Barra da Tijuca Lugar de significação: pesquisando a imagem identitária urbana e sua comunicação

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1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ Centro de Tecnologia e Ciências - CTC Instituto de Geografia IGEOG Programa de Pós-Graduação em Geografia - PPGEO Curso de Mestrado Barra da Tijuca Lugar de significação: pesquisando a imagem identitária urbana e sua comunicação Rodrigo Leão Março de 2009

2 CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/PROTEC L437 Leão, Rodrigo Fernandes. Barra da Tijuca lugar de significação: pesquisando a imagem identitária urbana e sua comunicação / Rodrigo Fernandes Leão f. Orientador : Zeny Rosendahl. Dissertação (mestrado) Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Geografia. 1. Barra da Tijuca(Rio de Janeiro, RJ) - Monumentos Teses. 2. Planejamento urbano Barra da Tijuca(Rio de Janeiro,RJ) Teses. I. Rosendahl, Zeny. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Geografial. III. Título. CDU 711.4(815.3)

3 Rodrigo Fernandes Leão Barra da Tijuca Lugar de significação: pesquisando a imagem identitária urbana e sua comunicação Orientadora: Profª. Drª Zeny Rosendahl Rio de Janeiro 2009

4 Dissertação de Mestrado Barra da Tijuca Lugar de significação: pesquisando a imagem identitária urbana e sua comunicação Autor Rodrigo Fernandes Leão Orientadora Profª. Drª. Zeny Rosendahl Banca Examinadora Aprovado por Profª. Drª. Zeny Rosendahl - UERJ Prof. Dr. Márcio Piñon de Oliveira - UFF Prof. Dr. João Baptista Ferreira de Mello - UERJ Prof. Dr. Miguel Ângelo Ribeiro - UERJ

5 Ao meu filho, Felipe Morand Leão.

6 Agradecimentos A minha mulher, Gabriela, fundamental em todos os momentos, com sua preocupação, seu incentivo, sua tranqüilidade, seu companheirismo e principalmente seu amor. A minha mãe, sempre presente, em todas as horas. A Zeny Rosendahl, professora, orientadora e amiga. Sempre pronta ao longo dos últimos 9 anos. Ao João Baptista, sempre pronto a ajudar com sua alegria. Ao Miguel Ângelo. Daqueles professores que ainda se emocionam com sucesso de seus alunos. A equipe de bolsistas do NEPEC, fazendo jus à tradição de competência desse núcleo de pesquisa tão querido.

7 Venham a mim as massas exaustas, pobres e confusas ansiando por respirar liberdade. Venham a mim os desabrigados, os que estão sob a tempestade. Eu os guio com minha tocha. Texto escrito no pedestal da estátua da liberdade original localizada em Nova Iorque Estados Unidos

8 Sumário APRESENTAÇÃO CAPÍTULO 1 A HERANÇA DO PASSADO O BAIRRO DA BARRA DA TIJUCA RJ Antes do Túnel: o espaço e o tempo 1.2. Depois do túnel: o espaço e o tempo CAPÍTULO 2 A INCLUSÃO DO PRESENTE O BAIRRO DA BARRA DA TIJUCA RJ Habitante Identidade Lugar: tríade de análise 2.2. Laboratório de Valores na Transformação do Lugar CAPÍTULO 3 NEW YORK CITY CENTER, LUGAR DE SIGNIFICAÇÃO PESQUISANDO IMAGEM IDENTITÁRIA URBANA E SUA COMUNICAÇÃO A Forma Simbólica Espacial: a Estátua da Liberdade 3.2. A Dimensão Fundamental da Significação: a Comunicação CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA ANEXO... 93

