redes empresariais e gestão da qualidade

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1 Universidade regional do noroeste do estado do rio grande do sul unijuí vice-reitoria de graduação vrg coordenadoria de educação a distância CEaD Coleção Educação a Distância Série Livro-Texto Lucinéia Felipin Woitchunas redes empresariais e gestão da qualidade Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil 2009

2 2009, Editora Unijuí Rua do Comércio, Ijuí - RS - Brasil Fone: (0 55) Fax: (0 55) Editor: Gilmar Antonio Bedin Editor-adjunto: Joel Corso Capa: Elias Ricardo Schüssler Revisão: Véra Fischer Designer Educacional: Liane Dal Molin Wissmann Responsabilidade Editorial, Gráfica e Administrativa: Editora Unijuí da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí; Ijuí, RS, Brasil) Catalogação na Publicação: Biblioteca Universitária Mario Osorio Marques Unijuí W847r Woitchunas, Lucinéia Felipin. Redes empresariais e gestão da qualidade / Lucinéia Felipin Woitchunas. Ijuí : Ed. Unijuí, p. (Coleção educação a distância. Série livro-texto) Administração. 2. Redes de cooperação. 3. Redes empresariais. 4. Redes de cooperação Conceitos. 5. Redes de cooperação Tipologias. 6. Gestão da qualidade. I. Título. II. Série. CDU :

3 Sumário Conhecendo a Professora...5 Apresentação...7 Unidade 1 Redes de Cooperação: conceitos e contextualização...9 Unidade 2 Classificação de redes interorganizacionais...13 Introdução...13 Seção 2.1 Redes verticais de cooperação...14 Seção 2.2 Redes horizontais de cooperação...15 Seção 2.3 O fomento e apoio às redes empresariais como um programa de política pública no Rio Grande do Sul...17 Unidade 3 Tipologias de redes...19 Introdução...19 Seção 3.1 Tipologia de Ernst (1994)...19 Seção 3.2 Tipologia de Lewis (1992)...20 Seção 3.3 Tipologia de Laumann, Galaskiewicz e Mardsen (1978)...21 Seção 3.4 Tipologia de Grandori e Soda (1995)...21 Seção 3.5 Tipologia de Casarotto e Pires (1999)...22 Seção 3.6 Características das três configurações de redes, na ótica de Balestrin e Verschoore...24 Unidade 4 Mecanismos de coordenação em redes...27 Seção 4.1 A importância da gestão da rede...27 Seção 4.2 Estruturas de governança em rede...28 Seção 4.3 Benefícios e dificuldades de estar em rede...32

4 Unidade 5 Marca compartilhada: riscos e benefícios...39 Unidade 6 Gestão da qualidade em redes empresariais...45 Seção 6.1 Qualidade em produtos e serviços...45 Seção 6.2 Modelos de gestão da qualidade de produtos e serviços...47 Padronização e gerenciamento da melhoria...47 O Ciclo PDCA um método para gerenciar processos...48 Seção 6.3 Técnicas e ferramentas para a gestão da qualidade...49 Brainstorming...49 Diagrama de causa e efeito...49 Programa 5 Ss...50 Técnica 5W 2H...51 Folha de Verificação...53 Benchmarking...53 Reengenharia...54 Referências...57 Bibliografia Básica...57 Bibliografia Complementar...57

