ARMAS DE FOGO: PROTEÇÃO OU RISCO?

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1 ARMAS DE FOGO: PROTEÇÃO OU RISCO? Guia Prático Respostas a 100 Perguntas Prepare-se para o Referendo Popular Antônio Rangel Bandeira e Josephine Bourgois

2 Os autores agradecem a colaboração da psicanalista Gláucia Helena Barbosa, do estatístico Marcelo de Sousa Nascimento, do especialista em controle de armas Pablo Dreyfus, do economista Júlio Cesar Purcena, das jornalistas Márcia Lisboa, Shelley de Botton, Mônica Cavalcanti, Christina Magnavita e Adriana Lacerda e do fotógrafo Roberto Pêgo.

3 ÍNDICE Apresentação Introdução 1. Como decidir sobre o uso ou não de uma arma? 2. Armas de fogo: melhor defesa ou maior risco? O fator surpresa Amadores x profissionais O mito do mocinho de cinema Arma como último recurso? Você está preparado para matar? Armas para defesa ou ataque? Arma deve ser usada por quem está bem treinado? O que dizem as pesquisas? 3. Desarmar os homens de bem e deixar armados os bandidos? Bandido não compra arma em loja Casas sem armas atraem os bandidos? Doutrina Bush: armas do bem e armas do mal? Roubos de armas legais Armas usadas em Columbine e outros massacres 4. Carros e facas também matam. Por que só proibir as armas de fogo? Demonização das armas Armas brancas e de fogo: uma comparação 5. Quem mata com arma de fogo? A ameaça que vem de fora contra o seguro reduto do lar Dormindo com o inimigo Fogo amigo 6. Com o desarmamento, quem vai nos defender? Segurança se consegue com o povo armado? A Polícia não pode estar em toda parte, o tempo todo A solução está na democracia ou na ditadura? Nova York mais segura Só privilegiados vão ter proteção? Rico tem guarda-costas porque arma protege? 7. Mais armas, menos crimes ou Menos armas, menos crimes? John Lott e a defesa das armas A controvérsia do porte de arma Defesas bem sucedidas não são registradas 8. Países exemplares Suíça: paraíso armado? Austrália: o maior desarmamento USA: armas e violência Canadá e Tiros em Columbine Grã-Bretanha: fiasco do desarmamento?

4 Japão: segurança sem armas? 9. Quais as causas da violência urbana? 10. Impacto das armas na saúde pública Gastos na saúde Anos perdidos e expectativa de vida Revelações de Brasil: As Armas e as Vítimas Mortalidade Ferimentos 11. As mulheres estão mais seguras com armas? Estados Unidos: resultado das pesquisas Como é em outros países? Impacto do controle de armas Brasil: O inimigo dorme ao lado A cultura feminina Arma não! Ela ou eu. Armas e feminismo 12. Cultura da violência Mídia e violência Armas de fogo e cultura na América Latina Desconstruindo o machismo Sociedade rural e vida moderna Educação e violência Armas de brinquedo Tradição ou atraso? Armas não matam. Quem mata são as pessoas? 13. Religião e violência 14. Juventude e violência armada Números alarmantes: acidentes de carro e armas Rio de Janeiro Por que os jovens estão morrendo? 15. Os negros e as armas 16. Direitos a se proteger com armas? Direito à legítima defesa? Direito à propriedade, à proteção da família e ao comércio? Pitbulls e armas de fogo: uma comparação Direito ao porte de arma? Atirar para o alto, ou o que sobe desce 17. Só as ditaduras desarmam o povo? 18. Mapa da violência das armas Mundo Brasil 19. Mapa das armas de fogo Mundo Brasil

5 Revelações de Brasil: as Armas e as Vítimas As Armas que nos ameaçam são estrangeiras e automáticas? O maior problema é o contrabando? Quais as principais fontes de armamento ilegal? O descontrole das empresas de segurança privada 20. Impacto das armas na economia Gastos com a indústria do medo Revelações de Brasil: As Armas e as Vítimas A indústria brasileira de armas de fogo e munições A verdade sobre a indústria nacional Restrição da importação: retaliação dos EUA? O desarmamento vai levar ao desemprego? Defesa da indústria nacional e imperialismo Proibição favorece o mercado clandestino? Proibição vai aumentar o mercado negro? Proibição levará à ilegalidade, como na Lei Seca? 21. Estatuto do Desarmamento Breve histórico O poder do lobby O poder da opinião pública 22. Campanha de Entrega Voluntária de Armas Resultados 23. Destruição de armas Destruições públicas Destruição ou reaproveitamento? 24. Movimento Mundial pelo Desarmamento As verdadeiras armas de destruição em massa Rede internacional pelo controle de armas (IANSA) Associação Nacional de Fuzis dos EUA (NRA) Mercosul e Américas 25. O Referendo Popular Plebiscito e referendo Importância da consulta popular Quem tem medo do referendo? 26. Conclusões 27. Opiniões de celebridades, vítimas e lemas de campanhas 28. Anexos 1. Estatuto do Desarmamento, Lei de (Síntese) 2. Principais Contatos na Campanha do Referendo e de Desarmamento 29. Notas

6 Apresentação Em meu tempo de garoto, aprendi a ter medo de navalha. Cuidado, ele é capoeirista... De tiro, não me lembro ouvir falar, a não ser num baile de carnaval, no Clube do Flamengo, que me ficou na memória por conta de um sujeito ciumento que se deu ao trabalho de ir em casa, pegar a arma e voltar para acabar com a festa. Em meu ambiente, arma de fogo não era problema. Briga se resolvia na mão. Hoje, quarenta anos depois, capoeira ganhou respeito, navalha virou antiguidade e o que se vê, por todo lado, é o uso descontrolado da arma de fogo. São tantas e tão profundas as causas da violência, que dá desespero pensar. Em meio a elas, contudo, na dureza do cotidiano, sabemos que a arma de fogo desequilibra. Transforma o banal em fatal. Gera poderes paralelos. Generaliza a vizinhança da morte. Controlar a arma e o seu uso tornou-se, pois, tarefa maior. Votou-se o Estatuto do Desarmamento. Fez-se a campanha de entrega voluntária de armas. Mobiliza-se agora um Referendo para a proibição da venda de armas para civis no Brasil. São ações de grande porte, com um único objetivo: o controle da arma de fogo. Lembram grandes campanhas preventivas do passado, como as de combate aos vetores transmissores de doenças tropicais. Violência, como a malária, virou epidemia, sintoma de uma patologia que escapa aos controles coletivos. Mosquito não é causa de doença, assim como arma não é causa de violência, mas ambos são responsáveis pela multiplicação e o agravamento do mal. A questão é polêmica. Arma virou problema apenas nesta geração e a adoção de uma estratégia preventiva para a violência, típica do que se faz na saúde pública, também é novidade. Há muitas perguntas no ar. Este livro examina cada uma delas com um rigor e uma riqueza de informações admiráveis. É a fonte que nos faltava. Rubem César Fernandes Diretor Executivo do Viva Rio

7 Introdução Este Guia procura responder a tudo aquilo que você queria saber sobre as vantagens e desvantagens do uso de armas de fogo para autodefesa e não sabia a quem perguntar. 1 São respostas a cerca de 100 dúvidas, certezas e críticas que nos têm sido dirigidas em nossas andanças pelo país, convidados a falar e a debater com diferentes tipos de auditórios: estudantes, advogados, empresários, donas de casa, jornalistas, trabalhadores, religiosos, militares, advogados, policiais, caçadores, atiradores, colecionadores etc. Excluindo-se os criminosos, o objetivo de quem se arma, e de quem quer desarmar, é um só: segurança. Ambas atitudes são respeitáveis porque buscam reduzir a violência e aumentar a segurança. Mas quem está certo? Foram 6 anos de pesquisas, viagens aos países citados como exemplos na redução da violência armada, e um esforço de compreensão do que deu certo lá fora e do que tem dado errado entre nós. Aqui o leitor vai encontrar uma confrontação entre os prós e os contras o uso de arma para defesa pessoal. São informações colhidas nos principais centros de pesquisa do mundo, acrescidas dos poucos, mas relevantes, estudos realizados no Brasil. Muitos dos dados só agora chegam ao conhecimento da opinião pública brasileira, restritos que estavam aos centros acadêmicos. O rigor na seleção dessas informações e avaliações, e o respeito às opiniões contrárias, foram preocupações constantes dos autores, que apuraram a idoneidade de cada fonte consultada, sempre citadas. Todo esse trabalho de reunir o que há de mais sério e atualizado sobre o tema, no Brasil e em outros países, talvez diminua a imprecisão com que se citam estatísticas entre nós, contra ou a favor do desarmamento. Quanto às análises, mesmo quando incorporam a opinião dos autores, apresentam com integridade as posições divergentes, num tema altamente controverso, para que o leitor possa tirar as suas próprias conclusões. Os brasileiros, acossados pela violência crescente, manifestam uma enorme curiosidade, e até mesmo angústia, de se informar sobre um assunto que até pouco tempo atrás era considerado tabu entre nós: o obscuro e secretíssimo universo das armas de fogo. O comércio ilegal de armas e munições garante altos lucros a interesses que tudo fazem para que essa atividade continue oculta do público. Sobre os caminhos e descaminhos das armas, muito se fala e pouco se sabe. Só agora está sendo lançado o primeiro levantamento sobre o tema, Brasil: as Armas e as Vítimas 2, cujos pontos mais relevantes resumimos aqui. A pesquisa trata de responder a perguntas básicas, como quantas armas circulam no país, quem as tem, quantas são legais e quantas ilegais, qual o seu impacto na economia e na saúde pública. O quadro revelado é espantoso: o país tem mais de 17 milhões de armas de fogo, 90% delas nas mãos de civis, quando a média internacional é de 60%. Pior, metade das armas é ilícita, isto é, o governo não sabe quais são e quem as possui. Como fiscalizá-las assim? Como controlar o crime? Em boa hora, a Câmara Federal instalou a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Tráfico Ilícito de Armas, que está recebendo todo o apoio do Viva Rio. Passamos às mãos de

8 seu presidente o mapeamento das armas feito pela referida pesquisa, o levantamento dos principais canais que abastecem de armas e munições o crime organizado e uma relação de armas, brasileiras e estrangeiras, apreendidas pela polícia do Rio de Janeiro em situação ilícita entre 1998 e 2003, para serem rastreadas pela Polícia Federal, para que se possa desbaratar as quadrilhas que armam a bandidagem no referido Estado. Mas esse Guia vai além do mapeamento das armas e procura responder ao que está na preocupação de tantos: devemos comprar uma arma para defendermos nossa família e nossos bens? Quais as vantagens e riscos desta atitude? A autodefesa não é um direito fundamental do indivíduo? A Campanha de Desarmamento não está fortalecendo os bandidos ao retirar as armas dos homens de bem? Devem as mulheres se proteger com armas? Quais as principais fontes que abastecem de armas a criminalidade e como controlá-las? Sempre buscando responder às perguntas mais freqüentes, abordamos a relação entre cultura, mídia, educação, religião e a violência, suas causas, a verdade sobre a indústria brasileira de armas e munições, os aspectos positivos e as insuficiências da nova lei de armas, o denominado Estatuto do Desarmamento. Esclarecemos qual a real situação das armas e da violência armada nos países sempre citados como exemplos a serem seguidos: Suíça, Austrália, Estados Unidos, Canadá, Grã- Bretanha e Japão. Ao compararmos nosso país com os demais, fica-se surpreso. O Brasil é a nação em que mais se mata e mais se morre por arma de fogo do planeta. Somos imbatíveis nesse campeonato macabro. A última estatística disponível, de 2003, revela que morreram naquele ano, vítimas das armas, mais de brasileiros e ficaram feridos cerca de Para se ter uma idéia da enormidade desses números, até a Colômbia, país dilacerado há décadas por um conflito interno de grandes proporções, com seus mortos anuais, se dobra à superioridade impressionante que os brasileiros têm revelado para se matar entre si. Segundo a UNESCO, entre 1979 e 2003, mais de meio milhão de pessoas morreram no Brasil em conseqüência de tiro. Nesses 24 anos, as vítimas de arma de fogo cresceram 461,8%, enquanto a população do país cresceu muito menos, 51,8%. De cada três jovens, entre 15 e 24 anos, que morrem no Brasil, um é por arma de fogo. 3 Entre nós, 90% das mortes por arma de fogo são homicídios e 63,9% dos homicídios são cometidos com essas armas. Estatísticas como esta, quando apresentadas nas conferências internacionais, fazem os estrangeiros perguntarem contra quem estamos em guerra. Temos que responder, constrangidos: contra nós mesmos. Neste magnífico país tropical, destinado a ter um povo feliz, morrem por dia uma média de 108 pessoas, ficam feridas 53 e a cada 13 minutos cai alguém fulminado por um tiro. Alguns ainda se refugiam na idéia, totalmente equivocada, de que só está morrendo bandido. Ao contrário, a maioria das vítimas conhece seus agressores e é enorme o número de homicídios praticados entre familiares. Enquanto nos outros países, que não estão em guerra, morre-se mais por acidente de trânsito do que por arma de fogo, aqui é o inverso. Outros alegam que as armas vem de fora, e basta controlar as fronteiras, quando a mencionada CPI acaba de confirmar o que pesquisas do Viva Rio já haviam comprovado: Mais de 70% das armas apreendidas com bandidos são de fabricação

9 nacional. O resultado de todo esse cenário de drama humano e descaso no controle das armas é o de termos apenas 2,8% da população mundial, mas respondermos por 13 % dos homicídios por arma de fogo no mundo. É motivo de vergonha e de preocupação sermos campeões em mortes por arma de fogo. Temos que nos perguntar: o que há de errado com o Brasil no campo da segurança pública? A resposta não é simples porque o problema é complexo. O mal uso de armas é apenas um aspecto do problema. As explicações simplistas prevalecem no debate nacional pois os estudos científicos são poucos e quase desconhecidos da opinião pública. Quem tem uma solução única, ou está iludido ou está iludindo. Viajamos por países na África muito mais pobres que o Brasil e muito menos violentos. Então, o que faz com que, entre nós, a espiral da violência urbana siga se expandindo e girando de forma cada vez mais enlouquecida? As pessoas se dividem entre as que acham um direito, e uma necessidade, que os cidadãos de bem tenham armas para se defender, e as que acreditam que as armas apenas transmitem uma ilusão de segurança, mas na verdade aumentam os riscos para quem as porta e para suas famílias. No entanto, sem armas, quem vai nos defender? Esta a preocupação não só dos brasileiros, mas de outros países que também lutam para reduzir seus altos índices de violência. Para uns, como se manifestou recentemente a secretária de estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, armar-se é um direito dos americanos tão importante quanto a liberdade de expressão e de religião. Para a maioria dos especialistas em segurança pública no Brasil, a facilidade com que se obtêm armas em nosso país é um dos principais fatores das altíssimas taxas de homicídios entre nós. Com tanta violência, nas ruas e dentro de casa, o brasileiro está com medo e tem razões de sobra para estar. Ele quer se informar, entender o que se passa e quer influir. Estamos tendo a oportunidade de vivermos a experiência inédita entre nós de uma Campanha de Entrega Voluntária de Armas, já realizada em mais de 30 países, com resultados variáveis. A nossa está dando certo? Está valendo a pena ou é demagogia? Em outubro próximo, teremos a oportunidade de decidir se desejamos ou não abolir a venda de armas de fogo e munições para civis. Será o primeiro referendo de nossa história. Respondendo sim ou não, a consulta popular, sobre um tema que o Congresso Nacional considerou essencial ouvir também a opinião do eleitor, coloca o Brasil entre as democracias mais avançadas. Pesquisas de opinião pública revelam que a insegurança é a segunda preocupação dos brasileiros, só superada pelo desemprego. Debater e votar sobre comércio de armas é discutir e decidir sobre aspecto importante do modelo de segurança pública que queremos. Um debate nacional, além de esclarecer melhor a população, irá gerar grandes pressões sobre os governos. Talvez assim as autoridades públicas concedam ao tema da segurança a prioridade que o povo lhe dá. Sempre que convocado, o brasileiro comparece e faz a sua parte. Quando a UNESCO lançou em todo o mundo o Manifesto 2000 pela Paz, o Brasil foi o segundo país em número de assinaturas de apoio. Diante do apelo da ONU para que os governos destruíssem os excedentes de armas em 2001, batemos o recorde mundial no Rio de Janeiro ao destruirmos armas. Com a atual Campanha de Desarmamento, a população entregou até o momento armas,

10 tanto que já ocupamos o segundo lugar em quantidade de armas recolhidas nos mais de 30 países que realizaram campanhas semelhantes. O povo brasileiro, sempre que tem a oportunidade, participa com entusiasmo e demonstra que quer viver em paz. É preciso que seus governos se coloquem à sua altura e cumpram a sua parte, investindo na reforma da segurança pública. O objetivo deste Guia é fornecer aos leitores, principalmente aos formadores de opinião, o máximo de informação necessária, de forma interessante e simples, sem ser simplista. Desta forma, as pessoas poderão decidir com conhecimento de causa em que tipo de sociedade querem viver: um Brasil armado ou um Brasil sem armas. Qual o caminho para reduzir-se a criminalidade e a violência armadas entre os brasileiros? 1. Como decidir sobre o uso de arma? Quando ocorrem excessivas mortes por arma de fogo em uma coletividade, atingindo pessoas de bem que nada têm a ver com o crime, há uma tendência a que parte delas se arme, buscando a autodefesa. Esta é uma reação natural quando a polícia está longe de um desempenho satisfatório na proteção da população. Nessas circunstâncias, um pai de família que se sinta responsável por proteger a família e defender seus bens, pode concluir que não lhe resta outra alternativa senão armar-se. Os ricos contratam segurança privada, os que não podem compram armas de fogo e se preparam para o pior. Outros acreditam que esta não é a solução e que uma arma só agrava o perigo. Quem está certo? Armar-se para resistir a eventuais assaltos será um procedimento correto se o resultado for o aumento da segurança do lar, ou da pessoa, no caso de porte de arma. Terá sido uma atitude equivocada se o uso da arma não trouxer mais segurança para seu proprietário e os seus, e terá sido uma escolha péssima se aumentar ainda mais os riscos para eles. Como decidir de forma acertada? A primeira atitude é não se deixar levar pela emoção. Não é fácil, porque as pessoas que se armam agem assim movidas pela insegurança, pelo medo de ser atacado, ou por raiva, para vingar uma agressão. Esses sentimentos costumam ser maus conselheiros, porque perturbam o raciocínio, que deve ser equilibrado para chegar-se a uma decisão sensata e eficiente. Então, primeiro é preciso controlar esses sentimentos fortes e agir com a cabeça, não com o fígado. Segundo, é preciso buscar-se informações científicas. Devemos procurar nos informar ao máximo. O que aconteceu com um parente ou o vizinho é importante, mas não basta porque pode ter sido exceção. É preciso buscar-se informações que não sejam fruto apenas de algumas experiências isoladas, mas que resultem de pesquisas feitas com toda a sociedade, para que saibamos o que acontece como regra, e não por pura sorte, com quem se arma para se autodefender. Estamos interessados no mais provável, e não no que dificilmente acontece, pois se trata de defender as nossas vidas. Hoje em dia, a sociologia, e as pesquisas de opinião, desenvolveram métodos tão eficientes de investigação que já alcançam resultados bem próximos da realidade. Precisamos ter acesso a eles, consultando fontes reconhecidamente sérias, que forneçam dados produzidos por pesquisas acadêmicas, que nem sempre circulam

11 pela mídia, mas que muitas vezes são acessíveis pela Internet. É prudente desconfiar-se de estatísticas sem referência à fonte, ou fontes tão genéricas que não permitam que confirmemos a informação. As fontes devem ser imparciais. Por exemplo, dificilmente uma entidade ligada aos fabricantes ou comerciantes de um produto irão divulgar informações que desaconselhem a compra desse produto. Ao contrário, centros de pesquisa de universidades de prestígio, ou órgãos federais, como IBGE e IPEA, ou sistemas que seguem padrões internacionais, como o DATASUS, do ministério da Saúde, são conhecidos por seu rigor nas pesquisas. Dados esses dois passos, estaremos aptos a enfrentar vários obstáculos que dificultam uma visão clara sobre o problema, e que analisaremos em vários itens desse Guia, como Cultura da violência. Seremos então menos vulneráveis à paixão que toma conta do debate sobre o tema, porque ele é polêmico. Como a insegurança é um assunto que atinge todo mundo, todos têm opinião, é como remédio que todos querem receitar. Mas a desinformação é tão grande que a maior parte dessas opiniões é puro achismo, é apenas o que cada um acha e não conseqüência de estudos. Se bem informados, estaremos em condições de superar as velhas crenças ligadas ao uso de armas, que floresceram como conhecimento vulgar na ausência de informações científicas. Os novos estudos nos permitem substituir idéias arcaicas, típicas de uma sociedade rural, subdesenvolvida e conservadora, pelo conhecimento moderno, aberto às reformas e à necessidade de mudar uma realidade violenta que se tornou insuportável. A ignorância sobre o assunto é generalizada, e não poderia ser diferente num país em que o universo das armas de fogo, isto é, a produção, comércio e uso desses produtos, foi até pouco tempo um tabu, um assunto sobre o qual era proibido pesquisar. Os sociólogos, economistas, médicos, estatísticos e outros especialistas que se dedicam ao estudo da relação entre violência e armas de fogo, até bem pouco tempo não tinham acesso às informações sobre armas. A democratização do país não atingiu esse setor. Mas algumas poucas iniciativas tiveram sucesso nos últimos anos. Os governos do Rio de Janeiro e de São Paulo foram os primeiros a permitir que as informações sobre armas fossem analisadas. A importância dessas pesquisas motivou outros governos, inclusive o federal, a começar a abrir essa caixa preta para ser avaliada por especialistas. É uma abertura ainda tímida, desconfiada, como se os pesquisadores quisessem criticar o governo e não ajudar a resolver o problema. Os dados revelados são precários, mas com qualidade suficiente para apontar tendências. O resultado dessas análises não são diferentes das pesquisas realizadas em outros países, com tradição de estudos nessa área, e que nos ajudam a responder à pergunta: devemos armar ou desarmar os cidadãos para reduzir a violência? 2. Arma de fogo: melhor defesa ou maior risco? Analisemos a seguinte afirmação: A arma de fogo é a melhor e mais eficiente forma de um cidadão se defender de um assaltante. O fator surpresa Alguém que se sinta inseguro diante de tantos assaltos à mão armada, pode se sentir obrigado a se armar, tomar umas aulas de tiro e se preparar para o que considera o seu dever: proteger sua família. A posse de uma arma costuma fazer com que seu proprietário se sinta mais seguro.

12 Além do mais, quem se arma não só se prepara para arriscar a própria vida se necessário, mas tem a esperança de nem precisar usar a arma: bastará ameaçar o bandido, que ele desistirá de invadir sua casa. Essa atitude, que se baseia na previsão do que acontecerá durante um assalto à residência ou local de trabalho, responde à realidade mais provável? Estão faltando nessa análise alguns aspectos essenciais de um assalto à mão armada. O mais importante deles é o denominado fator surpresa. É preciso considerar que a iniciativa da ação é do assaltante, que obviamente escolherá o momento propício e a melhor condição para agir. Esse poder de iniciativa concede ao bandido uma esmagadora superioridade frente à vítima, que será surpreendida pelo ataque. Essa última será assediada quando estiver dormindo, vendo televisão, jantando, dirigindo o seu carro; não estará com uma arma à mão, pronta para disparar. Frente a uma arma de fogo apontada, de nada adianta ser a vítima boa atiradora (e geralmente não é), pois uma arma dispara em frações de segundos, sem dar tempo a que se use outra arma de forma defensiva, mesmo que ela esteja próxima. Vejamos essa notícia sobre o assassinato de policiais no Rio Grande do Sul: Nem mesmo quem tem treinamento e arma para enfrentar o crime resiste à violência em Porto Alegre. Das 20 vítimas de latrocínios [roubos seguidos de morte] na Capital em 2005, seis eram policiais: 3 sargentos da Brigada Militar, 1 inspetor, 1 comissário da Polícia Civil e 1 delegado aposentado da Polícia Federal. Cinco morreram nas mãos de bandidos ao tentar reagir ao roubo de seus veículos. 4 Situações como essa motivaram o arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, a afirmar que o assaltante sempre leva a vantagem da surpresa. Nos Estados Unidos, há décadas são feitos estudos exaustivos sobre os benefícios e riscos do uso de armas na prevenção de assaltos e homicídios. Por exemplo, pesquisa feita entre 1987 e 1992 pelo ministério da Justiça desse país, constatou: Não é freqüente o uso de armas de fogo como autodefesa porque os criminosos geralmente agem de forma furtiva e de surpresa. Poucas vítimas têm tempo suficiente para usar sua arma. 5 Outro estudo, referente ao período , e analisando os dados oficiais da Pesquisa Nacional sobre Vítimas de Crimes, concluiu que, em média, menos de 2 homicídios em 1000 foram cometidos devido à resistência com arma. A mais provável explicação é o fato de que armas de fogo são raramente usadas para resistir ao assalto de uma residência porque poucos donos de arma tem tempo suficiente para pegar sua arma e se defender. 6 Entre nós, há pouco tempo, 16 bandidos, acusados de envolvimento na execução do traficante Escadinha e do bicheiro Maninho, foram cercados em um sítio na estrada Rio-Terezópolis e presos pela Policia Federal, enquanto preparavam um novo roubo. Em seu poder, na mesma sala em que se encontravam, estavam 16 armas de grosso calibre e 2 granadas. Os criminosos foram imobilizados sem um único tiro. Por que? Foram surpreendidos. Eram tarimbados profissionais do crime e mesmo assim não tiveram tempo para reagir. Amadores x profissionais Outro fator favorável ao delinqüente é o fato de os profissionais do crime não titubearem em atirar em quem reage. O mesmo não se pode dizer de homens de bem, que têm valores éticos, religiosos, e que provavelmente hesitarão no momento de fulminar uma pessoa frente à frente. A expectativa de matar um ser humano provoca uma forte emoção nos indivíduos com boa formação, e que não estão habituados a esse procedimento tão dramático, ocasionando um

13 vacilo que pode dar ao assaltante o tempo necessário para atirar primeiro. Por isto, a campanha pelo desarmamento no Uruguai pergunta: Você está preparado para matar? O ladrão está. É preciso também considerar que o bandido com freqüência não age sozinho, mas atua com cúmplices, e mesmo que a reação inicial da vítima tenha sucesso, será atingida por um terceiro. Exemplo colhido no noticiário de todos os dias: O presidente da Caixa Beneficiente da PM e também diretor do Clube de Cabos e Soldados da PM do Estado do Rio, o policial militar Ary Lopes Santos, foi morto ontem com vários tiros após reagir a uma tentativa de assalto na Rodovia Washington Luiz. Ary chegou a lutar com um dos bandidos, antes de baleá-lo, mas o policial foi morto pelo segundo assaltante. 7 Se até um policial experiente não se sai bem numa situação como essa, imagine-se um civil. O mito do mocinho de cinema Gerações e gerações se formaram cultuando o personagem do mocinho de cinema, desde o caubói do velho faroeste aos detetives, rambos e exterminadores da atualidade. Esse padrão masculino foi difundido em nossa cultura pela extraordinária influência do cinema de Hollywood. O mocinho, por ter o senso de justiça e a boa causa do seu lado, reage à agressão do bandido e sempre tem êxito. Essa fantasia, tantas vezes vista, acaba por impregnar o imaginário, principalmente dos homens, que começam a confundir os truques e a mágica do cinema com a realidade. A própria raiva de quem é assaltado, motivada pela injustiça e covardia que caracterizam o roubo armado, alimenta o sentimento de que temos não só o dever de não nos submeter à violência traiçoeira do assaltante, mas que sairemos vitoriosos. O final feliz de todos os filmes norte-americanos, infelizmente, não é o habitual na vida, muito pelo contrário. E a dura realidade de nosso país reserva um triste fim a quem reage. O brasileiro, em geral, aprendeu pela observação dos fatos do cotidiano que quem reage, morre. Essa é a regra imposta pelos criminosos, gostemos ou não. Mas é interessante notar que, apesar da política do governo norte-americano ser de incentivo a que as pessoas portem arma, no site do departamento de Estado, que orienta os americanos que pretendem viajar para o Brasil, alerta-se que, aqui, as vítimas que resistem se arriscam a levar um tiro. Arma como último recurso? Uma pessoa cautelosa raciocina: se for possível, usará a arma contra o assaltante, mas se for arriscado, não. O problema é que um assaltante ataca o seu carro, ou invade sua casa, para roubar. Ele vai revistar os lugares mais prováveis de encontrar dinheiro e outros bens e vai encontrar sua arma. Que estará guardada em lugar acessível, pois do contrário como você a usaria com rapidez para prevenir um assalto? Ao encontrá-la, e como é previsível, o assaltante ficará enraivecido, pensando você ia esperar eu dar mole e usar essa arma contra mim!, e acaba atirando em você. Isto é o que acontece com mais freqüência, segundo policiais que entrevistamos do Brasil, Uruguai, Colômbia e Jamaica. Deparamo-nos com uma triste, e trágica, ironia: a arma, comprada para defender a família, acabará se voltando contra ela. Quem passou por esse pesadelo mergulha num profundo sentimento de culpa. Como o pai desesperado, num subúrbio do Rio, que viu sua arma ser usada pelo ladrão para matar o seu filho, lamentando amargurado: maldita arma! É o que explica essa notícia típica de jornal carioca, publicada sob o título Juiz Escapou de Ser Morto por não Ter Mais Arma em Casa : Um casal, ele juiz, foi rendido

14 por bandidos numa rua em Santa Teresa e levado para casa. O juiz declarou que, por sorte não tinha mais arma em casa, pois um dos bandidos lhe teria dito que se encontrasse alguma arma, mataria ele com ela. 8 Você está preparado para matar? Se você tem uma arma, e reage, vai se criar duas situações: ou você será surpreendido, e vai morrer, ou você vai matar. Você está preparado para essa segunda hipótese? Viver com o sentimento de ter matado alguém, de ser um homicida, mesmo que você considere que agiu em legítima defesa? Arcar com todas as conseqüências para sua família e para a família da vítima? Passado o momento do medo e do ódio, você se sentirá bem sabendo que matou um ser humano só porque ele queria roubá-lo? Não teria sido melhor recorrer à polícia para capturar o ladrão e reaver seus bens roubados? Para isso existe a polícia, profissão de risco, preparada para matar, se necessário, poupando o cidadão desse perigo e desse trauma profundo. Armas para defesa ou ataque? Na vida urbana, em que as pessoas vivem em espaços concentrados, e não em grandes propriedades protegidas por cães e seguranças, armas de fogo são úteis para agredir, não para defender. Elas são eficientes em ações ofensivas. Só revelam eficácia na defesa quando se pode perceber com antecedência a aproximação do agressor. Sermos um bom atirador não faz a menor diferença quando uma arma carregada e engatilhada está apontada para nós, ou para uma pessoa querida. E o que dizer das situações em que a vítima, percebendo a aproximação do assaltante, reage com êxito, às vezes até sem precisar ferir ou matar alguém, apenas atirando para o alto? Claro que ocorrem casos como esse, mas são exceção. O problema é que guardar arma em casa cria outros tipos de risco para a família, como veremos mais adiante. Mas podemos antecipar o problema com essa ocorrência recente, que ilustra, por exemplo, as casualidades imprevisíveis: O menino de um ano baleado e morto quando estava no colo da mãe, em Nova Iguaçu, não foi assassinado por um desconhecido, como a mãe Michele da Conceição contara à polícia. O delegado Nilton da Gama, da 56ª DP, descobriu que Leonardo foi atingido por um tiro disparado pelo namorado da mãe, Marcelo de Andrade. Ele brincava com a arma dentro de casa e baleou a criança por descuido. 9 Arma deve ser usada por quem está bem treinado? Um embate entre pessoas armadas não é como disputa entre lutador de jiu-jitsu e leigo, em que o treinamento e a técnica dessa luta sempre garantirá superioridade ao primeiro, mesmo que agredido pelo último. Quando se trata de um confronto entre indivíduos armados, quem tem a iniciativa elimina qualquer possibilidade de reação por parte do agredido, não importa que ele seja exímio atirador e lance mão de um armamento superior. Além disso, uma coisa é ser bom de tiro em alvos fixos, ou mesmo móveis, nos estandes de tiro. Outra, bem diferente, é, sob tensão, pegar uma arma escondida, e dispará-la (supondo-se que já esteja engatilhada), tendo-se uma arma apontada contra si. O assaltante não vai esperar você completar esses gestos, como ocorre nos truques cinematográficos. Apenas a sorte de a arma do atacante falhar, ou de errar o tiro, lhe dará alguma chance de levar a melhor. Devemos pautar nossa vida, no que ela tem de essencial, que é a sua preservação, na expectativa da sorte improvável ou na maior probabilidade?