9 Mapas, Gráficos e Fotos Mapa 1 Barra da Tijuca...25 Mapa 2 Plano Piloto da Barra da Tijuca e Jacarepaguá Gráfico 1 Crescimento Populacional da Barra da Tijuca Foto 1 Barra da Tijuca 1952 Foto aérea registra o, então, grande vazio Foto 2 Barra da Tijuca 1969 Início da ocupação do Jardim Oceânico Foto 3 Avenida das América, primeiro plano e Avenida Alvorada ao fundo. Sistema viário cruciforme Foto 4 Cartão comemorativo da construtora Dias & Paz uma das responsáveis pela urbanização da Barra Foto 5 Funcionários da construtora Foto 6 Avenida Sernambetiba, Foto 7 Jardim Oceânico Foto 8 Mesmo enquadramento da foto 1. Podemos perceber o adensamento da ocupação do bairro Foto 9 Lagoa com processo de assoreamento por poluição, principalmente residencial, acelerado Foto 10 Corridas de automóvel na Barra 1957

10 Foto 11 Corridas de automóvel na Barra Foto 12 Corridas de automóvel na Barra Foto 13 Marca registrada, tradicional cartaz localizado na entrada do bairro Foto 14 Estátua situada na Vila Kennedy RJ...68 Foto 15 Estátua de Santa Catarina Foto 16 Estátua de Juiz de Fora MG...69 Foto 17 Estátua de Maceió AL...70 Foto 18 Estátua carioca por enfeitada por ocasião da Copa do Mundo de Futebol FIFA Foto 19 Em frente à réplica da Estátua da Liberdade do shopping New York City Center, no Rio de Janeiro, manifestantes fazem protesto contra Bush e os Estados Unidos, na ocasião da viagem do presidente norte-americano no Brasil, em março de

11 Resumo A recente urbanização da Barra da Tijuca foi acompanhada pelo surgimento de uma nova forma de apropriação do espaço geográfico na cidade do Rio de Janeiro, um novo estilo de viver. Esta dissertação de Mestrado procura identificar que modo de viver é esse, os agentes que contribuíram para tais mudanças e, sobretudo, debruçar o nosso olhar sobre toda a carga simbólica ali presente. Além é claro, de esclarecer acerca da presença ou não de símbolos que representem a identidade deste lugar e do grupo que o habita. Para tal, foram utilizados como base teórica, principalmente, os conceitos de lugar, de monumentalização e forma simbólica. Diversos trabalhos de campo foram realizados a fim de comprovar dar suporte a parte teórica. Este trabalho esta disposto em três partes. Na primeira parte construímos a base histórica sobre a qual será construído o trabalho. A segunda parte consiste na tentativa de compreender de quais processos transformaram a Barra da Tijuca, nesse bairro diferenciado dentro da dinâmica da metrópole carioca. Na última etapa, através dos questionários e das entrevistas, procuramos comprovar nossas teorias e responder as questões inicialmente colocadas. Palavras chave: Barra da Tijuca (RJ), Estátua da Liberdade (RJ), identidade, forma simbólica, monumento.

12 APRESENTAÇÃO

13 APRESENTAÇÃO A partir do final de 1970 e durante a década seguinte, a geografia cultural passou por um processo de renovação no qual a tradição calcada na Escola de Berkeley, mas também na geografia vidaliana, foi submetida a críticas por parte de geógrafos das mais diferentes linhas teóricas ou de experiências em distintos contextos culturais. Pesquisando formas espaciais simbólicas em lugar concreto. Seguindo pelo mesmo caminho de reflexão escolhido ao longo de minha graduação, onde tive a oportunidade de abraçar a geografia cultural, principalmente graças aos quatro anos em que fui bolsista do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura, o NEPEC, sob a orientação da Professora Zeny Rosendahl, onde pude lançar meu olhar sobre um dos maiores símbolos da cidade do Rio de Janeiro, o Maracanã. Hoje, no mestrado, mais uma vez tenho a oportunidade de observar um monumento como objeto central de minhas pesquisas, a Estátua da Liberdade do shopping New York City Center da Barra da Tijuca. A escolha de um fixo até certo ponto recente, onde procuro diagnosticar a existência de alguma identidade estabelecida com os cidadãos que com ele convivem. Tal tentativa será norteada a partir dos conceitos de Formas Simbólicas, Monumento e Lugar. São muitos os monumentos que fazem parte da paisagem urbana e devem ser interpretados geograficamente. Utilizando-me das palavras de Corrêa (2005) e de Mello (2003) ao parafrasearem Cosgrove (1998), os 12

