Instituto Superior de Economia e Gestão Universidade Técnica de Lisboa. Mestrado Ciências Actuariais

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1 Instituto Superior de Economia e Gestão Universidade Técnica de Lisboa Mestrado Ciências Actuariais Caderno I -Gestão de Empresas Seguradoras Introdução aos seguros 1

2 Parte I- Introdução aos Seguros 1 - Importância e utilidade dos seguros O emprego nos seguros O volume de negócios A utilidade dos seguros A protecção dos Patrimónios A protecção das Pessoas e dos Rendimentos 2 - A definição e os elementos de uma operação de seguros A definição de seguros Os elementos da operação de seguros O risco O prémio A prestação a pagar pelo segurador A compensação no seio da mutualidade 2

3 3 - As bases técnicas do seguro 3.1 A teoria estatística Os dados estatísticos do seguro A determinação dos diferentes prémios O prémio puro O prémio líquido O prémio total As leis fundamentais do seguro A necessidade de produção A homogeneidade dos riscos A dispersão de riscos A divisão de riscos O resseguro dos riscos O cosseguro dos riscos 3

4 4. - Os diferentes seguros As distinções habituais Os seguros geridos em repartição e os seguros geridos em capitalização Os seguros de perdas e os seguros de pessoas As diferentes categorias de seguros 5 - O papel social e económico do seguro O seguro, actividade de serviço O seguro factor de progresso Os aspectos sociais dos seguros As prestações pagas aos segurados e aos beneficiários As indemnizações liquidadas às vítimas 4

5 6. Os intervenientes no mercado de seguros 6.1 As seguradoras Regime de estabelecimento Regime de livre prestação de serviços 6.2 Os compradores 6.3. A Distribuição em Seguros Generalidades sobre a distribuição de seguros em Portugal 7. Os serviços especializados e financeiros das Companhias de Seguros 7.1 As funções operacionais das Companhias de Seguros 7.2. Estrutura Matricial 7.3. A organização tradicional de uma Companhia de Seguros 5

6 Operação de seguros contrato pelo qual uma parte (o segurador) promete pagar a outra parte (o segurado ou subscritor da apólice) uma importância se um evento causar um prejuizo financeiro ao segurado mediante o pagamento de um prémio (o preço) ao segurador Elementos da operação de seguros a) Incerteza O seguro é um mecanismo de troca de uma situação de incerteza por outra de certeza de uma organização ou indíviduo para um segurador. A incerteza pode ser: - momento da ocorrência da perda (num dado período de tempo) - severidade da perda (montante) - frequência da ocorrência (quantos sinistros num período) o mecanismo de transferência situação incerteza permite a organização ser ressarcida de todas as perdas futuras corridas num dado período. Em contrapartida paga um prémio ao segurador no inicio do contrato. 6

7 b) A lei dos grandes números O seguro funciona porque os seguradores podem obter um grande número de unidades de risco similares. Eles baseiam-se no funcionamento da lei dos grandes números que afirma que quanto maior for o número de unidades de risco similares tanto mais perto as perdas efectivas do grupo se aproximar-se--- - ão das perdas previstas. c) A natureza do risco Mesmo que não possamos prever o futuro, podemos até certo ponto medir a probabilidade de acontecer um certo estado do mundo. O termo risco significa: - resultado futuro desconhecido - chances de ocorrência conhecidas de forma provavel. 7

8 Tipos de riscos - fundamentais e particulares riscos fundamentais atingem toda a sociedade ou grupos de individuos não podendo ser controlados ainda que parcialmente por uma pessoa. Riscos da natureza (catastrofes) e económicos (desemprego generalizado) são exemplos desses riscos. As consequências destes riscos são da responsabilidade da sociedade ou muitas vezes do Estado. riscos particulares referem-se a resultados futuros que podemos parcialmente (ainda que não de forma previsivel) controlar. Resultam das decisões dos individuos. Por exemplo conduzir um carro em vez de apanhar o transporte público, comprar uma casa em vez de alugar, atravessar a rua no sitio errado em vez de na passadeira. As consequências destes riscos são da responsabilidade dos individuos. 8

