Linhas de Reforma do Ensino Superior Contributos e Comentários da Universidade de Coimbra dezembro 2013

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1 Linhas de Reforma do Ensino Superior Contributos e Comentários da Universidade de Coimbra dezembro 2013 Contributos conjuntos do Conselho Geral e do Reitor em resposta à solicitação de 22 de outubro de 2013 do Senhor Secretário de Estado do Ensino Superior. 1 8

2 Introdução Este documento surge no âmbito da consulta realizada às instituições de ensino superior portuguesas pelo Senhor Secretário de Estado do Ensino Superior para preparação das linhas gerais de uma Reforma do Ensino Superior em que a reorganização da rede é um elemento central. São solicitados, até dezembro de 2013, contributos individuais de cada instituição, sobre os quatro aspetos seguintes: i. a constituição de órgãos regionais de cooperação da rede e da oferta educativa, e respetivo âmbito, composição e competências; ii. a consolidação da rede, de modo a assegurar que todas as instituições sejam suficientemente robustas e tenham uma missão clara no quadro nacional e regional de educação e desenvolvimento, nomeadamente através de consórcios e de fusões, envolvendo ou não instituições/ escolas de diferentes subsistemas de ensino; iii. os indicadores necessários para a definição de um modelo de financiamento público que abandone o incentivo à expansão dos tipos de educação superior mais estabilizados e possa induzir a sua diferenciação e a melhoria da qualidade das aprendizagens em todos os segmentos de oferta; iv. a elaboração de um plano de melhoria do desempenho e de racionalização interna de cada instituição em todas as vertentes relevantes para a sua missão com o ajuste às alterações da procura estudantil e atenção reforçada para a relevância social das competências dos graduados. Para preparação deste texto foram revisitados os documentos mencionados no anexo. A contribuição que aqui se apresenta não é exaustiva, concentrando-se nos aspetos que se considera serem mais importantes nesta fase da discussão desta reforma do ensino superior. Por outro lado, este contributo não preclude a necessidade de se debater mais aprofundadamente a reorganização da rede do ensino superior, bem como o redimensionamento e o modelo da oferta educativa, questões que devem ser ponderadas a nível nacional e suportadas numa visão de médio e longo prazo. Estratégia global O ensino superior passa por um momento muito difícil em resultado da crise que Portugal atravessa, com uma enorme redução do financiamento público, que o coloca à beira do colapso, e com uma relevante diminuição dos candidatos ao ensino superior. A taxa de desemprego dos 2 8

3 portadores de formação superior, apesar de ser muito inferior à daqueles que não têm essa formação, e os custos da formação superior, que são mais difíceis de suportar em ambiente de crise económica, afastam muitos jovens das universidades e dos politécnicos. A demografia não é aqui um fator, pois o número de jovens em idade universitária em Portugal tem tido, e vai ter nos próximos anos, variações sem significado. Perante este cenário duas vias se oferecem. Podemos reduzir a dimensão do sistema de ensino superior português para o adaptar à procura interna e aos curtos meios financeiros do Estado, ou olhar para mais longe e encontrar fora das nossas fronteiras a procura e os meios financeiros que faltam em Portugal. Na primeira hipótese temos de encarar a reorganização da rede de instituições do ensino superior (IES) como instrumento para baixar o seu número e/ou dimensão. No caso das universidades não se vislumbram aumentos globais relevantes da procura interna para os próximos anos, e portanto a rede terá de ser encurtada. No caso dos politécnicos, onde a crise da falta de candidatos é particularmente forte, a oferta deverá ser adaptada a formações mais curtas, bem adaptadas ao mercado de trabalho, mas não se antevê que esse ajuste da oferta seja suficiente para evitar um encurtamento da rede ainda mais pronunciado. Na segunda hipótese aceitamos o desafio de tornar o nosso sistema de ensino superior um setor assumidamente internacional, exportador, aproveitando circunstâncias que nos são muito favoráveis. Por um lado, o facto de as principais IES portuguesas terem nível internacional, bem documentado pela sua presença, com tendência de subida, em diversos rankings internacionais. Por outro, a existência de uma enorme procura por ensino superior de qualidade no mundo, em particular nos países de língua portuguesa, com destaque para o Brasil 1, mas também em muitos outros países em desenvolvimento. Neles há capacidade económica suficiente para colocar em Portugal alguns dos seus estudantes, em número mais do que suficiente para a capacidade de acolhimento das IES portuguesas. Portugal é muito atrativo pois é um país pacífico, europeu, culto, acolhedor, com um custo de vida acessível, com um bom clima, e acima de tudo com um sistema de ensino superior com instituições de grande qualidade. Na Universidade de Coimbra optamos sem hesitação pela segunda alternativa. A Universidade de Coimbra tem qualidade, motivação, missão histórica, prestígio e capacidade para ser uma universidade global. Somos uma de apenas cinco universidades no mundo declaradas património da humanidade pela UNESCO e já temos atualmente mais de 4 mil estudantes estrangeiros, em diversos regimes e graus, mostrando a nossa capacidade de atração. Por outro lado, Portugal está 1 No Brasil há cerca de 7 milhões de candidatos por ano ao ensino superior, e o sistema de ensino superior público apenas absorve menos de 1 milhão 3 8

