DERRIDA E AS INSTITUIÇÕES: A DESCONSTRUÇÃO DA PEDAGOGIA CLÁSSICA

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1 1- Anais - Congresso de Fenomenologia da Região Centro-Oeste DERRIDA E AS INSTITUIÇÕES: A DESCONSTRUÇÃO DA PEDAGOGIA CLÁSSICA André de Barros Borges Universidade Federal do Rio de Janeiro Eixo Temático: Fenomenologia Tendências RESUMO: A hipótese interpretativa que utilizamos neste artigo é a de que a compreensão que Derrida tem da ideia de contra é fundamental para compreendermos seu pensamento sobre as instituições de ensino e suas relações com a filosofia. Neste sentido, no primeiro momento deste artigo mostraremos o que Derrida compreende por Contra e em um segundo momento mostramos como Derrida opera sua análise sobre as instituições levando em conta a sua relação com a significação do termo. Sendo assim, problematizaremos a pedagogia clássica a partir de uma análise feita por Derrida sobre algumas passagens da obra de Nietzsche no texto Otobiografias: políticas do nome próprio. Como o próprio filósofo pontua em alguns textos que veremos ao longo desta comunicação, o contra, a oposição, insinua um movimento com-contra, um torneamento acerca de e longe de, uma medida de distância e de proximidade. Ao retirar os termos contra ou oposição de sua significação comum, compreendemos um movimento contrainstitucional, mais especificamente contra as tradições epistêmicas como a pedagogia. PALAVRAS-CHAVE: Desconstrução; Pedagogia clássica; Educação INTRODUÇÃO 1 Partimos da idéia de que a desconstrução estabelece uma relação profundamente complexa e altamente ambivalente com a ortodoxia da academia, com a formação das disciplinas acadêmicas, com as organizações oficiais de todos os tipos, com o Estado e com os partidos políticos, e assim por diante. Essa complexidade é marcante no percurso do pensador e fundamental para percebermos a atitude que a desconstrução sugere aos membros da comunidade acadêmica em relação a pedagogia clássica por exemplo. Neste texto usaremos a análise que Derrida faz do tema liberdade acadêmica em Nietzche para mostrar como a idéia de contra-instiuição está presente na análise que Derrida faz dos aparelhos pedagógicos institucionais. O termo contra não parece ser um termo especialmente privilegiado, e nem parece estar incluído no vocabulário clássico da desconstrução. Contudo, observamos as seguintes passagens de Derrida: Em resumo o que permanece constante no meu pensamento... é na verdade a crítica das instituições, mas uma crítica que almeja não ser compreendida como não institucional, mas preferivelmente compreendida como contrainstitucional. Eu não penso 1 As traduções de trechos das edições em inglês das obras de Derrida foram realizadas informalmente pelo autor.

2 2- Anais - Congresso de Fenomenologia da Região Centro-Oeste que há, ou que deve haver, o não institucional. Eu estou sempre dividido entre a crítica das instituições e o sonho de uma outra instituição, que, num processo interminável, virá substituir as instituições que são opressivas, violentas e inoperantes. A ideia de contrainstituição não é espontânea e essa certeza, de alguma maneira, orientou o meu pensamento. O que eu tento explicar, por exemplo, em Du Droit à la philosophie, é que o filosófico como tal não é metainstitucional. O filosófico é, todavia, uma instituição muito paradoxal, cujo espaço tem de ser administrado sem contrato simétrico uma instituição que almeja pensar sobre a institucionalidade da instituição tem de permanecer aberta e ter um futuro (avenir). Naturalmente, a desconstrução da questão da instituição não está institucionalizada mas nada a faz pertencer a um espaço intocado pela institucionalidade. É provavelmente essa a lógica que me guiou por todos estes anos, sempre em guerra com as instituições, mas sempre tentando fundar ainda outra O Greph, o Colégio Internacional de Filosofia. Todas estas instituições estão ligadas à contrainstitucionalidade (DERRIDA, 2001, p ). A palavra contra pode significar oposição, contrariedade, contradição e proximidade; ser contra determinada pessoa, opor-se a um inimigo declarado, por exemplo, estar contra a pessoa ao lado de nós, o que é direito contra nós, quem nós tocamos ou com quem nós estamos em contato. A palavra contra possui então dois significados, que são inseparáveis do significado de proximidade por um lado, e oposição por outro... Temos que voltar a esse significado duplo de contra, que resume o interesse desta discussão... Eu talvez adicione uma nota muito rápida, antes de retornar ao texto. Durante muito tempo, em numerosos textos, eu cultivei ou permiti que fosse cultivado a ambiguidade formidável desse contra como determinado no idioma francês. A palavra contratempo, por exemplo, designa um lapso de tempo. A palavra contrepartie (contrapartida), que não marca tanta oposição, mas sim troca ou equivalência de um presente ; a palavra contre-exemple (contraexemplo), como uma exceção, desafia a generalidade da lei. Todas essas palavras se repetem em muitos de meus textos, frequentemente para designar a mim mesmo o mais perto possível da autenticidade, a própria autenticação da minha assinatura. Aqui e ali, tive ocasião para dizer que estou no tempo errado (à contretemps), ou que sou o meu próprio contraexemplo ou contrapartida (DERRIDA, 2004, p ). Talvez, venha a ser surpresa para muitos a ideia de um ativismo institucional em

