MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL 2ª Câmara de Coordenação e Revisão

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1 MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL 2ª Câmara de Coordenação e Revisão VOTO Nº 2678 /2011 PROCEDIMENTO MPF Nº / ORIGEM: 3ª VARA FEDERAL DE CURITIBA/PR PROCURADOR OFICIANTE: JOÃO GUALBERTO GARCEZ RAMOS RELATORA: MÔNICA NICIDA GARCIA INQUÉRITO POLICIAL. FINANCIAMENTO DE CRÉDITO DIRETO AO CONSUMIDOR (CDC) PARA A COMPRA DE VEÍCULO MEDIANTE A UTILIZAÇÃO DE DOCUMENTOS FALSOS. CRIME DESCRITO NO ART. 19 DA LEI Nº 7.492/96. ARQUIVAMENTO COM ESTEIO NA APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. DESIGNAÇÃO DE OUTRO MEMBRO DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. 1. Inquérito policial instaurado para apurar possível cometimento do crime descrito no art. 19 da Lei nº 7.492/96. Financiamento de crédito direto ao consumidor (CDC) para a compra de veículo, mediante a utilização de documentos falsos. 2. Pedido de arquivamento com base no princípio da insignificância. Discordância do Magistrado. 3. Inaplicabilidade. Financiamento no valor de R$ ,00, quantia que, sob qualquer aspecto, não pode ser considerada insignificante. 4. Designação de outro membro do Parquet Federal para prosseguir na persecução penal. Trata-se de procedimento investigatório instaurado para apurar possível cometimento do crime descrito no art. 19 da Lei nº 7.492/96. Consta que, no dia 14/01/2010, foi realizado junto ao Banco Finasa S.A. um financiamento de crédito direto ao consumidor (CDC), no valor de R$ ,00, para a compra de veículo, mediante a utilização de documentos falsos. O Procurador da República João Gualberto Garcez Ramos, requereu o arquivamento do feito com base na atipicidade penal da conduta, por entender aplicável ao caso o princípio da insignificância (fls. 75/78). O MM. Juiz Federal Tiago do Carmo Martins indeferiu o pleito por entender que a fraude impacta a estabilização do sistema como um todo (fls. 80/82).

2 MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL Os autos foram remetidos à 2ª CCR, nos termos do art. 28 do CPP e do art. 62 da Lei Complementar nº 75/93. É o relatório. Por sua juridicidade, acompanhando o entendimento do Colega Douglas Fischer, peço vênia para transcrever trecho do voto proferido nos autos do Processo MPF nº / , acolhido, por unanimidade, na 506ª Sessão desta 2ª Câmara, adotando-o como razões de decidir neste caso: O princípio da insignificância continua a gerar debates entre juízes, Tribunais e membros do Ministério Público Federal. Tenho particular convicção do total equívoco dos entendimentos a respeito da matéria que utilizam o patamar previsto no art. 20 da Lei nº para a delimitação da insignificância penal. Com efeito, entendo que não há como preponderar o entendimento de que valores abaixo de R$ ,00 são insignificantes penalmente porque não cobrados judicialmente (há se lembrar: apenas momentaneamente não são cobrados ). Primeiro: um dos equívocos de premissa está em considerar que a cobrança judicial dos valores é que definiria a presença ou não do interesse estatal na recepção dos valores iludidos pela conduta. O parâmetro que se utiliza para aferir se há ou não afetação ao bem jurídico (erário da União) é aquele contido na Lei n /02, que, no seu art. 20 (com a redação da Lei /04 2 ), atualmente, possibilita o arquivamento, sem baixa na distribuição, de execuções fiscais de valor igual ou inferior a R$10.000,00. Assim, momentaneamente, não se cobram JUDICIALMENTE os valores. 1 No mesmo sentido: Proc. nº / , 511ª Sessão, 2ª CCR, Rel. Alexandre Espinosa Bravo Barbosa. 2 Art. 20. Serão arquivados, sem baixa na distribuição, mediante requerimento do Procurador da Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais de débitos inscritos como Dívida Ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior a R$10.000,00 (dez mil reais).