14 símbolos e os monumentos estão em toda parte. São simultaneamente marca e matriz (BERQUE, 1998). É pensando em reconhecer o processo de monumentalização como uma possível categoria na interpretação da forma e da função, que nos remetemos ao estudo geográfico da Estátua da Liberdade como símbolo de um novo estilo de vida instalado na cidade do Rio de Janeiro. O estudo do monumento surge como um dos focos da geografia das formas simbólicas. Tal tema é abordado inicialmente por David Harvey (1979) em seu texto intitulado Monument end Myth, no qual investiga os papéis estratégico e simbólico da Basílica de Sacré-Coeur, que domina o horizonte da parte norte de Paris. A temática é também explorada por outros dois autores, Dimitri Sidorov, que lança seu olhar sobre a Catedral de Cristo Salvador em Moscou, e Jêrome Monnet, que analisa a simbólica dos lugares através das relações entre espaço, poder e identidade. Portanto, identidade e poder parecem ser as palavras-chave em torno de suas representações. São poucos os registros acerca deste temática no Brasil. Os monumentos podem ser definidos como objetos fixos grandiosos, cheios de significados/valores simbólicos que fazem parte da organização do espaço. Dispostos ao longo do espaço público em temporalidades distintas. Os monumentos não são apenas objetos estéticos, são intencionalmente dotados de sentido político, são capazes de condensar complexos significados em torno de valores e práticas. Podem ser comparados a um texto, uma vez que podem possuir diversas interpretações/olhares e vocações. Ainda como obras literárias, são independentes da intenção que os originou. Fazem sobreviver na memória alguma coisa significativa para alguém ou para um grupo social. Podem ser enxergados como objetos de celebração, contestação ou 13

15 memorialização. A dimensão ou a escala, normalmente, está relacionada com os monumentos anteriores, em outras palavras, o novo monumento surge para superar as formas pretéritas, confrontando-se a elas (CORRÊA, 2005). As formas simbólicas são articuladas entre si participando de um batalha de símbolos e alegorias, parte integrante da disputa ideológica e política no contexto nacional. Tempo e espaço são fundamentais nos estudos geográficos acerca dos monumentos. Segundo Corrêa (2005), seu sentido original é orientado por sete funções: 1. Servir, mesmo que futuramente para a perpetuação de antigas tradições; 2. São criados com a finalidade de dar a impressão de que o novo venha a parecer antigo, em outras palavras, inventa tradições; 3. Possuem o objetivo de transmitir valores universais; 4. Firmam identidades étnica, nacional, racial religiosa ou de classe, representando assim a classe dominante; 5. Glorificam o passado; 6. Podem sugerir ou anunciar que o futuro já chegou; 7. Pretendem dar origem a lugares de memória. A estátua referida seria um símbolo compartilhado pela coletividade? Ou ainda um objeto representativo de um povo? Um lugar/objeto pode ser considerado como simbólico na medida em que significa algo para um conjunto de indivíduos; assim ocorrendo, ele contribui para dar identidade a esse grupo (MONNET, 2000) e os símbolos significam, 14