9 puros ou especulativos Os riscos especulativos tem uma variação de resultado entre menos e mais infinito. O individuo pode ganhar ou perder com a sua ocorrência. Por exemplo criar e explorar uma empresa. Pode enriquecer ou ir à falência. Os riscos puros só têm um resultado de zero a menos infinito. O individuo só pode perder com a sua ocorrência. O incêndio de uma casa ou um acidente de trabalho. Só os riscos puros são seguraveis. é preciso que os riscos sejam mensuraveis em termos monetários, que exista um grande número de riscos independentes e que as perdas em caso de ocorrência de sinistros sejam fortuitas. Problema dos seguros: existência de informação assimétrica, consubstanciada nas suas duas vertentes: anti-selecção (adverse selection) o que significa que existe informação pertinente para avaliação do risco que não foi disponibilizada pelo proprietário dos riscos. risco moral (moral hazard) o que significa que o proprietário do risco, escondeu acções relevantes, para poder beneficiar de um sinistro, seja em relação à severidade seja em relação à frequência. 9

10 Parte I- Introdução aos Seguros Antecedentes do seguro. Segundo autores(1) o empréstimo à aventura de risco, operação corrente no Império Romano e na Idade Média, parece ser o parente afastado do seguro. Trata-se de uma operação inversa à do contrato de seguro parecida com uma operação de crédito que consistia em o mutuante emprestar ao armador um adiantamento ficando estipulado que o reembolso só seria exigível se o barco chegasse a bom porto, nesse caso acrescido de um bom juro. Na Idade Média os banqueiros praticavam ainda o empréstimo ao contrato com risco. No entanto o Papa Gregório IX veio a proibir o juro em 1234 e o negócio cessou definitivamente. Solução dos armadores italianos: Os armadores entregavam uma soma préviamente acordada; se o barco chegasse a bom porto a soma entregue seria definitivamente adquirida pelo banqueiro, era o prémio pelo risco corrido; mas se o navio sofresse perdas o banqueiro pagava ao armador uma indemnização cujo montante e modalidades de pagamento tinham sido fixadas, igualmente, antes do embarque. Trata-se de um contrato próximo do seguro com a diferença de a indemnização ser pré-fixada. (1) Eliashberg, C.,Couilbault, F. et Latrasse,M.(1992). Notions Générales dassurance. A.A. Editeurs 10

11 1 - Importância e utilidade dos seguros A actividade seguradora, como actividade de serviços, fornece emprego aos individuos, gera rendimentos para as familias e tem utilidade para a economia nacional. Os seguros acrescentam valor, são uteis para as pessoas e quando existe necessidade de a exercer em situação de especialização do trabalho. Importância pode medir-se pelo seu papel social e económico, pelo emprego e rendimentos que gera, pelo tipo de utilidades que fornece aos consumidores e pelo seu papel no financiamento da economia O emprego nos seguros (2006) postos de trabalho o que representa cerca de 0.27% da população activa. Esta percentagem é bastante inferior à de outros países europeus onde chega a atingir cerca de 1%. proporcionados por 76 empresas de Seguros e 459 Sociedades Colectivas de Mediação, das quais 77 são Corretoras. 11

12 Numeros do sector 12

13 O número total de mediadores em nome individual ascendia a A organização patronal é representada pela Associação Portuguesa de Seguros e a organização sindical é múltipla. A supervisão da sua actividade seguradora é efectuada pelo Instituto de Seguros de Portugal O volume de negócios A importância dos seguros mede-se não só pelo volume de prémios e indemnizações envolvidas mas também pelo volume de investimento proporcionado à economia nacional. No seguinte quadro apresentam-se os principais indicadores deste sector: 13

