ANFÍBIOS COMO BIOINDICADORES DA QUALIDADE AMBIENTAL DA FAIXA DE PROTEÇÃO CILIAR DO RESERVATÓRIO DA USINA HIDRELÉTRICA ITÁ

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1 ANFÍBIOS COMO BIOINDICADORES DA QUALIDADE AMBIENTAL DA FAIA DE PROTEÇÃO CILIAR DO RESERVATÓRIO DA USINA HIDRELÉTRICA ITÁ Angelita Faez 1. RESUMO A Usina Hidrelétrica Itá entrou em funcionamento no ano 2000, alagando uma área de 141 Km 2, destruindo grande parte da Floresta Estacional, uma das variações do bioma Mata Atlântica. Em seu entorno foi criada uma faixa de preservação permanente, conforme a legislação ambiental. Os onze municípios banhados pela represa são essencialmente agrícolas e as embalagens de agrotóxicos boiando em suas águas evidenciam seu uso. A inexistência de estudos referentes à contaminação desta área motivou a idealização deste projeto que utilizará anfíbios como bioindicadores da qualidade ambiental. O estudo será realizado mensalmente, em dez fragmentos da faixa de preservação permanente, considerando a ocorrência da aplicação de agrotóxicos nas proximidades de cinco destes fragmentos e sua influência nas populações de anfíbios. As metodologias utilizadas serão o senso de visualização, censo de audição e armadilhas de interceptação e queda. Os dados serão registrados através de fotografia e gravação de vocalização para posterior identificação. O presente estudo, por ser inédito na região, poderá servir de base para muitos outros estudos. Palavras-chave: agrotóxicos, água, anfíbios, bioindicadores, qualidade ambiental. 2. INTRODUÇÃO Os anfíbios foram os primeiros vertebrados adaptados ao ambiente terrestre, distribuindo-se, atualmente em uma grande variedade de ecossistemas em que água doce está presente (LOEBMANN, 2005). A combinação de várias características morfofisiológicas, ciclo de vida com estágio aquático e terrestre, capacidade de dispersão limitada e padrões de distribuição geográfica restritos, torna os anfíbios um grupo extremamente suscetível às alterações ambientais, constituindo-se de potenciais indicadores da qualidade de inúmeros ambientes. De fato, os anfíbios têm sido o foco

2 das atenções de inúmeros estudos sobre os efeitos de alterações ambientais provocadas pelo homem (BORGES, 2007). A lista nacional de répteis e anfíbios, publicada pela Sociedade Brasileira de Herpetologia (SBH; 2014), descreve a presença de 1026 espécies de anfíbios no território Brasileiro. No estado de Santa Catarina, onde predomina o bioma Mata Atlântica, ocorrem várias espécies de anfíbios ameaçadas de extinção devido aos impactos ambientais provenientes da agricultura e pecuária combinadas ao uso de agrotóxicos e à construção de barragens para o estabelecimento de usinas hidrelétricas. Tais atividades diminuem e fragmentam os habitats, também causam mudanças na estrutura da paisagem e alteram a dinâmica hidrológica das bacias (ICMBIO, 2014). A Usina Hidrelétrica Itá (UHE Itá), localizada no Rio Uruguai abrange a região oeste de Santa Catarina e noroeste do Rio Grande sul, servindo de limite político entre os dois estados. Entrou em funcionamento no ano 2000, inundando uma área de 141 Km² e atingindo 11 municípios. A instalação desta hidrelétrica destruiu grande parte da vegetação ciliar pertencente à Floresta Estacional, uma das fitofisionomias do bioma Mata atlântica (BASTIANI, 2012). Em cumprimento à Lei Federal n de 15 de setembro de 1965 (BRASIL, 1965), houve a implantação de uma faixa de proteção ciliar de 30 metros de largura ao redor de todo o reservatório da UHE Itá. Foi realizado o plantio de mudas de árvores nativas nas áreas desmatadas e em seu entorno foram construídas cercas visando evitar o acesso de animais domésticos que poderiam interferir na recomposição da vegetação. A agricultura e a pecuária são as principais fontes de subsistência da população que vive na região de abrangência da UHE Itá e o uso de agrotóxicos, principalmente do herbicida glifosato tem ocorrido em larga escala, inclusive em áreas que fazem divisa com a reserva de mata ciliar da represa. Em diversas ocasiões, são encontradas embalagens deste herbicida boiando nas águas do reservatório, porém não há nenhum estudo referente aos efeitos deste herbicida em organismos bioindicadores nesta região. O estudo dos anfíbios consiste em uma ferramenta importante na avaliação do ambiente, pois o menor desequilíbrio em seus habitats naturais reduz sua capacidade reprodutiva, resultando no rápido decréscimo ou até mesmo, o desaparecimento de populações (POUGH et al, 2008).

