COLÓQUIO MOBILIDADE DE DOENTES ALTERNATIVA OU INEVITÁVEL? Acesso aos cuidados de saúde transfronteiriços na perspetiva do setor público

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1 COLÓQUIO MOBILIDADE DE DOENTES ALTERNATIVA OU INEVITÁVEL? Acesso aos cuidados de saúde transfronteiriços na perspetiva do setor público Cláudio Correia Divisão da Mobilidade de Doentes

2 MOBILIDADE DE DOENTES: ALTERNATIVA OU INEVITÁVEL?

3 Historicamente. O acesso a cuidados de saúde transfronteiriços sempre foi utilizado por iniciativa do Serviço Nacional de Saúde (e não por iniciativa do doente) como um mecanismo de referenciação clínica para assegurar a assistência médica necessária a doentes cujo diagnóstico ou tratamento, por falta de capacidade técnica, estava indisponível na rede de cuidados de saúde nacional

4 Exemplo: no passado Doentes com insuficiência renal crónica portugueses eram referenciados por hospitais públicos para tratamento em centros espanhóis de hemodiálise

5 Hoje...cobertura nacional da diálise renal

6 Hoje integração de Portugal na União Europeia Qualquer cidadão nacional com insuficiência renal crónica pode circular no espaço da União Europeia e efetuar as sessões de diálise, em situação de estada temporária noutro Estado-Membro, através da cobertura do Cartão Europeu de Seguro de Doença

7 A consagração legal do regime de assistência médica no estrangeiro no Serviço Nacional de Saúde 1990 Lei nº 48/90, de Lei de Bases da Saúde 1992 Decreto-Lei 177/92- Regula em PT a assistência médica no estrangeiro

8 Assistência médica no estrangeiro, por iniciativa de hospitais públicos do SNS (Decreto-Lei 177/92) Elevada diferenciação técnica ou tecnológica Abordagem diagnóstica ou terapêutica complexas Novos padrões de doença Impossibilidade do SNS, por falta de capacidade técnica instalada, prestar determinados cuidados que exigem elevada especialização O SNS assume a referenciação clinica e suporta diretamente todas as despesas, incluindo transportes e alojamento, com o tratamento do doente em centro estrangeiro

9 Alguns indicadores deste processo. Decreto-Lei 177/92, 13 agosto * Dados Provisórios

10 Alguns indicadores do recurso a centros europeus para tratamento de utentes do SNS Decreto-Lei 177/92, 13 agosto

11 O processo de integração de Portugal na UE Tratado de Adesão de Portugal à CEE Lei nº 48/90, de Lei de Bases da Saúde

12 O processo de integração de Portugal na UE Tratado de Roma (1957) (Comunidade Económica Europeia) 1957 Garante a proteção na doença a trabalhadores transfronteiriços - (Regulamentos 1408/71 e 574/72) Tratado de Lisboa (2009) 2009 Garante a proteção na doença a trabalhadores e seus agregados familiares e a qualquer cidadão europeu inscrito num sistema de segurança social - (Regulamentos 883/2004 e 987/2009)

13 Aplicação da legislação europeia em matéria de acesso a cuidados de saúde transfronteiriços

14 Aplicação da legislação europeia em matéria de acesso a cuidados de saúde transfronteiriços (Regulamento 883/2004) Visão holística: (Proteção na segurança social e saúde) Exportabilidade para qualquer Estado-Membro de direitos de proteção social e na saúde : Qualquer cidadão europeu que fixe residência noutro Estado-Membro, tem direito de acesso ao sistema de saúde local, nas mesmas condições que os cidadãos nacionais do Estado-Membro de residência

15 Aplicação da legislação europeia em matéria de acesso a cuidados de saúde transfronteiriços (Regulamento 883/2004) Artigo 20º Acesso a cuidados de saúde que exigem autorização prévia Um cidadão português, inscrito no SNS, pode solicitar, por sua iniciativa, autorização prévia para receber cuidados de saúde programados noutro Estado-Membro, sempre que o tratamento não possa ser prestado na rede de cuidados de saúde hospitalar do SNS, num prazo clinicamente justificável, tendo em conta o estado de saúde atual e a evolução provável da doença da pessoa interessada Pagamento direto dos cuidados prestados entre Estados-Membros