14 ,8 115,5 108,1 101, ,7 78,9 72,9 68,6 GDP (thous and of millio ns euro) 6,52% 6,45% 6,11% 6,19% 5,57% 5,18% 5,51% 4,95% 4,30% 3,83% Total 2,98% 2,82% 2,83% 2,71% 2,67% 2,73% 2,90% 2,80% 2,82% 2,62% Non Life 3,54% 3,63% 3,28% 3,48% 2,90% 2,45% 2,62% 2,15% 1,48% 1,20% Life Premiums / GDP 3,60% 4,40% 2,90% 2,30% 2,80% 2,20% 3,10% 4,10% 5,20% 6,50% Inflati on Rate 1,60% 8,20% 2,70% 16,10 % 13,60 % 2,20% 14,70 % 19,60 % 13,40 % 14,60 % Total 6,10% 2,20% 8,70% 6,10% 3,40% 2,40% 6,60% 3,20% 8,40% 10,70 % Non Life -1,90% 13,40 % -2,00% 25,40 % 24,90 % 1,90% 25,10 % 51,00 % 24,30 % 24,20 % Life 2002 (est.) Real Growth MAIN INDICATORS PORTUGUESE INSURANCE ACTIVITY ,8 115,5 108,1 101, ,7 78,9 72,9 68,6 GDP (thous and of millio ns euro) 6,52% 6,45% 6,11% 6,19% 5,57% 5,18% 5,51% 4,95% 4,30% 3,83% Total 2,98% 2,82% 2,83% 2,71% 2,67% 2,73% 2,90% 2,80% 2,82% 2,62% Non Life 3,54% 3,63% 3,28% 3,48% 2,90% 2,45% 2,62% 2,15% 1,48% 1,20% Life Premiums / GDP 3,60% 4,40% 2,90% 2,30% 2,80% 2,20% 3,10% 4,10% 5,20% 6,50% Inflati on Rate 1,60% 8,20% 2,70% 16,10 % 13,60 % 2,20% 14,70 % 19,60 % 13,40 % 14,60 % Total 6,10% 2,20% 8,70% 6,10% 3,40% 2,40% 6,60% 3,20% 8,40% 10,70 % Non Life -1,90% 13,40 % -2,00% 25,40 % 24,90 % 1,90% 25,10 % 51,00 % 24,30 % 24,20 % Life 2002 (est.) Real Growth MAIN INDICATORS PORTUGUESE INSURANCE ACTIVITY

15 Evolução da Carteira de Investimentos Unid: Milhões de euros e Percentagem Valor Estrutura Terrenos e Edifícios ,5% 5,9% 6,0% 5,8% Inv. Empresas do Grupo e Associadas ,1% 3,8% 4,6% 4,2% Outros Investimentos Financeiros ,1% 90,0% 89,0% 89,6% Depósitos junto de empresas cedentes ,3% 0,2% 0,5% 0,4% Total ,0% 100,0% 100,0% 100,0% Inv. Seg. Vida risco inv.é do tomador Depósitos recebidos de resseguradores Total

16 Como se pode constatar o crescimento é revelador do potencial de desenvolvimento de uma indústria que tem registado crescimentos reais nas duas últimas décadas. Para se ter uma ideia da importância dos seguros nas diferentes economias nacionais, em 1992, a repartição entre os principais mercados mundiais era a seguinte: Total em Milhões de USD Percentage m mundial Percentag em do PIB Total per capita USD USA Japão Alemanha Grã Bretanha França Portugal América do Norte América Latina Europa Eur. - CE Àsia África Oceânia Fonte: Sigma 3/94 Ver números %202006%20premiums%20came%20back%20to%20life.html 16

17 A Europa Comunitária representa cerca de 97.5% do total dos países da Europa. O crescimento real de Portugal 11.6% é 2 vezes o crescimento da Europa, 5.7%, e cerca de 3 vezes a média mundial A utilidade dos seguros O papel fundamental dos seguros é proteger os patrimónios e as pessoas contra as consequências dos riscos aleatórios A protecção dos Patrimónios Para os indivíduos Os seguros protegem os segurados contra as consequências da ocorrência de certos acontecimentos aleatórios que podem afectar ao seus bens. As indemnizações recebidas compensam as perdas sofridas pelos proprietários dos bens, permitindo-lhes reconstruir o património destruído. Da mesma forma os seguros permitem a um segurado satisfazer as reclamações por danos ocasionados a terceiros seja por danos da responsabilidade civil directa seja em consequência dos danos iniciados na sua propriedade. 17

18 O seguro evita a constituição de reservas financeiras individuais, cujo montante é indeterminado, mediante um custo orçamentado certo e constante num dado período. Como se vê os seguros de coisas ou de responsabilidades concorrem para a conservação do património dos agentes económicos. No caso das empresas o seguro permite : preservar o utensílio de produção, estabilizar os fluxos de receitas futuras e o efectivo humano. Os seguros de incêndio que cobrem o equipamento e os seguros de perdas de exploração que cobrem os fluxos de receitas futuras permitem ao empresário segurar o resultado futuro da sua empresa. O seguro de acidentes de trabalho permite ao empresário proteger o capital humano que reproduz o processo produtivo A protecção das Pessoas e dos Rendimentos Certos acontecimentos podem atingir as pessoas humanas na sua integridade física e psicológica, causando-lhes danos diminuindo-lhes os rendimentos ou em casos extremos provocando-lhes morte prematura. 18