16 isto é, eles carregam o sentido que um indivíduo ou grupo lhe atribuem. Eles são realidades concretas, objetos ou atos físicos cuja existência factual é relativamente independente das significações que lhes damos. Porque participa inteiramente da vida dos indivíduos e dos grupos, o lugar influencia, até mesmo constrói, tanto subjetivamente como objetivamente, identidades culturais e sociais (LÊ BOSSÉ, 2004). A identificação consiste em um sentido intransitivo e, por vezes, reflexivo. Entendendo a identidade como similaridade, a identificação consiste em se assemelhar a qualquer coisa ou a qualquer um, e se traduz principalmente, tanto para o indivíduo como para o grupo, por um sentimento de pertencimento comum, de partilha e de coesão social (LE BOSSÉ, 2004). O símbolo é aquilo que une as distâncias, aquilo que reúne, aquilo que traz consigo, aquilo que comunica. O símbolo pode ser definido como mediador entre registros diferentes da experiência e da comunicação humanas. Debruçarei meu olhar sobre o lugar. Um ponto de concentração, receptor de fluxos diversos. Na literatura geográfica lugar é uma preocupação central. Na verdade, alguns geógrafos consideram que, sentido de por que as coisas estão onde estão, lugar é sinônimo do aparecimento da geografia humanística, lugar é como uma realidade vivida (BUTTIMER, 1971). Mas recentemente, o entendimento do lugar suscitou uma troca entre aqueles que consideram a geografia como uma ciência antropocêntrica. Como uma ciência humana, a geografia vê a paisagem não como um objeto destituído de valor, distante do olho, o geógrafo a vê ao lado, onde a paisagem é moral e o observador se localiza dentro dela (TUAN, 1979). Integrando a experiência sentida e o símbolo percebido, o geógrafo humanista 15

17 se prepara para oferecer uma interpretação de lugar na sua ambigüidade, ambivalência e complexidade (TUAN, 1977). Baseando-se na fenomenologia, lugar não é simplesmente um espelho passivo que reflete desapaixonadamente o esforço humano; ele é o meio, o gestual através do qual nós somos (ROWTRE e CONKEY apud RICHARDSON, 1989). Para Mello (2003), os lugares adquirem profundo significado, através dos laços emocionais ao longo dos anos, são entes queridos merecedores de considerações especiais. Merecem ter seu conteúdo simbólico compreendido e decodificado. Possuem magnitudes diferenciadas como pátria, edifícios, estádios ou simples pedras do caminho. O envolvimento despontado a partir da experiência, da confiança e da afeição, denota intimidade, na acepção da palavra a qualidade do que se encontra bem no interior ou que atua no âmago. Seguindo esta linha, os lugares são ao mesmo tempo públicos, compartilhados e forjados através de edificantes significados. Essa idéia pode ser reforçada pela frase do filósofo francês Gabriel Marcel, reaproveitada por Relph (1976) e Mello (2003): um individuo não é distinto de seu lugar, ele é esse lugar. O lugar pode ser entendido como lar ou pátria, sendo ao mesmo tempo um símbolo de união e congraçamento. Trata-se de um mundo vivido e filosófico, existencial, coletivo, de enraizamento, de lutas e de glorias, uma morada familiar. Finalmente para Tuan (1983), o lugar humanista é um objeto carregado de valor e de sentido, um centro de valores sentidos pela subjetividade dos indivíduos e dos grupos. Com base no exposto até então, uma questão torna-se pertinente: Que formas simbólicas existentes no Brasil ou mais particularmente na cidade do 16

18 Rio de Janeiro, merecem ser analisadas? A pertinência de tal analise está no fato de que as formas simbólicas podem ser objetos de disputas entre grupos distintos e, assim, submetidos à interpretação contrastantes, revelando a sua real natureza. Questiona-se, sobretudo acerca do contexto econômico e social, dos agentes participantes do processo, seus interesses, sua localização, a iconografia dos mesmos e os seus significados de acordo com os diversos grupos em confronto. Ao longo das últimas décadas, a Barra da Tijuca, vertente natural de crescimento da cidade do Rio de Janeiro, vem sendo ocupada em um ritmo cada vez mais intenso. Nosso olhar, portanto, é lançado sobre o estilo utilizado nesta ocupação. Simbolizando este processo de miamização 1, está a Estátua da Liberdade situada à frente do New York City Center. Tentando interpretar a dinâmica do objeto de estudo analisar-se-á a forma e os fluxos simbólicos a ele relacionados. Temos dois objetivos: 1 Reconhecer se tal forma simbólica está diretamente ligada ao estilo de vida americano american way of life. 2 Interpretar os fluxos simbólicos, econômicos, políticos e sociais representados pelos freqüentadores deste espaço. Ratificando ou não o modelo de vida norte-americano adotado. 1 Entenda-se por miamização o processo de importação e posterior aplicação de valores, estilo de viver, organização espacial, arquitetura estadunidenses em uma área de recente ocupação da metrópole carioca, a Barra da Tijuca. 17