15 A legislação de vários países, que permite a posse de arma, exige uma série de cautelas para evitar acidentes, principalmente com crianças curiosas, ou familiares deprimidos ou enraivecidos. Por exemplo, manter a arma desmuniciada, arma e munição guardadas em cofres ou em cômodos diferentes e trancados; arma travada ou preferivelmente com tranca no gatilho. Tomadas essas precauções, essenciais para se afastar o risco do seu uso indevido, pergunta-se: no caso de assalto, o proprietário da arma vai ter tempo de buscar a arma, destrancá-la, municiá-la, engatilhá-la e ainda atingir o agressor armado antes que ele o ataque? Claro que quem tem arma para defesa costuma mantê-la municiada, engatilhada, e num local de rápido e fácil acesso, como por exemplo, na mesa de cabeceira ou no porta-luvas do carro... pronta para ser usada pelo marido bêbado ou enciumado, e descoberta pelo filho transtornado, pelo neto curioso e pelo assaltante na busca de bens para roubar. Frequentemente, os jornais noticiam fatos como esse, num subúrbio do Rio: O menino João Cunha, de 3 anos, morreu nessa quarta-feira com um tiro transfixante no peito, quando brincava na sala de sua casa, na Abolição. O avô, Sebastião Nascimento, delegado da Polícia Civil, teria deixado a pochete, com a pistola dentro, sobre um móvel da sala. 10 Saber manejar bem uma arma de fogo só é útil para evitar-se que ela seja disparada de forma acidental (pela própria pessoa, e não por seus familiares), afugentar um assaltante que se teve a sorte de pressentir primeiro (fato raro), ou para se tomar a iniciativa premeditada de se matar alguém. Além disso, sucede com o homem armado o mesmo que ocorre com nações que investem maciçamente em defesa militar: os interesses criados e o sentimento de superioridade acabam por impeli-las à iniciativa da agressão. Um risco adicional é representado pela ousadia de quem treina para reagir à eventualidade de um assalto, e não resiste à tentação de colocar em prática o que aprendeu, tentando revidar ao ataque, quando certamente será fulminado. O cemitério está cheio de valentões, que confundem coragem com insensatez. Risco de acidente O presidente da Forjas Taurus, maior fabricante de armas pequenas do país, Carlos Murgel, costuma afirmar: Não se pode falar de acidentes, mas de imperícia, imprudência ou negligência. Em outras palavras, um proprietário de arma que saiba manejá-la bem e seja responsável estaria apto a usá-la sem risco. Será assim? Policiais são profissionais no uso de armas, e no entanto, são comuns acidentes com armas vitimando terceiros, ou eles mesmos. Acidentes com atiradores experientes são mais comuns do que se pensa. Quantos acidentes durante caçadas não são conhecidos? Mesmo entre pessoas habituadas ao uso de armas, acidentes são comuns, com a queda da arma no chão, com a explosão da arma na mão do usuário devido a defeito de fabricação da munição ou da arma, e principalmente quando se pensa que a arma está sem munição e a bala está na ponta da agulha. Que terrível cena é esta acontecida no Ceará: No mesmo dia em que o Exército destruiu 12 mil armas apreendidas ou entregues no Ceará, Piauí e Maranhão, Pedro da Silva, de 39 anos, matou a própria mãe num acidente em Acarape, próxima de Fortaleza. Ele mostrava uma espingarda a um amigo quando a arma caiu no chão, disparou e atingiu a mãe na cabeça. Pensando que ela havia morrido, ele se suicidou com um tiro. Mas a mãe sobreviveu, para chorar a morte do filho. 11

16 De que adianta sermos perito no manejo de arma (coisa rara entre seus proprietários), se somos pegos de surpresa pelo assaltante? Ou se o exímio atirador perde a cabeça numa briga com a mulher ou com o vizinho? O foco apenas no proprietário de armas, omitindo-se os que com ele convivem, e a idealização de uma situação de defesa, ignorando-se a impotência a que normalmente está condenada a vítima de um assalto, são distorções da realidade que tornarão improvável o desfecho positivo de uma reação armada. Daí a conclusão do estudioso da violência, sociólogo Gláucio Ary Dillon Soares: Precisamos de campanhas para demonstrar que armas em casa matam muito mais gente da família que assaltantes. Você compra a arma na ilusão de que vai matar um criminoso e descobre que o filho de 8 anos foi brincar com ela e morreu. E aí? 12 O que dizem as pesquisas? Muitos estudos têm sido feitos, principalmente nos Estados Unidos, que é um verdadeiro laboratório de análise sobre os benefícios e malefícios do uso de armas, para responder à pergunta: Estou mais seguro com uma arma de fogo? Nos Estados Unidos Segundo o governo norte-americano, para cada sucesso no uso defensivo de arma de fogo em homicídio justificável, houve 185 mortes com arma de fogo em homicídios, suicídios ou acidentes. 13 Variam os números, mas a maioria das pesquisas leva à mesma conclusão da Revista de Criminologia dos Estados Unidos: Muitos proprietários de arma de fogo acreditam que elas sejam úteis para autodefesa. Mas uma arma em casa tem muito mais chance de ser usada em homicídio, suicídio e acidente dentro de casa do que contra um assaltante. 14 Pesquisa da Universidade da Califórnia, coordenada pelo médico epidemiologista Douglas Wiebe, concluiu que, no Estado, pessoas com armas em casa têm 2 vezes mais possibilidades de serem mortas por armas de fogo do que aquelas que não as possuem, e 16 vezes mais chances de cometer suicídio. Mais de 56% das vítimas de arma de fogo conheciam seus assaltantes; destas, 15% durante brigas familiares e 6% por disputas por drogas. 15 No Brasil São raros os estudos realizados no Brasil sob esse tema tão crucial para orientar o usuário de arma. Pesquisa do ISER procurou responder à pergunta E se você reagir quando assaltado?, analisando assaltos registrados nas delegacias do município do Rio de Janeiro, em março de 1998, e constatou: Quando se reage com arma de fogo a um assalto igualmente realizado com arma de fogo, a chance de se morrer é 180 vezes maior do que quando não se reage. A possibilidade de se ficar ferido é 57 vezes maior do que quando não há reação. 16 É por isso, e não por preconceito contra a arma, que os especialistas em defesa aconselham a quem é atacado de surpresa com arma de fogo: Em princípio, não reaja. 3. Desarmar os homens de bem e deixar os bandidos armados? Essa tem sido a crítica mais freqüente ao desarmamento. É preciso não esquecer que as reformas na lei de controle de armas do país foram antes discutidas pelos parlamentares com especialistas em redução de violência armada, que não seriam ingênuos de acreditar que bandido entrega arma voluntariamente. Tampouco seriam irresponsáveis de expor a sociedade a um risco ainda maior do que ela já enfrenta, caso julgassem que pessoas

17 desarmadas estão mais inseguras. Claro que essas novas medidas legais visam exatamente desarmar o criminoso e aumentar a segurança do homem de bem. Então, por que a crítica? Alguns acabam concordando com ela porque essa afirmação, que virou slogan contra o desarmamento, é na verdade um sofisma. O sofisma é a relação de uma causa com uma conseqüência que, por ser lógica, parece verdadeira; mas, ao basear-se numa premissa não verdadeira, num dado falso, não expressa a realidade e por isso engana o incauto. Desmontemos o sofisma. Diz-se: Querem desarmar os homens de bem, e isto é verdade, porque, como procuraremos demonstrar, as suas armas acabam por se voltar contra eles próprios e suas famílias, ou vão abastecer os criminosos quando roubadas. Em seguida, completa-se:... e deixar os bandidos armados, o que é falso. A maioria dos artigos do Estatuto do Desarmamento (ver em Anexos) se destina a dar meios e obrigações às forças de segurança pública para que elas sejam eficientes no combate ao tráfico ilícito de armas, isto é, para que a polícia desarme os bandidos. Onde está a distorção da realidade? Está em afirmar que se pretende desarmar os bandidos, mas só se está conseguindo desarmar os homens de bem, o que não é verdadeiro. Nós repetidamente afirmamos que, para reduzir os índices de violência, seja dos assaltos, seja dos homicídios entre conhecidos ocorridos nas residências, são necessárias várias medidas simultâneas e complementares. Por um lado, defendemos a aplicação do Estatuto do Desarmamento para permitir que a polícia desbarate o crime organizado e desarme os delinqüentes; por outro, incentivamos o desarmamento da sociedade para reduzir as mortes por arma de fogo nos homicídios decorrentes de acidentes, suicídios e desavenças familiares ou entre conhecidos. Ambas são medidas distintas, mas que se completam: o desarmamento dará mais segurança aos lares, e a implementação do Estatuto mais insegurança aos criminosos. O que é bem diferente de se afirmar que o desarmamento da população vai levar ao desarmamento dos bandidos, uma frase tola e que está aí para confundir. É interessante notar, mesmo considerando que desarmamento civil e desarmamento dos bandidos são políticas diferentes, que uma acaba por afetar positivamente a outra, embora não seja essa a meta principal. Um dos canais que abastece de armas o crime organizado são os roubos das armas dos homens de bem (ver em Roubo de Armas Legais), que acabam por involuntariamente armar a bandidagem. O desarmamento ajudará a secar essa fonte, contribuindo para dificultar a vida dos delinqüentes. Vejam esse depoimento: Ladrões invadiram a casa do pai de um amigo meu e mantiveram ele e a esposa sob a mira de armas por quase uma hora. Entre os bens roubados do casal estavam duas armas de fogo. Então eu pergunto: adiantou ter arma em casa? Agora são duas armas a mais nas mãos dos criminosos, que invadirão outras casas e roubarão outras armas Por outro lado, a proibição do porte de armas tem baixado as apreensões de armas nas ruas pela polícia (ver em Resultados da Campanha de Entrega de Armas). Tanto homens de bem, quanto bandidos, pensam duas vezes antes de saírem armados. Quantas brigas de rua, quantas balas perdidas, deixaram de existir? Bandidos perigosos têm sido presos em todo o país por andarem armados. Está acontecendo aqui o que sucedeu em Nova York. Bandido Não Compra Arma em Loja

18 Ao pressionar contra a aprovação do Estatuto do Desarmamento, o representante dos comerciantes e produtores de armas assim se manifestou na audiência pública do Senado: Aliás, Senhores Senadores, também não serão afetados pelo Desarmamento Civil aqueles a quem se procura em tese atingir, quais sejam, os criminosos. É mais do que evidente que nenhum meliante adquire suas armas em lojas legais! 18 Evidente que bandido não compra arma em loja, e que bandido não vai cumprir a nova lei pois, como é óbvio, bandido é exatamente quem infringe a lei. Não só o bom-senso é suficiente para não se levar a sério essa crítica. Ao colaborarmos com o ministério da Justiça na organização da Campanha de Desarmamento, antes estudamos campanhas similares realizadas em 23 países, e por isso já tínhamos uma previsão do perfil de quem entrega armas. Por exemplo, em San Diego e em Seattle, nos EUA, campanhas semelhantes constataram que apenas entre 0,5 e 1,8% das armas entregues tinham sido previamente roubadas, e o número de armas envolvidas em crime foi inexistente ou tão pequeno que não foi possível medi-lo. 19 Mesmo que não se espere que bandido entregue arma, a participação das igrejas na Campanha fez com que vários delinqüentes, principalmente jovens, querendo deixar a vida de crimes, procurassem pastores e padres para entregar suas armas e se aconselhar na busca de uma nova vida. Tem sucedido também de mães entregarem as armas dos filhos, envolvidos no crime, com a esperança de que eles busquem outro trabalho. São exceções, não são a regra, mas tem sua importância para as famílias afetadas e condiz com o papel dos religiosos empenhados em apontar o caminho para jovens confusos ou arrependidos. Algumas pessoas se preocupavam com a possibilidade de que armas usadas em crimes possam desaparecer ao serem entregues na campanha. Preocupação infundada porque uma pessoa que queira se desfazer de uma arma comprometedora se sentirá muito mais segura lançando-a ao mar, ou qualquer outro método menos arriscado do que entregar à polícia, sabendo de antemão que a arma, antes de destruída, será periciada e catalogada na Polícia Federal. Se o interesse, além de sumir com a arma de um crime, consistir também em vender a arma, certamente se receberá muito melhor preço no mercado clandestino. Em resumo, é verdade que bandidos não compram arma em loja. Quem compra são os homens de bem. Depois, os bandidos vão lá tomá-las. Casas sem armas atraem os bandidos? Segundo o site da Associação Brasileira de Comerciantes e Proprietários de Armas, aumentará o número de invasões de domicílios devido ao conhecimento, por parte dos marginais, que todos os lares estarão indefesos. Aumentará a ousadia da criminalidade de rua, por saber que ninguém mais porta arma. Avaliemos esta afirmação: Uma das razões de assaltos a empresas e residências é o roubo de armas. O acompanhamento do noticiário policial revela que é comum os bandidos gritarem quando anunciam um assalto: Cadê a arma? Esse comportamento, além de procurar eliminar o risco de reação armada, revela o interesse em roubar armas, bens valiosos para um assaltante.

19 Nos Estados Unidos, de acordo com dados relativos a 1999, de seu ministério da Justiça, 75% dos assaltantes não usam arma. Se as vítimas potenciais passarem a armar-se, podem incentivar o uso de arma por assaltantes. Neste caso, a propensão a disparar também pode crescer (por medo de uma reação da vítima). Isso pode explicar porque é mais freqüente ladrões usarem armas em Estados com maiores taxas de acessibilidade às armas. McDowall e Loftin acharam uma relação entre leis que permitem o porte de arma e o aumento no número de homicídios por arma de fogo. Outra pesquisa, com base nos dados oficiais do FBI, revelou que taxas altas de posse de armas aumentam a probabilidade de casas serem alvos de assalto. Um aumento de 10% nas taxas de posse de armas resulta num aumento de 3 a 7 % na probabilidade das casas serem assaltadas. Uma das razões pode ser que as armas constituam um bem valioso a ser roubado. Apóia essa teoria o fato de que em 14% dos assaltos, na casa onde uma arma foi roubada, ela foi o único item roubado. 20 No Rio de Janeiro, como norma, quando policiais estão na rua sozinhos, fazendo policiamento, não portam armamento poderoso e caro (como fuzis e submetralhadoras) pois serão alvo de assalto. Segundo o depoimento de policiais, o tráfico está pagando R$ 5.000,00 por assassinato de policial acompanhado do roubo de seu fuzil. Em Porto Alegre, os PMs estão reivindicando o uso de colete à prova de balas temendo ser mortos por ladrões de armas na hora de voltar para casa. Nos últimos 20 dias, pelo menos três policiais foram mortos nessas circunstâncias: somos alvos móveis e estamos vulneráveis. O bandido sabe que o PM está sempre armado, reclama o presidente da Associação Beneficiente de Cabos e Soldados. 21 O homem armado atrai a cobiça do bandido. Quanto mais poderosa a arma que porta, mais risco corre. Circulam várias histórias sobre armas valiosas nas mãos de bandidos, ou apreendidas por policiais corruptos, que acabam gerando várias mortes na disputa por sua posse. Isto é, apenas excepcionalmente o porte de uma arma dissuade um assaltante de agir. Analisando famílias norte-americanas assaltadas, pesquisadores da Universidade de Maryland concluíram que em geral, os assaltantes não se intimidaram nem um pouco diante de vítimas armadas. Pesquisa comparativa de 50 cidades norte-americanas encontrou que, quando os ladrões sabem que temos arma em casa, eles tendem a atirar primeiro e perguntar depois, de forma a evitar que reajamos. 22 Segundo o especialista Luciano Bueno o efeito rede, em que os que usam armas acabam por proteger os vizinhos que não usam, pois o bandido vai achar que é um bairro bem armado, na verdade gera o efeito radicalização, porque sabendo que pode haver arma na casa, o assaltante antes de mais nada trata de imobilizar as vítimas por ferimento ou morte. 23 Ao contrário, na cidade de Boston, citada como exemplo, pelo fato de haver poucas casas com armas em função da lei estrita, apesar de existirem altas taxas de roubos, verificam-se poucas mortes e ferimentos por arma de fogo. Site pró-armas divulgou na Internet uma ironia contra a campanha de desarmamento, sugerindo que seus adeptos colocassem na fachada de suas casas o aviso Nesta casa não temos arma de fogo. Argumentam que deveriam ser coerentes com a idéia de que o desarmamento diminui os riscos de assalto. Esta última afirmação não é correta. O movimento contra as armas nunca afirmou que casas desarmadas diminuem os riscos de assalto; segundo ele, reduzem o risco de acidentes e crimes de motivação fútil entre pessoas conhecidas ou familiares, e também a violência usada pelo assaltante. O que diminuirá o risco de assalto será a ação de uma polícia eficiente e com rápida comunicação com a comunidade. Poder-se-ia retribuir o sarcasmo: os que acreditam que uma casa com arma está mais segura frente a assaltos, por coerência deveriam afixar um cartaz na porta com os dizeres Esta casa tem arma de fogo. A advertência de que armas protegem a casa afastará ou atrairá os assaltantes?

20 Doutrina Bush: armas do bem e armas do mal? A doutrina Bush para o controle de armas, defendida contra todos os demais países na Conferência Internacional sobre o Tráfico de Armas Pequenas, na ONU, se baseia na separação drástica entre comércio legal e comércio ilegal de armas. Ao governo caberia controlar o segundo, e interferir o mínimo possível no primeiro, garantindo a liberdade de comércio e o direito das pessoas de bem de se armarem. O equívoco desta política está em ignorar que 99% das armas de fogo são legalmente produzidas (calcula-se que no Brasil menos de 1% das armas são de fabricação caseira ), e que um terço das armas apreendidas na ilegalidade, por exemplo, no Estado do Rio, foram originalmente vendidas para cidadãos de bem, como veremos a seguir, desviadas do mercado legal para o clandestino. Isto é, para controlar-se o tráfico ilícito, têm-se que fiscalizar a venda legal dessas armas. Esta fiscalização é plenamente viável, bastando a vontade de realizá-la, pois as armas são produzidas por industriais conhecidos, e até que mergulhem na ilegalidade, esses produtos percorrem caminhos legais. Bem diferente do tráfico de drogas, cuja trajetória, da produção ao consumo, é toda ela clandestina. Essa visão do governo norte-americano se fundamenta no mesmo erro dos que diferenciam as armas dos cidadãos honestos, consideradas armas do bem, das armas dos criminosos, identificadas como armas do mal. Claro que não se pode comparar as intenções dos primeiros com as dos segundos, mas o mercado de armas não respeita fronteiras, nem de países nem de mercados; as armas passam de um lado para o outro, e armas compradas para defesa acabam muitas vezes nas mãos de criminosos. Segundo o delegado Carlos Oliveira, diretor da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos, do Rio, cerca de 150 armas de fogo são roubadas mensalmente no Estado. Destas, só 35% foram roubadas de seguranças privados e a maioria foi de residências. 24 Pesquisa do ISER sobre pistolas e revólveres estocados na Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos (DFAE), da polícia do Rio de Janeiro, fabricadas pela Taurus e apreendidas na ilegalidade no Estado entre 1951 e 2003, comprovou que 30% delas tinham sido compradas legalmente antes de caírem em mãos criminosas. 25 Isto é, de cada 3 armas apreendidas na ilegalidade, uma tinha sido comprada por gente de ficha limpa. Pesquisa mais ampla, pela mesma equipe, desta vez avaliando a origem de armas de fogo em geral, apreendidas na ilegalidade no Estado do Rio, comparadas com registros de armas legalmente vendidas, concluiu pela origem legal de 25,7% das primeiras. Como transitaram do legal para o ilegal? Através de roubo, furto, perda, revenda, desvio de lojas e fábricas etc. Principalmente de roubos a homens de bem, e em assaltos a policiais e vigilantes privados, além de desvio por parte de policiais-bandidos. [ gráficos excluídos ] Exemplo de notícia corriqueira, só que no caso envolvendo gente famosa: A polícia acredita que a pistola calibre 7.65, dourada, roubada de um oficial reformado da Marinha, pode ser a arma usada pelo ladrão que assaltou os apresentadores da Rede Globo, William Bonner e Fátima Bernardes. 26

21 Roubo de armas legais Há quem afirme que é o mercado ilegal de armas que alimenta o círculo da violência e seu principal conduto é o contrabando. Os números contradizem esta conclusão: No Estado do Rio, a cada 5 horas uma arma comprada legalmente é roubada e em 27% dos casos são obtidas nos assaltos a residências. 27 No Estado de São Paulo, das 77 mil armas apreendidas em 1998, foram roubadas e extraviadas. 28 Nesse Estado, em média, armas são roubadas anualmente de pessoas sem histórico criminal ou de agentes de segurança privada, segundo a Divisão de Produtos Controlados da Polícia Civil. 29 Para a analista, uma redução significativa das armas de fogo legalmente em circulação acabaria por reduzir também o contingente daquelas comercializadas clandestinamente. Em outros países não é diferente. No Chile, segundo sua polícia militar, Carabineros, 80% das armas apreendidas nos últimos 6 meses armas de fogo haviam sido compradas legalmente antes de serem roubadas a particulares. 30 Na África do Sul, em um ano apenas, 1998, armas de fogo foram roubadas ou ditas perdidas. As duas maiores fontes que abastecem o mercado ilegal em meu país são as armas perdidas ou roubadas de proprietários legais de armas. 31 Em 5 outros países, temos: Países Ano Armas roubadas Total de armas legais Austrália Canadá Inglaterra e País de Gales África do Sul Estados Unidos Fonte: Small Arms Survey 2004 Relatório de uma conhecida fundação norte-americana avaliou: Uma arma roubada vale ouro para um criminoso porque ela pode ser rapidamente revendida sem risco de ter sua origem rastreada; e mais de 80% das armas roubadas foram frutos de assaltos a residências e carros. 32 Em resumo, a idéia de que a grande maioria das armas usadas no cometimento de crimes são ilegais passa a impressão de que o problema são as armas ilegais e não temos que nos preocupar com as legais. Ora, as pesquisas indicam que (1) As armas nas mãos dos criminosos foram legalmente fabricadas, e por falta de controle, submergiram no tráfico clandestino; (2) A pesquisa sobre as mais de armas entregues na Campanha de Desarmamento no Viva Rio e instituições parceiras indicam que só 30% das pessoas entrevistadas responderam que a arma tinha registro; (3) Armas legais são muitas vezes usadas em delitos, principalmente contra pessoas conhecidas; (4) Um terço das armas apreendidas no Rio na ilegalidade foram na origem legalmente vendidas para cidadãos de bem; (5) Armas roubadas de homens de bem vão, involuntariamente, armar os assaltantes. Segundo o SINARM, banco de dados sobre armas da Polícia Federal, em 2003, cerca de armas de fogo foram roubadas ou furtadas no Brasil. Que armas foram usadas em Columbine e outros massacres? O documentário Tiros em Columbine, sobre o massacre ocorrido na escola Columbine, em Littleton, Colorado, em 20 de abril de 1999, mostra como dois alunos, Klebold and Harris, abriram fogo matando 12 colegas, 1 professor e ferindo 24 outros estudantes, antes de se

22 suicidarem. As armas que usaram, 2 escopetas e 2 pistolas, foram legalmente adquiridas pela namorada de um dos homicidas em uma feira de armas e também compradas de um amigo. O assassinato, que chocou o mundo, tornou ainda mais atual o debate sobre o acesso fácil a armas legalmente adquiridas, mas utilizadas em crimes, além de questionar os valores de uma sociedade em que são comuns os assassinatos múltiplos de pessoas inocentes, por motivos aparentemente incompreensíveis, ou fúteis. O que chama a atenção, se excluímos os massacres étnicos ocorridos na Europa e na África na última década, é a sua predominância em países desenvolvidos, sob a vigência de leis permissivas e o uso freqüente de armas adquiridas legalmente por homens de bem. Em 26 de abril de 2002, na cidade de Erfurt, Alemanha, o jovem Robert Steinhäuser, de 19 anos, ex-aluno de uma escola, matou a tiros 16 colegas e em seguida se suicidou. Robert era membro de um clube de tiro, e por isso pôde comprar legalmente o armamento com que invadiu a escola: uma pistola Glock-17 e uma espingarda de repetição Mossberg 590. Ainda sob o impacto deste fato, Philip Alpers, especialista neo-zelandês trabalhando na Universidade de Harvard, resolveu estudar massacres semelhantes, todos com mais de 10 mortos, ocorridos nos últimos 35 anos nos países desenvolvidos. 33 Alpers nos disse que, nesses crimes, 79% das vítimas foram atingidas por armas legalmente adquiridas (185 de 233 vítimas), e 86% desses assassinatos múltiplos (12 em 14) haviam sido cometidos por proprietários legais das armas utilizadas nos massacres, conforme a tabela que se segue (o número de vítimas soma o do agressor em separado). ASSASSINATOS MÚTIPLOS NOS PAÍSES DESENVOLVIDOS ( ) Data Lugar Mortos Situação da Arma 26 Abril 2002 Erfurt, Alemanha 16 + Armais legais, membro de um clube 1 de tiro 27 Setembro 2001 Zug, Suíça Armas legais, proprietário com registro 29 Julho 1999 Atlanta, USA Armas legais, de venda livre no Estado 20 Abril 1999 Littleton, USA Armas ilegais 28 Abril 1996 Port Arthur, Austrália 35 Armas ilegais 13 Março 1996 Dunblane, Escócia Armais legais, membro de um clube de tiro 16 Outubro 1991 Killeen, USA Armas legais, de venda livre no Estado 13 Novembro 1990 Aramoana, Nova Zelândia Armas legais, proprietário com registro de armas 18 Junho 1990 Jacksonville, USA Armas legais, de venda livre no Estado 06 Dezembro 1989 Montreal, Canadá Armas legais, de venda livre 19 Agosto 1987 Hungerford, Inglaterra Armais legais, membro de um clube de tiro 20 Agosto 1986 Edmond, USA Armas legais, de venda livre no Estado 18 Julho 1984 San Ysidro, USA Armas legais, de venda livre no Estado 01 Agosto 1966 Austin, USA Armas legais, de venda livre no Estado Fonte: Gun Control Network (Grã-Bretanha) Nos Estados Unidos, palco por excelência dos assassinatos múltiplos, as estatísticas só confirmam o achado de Alpers. Análise dos 65 mais relevantes crimes desse tipo ocorridos nas

23 últimas quatro décadas ( ), constatou que 62% das armas de mão e 71% das armas de cano longo usadas para perpetrar os assassinatos tinham sido legalmente adquiridas. 34 De 1992 a 2000, 267 pessoas foram mortas de forma violenta nas escolas norte-americanas. Destas, 206, isto é, 77%, foram vítimas de arma de fogo nas salas de aula, ônibus escolares ou ginásios de esportes dessas escolas. Vejam a comparação entre os métodos usados e o resultado, na tabela que se segue. 35 CAUSAS DE MORTES NAS ESCOLAS DOS ESTADOS UNIDOS Ano escolar Lesão corporal Enforcamento Parada cardíaca Queda Arma de fogo Arma branca Estrangulamento Desconhecida Total Fonte: Report on School Associated Violent Death, National School Safety Center's, É impressionante como as estatísticas de massacres nos EUA se desatualizam rapidamente. No período letivo , 49 pessoas morreram nas escolas. Nos primeiros 3 meses de 2005, 30 foram assassinadas, indicando um crescimento constante dos homicídios nessa modalidade. A última tragédia foi cometida por Jeff Weise, de 16 anos, aluno índio de uma escola da reserva de Red Lake, em Minnesota, em 21 de março. Matou 9 pessoas, a maioria alunos, feriu mais 7 e se suicidou. O jovem, admirador de Hitler, e que se identificava na Internet como NativeNazi, primeiro, matou o avô e sua namorada com uma arma calibre 22. Então, com 2 pistolas e 1 escopeta roubadas ao avô, policial, continuou a matança na escola. Uma semana antes, Terry Ratzmann, de 44 anos, havia entrado no culto religioso de sua igreja, em Brookfield, Wisconsin, e atirado 22 vezes, matando 7 pessoas, ferindo outras 4, antes de se matar. Os sobreviventes disseram tratar-se de uma pessoa normal. Para prevenir a violência armada nas escolas americanas, o que propõem os pró-armas? O guru do armamentismo, o pesquisador John Lott, analisando massacre havido em uma escola do Arkansas em 1998, escreveu esta incrível recomendação: Permitir que professores e outros adultos de bem possam andar armados nas escolas não só tornará mais fácil acabar com esses assassinatos múltiplos, mas também ajudará a impedir que eles ocorram. 36 Brasil e Argentina já entraram para esse exclusivo clube de países com assassinatos múltiplos, sem falar nos habituais massacres perpetrados nas periferias de nossas cidades. Em São Paulo, em , o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, 24 anos, atirou contra a

24 platéia do cinema do Morumbi Shopping, que assistia ao filme Clube da Luta, matando 3 jovens e ferindo outros 6. Mateus usou uma submetralhadora Uzi, 9 mm, comprada no mercado paralelo. Mais tarde, revelou à polícia a forte influência que a película havida exercido sobre ele. Na Argentina, Rafael Solich, de 15 anos, em , invadiu sua sala de aula, matou 3 de seus colegas e feriu outros 6, dois com gravidade. O assassinato coletivo foi cometido com uma pistola de 9 mm, pertencente ao pai do jovem, oficial da Patrulha Naval. Rafael levava também uma faca, que não chegou a usar. Seus colegas o definiram como uma pessoa normal, tranqüila, mas que havia se desentendido com alguns colegas na véspera. O fato sucedeu no Colégio Ilhas Malvinas, na cidade de Carmen de Patagones. A legislação deste país se baseia no pressuposto de que os cidadãos podem ter armas, desde que registradas. Ao redor de 700 mil famílias têm armas em casa, no geral acessíveis a crianças e jovens. 4. Carros, garrafas e facas também matam. Por que só proibir armas de fogo? O argumento veio dos Estados Unidos: Armas causam morte. É verdade. Mas também é verdade que automóveis, piscinas e médicos causam mais mortes todos os anos do que armas de fogo. Vamos proibi-los?. 37 Esta é uma frase de efeito, e se analisada com atenção se revela absurda. Todo mundo sabe que automóveis matam por acidente e não de forma intencional. Ao contrário, armas de fogo são desenhadas para matar, e com eficácia, diminuindo o risco de dano ao agressor por matar à distância e sem dar chance à vítima. Elas permitem matar várias pessoas em frações de segundos, podendo atingir inocentes com balas perdidas, que em 2003 causaram uma morte a cada 6 dias no Estado do Rio, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado. Portanto, comparar armas de fogo com objetos caseiros e automóveis, considerando-os igualmente inofensivos e inertes, principalmente na frente de crianças, é de extrema irresponsabilidade. Quanto a acidentes de trânsito, são uma calamidade no Brasil, principalmente ao provocar a morte de tantos jovens. Mesmo assim, no país, morre-se ainda mais por arma de fogo do que por acidente de trânsito. Em 2002, 38,8% das mortes de jovens de 15 a 24 anos foram ocasionadas por arma de fogo e 16% por acidentes de trânsito. (ver Juventude e violência armada e Impacto das armas na saúde). Demonização da Arma de Fogo? A Associação dos Proprietários e Comerciantes de Armas assim se manifestou no Senado: O que pretendem então estas manifestações [destruições de armas], senão demonizar as armas - objetos inanimados - e seus proprietários legítimos, e insuflar uma parcela considerável da população contra outras? 38 Os que são contra a destruição de armas acham que se está demonizando um objeto inanimado, isto é, inofensivo. Esta é outra versão do mesmo raciocínio de se igualar objetos caseiros a armas de fogo. Naturalmente que as armas não são causa da violência, mas seu instrumento. Assim como a causa da dengue, ou da malária, não é o mosquito; ele é o grande transmissor e por isso é combatido. Sua eliminação impossibilita que o vírus da dengue, e o protozoário da malária, sejam transmitidos, cortando o ciclo da epidemia. Hoje, ninguém mais ridiculariza os médicos sanitaristas por realizarem campanhas para eliminar esses mosquitos, como no passado. Mas, essa velha luta vencida pela ciência no campo da saúde pública, hoje se repete na segurança pública. Enfrentamos uma epidemia, uma proliferação