5 Conhecendo a Professora EaD redes empresariais e gestão da qualidade Lucinéia Felipin Woitchunas Nasci em Ijuí e nesta cidade cursei o Ensino Fundamental em uma escola estadual. Depois concluí o Ensino Médio profissionalizante em um colégio cenecista, onde recebi o título de Técnica em Contabilidade. Graduei-me em Administração no ano de 2000, na Unijuí. Em 2003 concluí o curso de Pós-graduação em Marketing, também na Unijuí, e em 2005 recebi o título de mestre em Desenvolvimento, Gestão e Cidadania, novamente pela Unijuí. Desde jovem sempre conciliei meus estudos à noite com o trabalho durante o dia. Assim, aprendi bastante e fui conquistando meus espaços, acumulando experiências como: gerente de recursos humanos, administradora hospitalar, consultora de empresas (em especial de redes empresariais), coordenadora de projetos de extensão e professora universitária. Minha monografia de Pós-Graduação teve como título: Planejamento Estratégico em redes de pequenas empresas: o processo participativo na Rede Agivest e a dissertação de Mestrado levou um longo título: Fatores críticos de sucesso no processo de formação, desenvolvimento e manutenção de redes horizontais de cooperação: um estudo multicaso. Como podem ver, tenho estreita relação com o tema deste livro. Em 2003 comecei a atuar como professora universitária, na Unijuí e na Uergs (nesta última encerrei atividades em 2007, optando pela Unijuí). Atuo com maior freqüência nas áreas de teorias administrativas, planejamento, estratégias, marketing e administração rural. Mais informações sobre publicações, prêmio recebido e experiências acumuladas podem ser obtidas no meu curriculum lattes acessando a página < Em 2008 atuei como supervisora regional do Programa Redes de Cooperação no convênio entre a Unijuí e a Secretaria de Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais do Rio Grande do Sul Sedai. Em 2009 estou coordenando um convênio com foco no Planejamento 5

6 Lucinéia Felipin Woitchunas Estratégico para Redes Empresariais e Empreendimentos Associados, que prevê o desenvolvimento de uma metodologia específica, aplicada, e com publicação dos resultados. Casada desde 1994, em 2006 fui abençoada com um filho lindo que se chama Carlos Arthur (como podem ver, sou mãe coruja também). Ele é a alegria da minha vida. Sempre gostei muito de aprender, ler, investigar, escrever, mas também gosto muito das atividades práticas de gestão, em especial consultoria empresarial. Embora não seja fácil, sempre que posso tento conciliar as duas coisas (aulas e consultorias). Espero que goste do que preparei para você e se sinta muito motivado(a) para iniciarmos logo esta etapa. Desejo que você seja um ótimo aluno(a) virtual e um profissional nota 10. Sucesso! Ah, ia esquecendo... somos todos gremistas lá em casa. 6

7 Apresentação redes empresariais e gestão da qualidade A estruturação organizacional em redes vem sendo apresentada como uma forma de sobrevivência, principalmente para micro, pequenas e médias organizações. Castells (2001) afirma que as redes são e serão os componentes fundamentais das organizações. Continua o autor declarando que a integração em redes tornou-se a chave da flexibilidade organizacional e do desempenho organizacional. Essas redes de cooperação interorganizacional aparecem como exemplos exitosos em diversos países que tiveram sua economia dinamizada a partir da cooperação empresarial entre empreendimentos de pequeno porte. Foi assim na Itália, no México, na Argentina, entre outros. Hoje pode-se dizer que também a Espanha está apostando neste formato de organização buscando maior competitividade para os negócios. No Estado do Rio Grande do Sul, o processo de Redes de Cooperação tomou tal importância que há dez anos o governo estimula as empresas gaúchas a se organizarem e competirem em rede por meio de uma política pública criada especialmente para o fomento e apoio ao desenvolvimento empresarial, em parceria com Instituições de Ensino Superior IES. Entre os resultados possíveis de serem atingidos pelas empresas que se organizam em redes de cooperação estão: maior poder de barganha nas negociações; mais acesso a tecnologias; melhoria nos processos produtivos e de gestão; maior e melhor visibilidade de marca; custos compartilhados; troca de informações, entre outros. A estrutura em rede, porém, também apresenta alguns desafios para as empresas. É preciso construir uma estrutura executiva que dê suporte aos objetivos dos associados e promova uma intensa articulação entre a rede e as empresas. Aproveitar as vantagens possíveis de serem obtidas pela nova estruturação também é fundamental. É importante ressaltar que a qualidade permeia todo o processo de redes, pois a atuação no mercado com uma marca compartilhada, as negociações em conjunto, entre outros benefícios, pressupõem uma intensa padronização de produtos e processos. São muitas as ferramentas da qualidade que podem ser utilizadas pelas redes, mas na prática ainda são pouco aproveitadas. É preciso pensar que a qualidade é tudo e que o foco deve ser sempre o cliente, pois este é o elo final que dá sustentação a toda a cadeia produtiva. Então, estão curiosos(as) para saber um pouco mais sobre as Redes de Cooperação? Então, vamos lá! 7