19 Ainda que em outro plano, não menos importante, a natureza social dos participantes e o impacto do monumento no lugar também serão analisados. Os procedimentos adotados para a realização desta tarefa são os de praxe: entrevistas, aplicação de questionários, pesquisa participante e a pesquisa ação. Sobre a Geografia Cultural A década de 1990 caracteriza-se pela importância da geografia cultural renovada. A criação dos periódicos como Géographie et cultures em francês (1992), Ecumene, em inglês (1994), reflete tal importância. No Brasil, o NEPEC Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura, criado em 1993 no âmbito do Departamento de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e seu periódico Espaço e Cultura, criado em 1995, vêm tornar ainda mais evidente o recente interesse pela geografia cultural no país. O processo de renovação se fez no contexto de valorização da cultura, a denominada virada cultural. Na década de 1980, um conjunto de mudanças em escala mundial ressalta a dimensão cultural dos processos em ação. Entre estas, algumas são expostas aqui: as mudanças na esfera econômica, o fim da denominada Guerra Fria, a ampliação dos fluxos migratórios da periferia para os países centrais, o movimento ecológico, novas formas de ativismo social e a crescente consciência da necessidade de novos modos de se construir e entender a realidade, até então calcada no racionalismo moderno, no raciocínio cientifico e na celebração. Durante a renovação e a revalorização da geografia cultural, diversas 18

20 influências se fazem presentes. De um lado, a própria tradição saueriana e o legado vidaliano. De outro a influência das filosofias do significado, especialmente da fenomenologia, e do denominado materialismo cultural de Raymond Willams. Um grande relacionamento com as humanidades em geral enriqueceu a geografia cultural. A Geografia social também se constitui em um dos ingredientes a partir dos quais se revigora a geografia cultural. Neste processo, o conceito de cultura é redefinido, liberado da visão supra-orgânica do culturalismo, na qual a cultura é vista segundo o senso comum e dotada de poder explicativo. Coloca-se também oposta à visão estruturalista, na qual a cultura faria parte da superestrutura, sendo determinada pela base. A cultura é vista como um reflexo, uma mediação e uma condição social. Não tem poder explicativo, ao contrário, necessita ser explicada. A cultura é então considerada como o conjunto de saberes, técnicas, crenças e valores. Este conjunto, entretanto, é parte integrante do cotidiano, cunhado no seio das relações sociais de uma sociedade de classes. Este novo olhar sobre a cultura coloca-a como dotada de um sentido político, no qual a noção gramsciana de hegemonia cultural e as expressões política, cultural e produção cultural estão associadas. A ênfase na interpretação das formas espaciais e dos movimentos surge em Cosgrove e Jackson (2000) e em Cosgrove (2000) em seu texto Mundos de Significados Geografia Cultural e Imaginação. Cosgrove argumenta que a imaginação desempenha um papel simbólico, capturando dados sensoriais sem reproduzi-los como imagens miméticas, metamorfoseando-os através de sua capacidade metamórfica de criar 19