19 Pensemos nos acidentes de trabalho, nos acidentes corporais, nas doenças ou no desemprego. As vítimas ou os seus parentes poderão beneficiar das prestações pagas pelo segurador se o segurado tiver subscrito um seguro apropriado. Muita da protecção decorre das funções do Estado Providência em matéria de seguro social, alguma da seguros voluntários, a restante de seguros obrigatórios. Os seguros tem por finalidade impedir que os indivíduos fiquem completamente desprotegidos no caso de ocorrência de eventos que lhes diminuam as capacidades físicas ou de ganho, lhes destruam o stock de riqueza que fundamenta o seu bem-estar ou os coloquem em situação de responsabilidade objectiva face à sociedade que os rodeia. 19

20 2 - A definição e os elementos de uma operação de seguros Os seguros são uma operação económica que obedece a características normalizadas, quanto aos conceitos de suporte e aos elementos intervenientes A definição de seguros O seguro é um mecanismo que permite a um conjunto de indivíduos efectuar cotizações para compensarem aqueles que forem atingidos por um acontecimento aleatório prejudicial enfrentarem as suas consequências. De uma forma mais técnica o seguro é uma operação pela qual uma parte, o segurado, mediante o pagamento de uma contribuição (prémio) se faz credor, ele ou um terceiro, em caso de realização de um risco, de uma prestação a liquidar por uma outra parte, o segurador que, tomando o encargo de um conjunto de riscos, os compensa de acordo com as estatísticas. A operação de seguros coloca em confronto pelo menos duas pessoas: o segurado e o segurador. Por vezes intervêm ainda uma terceira pessoa que recebe a prestação, o beneficiário. 20

21 Distingue-se entre o tomador do seguro, ou pessoa que contrata o seguro junto da seguradora, o segurado que é a pessoa que paga o prémio, a pessoa segura, que é a pessoa exposta ao risco e o beneficiário do seguro. O seguro é uma operação organizada, com elementos e regras técnicas próprias(lei dos grandes números, diversificação, independência) Elementos da operação: O risco, o prémio, a prestação a pagar pelo segurador e a compensação de riscos O Risco A palavra risco em seguros pode significar diferentes coisas: designação do objecto seguro: um edifício é qualificado de risco segurável; utilização em questões de tarificação: o risco industrial, riscos de particulares, riscos automóveis, etc; designação do acontecimento seguro. 21

22 A última designação é a mais correcta e nós dizemos que o risco é o acontecimento prejudicial contra cuja ocorrência nos pretendemos cobrir. Nem todos os acontecimentos são seguráveis. Com efeito, só os acontecimentos que possuam os seguintes caracteres podem ser seguros: 1º caracter: o acontecimento deve ser futuro (o acontecimento não deve ter já ocorrido); 2º caracter: deve existir no acontecimento incerteza. Fala-se de acontecimento aleatório porque depende do acaso. A incerteza reside na ocorrência ou na data de ocorrência; 3º caracter: a chegada do acontecimento não deve depender exclusivamente da vontade do segurado. Em conclusão: O risco é um acontecimento futuro, incerto e não dependente exclusivamente da vontade do segurado O prémio O prémio é a contribuição monetária paga pelo segurado em troca da garantia que lhe é concedida. Ele é pago no início da operação de seguro ou da anuidade (exercício de seguro). 22

23 O prémio pago pelo tomador do seguro é geralmente forfetário. Trata-se de um prémio ou quotização fixa que não pode ser modificado no decurso da vigência do contrato sem o consentimento do subscritor, quaisquer que sejam os resultados do segurador. Nas sociedades mútuas na qual o segurado é ao mesmo tempo sócio e segurado, o prémio chama-se quotização. As sociedades mútuas praticam o sistema de quotização variável, com o pagamento de uma quotização que pode dar lugar ou a um pagamento suplementar de um rappel (se os sinistros são mais caros do que o previsto), ou a um reembolso chamado estorno no caso inverso. Qualquer que seja a forma jurídica da instituição, mútua sem fins lucrativos ou empresa capitalista, os prémios devem ser suficientes para cobrirem: o custo dos sinistros do ano; todas as despesas (aquisição, gestão, cobrança) realizadas pela instituição. A execução de uma operação de seguros não deve envolver senão os capitais que provêem dos prémios ou quotizações recebidos. Os prémios não são apropriados pelos seguradores, estes apenas repartem os prémios líquidos de custos operacionais recebidos, pelos segurados que sofreram sinistros. 23

