29 DE JANEIRO DIA NACIONAL DA VISIBILIDADE DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS. Jaqueline Gomes de Jesus* 1

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1 29 DE JANEIRO DIA NACIONAL DA VISIBILIDADE DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS Jaqueline Gomes de Jesus* 1 Uma história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que eles sejam mentirosos, mas que são incompletos. Eles fazem uma história se tornar a única história, Chimamanda Ngozi Adichie. Escondida no vácuo entre o Ano Novo e o Carnaval, e criada em referência a uma campanha feita pelo Ministério da Saúde, o Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais é uma data sintomática do lugar reservado no Brasil às travestis e aos homens e mulheres transexuais* 2, às pessoas trans de forma geral: as margens, a matéria de jornal em dias de pouca circulação, a ridicularização nos programas humorísticos, a incompreensão arrogante de interlocutores que desejam apenas falar sobre a população trans sem lhe dar voz, a limitada política pública de quase nenhuma divulgação. Qual é a pauta da população trans brasileira hoje? Quem se restringe a ler jornais para saber do assunto achará que são apenas cirurgias e mudanças de nome. Não é apenas isso. Desumanização: abjeção e desejo no discurso midiático As notícias veiculadas pelos meios de comunicação não são responsáveis pela naturalização da violência, mas oferecem pistas para essa naturalização. Por meio do estudo desse mecanismo é possível indicar, além do seu funcionamento, estratégias de esclarecimento e superação dos estereótipos sobre as pessoas trans. 1

2 A população transgênero brasileira é submetida, no seu cotidiano, particularmente as travestis, a estereótipos que são reproduzidos pelos meios de comunicação, traduzidos em práticas como: 1) Tratar as pessoas trans como objetos, algumas vezes as reduzindo à condição de mercadoria; 2) Apresentar uma visão restrita das travestis, como se fossem apenas profissionais do sexo; 3) Empregar tratamento masculino para pessoas que se identificam de forma feminina, ou tratamento feminino para pessoas com auto-identificação masculina; e 4) Ridicularizar quem se relaciona afetivamente com pessoas trans. Tal processo, que redunda em preconceitos e discriminação na vida cotidiana das pessoas transgênero, agrupados na ideia de transfobia * 3, tem a finalidade de divertir o telespectador, uma prática recorrente em nossos meios de comunicação, que apelam frequentemente a esse tipo de humor. Em maio de 2012, a marca de cerveja Nova Schin lançou o comercial Maria Bonita * 4, no qual um homem é ridicularizado pelos amigos por se aproximar de uma travesti ou mulher transexual, a qual é posta em cena como alguém que engana. No dia 15 de junho de 2012, durante o programa Agora É Tarde, na matéria MANUAL Agora é Tarde * 5, um humorista afirmou que travestis são como qualquer outra mercadoria, depois de usar, você precisa pagar por isso. As pessoas trans são alvos frequentes de violência simbólica nas mídias, porque ainda se considera natural que sejam ridicularizadas. Como denuncia a blogueira e militante trans Hailey Alves: Nós, trans, somos constantemente associadas com o ilegítimo, não-real, falsidade, engodo, etc. daí [que] termo[s] em inglês como trap (armadilha) [se refiram a nós]. (depoimento feito em 17 de agosto de 2012 * 6 ). 2

3 Com uma conscientização maior sobre a violência estrutural que a população transgênero sofre, os meios de comunicações poderiam ser parceiros na construção da cidadania trans. Assassinatos: crimes de ódio contra as pessoas trans Conforme dados que apresentei em novembro de 2012 no IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL: DIREITOS HUMANOS, VIOLÊNCIA E POBREZA: a situação de crianças e adolescentes na América Latina hoje, o Brasil é o país no qual mais se matam pessoas trans no mundo: entre os anos de 2008 e 2011, foram 325 assassinatos, contra 60 no México e 59 na Colômbia. Somente em 2011, 101 pessoas foram assassinadas no Brasil por serem transexuais ou travestis: no mesmo período, no mundo todo, foram 248. Ou seja, nosso país responde por 40,7% de todos os crimes contra pessoas trans nesse ano ocorridos mundialmente. As violações transfóbicas adotam o padrão dos crimes de ódio, motivados por preconceito contra alguma característica da pessoa agredida que a identifique como parte de um grupo discriminado, socialmente desprotegido, e caracterizados pela forma hedionda como são executados, com várias facadas, alvejamento sem aviso, apedrejamento, reiterando a abjeção com que são tratadas as pessoas transexuais e as travestis no Brasil. Dentro da população trans, as travestis e as mulheres transexuais são as vítimas mais comuns, os seus assassinatos repetem a lógica das violências conjugais em casais tradicionais pautados por relações machistas, caracterizadas pela agressão da mulher, por parte do homem, quando em uma situação de conflito, como uma estratégia de controle, além de desamparo aprendido e descrença das vítimas ante à inoperância das instituições sociais de suporte. O vazio das políticas públicas 3