4 muito longe do objetivo da estratégia Europa 2020 de dispor de 40% da população, com idade entre os 30 e os 34 anos, com formação superior, pelo que é necessário convencer uma maior percentagem de jovens portugueses a frequentar o ensino superior. Por ambas as razões pensamos que seria um grave erro diminuir a capacidade das instituições do ensino superior português que têm qualidade. Se o estatuto de estudante internacional, que o governo tem em discussão, uma iniciativa que louvamos, for rapidamente aprovado e publicado, poderemos encontrar por esta via uma fonte de financiamento importante que nos permitirá continuar a oferecer aos estudantes portugueses um ensino superior internacionalmente competitivo. De outra forma, dentro de alguns anos os jovens portugueses terão de emigrar para terem acesso a formação superior de qualidade, pois com a tendência atual de financiamento público as IES portuguesas não conseguirão manter o seu nível atual. Correríamos o risco, aliás, de sermos colonizados por universidades internacionais, ficando em situação de grande dependência do exterior, à semelhança do que já acontece em tantos outros setores da sociedade portuguesa. Contributos setoriais É à luz da opção estratégica pelo posicionamento como universidade global que fazemos o exercício solicitado de análise dos quatro tópicos apresentados pelo Senhor Secretário de Estado do Ensino Superior. Órgãos regionais de cooperação da rede e da oferta educativa A missão global que a Universidade Coimbra pretende (re)assumir em pleno extravasa totalmente o âmbito de qualquer órgão regional. Torna-se mais marcada a diferenciação entre as duas componentes do sistema binário do ensino superior, em que o politécnico tem uma missão mais local, de resposta às necessidades da comunidade em que se insere, e a universidade uma missão global, de desenvolvimento e disponibilização em Portugal de ensino e investigação internacionalmente competitivos, capazes de transferir para o tecido económico e social fatores de inovação que permitam um desenvolvimento sólido da economia portuguesa. Um órgão de coordenação de cariz regional tem assim um âmbito desajustado. Poderá ter alguma utilidade para as universidades se de natureza apenas consultiva e se incluir parceiros relevantes. Será útil como fórum de reflexão e aconselhamento para os principais atores regionais, pois a 4 8

5 universidade, mesmo tendo uma missão global, tem e terá um impacto substancial na região onde se localiza, sendo a sua presença decisiva na definição da oferta de ensino superior público nessa região. Mas a universidade e a sua oferta, para cumprir a sua missão de afirmação de Portugal no mundo, não poderá ser condicionada por um órgão regional. Acresce que a criação de um órgão de coordenação com poderes de decisão, entre o governo e as universidades, quer seja regional quer seja nacional, criaria mais um nível de complexidade na cadeia de decisão, algo que tem de ser evitado a todo o custo. As regras atuais de funcionamento do sistema público já constituem um obstáculo bem preocupante à capacidade de as universidades se adaptarem e responderem aos novos desafios que em cada momento nos surgem. Consolidação da rede Sendo a missão dos politécnicos tão diversa da missão das universidades, a integração do ensino politécnico com uma universidade com missão global como a de Coimbra dificultaria substancialmente o cumprimento desta missão estratégica, pelo que não é de todo aconselhável. Poderá haver alguns ajustes, em particular no quadro de uma melhor definição das missões das universidades e dos politécnicos, com o objetivo de atenuar zonas de sobreposição. Por exemplo a pós-graduação dos politécnicos pode ser transferida para as universidades, bem como a parte do seu corpo docente mais qualificado para estar associado a cursos de mestrado, à investigação avançada e a cursos de doutoramento com competitividade internacional. Também poderia ocorrer algum movimento inverso, das universidades para os politécnicos, dos docentes mais alinhados com formações curtas de base regional. É importante realçar que não são de esperar ganhos financeiros relevantes nestes ajustes, pois o financiamento público por aluno do ensino superior já é muito baixo em Portugal. Modelo de financiamento O ensino superior precisa desesperadamente de estabilidade para se poder desenvolver. A contínua mudança de níveis de financiamento e, principalmente, de enquadramento legal, gera graves perdas que é essencial evitar. A melhor solução para o financiamento das IES são contratos de gestão plurianuais com metas bem definidas, onde podem ser incluídos requisitos de diferenciação, de melhoria da qualidade das 5 8

