ENSINO DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE: APRENDIZAGEM EM ESPAÇO VIRTUAL. PALAVRAS-CHAVE: Formação docente em Arte; educação a distância; interação.

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1 ENSINO DE ARTE NA CONTEMPORANEIDADE: APRENDIZAGEM EM ESPAÇO VIRTUAL RESUMO: Beloní Cacique Braga Comunicação: Relato de Pesquisa Considero pertinente apresentar as investigações realizadas no decorrer do curso Ensino de Arte na Contemporaneidade a partir dos olhares de arte-educadora e aluna do curso. O presente texto pretende discutir a importância da formação continuada a distância e destacar a relevância da interatividade em ações educativas. O curso foi oferecido para 160 arte-educadores em todo o território nacional no período de agosto a dezembro de A realização se deu conjuntamente pela DUO e pela Humbiumbi Arte, Cultura e Educação 1. Estruturado totalmente a distância com duração de 120 h, foram oferecidos em 6 módulos com a participação de professores-mediadores ligados a diferentes instituições colaborando de maneira diversificada na construção do curso. A investigação de caráter qualitativo aborda os processos interativos ocorridos por meio de ferramentas disponíveis no ambiente virtual e que propiciaram ações colaborativas que contribuíram na formação dos professores. Dialogamos a partir das contribuições teóricas de Belloni, Kensky, Hernandez, Tardif & Lessard com as quais construímos e articulamos as ideias nesse texto. PALAVRAS-CHAVE: Formação docente em Arte; educação a distância; interação. 1. Introdução Diante da expansão dos cursos de formação docente em cursos à distância a área de Arte também sendo contemplada pelo oferecimento de cursos nessa modalidade. A DUO Informação e Cultura da ONG Humbiumbi - Arte, Cultura e Educação ofereceu no segundo semestre de 2008 o curso Ensino de Arte na Contemporaneidade: desafio para a cultura e a educação para 160 educadores localizados em todo o território nacional e reunidos na plataforma da web/duo 2. Como participante do referido curso e por acreditar em EAD optei por investigar como se ocorreu a interação dos arte-educadores no curso. O texto pretende apresentar considerações decorrentes da vivência como aluna no curso e como investigadora. Enfocamos a aprendizagem colaborativa e os processos interativos como elementos importantes no desenvolvimento do Curso Ensino de Arte na Contemporaneidade e imprescindíveis em cursos na modalidade a distância. Assim 1 O projeto do curso recebeu o apoio das instituições parceiras: Instituto Ayrton Senna, Petrobras, UNESCO e Ministério da Cultura, via Lei Rouanet 2

2 2 investigamos a questão apresentada anteriormente Como é possível ocorrer formação e interação em um curso de Arte a distância com arte-educadores situados em espaços tão diversos? Sendo assim, nessa abordagem qualitativa os dados foram construídos a partir dos registros realizados na plataforma do curso, de relatos individuais dos alunos e professores e pelas mensagens dos chats realizados. Para isso, torna-se importante apresentar ao leitor o curso, seus participantes e a plataforma DUO. Conhecendo o curso, a plataforma e os arte-educadores 3 A divulgação do curso se deu pela mídia impressa e virtual e contou com mais de 1400 inscritos a serem selecionados para 160 vagas de maneira a contemplar proporcionalmente as regiões brasileiras. Selecionados assim os arte-educadores tornou-se mais uma vez público o objetivo principal do curso, apresentado no guia do aluno: Incentivar o diálogo e o intercâmbio de experiências entre profissionais da área de Arte/Educação enriquecendo o trabalho que desenvolvem em suas instituições. A proposta do curso abrangeu a adaptação ao ambiente da plataforma EAD/Duoe os conteúdos específicos: Educação para o desenvolvimento humano, fruto da experiência do Instituto Ayrton Sena; O ensino de Arte no Brasil e a concepção contemporânea de arte; O valor da Arte na contemporaneidade e seus reflexos no Ensino de Arte; Juventude e Culturas Juvenis; O fazer artístico no ensino de Arte; A apreciação e a interpretação da obra de arte no ensino de Arte perfazendo 120 h. Além do material teórico e das aulas/ módulos em ambiente virtual de aprendizagem a instituição doou às instituições a que os alunos estavam vinculados uma caixa-biblioteca, contendo dez livros que abordam a Arte e seu ensino, além de um DVD produzido pelo Instituto Ayrton Senna. Todo o material era instigador e foi utilizado como propositor de novas questões e como fonte de pesquisa para todos os participantes no decorrer do curso. Os arte-educadores selecionados tornaram-se aprendizes, debatedores e colaboradores na construção do curso que contou com professores-mediadores Lucia Gouvea Pimentel, Maria Lívia de Castro, Paulo Emílio de Castro Andrade, Carla Linhares Maia, Simone Al Behy André e Luis Fernandes de Assis. 3 A expressão arte-educadores é utilizada pela equipe do projeto e por vários professores de Arte, que assim se denominam. Não daremos distinção neste texto das concepções a cerca dessas terminologias. 2