25 de armas de fogo e munições, instrumentos da violência que matam milhares de brasileiros. Erradicá-las, como já foi feito com êxito em outras sociedades, nos permitirá dar um basta a essa inacreditável mortandade. (ver Tradição ou atraso em Cultura da violência) Quanto a insuflar uma parcela da população contra outras, está havendo uma inversão de responsabilidades. Quem luta em favor dos direitos humanos, da tolerância, pela resolução pacífica de conflitos e pela consulta popular sobre o desarmamento como método democrático de decisão não são os membros da referida associação. Armas brancas e armas de fogo: uma comparação Há quem pense que quando se quer matar, e não se tem uma arma de fogo, usa-se qualquer outra arma, principalmente facas ou facões, as chamadas armas brancas. Ora, facas e facões, como copos e pedras, têm múltiplos usos, pacíficos e úteis, e só excepcionalmente são usados para agredir. Armas de fogo são feitas exclusivamente para matar, e por isso sua letalidade e eficácia são muito maiores e as chances de sobrevivência da vítima muito menores. Nas cidades, o uso de arma de fogo para defesa acaba, com freqüência, atingindo terceiros. Nos conflitos armados que ocorrem quando há resistência nos roubos em ônibus ou metrô, é a regra. Já a arma branca implica um envolvimento maior com a vítima, uma aproximação física, uma coragem e uma determinação maior com relação ao ato. Diferentemente da arma de fogo, que pode ser acionada à distância, sem envolvimento [ gráfico excluído ] No Brasil, 63,9% dos homicídios são cometidos por arma de fogo, enquanto 19,8% são causados por arma branca. Já no universo dos feridos, 39% das internações por agressão ou tentativa de homicídios são causadas por arma branca e só 30% por arma de fogo, devido à sua alta letalidade. A chance de se morrer numa agressão com arma de fogo é de 75%, enquanto com arma branca é de 36%. De cada 4 feridos nos casos de agressões por arma de fogo, 3 morrem. 39 Em outras palavras, enquanto as armas brancas ferem mais do que matam, as armas de fogo matam mais do que ferem. Só 5 % das tentativas de suicídio são com arma de fogo. Por que? Porque tentativas de suicídio com arma de fogo geralmente são bem sucedidas e as pessoas acabam mortas e não feridas. 30% das tentativas de homicídios (ou seja, agressão que não acabou em morte) são com arma de fogo, mas a maioria (39%) é com arma branca, que mata muito menos. No segundo semestre de 2004, cinco massacres foram perpetrados com arma branca contra estudantes nas escolas chinesas, ferindo 46 crianças e jovens e matando nove. 40 O resultado certamente seria o inverso se tivessem sido usadas armas de fogo, o que sucederia caso não fosse tão difícil para civis adquirirem estas últimas na China. Nos Estados Unidos, em 1992, armas de fogo mataram pessoas e armas cortantes mataram Houve sobreviventes a impacto de bala, e sobreviventes a ferimento de arma cortante que receberam tratamento médico. 41 Imaginemos os estudantes da escola de Columbine com facas, e não armas automáticas. Pensemos em crianças que se cortam com vidro, ou facas, e os danos

26 se fossem tiros? Comparemos uma tentativa de suicídio, ou de homicídio, com garrafa ou arma branca, com o uso de uma arma de fogo. Não ver diferença nas conseqüências de umas e outras é subestimar a inteligência da população. A nível internacional, o custo do tratamento de ferimentos causados por arma de fogo é 12 vezes maior do que ocasionados por objeto cortante Quem mata com arma de fogo? A ameaça que vem de fora contra o seguro reduto do lar As pesquisas modernas estão acabando com o mito de que os lares são necessariamente redutos seguros. Podem ser, devem ser, mas acontece de, muitas vezes, serem lugares muito perigosos, longe do olhar externo. Conflitos conjugais, violência contra mulheres, agressões físicas e sexuais contra crianças, disputas entre parentes, relações neuróticas que levam a brutalidades físicas e tortura, etc., revelam mais e mais que muitos lares são cenários de crimes contra os direitos humanos. As autoridades públicas não podem ignorar esses fatos e omitir-se, curvando-se a preconceitos que garantem ao homem direitos ilimitados sobre a família, aos adultos total poder sobre os menores, comportamentos de uma época em que as mulheres e as crianças se submetiam a tratamento despótico por parte da figura inquestionável do pater famílias ; e o poder público lavava as mãos porque em briga de marido e mulher, não se mete a colher. O que acontece entre quatro paredes não está fora do alcance da justiça. Seres indefesos não são mais propriedade privada de adultos violentos, nem têm que se submeter a maus tratos, sem chance de contar com a proteção do Estado. Hoje se difundem as Delegacias de Proteção à Mulher e as entidades de proteção à criança. Uma coisa é defender-se a instituição da família como base de uma formação ética, de segurança emocional e econômica, apontando-se sua desintegração como fator de risco gerador de desajustados e delinqüentes. Outra coisa bem diferente é não interferir na família quando esta se transforma em cativeiro e opressão dos mais fracos e dependentes, por parte de quem tem mais força e poder. Alguns lares não merecem esse nome acolhedor. Dois levantamentos recentes sobre abusos contra crianças dentro de casa o comprovam: Nas denúncias de maus tratos contra crianças no Estado do Rio, em 56% dos casos identificou-se a própria mãe como autora da agressão, e o pai em 23% das ocorrências, segundo levantamento do Disque-Denúncia no mês de julho de Em muitos casos, constataram-se terríveis castigos, com uso de colheres quentes, cigarros acesos, facas e correntes. 43 Segundo análise feita pela ABRAPIA, nas denúncias de abusos sexuais contra menores, 59% eram de violência intra-familiar e 40% extra-familiar; nesta última categoria, 30% dos abusos 44 foram praticados por vizinhos. Documentário recém-lançado em Florianópolis, Flor de Pessegueiro, de Ângela Bastos, registra o terrível depoimento de mães que tiveram coragem de denunciar seus maridos por haverem estuprado suas próprias filhas. Dormindo com o inimigo Nem toda violência é planejada por estranhos. Boa parte das mortes por arma de fogo é ocasionada por brigas passionais, discussões de família ou de conhecidos. Há uma grande resistência em admitirmos que a ameaça pode estar próxima. Outros Países

27 As muitas pesquisas realizadas nos EUA demonstram que o perigo não vem apenas da rua. As estatísticas não deixam dúvida sobre onde mora o maior risco. De acordo com dados do FBI, ao contrário da percepção popular, a maioria dos homicídios não ocorre como resultado do ataque de um estranho, mas decorre de desentendimento entre pessoas que se conhecem e que muitas vezes são parentes. 45 Segundo ainda o FBI, nos Estados Unidos, entre 1976 e 2002, só 8,9% dos homicídios de mulheres e 15,5% dos homicídios de homens, foram cometidos por estranhos. 46 A mesma fonte insiste que em 1997, um em cada 3 assassinatos resultou de uma briga, e só um em cada 5 de uma atividade criminal. 47 Na Austrália, apenas 15,6% dos homicídios com arma de fogo foram cometidos por desconhecidos da vítima no período Na província de Mendoza, Argentina, só 10% das mortes com arma de fogo foram decorrentes de roubos e violações. O resto foi resultado de brigas, suicídios e acidentes. 49 No Brasil No Brasil não temos ainda estudos satisfatórios sobre qual o vínculo entre homicidas por arma de fogo e suas vítimas. Mas nada indica que seja diferente de outros países que pesquisaram o tema. Pelo contrário, deve ser pior, considerando-se que o machismo aqui é mais forte do que em outras realidades estudadas. As perguntas quem mata com arma de fogo e qual a relação do autor com a vítima têm sido objeto de poucas pesquisas entre nós. Mas as primeiras tentativas de análise já indicam a gravidade do problema: No município de São Paulo, tese de mestrado apurou que, em 1995, cerca de 92% dos homicídios de autoria conhecida estão relacionados a conflitos interpessoais, isto é, conflitos que não envolviam nenhum tipo de relação com a criminalidade organizada, como por exemplo brigas em casa e nos bares, vinganças, discussões privadas etc.. 50 Pesquisa mais recente constatou que na Zona Sul de São Paulo, em 46% dos homicídios, vítima e autor mantinham uma relação prévia de parentesco, vizinhança, amizade ou conhecimento. 51 No Rio de Janeiro, pesquisa do ISER, que analisou 164 ocorrências com vítimas fatais em 1998, com registro do tipo de relação existente entre vítima e agressor, concluiu que em 35,45% delas as pessoas se conheciam. (Quanto ao uso de armas contra a mulher por parte do cônjuge, ver As Mulheres estão mais seguras com armas?) Normalmente, o que faz uma pessoa portar arma é o medo de ser assaltada por um estranho e morta. Se este perigo existe, é importante não exagerá-lo. Os latrocínios, como são chamados os roubos seguidos de morte, são muito menos freqüentes que os homicídios por pessoas conhecidas. No Estado do Rio, em 2004, eles representaram apenas 2,9% do total de homicídios dolosos, isto é, com intenção de matar, não acidentais 52 ; no Estado de São Paulo, apenas 5,1%, no mesmo ano. 53 Conclusão: quem tem arma em casa está dormindo com o inimigo. Fogo amigo Numa batalha, soldados não são mortos apenas pelos inimigos, mas muitas vezes pelo chamado fogo amigo, que são os erros cometidos, por exemplo, pela artilharia. Essa força atira por cima da sua infantaria, para atingir o inimigo e facilitar o avanço de suas tropas, diminuindo os riscos para os soldados que avançam. Mas quando calcula mal a trajetória de seus tiros, termina provocando baixas entre suas próprias forças. Ou há casos mais impressionantes, como o de soldados norte-americanos que, para não lutar, atiravam em seus próprios oficiais durante a guerra do Vietnã, conflito em que muitos dos jovens recrutados à

28 força eram contra a guerra ou não estavam motivados a arriscar a vida. Podemos comparar esse tiro pela culatra com situações em que armas compradas para proteger a família acabam usadas por assaltantes contra seus próprios donos, ou por maridos enciumados contra suas próprias esposas. Nas guerras, é comum, nos combates à noite, ou na selva, soldados alvejarem companheiros, confundidos com o inimigo. Algum tempo atrás, em Belo Horizonte, uma adolescente, preocupada porque voltou para casa depois das 22 horas, tratou de entrar em casa pelo quintal. O pai, que não havia dormido à espera da jovem, ao ver um vulto se esgueirando pelos fundos, pensou que fosse um assaltante e fuzilou a própria filha. 6. Com o desarmamento, quem vai nos defender? Aqui está uma pergunta mais que justificável. Defender-se o desarmamento civil numa sociedade como a inglesa, em que 92% dos que cometem um assassinato são presos, é fácil. Difícil é convencer as pessoas a não se armarem num país como o nosso, onde apenas de 3 a 4% dos homicídios são desvendados e os outros ficam sem autoria conhecida, segundo admite o nosso ministério da Justiça. A insegurança, agravada pela impunidade, acaba por levar alguns a buscar eles próprios a se defender ou fazer justiça com as próprias mãos. O jurista Celso Bastos argumenta que se o Estado não consegue desarmar os bandidos, não tem condições de pedir que o cidadão se desarme. Essa conclusão faria sentido se arma desse segurança. Como a maioria dos estudos sérios comprova que ela aumenta a insegurança, e apenas cria uma ilusão de proteção, precisamos esclarecer esse equívoco e simultaneamente lutar para que o Estado forneça essa segurança. Além disso, a proposta de que, quando tivermos uma boa polícia, então os homens de bem poderão se desarmar, foca apenas nos crimes cometidos por desconhecidos, deixando-nos vulneráveis à maioria dos homicídios praticados por conhecidos. Segurança se consegue com o povo armado? Durante o regime militar, o coronel Erasmo Dias, secretário de Segurança de São Paulo, apregoava sem rodeios que a sociedade devia se armar contra os bandidos. Imaginemos todos os homens de bem com armas, em casa e na rua, o povo armado. O que teríamos? Apenas mais bandidos mortos, como acreditam alguns? Ou também mais cidadãos assassinados nos enfrentamentos e nos assaltos inesperados, mais armas roubadas das residências e dos que andam armados, maior número de desentendimentos banais resolvidos a tiro, a multiplicação das balas perdidas, suicídios e acidentes? Há que se considerar, além disso, que quanto mais se armam os homens de bem, mais e melhor se armam os bandidos. Se a população atendesse ao chamado de se armar, o tiroteio que já assistimos seria exacerbado e generalizado. O número escandaloso de mortes que já temos, motivado pela facilidade com que se aperta o gatilho nesse país, se multiplicaria. Uma sociedade de homens armados é de uma insanidade tão eloqüente que só um pânico incontrolável, ou um ódio incontido, podem levar alguém a imaginar que traria mais segurança para todos nós. Ao contrário, na elaboração de políticas públicas, que afetam a vida de milhões, a análise tem que ser racional e baseada em pesquisas. Nem sempre a política eficaz é entendida num primeiro momento pela população. Ela deve ser esclarecida. Mas a tentação de se tomar o atalho de medidas fáceis, barulhentas e ineficazes, é grande. O risco é a demagogia,

29 a manipulação do medo e do ódio. São conhecidos os exemplos de comunidades que adotaram a tese do povo armado e acabaram por se envolver em ações terroristas e em linchamentos. A violência, principalmente quando parte de policiais no papel de bandidos, provoca muita indignação e às vezes propostas insensatas. Ao saber da chacina de 29 inocentes em Queimados e Nova Iguaçu, bairros do Rio, em março de 2005, o vice-presidente do Superior Tribunal Militar, Flávio Bierrembach afirmou que, se pudesse, faria uma campanha para entregar uma garrucha para cada mendigo pois, se aqueles mendigos que foram massacrados em São Paulo tivessem uma arma, não teriam sido mortos; se aquelas pessoas chacinadas na Baixada Fluminense tivessem uma garrucha, ainda poderiam estar vivas. 54 Propostas absurdas como esta levam à tese do povo armado. Claro que as mortes mencionadas seriam evitadas se investíssemos mais na depuração e na reforma da polícia. A polícia não pode estar em toda parte, o tempo todo A tese do povo armado busca também seu fundamento em outra idéia da Associação Nacional de Fuzis dos EUA: se a polícia não pode estar em toda parte, cada um de nós tem que se armar para se autodefender. Basta olhar à volta, para afastar esse delírio. Quais os países mais seguros do mundo, onde segurança e liberdade caminham juntas? São as democracias avançadas, que contam com uma polícia eficiente, honesta e, por isso mesmo, respeitada; cultura de tolerância e de resolução pacífica de conflitos; judiciário democrático e ágil; distribuição de renda mais igualitária; formação militar e policial democrática etc. Uma população educada dentro de uma cultura de paz, garantida por uma polícia eficiente, é a fórmula até hoje existente para que tenhamos tranqüilidade com liberdade. Enquanto nossos governos não fizerem da segurança pública uma real prioridade, veremos setores mal informados de nossa sociedade deixarem-se levar por propostas ingênuas, e perigosas, como a de povo armado. Esta é uma tese típica do irrealismo de comunidades fanáticas e descoladas da realidade, intoxicadas por ideologias racistas e intolerantes, como as milícias armadas das seitas norte-americanas de extremadireita. Como bem registrou Michael Moore em Bowling for Columbine, essas tribos fundamentalistas ensinam crianças de 3 anos de idade a atirar. Não se admira que daí tenham saído os terroristas que explodiram um prédio em Oklahoma, matando 168 pessoas em (ver Só as ditaduras desarmam o povo? ) A solução está na democracia ou na ditadura? Face a um grave problema social, costuma-se ter pelo menos duas alternativas: a que leva ao fortalecimento da democracia e a que conduz ao seu debilitamento. As propostas autoritárias são atrativas porque propõem soluções rápidas e simplistas, que normalmente dão um alívio emocional a curto prazo, e agravam o problema a longo prazo, um Prozac social. É como fazer uso de drogas ao invés de enfrentar-se as causas da infelicidade. Alguns políticos adoram essas propostas, porque as eleições ocorrem de 4 em 4 anos. Ao invés de atacarem as causas profundas e múltiplas da violência urbana (ver Quais as causas da violência urbana?), com soluções trabalhosas e demoradas, acenam com soluções milagreiras, a bala de prata que eliminará todo o mal, seja a invasão de uma favela, ou o armamento da população. Os homens de bem se sentem vingados, mas a violência cega vai gerar mais violência a médio prazo, vitimando inocentes pelo caminho.

30 Façamos o exercício oposto, buscando compatibilizar segurança com democracia, sem que se sacrifique a última para obter-se a primeira. Afinal, sempre que esse sacrifício foi feito, acabou-se por se perder a ambas, como ensina o cientista político Norberto Bobbio, e a segurança do cidadão foi substituída pela segurança apenas do Estado. Fortalecer a democracia, neste caso, significa aperfeiçoar as instituições que têm a ver mais diretamente com o controle do crime: a modernização e limpeza da polícia, a democratização e agilização do Judiciário, a humanização dos presídios, a atualização e aplicação das leis, o controle das armas de fogo. Aperfeiçoar as instituições, que constituem os instrumentos do Estado de Direito, é demorado, complexo e exige investimento. Só os políticos com espírito público se dispõem a fazê-lo. Considerar tudo o que tem que ser mudado para que o brasileiro tenha segurança, provoca desânimo, e até descrença de que veremos a solução ainda em vida. Daí o atrativo da solução imediata e única. O importante, ao elencarmos as principais medidas necessárias à redução da violência, é identificarmos o que é prioritário (salvar vidas), o que é imprescindível (política específica de controle de arma, como o Estatuto) e o que é estratégico (reforma da polícia, do Judiciário, do sistema penitenciário e das leis). Isto é, o que uma vez implementado possibilitará que as outras reformas avancem. A implantação do prioritário, imprescindível e estratégico criará pressões irresistíveis para que os demais setores, que impedem as mudanças, sejam também reestruturados. Ficará claro como bloqueiam o processo de distribuição de justiça e segurança, diminuindo as resistências à sua reforma. Há setores da nossa polícia que já se modernizaram, e que estão se depurando dos maus policiais. Exemplo é a Polícia Federal. Nos últimos dois anos, a PF realizou 56 operações de combate a fraudes e à corrupção, prendendo 872 pessoas, incluindo gente importante da elite e do funcionalismo público, inclusive de policiais da própria PF, num bom exemplo dos resultados positivos de uma repressão baseada em técnicas de investigação modernas. Uma iniciativa, primeiro tomada no Rio, mas que já se expande, é o Disque-Denúncia. O serviço é um sucesso, e foi trazido ao Brasil em 1995 por seu diretor Zeca Borges. Pelo sistema, nesse país em que testemunhar contra um bandido é uma temeridade, muitos crimes têm sido elucidados. Agora anuncia-se um novo serviço: Desarme o Bandido. Vai-se recompensar os que levem a polícia até às armas dos criminosos. Temos que apoiar essa iniciativa e novas formas de desarmar o crime organizado. Portanto, havendo empenho, é possível transformar o que hoje é exceção, numa polícia eficiente e honesta. Simultaneamente, pressionar para que se reforme o sistema prisional, o Judiciário, a legislação penal arcaica, e implemente-se políticas de proteção de testemunhas, inclusão dos jovens das populações carentes, medidas sem as quais o círculo vicioso que leva da exclusão à escalada da violência urbana seguirá se ampliando. Nova York mais segura Analisando o êxito alcançado em outros países, fica claro que é este o caminho. É preciso que, paralelamente ao desarmamento, a polícia seja reestruturada em novas bases, adaptada à modernidade gerencial e à democracia, e passe também a focar a arma de fogo, procedimento que nunca teve no passado. Foi assim em Nova York, entre 1994 e 2001, com o então prefeito Rudolph Giuliani, e seu Chefe de Polícia Bratton. Em 5 anos, os indicadores de criminalidade

31 baixaram 57% e os de homicídio em 65%. É preciso entender que, além de limpar a polícia de gente ligada ao crime, e de modernizar os métodos de controle e operação da polícia, fazia parte da política a repressão a todo tipo de infração, principalmente a relacionada à arma de fogo. Todos aqueles que eram surpreendidos portando arma ilegalmente eram detidos, e não soltos após pagamento de multa, como ocorria anteriormente, e assim como estabelece o nosso Estatuto do Desarmamento. Bandidos perigosos foram presos desta forma, apenas porque portavam armas sem licença, o que também está sucedendo no Brasil. Lembra a prisão do gangster Al Capone, que só foi possível porque o FBI o pegou sonegando o imposto de renda e não por seus outros crimes muito mais graves. Mas, em Nova York, não se ficava apenas na prisão. Procedia-se a um interrogatório e investigação para se descobrir a procedência da arma, o que levou ao desbaratamento de várias redes de venda clandestina desse produto. O medo de ser detido por causa de armas levou à redução das armas em circulação, colaborando para a drástica diminuição da criminalidade na cidade. Só privilegiados vão ter proteção? Os que eram contrários ao Estatuto do Desarmamento afirmavam: Não se estará criando uma odiosa forma de discriminação social ao se manterem os privilégios e direitos adquiridos de militares, juízes, promotores, defensores públicos, procuradores, Senadores, Deputados Federais e estaduais, chefes de autarquias etc.?. 55 Como princípio geral, o Estatuto considerou que o civil não deve andar armado, porque a responsabilidade da segurança pública é da polícia, e porque civis armados na rua são uma das causas das altas taxas de bala perdida, assaltos com morte e crimes por motivação tola. Quais os critérios para abrir exceções? A primeira se refere ao civil que comprove a necessidade de portar arma por estar correndo risco de vida, situação em que a Polícia Federal lhe concederá o direito. A segunda exceção tem a ver com as consideradas profissões de risco, geralmente funções ligadas à punição e encarceramento. São profissionais que podem sofrer represálias e vingança de condenados, como juízes, promotores, procuradores e defensores, ou que necessitam de armas para impedir fugas e se proteger, como guardas prisionais. A lei entendeu que determinados tipos de agentes de segurança também têm que usar arma para cumprir seu dever, e outros indivíduos em situação de risco e necessidade. (ver art. 6º do Estatuto em Anexos). Membros de outros setores do Judiciário reivindicaram o direito ao porte, como oficiais de justiça, que têm a arriscada missão de intimar pessoas para depor na Justiça. Foi considerado que estes já contam com direito à proteção policial no exercício de sua função. A tentativa de alguns parlamentares de estender a concessão de porte de arma para si próprios foi rejeitada pela maioria do Congresso. Alguns sindicatos tentaram, inutilmente, adquirir o direito ao porte dizendo-se profissões de risco, como os guardas dos centros de menores infratores. O direito lhes foi negado uma vez que a política prevista em lei é de recuperação de menores (são designados por isso mesmo de agentes educacionais ), e não de ameaças e torturas, que já ocorrem mesmo com os agentes desarmados. Também os caminhoneiros, frequentemente assaltados e mortos nas estradas, pressionaram inutilmente pelo direito ao porte. Neste último caso, o que está sucedendo é que a PF, dedicando-se à investigação, está começando a desbaratar quadrilhas e prendendo gente graúda. Nas estradas, está tendo êxito na desarticulação das gangues de assaltantes. Política muito mais efetiva do que permitir que

32 cerca de 500 mil caminhoneiros se armassem. As empresas de transporte de carga investiram milhões em aparelhos eletrônicos de segurança, que de pouco serviram. A solução estava numa boa polícia de investigação e repressão (fica faltando a moralização da Polícia Rodoviária). Este é um bom exemplo de que a solução é investir na melhoria da polícia e não em armar a sociedade. Excessões No Brasil, quando se consegue uma lei que afeta a todos, logo começa a pressão de setores poderosos, ou privilegiados, para se isentarem da obrigação. E nada é mais oposto ao conceito de democracia que o privilégio, característica das monarquias e ditaduras. Um projeto de lei já apresentado no Congresso procura garantir aos advogados o direito de portar armas. O advogado Levy de Castro Filho comenta: Estão registrados na OAB advogados em todo o país, o que significaria legitimar o uso de armas para quase meio milhão de pessoas. Logo serão os médicos a reivindicar, porque atendem criminosos feridos, e por aí seguiria, em efeito cascata. 56 Profissionais que se expõem a situações de risco se iludem sobre os benefícios de andar armados. Nos últimos tempos, a sociedade tem se surpreendido com juiz assassinando vigia de supermercado, promotor fuzilando quem ousou fazer um galanteio para sua namorada e com o assassinato de juízes, mesmo armados. Apesar de serem episódios isolados, esses fatos demonstram: (1) como a arma de fogo é um instrumento precário de defesa frente a uma agressão armada; (2) como a posse de uma arma pode fazer eclodir temperamentos arrogantes e violentos em profissionais de reputação ilibada e (3) como transtornos de conduta e arroubos emocionais podem levar cidadãos de bem a cometer assassinatos por razões tolas. Por isso, o senador Romeu Tuma, que foi diretor da Polícia Federal, declarou durante a votação do Estatuto do Desarmamento: Fui diretor da Polícia Federal e nunca andei armado. Se rico tem guarda-costas é porque arma protege? O trabalho de um guarda-costas é estar sempre alerta, atento, para prevenir uma agressão, diminuindo as chances de êxito de um ataque de surpresa, o que não ocorre com o cidadão comum. O guarda-costas, além disso, é treinado para exercer essa função, aumentando suas chances de rechaçar um ataque. Mesmo assim, ele corre grande perigo, exerce uma profissão de alto risco, e costuma ganhar bem porque arrisca sua vida para proteger a de outro. A pessoa para quem ele trabalha está relativamente protegida e paga por isto. Não se pode comparar a situação do cidadão comum, desarmado, com a do cidadão que conta com a proteção de guarda-costas, no intuito de se provar que a arma de fogo aumenta a segurança de quem a usa. Quem a usa, nesse caso, é o guarda-costas, exposto ao ataque e que é o primeiro a sucumbir. Quando morre na defesa do patrão, seu nome nem é mencionado na notícia, que ressalta apenas o nome do bacana que escapou de um atentado, em que morreram dois seguranças. Se alguns contam com recursos para contratar seguranças privados bem treinados, e outros não, isso nos remete para tema completamente diferente, que é a desigualdade social, e a incapacidade de nossas autoridades garantirem uma segurança pública eficiente. Alguns alegam que o homem pobre, não podendo contratar guarda-costas, deve se armar para se

33 proteger. Ora, não se concebe uma sociedade em que todos tenhamos guarda-costas, ou estejamos todos armados. Sociedade segura é aquela que conta com boa polícia, para toda a população e não apenas para quem pode pagar segurança privada. A falência da segurança pública nos empurra para buscar soluções individuais. É um descaminho (ver O descontrole das empresas de segurança privada). Para quem não é rico, não há salvação solitária. Devemos pressionar para que o Estado cumpra sua função republicana de proteger a todos. 7. Mais armas, menos crimes ou Menos armas, menos crimes? John Lott e a defesa das armas O mais conhecido pesquisador que defende o uso de armas de fogo como defesa é o norte-americano John Lott. 57 Este autor procura provar que quanto mais armas estão nas mãos de bons cidadãos em uma comunidade, mais segura ela está: as armas seriam um eficaz instrumento de autodefesa contra assaltos. Lott sustenta que o aumento na venda de armas trouxe a queda nos crimes violentos em seu país. Afirma que entre 1993 e 97, houve um grande aumento no número de licenças para portar arma, o que teria provocado uma queda de 29% nos índices de homicídio com arma de fogo. Para ele, quanto mais se restringe o uso de armas, maior o aumento da criminalidade. Esse pesquisador toma como exemplo a capital americana, Washington D.C., que apesar de ter uma das leis mais restritivas de controle de armas, é o distrito mais violento dos Estados Unidos 58, em comparação com seus estados vizinhos, onde a criminalidade é baixa e é fácil se comprar arma. Vermont, por exemplo, que permite o porte de armas para seus bons cidadãos, tem o mais baixo índice de crimes violentos do país. Seus críticos contestam, afirmando que de pouco adiantou proibir as armas em Washington D.C., se elas continuam a entrar pela fronteira dos Estados vizinhos de Virginia e Maryland, onde se pode comprar apenas uma arma por mês, além do tráfico de armas provenientes de Vermont, onde não há controle de armas. (ver USA: armas e violência ) Mesmo assim, entre 1976 e 1988, após a proibição de armas em Washington DC, em 1976, os homicídios caíram de 13 por mês para 9,7, e os suicídios de 2,6 por mês para O equívoco do argumento de Lott reside no fato de ele usar como exemplo localidades muito violentas, onde as leis de controle de armas se tornaram por isso mesmo mais rigorosas, para provar que o desarmamento não funciona. Ora, esses locais não são violentos porque se restringiu a venda de armas; a restrição veio para tentar reduzir uma violência pré-existente. Se ela não foi reduzida de forma satisfatória, caberia perguntar se sua persistência não teria sido muito maior sem a lei de controle. O mesmo se aplica para comunidades com baixas taxas de violência armada e facilidade para a compra de arma. Provavelmente essas localidades continuariam pacíficas com a restrição à venda de armas, pois as razões da sua tranqüilidade vão ser encontradas em outros fatores, como bons índices econômicos, integração social, polícia eficiente, alto nível de religiosidade etc. Como sempre enfatizamos, arma por si só não causa violência criminal. A controvérsia do porte de armas e o efeito dissuasor John Lott popularizou a tese do efeito dissuasor do uso da arma, isto é, a arma nem precisaria ser usada: indivíduos ou casas com arma fariam com que o bandido desistisse do assalto. Segundo ele, os milhões de porte de arma concedidos em 31 dos Estados norte-americanos têm

34 evitado cerca de homicídios, estupros e assaltos todo ano nos EUA. Já especialistas de dois renomados centros de pesquisa de Washington, divergem: A defesa feita por John Lott do porte de arma como fator de prevenção de crimes violentos não tem fundamento. Seu estudo contêm erros factuais e metodológicos e chega a conclusões implausíveis de acordo com as pesquisas de criminalística. Os estudos nas áreas de segurança e saúde pública consideram que o porte de arma produz efeitos exatamente contrários: aumento da letalidade do armamento usado pelos criminosos, provocado pela busca de armas cada vez mais poderosas; uso indevido de armas por quem obteve o direito de porte; e maior dificuldade de repressão ao porte ilegal por parte da polícia. 60 Lott afirma que em 98% das vezes em que as pessoas usam armas defensivamente, basta que elas simplesmente mostrem a arma para cessar um ataque". Isto é mais provável acontecer se apenas a vítima está armada e não o potencial assaltante. Só que, neste caso, se há a tentativa de assalto, e a vítima reage com arma a um agressor desarmado, terá dificuldade em alegar legítima defesa, pois esse instituto pressupõe uso de meios moderados e proporcionais à agressão (ver Restrições legais à legítima defesa ). Entretanto, o que se torna cada vez mais comum é a pessoa ser assaltada exatamente porque tem arma, objeto da cobiça dos bandidos. Na nossa realidade, a arma está mais para efeito atrativo do que para efeito dissuasor. O Texas, onde foram concedidos mais de portes de arma, é muito citado por Lott como exemplo do sucesso da autodefesa armada. Mas as pesquisas revelam outra situação: No Texas, portadores legais de armas de fogo foram presos desde que entrou em vigor a lei que permite o porte, no período entre janeiro de 96 e agosto de A Associação Nacional de Fuzis disse aos texanos em 96 que a concessão do porte faria do Texas um lugar mais seguro. As milhares de prisões de cidadãos que compraram arma legalmente e que a usaram indevidamente demonstram exatamente o contrário. Eles cometeram crimes e não preveniram crimes. Criou-se uma situação calamitosa. 61 Vários estudos realizados no país de Lott têm procurado responder à seguinte pergunta: A sociedade ficará mais segura se todos os cidadãos de bem puderem portar arma? As conclusões dessas pesquisas respondem negativamente: - Se vítimas potenciais começarem a portar armas, isso motivará os ladrões de rua a também usar armas. Quando isso suceder, esses criminosos tenderão a atirar primeiro e perguntar depois de forma a evitar uma reação da vítima O aumento médio dos homicídios por arma de fogo foi de 26% em 4 das 5 áreas de estudo depois que leis que liberaram o porte de arma foram implementadas em Oregon, Mississipi e Flórida. Homicídios com outros meios aumentaram em média apenas 1%. 63 O criminalista Roberto Garcia chega à conclusão igualmente negativa: [O desarmamento civil] evitará que armas de procedência regular passem a integrar o arsenal dos malfeitores... Mais do que isso, com a proibição do porte, diminuirão os casos de homicídios tolos, como aqueles em que, depois de um abalroamento qualquer entre dois veículos, um dos motoristas, eventualmente cidadão de bem, num arroubo, saca sua pistola e atira para vingar a honra vergastada por meia dúzia de impropérios proferidos pelo desafeto momentâneo. 64 Essas análises parecem dar razão ao lema da Campanha de Desarmamento do Paraná, que dizia Menos armas, mais vidas. (ver Direito ao porte de arma? ) A proposta Mais armas, menos crimes, ao incentivar a disponibilidade de armas, parece aumentar o sentimento de insegurança, fazendo com que cada vez mais pessoas se armem. Defesas bem sucedidas não são registradas?