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9 Unidade 1 redes empresariais e gestão da qualidade Redes de Cooperação: conceitos e contextualização Nesta Unidade nossos objetivos serão retomar e ver novos conceitos sobre as redes de cooperação empresarial. Vocês já devem ter ouvido falar de alguma Rede Empresarial, ou, até mesmo, devem ser clientes ou fornecedores de empresas que estão ligadas a algumas delas. Diversos segmentos estão se organizando em redes, nos setores (primário, indústria, comércio, serviços e social). Por exemplo: a) comércio: supermercados, farmácias, livrarias e papelarias, confecções, calçados, tintas; b) indústria: confecções, metalmecânica; moveleira; c) serviços: escolas de artes marciais, escolas de cursos livres, restaurantes, hotéis, escolas infantis, jornais, escritórios de contabilidade; d) primário: em 2008 o setor também constituiu uma rede de associações e cooperativas de produtores de leite; e) social: entidades assistenciais e filantrópicas. Enfim, existe uma infinidade de redes nos mais diversos segmentos. Por que você acha que as empresas estão se organizando em rede? Responda esta questão, depois prossiga na leitura. As redes empresariais vêm surgindo como uma alternativa para as pequenas empresas, que apresentam um alto índice de mortalidade ainda nos primeiros dois anos de existência, mas que vêem na atuação conjunta uma estratégia que pode gerar vantagem competitiva na disputa com grandes empresas, garantindo sua sobrevivência e crescimento no mercado. O antigo modelo de organizações baseado na integração vertical, na burocracia weberiana, já não atende mais às necessidades requeridas pelo ambiente e pela gestão de negócios que exige, cada vez mais, estruturas flexíveis e integradas. Para Chiavenato (1996), os três velhos 9

10 Lucinéia Felipin Woitchunas Burocracia weberiana São características pertinentes à burocracia dentro da concepção weberiana: o caráter legal das normas e regulamentos; o caráter formal das comunicações; o caráter racional e divisão do trabalho; a observância da impessoalidade nas relações; hierarquia de autoridade; rotinas e procedimentos padronizados; competência técnica e meritocracia; especialização da administração; profissionalização dos participantes, bem como completa previsibilidade do funcionamento. Dentro do cientificismo estruturado de Max Weber as ações humanas devem obedecer a um rígido e disciplinado princípio hierárquico: nada deve sair daquilo que está previamente determinado. Um dos pontos mais duramente criticados pelos opositores de Weber na chamada burocracia weberiana, analisando-a a partir da Teoria Organizacional, teve como fator determinante a rigidez que Weber tentou impregnar nas ações humanas. Veja mais em org.br/artigos/burocracia-umareflexao Autocracia Literalmente significa, a partir dos radicais gregos autos (por si próprio), e cratos (governo), governo por si próprio. O sentido do termo tem uma denotação histórica concreta e política que converge em muitos pontos. Veja mais em: wiki/autocracia paradigmas culturais: autocracia e desconfiança, conformismo e individualismo têm forte presença na maioria das empresas ocidentais. Esses fatores, aliados à organização funcional, ao caráter burocrático e à organização racional do trabalho constituem barreiras à mudança e à inovação dentro das empresas. Nesse contexto, as empresas têm buscado garantir sua sobrevivência em um mercado competitivo mediante uma nova lógica organizacional. O fato de o mundo dos negócios ser globalizado exige uma mudança no modelo empresarial da pequena empresa, que não pode mais ser individualizado. Num mundo globalizado e altamente competitivo como o atual, o associativismo e a união são o principal caminho para as pequenas empresas conseguirem força competitiva, afirmam Casarotto Filho e Pires (1999). Castells (2001) define a constituição de redes de todos os tipos como a mais importante inovação organizacional associada às tecnologias da informação e do conhecimento, enfatizando a importância da sociedade em rede. Para Ribaut et al (apud Amato Neto, 2000), as redes empresariais, também chamadas de sociedades de empresas, consistem em um tipo de agrupamento de organizações que têm como objetivo principal fortalecer as atividades de cada um dos participantes sem necessariamente existir laços financeiros entre eles. Por meio das redes ocorre uma complementação entre as empresas associadas, tanto nos aspectos técnicos quanto mercadológicos, advindo de trocas de experiências, rateio de custos, inovações, entre outros. Com a rede, é possível estabelecer centrais de compras ou distribuição conjunta, o que pode reduzir significativamente os custos. Thompson e Strickland afirmam que sempre que a tecnologia, instalações, atividades funcionais ou canais de distribuição possam ser compartilhados, pode-se reduzir custos. Sempre que existir uma gerência centralizada de dois ou mais negócios fica menos dispendiosa a operação do que com negócios independentes. Nesse contexto, os autores observam que as redes 10

