COMPARAÇÃO DA INTENSIDADE DA FERRUGEM E DA CERCOSPORIOSE EM FOLHAS DE CAFEEIRO QUANTO À FACE DE EXPOSIÇÃO DAS PLANTAS

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1 COMPARAÇÃO DA INTENSIDADE DA FERRUGEM E DA CERCOSPORIOSE EM FOLHAS DE CAFEEIRO QUANTO À FACE DE EXPOSIÇÃO DAS PLANTAS ADRIANO AUGUSTO DE PAIVA CUSTÓDIO 1, EDSON AMPÉLIO POZZA 2, ANSELMO AUGUSTO DE PAIVA CUSTÓDIO 3, PAULO ESTEVÃO DE SOUZA 4, LUIZ ANTÔNIO LIMA 5, LUCIANA MARIA DE LIMA 6. RESUMO O objetivo deste trabalho foi avaliar a incidência e a severidade da ferrugem e a incidência da cercosporiose em folhas de cafeeiro, quanto à face de exposição norte e sul das plantas. O estudo foi realizado na área experimental do Departamento de Engenharia da Universidade Federal de Lavras, em cafeeiro adulto cultivar Rubi. Fez-se a avaliação da intensidade das doenças nas folhas, em intervalos médios de 23 dias, no período de abril de 2004 a junho de O delineamento experimental foi o de blocos casualizados, com três repetições, cujos tratamentos corresponderam à face de exposição das plantas norte e sul. Cada parcela foi composta por oito plantas úteis. Fez-se a avaliação da doença, pelo método não destrutivo, amostrando-se de forma aleatória no terço médio da planta, oito folhas por planta, sendo quatro da face norte e quatro da face sul. Em seguida, calculou-se a área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD), que foi submetida à análise de variância, aplicando-se o teste de F (p<0,05), para a variável qualitativa. Detectou-se, para incidência e severidade da ferrugem, efeito significativo da face de exposição das plantas nos anos agrícolas 2004/2005 e 2005/2006. Houve maior progresso da ferrugem na face sul, quando comparada a face norte das plantas. Com relação à cercosporiose, verificou-se influência significativa da face de exposição das plantas apenas para o ano agrícola 2004/2005. Houve maior progresso da cercosporiose na face norte. Palavras-chave: Epidemiologia, Hemileia vastatrix, Cercospora coffeicola, face de exposição da planta, cafeeiro. INTRODUÇÃO O Brasil é o maior produtor mundial de café e o segundo maior mercado consumidor. Assim, a cultura do cafeeiro possui grande importância sócio-econômica para o país. No entanto, a produtividade média brasileira de 19,5 sacas.ha -1, e está ainda muito aquém de seu potencial produtivo (AGRIANUAL, 2007). Dentre os diversos fatores responsáveis pela redução dessa produtividade, e também da qualidade do café, citam-se a ocorrência de doenças, como a ferrugem e a cercosporiose. A perda atribuída à ferrugem e a cercosporiose em cafeeiro deve-se à desfolha prematura, que reduz a área fotossintética da planta, com conseqüente morte dos ramos plagiotrópicos. Isso implica em prejuízos quantitativos com redução no rendimento e produção da cultura (CHALFOUN & ZAMBOLIM, 1985; CHALFOUN, 1997). O conhecimento da ocorrência de doenças quanto à face de exposição das plantas, podem auxiliar na elaboração de estratégias de manejo que visem a redução de perdas na lavoura. Consequentemente, isso reflete na redução do custo de produção da cultura, 1 Universidade Federal de Lavras, Departamento de Fitopatologia, 2 Universidade Federal de Lavras, Departamento de Fitopatologia, 3 Universidade Federal de Lavras, Departamento de Engenharia, 4 Universidade Federal de Lavras, Departamento de Fitopatologia, 5 Universidade Federal de Lavras, Departamento de Engenharia, 6 Universidade Federal de Lavras, Departamento de Fitopatologia, 1249