3 3 Estruturada a equipe docente e selecionados os discentes, o curso teve seu início com as devidas apresentações entre os alunos e equipe responsável. O contato e a novidade do encontro com os diversos brasis que compõem o território nacional causou a todos o espanto diante da diversidade. As muitas questões surgiram rapidamente. Como situar uma sala de aula no espaço virtual? Onde a comunicação entre nós depende do domínio que temos do uso da palavra para nos expressarmos? Como pensar em Arte quando quase não há espaço para as imagens, sons e movimentos? Estas foram algumas das indagações que permearam nossos pensamentos enquanto alunos virtuais tentando produzir conhecimento sobre o ensino da Arte com o uso de tecnologias digitais. Diálogos tecidos em rede Diariamente os contatos entre alunos e professores ocorriam pela plataforma DUO e a proposta inicial para os alunos apresentada no módulo de ambientação sugeria a participação dos alunos de forma interativa com o objetivo de avaliarem a proposta ao final do curso. Criamos a plataforma EAD DUO como um território aberto que garanta a participação de todos e que promova a proximidade afetiva, relacional e comunicacional, necessária à aprendizagem efetiva. Você irá nos dizer, ao final do curso, se conseguimos... A plataforma era estruturada e permitia o acesso as informações sobre os alunos da turma, espaço para os recados, chat a ser agendado e pesquisa. Oferecia também o acesso ao guia com todas as informações sobre o curso. Seus objetivos, conteúdos, corpo docente, sua organização e estrutura e o calendário, aulas (espaço para a leitura da proposta de cada aula), midiateca (com textos e vídeos), fórum (espaço para discussão e interação pertinente a cada aula) e o perfil do aluno usuário online da plataforma. Dentro do espaço do fórum os alunos poderiam acessar o Cafezinho, espaço criado para as trocas, conversa informal, divulgações e como o próprio nome sugere o cafezinho era servido a qualquer instante com a pitada e o sabor de cada região. Nesse espaço foi possível conhecer melhor diversos colegas. A proposta do curso favorecia essa visão de interação e desterritorialização como registradas na primeira aula de Ambientação em Ead: É importante esclarecer o método de aprendizagem a distância que adotaremos para este curso. Trata-se de uma aprendizagem colaborativa, ou seja, cada participante pode e deve interagir com colegas e professor, o que permitirá aos participantes construírem, conjuntamente, o conhecimento através da discussão, da reflexão e da tomada de decisões, na qual os recursos das tecnologias de informação e comunicação atuam como mediadores do processo da gestão da aprendizagem, destacando a participação ativa e a interação permanente como ponto motivador para a aprendizagem. Em suma, o Fórum não pode virar um deserto, onde apenas o professor e/o monitor postam mensagens. No entanto, é necessário reafirmar a importância dos professores, 3