11 redes empresariais e gestão da qualidade (...) podem surgir das oportunidades de economias de custo pelo compartilhamento de recursos ou combinação de atividades em qualquer ponto da respectiva cadeia de valor do negócio e do compartilhamento de utilização de nome de marca.... quanto maior a economia, maior é o potencial da empresa criar vantagem competitiva baseada em custos mais baixos (2002, p. 259). Juntas, as pequenas e médias empresas (PMEs) podem buscar cooperação, também, com outros elos da cadeia, estabelecendo parcerias com fornecedores, distribuidores, prestadores de serviços e outros. O estudo das redes interempresariais não é recente, porém é de forma geral muito abrangente e complexo, uma vez que compreende vários tipos de redes organizadas e constituídas de formas diferentes. Porter define redes como sendo... o método organizacional de atividades econômicas através da coordenação e/ou cooperação interfirmas (1999). Amato Neto (2000) afirma que as relações intra e interempresas vêm se intensificando na economia moderna como uma das principais tendências, com relevância tanto para as economias dos países industrializados, como Itália, Japão e Alemanha, quanto para países emergentes ou de economias em desenvolvimento como o México, Chile, Argentina e o próprio Brasil. Para o autor, a cooperação interempresarial pode viabilizar o atendimento de diversas necessidades que seriam difíceis de satisfazer em caso de atuações isoladas das pequenas empresas. Para Amato Neto,... as redes estão situadas no âmago da teoria organizacional, e pode-se compreender que uma rede interfirmas constitui-se no modo de regular a interdependência de sistemas complementares (produção, pesquisa, engenharia, coordenação e outros... (2000, p. 46). Dessa forma, as empresas não estão agregadas em uma única firma e as competências e atribuições de uma rede estão ligadas muito mais aos processos de coordenação do que à coalizão interfirmas. Nas palavras de Fayard (2000), as redes intensificam a interação entre atores sociais, promovendo uma redução do tempo e do espaço nas inter-relações, fatores altamente estratégicos para a competitividade das organizações no século 21. Casarotto Filho e Pires (1999) abordam os mecanismos de rede como estratégias empresariais e de competitividade para as pequenas empresas. Apresentam um estudo sobre cadeia de valor e vantagens competitivas, relatando os principais tipos e características de consórcios. Um dado interessante nessa obra é o exemplo de mecanismos de integração na região da Emília 11