21 significados. Diversos caminhos podem ser trilhados pelos geógrafos, visando contribuir para dar inteligibilidade à ação humana sobre a superfície terrestre. Neste sentido, podem ser considerados tanto a dimensão material da cultura como a sua dimensão não-material, tanto o presente como o passado, tanto objetos e ações em escala global como regional e local, tanto aspectos concebidos como vivenciados, tanto espontâneos como planejados, tanto aspectos objetivos como intersubjetivos. O que os une em torno da geografia cultural é que esses aspectos são vistos em termos de significados e como parte integrante da espacialidade humana. A heterogeneidade cultural brasileira e as intensas transformações que nos últimos 50 anos têm alterado as configurações espaciais do país, sugerem um conjunto de temas a serem abordados pelos geógrafos, visando contribuir para a inteligibilidade do país por intermédio de uma análise da cultura em sua dimensão espacial. Destaca-se quatro grandes temas: a paisagem cultural, a região cultural, a religião e a cultura popular. As formas espaciais criadas pela ação humana geram paisagens culturais impregnadas de significados. Há inúmeros tipos de paisagens culturais, da classe dominante, residual, excluída (COSGROVE, 1998). As paisagens da cidade, do campo e de áreas desertas de homens, podem ser objetos de análise em busca de seus significados, ultrapassando a tradição dos estudos morfológicos. As formas simbólicas espaciais estão dispersas pela superfície terrestre, sugerindo a força que as representações humanas constroem a 20

22 respeito de diversas faces da vida, envolvendo o passado, o presente e o futuro. As formas simbólicas são agentes passivos ou ativos, presentes na criação e recriação das práticas sócio-espaciais. 21

23 CAPÍTULO 1 A HERANÇA DO PASSADO O BAIRRO DA BARRA DA TIJUCA - RJ 22

24 Antes de começarmos, é importante deixar claro que ao utilizarmos o nome Barra da Tijuca, estaremos fazendo referência ao bairro. Tal esclarecimento faz-se necessário pois até hoje existe uma grande confusão no que diz respeito a utilização de tal toponímia. Isso, porque, derivados de Tijuca, temos vários elementos de diversas naturezas: a proximidade com o bairro Tijuca, a lagoa da Tijuca, a barra da Tijuca, determinada pela geografia, a Região Administrativa da Barra da Tijuca e outros Antes do Túnel: o espaço e o tempo Originalmente um imenso areal, com vegetação rasteira típica de restingas, cheia de alagadiços e pouco apropriada ao plantio a Barra da Tijuca começou a ser ocupada em 1594, com a concessão de duas sesmarias pelo governador do Rio de Janeiro da época, Salvador Corrêa de Sá, a seus dois filhos, Martim de Sá e Gonçalo Corrêa de Sá. Foto 1 Barra da Tijuca 1952 Foto aérea registra o, então, grande vazio. 23

25 As terras de Gonçalo Corrêa de Sá foram legadas em testamento por sua filha, Victória Corrêa de Sá, ao Mosteiro de São Bento. Os monges tomaram posse da área em 1667 e fundaram várias fazendas, onde se dedicaram por mais de duzentos anos à cultura de cana de açúcar, mandioca e criação de gado. (Abreu, 2003) Foto 2 Barra da Tijuca 1969 Início da ocupação do Jardim Oceânico. A sesmaria de Martim de Sá ficou em poder de seus descendentes até 1694, quando foi vendida à família Serpa Pinto, que fundou ali a Fazenda da Restinga. Por volta de 1900 as terras da Barra da Tijuca e Baixada de Jacarepaguá foram vendidas para a empresa Saneadora Territorial e Agrícola S.A., ainda hoje permanece como grande proprietária de terras na área, assim como a Carvalho Hosken e a ESTA, dentre outras. 24

26

27 A concentração de grandes extensões de terras em mãos de poucos foi uma das causas do seu crescimento tardio, além da dificuldade de acesso à área, por apresentar separada do restante do município por grandes cadeias montanhosas, com picos que variam de 800 a 1200 metros. Em 1920, a área passou ao controle de uma companhia ferroviária inglesa. Em 1938, o industrial Euvaldo Lodi fez o primeiro loteamento da Barra, ele também foi o responsável pela fundação do loteamento do Jardim Oceânico local onde ocorreria a ocupação inicial e mais efetiva da área. A urbanização da Barra da Tijuca pode ser entendida, em nossa análise, como a etapa mais recente do processo de abertura de frente de expansão da cidade ao longo da orla marítima. O processo de esgotamento do mercado imobiliário do Centro ( ), de Copacabana ( ) e de Ipanema e Leblon (a partir da década de 1960) fez com que a Barra da Tijuca e a Baixada de Jacarepaguá passassem a ser vistas como o novo local atrativo para investimento da indústria da construção civil em grandes empreendimentos. No âmbito político, existia interesse na área como local próprio para a reestruturação da cidade, que estava em vias de deixar de ser capital federal. O lugar era tido como área de resgate da unidade perdida entre a zona norte e a zona sul da metrópole fluminense. Com o investimento político e econômico, a Barra da Tijuca, que, desde a década de 1940, havia tido sua expansão de modo espontâneo, passou a ser objeto de planos e projetos em grande escala (Eppinghaus, 2004). 26