2 diminuição da resistência de patógenos a defensivos agrícolas e aumento da segurança humana e ambiental. Assim, realizou-se este trabalho com objetivo de avaliar a incidência e severidade da ferrugem e a incidência da cercosporiose, em folhas de cafeeiro, quanto à face de exposição norte e sul das plantas. MATERIAL E MÉTODOS O experimento foi conduzido em área experimental do Departamento de Engenharia da Universidade Federal de Lavras (UFLA), na latitude Sul, longitude Oeste e altitude média de 918 m. O solo foi classificado como Latossolo Vermelho-escuro de textura do tipo muito argilosa, com 76% de argila, 22% de areia e 2% de silte. Considerando a primeira camada de 0 a 25 cm, o solo possui umidade, à capacidade de campo, de 48%, umidade no ponto de murcha permanente de 42%, densidade aparente média igual a 1,29 g cm -3 e densidade de partículas de 2,67 g cm -3. A cultivar de café utilizado foi a Rubi MG 1192 (Coffea arabica L.), em área irrigada por aspersão. O plantio da lavoura foi realizado em nível, no mês de março de 1999 no espaçamento de 3,5 m entre as linhas e 0,8 m entre as plantas. O delineamento experimental foi o de blocos casualizados com três repetições, cujos tratamentos corresponderam à face de exposição norte e sul das plantas. A área experimental circundada pelo pivô central foi dividida em segmentos de 20, em formato esquema fatias de pizza, as quais constituíram as 18 parcelas. Cada parcela foi composta por oito plantas úteis. As irrigações foram feitas por meio de um pivô central equipado com emissores tipo spray, distanciados aproximadamente 2,20 m entre si e 2,0 m das copas das plantas. Fez-se, diariamente, monitoramento da evaporação do tanque classe A, base para os cálculos das lâminas a serem aplicadas junto à estação climatológica principal de Lavras, localizada no campus da UFLA, a uma distância de 380 m do local do experimento. Adotou-se turno de rega fixo de dois e três dias para a realização das irrigações. Nos dias em que ocorreram precipitações, balanços foram realizados entre o total precipitado e a evaporação no período, para realização ou não das irrigações. Avaliou-se a incidência e a severidade da ferrugem e a incidência da cercosporiose nas folhas do cafeeiro, em intervalos médios de 23 dias, no período de 14 de abril de 2004 a 1 de junho de 2006, referentes a duas safras dos anos agrícolas de 2004/2005 e 2005/2006. Na avaliação, optou-se pelo método não destrutivo, amostrando-se oito folhas por planta, sendo quatro folhas da face norte e quatro folhas da face sul. As folhas foram tomadas aleatoriamente no terço médio da planta, entre o 3º ao 4º par de folhas dos ramos plagiotrópicos, o que totalizou 64 folhas amostradas por parcela. Avaliou-se a incidência da ferrugem e da cercosporiose por quantificação do número de folhas com presença de lesões, conforme realizado por TALAMINI (1999). A severidade da ferrugem nas folhas foi estimada de acordo com a escala diagramática proposta por KUSHALAPPA & CHAVES (1980). Com os resultados referentes aos índices médios de incidência das 34 avaliações no período, calculou-se a área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD), segundo SHANER & FINNEY (1977). Logo após, foram realizadas as análises de variância para AACPD para incidência quanto à face de exposição da planta. Os tratos culturais do campo experimental foram realizados de maneira convencional, cujas adubações foram interpretadas de acordo com SANTINATO et al. (1996). Nas parcelas em que foram avaliadas as doenças, não foram feitas aplicações de fungicidas, incluindo-se o cobre (Cu). O suprimento desse nutriente foi fornecido via solo, sempre que necessário. 1250

3 Os dados do experimento foram analisados utilizando-se o programa estatístico Sisvar versão 4.0 (FERREIRA, 2000), aplicando os testes de F (p<0,05) para a variável qualitativa. RESULTADOS E DISCUSSÃO Houve diferença significativa (p<0,05) na área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD) para incidência e severidade, quanto à face da planta, para os anos agrícolas de 2004/2005 e 2005/2006 (Figuras 1 e 2) ,75 b 1200 AACPDI ,28 a 425,95 b ,59 a 0 Norte Face da planta Sul ano agrícola 2004/2005 ano agrícola 2005/2006 FIGURA 1. Área abaixo da curva de progresso da doença para incidência (AACPDI) da ferrugem, em folhas de cafeeiros sobre a face da planta, período de agosto de 2004 a junho de 2005 e de agosto de 2005 a junho de UFLA, Lavras, MG, ,08 b ,17 b AACPDS ,43 a 3,30 a 0 Norte Face da planta Sul ano agrícola 2004/2005 ano agrícola 2005/2006 FIGURA 2. Área abaixo da curva de progresso da doença para severidade (AACPDS) da ferrugem em folhas de cafeeiros sobre a face da planta, período de agosto de 2004 a junho de 2005 e de agosto de 2005 a junho de UFLA, Lavras, MG, Como se pode observar nas figuras 1 e 2 acima, houve maior progresso da ferrugem do cafeeiro na face de exposição das plantas voltadas ao sul. Segundo ZAMBOLIM et al. 1251

4 (2005), a ferrugem é importante em lavouras estabelecidas em locais sombreados e com alta intensidade de folhas das plantas pelo fato de a luz solar inibir tanto a germinação como o crescimento do tubo germinativo dos urediniósporos do fungo. Também as condições nessa face da planta foram favoráveis à reprodução e à esporulação da Hemileia vastatrix. Esse resultado, favorecido pelo caminhamento do sol na direção leste-oeste, localizado na área experimental, foi justificável, devido à menor exposição à luz solar. Assim sendo, observa-se que para a latitude de 33ºS (Figura 3b), mais próxima à realidade de Lavras - MG, ocorre menor exposição da radiação solar voltada ao hemisfério sul (VIANELLO & ALVES, 1991). Como conseqüência de um maior tempo de sombreamento na face sul das plantas, houve a formação de um ambiente favorável ao progresso da doença, devido maior período de molhamento foliar. FIGURA 3. Projeções estereográficas das trajetórias do sol sobre o plano horizontal da Terra, para as latitudes extremas do Brasil, de 0º (a) e 33 Sul (b), (VIANELLO & ALVES, 1991). Com relação à cercosporiose em folhas do cafeeiro, houve diferença significativa (p<0,05) na área abaixo da curva de progresso da doença para incidência (AACPDI), quanto à face da planta, apenas para o ano agrícola de 2004/2005 (Figura 4). 1252

