Géneros textuais e tipos textuais Armando Jorge Lopes

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1 Géneros textuais e tipos textuais [texto de apoio para o curso de doutoramento em ciências da linguagem aplicadas ao ensino de línguas/universidade Pedagógica, Maputo, Outubro de 2015] Armando Jorge Lopes Os variados enunciados orais ou escritos que são produzidos pelos utentes de uma determinada língua constituem autênticos géneros textuais. Por exemplo, a conversa (o bate-papo), a piada, o telefonema, o discurso (em geral, cerimonioso), a palestra, o conto, a crónica, o artigo de opinião, o artigo científico, o artigo de divulgação científica, a dissertação, a reportagem, o editorial, o anúncio, a lenda, o conto popular, a receita de culinária, o apólogo, o romance, a novela, o mito, a fábula, etc. Cada um destes géneros textuais varia de acordo com os contextos de situação, a posição social e o relacionamento pessoal dos interlocutores e outras circunstâncias. Os géneros textuais são textos que ocorrem na vida quotidiana dos indivíduos e na sociedade e que apresentam características discursivo-comunicativas instanciadas pela temática da interacção, pela construção da composição e por outras propriedades funcionais que incluem o estilo e o registo sociolinguístico. Os tipos textuais são linguística e discursivamente definidos pelos seus aspectos sintácticos, lexicais, lógicos, retóricos e cognitivos que intervêm na sua composição. Por exemplo, a narração, a descrição, a definição, a argumentação, a comparação, o contraste, a análise, a síntese, as relações de ordem temporal e espacial, a causalidade e o resultado, a implicação e a concessão, a explicação, a predição, a escrita dissertativa, etc.

2 2 Se pegarmos num destes exemplos, o caso primeiro da tipologia textual narrativa, verificamos que ocorre o relato de acontecimentos, factos ou situações reais ou imaginários que envolve personagens em contextos temporais e espaciais. Um determinado género textual contém normalmente um tipo textual em foco, mas um mesmo género textual pode envolver mais do que uma única tipologia. No género textual do romance ou da novela predomina a tipologia textual narrativa com ênfase em relações temporais e espaciais de anterioridade e posterioridade. No género textual da dissertação, o escrevente (no caso da dissertação escrita) constrói argumentos que julga consistentes, com vista a convencer o seu leitor em relação a um determinado ponto de vista ou questão. Assim, ocorre também esta tipologia textual em géneros como o artigo de opinião, o editorial, o comentário, a exposição argumentativa (carta), a carta do leitor, etc. O utente (e com maior razão, o aprendente) de uma língua deve aperfeiçoar as suas competências de leitura e escrita, ao máximo de uma forma geral, a sua fluência e proficiência através do melhoramento das habilidades de interpretação e produção de géneros textuais e dos tipos textuais que geralmente acompanham os diferentes géneros. O utente (ou aprendente) deve saber adaptar o texto que está a produzir, em termos da sua temática e conteúdo, em termos da linguagem e em termos da situação comunicativa em que o texto se insere.

3 3 Quanto à fluência e proficiência, embora sejam por vezes confundidas, estas noções são distintas. É possível ser-se fluente sem se ser muito proficiente, assim como é possível ser-se proficiente sem se ser muito fluente. Aspectos da fluência têm a ver com a prosódia da língua, a pronúncia e o timing no diálogo. Por outro lado, a proficiência tem a ver com a habilidade de compreensão da fala e da escrita e com a habilidade de comunicação na língua. As crianças, em geral, podem ser bastante fluentes numa língua, mas não muito proficientes, porque lhes falta, muitas vezes, certo vocabulário que ocorre com o conhecimento e compreensão da língua, na sua profundidade. Tratar de ambas constitui objectivo fundamental, mas é importante saber o propósito que se tem em vista para se desenvolverem na aprendizagem de uma língua as necessárias rotinas linguístico-discursivas que permitam atingir tal objectivo. As novas tecnologias de informação e comunicação possibilitam o aparecimento de outros géneros textuais contemporâneos, como são a mensagem enviada por , o chat via Internet, o recado colocado no Facebook e os chamados contactos virtuais (aulas incluídas). As técnicas retóricas e as funções retóricas têm a ver com o tipo textual. Trata-se de uma forma de como melhor organizar didacticamente o tipo textual, afunilando a sua caraterização: a ordem temporal, a ordem espacial, a causalidade e o resultado, os padrões lógicos, etc. são técnicas retóricas; a descrição, a definição, a classificação, as instruções, a comparação, o contraste, etc. são funções retóricas.

4 4 Sobre o artigo de opinião O artigo de opinião é um género textual que consiste na construção de uma opinião a propósito de um tema ou questão controversos. O objectivo é convencer o leitor em relação a uma ideia com vista a influenciá-lo e a transformar os seus valores por meio da argumentação a favor de um ponto de vista ou posição e da refutação de possíveis pontos de vista, posições ou opiniões contrários. A tipologia textual principal do artigo de opinião é a escrita dissertativa, priorizando a análise de acontecimentos sociais e a posição do autor. O artigo de opinião pode estruturar-se da seguinte forma (três partes): situação problema, onde se coloca a questão a desenvolver; a discussão, onde se expõem os argumentos e se constrói a opinião a respeito da questão examinada; e a solução avaliação, onde se evidencia a resposta à questão. Sobre a crónica A crónica é um texto curto e rápido, geralmente produzido por um jornalista, um escritor ou pessoa de mérito numa determinada sociedade. É publicada em jornais e revistas, meios que são impressos ou online, de circulação diária, semanal ou mensal e que pode ainda ser divulgada em livro ou blogs. Este género apresenta normalmente uma tipologia textual centrada na narração, escrita dissertativa e, por vezes, dialogal. A crónica é um género textual que faz uma reflexão pessoal sobre eventos ou acontecimentos quotidianos, revelando, apresentando ou mostrando aspectos não percebidos. Trata-se normalmente de uma reacção individual e íntima a coisas e/ou seres da vida. Aborda questões sociais, factos sociais, uma notícia marcante, uma viagem, um documentário, um filme, uma peça de teatro, etc.

5 5 Segundo o autor, a crónica busca a aproximação do leitor, através do uso do discurso indirecto livre e através de perguntas retóricas. Existem dois tipios de crónica, a saber, a literária e a não-literária. Ambas partem de dados da realidade para construir a reflexão. A crónica literária transforma os elementos objectivos em elementos estéticos, a partir da criação e capacidade imaginativa do cronista. Usa linguagem subjectiva, porque se está sempre a reinventar o real através do uso de certas palavras e construções discursivas. A crónica não-literária emprega uma linguagem objectiva, sendo as mais comuns as jornalísticas, desportivas, sociais, policiais, etc. Utilizam-se informações reais, possíveis de serem comprovadas.

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