Espaços Negros Urbanos: Segregação e Preconceito nas cidades brasileiras

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1 Espaços Negros Urbanos: Segregação e Preconceito nas cidades brasileiras Dhione Andrade Figueredo¹ Graduando do Curso de Licenciatura em Geografia. Universidade do Estado da Bahia UNEB. Campus IV Resumo Neste artigo, busca-se discutir o preconceito no lugar e a segregação racial nas cidades brasileiras, a condição do negro recém-alforriado, as atividades que desenvolviam e como faziam parte do espaço urbano brasileiro. As discussões foram baseadas principalmente na bibliografia e reflexões realizadas durante o semestre , através do componente curricular Geografia da África, ministrada pelo professor mestre Fábio Nunes, no curso de Licenciatura Plena em Geografia, na Universidade do Estado da Bahia UNEB, Campus IV. Além de fomentar essa discussão, o artigo apresenta aspectos que serão desenvolvidos no decorrer da pesquisa, como a análise do espaço urbano do município de Jacobina Bahia e a forma como as áreas periféricas dessa cidade são vistas pela população urbana local, comprovando uma associação entre espaços periféricos e marginalização. Não buscando finalizar a discussão, mas a título de conclusão, acredita-se que a condição de vulnerabilidade social em que os negros se encontram traz fortes resquícios do processo escravista e da exclusão, marginalização e racismo pós-escravista. Palavras-Chave: Negros; pós-escravidão; espaço urbano; marginalização. Introdução Diante das discussões realizadas no decorrer do curso de Licenciatura em Geografia, na Universidade do Estado da Bahia Campus IV, e do componente curricular Geografia da África, notou-se a necessidade de um enfoque no tema preconceito no lugar e a segregação racial nas cidades brasileiras, buscando debater a condição do negro recém-alforriado, as atividades que desenvolviam e como faziam parte do espaço urbano brasileiro.

2 Nesse contexto de pós-escravidão, torna-se extremamente necessário refletir sobre como os negros, seus costumes, sua cultura influenciaram na formação da sociedade brasileira. Cabe ainda discutir a marginalização, exclusão racial e vulnerabilidade social surgidas após a abolição, sendo os negros abandonados à margem da sociedade, passando a ocupar áreas periferias, e modificando assim, a paisagem urbana, com consequências notáveis ainda atualmente. Quanto à paisagem urbana e marginalização, serão apresentados dois bairros periféricos e tidos como negros, na cidade de Jacobina Bahia, além de mostrar um perfil de como os mesmos são vistos pela sociedade local. Finalizando, acredita-se que é de extrema importância a realização de discussões quanto ao negro pós-liberto, a exclusão social que resultou na ocupação urbana de áreas periféricas, a marginalização a que foram expostos, a resistência de traços culturais, e como tudo isso ainda tem fortes influências nos dias atuais. Conclui-se buscando reconhecer a importância dos negros, como atores que também contribuíram na formação da sociedade dita brasileira. O negro pós-liberto Não existem dúvidas do quanto o negro contribuiu para a formação da sociedade brasileira. Nem é necessária uma observação mais detalhada para percebermos os traços culturais herdados da população negra. Cantamos, dançamos e comemos refletindo características que nos foram trazidas através de séculos por negros que foram vindos da África para o Brasil na condição de escravos. Dessa forma, nunca deixará de ser pertinente uma reflexão sobre a contribuição negra para a instituição da sociedade brasileira. Diante disso, este trabalho sugere uma reflexão quanto ao modo como os negros, recém-alforriados, foram inseridos, que atividades desenvolviam e como contribuíram na produção do espaço urbano brasileiro. Cabe ainda uma discussão quanto à abolição,

3 a marginalização e vulnerabilidade desses novos membros da sociedade, e quanto à consequente exclusão social ocorrida nesse período e que perdura até momentos atuais. Adotar o modo escravista foi para a sociedade da época o modo mais viável economicamente da produção manufatureira. Cabia aos escravos, vindos da África em condições desumanas, o desenvolvimento de todas as atividades cotidianas, como afirma Schmidt: Os escravos estavam em quase tudo na colônia: nas plantações, nos serviços domésticos, nas manufaturas de açúcar, na construção de casas e das estradas, nos açougues, no comércio ambulante, nas lojas, na criação de gado, nas oficinas de sapateiros, dos ferreiros, dos carpinteiros (...). (SCHMIDT, 2007 p.191). Devido aos novos paradigmas adotados pelo sistema capitalista, pela Revolução Russa e pela Revolução Industrial, a escravidão negra passou a não atender os interesses do novo sistema econômico vigente, o capitalismo, o que teria como consequência a abolição da escravatura, que viria a modificar estruturalmente a sociedade brasileira. Colocados nesse momento as margens da sociedade, os ex-escravos foram substituídos por imigrantes, que além de atenderem as ideias de superioridade da raça branca, estavam mais familiarizados com a maquinofatura implantada na produção agrícola. Com a não permanência dos negros nas atividades rurais, grande parte migraram para a zona urbana brasileira e de acordo com relatos de Souza: geralmente desempenhavam as funções mais subalternas, uma vez que só alguns poucos afro-brasileiros conseguiam se educar, prosperar nos negócios e ascender socialmente. (SOUZA, 2005, p.125).