24 A prestação a pagar pelo segurador O compromisso do segurador em caso de realização do risco consiste no pagamento de uma prestação. Trata-se, geralmente, de uma soma em dinheiro destinada a: ressarcir o segurado, por exemplo no seguro de incêndio; ressarcir um terceiro, por exemplo um seguro de responsabilidade civil automóvel. ressarcir um beneficiário, por exemplo num seguro de vida (em caso de morte). Na prática convém distinguir dois tipos de prestações: Indemnizações que são determinadas após a ocorrência dos sinistros, em função da sua importância (seguro de incêndio); Prestações de capital que são determinadas na subscrição dos contratos, antes da ocorrência de um sinistro (seguro de vida). Estas prestações traduzem-se ou no pagamento de um capital, de uma renda ou de um subsídio diário A compensação no seio da mutualidade Cada subscritor liquida o prémio sem ter a certeza que beneficiará dele, mas está consciente que é graças a estes pagamentos e aos dos outros subscritores que o segurador poderá indemnizar os sinistrados. 24

25 3 - As bases técnicas do seguro As bases técnicas de seguro incluem a teoria estatística, a experiência histórica (os dados), a determinação dos prémios e as leis fundamentais da mutualização dos riscos seguráveis. 3.1 A teoria estatística Pascal, matemático francês do século XVII, estudou de forma sistemática o acaso e demonstrou que ele era regido por leis. No século XVII Bernoulli matemático suíço, enunciou a lei dos grandes números ( quanto maior for o número de experiências realizadas, mais os resultados destas experiências se aproximam da probabilidade teórica de ocorrência de um acontecimento). Tomemos o jogo do dado. A probabilidade teórica de saída de um número é 1/6, uma vez que o dado tem seis faces, e que cada face tem tantas chances de sair como as outras. Se jogarmos um número limitado de vezes, o mesmo número pode sair uma vez, duas vezes, todas as vezes ou nenhuma. Mas se jogarmos vezes, vezes, ou de vezes (o que é hoje possível graças aos computadores) constatamos que o número total de saídas de um número tende a aproximar-se da probabilidade teórica de 1/6. 25

26 Isto significa que, se possuirmos informação sobre um grande número de casos, podemos conhecer de forma bastante precisa, a probabilidade de ocorrência de um acontecimento. Assim, raciocinando globalmente podemos controlar o acaso Os dados estatísticos do seguro O funcionamento do mecanismo de seguros baseia-se na mutualização de um grande número de riscos na qual a lei dos grandes números tem um papel fundamental. Raciocinando globalmente, pode conhecer-se, com precisão aceitável, a probabilidade de ocorrência do risco. Esta probabilidade chama-se a frequência e pode ser quantificada graças às estatísticas. Da mesma forma as estatísticas indicam-nos quanto custaram os sinistros. Podemos assim calcular o seu custo médio. Estas informações essenciais permitem ao segurador calcular o que deverá pagar a cada segurado e quanto terá de receber de cada segurado. 26

27 3.3 - A determinação dos diferentes prémios O prémio puro O prémio puro ( prémio de risco, prémio de equilíbrio ou ainda prémio técnico). O prémio puro é portanto o prémio estritamente necessário para a compensação dos riscos no seio da mutualidade. Cálculo do prémio puro De uma maneira geral, o prémio puro é igual à frequência do risco multiplicada pelo custo médio do sinistro. Prémio puro = Frequência x Custo médio Exemplo: Trata-se de segurar, em caso de acidente de circulação, o reembolso das despesas médicas envolvidas com ferimentos do condutor de uma certa categoria de veículos. Segundo as estatísticas tem-se: Frequência de 1/10 Custo médio de Prémio puro = 1/10 x = 100 Este valor é o prémio a liquidar por cada segurado independentemente do número de segurados em causa (1 000, , etc.). Só a receita global é que varia. 27