16 As Decisões do Tribunal de Justiça Europeu 2006 Acordão Watts Cidadã do UK em lista de espera para cirurgia, deslocou-se a FR para ser operada e solicitou o reembolso a UK, tendo-lhe sido negado A obrigação de reembolsar o custo do tratamento hospitalar prestado noutro EM aplica-se a um SNS que preste esse tratamento gratuitamente O SNS do UK não pode recusar a um doente autorização para receber tratamento no estrangeiro, devido ao tempo de espera pelo tratamento hospitalar no Estado de residência, a menos que possa demonstrar que o tempo de espera não excede um período clinicamente aceitável tendo em conta a situação clínica concreta do doente

17 Aplicação da legislação europeia em matéria de acesso a cuidados de saúde transfronteiriços (Regulamento 883/2004) Cartão Europeu de Seguro de Doença Acesso a cuidados de saúde necessários em situação de estada temporária noutro Estado- Membro Pagamento direto dos cuidados prestados entre Estados-Membros

18 Alguns indicadores do processo Aplicação do Regulamento 883/2004 Nº de pedidos autorizados (S2): 28 Nº de Cartões Europeus de Seguro de Doença:

19 O que fez mudar a realidade da mobilidade de doentes na UE?

20 O primado do Direito da União Europeia em matéria de acesso a cuidados de saúde transfronteiriços Tratados da União Europeia Jurisprudência do Tribunal de Justiça Europeu Medidas legislativas de codificação da jurisprudência europeia

21 Jurisprudência do Tribunal de Justiça Europeu Os cuidados de saúde estão sujeitos: Ao princípio da liberdade de prestação de serviços, nos termos do Tratado da União Europeia Ao princípio da liberdade de circulação das pessoas (doentes) e bens (medicamentos) SE UM DOENTE TEM DIREITO A UM TRATAMENTO NO SEU EM DE RESIDÊNCIA TEM DIREITO AO REEMBOLSO DESSE TRATAMENTO REALIZADO NOUTRO EM

22 Jurisprudência do Tribunal de Justiça Europeu 2009 Acordão C255/2009 Comissão contra PT Ao não prever, excepto nas circunstâncias previstas pelo Regulamento (CEE) n. 1408/71 do Conselho, de 14 de Junho de 1971, a possibilidade de reembolso das despesas com cuidados médicos não hospitalares, efetuadas noutro Estado-Membro, que não implicam o recurso a equipamentos materiais pesados e dispendiosos, taxativamente enumerados na legislação nacional, ao subordinar o seu reembolso à concessão de uma autorização prévia, a República Portuguesa não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por força do artigo 49. CE

23 DECISÃO POLITICA - DECLARAÇÃO DO CONSELHO DA EU SOBRE VALORES E PRINCÍPIOS COMUNS AOS SISTEMAS DE SAÚDE EUROPEUS Aplicação dos valores e princípios comuns aos sistemas de saúde da União Europeia Regras de segurança, normas da qualidade e mecanismos de reparação em caso de dano Princípios comuns: qualidade segurança cuidados baseados em dados rigorosos e na ética Valores: universalidade equidade solidariedade acesso a cuidados de saúde de qualidade Princípios comuns: participação dos doentes acesso à justiça privacidade e confidencialidade Normas de qualidade Segurança do doente Mecanismos de reparação

24 PARLAMENTO EUROPEU Aprovou uma proposta de Resolução sobre as consequências da exclusão dos serviços de saúde da Diretiva relativa aos serviços no mercado interno Convidou a Comissão e o Conselho a codificarem a jurisprudência europeia em matéria de cuidados de saúde transfronteiriços, através de um quadro regulamentar que garanta a qualidade dos cuidados de saúde a segurança dos doentes defina as regras de reembolso

25 Chegámos à Diretiva sobre a Aplicação dos Direitos dos Doentes em Matéria de Cuidados de Saúde Transfronteiriços?

26 O que distingue o âmbito de aplicação desta Diretiva de outros regimes de acesso a cuidados de saúde transfronteiriços?

27 Traços distintivos Fundamentais Esta Diretiva assenta nos princípios da livre circulação de cidadãos e de prestadores de serviços e nos princípios subjacentes às decisões do Tribunal de Justiça, já que através deles, os doentes poderão receber noutro Estado-Membro qualquer cuidado de saúde a que teriam direito no seu próprio país e serem reembolsados num montante equivalente ao reembolso devido, caso o mesmo tratamento fosse prestado no país de origem, assumindo, contudo, o risco financeiro de quaisquer custos adicionais que possam advir

28 Traços distintivos Fundamentais Acesso a cuidados de saúde transfronteiriços por iniciativa e decisão do doente Liberdade de escolha no acesso a cuidados de saúde transfronteiriços não sujeitos a autorização prévia Liberdade de recorrer a um prestador público ou privado estabelecido noutro Estado-Membro Direito ao reembolso dos cuidados prestados noutro Estado- Membro, até ao limite do custo caso os cuidados fossem prestados em Portugal

