Marcos Puglisi de Assumpção 9. OFF SHORES, TRUSTS E FUNDAÇÕES INTERNACIONAIS

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1 Marcos Puglisi de Assumpção 9. OFF SHORES, TRUSTS E FUNDAÇÕES INTERNACIONAIS 2010

2 OFF SHORE, TRUSTS E FUNDAÇÕES INTERNACIONAIS 1 EMPRESAS OFF SHORE A globalização do comércio mundial; a integração política, social e cultural; a abertura da economia faz com que o empresário, o empreendedor, o investidor, convivam com um novo tipo de empresa: a empresa off shore. Conceitualmente a empresa off shore é uma pessoa jurídica que opera fora dos limites territoriais de onde está localizada. Também é comum a utilização da expressão off shore para denominar as empresas constituídas fora dos limites territoriais de sua matriz. Uma empresa off shore sediada em um paraíso fiscal deverá desenvolver as atividades, constantes de seu objeto social, fora dos limites territoriais do pais que tiver sua sede. Um paraíso fiscal não é apenas um país onde as obrigações tributárias são reduzidas ou inexistentes. Além dessa questão tributária, o investidor busca: estabilidade política; sigilo; infra-estrutura; serviços financeiros de nível internacional, leis estáveis, pouca burocracia. A Receita Federal considera paraísos fiscais, países que tributam a renda em uma alíquota inferior a 20,0%. Existem mais de 50 localidades no mundo com essa característica. 2 O TRUST INTERNACIONAL O grande investidor, detentor de um grande patrimônio, tem no Trust Internacional uma das mais eficientes formas de proteção patrimonial. Talvez seja a forma mais segura de dar continuidade por longos anos à obra de uma vida. Mas antes de desenvolver o tema vamos dar um curto passeio pelas regras do Direito Inglês, manto sob o qual, as regras do Trust se abrigam. 2.1 O Direito Inglês 1

3 Como é sabido, existe uma grande diferença entre o direito adotado nos países de influência inglesa, como a Inglaterra e os EEUU, e nos países de influência do direito romano, como a França, o Brasil, a Espanha. Enquanto nestes, o legislador promulga leis e as reúne em códigos, naqueles países a concepção do direito é baseada nos costumes e na consideração de uma coletânea de decisões jurisprudenciais, chamadas precedentes. Desde que Guilherme, Duque da Normandia, conquistou a Inglaterra, em 1066, proclamando-se rei dos ingleses, o conceito de propriedade sofreu profundas alterações, pois ele confiscou todas as terras, deixando aos lordes ingleses apenas o direito de uso. Caso, na língua inglesa, utilizemos a palavra property, fazendo uma analogia com o nosso conceito, percebemos que fomos vítimas de um grande engano! property não quer dizer propriedade, como estamos acostumados a entendê-la! Nem tampouco as palavras personal e real, ligadas a property, podem ser traduzidas pelos adjetivos pessoal ou real. Real property corresponde aproximadamente aos nossos bens imóveis e personal property aos nossos bens móveis, mas isso não é taxativo. A única palavra na língua inglesa que corresponde aproximadamente ao nosso conceito de propriedade é "ownership", mas ela não é utilizada em matéria de real property (bens imóveis). Uma pessoa só pode ter ownership sobre mercadorias, por exemplo, e nunca sobre uma terra ou uma casa. Essa observação é curiosa e difícil de ser assimilada para nós que vivemos sob o direito romano. Há, portanto, uma nítida oposição entre as concepções romana (brasileira) e inglesa em matéria de propriedade. A idéia básica, no Brasil, é que a propriedade é unitária, concentrada nas mãos de um titular único, o proprietário, o qual tem a faculdade de usar, gozar, dispor e reivindicar da coisa. Bem diferente foi a construção inglesa, que parte da idéia que a real property não existe em relação a imóveis. Ninguém, exceto o rei, em tempos idos, seria capaz de concentrar em suas mãos a totalidade dos atributos de uma propriedade. A propriedade não é plena, inteira, absoluta, e por assim dizer, ilimitada. Nunca se terá na Inglaterra a propriedade de uma terra: ter-se-á simplesmente sobre ela um certo interesse, denominado estate. Existem vários conceitos de estate, o do locatário, do arrendatário, etc. O estate in free simple corresponde ao nosso conceito de propriedade imobiliária. 2