28 O prémio líquido O prémio líquido é o prémio que figura nas tarifas da sociedade. É por vezes chamado de prémio comercial. O prémio líquido é igual à soma do prémio puro com os encargos que permitem cobrir as despesas de aquisição e de gestão do contrato. Prémio Líquido = Prémio puro + Encargos É conveniente distinguir entre: despesas de aquisição (comissões de mediação nomeadamente e outras despesas de aquisição); encargos de gestão (custos de funcionamento da empresa de seguros). Margem de lucro O prémio total O prémio total é igual à soma do prémio líquido ou comercial com as despesas acessórias e os impostos e taxas. Prémio Total = Prémio Comercial + Despesas acessórias + Impostos e Taxas 28

29 As despesas acessórias são por vezes chamadas de complementos de prémio, despesas de apólice ou despesas de instalação. São muitas vezes um valor em função do prémio líquido. As taxas e impostos indirectos são receita do Estado, dos organismos de bombeiros, dos institutos públicos de Protecção contra Acidentes e das organizações patronais. Variam em função da percentagem aplicada. Por exemplo o imposto de selo é de 9% do prémio, a taxa para o Serviço Nacional de Bombeiros varia consoante os ramos entre 3.9% e 13%, e a taxa para o Instituto Nacional de Emergência Médica é de 1%. A taxa para o ISP e a quota para a APS são uma percentagem dos prémios. O quadro seguinte resume a composição do prémio: 29

30 3.4 - As leis fundamentais do seguro A necessidade de produção O segurador deve esforçar-se para reunir o máximo de segurados (dimensão da amostra) e realizar em permanência negócios novos (renovação da amostra). Esta produção é vital por duas razões: Quanto maior for o número de segurados, mais fácil será a compensação no seio da mutualidade. A lei dos grandes números justifica plenamente este raciocínio; Os contratos realizados não ficam eternamente na carteira; existem saídas por anulação, vencimento, mortes, desaparecimento dos riscos, que devem ser compensadas A homogeneidade dos riscos A compensação exige um grande número de riscos semelhantes, com as mesmas hipóteses de realização e que causarão pagamentos da mesma ordem, ou seja riscos homogéneos. Com este objectivo, os serviços de produção da empresa de seguros examinam cada risco, com a ajuda de um perito. Ou seja, efectuam a selecção de riscos. 30

31 Homogeneidade dos riscos Após essa análise : os riscos são classificados em categorias de tarifa bem determinadas em função dos seus principais elementos: o seguro contra incêndio é mais caro para uma casa de madeira do que para uma casa de pedra. Estas categorias tarifárias que são, na realidade sub-mutualidades, tem por finalidade fazer pagar a cada subscritor um prémio equitativo; propõem uma tarifa agravada para o seguro de um risco mais grave do que o normal: é o caso do seguro em caso de morte de um indivíduo que tem uma tensão mais elevada do que a normal para a sua idade; recusam segurar riscos cuja probabilidade de ocorrência é quase certa. Por exemplo, recusarão segurar contra roubo uma casa insuficientemente protegida enquanto o seu proprietário não tiver tomado certas medidas de prevenção. 31

32 A dispersão de riscos Os riscos seguros não devem realizar-se ao mesmo tempo, senão a compensação não poderia ter lugar. Se segurarmos contra a geada exclusivamente os agricultores de uma mesma região, a mínima tempestade de geada pode revelar-se catastrófica para o segurador, porque pode exterminar as colheitas de todos os segurados. Acontece o mesmo quando se segura em caso de morte todos os engenheiros de uma fábrica susceptíveis de apanharem o mesmo avião para se deslocarem a um congresso profissional, ou ainda quando se seguram contra incêndio todo um quarteirão de casas de habitação. Assim o segurador deve proceder como o investidor do mercado financeiro: não colocar todos os ovos no mesmo cesto. Existem técnicas de dispersão e de limitação dos riscos, resseguro e cosseguro, que permitem, quando bem utilizadas, diminuir os riscos acumulados. 32