3 3- Anais - Congresso de Fenomenologia da Região Centro-Oeste Derrida. Em um de seus trabalhos ele mostra que desejaria ligar seu trabalho em geral talvez seu projeto inteiro ao que ele chama de motivo permanente da contrainstituição. Em Countersignature, ele declara que o contra está o mais próximo possível da sua própria assinatura. Nenhuma dúvida que o envolvimento de Derrida com questões institucionais mais especificamente o período em que ele participou da reforma educacional do ensino filosófico na França, durante os anos 1970 e 1980 ganha a apreciação de vários intelectuais. Além do mais, em diversos escritos de Derrida sobre a questão, a Universidade é reconhecida como uma parte indispensável do debate crítico sobre o tema. O debate se tornou mais intenso nas ciências humanas e sociais desde a metade dos anos É um debate extenso e por isso não pretendemos resumi-lo neste texto. DESENVOLVIMENTO Queremos então começar por estabelecer um cenário para estas observações, tomando como ponto de partida o texto Otobiographies: the teaching of Nietzche and the politics of proper name, mais especificamente o tema do ensino e da liberdade acadêmica que coloca questões sobre o conhecimento, a responsabilidade, a filosofia da educação, a pedagogia clássica e a comunidade acadêmica. No começo de Otobiographies, texto originalmente apresentado como conferência na Universidade de Montreal, em 1979, Derrida diz: Gostaria de dispensar vocês do tédio, do desperdício de tempo, e da inutilidade que sempre acompanha os procedimentos pedagógicos clássicos ao forjar elos, referindo-se de volta a premissas prévias ou argumentos, justificando a própria trajetória, método, sistema, enfim, transições hábeis para restabelecer continuidade, e assim por diante. Esses são alguns imperativos da pedagogia clássica com os quais, para estar seguro, nunca se poderá romper de uma vez por todas. Porém, se nos submetêssemos a eles rigorosamente, eles acabariam por reduzir tudo ao silêncio, à tautologia e à repetição cansativa. (DERRIDA,1998, p.3-4) Para Derrida, nem as convenções acadêmicas nem a pedagogia ortodoxa podem ser totalmente ignoradas. Qualquer ensino que partilhe da tradição pedagógica que é focada na conservação do método ou do sistema inevitavelmente se reduzirá a justificar práticas próprias, que realmente inibem o acontecimento do ensino. Ensino como uma atividade singularmente performativa e um tratamento incalculável endereçado ao outro. Não se pode, portanto, simplesmente ficar contra ou a favor dos procedimentos pedagógicos clássicos. Deve-se, até certo ponto, misturá-los, para que o ensino como acontecimento seja possível. As observações de Derrida levantam questões importantes concernentes à possibilidade de

4 4- Anais - Congresso de Fenomenologia da Região Centro-Oeste um ponto de vista responsável em condições bastante difíceis e complexas. Perante essa complicação de posições contrárias localizadas na tradição pedagógica, Derrida propõe um acordo ao seus leitores. No procedimento desconstrutivo, encontra-se a problematização de deversos pontos referentes à concepção tradicional de ensino da verdade. Para alguns, o objetivo derridiano é por demais aporético ou inadmissível. Outros o aceitarão como lei, e ainda outros o julgarão não ser suficientemente aporético. É interessante observar que Derrida não se encontra inteiramente dentro nem fora da pedagogia clássica. É isso que Derrida entende por recalcular as possibilidades da liberdade acadêmica. Derrida insiste que ele não deseja se transformar num porta-voz da eterna pedagogia. (DERRIDA, 1998,p.4) É mostrado os elementos contraditórios oriundos da tradição pedagógica, que realçam tanto a autoridade do professor como a liberdade de investigação. Ele também chama nossa atenção para como é problemática a noção de liberdade acadêmica. Para Derrida, já foi mostrado que a desconstrução se posiciona numa relação ambivalente com a pedagogia clássica nem simplesmente se libertando ou se unindo à tradição pedagógica. Assim pedagogia clássica e liberdade acadêmica não são categorias claramente identificáveis. Elas se constituem de elementos contraditórios ou opostos, que competem um com o outro, ocultando uma tensão a partir de conceitos convencionais produzidos pela tradição acadêmica, como a própria pedagogia clássica. Tradição e desconstrução estão cortadas por um diferencial que, paradoxalmente, as une, gerando com isso a lógica do suplemento, da sobra, do contrário. É esse tipo de reconhecimento que orienta a leitura de Derrida de Sobre o futuro de nossos estabelecimentos de ensino (1872), de Nietzsche. Para Nietzsche, é possível discernir um tipo de limitação fundamental em relação à concepção convencional de liberdade acadêmica na Universidade. Como também observa Derrida, tal limitação oculta e se disfarça na forma de laissez-faire (DERRIDA,1988, p.33). acadêmica é o Estado que controla tudo. Observemos esta passagem de Nietzsche. Pelo dito liberdade Quanto ao professor, ele, por sua vez, fala aos estudantes que o escutam. O que ele pensa ou faz está, aliás, separado por um imenso abismo da percepção dos estudantes. Amiúde o professor lê enquanto fala. Em geral, ele quer ter o maior número possível de ouvintes; em caso de necessidade, ele se contenta com alguns, mas quase nunca com um único ouvinte. Uma só boca que fala para muitos ouvidos e metade de mãos que escrevem eis o