4 Portanto, em sua grande maioria, os ex escravos foram excluídos geograficamente e exposto ao preconceito racial, passando a habitar áreas urbanas periféricas, formando assim as favelas e os cortiços, como afirma Lourdes Carril: A favela, seguida do cortiço, tornou-se um dos primeiros núcleos de habitação da população recém-egressa da escravidão. Trata-se de núcleo habitacional surgido desordenadamente, em terreno público, de domínio não definido ou mesmo alheio, localizado em área sem urbanização ou melhoramentos. (CARRIL, Lourdes, 2006, p. 230) Como consequência de todo esse processo de escravidão e marginalização pósescravidão, o negro permaneceu na sociedade brasileira por muito tempo ocupando uma situação de risco social e vulnerabilidade diante do intenso preconceito com que foram tratados. Ainda hoje, notam-se resquícios dessa longa história de repressão e exploração, onde a ideia de raça é imposta como critério básico de classificação social universal da população mundial, distribuiu novas identidades sociais e geoculturais no mundo (SANTOS, Renato Emerson, 2007), servindo ainda como fortalecedor da visão eurocêntrica. Partindo dessa ideia de raça, têm-se o racismo, que: Nas relações sociais cotidianas não é a única manifestação da colonialidade do poder mas é, sem dúvida, a mais perceptível e onipresente. Por isso mesmo, não tem deixado de ser o principal campo de conflito. Diante disso, e tendo como análise os ex-escravos e seus descendentes, nota-se uma profunda relação racista com os mesmos, e com os costumes trazidos por eles, sendo pertinente agora trazer a discussão quanto à ideia de civilização, que também tem respaldos de uma visão eurocêntrica, associando-se ao progresso e evolução apenas

5 aqueles hábitos e tradições herdados da cultura europeia, imposta como o ideal para a sociedade brasileira, naquele momento ainda em formação. Realizando agora uma análise sobre a cidade, podemos pensar as áreas periféricas como um espaço onde as culturas negras vivenciadas são aceitas por aqueles que ali habitam, porém se pensarmos nos centros urbanos, veremos que atitudes associadas à cultura herdada dos negros, são tratadas de forma racistas e menosprezadas, sendo tido como o não civilizado. Posteriormente acrescenta-se o discurso de cultura que surge segundo Paulo César da Costa Gomes (1999) associado ao ideário do respeito às diferenças, da descoberta admirativa da alteridade. Quanto a isso, acrescenta-se: Segundo a concepção de Herder em 1774, não há possibilidade de definir um homem em geral, cada pessoa é fruto de uma cultura que a define e a conforma. Cultura deve, pois sempre se escrever no plural e somente no sentido de um conjunto de culturas diversas poder-se-á definir uma humanidade. Cada cultura é uma forma particular encontrada pelo gênero humano para sobreviver em ambientes naturais. (GOMES, Paulo César da Costa, 1999). Sendo assim, não se justifica a ideia eurocêntrica de civilização, afinal as culturas também podem ser vista como maneiras diversas de evolução, adaptação a determinados ambientes e resistência a imposições de culturas consideradas civilizadas. Dessa forma, e pensando no contexto brasileiro, devemos mais uma vez ressaltar a importância da cultura africana trazida pelos negros escravizados para a formação da nossa sociedade. Vale aqui ressaltar que devido principalmente ao seu processo de formação de característica colonizadora e migração de diversos povos, o Brasil caracteriza-se por