35 John Lott acredita que muitas pessoas que assustam os assaltantes com tiros de advertência, ou evitam o assalto ao ferir o bandido, acabam não registrando a ocorrência na polícia, e esses casos de autodefesa bem-sucedidos deixam de ser computados pelas estatísticas oficiais. Claro que casos como esses, se ocorrem nos Estados Unidos onde há mais confiança na polícia, certamente são ainda mais freqüentes entre nós. Só que a sub-notificação não ocorre apenas nesses casos, mas em todos em que a vítima não precisa da ocorrência policial para ser indenizada ou para garantir algum direito. É muito comum alguém que é assaltado, e não reage, preferir não dar queixa na polícia, por achar que não adianta nada, por temer represália posterior do assaltante, ou por receio de ser achacado por um mau policial. Sabemos que 68% das vítimas de roubo ou furto e 66% das que sofreram alguma agressão física, em 1987, não procuraram uma delegacia, por não acreditar na polícia ou por não querer envolver a polícia. 65 A sub-notificação de mortes por arma de fogo também é comum no interior do Brasil, onde ocorrem inúmeros sepultamentos sem o competente registro. Portanto, a sub-notificação é uma característica dos países em que o prestígio da polícia é baixo, e onde populações pobres do interior vivem à margem da lei, no que diz respeito a registro de nascimentos e mortes, o que acaba por distorcer os índices totais de mortes, seja para um lado ou para o outro na polêmica sobre o sucesso ou insucesso da autodefesa com armas. 8. Países exemplares Prós e contra o desarmamento estão sempre citando a experiência de outros países que tiveram êxito, ou não, com políticas de controle de armas e desarmamento. O recurso à prática de outros povos é importantíssimo. Em que pese as diferenças entre as nações, esta é uma das formas mais efetivas de se avaliar o realismo, ou inviabilidade, de propostas teóricas. Mas tem sido usual a deformação do que se passa lá fora. Fica claro o desejo de manipulação. Por exemplo, em junho de 2000, dias antes de a Comissão de Constituição e Justiça do Senado votar projeto de controle de armas (N 614/1999) apresentado pelo senador José Roberto Arruda, e relatado pelo senador Renan Calheiros, o lobby das armas enviou aos senadores a tradução resumida de artigo saído na imprensa britânica. Por ele, os homicídios com armas de fogo estariam subindo fortemente no país, demonstrando o fracasso da proibição de armas para civis. Conhecendo bem a realidade da Grã-Bretanha, que não se ajustava a essas informações, fomos atrás do original do artigo. Este afirmava que os crimes financeiros estavam subindo fortemente e os crimes com arma de fogo caindo. Remetemos a íntegra do artigo para os senadores. Melhor informados, e indignados com a tentativa de embuste, aprovaram o projeto na CCJ, que no futuro serviria de base para o Estatuto do Desarmamento. Vejamos os dados oficiais que retratam a situação de alguns países: Suíça: paraíso armado? Informações divulgadas pelos que acreditam defender o modelo suíço de paz armada : - A Suíça é o país mais armado do mundo. Seu Exército é reservista e todo militar leva um fuzil para casa. O índice de criminalidade lá é quase zero Na Suíça, praticamente em toda, repito, toda residência existe uma arma de fogo. Não qualquer arma de fogo, não mísero revolverzinho calibre 38, mas sim um fuzil de assalto, de verdade. (...) Pergunto: na Suíça, onde na maioria das casas existem armas de fogo, os índices de violência são tão altos como os do Brasil, onde a legislação é restritiva? 67 A Suíça não é o país mais armado do mundo, nem é uma ilha de tranqüilidade armada :

36 Um exército de milicianos Na Suíça, 27,2% dos lares têm armas de fogo,enquanto nos Estados Unidos esse índice sobe para 48%. 68 O serviço militar é contínuo (alguns períodos por ano): dos 19 aos 30 anos para soldados e praças, e até 50 anos para oficiais e especialistas. 69 Enquanto servem às Forças Armadas, esses militares levam suas armas para casa. Mas elas são fiscalizadas com regularidade, ficam descarregadas e sua munição é mantida em recipientes lacrados, para uso exclusivo no quartel ou em caso de guerra. Bem diferente de se ter um revólver carregado na gaveta, ou na cintura. Por sua vez, as munições usadas para este tipo de armamento são distribuídas pelo Exército e não estão à venda. O arsenal guardado em casa é de armas longas de uso militar, pouco próprias para assaltos na rua. 70 Paraíso de tranqüilidade? Se buscamos as causas das mortes, não apenas fora de casa, mas também entre quatro paredes, a situação da Suíça não dá inveja aos seus vizinhos. Segundo criminalista da Universidade de Lausanne, Suíça, neste país as armas de fogo têm o seu maior impacto dentro de casa. O que se constata é um significativo uso de armas de fogo em casos de violência doméstica. Estudo realizado em 16 nações desenvolvidas mostrou que a Suíça é o país onde mais morrem mulheres por arma de fogo e onde os autores são homens sem antecedentes criminais. 71 Apesar de todas as precauções quanto ao controle das armas militares com civis, o país não é tão tranqüilo assim: As armas de fogo são usadas em casos de suicídios em alta percentagem: a Suíça vêm em terceiro lugar no mundo depois dos Estados Unidos e Finlândia no que diz respeito a suicídios por arma de fogo [Taxa de suicídios por arma de fogo por habitantes: EUA, 6,30; Finlândia, 5,39; e Suíça, 4,53] ; e Para os padrões dos países europeus desenvolvidos, os índices suíços não são baixos. Em 2000, a taxa de mortalidade por arma de fogo da Suíça era de 0,55 por habitantes, superior a vários países europeus, como França 0,29 e Alemanha 0, Quando se compara realidades distintas Brasil e Suíça -, há que se levar em conta as diferenças. Dizer que a Suíça é pacífica porque seus homens estão armados, é ignorar fatores muito mais importantes que explicam essa distinção. A arma, por si só, não detona a violência, muito menos num país rico, socialmente homogêneo, com alta qualidade de vida, longa tradição cultural de respeito às leis e forte compromisso com a paz. A neutralidade da Suíça durante as últimas guerras é fato conhecido de todos. Legislação de armas Mesmo na relativamente pacata Suíça, o Legislativo vem discutindo a necessidade de se proibir a venda de armas semi-automáticas e de se exigir prova de necessidade para porte de arma, excetuando os praticantes de caça ou esporte. A Lei de Armas é de 1997, e foi revisada em 2002 devido ao controle insuficiente do comércio de armas entre particulares, dos abusos ligados às réplicas de armas e às armas de ar-comprimido. 73 A necessidade de restrições ao uso de armas, e de uniformização da lei, divergente nos vários cantões em que se divide o país, foi percebida como uma necessidade urgente após a tragédia nacional de Zoug. Nesta cidade, em setembro de 2001, um homem matou 14 membros do parlamento local com armas automáticas, que usava para praticar tiro em um clube.

37 Austrália: o maior desarmamento Uma entidade denominada Viva Brasil, costuma repetir: As estatísticas da Austrália, Inglaterra e Canadá demonstram como menos armas em poder da população é um sinal verde para os bandidos. 74 Será verdade? O massacre de Port Arthur e a nova lei Em 28 de abril de 1996, em Port Arthur, no Estado australiano da Tasmânia, Martin Bryant, armado com dois fuzis semi-automáticos de uso militar, matou 35 pessoas e feriu 18. As armas usadas no massacre eram de compra legal na Tasmânia, mas proibidas na maioria dos outros Estados. O massacre motivou o Congresso a votar uma lei nacional de armas, o Firearms Act, em junho de 1996, cujos pontos principais eram: - Substituição da noção de direito de ter uma arma pela noção de privilégio de ter uma arma. A autodefesa não é considerada uma razão válida. Antes era o contrário: qualquer adulto podia comprar uma arma, a não ser que fosse desqualificado por ter antecedentes criminais; - Armas automáticas e semi-automáticas estão proibidas para civis, com exceção de fazendeiros e atiradores esportivos, que devem provar absoluta necessidade para o uso das mesmas; - Homens com antecedentes de violência doméstica estão proibidos de comprar armas nos 5 anos seguidos à agressão; - Armas particulares devem ser guardadas descarregadas, num lugar trancado e separadas da munição; - Transferências de armas só são permitidas através de lojas certificadas ou da polícia, para impedir a transação entre terceiros e a compra por correspondência; - Proprietários de armas têm que pertencer a clubes de tiro e se submeter a treinamento; - Em 2003, uma emenda à lei tornou o uso de armas de mão, mesmo por parte de clubes de atiradores e colecionadores, bem restrito. 75 Campanha de Entrega Voluntária de Armas: A campanha australiana foi a mais bem sucedida até hoje, seja pelo número de armas recolhidas, seja pelos resultados. Durou um ano, de 1996 a 97, e visou a recompra das armas automáticas e semi-automáticas, proibidas pela nova lei. Foram indenizadas armas, compradas a preço de mercado, com um gasto de US$ 320 milhões, financiado por um aumento mínimo na previdência social. Milhares de armas não proibidas também foram entregues voluntariamente sem indenização, totalizando cerca de armas recolhidas. Naqueles 12 meses, quase 1/6 do arsenal privado da Austrália foi destruído. Resultados da lei e da Campanha de Desarmamento Antes do massacre de Port Arthur, ocorreram 11 assassinatos múltiplos na Austrália cometidos com arma de fogo, em que morreram cerca de 100 pessoas e mais de 50 ficaram feridas. Depois da nova lei, nenhum. 76 Nos 6 anos posteriores à aprovação da lei, entre 1996 e 2002, o número total de mortes por arma de fogo caiu de 521 para 299 (diminuição de 43%). A taxa de homicídios por arma de fogo por 100 mil habitantes 77 passou de 0,57 para 0,24 (mais de 50% de redução). 78 Alguns falam de onda de criminalidade na Austrália, e fazem referência a aumento de assaltos armados. Essa categoria de crime inclui todo tipo de arma (arma branca e outras). Na verdade, assaltos sem arma de fogo, que causam muito menos mortes, aumentaram em 20 %, enquanto os assaltos com armas de fogo diminuíram ao seu mais baixo nível em 6 anos: menos de 1 em 5 assaltos envolveram arma de fogo. 79 Em 1989/90, armas de fogo eram usadas em 27,5% dos homicídios; em 2001/02, essa percentagem baixou para 14,2%. 80

38 Fica nítido o declínio das mortes por arma de fogo após a aprovação da lei de controle de armas (1996) e da campanha de desarmamento (1996/7), a partir dos dados seguintes: [ gráfico excluído ] (1) A queda do número total de mortes por arma de fogo foi drástica, muito além da tendência precedente : -26% entre 1979 e 1996, -40% entre 1996 e 2002; (2) Para homicídios por arma de fogo, a tendência não era de queda. Só depois de 1996, caiu a níveis bem inferiores aos de 20 anos atrás: 97 homicídios em 1979, 104 em 1996 e 47 em USA: armas e violência armada? Potência hegemônica no mundo, a imagem que o brasileiro tem dos Estados Unidos é sempre carregada de emoção, a favor ou contra. Para uns, é o modelo a seguir, para outros, a encarnação do mal. Havendo os autores desse Guia vivido nos EUA, encontraram nesse país soluções criativas para muitos de nossos problemas, mas também políticas que só agravariam os males que nos afligem. É com essa postura aberta, mas crítica, que tratamos aqui de avaliar sua contribuição para o tema das armas. Os Estados Unidos são reconhecidamente um país muito violento. O gosto por armas é tão difundido na cultura norte-americana que, no país das lojas de fast-food, existem 3 vezes mais vendedores licenciados de armas de fogo (81.325), e de casas de penhores só para armas, do que franquias do McDonald s. 81 Trata-se do país mais armado do mundo: 48% das famílias têm arma de fogo em casa. 82 Considerando-se que a relação é de 83 a 96 armas para cada 100 habitantes, existiria quase uma arma para cada indivíduo. 83 Nos EUA a violência prevalece como método de resolução de conflitos, seja no convívio entre seus cidadãos, seja na política externa. É a nação dos assassinatos múltiplos nas escolas e igrejas, a terra dos serial killers. Segundo o FBI, em média 50 serial killers percorrem o país anualmente em busca de vítimas. Entre os 36 países mais desenvolvidos, os Estados Unidos têm a maior taxa de mortalidade por arma de fogo (14,24 por 100 mil habitantes), que é 8 vezes mais alta do que a média dos outros países industrializados. 84 A comparação dos homicídios com arma de fogo com outros países desenvolvidos fala por si só: Nova Zelândia: 4 (em 1998), Japão: 22 (1997), Inglaterra e País de Gales: 23 (1999), Canadá 159 (1997), Alemanha: 155 (1999), Estados Unidos : (1998). 85 O então Presidente Clinton constatou, preocupado: "A cada dia, 13 crianças morrem neste país vítimas de armas de fogo. 86 Situação A política do governo Bush tem sido a de cortar fundos para os centros de pesquisa sobre armas e vitimização, por considerar que arma é um assunto privado. O resultado é que, no país das estatísticas, a única disponível é de Naquele ano, houve mortes por arma de fogo. Morre diariamente uma média de 80 pessoas por esta causa: 57% suicídios, 38% homicídios, 3% mortes não-intencionais, conforme a ilustração seguinte. 87 [ gráfico excluído ]

39 - Para um país com 293 milhões de habitantes, estima-se que existam entre 242 e 281 milhões de armas de fogo em mãos de civis 88, das quais cerca de um terço são armas de mão Mesmo antes do atentado de 11 de setembro, que levou a uma corrida às armas por incentivo do governo federal, a cada dia cerca de desses produtos eram vendidos no mercado interno Em 2001, 65% de todos os homicídios e 55% de todos os suicídios foram cometidos com arma de fogo, na maioria armas legais Os EUA são o país com maior taxa de suicídio por arma de fogo do mundo: 5,5 por habitantes; - De todos os homicídios com arma de fogo onde se conhece o tipo da arma usada, 77% foram cometidos com arma de mão Maior produtor e exportador de armas do mundo, os Estados Unidos possuem 238 fábricas, em 43 Estados, que produziram mais de 1.2 milhões de armas de mão em 1998; 93 - Armas de fogo matam 12 vezes mais crianças nos EUA do que em 25 outros países desenvolvidos; 94 25% das mortes acidentais com arma atingem a população infantil e jovem (menos de 20 anos); 95 2/3 das crianças norteamericanas dizem ter acesso a uma arma de fogo se quiserem. 96 Legislação Uma avaliação das leis sobre armas dos Estados Unidos não pode ser geral, porque a autonomia de seus Estados faz com que variem de um para outro. Apenas alguns princípios são federais, como por exemplo, normas sobre concessão de licença para comercializar armas, a necessidade de se esperar 5 dias quando se comprar uma arma (Lei Brady), que visa checar os antecedentes do comprador e forçar a um período de reflexão para prevenir suicídios e assassinatos premeditados. 97 Em setembro de 1994, o presidente Clinton assinou a Lei sobre Armas de Assalto, proibindo a venda de armas militares semi-automáticas para civis. A lei durou dez anos, mas caiu em , depois que o presidente Bush e o Congresso de maioria republicana deixaram de revalidá-la. Alguns aspectos das diferenças entre os vários Estados: - Em 6 Estados não há idade mínima para compra de armas de mão; - Em 46 Estados não há limite de armas que uma pessoa pode adquirir. Só 4 Estados impõem um limite de uma arma de mão por mês, como medida contra o tráfico ilegal de armas. Há Estados em que se faz campanha para que não se possa comprar mais de 20 armas por mês! - Em 48 Estados é legal a compra de fuzis de guerra, só proibidos na Califórnia e Connecticut; - Dois Estados, Massachusetts e Hawai, proíbem armas de fogo para civis; outros não fazem praticamente nenhuma exigência a quem quer comprar arma, como Kentucky, Montana, Texas, Alaska, Louisiana e Maine. A verdade é que todas as restrições às armas e munições, sejam federais ou estaduais, deixam de valer nas freqüentes feiras de armas, em que estes produtos são vendidos sem nenhum requisito, seja para menores de idade ou delinqüentes. Relação entre tipos de lei e mortes por arma de fogo A mais abrangente e recente pesquisa comparativa sobre as diferentes leis de cada Estado norte-americano, e seu grau de aplicação real (também lá, nem sempre a lei é cumprida com rigor), foi coordenada pela renomada especialista Rebecca Peters. 98 A análise estabelece 13 critérios de controle de armas, numa escala que vai de 100 pontos, como máximo controle de armas, até pontos abaixo de zero (zero considerado como padrão mínimo de controle necessário), como Estados que proíbem a aprovação de leis restritivas, ou que não estabelecem idade mínima para compra de armas, ou que não permitem processos judiciais contra a indústria de armas. Comparamos estes resultados com o índice de mortalidade por arma de fogo de cada Estado, no mesmo ano de , e chegamos às seguintes conclusões:

40 Conclusão 1: Os Estados que têm as leis mais frouxas para venda legal de armas, estão também entre aqueles que detêm os mais altos índices de mortalidade por arma de fogo, conforme a tabela que se segue. Estados ESTADOS COM LEIS DE MENOR CONTROLE E DE MAIOR MORTALIDADE POR ARMA DE FOGO (ano 2000) Classificação de mortalidade por arma de fogo [HELP Network] Taxa de mortalidade por arma de fogo / habitantes [HELP Network] Grau de rigor de controle das armas de fogo [Soros Foundation] Alaska 1 18,6-8 Nevada 2 18,1 0 Louisiana 3 18,1-8 Alabama 4 17,5-3 Mississipi 5 16,9-2 Novo México 6 16,6 1 Arizona 7 16,3-1 Tennessee 8 16,2 1 Arkansas 9 16,1-5 Montana 10 15,1-6 Conclusão 2 : Nos 8 Estados com leis mais restritivas de controle de armas de fogo, encontramse os 5 Estados com as mais baixas taxas de mortalidade por arma de fogo do país, e 2 Estados com taxas de mortalidade muito abaixo da média nacional (10,4). Importante notar que, mesmo Estados com leis restritivas de armas, vêem seus esforços enfraquecidos por Estados vizinhos, ou próximos, que por terem leis permissivas, favorecem o contrabando de armas para os primeiros. Essa situação se manifesta claramente em 3 dos Estados assinalados, como mostra a tabela que se segue: Estados Grau rigor de controle das armas de fogo [Soros Foundation] ESTADOS COM LEIS MAIS RIGOROSAS E DE MENOR MORTALIDADE POR ARMA DE FOGO (2000) de Classificação de mortalidade por arma de fogo [HELP Network] Taxa de mortalidade por arma de fogo / habitantes [HELP Network] Massachusetts ,8 Hawai ,4 Califórnia ,2 Proximidade com estados de leis permissivas [Soros Foundation] Próximo a Oregon, Nevada e Arizona Connecticut ,4 Maryland ,8 Próximo a West Virginia Illinois ,3 Próximo a West Virginia e Kentucky

41 New Jersey ,2 New York ,0 Washington D.C. : o Distrito mais violento Aparentemente, a capital dos EUA contradiz a tese de leis mais rigorosas, menos crimes por arma de fogo. O distrito de Washington (não contemplado pelo estudo comparativo do Open Institute porque não é um Estado) tem lei restrita e o mais alto índice de mortes por arma de fogo (28,7). Ele está próximo da West Virginia, que têm leis frouxas, e de outros estados limítrofes que até poucos anos atrás tinham leis absolutamente permissivas, como Virginia e Maryland, de onde provinha o contrabando de armas. Por isso, uma das conclusões da pesquisa comparativa é de que pouco adianta restrições num Estado, se em outros Estados próximos a lei é permissiva. A legislação severa em Washington data de 1976, quando foi aprovado o Firearms Control Regulations Act, proibindo as armas de mão e reduzindo a acessibilidade às armas em geral. Assim que a lei entrou em vigor, caiu abruptamente em 25% o número de homicídios e suicídios por arma de fogo, o mesmo não acontecendo com os outros crimes sem arma. 100 Massachusetts: o Estado mais pacífico O Estado de Massachusetts têm as leis mais rígidas de controle de armas e as taxas mais baixas de violência por arma de fogo do país (taxa de mortalidade de 2,84 por 100 mil habitantes, um terço da média nacional de 10,41). Houve 125 homicídios em Massachusetts em 2000, 47,5 % deles cometidos por arma de fogo. Para contrastar, em 2002, na Louisiana, Estado com um terço da população de Massachusetts e leis de armas permissivas, foram registrados 560 homicídios, sendo 73,7 % deles com arma de fogo. Em 1998, a Louisiana aprovou legislação restritiva, aumentando as penas por uso ilegal de arma e proibindo os fuzis de guerra. Em conseqüência, houve uma redução em 80% no número de acidentes com vítimas abaixo de 19 anos e em 20% nos suicídios com arma de fogo, sem que tenha aumentado os suicídios por outros meios. Também os homicídios seguiram caindo. 101 Esse panorama de descontrole das armas na maior parte dos Estados Unidos nos faz entender porque, apesar de todas as qualidades do país, que o tornaram uma grande nação, a violência que produz é assustadora: a cada dois anos, desde 1988, mais norte-americanos morreram por arma de fogo dentro do seu país do que durante os 11 anos da Guerra do Vietnã ( ), sem contar os que estão morrendo no Iraque e no Afeganistão. Nos anos 60, o líder do movimento negro Stockley Carmichael já dizia: A violência é tão americana quanto a torta de maçã. Canadá e Tiros em Columbine No filme Tiros em Columbine, Michael Moore compara os Estados Unidos com o Canadá, para demonstrar que ambos os países têm muita arma em mãos civis, mas só o primeiro é violento. Sua tese é a de que há nos EUA uma manipulação do medo, com os objetivos de eleger políticos conservadores e de estimular a venda de armas. Ao contrário do Canadá, com sua longa tradição social-democrática e cultura pacifista. O que não fica dito é que o número de armas nos EUA é muito maior: este país tem 3,5 vezes mais armas de mão por habitante do que o Canadá e 31,9 vezes mais armas em números absolutos. 102 Tampouco o filme esclarece que a maioria dos Estados norte-americanos conta com leis permissivas de fiscalização de

42 armas, enquanto o Canadá tem uma longa tradição de controle, principalmente das armas de mão. Seu problema é com as armas de cano longo. Legislação do Canadá Já em 1877, alguém que portasse arma de mão sem justificativa razoável podia ser preso por 6 meses. A partir dos anos 30, tornaram-se obrigatórios a licença e o registro para a compra de qualquer arma de mão. A lei de armas, Firearms Act, é de 1995, e medidas de maior controle de porte e registro foram implementadas a partir de A lei foi estabelecida com o objetivo de reduzir a mortalidade, os ferimentos e os crimes cometidos com armas de fogo. Ela determina que se analise os antecedentes criminais do comprador (seu comportamento é fiscalizado periodicamente), estabelecendo penas mínimas de 4 anos de prisão para os crimes mais graves cometidos com armas de fogo. A lei canadense não considera um direito nem a posse nem o porte de armas de fogo. Pelo contrário, várias vezes os tribunais reafirmaram o direito do governo de proteger os cidadãos contra o perigo representado por essas armas. A posse de arma de mão está restrita à polícia, forças armadas, membros de clube de tiro e colecionadores. Em todo o país, até 2000, só foram concedidos 50 portes a título de autoproteção, em caráter excepcional, para casos de comprovado risco de vida, em que não se podia contar com a proteção policial. 104 Situação - Em 2001, houve 842 mortes por arma de fogo no Canadá: 651 suicídios (77%), 148 homicídios (18%), 28 acidentes (3%), 5 por intervenção da polícia e 10 por motivos desconhecidos; Estima-se que existam cerca de 2,46 milhões de proprietários de armas de fogo e 7,9 milhões de armas de fogo; No Canadá, os Estados com mais armas (Oeste do país) são também aqueles com as taxas mais elevadas de mortes por arma de fogo; Calcula-se que 26% das residências canadenses tenham armas de fogo. 108 Essa alta percentagem é devido à tradição de caça, daí que o número de armas longas seja muito superior ao de armas de mão; - O rígido controle sobre as armas de mão não se verifica em relação às armas de caça. Como resultado, a maioria dos crimes com arma de fogo é cometida com estas últimas: fuzis de caça e carabinas foram responsáveis por 52% dos crimes, 76% dos homicídios por violência conjugal, 82% dos suicídios e 90% das mortes acidentais. 109 Preocupados com as mortes provocadas pelas armas de cano longo, existe hoje uma forte campanha, liderada por médicos, para que aumentem as restrições ao uso dessas armas. - Entre 1970 e 1996, morreram cerca de pessoas por arma de fogo, uma média de por ano. 110 Isto é, em 26 anos, morreram menos canadenses do que brasileiros em apenas um ano. Mas, para um país desenvolvido, com grande igualdade decorrente de décadas de social-democracia, e exemplar cultura de tolerância e integração étnicas, os seguintes números preocupam seu governo, que informa: % das vítimas de homicídio por arma de fogo conheciam seus autores; 63% das vítimas de homicídios domésticos por arma de fogo foram mulheres, 85% dos homicídios conjugais foram cometidos contra mulheres, e 27% dos homicídios domésticos foram com arma de fogo, em 1997; Comparação com os EUA - Nos Estados Unidos, 66% de todos os homicídios foram cometidos com arma de fogo, enquanto no Canadá a percentagem foi de 27,3%, em 1998; O Canadá tem cerca de armas de mão, em contraste com os EUA, que têm 76 milhões, isto é, 63,3 vezes mais Nos EUA, 80% dos homicídios são cometidos com armas de mão, enquanto no Canadá o maior problema são as armas longas A influência das leis de controle de armas de mão na consecução de crimes, restritas no Canadá e permissivas na maior parte dos EUA, fica clara na comparação. Enquanto ambos os países têm taxas próximas de homicídio sem

43 arma de fogo (Canadá 1,38 e EUA 1,9 por 100 mil habitantes, em 2002), representando 1,4 vezes mais nos EUA, a taxa de homicídio com arma de mão é 6,5 vezes mais alta nos EUA que no Canadá (Canadá 0,55 e EUA 3,6, em 2002). 115 Resultados do controle de armas - A taxa de homicídios por arma de fogo diminuiu de 40%, entre 1989 (0,8/100 00) e 2003 (0,48/ ), enquanto homicídios sem arma de fogo não registraram queda tão significativa (de 1,6/ para 1,2/ ); Os homicídios de mulheres com arma de fogo foram reduzidos de 2/3 desde 1989 e caíram em 40% entre 1995 e 2003; Homicídios com rifles e espingardas diminuíram significativamente: de 0,5 em 1989 para 0,14 por habitantes em A taxa de homicídios com arma de punho não caiu tanto, devido ao contrabando de armas que chegam de outros países. 118 As estatísticas judiciárias confirmam a queda nos índices: As sucessivas medidas legais de controle de armas fizeram com que os roubos com armas caíssem em 50% de 1991 a Segundo o ministério da Justiça canadense, o número e a taxa de mortes por arma de fogo estão nos seus níveis mais baixos em 50 anos. 120 Realidade bem diferente da difundida aqui por entidades pró-armas, que acusam a política de controle destes produtos no Canadá de haver fracassado. Grã-Bretanha: fiasco do desarmamento? Na cidade de Dunblane, Escócia, Thomas Hamilton, com a arma que costumava treinar em um clube de tiro, invadiu uma escola infantil e matou 16 crianças. O massacre, ocorrido em março de 1996, abalou o país, conta-nos Mick North, pai de Sophie, de 5 anos de idade, que estava entre os mortos. O médico North, cansado de chorar a morte da filha, tornou-se um dos mais ativos militantes pelo desarmamento. O choque provocado pelo incidente, que alertou para o perigo do porte de arma, levou a Grã-Bretanha a reformar a lei de controle de armas e a promover várias campanhas de desarmamento. Legislação O Firearms Act, votado em 1997 pelo parlamento britânico, proibiu a posse de armas de fogo para civis acima de calibre 22, reformando a lei anterior, de Emenda de maio de 97 estendeu a proibição também a esse calibre, com exceção para armas de caça e de sinalização esportiva. Armas para atiradores esportivos acabaram incluídas na proibição, pois os legisladores se preocuparam com o fato do assassino de crianças Hamilton ser atirador, assinala North. A nova lei não reconhece a autodefesa como justificativa para a posse de armas por civis. Mas não se incluiu na proibição as réplicas (imitações) de armas, as armas de ar-comprimido, nem as armas desativadas, que se tornariam um problema, como veremos. Campanhas de desarmamento e seus resultados Vários programas de entrega voluntária de armas têm sido levados a cabo, pagando preço de mercado para as armas de mão, acessórios e munição proibidos, e estabelecendo uma anistia enquanto duram as campanhas. Em 1996, foram entregues armas e munições. 121 De 31 de março a 30 de abril de 2003, foram recolhidas armas. 122 Desde 1998, foi recolhido um total de armas de mão no Reino Unido. 123

44 Na Grã-Bretanha, homicídios com arma de mão não apresentam crescimento relevante nos últimos anos: apenas 74 homicídios em 1993, 59 em 1997, 62 em 1999/00 e 81 em 2002/03. As pesquisas recentes demonstram que o país não tem um índice baixo de crimes violentos, mas os crimes cometidos com arma de fogo são em pequeno número. Armas de fogo (incluindo as de ar-comprimido adaptadas) foram usadas em apenas 0,41 % de todos os delitos registrados. Os homicídios representaram 0,8% de todos os crimes com armas de fogo (excluindo as de ar-comprido). Armas de fogo foram usadas em 8% dos homicídios. Mas existe uma alta percentagem de suicídios: em 2000/01, 62% das 417 mortes por arma de fogo registradas na Grã-Bretanha foram relativas a suicídios. 124 Em mais de 70% dos crimes com armas de fogo, não há disparos. Elas são usadas somente para ameaçar a vítima. A polícia acredita que, em muitos desses casos, sejam réplicas. 125 E por que usam imitação de armas e não armas verdadeiras? Além da dificuldade de se obter uma, naturalmente porque sabem que as pessoas não andam armadas, o que explica o baixíssimo número de mortes nos assaltos. Essa tendência tem sido atribuída à lei de controle de armas, assim como à atuação de uma polícia não armada, o popular Bobby, de eficiência reconhecida. Nos últimos anos, apenas em alguns bairros mais barra-pesada, e em certas viaturas policiais, se usa arma. Mas, como regra, no caso de ser necessário o emprego de armas de fogo, é mobilizado um esquadrão especializado, que atua com grande rapidez. Entre 1992 e 1994, esse esquadrão realizou operações e deu apenas 26 tiros. Em todo o ano de 1994, deu 4 tiros, o que não impede de ser esta uma das polícias mais respeitadas do mundo por sua eficiência. O número de policiais mortos por arma de fogo caiu de 21, em 1994, para 7 em 2000/01. De 1996 a 2002/03, não houve sequer uma morte por arma de fogo de policial em serviço. 126 Pesquisa de opinião recente em Nottingham, Londres, para saber se a polícia deve passar a andar armada na rua, recebeu as seguintes respostas: 59% não, 34% sim. Quanto à pergunta de se a polícia passar a andar armada vai incentivar os criminosos a se armarem mais?, recebeu 50% sim, 7% não, e 37% de não fará diferença. 127 Lacunas da legislação O aumento da violência armada na Inglaterra e no País de Gales é em grande parte devido ao uso criminoso das réplicas de arma, das armas de ar-comprimido e das armas desativadas, que podem ser modificadas para tornar-se letais. Fabrica-se pistolas de ar-comprimido potentes e parecidas com armas à pólvora. As da marca Brocock podem ser transformadas em menos de uma hora em arma capaz de disparar munição de verdade. Em 2002/03, 57% dos delitos com arma de fogo foram cometidos com armas de ar-comprimido. 128 As réplicas de armas, por sua vez, representam uma preocupação adicional para a polícia, já que são populares entre os colecionadores e podem ser compradas legalmente. Estes artefatos de imitação estão sendo convertidos em armas letais que disparam munição real e seu uso em crimes é crescente. Na região metropolitana de Londres, em Manchester e Birmingham, mais de 70% das armas usadas por criminosos têm sido réplicas ou armas de ar-comprimido adaptadas para tiro real. O lucro da indústria de réplicas dobrou desde o massacre de Dunblane, e foi estimado em 9,8 milhões de libras. 129 Já armas desativadas são aquelas que foram alteradas para não mais

