O advento das tecnologias da era pósindustrial

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1 3.2 AS CRISES DO CENÁRIO O advento das tecnologias da era pósindustrial As tecnologias que ordenaram a era industrial foram ultrapassadas pelas novas tecnologias surgidas a partir do século XX, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial. Deste ponto de vista, essas inovações tecnológicas tornaram irremediavelmente ultrapassadas as tecnologias que caracterizaram a era industrial e as eras anteriores: a mecânica e a máquina; a física, a química e a biologia tradicionais; os conhecimentos, e seu uso. Portanto, tornaram inadequada a organização social que elas inspiraram ou que com elas convivem. A fusão da matéria e o átomo; a nova Física e a Química fina; os avanços da Eletrônica; a Informática, a Tecnotrônica e a capacidade de comunicação; a penetração nos segredos da vida e a Engenharia Genética, esses novos conhecimentos, trouxeram um mundo radicalmente novo. Tão amplos e rápidos foram esses avanços que se pode dizer que o próprio átomo, por si só, já pertence aos conhecimentos do passado e a cibernética ameaça substituir, perigosamente, a inteligência humana; as comunicações já eliminaram o espaço, e a velocidade exponencial da mudança ameaça eliminar o tempo; a manipulação da vida, enfim, põe questões de uma dimensão jamais imaginadas pelo homem, a exigir que, inovadoramente, ele se debruce sobre elas como condição de sobrevivência. 58

2 A organização da sociedade e de seus comportamentos, deveria ter se transformado junto, e no mesmo ritmo. As pequenas mudanças havidas, no entanto, de forma alguma ocorreram na mesma velocidade e nem de forma sistematizada, isto é, como conseqüência da capacidade humana de ordená-las, ou talvez até de percebê-las e antecipálas. A adaptação da sociedade, de suas estruturas e comportamentos, a essa nova realidade, vem ocorrendo apenas ou quase só, de forma desordenada e pontual, sem suficiente análise crítica, e sem um adequado esforço de sistematização. Ao contrário, o esforço se concentra em impor as proporosições do passado à realidade transformada. Por isso, a organização social não tem avançado. As formas de organização social e os comportamentos institucionalizados permanecem estratificados, quando não se opõem à transformação, condicionando-a a seus interesses ou aos parâmetros impostos pelo passado. Ou, simplesmente, a organização social se desestrutura, os comportamentos individuais se tornam caóticos, inseguros ou anti-sociais. Para se perceber a incompatibilidade entre esse processo e a dimensão das mudanças, trazidas pela tecnologia, basta pensar que, quando se consolidou a organização social vigente e as instituições e comportamentos que ela comporta, não existiam a interdependência, a globalização e os fatores que as determinam, nem a velocidade dos transportes e das comunicações, nem a eletrônica e as redes informatizadas, permitindo o império da comunicação e o controle da informação e dos processos; não existiam os sistemas de mídia, nem a engenharia 59

3 genética, com seu poder de atuar sobre os princípios da vida, revolucionando tudo a biologia, os comportamentos humanos, a ética, os processos; não havia os instrumentos ou sistemas globais, capazes de afetar a economia, os comportamentos e a cultura de todo o planeta, instantaneamente. Entende-se, dessa forma, que as organizações e instituições, embasadas nas realidades e nos instrumentos anteriores a essas mudanças, não queiram, ou não sejam capazes, de promover as transformações impostas por esse mundo transformado. Essas considerações levam à conclusão da importância de ter havido uma revolução na organização social, em seus fundamentos, suas estruturas, e comportamentos institucionalizados. Não houve. Por isso tais instituições mantêm apenas uma sobrevida, herdada do passado e, por isso, também, sentem-se, e são incapazes de responder às exigências trazidas pela realidade transformada. A crise decorre disto; ou é isto. A crise das ideologias da era industrial e de seus fundamentos Dois princípios fundamentaram a organização social da era industrial: a competição e a concentração. Esses fundamentos, ou seja, a concentração e a competição, permanecem dando forma a organização social, apesar das transformações trazidas pela tecnologia. As mudanças introduzidas na organização social, de forma alguma tiveram a dimensão ocorrida no campo da tecnologia. Apenas receberam retoques de atualização, para que os referidos fundamentos a 60