29 Traços distintivos Fundamentais Os EM de tratamento, através do ponto de contato nacional, devem disponibilizar aos cidadãos informação sobre: as normas e orientações em matéria de qualidade e segurança em saúde em vigor no território nacional, incluindo as relativas à supervisão e à avaliação dos prestadores de cuidados de saúde os prestadores de cuidados de saúde sujeitos às normas e orientações em matéria de qualidade e segurança do doente o direito de um prestador especifico exercer determinada atividade ou sobre eventuais restrições à sua prática

30 Traços distintivos Fundamentais os mecanismos de reclamação e de recurso, tanto a nível administrativo como judicial as condições sobre o acesso a unidades de saúde para pessoas com deficiência a lista dos cuidados de saúde sujeitos a autorização prévia para efeitos da aplicação da Directiva, bem como todas as informações relevantes sobre o sistema de autorização prévia

31 DIRETIVA 2011/24/EU Aplica-se a cidadãos beneficiários de um sistema de saúde seus familiares e sobreviventes Promove a cooperação em matéria de cuidados de saúde entre EM nos seguintes domínios reconhecimento das receitas médicas das redes europeias de referência da avaliação das tecnologias da saúde e da saúde em linha (e-saúde)

32 DIRETIVA 2011/24/EU Clarifica a sua aplicação em relação aos Regulamentos comunitários (ou é aplicável a Diretiva ou são aplicáveis os Regulamentos da EU relativos à coordenação dos regimes de segurança social) Não se aplica aos cuidados continuados, ao acesso e atribuição de orgãos para transplante e a programas de vacinação pública Pode limitar o reembolso por motivos que se prendam com a qualidade e a segurança dos cuidados prestados

33 DIRETIVA 2011/24/EU Abrange os serviços de saúde prestados aos doentes com o objetivo de avaliar, manter ou reabilitar o seu estado de saúde, incluindo a prescrição, dispensa de medicamentos e de dispositivos médicos Obriga à publicitação da lista dos cuidados de saúde sujeitos a autorização prévia pelo EM de origem

34 DIRETIVA 2011/24/EU Considera como profissional de saúde o que desenvolve a atividade de acordo com a Diretiva 2005/36 CE (reconhecimento das qualificações profissionais) ou que exerce legalmente a profissão no EM de tratamento Permite a restrição da mobilidade de doentes em casos de proteção da saúde pública ou de planeamento do sistema de saúde, como causas imperiosas de interesse geral

35 DIRETIVA 2011/24/EU Obriga à garantia de que os cuidados são prestados de acordo com as normas e orientações em matéria da qualidade e segurança estabelecidas pelo EM de tratamento Obriga o EM de tratamento a divulgar informação clara sobre as opções de tratamento, cobertura, preços, disponibilidade, qualidade e segurança dos cuidados que prestam

36 DIRETIVA 2011/24/EU Prevê a possibilidade dos EM fazerem depender o reembolso de cuidados de saúde transfronteiriços de uma avaliação prévia realizada por profissional de saúde ou administrador de cuidados de saúde que preste serviços no âmbito do sistema nacional de saúde do EM de afiliação, se tal for necessário para determinar individualmente o direito do doente aos cuidados de saúde nesse EM Esta avaliação prévia não pode ser discriminatória e tem que ser baseada em critérios objetivos, proporcionados e transparentes, em função da situação clínica do doente

37 DIRETIVA 2011/24/EU Fomenta a criação de redes europeias de referência entre prestadores de cuidados de saúde e centros de elevada especialização nos EM, com os objetivos de: potenciar a cooperação em matéria de cuidados altamente especializados contribuir para a partilha de conhecimentos promover a melhoria de diagnósticos maximizar a rentabilização de recursos reforçar a partilha de investigação difundir boas práticas

38 Desafios para o Serviço Nacional de Saúde CONCILIAR A SUSTENTABILIDADE DO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE NOS MOLDES CONSTITUCIONALMENTE CONSAGRADOS COM OS DIREITOS FIXADOS POR ESTA DIRETIVA

39 Desafios para o Serviço Nacional de Saúde os desafios da QUALIDADE DOS CUIDADOS E DA SEGURANÇA CLÍNICA serão certamente uma das principais respostas para que os doentes não tenham necessidade de recorrer a cuidados de saúde transfronteiriços

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