45 disparar. Calcula-se que existam cerca de dessas armas nas mãos de civis. Como não foram proibidas, estão sendo reativadas e usadas em crime. 130 A consciência do papel dessas armas na persistência dos níveis de crime violento levou à votação, em 2003, do Anti-Social Behaviour Act. Essa lei entrou em vigor em , proíbe a marca Brocock e aumenta a idade mínima para compra de arma de ar-comprimido de 14 para 17 anos. O governo está estudando maiores restrições à venda destas armas e de espingardas e revólveres de festim (pólvora seca). 131 Deveríamos haver aprendido com a Grã-Bretanha. Quando se proíbe algumas armas, mas não todas, o crime flui por estes buracos deixados na lei. Como sucedeu durante a votação do nosso Estatuto do Desarmamento. Por pressão do lobby, o Senado voltou atrás na exigência de que as armas dos colecionadores fossem desativadas, com a retirada de seu pequeno dispositivo de disparo. Agora, quando uma coleção é roubada, os assaltantes põem a mão num verdadeiro arsenal, pronto para ser usado no crime. Pelo menos as réplicas ou imitações de armas foram proibidas (ver Estatuto em Anexos), embora não as armas de ar-comprimido. No Brasil, temos cerca de uma arma de fogo para cada 10 habitantes e homicídios a cada ano. Na Grã-Bretanha, há uma arma para cada habitantes e 87 homicídios por ano. 132 Japão: segurança sem armas? O nível de segurança pública no Japão é um dos melhores do mundo e o país conta com uma das leis mais rigorosa de proibição do uso de armas por civis. A taxa de homicídio por arma de fogo no Japão é de 0,03 por 100 mil habitantes 133, de longe a mais baixa do planeta. Para efeito de comparação, no Brasil, em 2002, essa taxa era de 20,8, e nos EUA, de 4,1. Em 2002, houve só 24 mortes por arma de fogo no Japão, numa população de mais de 127 milhões de pessoas. Considera-se que o reduzido nível de violência armada é devido em parte à proibição, desde 1945, de armas de mão e fuzis para civis. 134 Há menos de 50 pessoas autorizadas a possuírem pistolas (equipe olímpica de tiro, cujos atiradores não são proprietários das armas que usam). 135 A percentagem de domicílios com armas de fogo é de 0,57, isto é, menos de 1% das residências. Armas de mão são de uso restrito da polícia. Caçadores podem comprar um rifle ou uma espingarda, depois de passar por um estrito processo de autorização; essas armas têm que ser guardadas fora da vista da família e são fiscalizadas pela polícia. Os baixíssimos índices de violência armada estão ligados à máfia japonesa. Mas mesmo ela é afetada pelo rígido controle do comércio de munição: mesmo os mafiosos erram os tiros a mais de 3 metros. Eles são ruins de pontaria porque não podem treinar, uma vez que é muito difícil obter munição, cuja venda é severamente controlada. Um delegado de polícia explica: Nós temos poucas vítimas por arma de fogo não apenas pelo controle sobre esses produtos, mas porque controlamos o comércio de munição com muito rigor. 136 Problema que começa a preocupar o país é o contrabando de armas. Os Estados Unidos são a primeira fonte de abastecimento para o crime organizado no Japão (32,9 % das armas), seguidos pela China (20,9 %). 137

46 9. Quais as causas da violência urbana? A violência urbana é um fenômeno complexo, conseqüência de um somatório de causas e variáveis que, combinadas, acabam por provocar o incremento da agressividade e do uso de armas de fogo em conflitos e delitos. Sem a presença da arma, esses confrontos se resolveriam com muito menos mortes. Entre os especialistas, essa compreensão já existe, mas fatores ideológicos e emocionais fazem com que o leigo não a considere e apóie soluções simplistas, a saída única, num reducionismo que ignora as múltiplas faces do problema. Mas problemas complexos demandam soluções complexas, que enfrentem cada fator que contribui para a eclosão da violência. O que não significa dar a cada variável a mesma importância, mas investir-se prioritariamente contra as causas estratégicas, que incidem sobre as demais. Desarmamento, apenas, não irá baixar a violência armada, mas sem ele não chegaremos à sua redução. São vários os fatores que se combinam para gerar a violência urbana. No Brasil, os principais são: (1) Criminógenos: tráfico e disseminação de drogas e de armas de fogo; (2) Institucionais: polícia despreparada e parcialmente contaminada pelo crime; judiciário lento; sistema prisional em colapso; legislação antiquada e corporativa, que dificulta as reformas; impunidade; (3) Estruturais: crescimento urbano acelerado e desordenado, com formação de guetos marginais, degradação dos serviços públicos e desenraizamento cultural; má distribuição de renda; desemprego; exclusão de amplos segmentos da juventude dos benefícios do desenvolvimento e frustração de sua ascensão social, após oportunidades iniciais; (4) Culturais e ideológicos: veiculação intensiva de programas que ensinam a resolver conflitos pela violência e que glamourizam o bandido; modelo masculino calcado na brutalidade; prevalência de valores consumistas e egocêntricos; alcoolismo; desagregação familiar; cultura da defesa da honra em casos de conflitos amorosos e tradição da pistolagem; (5) Políticos: falta de prioridade para a segurança pública; concepção burocrática, paternalista, e meramente repressiva da função da polícia, resistente à uma visão gerencial, participativa, investigativa e preventiva; falta de confiança nas autoridades, poder dos lobbies e corporações para impedir o cumprimento e a reforma das leis. Viajando pela África, constatamos que países pobres, mas que restringem fortemente o uso de armas, e em que a desigualdade não é tão grande, como Botswana, Tanzânia e Zâmbia, são menos violentos que países mais prósperos, mas com leis permissivas e maior desigualdade, como África do Sul, Namíbia, Suazilândia e Malavi. Assim, Botswana, por exemplo, registra 15 assassinatos por 100 mil habitantes, enquanto a África do Sul, que só recentemente começou uma política de controle de arma, tem 26 assassinatos por 100 mil habitantes. Como se vê, uma enorme gama de fatores conflui para criar as condições propícias à violência. Não é por acaso que quando se discute violência urbana surjam variadas propostas de solução, cada uma vendo o problema a partir de uma de suas causalidades: desemprego, má educação, polícia ineficiente etc. As drogas e o álcool levam à violência?

47 Alguns atribuem maior importância ao consumo de drogas, e de álcool, para explicar o assustador aumento dos crimes violentos, atribuindo pouca importância à proliferação de armas. Ou então consideram que armas de fogo não fazem diferença. Ora, drogas, álcool e armas são problemas imbricados, que se influem mutuamente e se potencializam quando se combinam. Naturalmente que o consumo de determinadas drogas (excitantes) e do excesso de álcool levam seus usuários a atitudes violentas, seja para satisfação do vício, seja no convívio com os outros. Mas é também verdade que a presença da arma de fogo torna essas agressões mortais, e sua ausência tenderia a contê-las nos limites de danos físicos menores. (ver Armas brancas e de fogo: uma comparação) Basta a observação para se relacionar locais de consumo de álcool e drogas com violência. E os estudos a comprovam. Pesquisa realizada em Caxias do Sul, segunda cidade gaúcha em número de mortos, revelou que as principais vítimas dos assassinatos com arma de fogo na cidade nos últimos 11 anos são homens com idade entre 22 e 35 anos, em brigas noturnas nos finais de semana. 138 A prefeitura da cidade paulista de Diadema determinou o fechamento dos bares, todos os dias, de 23 às 6 horas. Resultado: os homicídios caíram 55% entre 1999 e A proclamada experiência de Bogotá, combinando reforma da polícia, desarmamento e proibição de bebidas após a uma hora da manhã, provocou queda de 71% nos homicídios. Por que tais exemplos não são seguidos nos bairros mais violentos? Temor da impopularidade da medida, ou de queda nos impostos das bebidas? A grande cumplicidade se dá entre o tráfico de drogas e de armas, pois estas dão garantia ao comércio daquelas e seus condutos e responsáveis geralmente são os mesmos. Como a atividade do narcotráfico é toda clandestina, muito protegida, e a produção de armas é legal, uma boa investigação das conexões entre o comércio legal e ilegal de armas contribuiria grandemente para o desmantelamento das quadrilhas que traficam drogas. Assim como já fomos convencidos do acerto da recomendação se beber, não dirija, se dirigir, não beba, outras misturas também são fatais, como associar álcool e arma de fogo, ou aproximar arma de fortes emoções. O Estatuto do Desarmamento, em seu art. 10, III, 2º, confisca o direito ao porte de arma de quem estiver armado em estado de embriaguez ou sob efeito de drogas. 10. Impacto das armas na saúde pública São incipientes os estudos realizados entre nós sobre vitimização por arma de fogo, isto é, quem morre, como morre, onde morre e por que morre. Ainda não temos estatísticas para homicídios por arma em violência doméstica, os casos de balas perdidas não são especificados, os suicídios são sub-notificados, o critério étnico utilizado é discutível etc. Países que desenvolveram estudos aprofundados sobre o tema e citamos vários -, mostram os efeitos devastadores da proliferação de armas na multiplicação de acidentes, suicídios e homicídios entre conhecidos. As informações registradas pelo DATAUS, banco de dados do Sistema Único de Saúde (SUS), baseadas nos números do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do ministério da Saúde, revelam que no Brasil a situação é ainda pior. Os números são

48 assustadores. Antecipam a dimensão do dramático panorama que encontraremos no dia em que dispusermos de pesquisas mais precisas. Gastos na Saúde No Brasil, enquanto o custo médio de um atendimento pelo SUS é de R$ , o de uma internação hospitalar por ferimento de arma de fogo é de R$ O tempo médio de internação é de 7 dias, isto é, R$ 795 por dia. O custo total do tratamento de feridos por arma de fogo internados em hospitais do SUS foi estimado por ano em R$ Se incluímos as unidades de saúde não conveniadas com o SUS, a estimativa desse custo total chega a R$ ,13 por ano. 140 Essa enorme quantia poderia estar sendo aplicada no tratamento de doenças, na reforma de hospitais, em educação etc. Nos EUA, durante o governo Clinton, prefeituras e vítimas começaram a processar indústrias de armas pelos gastos e danos causados por seus produtos. 12 cidades da Califórnia estão processando vários fabricantes de armas, inclusive a brasileira Taurus, que tem fábrica na Flórida. 141 As prefeituras se baseiam no fato de a verba despendida ser dinheiro da população, gasto para pagar danos causados por interesses privados, que deveriam arcar com tais custos. Alega-se também a negligência dos fabricantes e comerciantes de armas, que não se importam para quem vendem seus produtos. Quando se fará o mesmo no Brasil? Belo desafio para jovens advogados idealistas. Anos perdidos e expectativa de vida Os homens estão se matando. A última pesquisa do IBGE mostra uma desproporção crescente entre o número de homens e de mulheres no Brasil. Nos Estados de maior violência, a diferença é ainda maior: No Estado do Rio de Janeiro, os homens vivem até 62 anos e as mulheres até 74 anos, uma diferença de 12 anos. No Brasil, essa diferença é de 6 anos, a metade. No Rio, as mortes por causas violentas reduzem de 4,1 anos a expectativa de vida dos homens, em Pernambuco, de 3,5 anos, e em São Paulo, de 3 anos. O Rio tem 87 homens para cada 100 mulheres. 142 Como dizia o manifesto da campanha das mulheres Arma não! Ela ou Eu, vai faltar homem! Revelações de Brasil: as Armas e as Vítimas Os dados do DATASUS seguem padrões internacionais. Os números referentes ao Brasil que aqui expomos, bem como gráficos, foram elaborados pela médica especialista em vitimização do ISER, Luciana Phebo, utilizando as estatísticas de 2002, e sua análise está em Impacto da Arma de Fogo na Saúde da População no Brasil. 143 Para a pesquisadora, as violências e os acidentes são passíveis de prevenção, apesar de facilmente se pensar o contrário. Primeiro, por resignação passiva, entende-se que são como fatos da vida. São vistos como eventos imprevisíveis e, portanto, impossíveis de serem prevenidos. Segundo, porque estão cada vez mais freqüentes e banalizados, e o que é comum muitas vezes não é visto como prioridade. Finalmente, a sociedade ainda não respondeu adequadamente aos acidentes e violências, apesar de serem a principal causa de morte da população jovem do país. (...) Através da proposta de saúde pública, lesões e mortes por arma de fogo são tão passíveis de prevenção quanto qualquer outro acidente e violência. A violência armada não é um fato inevitável dos tempos modernos. Podemos preveni-la. Mortalidade Maioria das mortes por arma é homicídio

49 Para Phebo, em 2002, no Brasil, 90,0% das mortes por arma de fogo foram homicídios, enquanto 3,6% foram suicídios. As mortes por arma de fogo cuja intencionalidade não foi determinada representaram 5,6%, e 0,8% das mortes foram atribuídas a acidentes. A cada dia, [em média] quase 94 pessoas morrem por homicídio, 4 por suicídio e 1 por acidente. Todas vítimas de arma de fogo. A taxa de homicídio por arma de fogo é 20,8 e de suicídio 0,8 por habitantes. Nos Estados Unidos, em 2000, essas mortes apresentaram um perfil diferente: 58% suicídio, 39% homicídio, 3% de intencionalidade desconhecida ou acidental. Neste aspecto, o Brasil apresentou o padrão de países menos desenvolvidos, onde há mais homicídios que suicídios. Aqui, as mortes por arma de fogo são, em sua grande maioria, os homicídios, como os gráficos adiante ilustram (N= número de mortes pesquisado; Causas Externas são, por exemplo, por arma de fogo, acidentes, envenenamento, afogamento, queimadura etc.). Armas matam mais que acidentes de trânsito Ainda segundo Phebo, em 2002, houve mortes por acidentes e violências. Destas, 30,1% foram cometidas por arma de fogo, sejam por motivos não intencionais (acidentes) ou intencionais (homicídio e suicídio), e 25,9% em virtude de acidentes de trânsito. Apesar do Brasil ser um país eminentemente rodoviário, e do uso de arma ser mais restrito que o do automóvel, o número de mortes por arma de fogo (38.088) supera os de acidente de trânsito (32.753). No Brasil, morre-se mais por arma de fogo do que por acidente de trânsito. Ao comparar 57 países, a UNESCO concluiu que em apenas 6 países isso sucede, entre eles no Brasil. 144 [ gráficos excluídos ] Taxa de mortalidade por arma de fogo triplicou Segundo a pesquisadora, em 1982, a taxa de mortalidade por arma de fogo foi de 7,2 e, em 2002, passou a ser de 21,8 mortes por habitantes. Este aumento foi constante e regular nesse período. Porém, ao analisar as regiões do país nos últimos 10 anos, verificam-se variações significativas. A região Norte foi a única que apresentou um decréscimo de 8,3%, no Nordeste houve um aumento de 25,7%, no Sudeste cresceu em 54,1%, no Sul do país, 28,8% e a região Centro-Oeste foi a que apresentou o maior aumento de todas regiões, 57,0. Durante os últimos 20 anos, a taxa de mortalidade por arma de fogo no Brasil triplicou, conforme ilustra o gráfico seguinte. [ gráfico excluído ] Comparando 3 momentos do Brasil, nos mapas abaixo, podemos constatar que a violência, nos últimos anos, não se limitou aos grandes centros urbanos, mas se alastrou para cidades de portes pequeno e médio, acabando com a esperança dos que buscam o interior para fugir à violência das grandes cidades. Em várias regiões do interior, as taxas de assassinatos ultrapassaram em muito a média nacional de 21,2 homicídios por arma de fogo por 100 mil habitantes. Essa expansão se deu ao longo das rodovias, que transportam armas, drogas e outros contrabandos, cruzando o país através de dezenas de postos policiais que mal cumprem sua função de fiscalizar. Foi medido o aumento da violência, e elas apontam para as cidades à margem de rodovias, como as que vêem dos Estados fronteiriços de Mato Grosso e Rio Grande do Sul, ou que levam a regiões dominadas pelo crime organizado, como o polígono da maconha, em Pernambuco, por exemplo. Nos mapas a seguir, as taxas de mortes por projétil de arma de fogo (PAF) são relativas a 100 mil habitantes e a referência ao ano 2000 se aplica a 1991 e [ mapa excluído ]

50 Homicídios nos Estados e capitais Nas capitais As mortes por arma de fogo devido a homicídio nas capitais brasileiras são apresentadas na tabela a seguir da seguinte forma: número de mortes por homicídio, taxa de homicídio, número de homicídios por arma de fogo e percentual e taxa dos homicídios por arma de fogo (PAF = Por Projétil de Arma de Fogo). 145 Homicídios nas capitais dos Estado, 2002 Capital Estado Homicídios População Taxa de Homic. Homic. PAF % homic. PAF Taxa homic. PAF 1 Recife Pernambuco , ,6 57,3 2 Vitória Espírito , ,6 Santo 3 Rio de Janeiro Rio de Janeiro , ,5 44,2 4 Maceió Alagoas , ,3 40,2 5 Porto Velho Rondônia ,9 35,8 6 Cuiabá Mato , ,3 35,5 Grosso 7 São Paulo São Paulo , ,1 34,4 8 Salvador Bahia , ,2 32,8 9 Belo Minas , ,2 28,8 Horizonte Gerais 10 João Pessoa Paraíba , ,2 28,6 11 Aracaju Sergipe , ,4 27,1 12 Porto Rio Grande ,8 26,1 Alegre do Sul 13 Brasília Distrito , ,8 Federal 14 Campo Mato , ,7 Grande Grosso do Sul 15 Curitiba Paraná , ,3 20,5 16 Goiânia Goias , ,2 20,2 17 Florianópolis 18 Rio Branco Santa Catarina 19 Natal Rio Grande do Norte , ,9 19,8 Acre , ,3 19, , ,6 16,6 20 Fortaleza Ceará , , Belém Pará , ,3 14,2 22 Macapá Amapá , ,5 13,2 23 Boa Vista Roraima , ,7 10,9

51 24 Manaus Amazonas , ,4 10,3 25 Teresina Piauí , , Palmas Tocantins , ,1 7,5 27 São Luís Maranhão ,3 7,5 Total , ,3 29,6 Fontes: ISER-SAS/ICCO, S.I.M.- DATASUS Nos Estados Quanto aos Estados, os dados referentes às capitais foram excluídos para que a comparação entre eles pudesse ser estabelecida, como é mostrado na tabela seguinte. Suicídios 1. Brasil Estado Homicídios Homicídios nos Estado, 2002 População Taxa de homic. Homic. PAF % Homic. PAF Taxa homic. PAF 1 Rio de Janeiro , ,6 48,6 2 Pernambuco , ,3 45,3 3 Espírito Santo , ,8 38,3 4 Rondônia , ,8 28,2 5 São Paulo , ,7 26,1 6 Alagoas , ,5 24,9 7 Mato Grosso , ,3 22,9 8 Distrito Federal , ,0 21,9 9 Sergipe , ,5 21,9 10 Mato Grosso , ,9 20,1 11 Goiás d S l , ,8 17,4 12 Paraná , ,6 16,0 13 Bahia , ,4 14,8 14 Roraima , ,0 14,1 15 Rio Grande do , ,9 13,7 16 Paraíba S l , ,8 12,3 17 Acre , ,1 11,4 18 Minas Gerais , ,3 11,3 19 Pará , ,8 10,8 20 Ceará , ,7 9,8 21 Amapá , ,3 9,7 22 Rio Grande do , ,1 9,5 23 Tocantins N t , ,5 7,2 24 Amazonas , ,7 6,8 25 Santa Catarina , ,0 6,2 26 Maranhão , ,8 4,6 27 Piauí , ,3 4,2 Brasil , ,9 20,8 Fontes:ISER-SAS/ICCO,S.I.M.-DATASUS, PNAD IBGE

52 Ocorrem cerca de 4 suicídios com arma de fogo por dia no Brasil. Em 2002, foram mortes dessa natureza. A arma de fogo é o segundo método utilizado em nosso país para se cometer suicídio (o primeiro é o enforcamento). Para homens, é o primeiro. 26% de todos os suicídios por arma de fogo são cometidos pela população de 15 a 24 anos. Segundo o ministério da Saúde, aumentou em cerca de 40% o número de jovens de 15 a 24 anos que tentaram se suicidar no Brasil entre 1993 e O suicídio já é a terceira causa de morte de jovens depois de homicídios e acidentes de trânsito. 2. O caso do Rio Grande do Sul O Estado com maior taxa de suicídio por arma de fogo é o Rio Grande do Sul, não por coincidência a unidade da Federação com maior tradição de uso de armas no país. É também o Estado com maior venda legal de armas, das fábricas para as lojas especializadas: Enquanto essa venda caiu em todo o país, no Rio Grande subiu de 186,3 armas por 1000 domicílios em , para 276,5 no período Uma demonstração de que a legalidade das armas não inibe esse tipo de morte, só a estimula. Alguns parlamentares gaúchos gostam de apresentar o Rio Grande do Sul como o Estado com maior índice de armas, e muito menos violento que o Rio e São Paulo. Ignoram as diferenças entre um contexto e outro. No Rio e em São Paulo, a proliferação de armas se combina com o desenvolvimento muito mais acentuado do narcotráfico, de seu poder corruptor e da violência que gera; é muito maior a crise urbana, as desigualdades, o desemprego e a exclusão da juventude pobre. É a soma de fatores como estes que explica um índice maior de homicídios. Mas como o Rio Grande do Sul tem uma cultura de valorização do uso de arma tradicional e mais disseminada, e uma grande proporção de cidadãos armados. Por isto, o Estado ocupa tristemente o primeiro lugar no número de suicídios com arma de fogo: Em 2002, apresentou a maior taxa de suicídio (10,5) e a segunda maior proporção de uso por arma de fogo em suicídio (28,0%). Sua taxa de suicídio foi 2,2 vezes superior à média dos Estados brasileiros (4,7/ hab.) e sua taxa de suicídio por arma de fogo foi 3,6 superior a dos Estados brasileiros (0,8/ hab.). Em 2002, tanto a sua taxa de suicídios quanto a proporção de uso de arma de fogo em suicídios foram superiores no interior do Estado. 147 Em Porto Alegre, 37,1% dos suicídios são cometidos com arma de fogo, quase o dobro da média das demais capitais (17,8%). Os referidos parlamentares deveriam estudar melhor a realidade do seu Estado antes de apresentá-la como exemplo de tranqüilidade armada. O gaúcho é um povo maravilhoso, o Rio Grande do Sul têm muitas e grandes qualidades, mas não essa. O dia em que também forem realizadas pesquisas nesse Estado sobre os outros índices relacionados à arma de fogo, como homicídio de mulheres, brigas no trânsito e nos bares, armas e munições desviadas das fábricas para o mercado ilegal, contrabando nas fronteiras com o Uruguai e a Argentina, abastecendo o crime organizado, inclusive do narcotráfico no Rio e em São Paulo, então se terá uma melhor idéia das consequências trágicas da disseminação das armas no Rio Grande do Sul para o Estado e para o país. Já vimos que 63% das armas apreendidas no Estado do Rio na ilegalidade são das marcas gaúchas Taurus e Rossi. O pior é que nem os propalados benefícios trazidos pela indústria de armas ao Estado compensam. Afora os empregos que o Grupo Taurus oferece (em que

53 as armas fabricadas pela Forjas Taurus são um setor minoritário da produção do Grupo), e que não valem as mortes anuais causadas em sua maioria por essas armas, a produção de sua fábrica somada não chega a 0,2% da economia do Estado (ver em A verdade sobre a indústria nacional e O desarmamento vai levar ao desemprego? ). Felizmente, é cada vez mais forte a mobilização de setores da sociedade gaúcha em favor da substituição de uma tradição que glorifica a violência, por um estilo de vida democrático. É o que se vê, por exemplo, pelo trabalho da ong Educadores para a Paz, dirigida pelo incansável Padre Marcelo Guimarães, que liderou no país a luta pela proibição das minas terrestres, e agora, com outras entidades, participa do desarmamento no Estado. 3. Outros países e efeito de substituição Na Finlândia, 50% das casas têm armas. 148 No período , das mortes por arma de fogo, 85% foram suicídios, 11% assassinatos, 2% acidentes e 2% tiveram causa ignorada. 149 Pode-se achar que, se uma pessoa deseja se suicidar e não dispõe de arma de fogo, irá usar outro recurso, o que tornaria indiferente a existência da arma, o chamado efeito de substituição. Mas o uso de arma de fogo faz uma grande diferença. Analisando a relação arma de fogo/suicídio em todo o mundo, o Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra concluiu: Armas de fogo são o mais letal instrumento para o cometimento de suicídio: 93% das tentativas de suicídio com esse instrumento têm sucesso, comparadas com apenas 30% se usado outro instrumento. 150 Pesquisas feitas nos EUA comprovam essa avaliação: - 70% dos suicídios com arma de fogo foram cometidos com arma de mão. Foi comprovado que só 10 % dos suicídios com arma de fogo foram cometidos com arma comprada especificamente com essa intenção O fato de a taxa de suicídios ter duplicado nos últimos 30 anos têm como principal razão o aumento dos suicídios com arma de fogo. Seu uso para cometer suicídios por adolescentes foi 74,5 maior em casas onde tinha arma do que em casas onde não tinha. Mesmo condições seguras para guardar a arma não evitaram que se cometessem suicídios com armas de fogo As tentativas de suicídio com arma de fogo acabam em morte em 85% dos casos 153. Nas tentativas de suicídio com outros meios (enforcamento, monóxido de carbono [escape de carro], envenenamento, pílulas, corte), somente de 10 a 15% dos casos têm um desfecho fatal Suicídio de idosos O Uruguai vive há anos uma severa crise econômica, com uma população de idosos muito grande, combinações de fatores que tem levado a sérios problemas de depressão. Sua tradição rural e lei frouxa tornaram comum a posse de armas, como no seu vizinho Rio Grande do Sul. O resultado nos foi relatado pela deputada Daisy Tourné, autora de projeto de lei apresentado ao Congresso uruguaio e inspirado em nosso Estatuto: 85% das mortes por arma de fogo acontecem dentro de casa. A metade dos suicídios, de um total de 450, em 1999, foi cometida com arma de fogo. Quase a metade deles foi cometida por pessoas acima de 50 anos. 155 Os dados por nós reunidos só confirmam as pesquisas do médico David Hemenway, da Universidade de Harvard, que adverte: "onde há mais armas de fogo, há mais suicídios". 156 Ferimentos

54 Antes, havia mais feridos que mortos por arma de fogo, como na guerra. Agora, temos por ano 2 vezes mais mortos que feridos por arma de fogo. Em 2002, foram internações por lesões de arma de fogo, para mortes. Entre nós, as armas matam mais do que ferem. Segundo Phebo, mesmo sendo por acidente, ou seja, sem a intenção de ferir, as lesões causadas por arma de fogo normalmente são tão graves que levam à internação hospitalar. No Brasil, a cada 3 pessoas que se hospitalizaram devido a lesões por arma de fogo, uma foi por uso acidental da arma. No caso de crianças e pré-adolescentes (de 0 a 14 anos), mais da metade (54%) das internações foram devidas a acidentes com arma. Para a Associação Brasileira Beneficiente de Reabilitação (ABBR), quase a metade (174) dos 386 pacientes atendidos em 2004 foi atingida por arma de fogo. Como conseqüência, essas vítimas ficaram tetraplégicas ou paraplégicas. A maioria, cerca de 70%, tem entre 20 e 40 anos e é do sexo masculino (80%). 11. As mulheres estão mais seguras com armas? Os defensores do uso de armas dos EUA afirmam que sim: Armas de fogo são o meio de defesa mais eficiente. Isso é particularmente importante para as mulheres, os idosos, os fisicamente débeis, e para todo aquele que está mais vulnerável a predadores masculinos com vícios e que são mais fortes. 157 Os pró-desarmamento contestam: O truque aplicado pela indústria de armas contra as mulheres é dizer: se você é mulher, um estranho vai tentar lhe estuprar e você deve comprar uma arma para se defender. Na verdade, as mulheres sofrem mais risco de serem atacadas por conhecidos. De acordo com o Centro Nacional de Vítimas, 75% de todos os estupros foram praticados por agressores que conheciam a vítima, como vizinhos, amigos, maridos, namorados e parentes. 158 Estados Unidos: resultado das pesquisas Diante da escassez de estudos sobre a violência armada contra as brasileiras, tomemos a título de exemplo os resultados de algumas pesquisas (resumidos pelo Violence Policy Center, de Washington), buscando responder à seguinte pergunta: Estarão as mulheres mais seguras se tiverem armas de fogo? : - Vários fatores podem aumentar os riscos de uma mulher ser morta pelo seu marido, mas um deles é o acesso à arma de fogo, que a faz correr um risco 5 vezes maior ; Das mulheres atendidas nas emergências dos hospitais devido à violência das armas, só 14% tinham sido agredidas por um estranho ; Em 2000, de todos os homicídios com arma de fogo onde a relação entre vítima e autor era conhecida, 8% dos autores eram parentes da vítima, 16% parceiros íntimos e 45% conhecidos. Só 31% das vítimas de homicídio foram assassinadas por desconhecidos. No caso de homicídios de mulheres com arma de fogo, 58% o foram por seus parceiros íntimos ; Pesquisa comparou homicídios de mulheres e níveis de posse de armas em 25 países desenvolvidos. Conclusão: quanto mais armas, mais mulheres mortas. Assim, os EUA têm 32% do total de mulheres desses 25 países, e registram 70% de todos os homicídios de mulheres e 84% de todas as mulheres mortas por arma de fogo; Um conflito doméstico com arma tem 12 vezes mais chances de resultar numa morte do que um conflito doméstico onde usou-se outro tipo de arma ; Trauma provocado por arma de fogo é um sério problema de saúde pública que afeta as mulheres. Elas têm o direito de se sentirem seguras em seus lares e comunidades. Mas, uma arma de fogo em casa aumenta as chances de uma mulher ser vítima de tiro. Portanto, é essencial que as mulheres entendam o perigo que representa para elas e para sua família a existência de uma arma em seu lar, antes de se decidir a comprar uma. 164 Como é em outros países?