6 aprendizagens e restrições ao alargamento dos tipos de educação superior mais estabilizados, entre outros. Plano de melhoria do desempenho e de racionalização interna As universidades já têm sistemas de garantia de qualidade com planos de melhoria e correção, cujo âmbito vai sendo sucessivamente alargado a novos processos. No contexto desta reforma do ensino superior, mais do que novos planos operacionais de melhoria, pensamos que a elaboração, execução, monitorização e prestação de contas relativa ao Plano Estratégico de cada IES será a melhor forma de promover a melhoria de desempenho e de racionalização interna. O Plano Estratégico é a peça essencial para a elaboração de um contrato de gestão. É ainda importante reconhecer que as IES já vêm a fazer há bastantes anos muito importantes esforços de racionalização interna, pois de outra forma não teria sido possível acomodar os graves cortes de financiamento a que já foram sujeitas. Conclusão A definição da missão estratégica de cada IES é essencial para que as questões, levantadas pelo Senhor Secretário de Estado do Ensino Superior, possam ser respondidas e desenhada uma adequada Reforma do Ensino Superior. A Universidade de Coimbra entende que a melhor forma de contribuir para o desenvolvimento do país e de assegurar as fontes de financiamento adicionais que lhe permitam sobreviver à atual crise orçamental é abraçar inteiramente o desafio de uma missão global. Implica intensificar a obtenção de financiamento para a investigação com origem não portuguesa e aceitar um número relevante de estudantes estrangeiros não financiados pelos Estado Português. É decisiva a urgente publicação do Estatuto do Estudante Estrangeiro. À luz desta opção estratégica a resposta às questões levantadas torna-se mais clara, como sucintamente descrito acima. Pode resumir-se na necessidade de aprofundamento da diferenciação entre os dois subsistemas do Ensino Superior, com a possibilidade de algumas transferências pontuais entre os dois subsistemas em resultado dessa clarificação, e na absoluta necessidade de estabilidade do quadro orçamental e legislativo, com base em contratos de gestão plurianuais. É necessário levantar os muitos entraves atuais à autonomia universitária. 6 8

7 Será assim possível oferecer aos jovens portugueses ensino superior de grande qualidade e atrair uma percentagem mais elevada deles ao desafio de uma formação superior. 7 8

8 Anexo - Documentos de enquadramento compulsados, relevantes e recentes: - Ofício do Sr Secretário de Estado do Ensino Superior, de 22 de outubro de 2013 dirigido ao Presidente do Conselho Geral; - Idêntico ofício do Sr Secretário de Estado do Ensino Superior, também de 22 de outubro de 2013 dirigido ao Reitor; - Contributos do CRUP para a alteração do RJIES - Proposta de alteração à Lei 62/2007 (RJIES) versão de (PL 275/2013); - Relatório da EUA, produzido a convite do Conselho de Reitores: Portuguese Higher Education; a View from the Outside (fevereiro 2013); - Documentos Oficiais da Estratégia EUROPA2020 e instrumentos financeiros HORIZON2020 (http://ec.europa.eu/research/horizon2020) - Plano Estratégico e de Ação da Universidade de Coimbra ; - Documento de Referência das Universidades da Região Centro - Contributo para o CRER

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