12 Lucinéia Felipin Woitchunas Romagna, que relata a experiência italiana, abordando a criação do consórcio para gestão da marca, organização do agricultor, avanços tecnológicos e soluções para o crédito, por meio de cooperativas e consórcios e as comparações do exemplo da Itália com a situação brasileira. Para Barquero (2001, p. 98),... a rede caracteriza-se por um conjunto de vínculos fracos, cuja inter-relação atua no sentido de fortalecê-la com base no acesso à informação, na aprendizagem interativa e na difusão da inovação. Já no entendimento de Balestrin e Werschoore (2008, p. 79),... redes de cooperação constituem grupos de empresas coesas e amplamente inter-relacionadas, orientadas a gerar e oferecer soluções competitivas de maneira coletiva e ordenada. Prosseguem os autores afirmando: As redes de cooperação empresarial podem ser definidas como organizações compostas por um grupo de empresas formalmente relacionadas, com objetivos comuns, prazo de existência ilimitado e escopo múltiplo de atuação. Nelas, cada membro mantém sua individualidade legal, participa diretamente das decisões e divide simetricamente com os demais os benefícios e ganhos alcançados pelos esforços coletivos. Elas são compreendidas como um modelo organizacional dotado de estrutura formal própria, com um arcabouço de coordenação específico, relações de propriedade singulares e práticas de cooperação características. Suas especificidades exigem novas práticas organizacionais e de gestão, encontrando limites a replicação de modelos de gestão vigentes e utilizados nas configurações empresariais tradicionais. Sendo assim, o que se percebe de comum entre os diversos autores citados é a unanimidade em apontar para a importância das redes empresariais como uma alternativa aos pequenos e médios empresários para que possam viabilizar a sua manutenção no mercado. Após termos estabelecido esses conceitos primários e contextualizado algumas experiências em termos de redes empresariais e os benefícios possíveis por meio delas, passaremos à próxima Unidade, na qual avançamos para o tema classificação de redes. 12

13 Unidade 2 redes empresariais e gestão da qualidade Classificação de redes interorganizacionais O objetivo desta Unidade é apresentar possibilidades de classificação de redes interorganizacionais, diferenciando-as em redes verticais e horizontais. Também dá destaque ao apoio do governo de Estado do Rio Grande do Sul no fomento à constituição e desenvolvimento de redes horizontais de cooperação. Introdução O fato de existir uma grande variedade de conceitos e aplicações sobre redes de empresas dificulta a operacionalização de um conceito, no entanto apresentaremos algumas tipologias e classificações propostas por diversos autores. Para Castells (2001), as redes de empresas aparecem sob diferentes formas, em diferentes contextos e a partir de expressões culturais diversas. Redes familiares nas sociedades chinesas e no norte da Itália; redes de empresários oriundos de ricas fontes tecnológicas dos meios de inovação, como o Vale do Silício; redes hierárquicas comunais do tipo Keiretsu japonês; redes organizacionais de unidades empresariais descentralizadas de antigas empresas verticalmente integradas, forçadas a adaptar-se às realidades da época; e redes internacionais resultantes de alianças estratégicas entre empresas (p. 204). Cândido (2001), por seu turno, alerta que as redes organizacionais e as alianças sofrem um grande conjunto de variações e aplicações que dependem do tipo de ambiente em que a empresa ou o conjunto de empresas atue, em termos de pressões ambientais, que envolvem pessoas, estratégias, estrutura organizacional, tecnologia e outros fatores. Para melhor compreendê-las, entretanto, adotaremos a subdivisão em redes verticais e horizontais, conforme explicamos na seqüência. 13

14 Lucinéia Felipin Woitchunas Seção 2.1 Redes verticais de cooperação Para Santos et. al. (1994), numa rede vertical as relações ocorrem entre uma empresa e os componentes dos diferentes elos ao longo de uma cadeia produtiva. As empresas, nesse caso, cooperam com seus parceiros comerciais: produtores, fornecedores, distribuidores e prestadores de serviços. Segundo Lewis (1992), uma rede vertical proporciona mais poder às empresas integradas. É uma cooperação entre parceiros comerciais. Segundo o autor, uma forte rede de alianças entre uma empresa e seus fornecedores simplifica a logística e permite a produção de suprimentos em lotes mais prolongados e em volumes maiores; isso leva a custos menores e estimula a elevação da qualidade. Marques e Aguiar (1993) definem que a integração vertical ocorre no caso de duas ou mais firmas colocadas sob a mesma organização e que atuam em estágios separados do mesmo processo produtivo. Diferentes empresas passam a tomar decisões administrativas conjuntamente, embora mantenham sua individualidade jurídica. Para os autores, a integração vertical pode ser definida como integração para trás (backward-integration) quando se dá na direção dos insumos de produção, e integração para a frente, quando ocorre em direção ao consumidor final do produto. Entre os benefícios que as empresas obtêm com a integração vertical, Marques e Aguiar (1993) citam: 1) redução nos custos pelo ganho de escala; 2) redução dos custos de intermediação; 3) redução do grau de incerteza associado à qualidade e pontualidade, e 4) dificuldade na entrada de novos competidores no mercado. De posse das informações sobre o que é uma rede vertical, elabore um fluxograma, no quadro a seguir, considerando diferentes estágios da cadeia produtiva (elos antecedentes e elos subseqüentes) de um determinado produto ou serviço. 14