55 - A nível internacional, o assassinato de mulheres por seus cônjuges atingem entre 40% e 70% do número total de homicídios; Em El Salvador, entre setembro de 2000 e dezembro de 2001, 98% dos homicídios de mulheres foram cometidos pelos seus maridos ou parceiros; No Canadá, desde 1974, em média 40% das mulheres assassinadas pelos seus maridos foram vítimas de arma de fogo, quase sempre (88% dos casos) com armas legais.(ministério da Justiça do Canadá, 1992); No Canadá, 85% das mulheres vítimas de homicídio são mortas pelos seus parceiros (versus 15% dos homens). 168 Impacto do controle de armas Segundo a nova lei de controle de armas da África do Sul, regulamentada em 2004, o direito de adquirir uma arma é negado a quem tiver antecedentes criminais, incluindo violência doméstica. No Canadá, a atual ou ex-esposa do solicitador da arma é consultada para que ele seja autorizado a efetivar a compra; se for denunciado como violento, não poderá adquirir a arma. Como as armas estão registradas num banco de dados, qualquer denúncia de violência cometida por um proprietário de arma leva a polícia a confiscar a arma do acusado. Na Nova Zelândia, é preciso contar-se com a autorização do cônjuge ou pessoa mais próxima da família, e de uma outra referência que tenha mais de 20 anos e não seja da família (Arms Act, 1983). Na Austrália e na África do Sul, a polícia pode consultar terceiros para determinar se o comprador da arma reúne as condições para possuí-la. Sendo normalmente o homem quem adquire e usa indevidamente as armas, as leis desses países lhe retira uma supremacia que o permitiria ameaçar a segurança da família. Alguns resultados desse controle: - Na Austrália, 5 anos depois da nova lei de controle de armas de 1996, a taxa de homicídios de mulheres por arma de fogo despencou 57%; Entre 1995, quando o Canadá começou a reformar suas leis de armas, e 2003, a taxa de homicídios de mulheres por arma de fogo caiu 40%. 170 Brasil: O inimigo dorme ao lado No Estado do Rio, só no ano passado, as queixas de agressão contra a mulher registradas nas Delegacias de Atendimento à Mulher somaram ocorrências. Estima-se que menos de 20% das agressões sejam registradas. Segundo a socióloga Ana Paula Miranda, presidente do Instituto de Segurança Pública do Estado, o agressor, na maior parte dos casos, é alguém conhecido. É preciso desmontar o mito de que eles são pessoas desconhecidas. O risco está próximo. Dentre as mulheres que sofreram lesão corporal dolosa, 85,8% foram vítimas de pessoas conhecidas, sendo 53,8% de maridos. O agressor mais freqüente é alguém com quem a vítima convive, seja marido, namorado, parente, vizinho ou colega de trabalho. 171 Para Anna Maria Rattes, presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro, na maioria das vezes o inimigo dorme ao lado. Pesquisas sobre o uso de armas contra as mulheres são quase inexistentes no Brasil, como se o problema não existisse. Mas o pouco que se sabe revela que a situação das brasileiras não é melhor do que a das norte-americanas, e deve ser pior, considerando-se o maior grau de machismo em nossa cultura: - Nas capitais brasileiras, 44,4% dos homicídios de mulheres são cometidos com arma de fogo; Calcula-se que, no país, dois terços das agressões contra a mulher sejam cometidas por seu cônjuge; No Brasil, a partir de dados do relatório da ONU de 1997, 46% dos casos onde o marido ou namorado matou a mulher, foi com arma de fogo. 174

56 Tese de pós-graduação da USP assim avaliou a situação da violência armada contra as mulheres no município de São Paulo: Cerca de 39% dos homicídios de mulheres, cuja autoria era conhecida, foram cometidos no interior de relações familiares. Trata-se de fenômeno mundial, presente em todas as camadas sociais e relacionado a tensões da vida cotidiana e da dinâmica familiar. Em razão disso, suas repercussões atingem física, psicológica e profissionalmente não só as mulheres vitimadas, mas também os demais participantes dos grupos em que elas se inserem. Segundo diferentes estudos, filhos dessas mulheres estão três vezes mais propensos a visitas médicas, hospitalização, baixo rendimento escolar, instabilidade emocional, além de maior probabilidade na reprodução de comportamentos violentos. 175 A cultura feminina A mulher está muito menos sujeita que o homem à cultura machista, que valoriza desde menino o uso da força e das armas na resolução de problemas, em detrimento da negociação. Para uma analista, a mulher não concebe a arma de fogo como instrumento de autodefesa, mas antes como uma ameaça à sua integridade física. Diante de situações de conflito (...), ela aprende a resolvê-los através da palavra. 176 É verdade que o uso de armas é um problema masculino: é o homem que mata e que morre por arma de fogo. Mas as mulheres são as segundas vítimas dessa insensatez dos homens: quando estes morrem a tiros, ou vão presos por matar, o problema sobra para a mulher. Cabe a ela o sustento da família (e do preso), o difícil papel de administrar o sofrimento e o trauma, de impedir que a família se desestruture. Não seria exagero afirmar que por trás de um homem morto por arma de fogo há sempre a dor de uma mulher. A simples constatação do que sucede com a família depois da morte violenta de um de seus membros, leva a mulher a ter horror de arma. Atitude normalmente ironizada pelo homem, que se refere com desdém ao sexo frágil, na verdade mais realista e nada frágil quando se trata de segurar o estrago feito pela irresponsabilidade masculina. As mulheres, com sua vivência concreta das conseqüências do uso de armas, e seu sentido de proteção da família, são as grandes aliadas do desarmamento. Mas é forçoso admitirmos que uma nova sub-cultura está surgindo nas comunidades dominadas pelo crime organizado. Faltam pesquisas, mas percebe-se que o meio onde os delinqüentes são os líderes, na ausência de outros modelos de sucesso, estimula as moças a valorizarem a arma, como símbolo de poder. A glamourização do bandido, também nas rodas de pitboys e pitgirls das classes média e alta, está levando à mesma mudança de valores, contrária à tradicional aversão da mulher pelas arma de fogo. Essa percepção é confirmada pelo ministério da Saúde: Embora os homens de 20 a 29 anos sejam as principais vítimas de arma de fogo, é cada vez maior o número de mulheres nessa situação. As adolescentes de 15 a 19 anos aparecem cada vez mais entre as vítimas. Está havendo uma mudança de perfil, pois estas jovens estão se engajando no crime e se expondo mais à violência. 177 Arma não! Ela ou eu. Na campanha de desarmamento realizada pelo Viva Rio em 1999, perguntávamos a quem vinha entregar arma, geralmente homens, por que o estava fazendo. Em sua maioria, diziam que estavam sendo pressionados pela mulher, mãe, avó, filha ou namorada. Algumas mulheres tinham a iniciativa de entregar a arma do falecido marido, do filho, que anda em más companhias, ou do irmão, que anda fazendo besteira. Essa experiência nos comprovou como elas são mais sensíveis ao risco representado pela arma.

57 Em 2001, o Viva Rio lançou as campanhas Mãe, desarme o seu Filho e Arma não! Ela ou eu, baseadas na capacidade das mulheres de convencimento dos homens. O símbolo da campanha uma bala em forma de batom foi uma colaboração do publicitário Washington Olivetto a partir de uma concepção do cartunista Miguel Paiva. [ ilustração Excluída ] Várias artistas participaram voluntàriamente da campanha: Regina Casé, Malu Mader, Maria Paula, Fernanda Torres, Thelma de Freitas, Betty Gofman, Ângela Figueiredo, e uma mãe de vítima, Wilma Melo. Elas gravaram pequenos filmes para a TV, feitos gratuitamente pela agência WBrasil. O quadro interpretado pela Maria Paula, a impagável musa do Planeta & Casseta, expôs o machão ao ridículo: ironizou a insegurança de certos homens que por não serem bem dotados acabam compensando o complexo de inferioridade pelo uso de armas potentes. Foi um sucesso. Descontruiu-se o mito da masculinidade como sinônimo de brutalidade. Apontou-se o que a psicanálise há tempos ensina: a insegurança sexual muitas vezes está na origem das atitudes agressivas do macho man. Lembram-se da publicidade do DETRAN contra alta velocidade, em que a atriz Irene Ravache relacionava a mania de correr com impotência sexual? Armas e feminismo Algumas mulheres entendem que, para se defender da violência masculina, devem agir como os homens e defender-se com armas. Temem principalmente o estupro. Esse feminismo, que consiste em incorporar o negativo da cultura machista, não constrói relações diferentes, pelo contrário, perpetua o que há de negativo nesse tipo de relação desigual. No caso da autodefesa, ao copiar um procedimento equivocado, as mulheres obtêm o resultado oposto ao desejado e aumentam o risco que correm. Algumas mulheres nos perguntaram: Não deveríamos andar armadas para nos defender de estupradores? Considerando-se que a mulher esteja armada, quais os cenários possíveis, em casa ou na rua? Ela poderá se defender se pressentir o assalto antes da agressão, o que é raro. O mais provável é que o agressor esteja armado e aja de surpresa, situação em que a mulher não leva a menor chance. Se ele não estiver armado, leva alguma, mas a mulher corre o risco de ter a sua bolsa, ou a sua casa, vasculhadas e, encontrada a arma pelo assaltante, vê-la usada contra si. Se a agressão for dentro de casa, terá que considerar todos os demais riscos que uma arma acarreta para a família e para ela. Outras considerações: Muitos homens nem precisam usar a arma para se impor à mulher; basta tê-la ao seu alcance, como ameaça constante; As campanhas de desarmamento da Austrália, Grã-Bretanha, Estados Unidos, Canadá, África do Sul e Alemanha são lideradas por mulheres; A campanha internacional do laço branco, 178 direcionada à violência masculina contra a mulher, teve origem num episódio ocorrido em , em Montreal. Inconformado porque

58 havia sido reprovado para a Faculdade Politécnica, um homem invadiu o curso, mandou sair os homens, e fuzilou 14 mulheres, porque não podia admitir que mulheres fizessem esse curso masculino, para o qual ele não havia conseguido entrar. No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, a Anistia Internacional divulgou relatório que adverte: Costuma-se afirmar que as armas de fogo são necessárias para proteger as mulheres e a família, mas a realidade é muito diferente. Ser mulher em um mundo onde não se respeitam seus direitos e onde o comércio de armas está descontrolado, representa um risco maior de morrer. Essa é uma combinação letal Cultura da violência Mídia e violência É constante a polêmica sobre a real influência da mídia no incentivo à violência, em particular da TV e dos vídeo games. Alguns especialistas sustentam que a veiculação persistente de programas violentos acaba por condicionar o comportamento, principalmente de crianças. Outros contestam, afirmando que as crianças sabem distinguir perfeitamente entre fantasia e realidade, e a violência fictícia funcionaria como um escape para a agressividade natural das pessoas. Acreditamos que os que acham irrelevante o papel negativo da mídia tomam como exemplo crianças de famílias bem estruturadas, que freqüentam boas escolas, encontrando nessas instituições contraponto e consciência crítica para colocar a fantasia em seu devido lugar. Temos visto o efeito enorme de programas violentos em crianças de rua, que não têm blindagem alguma e acabam por imitar o comportamentos das personagens, na falta de bons modelos de adultos a imitar em casa. O caso mais conhecido é o de Sandro do Nascimento, exsobrevivente do massacre da Candelária 180, que seqüestrou o ônibus 174, no Rio, em No assalto, enquanto ameaçava com um revólver os passageiros, Sandro se comparou várias vezes à personagem do filme Velocidade Máxima, com Keanu Reeves, em que um ônibus é seqüestrado. Nos EUA, os exemplos são inúmeros. Investigações levaram o FBI a concluir que o homem que tentou matar o presidente Reagan, e acabou ferindo seu assessor Brady, se inspirou no filme Taxi Driver, de Martin Scorsese. Charles Manson assassinou de forma diabólica Sharon Tate, grávida do cineasta Roman Polanski, inspirado no seu filme Bebê de Rosemary. Os dois estudantes que realizaram o massacre na escola de Columbine eram fans do vídeo game Doom e, em vídeo que deixaram gravado, expressavam seu entusiasmo pelo filme Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. A última novidade em videogame é JFK Reloaded, que permite ao usuário simular o assassinato do presidente Kennedy, fuzilado em No Brasil, o estudante Mateus Meira, que metralhou 9 pessoas enquanto assistiam a Clube da Luta, de David Fincher, havia visto este filme dias antes, e gostado muito, conforme seu depoimento. Segundo a Academia Americana de Pediatria, ao completarem 18 anos, os jovens dos EUA já viram em média atos de violência na TV. 181 Este tipo de programação da TV foi considerada de forte influência sobre crianças e jovens pela Academia. De acordo com o IBOPE, pessoas de 4 a 17 anos assistem em média 3,5 horas por dia de televisão no Brasil. 182

59 Difícil imaginar que alguns jovens não se deixarão levar por atitudes violentas depois de intoxicados por tanto estímulo destrutivo. Se até os homens adultos se deixam contagiar pela fantasia do cinema, imagine-se as crianças, que estão na idade de misturar magia e realidade, com suas brincadeiras de bandido e mocinho (polícia e bandido, nas favelas) e com seu fascínio pelo proibido? E criança é muito curiosa. Se descobre até a revista Playboy que o pai escondeu, da mesma forma encontra a arma escondida. Escolas da Califórnia estão levando seus alunos a visitarem necrotérios, para que vejam mortos por arma de fogo, mas de verdade. A morte real, não a morte virtual, a morte limpa e glamourizada da ficção, em que os baleados parecem dormir, mortos saem de cena e bandidos caem em silêncio. Ao verem o corpo das vítimas de tiro real, compreendem a diferença entre fantasia e realidade. Cabeças destroçadas, membros arrancados, intestinos dilacerados, dãolhes a medida do efeito brutal das potentes armas modernas, que não provocam um pequeno orifício, mas explodem as vítimas. Ultimamente, o cinema está se aproximando mais da violência real. Exemplo é O Resgate do Soldado Ryan, onde a invasão da Normandia é retratada com realismo, sangue espirrando e pedaços de corpos sendo arremessados. No caso dos jovens nos necrotérios da Califórnia, eles se encontram face à face com a morte, sentem seu cheiro, as deformidades provocadas pelas balas. Os jovens podem, então, deduzir como foi o momento do tiro, a carnificina, os gritos de dor, a cara horrenda da morte, bem diferente da trilha musical que dá emoção ao silêncio da morte fictícia. Os estudantes saem do necrotério e não querem mais saber de arma. Como diria Cazuza, eu vi a cara da morte e ela estava viva. Mídia democrática: Mulheres Apaixonadas Se a grande incentivadora da violência é a mídia, que de forma constante exalta o uso da força, a grande aliada na construção de uma sociedade pacífica tem que ser essa própria mídia. É preciso esclarecer milhões sobre a superioridade dos métodos democráticos e pacíficos de resolução de conflitos, o que só pode ser feito através de informação massiva. Diferentemente de outros países, em que o lobby das armas compra o silêncio e a cumplicidade das grandes empresas de comunicação, no Brasil a maioria dos jornalistas tem agido com independência, e divulgado as pesquisas e informações produzidas pelos centros de pesquisa sobre os efeitos do uso de armas de fogo. Os números da realidade confirmam a necessidade do desarmamento, e por isto o lobby dos empresários de armamento evita o debate, por anos impediu a discussão do tema no Congresso Nacional e se mobilizou contra a consulta popular do referendo. O universo oculto do comércio de armas e munições, que vive do desvio, do contrabando e da corrupção, movimentando milhões, foge da luz, resiste à fiscalização e quer continuar operando na sombra. Correu mundo o papel da TV Globo, expondo a controvérsia sobre o uso de armas e seus riscos para o grande público. Além dos noticiários, um feito surpreendente ocorreu na novela Mulheres Apaixonadas, quando o roteirista Manoel Carlos introduziu o tema no enredo, levando o debate para milhões de lares brasileiros. Os artistas da novela acabaram participando, como personagens, da marcha Brasil sem Armas. Organizada pelo Viva Rio em 14 de setembro de 2003, com apoio de muitas instituições civis, apesar da chuva e do frio, a caminhada levou

60 cerca de pessoas à praia de Copacabana para exigir a aprovação do Estatuto do Desarmamento. A mídia internacional considerou a marcha um incrível exemplo de combinação entre o virtual e o real, demonstrando como os meios de comunicação podem contribuir para conscientizar e fortalecer uma bela causa, como a do desarmamento. Telecurso do crime O Estatuto trata da mídia em seu art. 33 (ver Estatuto em Anexos). Mas aí multa-se apenas empresas de produção ou comércio de armas que façam publicidade indevida, e não publicações que, por iniciativa própria, incentivem, e mesmo ensinem, o uso de armamento proibido por civis. Por exemplo, a Editora Escala lançou uma nova revista sobre armas, Shoot, cujo primeiro número veio acompanhado por um vídeo. Esse filme está sendo usado como material didático pelo narcotráfico para treinar seus membros. Esta denúncia foi feita por um pastor evangélico, obrigado a ceder sua igreja, na Favela Ipiranga, Niterói, como sala de aula para o crime organizado. 183 No vídeo, um instrutor, com touca ninja de bandido para lhe esconder a identidade, ensina a usar e desmontar armamento proibido para uso civil. Isto é, os bandidos podem comprar em banca de jornal manual de instrução de armas de uso exclusivo da polícia e dos militares, que usam no cometimento de crimes e no enfrentamento com a polícia. Pode? É um caso claro de insuficiência da lei, ou a lei está a exigir uma interpretação jurídica que imponha limites ao que as revistas especializadas publicam. Trata-se de um curso sobre armamento proibido. Seria o mesmo que permitir-se a venda de manuais de refino de cocaína, ou de fabricação de bombas. Isso é apologia do crime. Armas de fogo e cultura na América Latina O Brasil e a América em geral não têm uma tradição pacífica de convívio social e de resolução de conflito. A exceção é Costa Rica, que em 1948 aboliu suas Forças Armadas, investiu maciçamente em educação pública e cultura de paz, e conta por isso mesmo com baixo índice de homicídios por arma de fogo: 3,3 homicídios por 100 mil habitantes, em Em contraste com a taxa para a América Latina e Caribe, de 15,5, 185 e para o Brasil, de 20,8. Nossa herança é de brutalidade, intolerância e uso da força. Como dizia o ensaísta mexicano Octávio Paz, na América Latina, o Estado é forte com os fracos e fraco com os fortes. Essa tradição só fez se exacerbar durante os longos períodos de ditadura, que foi muito mais a regra que a exceção na América Latina. Como resultado desse passado de despotismo, desenvolveram-se valores típicos de sociedades de economia escravista ou envolvidas em guerras. O extermínio dos índios, o flagelo dos escravos, a subjugação da mulher, a rudeza das atividades de guerra, do sertão, dos pampas, dos seringais, criaram um protótipo de homem macho, como é o caubói para os norte-americanos. Este modelo valorizou o uso da força para resolver litígios e a arma de fogo foi o seu instrumento por excelência. O contexto da época explica o modelo, que se torna anacrônico quando se quer perpetuar na sociedade urbana e democrática de hoje. Desconstrindo o machismo A campanha Adeus às Armas 186, realizada na Espanha, foi pioneira em desconstruir esse modelo masculino, que glorifica a força, reprime os sentimentos, associa estupidamente a coragem ao risco, incapaz de entender o valor da vida. 187 A mística viril é desmascarada como subproduto da

61 prepotência e da insegurança, muitas vezes sexual ou profissional, e contrastada com um novo padrão de homem democrático, solidário, sensível e que privilegia o diálogo e a persuasão, no lugar da brutalidade e da porrada. A Espanha, com uma das tradições mais machistas do Ocidente, deu a volta por cima durante a democratização, e é hoje um dos países mais avançados no que diz respeito à legislação de proteção aos direitos humanos. No Brasil, a psicóloga Maria Tereza Maldonado pergunta: Homem é aquele que não leva desaforo para casa? Que paquera a menina puxando-a pelos cabelos para beijá-la à força? Que agride quem olha para a namorada para defender a propriedade? 188 O documento da Campanha da Fraternidade de 2005, das principais igrejas cristãs do Brasil, se preocupa com o que considera a formação machista do homem brasileiro, que o induz à violência: Ao mesmo tempo em que nega direitos às mulheres (...) impõe uma carga muito pesada sobre os homens; desde cedo, os meninos aprendem a não levar desaforo para casa e querem provar que não são fracos, produzindo-se níveis altos de estresse. 189 Sociedade rural e vida moderna Os que defendem o uso das armas como defesa são movidos muitas vezes por sentimento nostálgico em relação a um passado de menos violência no convívio social, embora ela tenha sempre prevalecido na política e no trato dos conflitos sociais. No fundo, têm em mente uma sociedade agrária, em que a segurança era muito mais privada que pública, onde a arma na cintura e o cavalo faziam parte do perfil masculino, na defesa da terra, contra as feras e na quase ausência de polícia pública. Mas há muita idealização desse passado, já que a violência contra a mulher, minorias étnicas e sexuais, pobres e opositores políticos, era considerada normal. Levando em conta as grandes diferenças de um Brasil continental, em seu art. 6 o, o Estatuto do Desarmamento foi flexível ao permitir o porte de arma para aqueles que dependem dela em áreas rurais desprotegidas, como por exemplo os seringueiros, como foi defendido durante os debates parlamentares pela deputada Perpétua Almeida (PC do B do Acre). No Acre, chegou-se a fazer uma campanha dizendo-se que o Lula vai tomar as armas dos seringueiros e mandar prender quem tiver arma. Nada mais falso. O uso de arma para caça de subsistência no campo e nas matas está garantido pela nova lei, bem como a posse de arma na residência urbana ou rural e local de trabalho: no interior de sua residência ou domicílio, ou dependência desses, ou ainda, no seu local de trabalho, desde que seja ele o titular ou o responsável legal do estabelecimento ou empresa. (ver art. 5º do Estatuto em Anexos). A hostilidade que impera na vida atual nas grandes cidades brasileiras pode-nos levar a compará-la erroneamente à sociedade rural. Nossa urbanização acelerada já é de 80% da população habitando as cidades. Se vivemos cada vez mais espremidos em pequenos espaços, em cidades super-populosas, ou construímos sistemas públicos de segurança satisfatórios, ou vamos sucumbir na degradação das relações humanas e na perda de nossa liberdade, em nome da segurança. E é aqui que surgem as propostas democráticas de modernização da polícia, controle de armas e cultura de paz. No extremo oposto, competem as soluções individualistas de autodefesa e vingança privada, a ênfase na repressão policial em detrimento da prevenção,

62 a glorificação da arma e da cultura belicista, todas levando para regimes liberticidas e à resolução violenta das desavenças. Educação e Violência Em segmentos retrógrados da sociedade, persiste a mentalidade de que a esposa e os filhos são propriedade do marido. Essa relação de posse pode chegar às raias da violação dos seus direitos básicos. Além de constituir-se numa covardia, a agressão ao menor pelos pais ignora a moderna pedagogia. Está-se, na verdade, moldando uma personalidade medrosa, submissa, dogmática, que aceita imposições por medo ao invés da obediência por convencimento. Provoca-se recalques de receio e desejo de vingança; ensina-se a resolver conflitos, realizar vontades e superar frustrações por meios violentos, que serão reproduzidos pelo resto da vida. Como bem adverte a Pastoral da Criança, quem bate para ensinar, está ensinando a bater. Conta-se o caso de um casal de brasileiros que, vivendo na Suécia, batia no filho educativamente. Para que os vizinhos não ouvissem os berros da criança, espancavam-na dentro do armário, porque uma denúncia de maus tratos levaria o casal a ser preso por violação aos direitos do filho. Maus tratos a crianças estão na origem do comportamento violento de muitos adultos. Pesquisa da Universidade de Harvard constatou que a chance de um adolescente cometer atos violentos com armas de fogo é praticamente o dobro se ele foi uma criança que testemunhou atos desse tipo. O fator violência na infância apresentou-se muito mais importante para determinar a agressividade na adolescência do que a pobreza, o uso de drogas ou o fato de o jovem ter sido criado por apenas um de seus pais. 190 Estudo recém publicado da Universidade de Michigan concluiu que adolescentes que foram testemunhas de violência armada têm duas vezes mais chances de cometer atos violentos que os demais. 191 Pesquisas anteriores já haviam comprovado que vivências na infância, seja como vítima da brutalidade, seja como testemunha de pais espancando mães, ensinaram crianças a se tornarem adultos que procuraram resolver problemas com violência e não de forma persuasiva. Esse ambiente de formação é a ante-sala do crime. Armas de Brinquedo O mais preocupante é que as mulheres, grandes vítimas da violência masculina, e normalmente avessas às armas, muitas vezes educam seus filhos como homens, na valorização de armas e no uso da força, sob o lema homem não chora. Daí a importância de se atingir diretamente as crianças através de campanhas de desarmamento infantil, buscando-se trocar o paradigma do herói armado, violento e destruidor, pelo herói que desarma, dialoga e é solidário com os demais. Em várias partes do país, iniciativas têm sido tomadas em que as crianças são estimuladas a trocar armas de brinquedo por jogos pacíficos. Têm-se promovido a destruição das armas de brinquedo com marretadas, como se está fazendo com armas verdadeiras entregues na Campanha de Desarmamento. Outra iniciativa, da Editora Abril e da Dinap, troca armas de brinquedo por revistas e livros infantis: em 41 cidades já foram recolhidas 412 mil armas de brinquedo. A campanha começou em 2001, em Barueri, na Grande São Paulo. A idéia surgiu de um jornaleiro membro do Conselho Comunitário de Segurança da cidade, quando viu uma criança apontar uma arma de brinquedo e atirar contra um ônibus. Em maio de 2005, o Viva Rio assinou convênio com a Editora Abril e a Dinap para levar a troca de brinquedos de guerra

63 por revistas a 42 cidades do Estado do Rio, e discussão da importância do hábito de leitura, e da valorização da paz, em 500 escolas do Estado. Em São Paulo, o ministério da Justiça e da Cultura transformaram armas recolhidas na Campanha de Desarmamento em brinquedos de parque infantil; o mesmo sucedeu em Nova Iguaçu, no Rio, cenário de recente chacina de vítimas inocentes. Em Curitiba, as crianças estão trocando suas armas por doces. Já em 1999, o Viva Rio havia realizado o concurso Arme uma frase, desarme o Brasil!, nas escolas públicas do Rio: o aluno vencedor em cada escola, e sua professora, ganharam um computador da IBM. Atualmente, o desenhista Otávio Rios ilustra histórias de seu personagem Cambito nos sites do Viva Rio, traduzindo o problema das armas para o universo infantil. Crianças esclarecidas não serão apenas futuros construtores da paz, mas conscientizarão seus pais. Tradição ou atraso? Entre nós ainda pesa o hábito de considerar a arma de fogo como mais um objeto doméstico, como seria um rádio ou uma faca, sem que haja o entendimento de que é um instrumento feito para matar, com facilidade e rapidez. É como deixar veneno em lugar de fácil acesso. É preciso levarmos em conta, em se tratando de hábitos, que há tradição boa e tradição obscurantista. A primeira deve ser preservada, mas a segunda se aferra a costumes ultrapassados, calcados em mitos, ignorância e preconceitos. Devem ser superados para que a sociedade avance. No caso da violência urbana, pesa a saudade dos tempos de tranqüilidade, e sua associação à época em que era frouxo o controle de armas, pois raros eram os assaltos e homicídios. Porém, não entender a transformação da sociedade pode nos levar a repetir hábitos que se tornaram inadequados num mundo inseguro, como não fechar a porta de casa, não evitar ruas escuras, ou andar armado. Resiste-se à mudança por ignorância e por hábito, ou por medo do novo, esse desconhecido. A rotina tem sua força, e inovar exige coragem e espírito aberto. Temos o exemplo do uso obrigatório do cinto de segurança nos carros. Apesar da informação de que diminui em 70% os riscos em caso de colisão, havia taxista comprando camiseta com uma faixa preta pintada na diagonal, simulando um cinto, para evitar multa. Hoje, o seu uso tornou-se um hábito, contribuindo para reduzir as mortes nos acidentes de trânsito. Outro exemplo acaba de ser celebrado, com os cem anos da Revolta da Vacina Obrigatória. Em 1904, os cariocas se rebelaram contra a obrigatoriedade de se vacinarem contra a varíola, que devastava a cidade. Reagiram por desinformação, já que a campanha de Osvaldo Cruz não teve a preocupação de bem informar o povo sobre como agia a vacina, vista como transmissora da própria doença. Agora, esse mesmo povo faz fila para ser vacinado. Mentalidade e hábitos equivocados se mudam com informações científicas e métodos democráticos, como debate público, novas leis e consulta popular, como o referendo. Armas não Matam. Quem mata são as pessoas?