3 Considerando a inexistência de pesquisas relacionadas aos anfíbios da região, este trabalho busca responder ao seguinte questionamento: A poluição por agrotóxicos tem afetado as comunidades de anfíbios da faixa ciliar do lago da UHE Itá? O presente projeto justifica-se pela importância exercida pelos anfíbios no equilíbrio ambiental, sua suscetibilidade às ações antrópicas, condição que os transforma em excelentes indicadores da qualidade ambiental e o uso dos dados obtidos como base para futuros trabalhos de conservação das espécies de anfíbios na região. 3. OBJETIVOS E HIPÓTESES 3.1 Objetivo geral Inventariar espécies de anfíbios encontradas em fragmentos da mata ciliar no entorno do lago da UHE Itá e verificar a proximidade de áreas de aplicação de agrotóxicos e sua interferência nas populações. 3.2 Objetivos específicos Analisar a presença de anfíbios na faixa de preservação no entorno do lago da UHE Itá; Verificar se há variações significativas nas populações de anfíbios de cada fragmento estudado; Investigar a relação entre a proximidade de lavouras que fazem uso de agrotóxicos e a quantidade de indivíduos encontrados. Encontrar e identificar possíveis espécies ainda não conhecidas; Fornecer bases científicas para futuras ações de preservação do ecossistema estudado. 3.3 Hipótese O presente trabalho visa testar a hipótese de que o uso de agrotóxicos nas lavouras próximas à faixa de preservação permanente influencia quantitativamente as populações de anfíbios do local. 4. MATERIAIS E MÉTODOS

4 As amostragens dos anfíbios serão realizadas mensalmente, de agosto de 2015 a julho de 2016 em dez fragmentos da faixa ciliar do entorno do lago de UHE Itá a serem definidos, contemplando áreas alagadas, poças temporárias, arroios e córregos, sendo que cinco destes fragmentos deverão estar a uma distância mínima de 500 metros de lavouras e pastagens e os outros cinco fragmentos deverão estar a uma distância máxima de 200 metros de lavouras nas quais são aplicados herbicidas. As informações sobre a aplicação dos herbicidas serão coletadas junto aos proprietários das lavouras. Durante o dia, será utilizado o método do censo de visualização (VES - visual encounter survey), que consiste na realização de deslocamentos aleatórios nos pontos de amostragem, registrando-se todos os espécimes avistados. À noite, com o auxílio de lanterna, será utilizado novamente o método do censo de visualização aleatória, conjugado com um censo de audição (AST - audio strip transects) (HEYER et al., 1994). Também serão utilizadas armadilhas de interceptação e queda que consistem de recipientes enterrados no solo (pitfalls) e interligados por cercas-guia (driftlences; CORN, 1994). É importante destacar que estas armadilhas permanecerão abertas por apenas 24 horas em cada amostragem, evitando que animais fiquem presos por longos períodos. A identificação das espécies será feita com base em literatura, consulta a especialistas e comparação com exemplares depositados em coleções científicas. Para auxílio na identificação taxonômica, as imagens serão fotografadas com a câmera digital Sony modelo W730 e a vocalização das espécies será registrada com gravador digital Marantz modelo PMD661 e microfone direcional Sennheiser modelo K6/ME CRONOGRAMA Ano Ações Mês Levantamento bibliográfico Desenvolvimento do projeto Qualificação do projeto Envio ao comitê de ética Pesquisa de campo M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D Análise de dados Apresentação dos resultados

5 Versão final da dissertação Quadro 1 - Cronograma. Fonte: a autora. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BASTIANI, Veluma Ialú Molinari de. Anfíbios anuros (amphibia, anura) de um remanescente de floresta estacional no sul do Brasil. Chapecó, p. BORGES-MARTINS, M.; P. COLOMBO; C. ZANK; F.G. BECKER & M.T.Q. MELO Anfíbios p In: BECKER, F.G.;R.A. RAMOS & L.A. MOURA (orgs.) Biodiversidade: Regiões da Lagoa do Casamento e dos Butiazais de Tapes, Planície Costeira do Rio Grande do Sul. Ministério do Meio Ambiente, Brasília. 385 p. BRASIL. Lei n de 15 de setembro de Institui o Código Florestal. Disponível em: < Acesso em 16 de outubro de CORN, P.S. Standard techniques for inventory and monitoring - Straight-line drift fences and pitfall traps. In Measuring and monitoring biological diversity. Standard methods for amphibians (W.R. Heyer, M.A. Donnelly, R.W. Mcdiarmid, L.C. Hayek & M.S. Foster, eds.). Smithsonian Institution Press, Washington, p HEYER, W. R., DONNELY, M. A., MCDIARMID, R.W., HAYEK, L. A., FOSTER, M. Measuring e Monitoring Biological Diversity: Standard Methods for Amphibians. Washington and London: Smithsonian Institution Press, p LOEBMANN, D. Guia Ilustrado: Os Anfíbios da região costeira do Extremo Sul do Brasil. Pelotas: USEB, NSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE (ICMBio). Sumário executivo do plano de ação nacional para a conservação dos anfíbios e répteis ameaçados da região sul do Brasil. Disponível em: Acesso em 30/10/2014. POUGH, F. H.; JANIS, C. M.; HEISER, J. B. A vida dos Vertebrados. São Paulo: Atheneu ditora SOCIEDADE BRASILEIRA DE HERPETOLOGIA (SBH). Lista de anfíbios do Brasil Disponível em: Acesso em 25/10/2014.

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