33 A divisão de riscos Não é suficiente seleccionar e dispersar riscos, é preciso também evitar aceitar riscos demasiado elevados cujo custo, não poderia ser compensado pelos prémios. Não se pode aceitar que um único risco possa ameaçar a mutualidade. Quando se seguram casas individuais contra incêndio, não se pode aceitar imóveis na totalidade ou mesmo um castelo. Na prática, nesta situação, o segurador não aceitará senão uma parte (uma fracção) de um risco demasiado importante na sua mutualidade. Ele utilizará as técnicas de cosseguro e de resseguro para repartir os seus riscos. A lei dos grandes números aplica-se quando duas condições estejam reunidas para a ocorrência dos sinistros: Serem independentes em probabilidade Seguir a mesma lei de probabilidade possuindo os momentos de primeira e segunda ordem. Se estas condições não estiverem reunidas, a carteira de seguros pode originar perdas técnicas consideráveis não antecipadas pelo segurador. 33

34 Mesmo que estes resultados não sejam negativos, a companhia pode ser obrigada a constituir reservas de segurança importantes para efectuar uma compensação das perdas no tempo. Um tal sistema apresenta dois inconvenientes: por um lado, as reservas livres são apanhadas pelo imposto sobre os lucros por outro lado, não existe forçosamente uma alternância de bons e maus resultados. As perdas podem ser sistemáticas, se os riscos subscritos são em média piores do que o conjunto dos riscos na carteira segurável. Existem formas de o segurador tentar fazer funcionar as condições do modelo de amostragem (lei dos grandes números). 1. O segurador divide a sua carteira em subconjuntos homogéneos no plano quantitativo, os quais não devem ser concebidos nem de forma muito estreita, porque seria então impossível reunir um grande número de riscos nesta classe, nem de forma muito alargada, porque neste caso a homogeneidade desapareceria. Esta preocupação justifica a existência de diversos ramos de seguros, estes mesmos divididos num certo número de classes. 34

35 2. A etapa seguinte consiste em procurar a independência em probabilidade. Para este efeito, o segurador vigia a dispersão espacial dos riscos subscritos. Para uma companhia média, implantada unicamente numa região, ou mesmo para uma implantada nacionalmente, esta condição é difícil de concretizar em seguro directo. Uma companhia deste tipo pode então aproveitar as facilidades oferecidas pelo resseguro recíproco para participar na subscrição de riscos situados nas zonas mais afastadas do seu campo de acção habitual. A dispersão geográfica dos riscos tem por objectivo realizar a independência em probabilidade em cada uma das classes de seguros representadas na carteira. Ao nível da carteira, a estabilidade dos resultados é ainda reforçada pela compensação que se exerce entre os diferentes ramos de seguros. Sabe-se que existem correlações negativas entre os rendimentos técnicos dos ramos de seguros dado que certos ramos, como o seguro de incêndio e o seguro de crédito, sofrem pelo efeito da conjuntura económica, enquanto outros, como os acidentes de trabalho ou o seguro de transporte, seguem uma evolução inversa. 35

36 O resseguro dos riscos O Resseguro constitui o seguro do segurador. É um seguro de 2º grau que liga o segurador directo (o cedente) a um ressegurador (o cessionário). O segurado transfere riscos para o segurador - 1º grau da relação risco/cobertura (contrato de seguro). O segurado não tem contactos com o ressegurador, e este desconhece o segurado. O Segurador cede uma parte do risco ao ressegurador - 2º grau da relação risco/cobertura (contrato de resseguro). O resseguro pode ser: Facultativo: o ressegurador aceita somente os riscos que quer. Obrigatório: o ressegurador aceita todos os negócios que o segurador lhe propõe. 36

37 Para além da influência técnica (a nível do underwriting) exercida pelos resseguradores, existe uma influência económica e uma influência financeira que se traduzem ao nível da exploração e do balanço: a nível técnico, o ressegurador pode intervir nos diversos estádios da prestação de seguros para apoiar a companhia em directo e fazê-la beneficiar da sua experiência e da sua capacidade financeira. Este empenhamento depende do tipo de tratado que estiver em vigor. a nível económico e financeiro, devemos sublinhar a importância dos efeitos indirectos que estão ligados à relação técnica entre o segurador e o ressegurador. O ressegurador é uma fonte de financiamento competitiva, segura e solvente. Chamam-se depósitos técnicos à parte das provisões técnicas da companhia de resseguro confiada à gestão da cedente, seja por exigências regulamentares, seja porque a cedente conseguiu incluir uma clausula desse tipo no tratado de resseguro. A cedente remunera esses depósitos a uma taxa de juro que é sensivelmente inferior à de mercado, beneficiando por isso da diferença entre essa taxa e a que consegue obter no mercado financeiro. 37

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