64 Este é o slogan mais repetido pela Associação Nacional de Fuzis dos EUA. É convincente à primeira vista. A armadilha está, primeiro, em afirmar o óbvio, como seria dizer que, se o carro está em excesso de velocidade, a culpa não é do carro, mas do motorista ; segundo, em concentrar o foco exclusivamente num aspecto sobre o qual há unanimidade: a necessidade de boa educação. Segundo a ANF, o que importa são pessoas bem educadas e basta. Elas sempre farão bom uso de sua arma, e portanto não só estão aptas a usá-la, como devem usála na autodefesa. Analisemos o argumento. Limites da educação e transtorno de conduta O Viva Rio dá importância tão grande à educação, que grande parte de suas atividades é voltada para esse campo. Mas, ao falarmos em educação para uma convivência pacífica e solidária, que é a política que defendemos, não podemos ser ingênuos de imaginar que a educação, embora essencial, pode tudo. Ela tem seus limites, dados pela natureza humana. Em psicologia, existe o que se denomina transtorno de conduta. Segundo a psicanalista Gláucia Helena Barbosa, esta é a denominação diagnóstica para classificar desvios de comportamento. Esta designação destaca na vida de uma pessoa aquele momento em que ela perde a cabeça. É quando a emoção se sobrepõe à racionalidade, isto é, em que nossas idéias e princípios são dominados por sentimentos incontidos. Como o ciúme, por exemplo. Este é um sentimento tão poderoso e dominador, que até nos tribunais é considerado atenuante para um crime cometido sob sua forte influência. Lembremo-nos do caso do redator-chefe de O Estado de São Paulo, o jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, assassino confesso da namorada, a também jornalista Sandra Gomide. Intelectual respeitado, Neves matou Sandra com dois tiros dados nas costas, em agosto de 2000, em Ibiúna, SP, por haver sido abandonado. O pai da vítima, João Florentino Gomide, que como ex-sargento do Exército possui arma, recentemente entrevistado, declarou esperar não precisar fazer justiça com as próprias mãos, pois será capaz de matar o ex-genro, e se suicidar, caso o jornalista não seja julgado ou seja absolvido. 192 O episódio condensa vários dos fatores que favorecem a violência no país: machismo, homicídio passional por fácil acesso a uma arma, justiça lenta, processo penal que favorece os poderosos, provável impunidade, acompanhada de nova tragédia anunciada, com arma de fogo. Influência da emoção Assim, independente da cultura e da educação que se tenha, há momentos na vida que nos descontrolamos, e somos dominados pela raiva, como numa briga de trânsito, em que cidadãos pacíficos vociferam e transformam-se repentinamente em seres agressivos e violentos. São em situações como a desse conflito conjugal, que uma arma ao alcance da mão faz toda a diferença. Se não a temos, poderemos agredir de forma verbal ou até física. Armados, atiramos impensadamente, provocamos uma tragédia, muitas vezes matando um ente querido, para no momento seguinte de lucidez nos arrependermos amargamente. Mas aí já é tarde, cometemos um gesto irreversível. A agressão armada quase sempre é fatal, dada a potência das armas atuais. O arrependimento que se segue não impedirá o drama que vai se desenrolar a partir daí, e desgraçará a vida de várias pessoas, além da vítima, inclusive a do agressor. Essas as conseqüências de não se fazer a diferença devida entre nível emocional e racional, dois universos tão diferentes, como desvendou Freud. Ao tomar-se em conta apenas a racionalidade humana na explicação dos comportamentos, acaba-se por se acreditar em mitos,

65 como o de que homens considerados normais sempre saberão usar com racionalidade e competência sua arma de fogo. Esquece-se os momentos de emoção, em que o medo, o ódio, o ciúme, a angústia depressiva, turvam a racionalidade. Sem contar fases de desequilíbrio emocional, às quais todos estamos sujeitos, e que podem exigir tratamentos a que nem todos têm acesso ou recorrem. Nestas ocasiões, de nada vale uma boa educação, que só atuará sobre a emoção quando o surto irracional do sentimento tiver passado. Pode durar minutos, mas aí a desgraça já estará consumada. A Emenda Brady (ver em USA: armas e violência?), obriga a uma espera de 5 dias entre a compra e o recebimento da arma, exatamente para deixar correr o tempo no caso de alguém que, por impulso, está tendo um ímpeto suicida, ou de matar. Esse período para meditação, que nada mais é que um tempo para que o racional domine o emocional, reduziu de maneira significativa os casos de suicídio por arma de fogo entre menores de 55 anos. 193 O equívoco do argumento de que pessoas bem educadas não farão mau uso de uma arma não leva em consideração a complexidade do indivíduo, que é multi, e não unidimensional. Simplesmente ignora o psiquismo, como se fôssemos seres sem emoção, e sua influência nos comportamentos humanos. É o caso, também, de perguntarmos de que educação se trata? Educação democrática ou fascista? Qual o resultado de crianças que aprendem a atirar com 3 anos de idade, que são convencidas de que são membros de uma raça eleita e superior às demais, de que o uso de armas para resolver conflitos e garantir direitos é, não só necessário, como desejável? Quando se permite que uma coletividade que cultua a intolerância frente ao diferente se arme, vamos colher violência. As armas são inocentes? Acusa-se os pró-desarmamento de diabolizarem a arma, tornando-a responsável pelo crime, e não o criminoso. A arma seria um objeto inerte, como qualquer outro, e que não mereceria atenção especial. (ver Demonização das armas) Ora, eles nunca isentaram o homicida de responsabilidade, pelo contrário, e por isso mesmo as penas do Estatuto do Desarmamento aumentaram em relação à lei anterior. Assim como sempre defenderam investimos na pessoa, na formação e integração da abandonada juventude da periferia, em campanhas de cultura da paz. Mas, simultâneamente, lutam pelo controle das armas, como os sanitaristas tratam de exterminar o mosquito da dengue, como se deve combater o tráfico de drogas e não apenas se preocupar com os viciados. Combater os mosquitos e as drogas também significa investir contra coisas. Não tratamos uma arma de fogo como se fosse um instrumento inofensivo, porque não é: trata-se de um produto feito exclusivamente para matar, e que está cumprindo essa função muito bem. Numa discussão acalorada, a presença ou não de uma arma faz toda a diferença, e vai certamente determinar se no seu desfecho teremos no chão um cadáver. Para alegria do demo, já que se fala em diabolização. Armas devem ser classificadas como mercadorias perigosas, como dinamite para minas, produtos químicos explosivos ou inflamáveis e certos agrotóxicos. Têm que merecer a fiscalização, e o cuidado, dispensados a esses produtos. O controle da indústria química não a

66 levou à falência. Ninguém defende que tais produtos, que podem matar, sejam passivos, e que o problema sejam as pessoas que os manipulam. Sobre a afirmação inicial, Armas não matam. Quem mata são os homens, podemos contrapor que Armas não matam. Homens tampouco. Homens com armas matam. Ou a pergunta bem humorada de um internauta: Ou acabamos com as armas, ou acabamos com os homens. O que é mais fácil? Religião e Violência Algumas pessoas citam a Bíblia, que menciona a obrigação de um pai defender a sua casa, para justificar a autodefesa armada. Todos somos pela defesa do lar. O que se discute é se a arma de fogo é um meio recomendável. Para alguns, é a única forma nas atuais circunstâncias; para outros, defender a família não é armar-se e preparar-se para matar, porque quem age assim está aumentando o risco para os seus. Quanto à Bíblia, ela retrata a Antiguidade, onde não restava à população outra alternativa senão a autodefesa. Não haver menção nas Escrituras a armas de fogo já deveria alertar para a abismal diferença entre o mundo antigo e o nosso. A Bíblia é uma obra que expressa a realidade daquela época. É verdade que alguns de seus ensinamentos têm valor universal e atemporal, como as palavras de Jesus, Amai-vos uns aos outros (João 15,9-14), que é a essência do cristianismo, e seu corolário, o VI Mandamento, Não matarás (Exodus 20/3-17). Suas histórias e metáforas são típicas daquelas sociedades remotas. Querer aplicá-las de forma automática aos tempos de hoje nos levaria a apedrejar as prostitutas, pregar na cruz os rebeldes, ameaçar de cortar ao meio uma criança cuja maternidade é disputada etc. Esse tipo de interpretação a-histórica tem sido responsável pela regressão de algumas sociedades a costumes bárbaros e patriarcais. Alguns ramos do islamismo, ao lerem o Alcorão fora de contexto, apregoam que se corte a mão do ladrão, se mate a pedradas a adúltera, se submeta a mulher à ignorância, proibindo-a de votar e mostrar o corpo, e se extermine aqueles que não professem sua religião. Sempre existirão capelães dispostos a abençoar os canhões que partem para a guerra. No tempo do colonialismo, atrás da cruz vinha a espada. Mas vivemos tempos diferentes, em que setores do cristianismo retomam a autenticidade de suas origens. Apesar disso, defensores da solução violenta buscam justificativas em citações da igreja católica do tempo da Inquisição, de cuja política de intolerância o Papa se penitenciou. Como disse Frei Beto, a mensagem de Cristo é clara: Amai-vos uns aos outros e não Armai-vos uns aos outros. Distorce o cristianismo quem nega seu núcleo fundador, que é a relação de paz e amor entre os homens. Esse primado da doutrina é expresso claramente por Cristo, seus apóstolos e profetas, como em Mateus 5:9, Abençoados sejam os construtores da paz, porque eles serão chamados filhos de Deus, ou em Isaías 2:4, Transformem suas espadas em arados. Esse último foi o lema da bela campanha de desarmamento promovida em Moçambique, onde as igrejas trocaram armas por instrumentos agrícolas. Não é sem razão que a sabedoria milenar da cristandade sempre advertiu: Quem com ferro fere, com ferro será ferido (Apocalipse ), que na sabedoria popular se tornou a máxima violência gera violência. Campanha da Fraternidade 2005: Solidariedade e Paz

67 No Estado do Rio, a participação das igrejas nas campanhas de desarmamento e de cultura de paz vem de vários anos. Em 1999, evangélicos marcharam até o Maracanã, onde promoveram, em parceria com o Viva Rio e o governo estadual, um espetáculo de forte emoção e beleza: ao som de cânticos exaltando a paz, realizaram a primeira destruição pública de armas no Estado, introduzindo um método original e barato de danificação das armas com marretas, com apoio do Exército. Este ano, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), que reúne grandes igrejas cristãs do país, está realizando a Campanha da Fraternidade de 2005 em torno do tema Solidariedade e Paz, pelo desarmamento. O CONIC é constituído pelas igrejas Católica Apostólica Romana, Metodista, Episcopal Anglicana, Evangélica de Confissão Luterana, Presbiteriana Unida, Católica Ortodoxa Siriana e Cristã Reformada, além de outras igrejas que participam como membros do CONIC. Essas igrejas pretendem mobilizar e esclarecer seus mais de 100 milhões de fiéis para que votem no referendo, pelo desarmamento e pela paz. Também se incorporaram à Campanha de Entrega de Armas. Na quarta-feira de cinzas, lançaram a Campanha da Fraternidade e essas propostas constam do documento divulgado na ocasião. O papa João Paulo II elogiou a iniciativa: No mundo em que vivemos, abalado com freqüência pela violência e marcado pelo indiferentismo, os cristãos que partilham o empenho pela promoção da paz e da solidariedade tornam-se instrumentos eficazes de evangelização e um exemplo para todos a fim de construir uma sociedade mais fraterna e mais atenta às necessidades dos pobres e indigentes. Segundo o padre Gabriele Cipriani, da direção da CNBB, a paz não é uma questão apenas dos cristãos, mas queremos levar a defesa do desarmamento para a sociedade. Se semearmos armamento, vamos colher violência. A arma é uma ilusão. 195 O texto-base da Campanha da Fraternidade alerta: Assumindo meios violentos, somos transformados pelo agressor em alguém igual a ele. Nessa vitória do mal, os violentos derrubam nossas convicções e esperanças. E a violência não acaba, porque, alimentada, volta mais adiante, fortalecida por esse impulso que lhe demos. O único antídoto contra a violência é a solidariedade. Fazem bem as igrejas quando escolhem o tema da paz para a Campanha da Fraternidade deste ano, fiel à sua tradição de buscar a concórdia entre os homens. Alguém estranhará, alegando que não estamos em guerra. Mas nossas cifras de mortos são de conflito bélico. Além do mais a paz não reside simplesmente na ausência de guerra, mas na ausência de violência Juventude e Violência Armada Constatação do jovem advogado Felipe Dantes: Sou brasileiro, e por isso meu risco de morrer por arma de fogo é 2,6 vezes maior do que a média mundial. Sou carioca, e, como conseqüência, o meu risco de morrer é 2 vezes mais alto do que no restante do Brasil. Sou jovem, e por essa razão tenho 7 vezes mais chances de morrer do que o resto da população brasileira. Sou homem, e por isso meu risco de morrer no município do Rio de Janeiro é 30 vezes mais alto do que o de uma mulher na minha faixa etária. 197 Em relação aos demais países, o Brasil aparece entre os primeiros no que se refere à taxa de jovens mortos de forma violenta em relação à população (os EUA entram para efeito de comparação), conforme vemos na tabela seguinte. [ gráfico excluído ] O recente estudo da UNESCO concluiu que das 550 mil mortes por arma de fogo ocorridas entre 1979 e 2003, 44,1% foram de jovens na faixa de 15 a 24 anos. Esse dado adquire sua devida dimensão se considerarmos

68 que os jovens representam apenas 20% da população. (...) Em 1979, as mortes por arma de fogo representavam 7,9% do total de mortes juvenis, e passou para 34,4% em Isso significa que um em cada três jovens que morrem no país é em decorrência de tiro. (...) Para o conjunto da população brasileira, as principais causas de morte são as doenças do coração, as cerebrovasculares e, em terceiro lugar, as provocadas por arma de fogo. Já entre os jovens, a principal causa é a mortalidade decorrente das armas de fogo. 198 Pesquisa de Luke Dowdney apontou que o número de crianças e adolescentes mortos por armas de fogo entre 1987 e 2001 foi 8 vezes maior no município do Rio de Janeiro do que no conflito palestino-israelense na mesma época. A guerra entre judeus e palestinos fez 467 vítimas menores de idade nesse período e a guerra do tráfico, Considerando-se jovens entre 15 e 29 homens, morreram homens para mulheres no país em 2002, isto é, 17 vezes mais. No Estado do Rio, os jovens do sexo masculino estão morrendo 24 vezes mais que as jovens do sexo feminino. 200 Pesquisando as vítimas de violência armada, Luciana Phebo constatou: No Brasil, o risco do homem jovem de 20 a 29 anos morrer vítima de arma de fogo é 7 vezes superior ao restante da população e 4 vezes superior ao restante da população masculina. O risco de morte para esses jovens homens é 38 vezes maior que o da população feminina e 20 vezes superior quando comparado com a população feminina da mesma faixa etária, como ilustra o gráfico abaixo, como podemos observar no gráfico que se segue. 201 [ gráfico excluído ] Números alarmantes: armas e acidentes de trânsito As maiores vítimas, e os mais freqüentes autores, dos homicídios por arma de fogo no Brasil são os jovens do sexo masculino. Ao mesmo tempo que parte deles a maior ameaça de violência, a juventude está sendo massacrada como num campo de batalha. O impacto na renovação da mão de obra na economia, e no balanço entre rapazes e moças, já se faz sentir. A arma de fogo é a primeira causa de morte de homens jovens no Brasil, mais do que doença, acidente de trânsito ou qualquer outra causa externa. Em 2002, 38,8% das mortes de jovens de 15 a 24 anos foram ocasionadas por projétil de arma de fogo (PAF) e 16% por acidentes de trânsito. No Rio, entre os jovens de 15 a 19 anos, 60,5% foram mortos por arma de fogo e 8,4% por acidentes de trânsito, como ilustrado a seguir. 202 [ gráficos excluídos ] Para a médica Luciana Phebo, não existe bactéria, vírus ou veículo a motor que mate mais os adolescentes no Brasil do que o projétil da arma de fogo. Dos adolescentes de 15 a 19 anos que morreram em 2002, 39,1% foram vítimas de arma de fogo. Em nove capitais brasileiras, essa proporção chega a ultrapassar a metade dos óbitos. Nessas cidades, o adolescente homem morreu mais devido a lesões de arma de fogo do que por qualquer outra causa associada, seja ela doença, acidentes ou outras formas de violência. Em Vitória, por exemplo, 70% das mortes ocorridas entre esses meninos foram em conseqüência do uso de arma. 203 A cada dia, da média de 104 brasileiros que morrem por arma de fogo, 61 são jovens do sexo masculino e feminino. 75% dos homicídios entre a população de 15 a 24 anos foram cometidos com arma de fogo. Pernambuco e Rio ficam acima de 85%; Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Brasília entre 80 e 85% dos casos. 204 Por que os jovens estão morrendo?

69 Para Rubem César Fernandes, a violência física é jovem, no Brasil ou em qualquer lugar. Não ocorre só entre jovens, é claro. Varia segundo o tipo de violência. É inegável, no entanto, que estatisticamente concentra-se na juventude. As crianças, assim como os idosos, também sofrem violência, em geral doméstica, mas, em regra, são mais protegidos pelas instituições e, consequentemente, menos susceptíveis de envolvimento em situações geradoras de ferimentos e mortes. Os adultos são vítimas freqüentes de acidentes, no trabalho, no trânsito, mas tendem a ser menos expostos a violências intencionais. Seu estilo de vida, entre o trabalho e a casa, com os compromissos implicados pela manutenção de uma família, é menos aberto a este tipo de ocorrência. É na adolescência e na juventude, período de vida de maior liberdade, que os riscos se acumulam. Liberdade e risco são duas faces de uma mesma figura. O fenômeno e sua explicação (com dimensões sociais, psicológicas e mesmo biológicas) são universais, mas o Brasil exagerou. As taxas de vitimização de adolescentes e jovens nas cidades brasileiras estão entre as mais altas do mundo. 205 Tanta morte de jovens é fenômeno típico de países em que é fácil o seu acesso a armas de fogo. Por isto, o Estatuto do Desarmamento elevou a idade mínima de 21 para 25 anos para quem quiser comprar arma. Certos críticos consideram que o jovem, por ter direito ao voto desde os 16 anos, também deveriam ter direito a comprar arma. Não compreenderam a motivação do legislador, que não foram preocupações restritas à ordem jurídica, mas à urgência em se atingir preventivamente o maior grupo de risco de crimes com arma de fogo, o que mais mata e mais morre, dificultando seu acesso às armas. Salvar essas vidas, e proteger as suas vítimas potenciais, foi a prioridade. O então comandante da PM de São Paulo, Carlos Alberto de Camargo, assim avaliou a relação do jovem pobre com a arma de fogo: A arma, desgraçadamente, para grande quantidade de jovens da periferia, é a âncora para uma série de valores absolutamente vitais e ligados à auto-estima, como ser alguém, ser importante, respeitado, temido. (...) Portanto, a imagem deve ser substituída por outra que também sirva de âncora, mas estimulando valores éticos. O jovem deve acreditar, gostar, ter orgulho desse novo valor, e deve também sentir-se agente ativo e respeitado dessa mudança, que implica na visão de oportunidades de crescimento pessoal geradas por políticas públicas sociais adequadas. 206 Na visão do sociólogo Luiz Eduardo Soares, essa relação do jovem excluído com a arma se confirma: Por força da projeção de preconceitos ou por conta da indiferença generalizada, perambulam invisíveis pelas grandes cidades brasileiras muitos jovens pobres, especialmente os negros sobre os quais se acumulam, alem dos estigmas associados à pobreza, os que derivam do racismo. Um dia um traficante dá a um desses meninos uma arma. Quando um desses meninos nos parar na esquina, apontando-nos esta arma, estará provocando em cada um de nos um sentimento o sentimento de medo, que é negativo, mas é um sentimento. Ao fazê-lo, saltará da sombra em que desaparecera e se tornará visível. A arma será o passaporte para a visibilidade. 207 Precisamos de uma política nacional de inclusão dos jovens que saia do papel. Há programas para crianças e para idosos. Ao contrário de outros países, não se investe nos adolescentes, que são deixados à própria sorte, mesmo considerando-se que são o maior grupo de risco de violência. A política de recuperação dos jovens delinqüentes é um desastre, com maus tratos e rebeliões constantes nos centros de detenção. Nossa juventude desassistida fornece a mão de obra barata para o crime organizado e morre crivada de balas. Destruímos irresponsavelmente o futuro do país. 15. Os negros e as armas

70 Segundo a UNESCO, os negros são as maiores vítimas de violência no país: a taxa de homicídios de negros é de 34,8 mortes por habitantes, em comparação com a de brancos, de 20,6 por A proporção de negros assassinados é 65,3% maior do que a de brancos. O RJ tem a maior taxa de homicídios entre negros: 86,3 por ; Pernambuco: 71,4; e Rondônia: 60,7. Na faixa entre 15 e 24 anos, a taxa de homicídios de negros é de 68,4 por , enquanto a de brancos fica em 39,9. A taxa de homicídios de jovens negros supera em 74% a de brancos. O RJ aparece com a maior taxa de homicídios de jovens negros: 208,2 por ; Pernambuco: 141,5; SP: 127,9. No DF, Paraíba e Pernambuco um jovem negro tem 5 vezes mais chances de ser assassinado do que um jovem branco. 208 Todos sabemos que os negros estão entre as vítimas preferenciais da violência em nosso país. Os estudos a respeito são recentes. Temos duas pesquisas nacionais. A primeira, que não especifica a morte por arma de fogo, encomendada pelo ministério da Saúde, relaciona mortes de homens e raça, no período 1998 e Os resultados demonstram as desigualdades: A maioria dos brancos morre devido a doenças circulatórias (28,1%), e a maioria dos negros e pardos por causas externas, isto é, homicídios e acidentes de trânsito (25,6%); Das mortes por homicídio, 5,5% afetam os brancos e 12,3% os negros e pardos; Dos jovens entre 15 e 25 anos, 78,7% dos brancos morrem por causas externas, que afetam 82,2% dos negros e pardos. Pesquisa anterior já havia apontado que, entre os jovens nessa faixa etária, os homicídios de negros e pardos em 2000 superavam em 74% os de brancos, sem especificar se foram usadas armas de fogo ou não. 210 Em Pernambuco, dos homicídios ocorridos em 2003 no Estado, 2,5% se relacionaram a negros, 11,9% a brancos e 76,2% a pardos. 211 A segunda pesquisa nacional, de Luciana Phebo, relativa a armas de fogo, conclui que durante o período de 1997 a 2002, as taxas de morte por arma de fogo da população de cor negra foram as mais altas, em seguida, as da população de cor parda e, por fim, as de cor branca. Ao se analisar as categorias preta e parda conjuntamente sob a denominação preta, verifica-se que houve um aumento das taxas de mortalidade de 40%. Entretanto, a única categoria que de fato apresentou aumento das taxas de mortalidade por arma de fogo foi a parda. Em 1997, sua taxa era de 18,9 e, em 2002, 28,5 por hab. aumento de 50,8%. No mesmo período, as populações de cor branca e de cor preta não sofreram aumento da taxa de mortalidade. Em 2002, a taxa de mortalidade da população branca foi de 16,6 e da preta, cerca de duas vezes superior, 30,1/ hab. Em todo o período, essa diferença foi mantida. 212 Em geral, os estudos referentes à etnia no Brasil ainda apresentam problemas, como a natural imprecisão da definição racial, isto é, o que se considera pardo, a auto-classificação e o nível de preparo de quem classifica. Mas é um retrato inicial, precário, que expõe os efeitos da inacessibilidade do atendimento hospitalar de boa qualidade para os pobres e as limitações de nossa democracia racial. 16. Direitos dos cidadãos a se proteger com as armas? Essa opinião contraria a jurisprudência de vários países, que entende que possuir arma de fogo não é um direito do cidadão, mas uma concessão do poder público diante de situações excepcionais, como risco de vida de quem pleiteia o seu uso. Assim é, por exemplo, no Canadá, Grã-Bretanha, Austrália, Colômbia, Brasil etc. Esse também é o entendimento do Direito

71 Internacional. Mesmo nos Estados Unidos, a Segunda Emenda à Constituição, que garantiria o direito do cidadão de possuir arma de fogo, é contestada pela legislação restritiva de vários de seus Estados (ver Usa: armas e violência ). Direito à legítima defesa? Para o ministro do Supremo Tribunal Militar, Flávio Bierrembach, nenhum governo tem a prerrogativa de interferir na esfera privada do cidadão para transformar um direito em crime. Sobretudo ao arrepio da Constituição, dos direitos humanos, de usos e costumes milenares que asseguram a igualdade de todos perante a lei, a incolumidade da pessoa, o sagrado direito de defesa e proteção da casa como abrigo inviolável do cidadão. 213 Respondendo à ação de inconstitucionalidade movida pelo PTB contra o Estatuto do Desarmamento, dois ex-ministros da Justiça, Miguel Reale Junior e José Carlos Dias, afirmam: Em nenhum lugar da petição, ousaram os autores invocar violação a um direito constitucional, portanto direito fundamental, de andar armado. Isto não se deve a qualquer forma de lapso, mas ao simples fato de que não há direito constitucional de portar uma arma. (...) Invocar o interesse de andar armado a partir do direito à vida e à segurança, é um contra senso. Embora intuitivamente possamos achar que a arma amplia a segurança e protege a vida, os fatos demonstram o contrário. As armas apenas potencializam desfechos fatais a conflitos necessariamente existentes dentro de qualquer comunidade. As armas de fogo não apenas reduzem a segurança pública, como ampliam a possibilidade de que seu portador ou daqueles que com ele convivem sejam vítimas do potencial de violência fatal que lhes é inerente. O que é preciso verificar é se este interesse de andar armado deve preponderar sobre o direito à segurança pública e à própria vida, reconhecidos pela Constituição Federal. 214 Justiça privada ou monopólio da violência pelo Estado? Vamos encontrar fundamentos do direito de autodefesa, a ser exercido pelo uso de armas, em teorias que a ciência política denomina darwinismo social, que compara os homens aos bichos e enfatiza o primado do instinto sobre a cultura. Segundo essa concepção, seria da natureza do homem o instinto à autodefesa, e seria ingenuidade querer mudar o que caracteriza o homem desde a pré-história. Contra essa filosofia naturalista vamos encontrar duas concepções. A primeira, de cunho humanista ou cristão, que valoriza o fator cultural. Por ela, por exemplo, o canibalismo e os métodos brutais, como a tortura, também eram típicos do homem original. Foram superados ao longo da história pelo aperfeiçoamento das formas de convivência entre os homens, pelo desenvolvimento de sua cultura, que introduziram novos valores, como solidariedade e compaixão, e os induziram a novos padrões de comportamento. Este seria uma produção cultural do próprio homem, que pode ser modificada e aperfeiçoada, isto é, o domínio do instinto pela razão e a convicção de que o criminoso pode ser recuperado. A segunda, aceitando o pressuposto do instinto selvagem do homem, observa que a sociedade foi obrigada a inventar formas de convivência para sobreviver. Seu principal teórico, Thomas Hobbes, dirá que os indivíduos tiveram que delegar ao Estado (Leviatã) parcela de sua liberdade, para que este o protegesse da agressão dos demais. Transferiu assim ao Estado o poder da força para que este garantisse sua segurança e mantivesse a paz. O Estado encarnaria a vontade geral (pactum societatis), assumindo o monopólio da violência e usando-a contra os que contrariassem o interesse geral.

72 O darwinismo social é conservador e individualista, e nada há de pejorativo nestes termos. É conservador porque considera a natureza humana imutável, e individualista porque não aceita que a sociedade, ou o Estado, limite a ação do indivíduo. Em conseqüência, a autodefesa armada do cidadão seria um direito sagrado, garantia de sua liberdade. Já os críticos dessa concepção consideram que o ser humano tem uma natureza mutável, e que regras de convivência social devem limitar os interesses individuais, para que o forte não extermine o fraco, e para que a liberdade absoluta de um não elimine a liberdade do outro. Para essa concepção da relação homem-sociedade, o naturalismo leva à substituição da justiça pública pela justiça privada, e suas manifestações radicais de linchamento, vingança e ação de justiceiros. Ela busco o contrário: a segurança pública deverá ser alcançada por uma polícia pública para todos, e não para quem pode pagar, e tampouco por quem deseja exercer a autodefesa privada, em detrimento da segurança dos demais. A solução republicana será coletiva e não individual. Estado de Direito Ao contrário do naturalismo, o culturalismo não admite que se faça justiça pelas próprias mãos, ou regrediríamos à Lei de Talião da Antiguidade, do olho por olho, dente por dente. A aplicação da justiça deve ser um ato racional, por parte de um juízo imparcial, que busque reparar o dano, proteger a sociedade, punir e recuperar o criminoso. Jamais uma reação emocional, ou uma sentença que vise apenas punir e não recuperar, através de retaliação igualmente cruel e desumana; a revanche acaba por igualar vítima e Estado ao próprio criminoso, criando-se um círculo vicioso de violência e vingança. Não seria esse o papel do Estado democrático, cuja função pedagógica deve buscar o aperfeiçoamento da sociedade, e não a perpetuação do ato anti-social do criminoso pela sua reprodução. Por isso, o Estado nega aos cidadãos a possibilidade de justiça pelas próprias mãos, exatamente para retirar do julgamento qualquer travo emocional, e para que o juízo reflita o interesse maior da coletividade (de proteção), que deve se sobrepor ao ímpeto de vingança da vítima e seus familiares, que não devem prevalecer. Esse seria um dos traços distintivos entre Estado de Direito e ditadura, civilização e barbárie. Daí nossa Constituição, em seu artigo 144, determinar que seja o Estado, e não o indivíduo, o mantenedor da ordem social: A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio (...). Se queres a paz, prepara-te para a guerra? Manifestação antiga, embora atualíssima, de darwinismo social é o dito do império romano se queres a paz, prepara-te para a guerra (si vis pacem para bellum). Essa política, que fundamenta as expansões militaristas, tem incentivado também os cidadãos a se armarem para garantir sua proteção e sua liberdade, conforme a propaganda do governo Bush após o 11 de setembro, e que levou a enorme consumo de armas nos Estados Unidos, para alegria de seus fabricantes. Para o atual representante espanhol na Comissão de Defesa do Parlamento Europeu, Raul Romeva, as armas convencionais se converteram nas vedetes da destruição e da morte, devido à facilidade de seu manejo, de sua fabricação fácil e relativamente barata e, sobretudo à ausência do controle de sua produção e exportação. Não há dúvida, a lógica do si vis pacem para bellum não somente não nos trouxe a paz, mas encheu os arsenais do mundo de mísseis e de armas poderosíssimas, que representam uma ameaça por si mesmas, e que desviaram importantes recursos econômicos e humanos para um fim que, afinal, só conduz à destruição total. 215 Quem deseja a paz, e se prepara para a guerra, mobiliza interesses e cria uma dinâmica que o

73 empurrará para a guerra, como a história tem demonstrado. Conforme a ONU recomenda, se queres a paz, construa a paz. Quem se arma, e se prepara para o confronto, cedo ou tarde fará uso indevido de sua arma, ou a verá cair em mãos erradas. Como dizem policiais experientes, quem tem uma arma acaba não resistindo à tentação de usá-la. A legítima defesa e seus limites A legítima defesa é assim definida pelo artigo 25 do Código Penal: Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente os meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Essa definição, ao contrário do que pensam os leigos, é altamente restritiva, pois se espera que a autodefesa armada seja praticada de forma moderada e, conforme se admite, apenas como último recurso. A aplicação do instituto da legítima defesa exige a análise concreta de cada caso em juízo. A possibilidade de alguém exorbitar no uso de armas contra ladrões desarmados, ou menos armados, pode levar a vítima a ser condenada por homicídio, passando de vítima à delinqüente ao se transformar a pretensa audefesa em justiça pelas próprias mãos. Há numerosa jurisprudência condenando o que se denomina excesso na legítima defesa. Para os defensores da autodefesa armada, esse direito é inquestionável porque decorre do direito essencial à vida. Protegê-la seria, além de um direito, um dever, principalmente quando se trata da proteção da família. Mas, se a autodefesa, ou a legítima defesa, são decorrentes do direito à vida, devem ser limitadas quando ameaçam o direito que visam assegurar. Quando as estatísticas demonstram que uma arma é mais um risco que uma proteção, o alegado direito à autodefesa para se usar uma arma viola o direito da família à segurança. Em alguns países, o cônjuge tem que consentir a compra da arma, como na Nova Zelândia. (ver As mulheres estão mais seguras com armas?) Apesar de transmitir um falso sentimento de segurança ao seu proprietário, é muito mais provável que a arma seja usada por um marido irado, um jovem deprimido ou uma criança curiosa, com diz Rubem César Fernandes. Além disso, fica difícil sustentar o uso de armas para proteção à vida, quando elas estão deixando por todo o país um rastro de sangue. Em outros países não é diferente. Já nos anos 90, a famosa pesquisa do médico Arthur Kellermann havia revelado que, nos Estados Unidos, a família que mantém uma arma de fogo em casa corre 4 vezes mais risco de que seja disparado um tiro acidental, 7 vezes mais risco de que a arma seja usada em assassinato intrafamiliar, e 11 vezes mais risco de que a arma seja instrumento de suicídio, do que de a arma vir a servir para a autodefesa da própria família. 216 Já vimos como a maioria dos estudos demonstra que raramente uma arma se presta à defesa de um indivíduo repentinamente assaltado. Daí a análise do criminalista Roberto Soares Garcia sobre a autodefesa armada: Não se pode contrapor à idéia do desarmamento um eventual direito à autodefesa, uma vez que, diante do princípio da proporcionalidade, colocados na balança, de um lado, a baixa eficiência da arma de fogo como instrumento de legítima defesa e, do outro, os efeitos deletérios que podem ser causados por uma reação a um assalto, o fornecimento involuntário de armas furtadas e/ou roubadas para a bandidagem, as tragédias de mortes tolas e, principalmente, todas as vidas perdidas em acidentes com armas, que vitimam principalmente crianças, não há como não se reconhecer: o desarmamento da população civil trará enormes benefícios à sociedade, sem que a efetividade da autoproteção do cidadão comum seja significativamente diminuída, pois, no que toca ao ato de defesa contra a bandidagem, o uso de arma põe-se inócuo. 217 Não é diferente a conclusão do Instituto Sou da Paz, de São Paulo: Percebe-se que a maior facilidade na obtenção e no uso de armas nas grandes cidades tem transformado brigas em assassinatos, feridos

74 em mortos, discussões em tragédias, todos os dias. Mesmo que a lei só consiga reduzir estes homicídios, já terá prestado um grande serviço à nação, podendo salvar milhares de vidas anualmente. 218 Há quem veja na autodefesa armada um último recurso diante da ineficiência da nossa polícia. Se as instituições polícia, poder judiciário, sistema prisional são falhos e fracos, a solução é lutar para que se depurem, se fortaleçam e se tornem eficientes, como fizeram outros países, e não agravar-se o problema pela disseminação de mais armas. Direito à propriedade, aos direitos adquiridos, ao comércio de armas? Para a Associação dos Comerciantes de Armas, com relação à proibição da venda de armas de fogo, consideramos que é inconstitucional: fere o direito de propriedade, o direito à segurança pessoal e os direitos adquiridos. 219 Respondendo ao direito de livre comércio dos produtores e comerciantes de armas, alegado pelo PTB na ação de inconstitucionalidade movida contra o Estatuto do Desarmamento, a defesa esclarece: O Estatuto não fere a livre iniciativa e comércio porque a própria Constituição prevê a possibilidade de restringir o exercício de atividade econômica, conforme expresso no parágrafo único do seu artigo 170. Na verdade, nossa Constituição impõe que a atividade econômica, a livre iniciativa e o comércio só serão constitucionais se garantirem a existência digna de todos, o que, conforme amplamente demonstrado pelos fatos, não faz a indústria armamentista. (...) Ao restringir o acesso à arma de fogo, o Estatuto não estaria limitando o direito à vida e à segurança, como pretendem os defensores de armas, mas aumentando a segurança geral e diminuindo o risco de morte. 220 Argumenta-se que forçar o desarmamento é empurrar os homens de bem para o mercado clandestino, é induzi-los à ilegalidade. De fato, se as armas para civis forem postas fora da lei, só os fora-da-lei e a segurança pública terão armas. E deve ser assim. A medida facilitará a repressão ao tráfico ilegal de armas, entre outros benefícios. Além disso, se a coletividade, para proteger-se, decide proibir uma atividade exercida por uma minoria, cabe à essa minoria adequar-se à lei e não o contrário. Alega-se que não se pode impor o desarmamento aos que desejam se armar, violando-se seu direito de escolha. Manter uma arma em casa está longe de constituir um direito absoluto e inquestionável, diante da periculosidade do produto, assim como não se pode estocar explosivos, gás venenoso ou material radioativo. Por melhor guardados e seguros que estejam, considera-se que podem vir a provocar danos ao proprietário ou a terceiros em caso de serem mal manipulados ou de assaltos. Do ponto de vista legal, quando direitos entram em conflito, devem ser priorizados aqueles tidos como fundamentais. Hoje em dia, o direito de propriedade está condicionado ao bem estar da coletividade, ou é limitado em prol da preservação da família. Assim, o marido não pode vender o imóvel sem autorização do cônjuge; uma fábrica não pode afetar negativamente o meio ambiente; uma propriedade não pode ultrapassar determinada altura; aceita-se facilmente as limitações impostas a quem dirige veículos, pelos riscos dessa atividade, e ninguém se sente tolhido em sua liberdade de ir e vir por ser obrigado a um limite de velocidade ou a manter seu carro em condições de segurança. Para o advogado Felipe Dantes, o Estatuto do Desarmamento é uma demonstração da preocupação do poder público com o bem jurídico da segurança coletiva, fundamentado em valores fundamentais como a vida, a integridade física e a segurança individual. 221