4 4 como mediadores da aprendizagem, norteadores das discussões e fonte de conhecimentos sobre os temas. Mesmo sendo um curso à distância, afirmamos a necessidade da presença do professor nas diversas discussões. No processo de ambientação iniciamos o módulo de conhecimento da plataforma estruturada com os espaços interativos do cafezinho e dos fóruns de discussão, nos quais postávamos nossas opiniões ou solicitações dos professores após a leitura das aulas/textos deixados previamente à disposição durante a semana. A preocupação de alguns estava em vencer a chamada solidão virtual, assim, lendo os comentários e participando dos chats que seriam agendados, tal preocupação seria amenizada. Mas a experiência com o chat não foi bem sucedida e no grupo nos movemos para encontrar novos canais de comunicação. Logo após a ambientação a professora Simone André iniciou seu módulo procurando contextualizar e orientar os alunos a dinâmica do curso. Sinalizou que do grupo de 160 participantes 92 são professores da escola pública e os demais são arte-educadores de ONGs, espaços educativos, museus, centros culturais e professores da rede particular de ensino. A proposta para interação apresentada foi da utilização do fórum para postagem dos alunos. Ao final do módulo a professora convidou a turma a refletir sobre o desenvolvimento, o percurso, das aulas, dos fóruns e questionou Dá para fazer um curso à distância somente como ouvinte (aquele que acessa a plataforma, lê tudo, mas não interage)? Assim os alunos se moveram e paralelamente ao espaço formal do curso criaram uma comunidade no Orkut Arte na Contemporaneidade 4, um blog Arte-educa e um chat que se desenvolveu no MSN 5 ao longo do curso, já que a ferramenta da plataforma apresentou problemas técnicos. Tais ações desenvolvidas pelos alunos em busca da interação reforçam a existência de desafios específicos dessa modalidade de ensino como enfatiza Belloni (1999.p.45) O primeiro grande desafio a ser enfrentado pelas instituições provedoras de educação aberta e a distância refere-se, portanto, mais as questões de ordem sócio-afetiva do que propriamente a conteúdos ou métodos de cursos; mais a estratégias de contato e interação com os estudantes do que a sistemas de avaliação e de produção de materiais. A participação dos gestores e professores ocorreu por meio da valorização das iniciativas dos alunos, principalmente no chat, e por meio de diálogo textual produzido nos espaços dos fóruns. Ao final de cada módulo apresentavam um texto-diálogo com recortes dos relatos de alguns alunos representando uma síntese das discussões da turma. 4 Comunidade criada pela colega Julmara Goulart. 4

5 5 O chat como espaço criativo de interação A interação por meio do chat no espaço da plataforma tornou-se um desafio para o grupo e para os gestores. Mas as dificuldades não são empecilhos, são estratégias. Considerando a premissa que boas investigações surgem de situações problemas significativas, ousamos dizer que a experiência vivida pelos alunos do curso no primeiro chat foi espetacular. Problemas técnicos, normais e que acontecem nas melhores famílias, ou melhor, plataformas, impediram que a interação síncrona entre a equipe do curso e os alunos ocorresse efetivamente. Essa desconexão aparente resultou na busca por recursos e estratégias eficientes. Assim foi articulada no grupo uma nova estratégia para o chat acontecer efetivamente na qual convidei todos os colegas que migrassem para o MSN. 6 E no andar da carruagem virtual, desenvolvemos durante o curso encontros semanais previamente agendados para conversarmos, trocarmos ideias, nos conhecermos e discutirmos assuntos relacionados ao curso e a nossa vida, evitando, assim, a solidão virtual e a evasão, comuns em cursos a distancia. Solidão narrada nos versos do colega de curso Claúdio Vasconcelos em uma postagem no cafezinho da plataforma: Todo mundo entra na sala Não se consegue ver o que se diz E ninguém vê ninguém Nem ler o que se responde Todo mundo fala algo No chat misterioso Parece que tô surdo também A palavra se esconde O Chat tornou-se uma atividade do curso, pois à medida que aconteciam as postagens das aulas propúnhamos que o tema fosse estudado por nós e que como grupo nos organizássemos durante a semana para nosso encontro. Interesse e bom humor não faltaram à turma e logo o chat passou a ser denominado genérico pelo colega-poeta Claúdio 7, que escreveu em versos Chat misterioso relatando a trajetória e o nascimento do espaço virtual: Solucionando o problema Pensando na integração Já surgiu o Chat genérico Por outro canal de comunicação Enquanto a plataforma não fica pronta O Chat genérico é a alternativa O povo vai se comunicando como pode Com sua maneira criativa De genérico passou a oficial com a participação dos professores nos diversos momentos do curso e validado como legítimo, pela coordenação atenta ao movimento do grupo, como registrou em depoimento o prof. Paulo Emílio: 6 Programa específico para conversas ou bate-papo, aberto aos usuários cadastrados. 7 Os versos criados espontaneamente por Claudio Vasconcelos foram gentilmente cedidos para citações em textos acadêmicos e que apresentem o curso. 5