15 redes empresariais e gestão da qualidade Após esse esforço intelectual certamente você já consegue definir com precisão o que é uma rede vertical de cooperação. Passaremos, então, para o segundo tipo de rede, dentro das interorganizacionais. Seção 2.2 Redes horizontais de cooperação Uma rede de cooperação horizontal é criada a partir da união de empresas de um mesmo segmento produtivo que decidem, mediante de uma forma associativa, criar e estabelecer estratégias conjuntas, porém mantendo sua individualidade. Entre os vários objetivos conjuntos pode-se citar os mais freqüentes: reduzir custos com o aumento do poder de barganha, compartilhar o marketing, dividir custos com desenvolvimento tecnológico e de produtos, facilitar o acesso ao crédito, estabelecer parcerias com o mercado, criar uma marca forte, entre outros. Uma das situações de mudança organizacional mais notável, ao se constituir uma rede de empresas de um mesmo segmento, é o fato que cada empresa associada passa a ver o seu concorrente como parceiro. Amato Neto (2000, p. 50), no entanto, afirma que as redes horizontais de cooperação merecem mais cuidado, por se tratar de um agrupamento de empresas similares que concorrem acirradamente no mesmo mercado e que, por isso, são concorrentes diretas, diferentemente da relação que se dá nas redes verticais. O autor destaca que na maioria das vezes as redes de cooperação são criadas quando as empresas, isoladamente, apresentam dificuldades em: 15

16 Lucinéia Felipin Woitchunas 1) adquirir e partilhar recursos escassos de produção; 2) atender interna e externamente ao mercado em que atuam; 3) lançar e manter nova linha de produtos. Para Marques e Aguiar (1993), a integração horizontal se verifica quando há a combinação de duas ou mais firmas atuando no mesmo processo produtivo. Vários autores, como Miles e Snow (1992), Perrow (1992) e Casarotto Filho e Pires (1999) desenvolveram modelos de organizações em redes. Dos modelos estudados, talvez o que mais se preste a analisar as redes horizontais de cooperação seja o modelo desenvolvido por Casarotto Filho e Pires (1999), apresentado na Figura 1. FÓRUM DE DESENVOLVIMENTO LOCAL GOVERNOS Instituições de Pesquisa OBSERVATÓRIO ECONÔMICO Instituições de Pesquisa Associação de Pequenas Empresas Centro Catalizador de Tecnologia Instituições de Pesquisa Cooperativ de Garantia de Crédito Bancos Redes de Grandes Empresas Redes de Grandes Empresas Consórcios Consórcios Redes de Grandes Empresas Consórcios Consórcios Figura 1: Modelo Geral de Rede Desenvolvimento de um Sistema Econômico Local Figura 1: Modelo Geral de Rede Desenvolvimento de um Sistema Econômico Local Fonte: adaptado de Casarotto Filho e Pires (1999) Fonte: adaptado de Casarotto Filho e Pires (1999). Casarotto Filho e Pires (1999) apresentam um modelo geral de rede para o desenvolvimento de um sistema econômico local baseado no modelo italiano de desenvolvimento regional por meio da formação de redes interempresariais de PMEs. Nesse modelo existe uma interconexão entre atores diversos: grandes empresas, bancos, institutos de pesquisas, governos, com instrumentos de integração e pequenas e médias empresas, conforme mostra a Figura 1. 16