3 MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL Nesta senda, a circunstância de o Estado não promover a cobrança judicial (mediante execução fiscal) dos valores inferiores hoje a R$ ,00 não significa dizer que não haja interesse em receber as quantias. A providência insculpida em norma legal que autoriza o arquivamento (momentâneo!) na distribuição das execuções fiscais diz tão-somente com uma questão de política econômica e operacional da máquina de cobrança do Estado. Ou seja, a inserção de tal dispositivo justifica-se pelo fato de ser mais oneroso para o Estado cobrar judicialmente as quantias objeto da prática criminosa, dado que as despesas para tanto superam aquele limite referido na norma retrorreferida. Mas o dano social - protegido pela norma penal - continua evidente. Em suma, o fundamento das regras de âmbito cível de não execução e/ou cobrança dos valores é evitar exatamente que a sociedade seja novamente penalizada, gastando-se mais que o próprio objeto do dano perseguido - o qual pertence aos cofres públicos. Assim, mesmo não havendo eventual interesse da cobrança no âmbito civil, o dano social (penal) continua evidente. E como referido a persecução aos valores no âmbito administrativo permanece hígido! Assim, se revela como equívoco utilizar regra referente às cobranças JUDICIAIS dos valores como patamar (tarifado!) da insignificância penal. Aliás, a interpretação que se tem dado ao dispositivo é isolada e fragmentada do dispositivo invocado. Como há muito advertem (corretamente, em nosso sentir) Laurence Tribe e Michael Dorf 3, o intérprete não pode incidir em duas falácias argumentativas fundamentais (two interpretive fallacies): a dis-integration e a hyperintegration. Incide-se na falácia da dis-integration quando se analisa a Constituição (o que também vale para a gama legislativa infraconstitucional) como sendo um feixe desconectado de princípios, valores e regras. A hyperintegration se verifica quando o intérprete tem uma visão limitada da amplitude do conjunto da obra legislativa, restringindo-se a compreendê-la 3 TRIBE, Laurence, e DORF, Michael. On reading the Constitution. Cambridge: Harvard University Press, 1991, p. 20.

4 MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL como uma rede, porém sem qualquer costura, decorrente de nítida postura reducionista. Na mesma linha é o que salienta (ao menos em teoria) Eros Grau em sua obra de hermenêutica jurídica no sentido de que não se pode(ria) interpretar o direito em tiras. Em sua lítera, a interpretação do direito é interpretação do direito, no seu todo, não de textos isolados, desprendidos do direito. Não se interpreta o direito em tiras, aos pedaços" 4. O artigo (caput) invocado pelos precedentes tem o seguinte teor: Art. 20. Serão arquivados, sem baixa na distribuição, mediante requerimento do Procurador da Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais de débitos inscritos como Dívida Ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior a R$ ,00 (dez mil reais). Sem aprofundar noutras searas hermenêuticas, há se atentar que o art. 20 não está isolado. Ele contém o 1º (vinculado ao caput, conforme disposto na LC nº 95), que dispõe: 1 o Os autos de execução a que se refere este artigo SERÃO REATIVADOS quando os valores dos DÉBITOS ULTRAPASSAREM OS LIMITES INDICADOS. Deste modo, se houver reiteração criminosa, os valores (a cobrar) poderão ultrapassar o limite legal de R$10.000,00 em relação a mesma pessoa criminosa. Ultrapassado o limite, necessariamente o Estado irá cobrar as quantias (para quem se fixa unicamente nessa circunstância cobrança - como balizadora da insignificância penal que, gize-se, não é nossa posição). É dizer: não incidirá o disposto no art. 20 da Lei nº ! Consequentemente, não se poderá utilizar a insignificância. Por fim, não se olvide que, mesmo que inferiores a R$ ,00, o Estado continua efetuando a cobrança dos valores, porém, na esfera administrativa, conforme reconhecido há muito pelos órgãos competentes. Com efeito, no mês de agosto de 2009, foi publicada decisão da 3ª Seção do Superior Tribunal de Justiça proferida nos Embargos de Divergência no Recurso Especial nº , acolhendo como parâmetro para a insignificância penal o valor de R$ 100,00 nos seguintes termos: 4 GRAU, Eros Roberto. Ensaio sobre a Interpretação/Aplicação do Direito. 3 ed. São Paulo: Malheiros, 2005, p.40.