5 5- Anais - Congresso de Fenomenologia da Região Centro-Oeste aparelho acadêmico externo, eis a máquina cultural universitária posta em funcionamento. Para todos os demais, o possuidor dessa boca está separado e é independente dos detentores daqueles muitos ouvidos; e essa dupla autonomia é chamada de liberdade acadêmica. De resto para que essa liberdade seja ainda aumentada, o professor pode dizer praticamente o que quiser e o aluno pode ouvir praticamente o que quiser. Só que bem perto e atrás dos dois grupos, a uma distância conveniente, se põe o Estado, com o semblante atento do vigia, para lembrar de vez em quando que ele é o objetivo, o fim e a quintessência desses estranhos procedimentos que são falar e ouvir. (NIETZSCHE, 2003, p.126). Ao analisar o texto de Nietzsche, Derrida nota que a autonomia da universidade, assim como de seus estudantes e professores, é o estratagema do Estado.(DERRIDA,1988,p.33) CONCLUSÃO A perspectiva que Derrida evoca em Otobiografias talvez esteja ligada à discussão sobre a educação depois do Iluminismo, que o próprio Derrida associou com um dos principais nomes próprios da tradição filosófica: Hegel. Encontramos algo a respeito disso no ensaio The Age of Hegel, no qual Derrida empreende uma paciente e detalhada análise histórico-sociológica da complexa interação entre o discurso liberal e o discurso culto, e mostra a sutil dinâmica e a paradoxal força da sociedade civil. Essa mistura pode ser observada em Hegel, quando este manda uma carta para o corpo representativo do Estado prussiano: o ministro de Assuntos Espirituais, Acadêmicos e Médicos. Derrida nota isso na burocracia de Estado no processo de organizar a nacionalização das estruturas da educação filosófica. Nessa correspondência, pode-se detectar um discurso muito determinado concernente às instituições educacionais na época do serviço público europeu. Para Derrida, as instituições educacionais são atravessadas pelas características que organizam e distribuem as relações complexas de liberdade acadêmica e de limitação institucionalizada, dentro de um raciocínio emergente, que toma forma a partir do chamado Iluminismo. Este tipo de análise é contrainstitucional pois Derrida não pretende se acomodar perante as fundações institucionais tampouco solapá-las. A partir do que foi exposto, as conferências de Nietzsche podem ser lidas como uma crítica moderna da maquinaria cultural do Estado e do sistema educacional, que foi, mesmo na sociedade industrial do passado, uma parte fundamental do aparelho do Estado. (DERRIDA,1988, p.33). A relação entre a desconstrução da tradição filosófica e as

6 6- Anais - Congresso de Fenomenologia da Região Centro-Oeste instituições educacionais e sua problemática na época do Iluminismo estabelece um cenário em que Nietzsche (e, de fato, também Derrida) suspeita de qualquer apelo à liberdade acadêmica. Tal liberdade talvez seja entendida em termos de um repensar rigoroso sobre as relações complexamente entrelaçadas entre liberdade acadêmica, pedagogia ortodoxa e limitações político-institucionais. Não podemos simplesmente afirmar ou negar os conceitos de liberdade acadêmica e pedagogia ortodoxa. É preciso repensálos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DERRIDA, Jacques. Countersugnature. Translated by Mairéad Hanrahan. In: Paragraph 27, n2, 2004,p.7-42 DERRIDA, Jacques e FERRARIS, Maurizio. A taste for the secret. London: Polity Press, 2001 DERRIDA, Jacques. Otobiographies: the teaching of Nietzche and the politics of proper name. In: The ear of the other: otobiography, transference, translation. Translation by Christie McDonald. Linclon: University of Nebraska Press, NIETZSCHE, Friedrich. Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino. In: Escritos sobre educação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Edições Loyola, 2003, p. 126.

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