4 Com a noção de estate (interesse sobre a propriedade) substituindo a noção de propriedade, nada parecerá mais natural na Inglaterra do que os desmembramentos da propriedade. Entre os desmembramentos da propriedade que o direito inglês conhece um dos mais importantes do ponto de vista prático, é o Trust. 2.2 O que é um Trust? O Trust é uma instituição tão flexível, tão geral, que talvez seja a realização mais original obtida pelos juristas ingleses, é quase um elemento essencial à sua civilização. O Trust é utilizado para proteção dos interesses dos incapazes; os dirigentes de uma fundação, sociedade ou associação podem ser colocados em uma situação de Trust; a técnica do Trust é utilizada nas partilhas e sucessões, enfim, existe uma grande variedade de aplicações feitas a partir desse conceito. O que é, pois, um Trust, cujo nome é conhecido no mundo inteiro, mas cuja noção somente os que são regidos pelo direito inglês receberam? Quando uma pessoa tem direitos que deve exercer no interesse de outra, diz-se que essa pessoa tem os direitos em questão, em Trust. O conceito de Trust foi muito utilizado pelos nobres ingleses que partiam para as guerras e cruzadas e deixavam seus bens em nome de outras pessoas, que deviam zelar por eles e entregá-los aos seus herdeiros, caso não voltassem da batalha. Atualmente, por exemplo, um pai de família S (setlor), preocupado com os interesses de sua filha, transfere seus bens a uma pessoa de confiança T (trustee) para evitar que o marido dela os dissipe. Realiza-se de fato uma transferência de propriedade de S para T, mas com o compromisso assumido por T (trustee) de entregar a renda desses bens à filha e, mais tarde, retransferir-lhe a propriedade, quando, por exemplo, o marido vier a falecer, ou para os herdeiros da filha. O Trustee não é um representante do beneficiário, ele é o verdadeiro proprietário dos bens que lhe foram confiados, até que estes voltem a pertencer ao beneficiário. A lei inglesa obriga o Trustee a respeitar as instruções que lhe foram dadas no ato constitutivo do Trust. A Corte de Chancelaria dará a ordem judicial, se for o caso, para que este não traia a confiança que o Instituidor do Trust (Setlor) depositou nele. A existência da Corte de Chancelaria, e os precedentes históricos que são colecionados desde o século XIII, concedem ao Trust, nos países que seguem a lei inglesa, uma segurança bastante grande. 3

5 O Trust é um contrato entre o instituidor (setlor) e o trustee. Nesse contrato são estipuladas todas as condições que o trustee deve seguir na administração dos bens, como a distribuição dos rendimentos e dos próprios bens, segundo condições estabelecidas pelo instituidor. Quais são os tipos de Trust? Os Trusts podem ser revogáveis ou irrevogáveis. Para nós, brasileiros, é mais assimilável o Trust revogável, pois o instituidor terá o poder de: Revogar ou cancelar o Trust, Alterar os beneficiários, Alterar os direitos dos beneficiários, Alterar condições de usufruto, Fazer distribuições ou aportes, Alterar o contrato do Trust, Alterar o Trustee, Decidir sobre investimentos. Que Trustee escolher? É melhor escolher uma corporação com longos anos de experiência do que um indivíduo. A razão é simples, a corporação não morre. Existem empresas de Trust ligadas a grandes bancos com várias décadas de existência. A instituição deve ser sólida, confiável, de boa reputação e que ofereça os serviços em um país que reconheça o conceito de Trust, seja politicamente estável e que tenha vantagens tributárias. A estrutura básica de um Trust: 4