4 competição e a concentração se tornassem mais eficientes, isto é, tornassem as instituições mais competitivas e mais capazes de produzir maior concentração. Portanto, as transformações havidas na organização social tiveram como objetivo fortalecer aqueles fundamentos, ou seja, impedir a mudança. Esta constatação parte da disritmia do processo vale para as duas formas de organização social que ordenaram a era industrial: o capitalismo e as diversas formas de socialismo. No livro A Idade do Homem, e, depois, em Reflexões sobre a Educação, alongo-me em demonstrar como essas duas formas de organização social, embora diferentes na aparência e na teoria, se identificam pela raiz, como gêmeas siamesas. Na prática, ambas buscaram, na concentração e na competição, as respectivas formas de organização da sociedade, eliminando competidores, fortalecendo-se a si mesmas, e buscando eliminar-se mutuamente, dentro da lógica da competição, a guerra fria. Eliminado o socialismo em sua forma mais expressiva, a soviética, os mesmos fundamentos tendem a se aprofundar nas ideologias que sobreviveram, nos remanescentes do socialismo e no capitalismo. A derrocada do império soviético, ou a sobrevivência do comunismo chinês mais sábio em se adaptar a um mundo comandado pelo capitalismo, mantém a concentração e a competição. Nos livros citados, afirmava que o socialismo, implantado em sua forma comunista, na prática vinha sendo mais concentrador que o próprio capitalismo, sendo o capitalismo menos concentrador, porque diluído em múltiplos grupos. A concentração maior do comunismo acabaria por inviabilizar primeiro este sistema. O esgotamento do capitalismo viria depois, mas seria inevitável, preconizava. A queda do socialismo em seu Do autor Reflexões sobre a Educação Ed. VFSC,

5 modelo comunista clássico o da União Soviética e seus satélites, de fato, ocorreu, e de nada valeu a concentração de tudo nas mãos do Estado, concentração que tinha gerado uma formidável capacidade de competição, expressa na guerra fria, ou na corrida espacial. A concentração acabou, porque inviabilizou o funcionamento da sociedade e o monolitismo do sistema ruiu dentro da lógica dos fundamentos que o sustentavam: no contexto da concentração, a competição foi vencida pelos mais forte, e o menos competitivo acabou eliminado. O que ocorrerá no próximo passo, com o competidor que resta, o bloco ou os blocos capitalistas? O que ocorrerá com os remanescentes do socialismo? A verdade é que as questões básicas que afetam o mundo continuam se agravando. A exclusão de povos inteiros e de contingentes populacionais cada vez maiores, se torna, a cada dia, mais forte e os que ainda permanecem no processo se articulam para salvar sua capacidade de competição, através de blocos ou alianças de mercado, tentando sobreviver, ou prolongar a sobrevida, como mostra adiante o mapa n 1. Sobreviver por mais algum tempo, porque o antagonismo é inerente à concentração e à competição. Em nível de nações, nesta fase, elas se unem em blocos. Em nível interno, a sobrevivência dos grupos leva a uma concentração cada vez maior, repetindo-se o mesmo processo que ocorre na sociedade global. Enquanto isto, os excluídos aumentam em quantidade. Brevemente, aumentarão em massa resultado da equação quantidade dimensão da exclusão velocidade do processo consciência e aumento dos laços de união, ou solidariedade. A explosão, seja qual for a forma, tende a se tornar inevitável, porque as parcelas excluídas irão rejeitar cada vez mais o 62

6 assistencialismo e não terão a paciência necessária para cultivar a esperança de que, algum dia, poderão vir a ser, também, beneficiadas com o processo, ou com suas sobras. Mapa nº 01 Etapa atual do processo: a ordenação do mundo em blocos regionais. Se os que vierem a dominar o mundo imaginarem poder mantê-lo sob o domínio pelo emprego da força, estarão incidindo em lamentável equívoco e os resultados relativos de pequenas amostras de confronto, como Cuba, Vietnã e, mais recentemente, o Iraque ou a Iugoslávia mostram isto. Na verdade, não se trata de saber de quanto poder dispõem nos desenvolvidos. Trata-se de saber quanto deste poder poderá ser utilizado, sem que se destrua o próprio Planeta e, portanto, aqueles que o empregam. Afora as razões de ordem ética, é este limite do emprego do poder que põe, com armas diferentes, em pé de igualdade, os que concentram e os excluídos. 63

7 Não há, pois, como imaginar que o mundo do terceiro milênio possa continuar se embasando na competição e na concentração. Esses fundamentos que embasaram a atual ordem mundial, como a que ordena no Brasil, estão entrando em processo de crise, que poderá se tornar rapidamente irreversível. 64

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