17 redes empresariais e gestão da qualidade Para estes autores (1999), os novos modelos de desenvolvimento local implicam participação de toda a sociedade. O Fórum deverá ter estreita relação com os chamados mecanismos de articulação, quais sejam, as associações de pequenas e médias empresas, consórcios, centro catalisador de tecnologias, observatórios econômicos e cooperativas de garantia de crédito, entre outros. Diante do exposto, pode-se afirmar que existe um consenso na literatura sobre políticas para geração de competitividade e desenvolvimento regional e a importância da participação das PMEs no processo, pois a partir do modelo de desenvolvimento regional da região norte, chamada terceira Itália, percebe-se a prática de aprendizagem organizacional, troca de informações e conhecimentos como fatores importantes nas redes, consórcios ou agências daquele país e que se refletiram no desenvolvimento daquela região, que hoje aparece como uma das mais ricas do mundo. Seção 2.3 O fomento e apoio às redes empresariais como um programa de política pública no Rio Grande do Sul Falar de redes empresariais no Rio grande do Sul e não mencionar o Programa Redes de Cooperação desenvolvido e executado pela Secretaria de Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais do Rio Grande do Sul Sedai seria um despropósito. O Programa foi desenvolvido por técnicos da Sedai e começou a ser posto em prática em meados de 1999, em parceria com universidades gaúchas. Em 2001 a Unijuí tornou-se parceira na execução do Programa e a partir de 2009 passa a atuar em quase 50% da área geográfica do Estado, abrangendo as regiões: Noroeste Colonial, Fronteira Noroeste, Celeiro, Alto Jacuí, Missões, Central, Fronteira Oeste, Campanha e Produção. Vale ressaltar ainda que só se tem notícia deste Programa como fomento de política pública, no RS, e que o mesmo não tem custo para os empresários, além de já ter sido executado em três governos diferentes (PT, PMDB e PSDB) e, recentemente, foi vinculado a um dos programas estruturantes do governo do Estado: Mais trabalho, mais futuro inovação em setores tradicionais. Desde 2000 já foram criadas, no Estado, mais de 230 Redes Empresariais somente com o fomento do Programa. Empregos gerados, ampliação no faturamento das empresas, redução dos custos, marca compartilhada, aumento na arrecadação de impostos, entre outros, foram alguns dos resultados já apresentados. 17

18 Lucinéia Felipin Woitchunas Nesse contexto, pode-se compreender a aposta do governo gaúcho no fomento às redes horizontais de cooperação como uma proposta coerente, que pode gerar resultados positivos para o desenvolvimento do Estado, potencializando a atuação das empresas de pequeno e médio portes. Para exemplificar claramente o modelo de redes empregado no Estado do Rio Grande do Sul, trata-se de redes horizontais de cooperação; pequenas empresas que se unem em uma associação, com objetivos comuns, para aumentar sua competitividade, ganhando espaço no mercado. Assim, criam uma marca única embora mantenham sua individualidade e compartilham essa marca, conhecimentos, marketing, capacitação, processos inovadores, consultoria. Buscam reduzir os custos de transações e apostam em parcerias com outros atores, como universidades, entidades de apoio, poder público e outros. GOVERNOS SERVIÇOS/ENTIDADES DE APOIO UNIVERSIDADES ASSOCIAÇÃO DE PEQUENAS EMPRESAS REDE COM MARCA PRÓPRIA MERCADO Consumidor/ Fornecedor Empresas que preservam a sua individualidade, mas interagem com a Rede e entre si. Figura 2: Redes horizontais de cooperação e estrutura de articulação Fonte: Woitchunas (2004, p. 151). A Figura 2 expressa, de uma forma bastante simples, o modelo de articulação percebido nas redes horizontais de cooperação. Mostra uma estrutura interativa, em que a rede aparece no centro, interagindo com diversos públicos: com as universidades por meio do apoio técnico gerencial, com os governos por intermédio de programas de políticas públicas e apoio dos poderes públicos locais, com os mercados de consumo e com os fornecedores e, principalmente, com as pequenas empresas do segmento, estabelecendo uma estrutura de coordenação e articulação bastante dinâmica, evidenciando a necessidade de um modelo de gestão prospectora. Na próxima Unidade vamos ampliar nosso leque, das redes interorganizacionais para os demais tipos de redes encontrados na literatura. 18