6 Trustee Contrato de Trust Empresa Holding Bens a) O instituidor do Trust transfere os bens para uma empresa Holding no Brasil ou no exterior, b) A empresa Holding, proprietária dos bens, emite ações ou cotas em nome do instituidor, c) O instituidor contrata um banco no exterior (Trustee) e transfere a propriedade das cotas ou ações da empresa Holding para o banco, que passa a ser o proprietário das quotas da Holding, d) O Trustee passa a administrar os bens da Holding conforme estipulado no contrato de Trust. Obs.: inúmeras outras estruturas podem ser montadas. Que bens podem ser transferidos para administração do Trust? Qualquer tipo de bens economicamente quantificáveis. Normalmente são imóveis no país do instituidor ou em outro país e investimentos financeiros no país ou no exterior. Podem também ser transferidos ações ou quotas de empresas. Porém se essas ações ou quotas representarem o controle de uma empresa operacional, outros modelos estruturados caso a caso devem ser observados, pois o Trustee não deve ficar com a responsabilidade na gestão da empresa. Se um indivíduo possuir bens em seu nome, no exterior (imóveis ou aplicações financeiras), principalmente nos EEUU ou na Inglaterra, urge a criação de uma empresa holding e/ou um Trust, pois os impostos sobre a transmissão da propriedade desses ativos, aos seus herdeiros, poderão ascender a 48% sobre o valor desses bens (EEUU) ou a 40% (Inglaterra). Qual o risco de uma quebra do Trustee afetar os bens? 5

7 O direito inglês separa completamente os bens colocados sob Trust dos bens do Trustee. Desta maneira os bens do instituidor estarão protegidos contra eventual quebra do Trustee. Como coordenar o Trust com planejamento sucessório? Ao transferir seus bens para a empresa Holding, o instituidor fica proprietário das quotas dessa empresa. Ao transferir as quotas da Holding para o Trust, o instituidor de um Trust revogável fica com direitos sobre esse Trust. Esses direitos sobre o Trust, representado pelas quotas da Holding, que constarão da declaração de bens do instituidor e que farão parte de seu planejamento sucessório e de sua sucessão. 3 A FUNDAÇÃO INTERNACIONAL A Fundação Internacional também é uma maneira de proteção patrimonial. À semelhança do Trust, os bens são transferidos para uma empresa holding, para que uma fundação os administre segundo orientação do fundador. O fundador de uma fundação administra os recursos desta através de instruções que são acolhidas e executadas por um Conselho da Fundação e eventualmente por uma diretoria. Esse Conselho também tem a função de administrar a fundação após o falecimento do fundador, seguindo as orientações que este deixou em uma Carta de Desejos (Letter of Wishes). Essa Letter of Wishes só pode ser modificada, em vida, pelo fundador. A estrutura básica de uma Fundação: Fundação Letter of Wishes Conselho Diretoria Empresa Holding Bens 4 DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS ENTRE TRUST E FUNDAÇÃO 6

8 Várias são as semelhanças entre um Trust e uma Fundação. Podemos enumerar alguma delas: Instrumentos para sucessão familiar, Proteção patrimonial, Confidencialidade, Continuidade dos benefícios mesmo após o falecimento do instituidor, Os direitos aos benefícios pode ser determinado por diversas gerações, Herdeiros não podem mudar os direitos dos beneficiários, Vantagens quando os beneficiários forem menores ou incapazes. As diferenças são as seguintes: O trust segue Lei Inglesa (common law) e a fundação a Lei Civil (civil law). Jurídica. O trust é um contrato. A fundação é uma Pessoa O trust tem vários séculos de existência e tem um tribunal especial para julgar suas lides, a Corte de Chancelaria. A fundação é uma instituição mais recente e depende dos tribunais de seus paises sede. No trust os bens ficam de propriedade do trustee até que essa situação seja revogada ou resolvida pelas disposições do contrato de trust. Na fundação os bens ficam de propriedade da fundação e serão administrados segundo os estatutos da fundação e distribuídos aos beneficiários segunda a Letter of Wishes. A fundação é mais maleável na administração dos recursos durante a vida do fundador, pois este poderá dar ordens que deverão ser cumpridas pelo conselho. No trust a responsabilidade pela administração dos recursos é do trustee, uma vez que ele é o proprietário dos bens, e por força do contrato do trust, tem a responsabilidade direta pela boa administração dos recursos perante os beneficiários, por isso as movimentações tendem a ser mais demoradas. 7

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