6 uma miscigenação, que apresenta importância fundamental na formação da sociedade brasileira. Sobre isso, ANDRADE (1997) afirma: Se é grande a influência étnica no Brasil, muito expressiva é a sua influência na cultura, na alimentação, na religião, etc. Assim, grande parte da música popular brasileira, como o samba e o maracatu, é de evidente influência africana. Os maiores espetáculos do Carnaval, a grande festa do país, são elaborados, em grande parte, por negros e mulatos,e os desfiles feitos pelas escolas de samba geralmente glorificam a raça negra e a sua contribuição à civilização brasileira. Ao lado da música, há também uma grande influência na dança, a ela ligada (ANDRADE, Manuel Correia de. 1997, p. 16) Manuel Corria de Andrade, ainda discorre sobre a influência do negro na religião, sendo comum as pessoas serem ao mesmo tempo católicas e membros de seitas africanas; na linguagem, sendo devido a isso que alguns autores defendem a ideia de um dialeto exclusivamente brasileiro; e na culinária, com alimentação carregada de óleos, dendês e pimentas. Diante do que foi exposto, torna-se extremamente necessário rever essa visão preconceituosa diante de algumas culturas, aceitando os costumes vindos dos outros povos, principalmente os africanos, como construtores de uma cultura própria do território brasileiro. Cultura e Marginalização Tendo como enfoque as culturas advindas do território africano e pensando a ideia de cultura social e espacialmente, como propõe Lourdes Carril (2006), após a abolição da escravidão, notam-se os negros em condições sociais e territoriais inferiores e excludentes. Debater essa condição territorial caracterizadora do negro permite também debater as áreas periféricas das cidades como espaços de resistência cultural,

7 onde a música, as crenças e a alimentação negra aparecem como comportamentos e ações comuns. Se pensarmos as diversas manifestações culturais presentes nos espaços urbanos, perceberemos que a exclusão também se faz presente. Fazendo uma breve analise dessa exclusão na música, facilmente observa-se que a música clássica, a bossa nova e o MPB são tidas como presentes no cotidiano de pessoas brancas e de elevada classe social, que por estarem nesse âmbito da sociedade, devem sentir-se atraídos por culturas tidas como sofisticadas, e que apresentem resquícios europeus e dos países desenvolvidos atualmente, para assim sentir-se privilegiados, cultos e dotados de bom gosto. Em contraposição a esses estilos musicais, têm-se o pagode, o hip hop, o reggae e o funk, que são estigmatizados como incultos, de mau gosto e que são comuns a negros, pobres e moradores de áreas periféricas. Opondo-se a essa visão discriminatória presente também na cultura musical, devem-se ser consideradas todas as diferentes manifestações, por representarem um determinado grupo social, os sentimentos, as difíceis vivências dos grupos que representam, e que encontram na música uma forma de protestar contra a pobreza, a prostituição, a violência e o abandono a que são submetidos. Dessa forma, considerando o que está por trás de cada verso e estrofe de uma canção, será ouvido o clamor de um povo, que busca nesta sublime arte expressar seus sentimentos e mudar a realidade em que estão inseridos, além de manter viva a polissemia existente na sociedade brasileira. Espaços Urbanos de Jacobina Bahia Dando continuação a pesquisa e tendo como enfoque a zona urbana de Jacobina Bahia, localizada no Extremo Norte da Chapada Diamantina, que traz resquícios da escravidão devido às minas de ouro exploradas a partir do século XVII, serão analisados dois bairros periféricos da cidade: o Bairro da Serrinha e o Bairro da Bananeira, que podem ser vistos na imagem que segue. Também na imagem, podem ser observados grupos de resistência cultural negra no mesmo município.

8 Produzido por: Ângela da Silva, Nessa fase da pesquisa, que é a próxima etapa a ser realizada, buscar-se-á através de entrevistas e estudos de campo, entender como moradores de outros bairros da cidade de Jacobina vêem esses bairros periféricos, mesmo não possuindo nenhum envolvimento com sua realidade, e posteriormente, descobrir como os moradores desses bairros periféricos e tidos como negros se vêem quanto aos aspectos culturais presentes em sua realidade. Considerações Finais Finalizando essa discussão, percebe-se que a condição de vulnerabilidade social em que os negros se encontram atualmente traz fortes resquícios dos processos escravistas e da exclusão, marginalização e racismo pós-escravista. No âmbito do território urbano, esses resquícios são notados principalmente nas áreas periféricas (cortiços e favelas), sendo que foram a única opção de ocupação dos ex-escravos em determinado momento histórico, onde o branqueamento e a imigração europeia era mais aceita que a ideia de empregar negros recém libertos. Porém, se pensados quanto a

9 aspectos culturais, esse mesmo território urbano pode servir, ou sempre serviu, como um local de resistência de aspectos da cultura negra, tornando assim essenciais para a manutenção desses costumes herdados dos antecedentes africanos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Manuel Correia de. O Brasil e a África. São Paulo: Contexto, 1997 CARRIL, Lourdes. Quilombo, favela e Periferia: A longa busca da cidadania. São Paulo: Annablume, 2006 ROSENDAHL, Zeny. CORRÊA, Roberto Lobato. Manifestações da cultura do espaço. Rio de janeiro: EdUERJ, 1999 SANTOS, Renato Emerson dos (Org). Diversidade, espaço e relações étnico-raciais: o negro na geografia do Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2007 SCHMIDT, Mário. Nova História crítica. São Paulo: Editora Nova Geração ltda SOUZA, Marina de Mello E. África e Brasil africano. 2. ed. São Paulo: Ática, 2005

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