19 Unidade 3 redes empresariais e gestão da qualidade Tipologias de redes O objetivo nesta Unidade é apresentar diferentes tipos de redes encontrados na literatura, que exibem diferentes formas de estruturação e articulação. Embora existam muitos formatos, será dado destaque a alguns selecionados para nosso estudo. Introdução Existem diversos tipos de redes na literatura atual. Algumas tipologias de redes interempresariais foram selecionadas e serão apresentadas a seguir, a fim de propiciar uma melhor compreensão sobre o tema. Seção 3.1 Tipologia de Ernst (1994) Ernst (1994), após reunir muitas informações disponíveis sobre a formação de redes entre empresas, acredita que a maioria das atividades econômicas é organizada em cinco tipos diferentes de redes: redes de fornecedores: envolvem a subcontratação e acordos entre um cliente e seus fornecedores de insumos intermediários para a produção. Ex.: Sadia com a produção integrada. redes de produtores: abrangem todos os acordos de co-produção que oferecem possibilidade a produtores concorrentes de juntarem suas capacidades de produção e recursos financeiros/ humanos com a finalidade de ampliar seus portfólios de produtos, bem como sua cobertura geográfica. Ex.: rede de cooperativas de produtores de leite que se unem para aumentar o volume de produção e atrair o interesse de compradores. redes de clientes: incluem os encadeamentos à frente entre as indústrias e distribuidores, canais de comercialização, revendedores com valor agregado e usuários finais, nos grandes mercados de exportação ou nos mercados domésticos; 19

20 Lucinéia Felipin Woitchunas redes de coalizões-padrão: são construídas por potenciais definidores de padrões globais com o objetivo explícito de prender tantas empresas quanto possível a seu produto proprietário ou padrões de interface. Redes de cooperação tecnológica têm o objetivo explícito de facilitar a aquisição de tecnologia para projetos e produção de produto, capacitam o desenvolvimento conjunto dos processos e da produção e permitem acesso compartilhado a conhecimentos científicos genéricos e de Pesquisa e desenvolvimento. Nesse tipo de rede as empresas exploram a tecnologia por determinado tempo e depois cada uma cria suas estratégias de competição individual, a partir do conhecimento adquirido. Seção 3.2 Tipologia de Lewis (1992) Lewis (1992) afirma que as empresas, na busca de acelerar os processos para obterem maior vantagem competitiva para sobreviverem no mercado globalizado, têm desenvolvido importantes formas de alianças organizacionais, atuando em redes, das quais define com clareza quatro tipos, com objetivos distintos: redes verticais: formam-se com o objetivo de garantir maior poder às empresas por meio da cooperação entre parceiros comerciais. Uma forte rede de alianças entre uma empresa e seus fornecedores simplifica a logística e permite a produção de suprimentos em lotes mais prolongados e em volumes maiores. Isso leva a custos menores e estimula a elevação da qualidade. Nesse tipo de rede, a cooperação do desenvolvimento de produtos aumenta o poder de inovação conjunta; redes de tecnologia: com o objetivo de obter maior força no mercado, as empresas se aliam com forças externas de conhecimentos técnicos, com outras empresas, universidades e laboratórios do governo. Esse tipo de rede garante uma importante contribuição para aumentar a competência técnica de todas as empresas. Uma rede de vínculo com fontes-chave de tecnologia é vista como uma dimensão básica da estratégia de negócio; redes de desenvolvimento: com o objetivo de criar novo valor, essa rede pode trazer poderosas ferramentas para o desenvolvimento de novos produtos, processos ou tecnologias, porque provê as condições para inovações relevantes. Nessas redes existem fontes múltiplas de conhecimentos diferentes, interligados de forma flexível por intermédio de muitos vínculos, com todos os membros perseguindo os mesmos objetivos; 20

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