5 MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. PENAL. CRIME DE DESCAMINHO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. VALOR SUPERIOR ÀQUELE PREVISTO NO ART. 18, 1.º, DA LEI N.º / Hipótese em que foram apreendidas ao entrarem ilegalmente no país 644 (seiscentos e quarenta e quatro) pacotes de cigarro de diversas marcas e 12 (doze) litros de wisky, todas mercadorias provenientes do Paraguai, avaliadas à época em R$ 6.920,00 (seis mil novecentos e vinte reais). Impossibilidade de aplicação do princípio da insignificância. 2. Não é possível utilizar o art. 20 da Lei n.º /02 como parâmetro para aplicar o princípio da insignificância, já que o mencionado dispositivo se refere ao ajuizamento de ação de execução ou arquivamento sem baixa na distribuição, e não de causa de extinção de crédito. 3. O melhor parâmetro para afastar a relevância penal da conduta é justamente aquele utilizado pela Administração Fazendária para extinguir o débito fiscal, consoante dispõe o art. 18, 1.º, da Lei n.º /2002, que determina o cancelamento da dívida tributária igual ou inferior a R$ 100,00 (cem reais). 4. Há de se ressaltar que, no caso, existe controvérsia sobre o montante da dívida tributária, que pode até ser maior do que R$ ,00, além de se tratar a denunciada de pessoa que ostenta outras duas condenações por crimes da mesma espécie, revelando, em princípio, reiteração criminosa. 5. Embargos de divergência acolhidos para, cassando o acórdão embargado, negar provimento ao recurso especial. (Embargos de Divergência em Recurso Especial N /GO, Relatora Ministra Laurita Vaz, Terceira Seção, por maioria, julgado em 27/05/2009, publicado no DJe em 20/08/2009) Entretanto (e unicamente por conta de decisões do STF) ulterior decisão da 3ª Seção do STJ, no julgamento do Recurso Especial nº TO em (publicado no DJ em ), assentou que o patamar seria de R$10.000,00, como se vê do leading case que trata dos recursos repetitivos em matéria de descaminhos: RECURSO ESPECIAL REPETITIVO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. ART. 105, III, A E C DA CF/88. PENAL. ART. 334, 1º, ALÍNEAS C E D, DO CÓDIGO PENAL. DESCAMINHO. TIPICIDADE. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. I - Segundo jurisprudência firmada no âmbito do Pretório Excelso - 1ª e 2ª Turmas - incide o princípio da insignificância aos débitos tributários que não ultrapassem o limite de R$ ,00 (dez mil reais), a teor do disposto no art. 20 da Lei nº /02. II - Muito embora esta não seja a orientação majoritária desta Corte (vide EREsp /GO, 3ª Seção, Rel. Min. Laurita Vaz, DJe de 20/08/2009), mas em prol da otimização do sistema, e buscando evitar uma sucessiva interposição de recursos ao c. Supremo Tribunal Federal, em sintonia com os objetivos da Lei nº /08, é de ser seguido, na matéria, o escólio jurisprudencial da Suprema Corte.

6 MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL É de ser ver que o precedente retrorreferido se aplica, ao menos por ora, unicamente quanto aos delitos de descaminho. Ademais, há que se destacar que, no caso, o valor do financiamento foi de R$ ,00, quantia que, sob qualquer aspecto, não pode ser considerada insignificante. Posto isto, voto pela designação de outro membro do Parquet Federal para prosseguir na persecução penal. Remetam-se os autos ao Procurador-chefe da Procuradoria da República no Paraná, para cumprimento, cientificando-se o Procurador oficiante, com nossas homenagens. Brasília-DF, 07 de novembro de Mônica Nicida Garcia Procuradora Regional da República Suplente - 2ª CCR /T.

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