6 6 Quanta poesia, bom humor e afeto neste cafezinho, mesmo diante das dificuldades tecnológicas! Isso só é possível porque, aqui, temos artistas! Pessoas sensíveis e capazes de compreender que, mesmo tendo sido feitos testes e mais testes na plataforma, essas coisas acontecem! Também estamos ansiosos por este contato em tempo real e esperamos que o problema do chat se resolva logo. A boa notícia é que não estão sendo poupados esforços para que isso aconteça. É incrível ver vocês encontrando outras formas de comunicação. Que bom que Beloní, Heloisa, Cláudio, Rose Mary, Juliana e Adriana fizeram uma reunião virtual pelo MSN... deve ter sido um encontro "saboroso", como diria a profa. Simone! O sucesso do chat se deu por muitos fatores, mas é importante pontuar a coerência e integração de um grupo menor que se manteve comprometido com o propósito de promover a discussão, a troca, o diálogo. Essa interação é respaldada pela pesquisadora Maria Luiza Belloni (1999, p.48) ao afirmar que O diálogo deve ser estimulado não apenas entre professores e estudantes, mas entre os próprios estudantes (através de grupos, grupos tutoriais, redes de auto-ajuda, etc) e entre eles e os contextos sociais onde vivem e trabalham. O chat foi entendido pelos colegas como espaço de interação aberto e reconhecido como ação educativa caracterizada pela autonomia dos aprendentes, indispensável à educação, principalmente na modalidade à distância, como afirma Kenski (2003,95) Autonomia, criticidade e domínio das novas linguagens tecnológicas são competências necessárias e urgentes que devam ser exigidas dos educadores nessa árdua tarefa de aproximação e distanciamento crítico das novas tecnologias para a utilização consciente no ensino de todos os níveis. Nesse relato, destacamos a importância do chat genérico como estratégia de interação no curso, no entanto é importante ressaltar que muitos contatos por s e pela plataforma eram feitos, nos quais colegas que não podiam participar no horário mantinham conversas informais, não programadas que também geravam mais interação. Isso sinaliza que são necessários muitos contatos entre os colegas para que haja interação efetivamente. Assim entendemos que essa necessidade de interação, vivenciada inicialmente na trajetória acadêmica presencial dos alunos, encontra-se ligada a necessidade de afetividade e de estabelecer relações. Nesse contexto a inovação torna-se indispensável, por isso, compartilhamos com Hernandez (2000.p.31) ao afirmar que Os indivíduos, ao modificarem suas condutas racional e emocionalmente, através do conhecimento de que existe uma melhor forma de atuar, desenvolvem ao mesmo tempo suas próprias capacidades intelectuais e suas habilidades profissionais. E nesse movimento de inovar, constituir-se, interagir, reconhecemos a importância dos diálogos e desafios do curso Ensino de arte na contemporaneidade. Oportunizar a formação 6

7 7 continuada de arte-educadores utilizando o espaço virtual foi uma iniciativa que colaborou com a formação dos educadores que atuam em segmentos diferenciados. Cabe ressaltar que a prática pedagógica compartilhada pelos colegas permeava questões sobre a experiência docente, o saber fazer construído ao longo da docência ou pelas experiências dos colegas que não atuavam como docentes, mas em cargos diversos na escola e no terceiro setor. Considerações finais Os saberes da experiência construídos na escola e agora em espaços virtuais perpassam pela interatividade. De acordo com Tardiff e Lessard (2005) compreendemos que todo trabalho ou ação docente traz em si a necessidade de interatividade com o objeto da ação, nesse caso, o aluno. Trazemos esta reflexão considerando que os arte-educadores exercendo o papel de alunos-virtuais não abandonaram sua constituição como educadores e fizeram uso de seus saberes para interagir com os colegas e com os professores-mediadores no curso. Reiteramos a necessidade de que novos cursos de Arte à distância sejam oferecidos e que sejam ampliados com a inserção de imagens enriquecendo o repertório argumentativo e imagético dos participantes. Imagens que certamente serão propositoras de mais diálogo e maior interação entre todos. Referências BELLONI, MARIA Luiza. Educação a distância. Campinas: Editora Autores Associados BRAGA, Beloní Cacique. Meus dias, nossos dias. O desvelar das linhas: constituição e saberes de professoras de Arte Dissertação.(Mestrado em Educação) Universidade Federal de Uberlândia FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra HERNÁNDEZ, Fernando, et al. Aprendendo com as inovações nas escolas.porto Alegre: Artmed, KESNKI, Vani M. Novas tecnologias na educação presencial e a distância. IN: BARBOSA, Raquel Lazzari Leite Barbosa. (Org). Formação de educadores: Desafios e perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 2003.p TARDIFF Maurice, LESSARD Claude. O trabalho docente- elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Petrópolis: Vozes,

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