75 Os que se manifestam contra a proibição do porte de armas alegam que se está tratando homens de bem como bandidos, em desrespeito ao princípio da presunção de inocência. Segundo ainda Felipe Dantes, ao proibir-lhe o porte de arma, não se está punindo o cidadão, mas tomando-se uma medida preventiva, considerando os riscos para si e para a coletividade. Ninguém mais contesta o controle, e mesmo a proibição, de certos remédios, alegando-se violação da liberdade de escolha. Claro que são medidas preventivas, para evitar danos causados por produtos perigosos; o Estado não vai esperar que o dano ocorra, o que nada tem a ver com presunção de inocência. E acrescenta: Nem sempre se entende o sentido de uma limitação legal, mas lei existe para limitar, em benefício de um bem maior. A liberdade absoluta de um é a escravidão do outro. Permitir o uso de arma é favorecer a violação do direito à segurança do acidentado, e da população como um todo, que paga os altos custos do tratamento dos baleados nos hospitais públicos. Pitbulls e armas de fogo: uma comparação Duas pragas assolam o Brasil, aumentando a insegurança da população: cães ferozes nas ruas e armas de fogo sem controle. Mas estamos fazendo avanços: o povo vai poder votar no referendo sobre o comércio de armas, e o governo do Estado do Rio de Janeiro acaba de regulamentar a lei do deputado Carlos Minc de controle de cães ferozes, como pitbulls, dobermans, rottweillers, filas e raças derivadas. Seus defensores protestam. Vejamos se têm razão. O pitbull é uma raça de cães, de origem norte-americana, e sofre severas restrições em países como a França e Grã-Bretanha. Mas, por força do lobby de comerciantes e criadores, não é proibida nos demais Estados brasileiros. Toda semana, pessoas são atacadas, até mesmo seus donos, crianças são mortas e outros cães estraçalhados. Seus proprietários, de forma irresponsável, alegam que a culpa não é do cão, mas de maus donos, argumento idêntico ao usado pelos que acreditam que as armas não matam; quem mata são as pessoas. É verdade que as armas não matam sozinhas, nem tampouco homens sem arma. Quem mata são homens com armas. Estes dizem defender o direito à posse e ao porte de armas, como os que se sentem no direito de desfilar com feras, que são verdadeiras armas. Os proprietários desse cães alegam que queremos tirar-lhes um direito adquirido, impedir que exerçam seu direito de escolha de ter esses cães. Seus argumentos são idênticos aos proprietários de armas. Mas, não há direito à propriedade, ao livre comércio ou direito adquirido que se sobreponha ao direito à vida e à segurança, seja do proprietário do bem em questão ou de terceiros, diz a Constituição. Como é sabido e comprovado que os cães ferozes e as armas podem matar e pôr em perigo àqueles que estejam dentro de seu raio de ação, eles têm que ser restringidos, controlados e até proibidos, como já se faz com tantos produtos perigosos. Está na hora dos demais Estados seguirem o exemplo do Rio de Janeiro, restringindo os cães ferozes. Direito ao porte de arma? O Estatuto do Desarmamento, em seu art. 6º, proíbe o porte de arma de fogo para civis, abrindo exceções (ver Estatuto em Anexos). Até pouco tempo atrás, era fácil e comum qualquer autoridade pública, empresário, comerciante, ou quem pagasse, comprar a licença de portar arma, embora a lei anterior fizesse várias exigências para quem a requisitasse. Como regra, a lei não era aplicada nos Estados. Ter porte era símbolo de status. Como quem concedia o porte

76 era a polícia estadual, além dos recursos obtidos com sua concessão, esse era um poder político, usado comumente para troca de favores. Comparemos a nossa realidade com outras. A Colômbia é o país mais violento do mundo, conforme vimos. Lá, 80% dos homicídios são cometidos com arma de fogo. O especialista em vitimização, médico Andrés Villaveces, desenvolveu pesquisas em Cali ( ) e Bogotá ( ). Considerando os momentos de maior ocorrência de crimes com arma de fogo nessas cidades, foi proibido o porte de armas de fogo nos dias de pagamento, feriados e eleições, e a polícia promoveu blitzes para fazer valer a proibição. Para avaliar o impacto da proibição, Villaveces fez uma comparação entre os índices de homicídios referentes a esses dias, com dias e horários similares, mas que não contaram com a proibição do porte de arma: Em Cali, os homicídios caíram 14% nos dias de proibição, e em Bogotá 13%, comparados com os dias em que o porte foi liberado. Conclusão, a proibição do porte de armas de fogo em ambas cidades provocou forte redução nos índices de homicídios. 222 A situação em São Paulo é assim analisada pelo seu ex-secretário estadual de Segurança Pública, Marco Vinicio Petrelluzzi: A maioria das pessoas que não tem convivência com a justiça criminal não imagina que grande parte dos homicídios, se não a sua maioria, é praticada por pessoas que não ostentam nenhum antecedente criminal. É que, ao contrário do que se imagina, o homicídio é majoritariamente praticado pelas chamadas pessoas de bem. E, para essas pessoas que, em regra, praticam esse crime, de ímpeto, o porte da arma é decisivo para que o crime efetivamente aconteça. Assim, o cônjuge humilhado pela traição, o exaltado com a briga por questões de trânsito, o briguento do campo de futebol e o alcoolizado que discute por questões sem relevância no interior de um bar, quando armados, são homicidas em potencial; quando desarmados, no máximo, provocam lesões corporais leves. (...) A restrição ao uso de armas de fogo, se não tem efeito significativo sobre a criminalidade organizada, tem efeitos importantes no que se refere à redução dos homicídios e suicídios, o que torna altamente recomendável o incremento das restrições ao uso de armas de fogo. 223 (ver A controvérsia do porte de arma ) Para o coronel Rui César, ex-comandante da PM do Estado de São Paulo, e para José Oswaldo Pereira Vieira, ex-comandante da Polícia Civil do mesmo Estado, a abundância de armas de fogo é um elemento determinante no enorme número de mortes por motivos fúteis em nossa sociedade. 224 A maioria de nossa população tem se revelado contrária ao porte. Em , pesquisa nacional CNT-Sensus indicou que 62,5% dos brasileiros consideram que portar uma arma não ajuda a se proteger contra a violência, e 31,1% acham que sim, desde que a pessoa saiba utilizá-la. Atirar para o alto, ou o que sobe, desce Em vários países, é comum os homens atirarem para cima na celebração de um acontecimento. Na Turquia, atiram durante as festas de casamento; no México, antes das restrições às armas, para celebrar qualquer coisa; no Brasil, no réveillon e nas vitórias de futebol. Até mesmo a polícia, nos funerais de companheiros mortos em combate, para demonstrar indignação, com freqüência atiram para o alto com munição real, quando em cerimônias como essas o regulamento exige o uso de festim, isto é, pólvora seca. O problema é que balas que sobem, descem, e vão atingir inocentes. Esta é uma das causas das balas perdidas, que no Rio matam em média uma pessoa a cada 6 dias. 225 Por esta razão, o Estatuto, em seu art. 15, pune quem dispare em lugar habitado ou via pública, medida criticada pelos que acham excessivo punir quem está apenas se divertindo, mas colocando em risco a vida dos outros.

77 17. Só as ditaduras desarmam o povo? Nos EUA, existe uma polêmica sobre a Segunda Emenda à Constituição americana, de 1791, que estabelece: Uma milícia bem regulada é necessária para a segurança de um Estado livre, e o direito das pessoas terem e portar armas não deve ser restringido. Para uns, ela garante o uso de armas em todo o país, para outros não, pois alguns Estados proíbem o porte, ou mesmo a posse de determinadas armas. A emenda relacionava esse direito à organização das milícias estaduais, voltadas à preservação da autonomia dos Estados americanos recém independizados da Grã- Bretanha. A partir daí, o discurso a favor do direito constitucional a se armar nos EUA afirma que o homem livre é o homem armado, referindo-se a um passado heróico, quando o inimigo era o invasor inglês e os índios, expulsos de suas terras e massacrados. Atualizando esse discurso, setores radicais da Associação Nacional de Fuzis teciam análises conspiratórias durante o governo Clinton, vislumbrando perigos imaginários, como a ameaça representada pela intervenção da ONU comunista, que quer desarmar o povo, e pelo Partido Democrático, que ameaça a propriedade privada e a liberdade individual dos norte-americanos. Ameaças improváveis ou perigos reais? Como resultado desse delírio, facções extremistas da ANF formaram guetos, para treinamento de guerrilha em fazendas no interior dos EUA, se preparando para combater uma hipotética revolução de pretos, latinos e comunistas. Esse descolamento da realidade acabou levando a ações terroristas como a de Oklahoma. Nesta cidade, em , o fanático Timothy McVeigh, membro de uma dessas milícias, ex-combatente da Guerra do Golfo, e obcecado com a interferência do Estado na supressão das liberdades individuais, e com a cumplicidade do governo Clinton com a ONU, explodiu um prédio governamental, matando 168 pessoas, entre elas 19 crianças, e ferindo 500. Para estimular o uso de armamento militar, membros da ANF alertam para a necessidade de se prepararem para enfrentar insurreições nos Estados Unidos: Frente a assalto múltiplos, violência de multidões ou gangues, terrorismo ou insurreição civil, é necessário que as pessoas de bem tenham à sua disposição fuzis militares para se defenderem principalmente quando os recursos da polícia estão quase falidos. 226 Por que se preparar para enfrentar insurreições mais que improváveis, quando temos que encarar uma criminalidade à solta bem real, esta sim, que nos ameaça de morte? Quando o inimigo pode estar dormindo ao lado? Para criar um clima de medo que justifique e leve à venda de armas, a Associação Paulista de Defesa dos Direitos e das Liberdades Individuais repete a paranóia da ANR americana: Nós, brasileiros, precisamos ficar atentos e pressionar permanentemente o Congresso Nacional contra o totalitarismo global, patrocinado pela ONU e apoiado por governos de índole autoritária e por Ongs financiadas por obscuros círculos financeiros internacionais. Podemos constatar através do noticiário a permanente presença destes aventureiros internacionais em solo brasileiro, interferindo, sob os mais variados pretextos, em assuntos internos nacionais. 227 Falam em aventureiros internacionais, quando somos nós, do Viva Rio, que temos levado a causa do controle de armas para os demais países da América do Sul. Além do que, no Brasil, fica difícil caracterizar como ameaças totalitárias o Estatuto do Desarmamento e a Campanha de Entrega de Armas, democraticamente votados pelo Congresso, em que o governo paga por

78 armas voluntariamente entregues; ou o referendo popular, quando o povo decide de forma soberana. As instituições democráticas têm se revelado sólidas nos últimos 20 anos, rechaçando qualquer intento totalitário. Então, para não se cair no ridículo, decidiu-se abandonar essa retórica e copiar outros argumentos da ANF americana, apelando-se para exemplos históricos, como o dos nazistas que teriam desarmado o povo alemão para assim impor-lhe a ditadura. Não foi bem assim. Vejamos: Hitler e o desarmamento Os militantes pró-armas se baseiam na seguinte frase, atribuída à Hitler: Esse ano entrará para a história! Pela primeira vez, uma nação civilizada terá registrado todas as suas armas! Nossas ruas ficarão mais seguras, nossa polícia mais eficiente e o mundo seguirá nossa liderança no futuro! A frase teria sido publicada no jornal Berlin Daily em Segundo admitiu a própria organização judia pró-armas, Judeus pela Preservação da Propriedade das Armas, o artigo mencionado é inexistente, e a data não faz sentido, pois a lei de controle de armas de Hitler é de Nem poderia ser diferente. Muito antes, a Constituição alemã de 1919 já não reconhecia o direito ao porte de arma. Em 1928, a República de Weimar promulgava uma nova lei de controle de armas mais restrita, exatamente para reprimir as milícias armadas do partido nazista, os camisas pardas. 229 Derrotado na sua tentativa de golpe violento, e controlado, Hitler refaz sua estratégia, explicada em seu livro Minha Luta, e passa a lutar por meios pacíficos para tomar o poder, confiante em que a crise econômica, e a divisão dos democratas, acabariam por levá-lo ao poder pelo voto da maioria dos alemães, o que de fato sucedeu. Só posteriormente ele iria fechar o Reichstag, o parlamento, dentro de uma política de implantação da ditadura e extermínio da oposição. Claro que ele aumentou ainda mais os controles sobre as armas, mas controles que já existiam. Apesar de, geralmente, os cultores das armas admirarem Hitler, não são muito bons em história. Circula também a idéia de que se os judeus tivessem se armado, não teriam sido massacrados pelos nazistas. Esta tese abandona inteiramente o contexto dos fatos, quando os judeus, assim como os ciganos, eram uma minoria étnica na Alemanha e nos países ocupados. É uma ingenuidade pensar que teriam alguma chance contra o poderio repressivo e bélico do III Reich. Além disso, é um desrespeito à memória da revolta armada dos prisioneiros judeus, que levou ao massacre do Gueto de Varsóvia. Desarmamento nas ditaduras e nas democracias Há quem associe o desarmamento às ditaduras: Quem quer o desarmamento levante a mão direita! Antes de mandar matar judeus, comunistas, ciganos e todos seus opositores, Hitler fez o que era lógico: desarmou a população. Sem armas não há como resistir à tirania. Não arrisque o futuro do Brasil. Diga NÃO ao desarmamento e Só as ditaduras desarmam os cidadão. 230 Aqui toma-se o fato de as ditaduras desarmarem a população, para associar-se este regime ao desarmamento. Não é porque uma medida é tomada por governos autoritários que a medida em si mesma é negativa. Por exemplo, as ditaduras tendem a priorizar a disciplina e a ordem sobre todas as coisas. No Portugal salazarista, as ruas eram mais limpas e a pontualidade dos ônibus maior do que no Portugal democrático, quando a liberdade se tornou um bem maior. A pontualidade dos trens sob o nazismo alemão passou a ser uma expressão da eficiência do regime. Isso não quer dizer que a limpeza, a disciplina e a pontualidade sejam males em si. Da mesma forma, não é

79 porque as ditaduras desarmam os civis (mas armam grupos civis pára-militares em defesa do regime), que as democracias não devam promover o desarmamento. Pelo contrário, a tendência das democracias é cada vez mais a de desarmar a sociedade, criando um ambiente propício à convivência pacífica de seus cidadãos. No entanto, o desarmamento na ditadura e na democracia perseguem objetivos opostos. As ditaduras desarmam a população para defender apenas a segurança do Estado, enquanto as democracias promovem o desarmamento civil para garantir principalmente a segurança dos cidadãos. Na ditadura, o desarmamento visa impedir a contestação violenta ao regime. Na democracia, busca aumentar a segurança do povo. Quem não reage à bala é covarde? Setores radicais dentre os que defendem o uso de armas fundaram um certo Movimento Brasil sem Medo, que acusava os que são pelo desarmamento de covardes. Inspiraram-se, também aqui, na ANF americana, com seu ataque ao que chamam de Nação de Covardes, referindo-se aos que dela divergem. Mas aqui não deu certo, talvez porque a população brasileira está realmente com medo da violência, uma vez que o perigo é real. Mas, o que é ser covarde ou corajoso? É muito primário identificar-se a coragem com o uso da força, lançar-se ao perigo de peito aberto, atirar sem medir as conseqüências. Tais atitudes refletem coragem ou irresponsabilidade? E não é porque homens psicologicamente inseguros ou medrosos costumam se armar, que se deve dizer que todos os que se armam têm essas características. A desinformação sobre o risco da arma é que está na base da maioria das decisões de se armar. Não se justifica que se denominem os pró-armas de covardes só porque usam armas. É preciso entender por que se armam. Além da desinformação e da cultura machista, podem contribuir fatores psicológicos para essa atitude. Os educadores estudam o comportamento infantil, em que a impotência frente a um mundo que não entendem, ou não dominam, leva as crianças a desenvolverem fantasias de super-homem, a imaginarem armas com poderes mágicos para enfrentar as ameaças e os obstáculos à realização de seus desejos. De forma mais sofisticada e encoberta, como salienta a psicanalista Gláucia Helena Barbosa, adultos também apelam para os supostos super-poderes de um carro veloz, ou de uma arma potente, quando não confiam na sua própria capacidade de sedução ou de enfrentamento dos problemas. Quando, em 1998, o ator Charlton Heston, graças à sua imagem de caubói de cinema durão, foi eleito presidente da Associação Nacional de Fuzis, o seu lema se tornou: Um homem desarmado é um homem nu. Reconhecimento mais que explícito do sentimento de impotência, com uma conclamação ao uso de armas para recrutar homens inseguros, observa a psicanalista. Ou, nas palavras do psiquiatra Jiosef Fainberg, quanto mais fraca uma pessoa, mais poderosa deseja ser. A onipotência é o correlato da impotência. Acaba sendo uma ironia os homens, que necessitam estar armados para se sentirem seguros, insultarem de covardes àqueles que enfrentam os problemas e riscos da vida sem armas. Por outro lado, desde quando é a violência bruta, e não a inteligência, que derrota o crime? Associar covardia com sensatez, com atitude responsável de quem está informado sobre o

80 uso contraproducente da arma como instrumento de defesa, é despropositado. A acusação de covardia contra um pai de família é ofensiva. Quando este se livra de sua arma, está pensando na segurança do filho ou do neto, ou sendo sensível à pressão da esposa, que pressente o perigo representado ter uma arma no lar. Quando a cultura da violência, e a ineficiência da polícia, empurram os homens a se armarem, resistir à essa falsa segurança revela lucidez. Coragem é se desarmar. Como os brasileiros estão com medo justificável da violência, o Movimento Brasil sem Medo não conseguiu criar um movimento real e por isso mudou o nome para Viva Brasil, não sabemos se em homenagem ao Viva Rio ou para confundir. Mas mantém a mesma agressividade contra os que dele divergem, e a mesma recomendação: reaja à bala! Quando as estatísticas provam, e a experiência popular demonstra, que quem reage, morre, essa conclamação é temerária. Quando aconselhamos a que se tenha cautela, quando advertimos que apenas em casos excepcionais o uso de arma contra uma agressão armada pode ter um desfecho favorável, não estamos pregando a omissão ou o conformismo com a violência que se instalou no país. Pelo contrário. Agimos, e exortamos a população a agir, para transformar este cenário de guerra. Como as suas causas são gerais, as soluções também têm que ser coletivas, de novas políticas públicas e não de soluções individuais. Propomos políticas afirmativas, viáveis, que nada têm de passivas. Ceder aos apelos de vingança, ódio e pânico é fácil. Difícil é manter a serenidade e a firmeza para se construir um país menos violento. É preciso coragem. No Rio de Janeiro, um grupo de estudantes, que se identificam como MV-Brasil, colou nos muros de vários bairros o slogan Entregue suas armas e torne-se um escravo. Declaram-se patriotas na defesa do país contra a conspiração de uma quadrilha formada por 250 famílias, entre elas a do presidente Bush, que querem desmontar os Estados e submetê-los a uma ditadura internacional privada. Esse samba-do-crioulo-doido afirma que Bush, que defende o armamentismo, está por trás da campanha de desarmamento; diz-se patriota, mas usa o argumento do escravo x homem livre, da Associação Nacional de Fuzis norte-americana; e utiliza o argumento da conspiração internacional, como fazia o integralismo e o nazi-fascismo na década de 30 para sensibilizar o patriotismo das pessoas. Por mais simpatia que tenhamos por estudantes que se interessem por causas sociais, somos obrigados a recomendar-lhes que procurem se informar melhor. Deveriam trocar as armas pelos livros, antes de se lançarem às ruas dizendo incongruências. 18. Mapa da Violência das Armas Mundo Desde o fim da II Guerra Mundial, cerca de 30 milhões de pessoas morreram em diferentes conflitos armados, 26 milhões das quais sob o impacto de armas pequenas. Apesar de representar só a oitava parte do comércio total de armas, o comércio clandestino, ou descontrolado, de armas pequenas tornou fácil a aquisição desses produtos, com preços acessíveis, fáceis de transportar e de manusear (até por crianças), que duram muito e que são fáceis de esconder. São essas armas que alimentam o crime organizado, a explosão de violência nos centros urbanos e os conflitos armados.

81 Estima-se que morram vítimas por arma de fogo cerca de 300 mil pessoas em todo o mundo, das quais 100 mil em conflitos bélicos e 200 mil como conseqüência do uso de armas em assaltos, roubos, estupros e suicídios; 231 se somadas as mortes por arma de fogo não intencionais, este número sobe para 270 mil. Calcula-se que 40% dos homicídios sejam cometidos com arma de fogo no mundo. 232 Na tabela seguinte, vemos a cotação dos países campeões em homicídios por arma de fogo (os EUA entram a título de comparação e PAF = por projétil de arma de fogo). Ano de referência Taxa de Mortes PAF / Taxa de homicídios PAF / Numero de Mortes PAF % de homicídios cometidos com armas de fogo 1. Colômbia ,7 51, ,3% 2. África do Sul ,8 26, ,0% 3. El Salvador ,8 25, ,4% 4. Brasil ,8 21, ,9% 11.Estados Unidos ,5 4, ,3% Fontes: 1. Nacional Reference Center for Violence, Colombia; 2. South African Police Service (SAPC); 3. PNUD Armas de Fuego y Violencia; 4. SUS/ISER; 5. National Center for Health Statistics CDC. Desses países, a Colômbia não aplica sua lei de controle de armas e está em guerra, El Salvador e Estados Unidos têm leis permissivas, e Brasil e África do Sul têm legislação nova, ainda em início de implementação. Por contraste, o Japão, com uma das leis mais rigorosas, tem uma taxa de homicídio por arma de 0,03 por 100 mil habitantes. 233 Segundo a Anistia Internacional, 60,9% das violações aos direitos humanos são cometidas com armas pequenas nos 12 principais países afetados pela violência, incluindo o Brasil. A América Latina e o Caribe têm a maior taxa de mortes por arma de fogo do mundo: de 12,89 a 15,5 por habitantes. 60% dos homicídios são cometidos nas Américas por arma de fogo. 234 De acordo com a Organização Pan-americana de Saúde, 84% do total de homicídios ( ), cometidos em 2000 no continente americano, ocorreram nos 4 países com maior população, liderados pelo Brasil: Brasil: 38% dos homicídios; Colômbia: 27%; EUA: 20%; e México: 15%. 235 Brasil Infelizmente, a natureza cordial do brasileiro, afirmada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, e a tendência conciliadora de nossas relações pessoais e sociais, são um mito. Conciliação existiu dentro da oligarquia. No entanto, a cortesia dentro da elite não impediu que índios fossem exterminados, escravas tivessem seus dentes arrancados por sinhazinhas ciumentas, marinheiros fossem punidos com a chibata, torturas sejam praticadas até hoje em delegacias policiais contra os pobres. Não é idealizando um modelo, que nunca existiu, que iremos superar nossa tradição sangrenta, mas enfrentando-a com realismo e atacando suas causas. Pesquisa do IBGE revelou que em 20 anos, de 1980 a 2000, cerca de 600 mil brasileiros, isto é, mais de meio milhão, foram assassinados; nesse período, a taxa de homicídios subiu 130%. Na guerra civil de Angola, que durou 27 anos, morreram 350 mil pessoas. Só na década de 90,

82 foram assassinados no Brasil indivíduos, mais que os 340 mil mortos com as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. 236 Pesquisa do ISER, a partir dos mesmos dados, constatou que nos 20 anos mencionados, foram mortos por arma de fogo no país pessoas, o que corresponde a 53% de todos os homicídios cometidos no período. 237 Os números mais recentes relativos à violência por armas de fogo entre nós são impressionantes: - Dos 104 brasileiros que morreram em média por dia em 2002 vítimas de arma de fogo, 94 foram por homicídios, 4 por suicídios, 1 por acidente e 5 de intencionalidade desconhecida; Se o Brasil ocupa o quarto lugar em taxas de mortalidade por arma de fogo a nível internacional, em números absolutos somos campeões mundiais, com mortes anuais, em [Em 2003 foram ] Os feridos chegam a a cada ano; As armas de fogo matam 3,5 vezes mais brasileiros que a Aids, e 27 vezes mais jovens que a população total; O número de homicídios tem aumentado a um ritmo 4 vezes maior do que o da população; ,9% dos homicídios são cometidos por armas de fogo, enquanto 19,8% são causados por arma branca; 242 Segundo pesquisa de Julio Jacobo Waiselfisz, da UNESCO, entre 1979 e 2003, morreram vítimas de arma de fogo no Brasil pessoas, e em Mas fica difícil entender a exata dimensão desses números. Uma idéia do que representam pode ser dada se compararmos os indivíduos mortos no Brasil por arma de fogo na última década ( ), e sua média anual de mortes, com o número de vítimas em diversos conflitos armados ao longo do mundo, conforme a tabela a seguir. 243 Comparativamente, embora os EUA sejam um país de tradição reconhecidamente violenta, avaliação do sociólogo Gláucio Soares revela que morreram no Brasil por causas violentas, desde 1979, cerca de 2 milhões de pessoas. Contingente maior do que os soldados norte-americanos mortos em todas as guerras travadas por aquele país, desde a Independência até hoje. 244 Para os padrões internacionais sobre violência urbana, o panorama nacional é estarrecedor. 19. Mapa das armas de fogo Mundo O número das armas pequenas em circulação no mundo subiu 16% em um ano, passando a cerca de 639 milhões de armas, considerando-se apenas as informações relativas a 110 países, que representam mais da metade da população mundial. Dessas armas, apenas 37,8% pertencem às Forças Armadas, 2,8 % às forças públicas policiais, 0,2% a grupos rebeldes, e a enorme proporção de 59,2% está nas mãos de civis. Mesmo considerando que a cada ano são destruídas cerca de 4 milhões dessas armas, a indústria da morte joga mais de 8 milhões de novas armas no mercado por ano. 245 O valor total de sua produção, incluindo munição, foi de US$ 7.4 bilhões em São fabricadas por empresas, em pelo menos 92 países. 246 Esse mercado é dominado por 13 países: Estados Unidos, Itália, Bélgica, Alemanha, Rússia, Brasil, China, Áustria, Suíça, Grã-Bretanha, França, Israel e África do Sul. 247 Os maiores exportadores de armas pequenas são, por ordem de importância, Estados Unidos, Itália, Brasil, Alemanha, Bélgica, Rússia e China que, juntos faturam US$ 100 milhões por ano com a exportação desses produtos, incluindo munição. 248 Brasil

83 Revelações de Brasil: as Armas e as Vítimas O primeiro levantamento global das armas existentes no Brasil acaba de ser concluído. Trata-se da pesquisa Posse de Armas de Fogo no Brasil: Mapeamento das Armas e seus Proprietários, de autoria de Pablo Dreyfus e Marcelo Nascimento, do ISER/Viva Rio. 249 Este item se baseia nesse trabalho pioneiro, que enfrentou enormes dificuldades para ser realizado. Primeiro, porque os dados sobre armas são incompletos, precários e, na maioria dos Estados, não informatizados. Apenas a partir de 1997, com a lei que criou o SINARM, começou-se a pressionar as polícias estaduais para que informassem à PF sobre os registros de armas feitos; mas perdurou a descentralização, a não colaboração entre os vários órgãos responsáveis pela área e a sub-notificação. Foi necessário que se buscasse as informações diretamente, em cada Estado. Esse admirável trabalho foi feito durante 6 meses, em 24 Estados, pelo detetive Luiz Cláudio Carvalho Silveira, aposentado da Polícia Civil do Estado do Rio e integrante da equipe do Viva Rio. O segundo obstáculo foi o caráter confidencial das informações sobre as nossas Forças Armadas e Polícia Militar. Apesar da colaboração do Comando do Exército, por regulamento seus dados sobre armas não são acessíveis a analistas. Portanto, os números relativos a essas forças militares são estimativas. A metodologia utilizada pode ser verificada em detalhes na publicação mencionada. Em conseqüência, os números finais são uma primeira aproximação dos dados da realidade, que deverão ser aprimorados no futuro quando os atuais obstáculos forem removidos. A pesquisa procura responder a questões básicas: quantas armas existem no Brasil, onde elas estão e quem as possui? Como situação geral, seus autores esclarecem: Por um lado, existem as armas do Estado, as quais, em princípio, não deveriam ser parte do problema. Por outro lado, temos a posse privada. Estas armas estão nas mãos de cidadãos honestos e de criminosos. No entanto, a realidade não é tão simples. Em um país no qual o registro de armas de fogo só foi regulado sistematicamente a nível nacional em 1997, devemos assumir que existe um grande mercado informal. Ou seja, as armas de fogo que, apesar de não necessariamente estarem nas mãos de criminosos, estão em situação ilícita, ou seja, não estão declaradas ou controladas pelo Estado e portanto são mais suscetíveis de serem desviadas para o mercado criminoso. O cenário fica ainda mais complicado se considerarmos que há certas castas armadas, tais como os colecionadores (que podem ter armas de tipo militar fuzis, sub-metralhadoras - em casa), atiradores, caçadores, oficiais de polícia, militares e sargentos, que têm privilégios para comprar armas de fogo e não são diretamente monitorados pela polícia. A isto precisamos finalmente adicionar a crescente indústria da segurança particular. 250 Quem tem e quantas são as armas? MAPA DAS ARMAS NO BRASIL Entidade Efetivo Número de armas SETOR PRIVADO MERCADO LEGAL Pessoas Físicas Civis Empresas de Segurança Privada legalizadas vigilantes Armas de uso particular na posse de oficiais oficiais e sargentos e sargentos militares da ativa oficiais e sargentos reformados oficiais e sargentos

84 Armas de uso particular de policiais policiais aposentados da ativa CAC Colecionadores Atiradores Caçadores Juízes e Ministros de Tribunais Outras pessoas jurídicas MERCADO INFORMAL MERCADO CRIMINAL ESTADO Forças Armadas Ativa Reserva Polícias e Justiça Criminal Polícia Federal Polícia Rodoviária Federal Polícia Militar Polícia Civil Bombeiros, Guardas Penitenciários e Guardas Municipais Juízes e Magistrados TOTAL GERAL Estimativa: Fonte: Brasil: as Armas e as Vítimas, 2005 Número de Armas por Setor no Brasil

85 Fonte: Brasil: as Armas e as Vítimas, 2005 Ficam assim as ilustrações de cada setor, da mesma fonte: [ gráficos excluídos ] Conclusões Analisando os dados citados, chega-se a várias conclusões, todas elas preocupantes e que ajudam a esclarecer porque o Brasil vive nesse caldeirão de violência: 90% das armas estão em mãos civis ( ), quando a média internacional é de 60%, e apenas 10% são do Estado ( ); As armas ilegais representam 50% ( ) do total e as legais 50%; das armas ilegais, 54% pertencem ao mercado informal ( ) e 46% estão em mãos de criminosos ( ); Das armas no setor privado, 30% são informais (não registradas), 25% criminais e 45% são legais. Os autores comentam: Armas de fogo migram do circuito legal para o ilegal. No Rio de Janeiro, sabemos que 25,6% das armas de fogo apreendidas ( ) pertenciam a proprietários legais que as haviam registrado. Em São Paulo, esta proporção era de 52% para armas de fogo apreendidas entre 2000 e 2003, enquanto em Brasília a proporção era de 29% de 2001 a Se as armas registradas, teoricamente monitoradas pelo Estado, migram em tal quantidade para circuitos criminosos, não seria de se esperar que um número ainda maior de armas não registradas vá parar em mãos de delinqüentes, seja através de vendas ilícitas, roubo ou uso em atividades criminosas? 252

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