5 ,54 a 4000 AACPDI ,17 b 3638,60 a ,00 a 3200 Norte Face da planta Sul ano agrícola 2004/2005 ano agrícola 2005/2006 FIGURA 4. Área abaixo da curva de progresso da doença para incidência (AACPDI) da cercosporiose em folhas de cafeeiros sobre a face da planta, período de agosto de 2004 a junho de UFLA, Lavras, MG, Observa-se na figura 4, que ocorreu maior progresso da doença na face norte (4136,54) de exposição das plantas, quando compara a face sul (3547,17), para o ano agrícola de 2004/2005. Segundo LOPES-DUQUE & FERNANDES-BORRERO (1969), a cercosporiose é importante em lavouras estabelecidas sob excessiva insolação. Esse resultado, favorecido pelo caminhamento do sol na direção leste-oeste, localizado na área experimental, foi justificável, devido à maior exposição de luz solar. Como conseqüência dessa maior exposição da luz solar para a face das plantas voltadas ao norte (Figura 3b), ocorre maior ativação da toxina cercosporina, produzida pela Cercospora coffeicola, desencadeando o processo doença. Essa toxina provoca na planta produção de etileno acima do normal, sendo este precursor de outro hormônio, o ácido abscísico, que provoca a abscissão precoce das folhas (VALÊNCIA, 1970). Com base nos resultados discutidos, pode-se observar que a face de exposição norte e sul das plantas, afetaram de forma expressiva o progresso das doenças na lavoura. Houve alteração do patossistema, resultante da modificação do microclima da parte aérea das plantas. A face das plantas voltadas ao sul, por possuírem menor exposição de luz solar e maior tempo de sombreamento resultou em maior período de molhamento foliar, o que favoreceu a incidência e a severidade da ferrugem do cafeeiro. Já a face das plantas voltadas ao norte, devido possuírem maior exposição de luz solar e assim maior insolação, favoreceu a incidência da cercosporiose nas folhas do cafeeiro. CONCLUSÕES A incidência e a severidade da ferrugem e a incidência da cercosporiose, em folhas de cafeeiro, são influenciadas quanto à face de exposição das plantas. Há maior AACPD para incidência e severidade da ferrugem na face das plantas voltadas ao sul. Há maior AACPD para incidência da cercosporiose na face das plantas voltadas ao norte. 1253

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGRIANUAL. Anuário da agricultura brasileira. São Paulo: FNP Consultoria & Agroinformativos, p. CHALFOUN, S.M. Doenças do cafeeiro: importância, identificação e métodos de controle. Lavras: UFLA/FAEPE, p. CHALFOUN, S.M.; ZAMBOLIM, L. Ferrugem do cafeeiro. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v.11, n.126, p.42-46, jun FERREIRA, D.S. Análise estatística por meio do programa SISVAR para windows versão 4.0. In: REUNIÃO ANUAL DA REGIÃO BRASILEIRA DA SOCIEDADE INTERNACIONAL DE BIOMETRIA, 45., 2000, São Carlos. Anais... São Carlos, MG: UFScar, p KUCHALAPPA, A.C.; CHAVES, G.M. Na analysis of the development of coffe rust in the fiel. Fitopatologia Brasileira, Brasília, v.6, n.1, p , LÓPES-DUQUE, S.; FERNÁNDEZ-BORRERO, O. Epidemiologia de la mancha de hierro del cafeto (Cercospora coffeicola Berk. & Cook.). Cenicafé, Caldas, Colômbia, p.3-19, SANTINATO, R.; FERNANDES, A.L.T.; FERNANDES, D.R. Irrigação na cultura do café. Campinas: Arbore, p. SHANER, G.; FINNEY, R.E. The effect of nitrogen fertilization on the expression of slowmildewingresistance in Knox wheat. Phytopathology, v.67, p , TALAMINI, V. Progresso da ferrugem e da cercospora do cafeeiro (Coffea arabica L.) irrigado e fertirrigado por gotejamento p. Dissertação (Mestrado em Fitopatologia) Universidade Federal de Lavras, Lavras, MG. VALENCIA, A.G. Estúdio fisiológico de la defoliacion causada por Cercospora coffeicola em el cafeto. Cenicafé, Caldas, Colômbia, v.21, n.3, p , VIANELLO, R.L.; ALVES, A.R. Meteorologia básica e aplicações. Viçosa, MG: UFV, p. ZAMBOLIM, L.; RIBEIRO DO VALE, F. X.; ZAMBOLIM, E.M. Doenças do cafeeiro (Coffea arabica e C. canephora). In: KIMATI, H.; AMORIM, L.; REZENDE, J.A.M.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A. Manual de fitopatologia: doenças de plantas cultivadas. 4.ed. São Paulo: Agronômica Ceres, v.2, p

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