28 1.2. Depois do túnel: o espaço e o tempo A partir da conjunção desses fatores, da abertura do túnel Dois Irmãos e do elevado do Joá, ligando a Zona Sul à Barra pela costa litorânea, aliado a existência de uma área ainda intocada e à necessidade de promover a expansão da cidade do Rio de Janeiro, em 1968, o então governador Negrão de Lima, encomendou uma proposta de planejamento para urbanização da barra da Tijuca e baixada de Jacarepaguá ao urbanista Lucio Costa, renomado arquiteto e um permanente defensor dos ideais modernistas com proposições e realizações na cidade do Rio de Janeiro, em que se destacam: o Parque Guinle no bairro das Laranjeiras, projeto habitacional precursor das super-quadras de Brasília e a Cidade Universitária na Ilha do Fundão. Tal contratação tratava-se, segundo as fontes oficiais (Costa, 1969), de uma estratégia de antecipação ao processo inevitável de ocupação da área com a definição de parâmetros construtivos, que a partir da proteção de características singulares deste determinado espaço com suas belezas naturais como as praias, as dunas, restingas e lagoas, evitaria a reprodução do que havia ocorrido com outros bairros da orla marítima como Copacabana, Ipanema e Leblon, que sofriam um processo intenso de construção e adensamento. 27

29 Mapa 2 - Plano Piloto da Barra da Tijuca e Jacarepaguá 1969 O Plano Piloto para a Barra da Tijuca e Jacarepaguá, em 1969, era apresentado à sociedade fluminense, transformando-se em lei logo em seguida. A iniciativa do Plano tratava-se, na realidade, de uma grande oportunidade que o modernismo tinha de se realizar em uma área de expansão da cidade desvencilhando-se das dificuldades impostas em áreas já parceladas e edificadas. A natureza do Plano pode ser exemplificada com a seguinte espacialidade. (Leitão, 1999) O ponto central do plano era a construção de duas vias principais, sistema viário cruciforme estruturador da urbanização da área, a Avenida das Américas e a Avenida Alvorada, atualmente denominada Avenida Ayrton Senna, permitiriam a articulação e a ligação de todo o bairro. Além disso, também limitava os gabaritos para construção dos prédios e definia os usos do espaço: residencial, comercial, lazer, e desde aquela época a 28

30 preservação ambiental. As moradias se concentrariam em uni ou plurifamiliares, formando os já conhecidos condomínios fechados, um novo conceito de moradia, associando residências a serviços e lazer. A novidade da presença de condomínios fechados apresenta inúmeros estudos na geografia. Valladares, (1980), O Neill (1986) e muitos outros. Mas não iremos nos deter no assunto, pois não se refere diretamente ao nosso objeto de pesquisa. Foto 3 Avenida das América, primeiro plano e Avenida Alvorada 29

31 ao fundo. Sistema viário cruciforme O plano promoveria a abertura de novos espaços ao capital imobiliário, ainda que sob um ordenamento em que a preocupação paisagística termo utilizado à época, antecipando-se à preocupação ambiental estivesse presente. Além de promover a regulação da ocupação da área, o Estado cumpriria outro papel relevante na estruturação da área, investindo maciçamente na construção de um complexo sistema viário como estradas, vias elevadas e túneis, que permitissem melhores condições de acessibilidade, e também, na implantação da infra-estrutura urbana necessária. A estratégia de ação dos agentes espaciais, como os proprietários fundiários, os promotores imobiliários e o Estado imprimiam suas marcas no espaço. Foto 4 Cartão comemorativo da construtora Dias & Paz uma das responsáveis pela urbanização da Barra

