicação do instrumento tenham sido bastante coerentes com os de fala espontânea. O gráfico a seguir mostra a aplicação por categoria. Gráfico - Manutenção da vogal média-baixa por categoria VARSUL ,36 32,93 Sufixação Composição 0 4

5 O que se vê, pelo Gráfico 1, é a tendência à manutenção da vogal média-baixa quase categórica nas formas sufixadas ao contrário da composição, em que seu emprego é moderado. 6 Não foram localizados os prefixos pré-, pós- e neo-, contextos potenciais para a neutralização, nos dados analisados. Aliás, essa foi uma das motivações para a criação de um instrumento. No que concerne aos itens envolvidos na formação, observamos que grande parte dos dados de sufixos que apresentaram manutenção da vogal da raiz diz respeito aos sufixos -zinho e -mente, enquanto nos vocábulos compostos localizamos formações com bases livres e muitas outras com basóides. Isso tem importante influência sobre os resultados. O exercício empírico que praticamos serve como evidência para o argumento de não-isomorfismo entre PW e MW. O que se depreende dele é que os falantes analisam diferentemente os colchetes prosódicos dos vocábulos em questão. Nossa tese é de que essa interpretação nasce na morfologia, isto é, o limite fonológico é preservado porque a análise da estrutura mórfica desses vocábulos (nos termos de Aronoff, 1976) é transparente para os falantes. Não se trata de variação, mas de diferentes formas de organização da gramática. 3. O não-isomorfismo pela ótica da OT A Teoria da Otimidade (TO) é adequada, em certo aspecto, para tratar desse tipo de fenômeno, já que admite restrições universais e violáveis. Assumimos, neste trabalho, duas restrições, de formulação provisória, mas que consideramos fundamentais para o argumento aqui defendido: uma exigindo isomorfismo entre PW e MW, o que resulta em neutralização da pretônica, e outra exigindo identidade de altura da vogal com a vogal da palavra primitiva. Elas estão definidas a seguir. (4) ALIGN-R(PW, MW): a borda direita de uma palavra fonológica coincide com a borda direita de uma palavra morfossintática. (5) ID(height): segmentos correspondentes no input e no output têm valores idênticos para traços envolvendo altura das vogais. 6 Este resultado é curioso, pois se pensarmos em termos de léxico, seguramente a sufixação, por estar associada à pauta acentual da palavra, nunca poderia ser interpretada como um fenômeno de natureza póslexical. Por outro lado, é justo ali que a vogal primitiva mais se preserva. 5

6 No tableau a seguir mostramos a gramática predominante no caso de formações composicionais (tanto com bases quanto com sufixos e prefixos composicionais) em PB: aquela em que a exigência de identidade de altura domina a restrição que impõe isomorfismo entre PW e MW. Não-isomorfismo entre PW e MW: ID(height) >> ALIGN-R INPUT: /so+mente/mw ID(height) ALIGN-R a. [somente]pw *! b. [[so]pw[mente]pw]pw * Neste exemplo, apenas a título de ilustração, selecionamos um caso de sufixação composicional. Como vimos, com o sufixo -mente a manutenção da altura da vogal da palavra primitiva é praticamente categórica nos dados pesquisados. Isso também é o que ocorre trivialmente na língua com prefixos como os mencionados e com compostos com as duas bases livres. Como se pode observar pelo ranking, o isomorfismo entre PW e MW é menos prioritário do que a neutralização da pretônica (aqui, por razões de simplificação, manifestada apenas pela violação à identidade resultante desse processo). A forma resultante contém, então, duas palavras fonológicas, apesar de fazer parte de uma só palavra morfossintática. Por força do princípio de exaustividade, ela precisa ser incorporada a uma PW maior, resultando, neste caso, numa violação a não-recursividade. 7 Quando a forma atestada é a não-neutralizada, como em m[e]tropolitano por exemplo, está em jogo o conceito de transparência. Defendemos aqui que a transparência morfológica é mantida no input e o objeto de oscilação é sua identidade como uma ou duas PWs, o que imporia inverter o ranking proposto no tableau acima. Considerações finais Neste trabalho exploramos o isomorfismo entre as categorias palavra fonológica e palavra morfossintática. Usamos o processo de neutralização da pretônica para sustentar a 7 Peperkamp (1997), fundamentada em Selkirk (1995), analisa esse conflito também por meio de restrições. 6

7 prevalência do não-isomorfismo entre essas categorias. Apresentamos uma versão preliminar dos resultados de nossa investigação empírica, que permite observar uma preferência pela manutenção da altura da vogal da raiz primitiva com os sufixos -zinho e -mente e um uso moderado com outros sufixos e com compostos. A discussão desses resultados deverá ser sofisticada com a apreciação de um experimento contendo vocábulos exemplares das categorias estudadas, que está em fase-piloto. A análise teórica sugere, nesta etapa, que é a prevalência da identidade de altura sobre o alinhamento de bordas fonológicas e morfossintáticas que produz tal efeito. Referências BISOL, L. (2004) Mattoso Câmara Jr. e a palavra prosódica. DELTA, v. 20 n. especial, São Paulo: EDUC, PUCSP, p BOOIJ, G. (1983) Principles and parameters in prosodic phonology. Linguistics, 21: CÂMARA JR., J. M. (1970) Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes. MCCARTHY, J.; PRINCE,A. (1993) Generalized Alignment. In Booij, G.; van Marle, J. (eds.) Yearbook of Morphology, Dordrecht: Kluwer. p PEPERKAMP, S. (1997) Prosodic words. HIL dissertation 34. The Hague: Holland Academic Graphics. SCHWINDT, L. C. (2000) O prefixo no português brasileiro: análise morfofonológica. Tese de doutorado. Porto Alegre, PUCRS. SELKIRK, E. (1995) The prosodic structure of function words. In: J. Beckamn, L. Walsh Dickey e S. Urbanczyk (eds.) Papers in Optimality Theory. University of Massachusetts Occasional Papers 18. Amherst, MA: GLSA, VIGÁRIO, M. (2001) The prosodic word in European Portuguese. Tese de doutorado. Lisboa, Faculdade de Letras. 7

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