4 O enfrentamento a esse cenário de horror demandaria, das autoridades, ações para a inclusão e proteção das pessoas trans, o que não é observado. As políticas públicas ainda se restringem a campanhas ocasionais de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis, e a informes anuais sobre violência que desconsideram as particularidades da população trans, indevidamente a confundindo e ao seu cotidiano, com o das pessoas homossexuais e bissexuais, o que não contribui para o enfrentamento efetivo da transfobia. O Estado brasileiro se nega a reconhecer e enfrentar a estigmatização dos cidadãos brasileiros transexuais e travestis. De forma esclarecida, o governo dos Estados Unidos da América EUA reconhece que as pessoas trans sofrem discriminação de gênero: uma pesquisa nacional sobre transfobia indicou que 70% das pessoas trans norte-americanas já sofreram provocações ou até assédio verbal, 35% sofreram abusos físicos e 12% violência sexual. 15% da população trans abandonou a escola, nos EUA, em função das violências, e 51% de quem foi provocado ou agredido escolas por ser trans tentou suicídio. Vale comentar que a média de tentativas de suicídio na população estadunidense é de 1,6%. É notável que 41% dos jovens trans tentaram suicídios, enquanto a média para outros jovens foi de 4%. Não há pesquisa semelhante no Brasil, porém esses números aterradores, que refletem o que as pessoas trans sofrem nos EUA, servem como uma pequena amostra comparativa do cotidiano da população trans brasileira, cuja vida é ameaçada cotidianamente, sua identidade é violada diariamente e seus direitos negados sistematicamente: em nosso país se mataram 84% mais pessoas trans, entre 2008 e 2011, do que nos EUA. No que se refere especificamente às travestis e às mulheres transexuais, não há informação oficial de como órgãos públicos brasileiros têm-se articulado para auxiliá-las, no que envolve a possibilidade de serem atendidas nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, sob a proteção da Lei Maria da Penha. 4

5 Há, porém, decisões judiciais favoráveis à aplicabilidade da Lei Maria da Penha para violências conjugais em casais formados por homens cisgênero* 7 e mulheres transexuais: sendo o sexo biológico determinado ao nascimento e o gênero construído ao longo da vida humana, a Lei Maria da Penha não teria sentido se objetivasse proteger apenas ao sexo biológico fêmea, e não à constituição de gênero mulher, que formatado por características sociais, culturais e políticas, independe das diferenças biológicas. É necessário elucidar as consequências da violência estrutural contra as pessoas trans, para que se deixe de invisibilizar o que sofrem, como se fosse apenas uma série de agressões isoladas, e revelar seu mecanismo de intolerância generalizada, que encerra a ideia da impossibilidade de conviver com esse outro, porque sua vivência de gênero é diferente da nossa. Entre avanços e retrocessos, ainda estamos distantes, principalmente na realidade brasileira, de um estado de plena cidadania para as pessoas trans. O pequeno espaço que vem sendo conquistado pelas travestis e por homens e mulheres transexuais é fruto de sua mobilização coletiva, e tem sido potencializado pela inserção dos coletivos trans e seus simpatizantes na lógica dos novos movimentos sociais caracterizados por políticas de identidades ou identitárias, particularmente os movimentos feministas. Então, que homens e mulheres transexuais, e travestis, sejam entendidos para além dos estereótipos, que suas histórias e ideias sejam realmente ouvidas e que possam participam plenamente, como seres humanos com suas particularidades, da vida social brasileira. * 1 Jaqueline Gomes de Jesus é doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília UnB e pesquisadora do Laboratório de Trabalho, Diversidade e Identidade LTDI/UnB. * 2 Conceitos e termos sobre a população trans podem ser aprofundadas por meio de consulta ao livro Orientações sobre Identidade de Gênero, disponível em * 3 Referente ao medo ou ódio com relação a pessoas trans. * 4 Disponível em * 5 Disponível em * 6 Disponível em 5

6 * 7 Cisgênero se refere a pessoas cuja identidade de gênero está de acordo com o que socialmente se estabeleceu como o padrão para o seu sexo biológico, ao contrário das transgênero (ou simplesmente trans), que não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído quando do seu nascimento.consultar 6

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