32 Foto 5 Funcionários da construtora Lucio Costa pretendia ordenar essa nova área da cidade, caracterizada por ser uma extensão das áreas de Copacabana, Ipanema e Leblon, a zona Sul da cidade. Impedindo que acontecesse o que ocorreu nesses mesmos bairros, um muro de cimento construída nas avenidas litorânea, bloqueando a ventilação, a circulação e a vista do mar dos demais quarteirões. Com essa idéia executada no plano, Lucio Costa pretendeu harmonizar a urbanização e a natureza. Mas o processo sofreu mudanças. 31

33 Foto 6 Avenida Sernambetiba, 1979 A partir da década de 70, tem início um grande impulso de ocupação caracterizado por um rápido processo de expansão e urbanização na área. Em um primeiro momento a ocupação da Barra da Tijuca se caracteriza pela emergência dos condomínios residenciais privados, que dão origem a um novo conceito de moradia, associando residências a serviços e lazer. Esses condomínios, alguns em verdade loteamentos com bloqueios que impedem a circulação nos moldes da cidade tradicional, se tornam um paradigma para futuros empreendimentos no bairro, contribuindo significativamente para a consolidação da ocupação da Barra da Tijuca. A paisagem vai se alterando, surgem, desse modo, os condomínios Nova Ipanema e Novo Leblon, por promotores imobiliários entendido aqui como o conjunto de agentes que 32

34 realizam, parcial ou totalmente (...) a comercialização ou transformação do capital-mercadoria em capital-dinheiro, agora acrescido de lucros; os corretores, os planejadores de vendas e os profissionais de propagando são responsáveis por esta operação. (Corrêa, 2000). São os corretores e os planejadores de vendas baseiam sua propaganda na possibilidade de espaços de recriação semelhantes aos dos antigos bairros da cidade. Projetados, porém, sem os seus supostos vícios, tornando-se, desse modo, áreas segregadas/seletivas tanto física quanto socialmente. Foto 7 Jardim Oceânico 1985 Nos anos 80, surgem empreendimentos destinados às atividades de comércio, serviços e lazer, observando-se, ainda, a construção de um expressivo número de unidades residenciais multi-familiares, com menor 33

35 porte. Destaca-se, ainda, nesse período, o surgimento dos apart-hotéis ou hotéis residência edificações que mesclam os usos residencial e turístico. Esse tipo de empreendimento favorece particularmente o setor imobiliário, por ser identificado como aquele que permite a aplicação de maiores índices construtivos, quando comparado com outros empreendimentos. (Leitão, 1999) Os empresários naturalmente em razão de suas atividades na sociedade são, algumas vezes, os grandes consumidores de espaço. Na Barra, em 1988 iniciou uma campanha articulada pelos grandes empresários de interesse na áreas da Barra tentou promover a emancipação política do bairro e cercanias. O apelo contra o pagamento de altos impostos e a falta de investimentos na área foi o motivo alegado que justificando, assim, a causa e o interesse na manutenção do zoneamento do plano. Foi este o discurso usado por aqueles que apoiavam a iniciativa. Os que pensavam contra essa idéia eram de um modo, os pequenos e médios empresários, as associações de moradores e o governo municipal. Cada um apresentava seus motivos particulares por seus motivos, porém unidos e lutando por uma maior participação da população na produção da cidade. Esta luta político-econômica esta representada no plebiscito de 1988 que decidiu pela não separação da cidade. Os embates ficaram adiados para as discussões sobre a Lei Orgânica do Município e o Plano Diretor da cidade, em Ainda assim, há atualmente um projeto de lei em andamento na Assembléia Legislativa do estado do Rio de Janeiro em que se prevê a formação de um novo município formado pelos bairros da região (Barra, Recreio, Grumari, Vargem Pequena, Vargem Grande, Itanhangá, Joá e 34

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