A miséria da classe operária inglesa ( )

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1 A miséria da classe operária inglesa ( ) Hilton Ribeiro Victor Romero de Azevedo Victor Hugo Farias A Revolução Industrial processou-se inicialmente na Inglaterra. As suas repercussões não se fizeram sentir de uma maneira óbvia e inconfundível (pelo menos fora da Inglaterra) antes da década de 1830, ou provavelmente não antes de Até 1840, a grande corrente de literatura oficial e não oficial sobre os efeitos sociais da revolução industrial ainda não começara a fluir. Só a partir de 1840 é que o proletariado, rebento da revolução industrial, e o comunismo, que se achava agora ligado aos seus movimentos sociais, abriram caminho pelo continente. O próprio termo Revolução Industrial surge somente por volta de 1820, passados quarenta anos desde o boom dessa revolução, provavelmente por analogia com a revolução política na França. Por volta de 1780, pela primeira vez na história da humanidade, foram retirados os grilhões do poder produtivo das sociedades humanas; e a partir daí, esse poder produtivo tornou-se capaz de uma rápida multiplicação, constante e ilimitada, de homens, mercadorias e serviços. Sob qualquer aspecto, destaca Hobsbawm, que este foi provavelmente o mais importante acontecimento na história a nível mundial, sendo superado somente pela revolução da agricultura e pelo aparecimento das cidades. Antes da Grã-Bretanha, nenhuma sociedade havia sido capaz de transpor o teto que uma estrutura social pré-industrial impunha à produção. Na Grã-Bretanha, este processo de uma primeira revolução industrial começou com a "partida" na década de 1780, e terminou com as ferrovias e a indústria pesada na década de 1840, abrindo espaço a uma nova fase dessa revolução. Mas o progresso econômico que esta industrialização gerou, demorou varias décadas até que fosse capaz de beneficiar, parcialmente, a população como um todo, sobretudo as camadas mais pobres, constituídas massivamente pelo operariado urbano, produto dessa revolução. Fato é, que por volta de 1850, havia mais pessoas vivendo nas cidades do que no campo, o que fez da Inglaterra a primeira sociedade predominantemente urbana do mundo. "A Revolução Industrial assinala a mais radical transformação da vida humana já registrada em documentos. Durante um breve período ela coincidiu com a história de um único país, a Grã-Bretanha. Assim, toda uma economia mundial foi edificada com base na Grã-Bretanha, ou antes, em torno desse país. Houve um momento na história do mundo em que a Grã-Bretanha podia ser descrita como sua única oficina mecânica, seu único importador e exportador em grande escala, seu único transportador, seu único país imperialista e quase que seu único investidor estrangeiro; e, por esse motivo, sua única potência naval e o único país que possuía uma verdadeira política mundial. Grande parte

2 desse monopólio devia-se simplesmente à solidão do pioneiro, soberano de tudo quanto se ocupa por causa da ausência de outros ocupantes"¹ ¹. Eric J. Hobsbawm. Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Rio de Janeiro, Forense Universitária A classe média vitoriosa e os que aspiravam a essa condição encontravam-se entusiasmados pelos avanços que a Revolução Industrial lhes proporcionava. O mesmo não acontecia com os trabalhadores pobres (que constituíam a grande maioria da população), cujo estilo de vida a Revolução Industrial havia destruído, sem que este fosse substituído de imediato por qualquer outra coisa. É essa desagregação, que segundo Hobsbawm, forma o cerne da questão dos efeitos sociais da industrialização. Em muitos aspectos, em uma sociedade industrial, é claramente perceptível que a mão de obra é diferente daquela existente na sociedade pré-industrial. Em primeiro lugar, por que é formada em sua maioria por proletários, que não possuem outra renda que não seus minguados salários, enquanto a mão de obra pré-industrial era formada em grande parte por famílias possuidoras de suas próprias propriedades agrícolas e oficinas artesanais, cuja renda era suplementada por algum acesso aos meios de produção. Além disso, como distingue Hobsbawm, o único vínculo do trabalhador industrial com seu patrão, diz respeito ao recebimento do seu salário em dinheiro, o que difere consideravelmente do trabalhador pré-industrial, que tem uma relação muito mais complexa com o seu senhor, relação essa que considera princípios de reciprocidade, ainda que bastante desiguais. A Revolução industrial substitui o servo e o homem pelos operadores das máquinas, figuras humanas que desaparecem por trás do maquinário da recente revolução. Um segundo ponto diz respeito a imposição de uma rotina de trabalho, que difere dos ritmos pré-industriais orientados pelas estações do ano, agora o tempo do trabalhador não é mais o tempo das estações, mas o tempo do relógio, da produção. Um terceiro aspecto diz respeito a explosão do crescimento urbano (tratado mais adiante), onde por volta de 1851, havia mais britânicos morando em cidades do que no campo, quase um terço da população. Cidades estas gigantescas, cobertas de fumaça e sujeira, onde o ritmo da urbanização não conseguia fazer-se acompanhar do ritmo dos serviços públicos mais básicos, e onde a imigração maciça de pessoas, produzia já na década de 1830, epidemias constantes de cólera, febre tifoide e o aparecimento constante dos maiores assassinos do século XIX: a poluição do ar e da água, que causava doenças respiratórias e intestinais. Um quarto ponto a ser destacado, diz respeito à Lei dos Pobres, destinada, segundo Hobsbawm, mais a estigmatizar os confessos fracassos da sociedade do que a ajudar os pobres infelizes. Poucos estatutos haviam sido mais desumanos que esta Lei dos Pobres de 1834, que tornava qualquer socorro social uma opção mais desagradável do que a mais baixa remuneração, confinando o trabalhador a centros de trabalho que mais pareciam penitenciarias (e como eram insalubres as penitenciárias inglesas do século XIX), separando pela força os homens, mulheres e

3 crianças, e os desencorajando de multiplicarem sua pobreza. Os pobres resistiram como puderam a leis desse tipo, o que as obrigaram a diminuir o seu rigor. Engels, contemporâneo ao processo da I Revolução Industrial, ressaltou a enorme centralização pela qual passava Londres na década de 1840, uma cidade de 3,5 milhões de homens e mulheres: Quanto aos sacrifícios que tudo isso custou, só os descobrimos mais tarde. Depois de pisarmos, durante alguns dias, as pedras das ruas principais, de a custo termos aberto passagens através da multidão, das filas sem fim de carros e carroças, depois de termos visitado os bairros de má reputação desta metrópole, só então começamos a notar que estes londrinos tiveram que sacrificar a melhor parte da sua condição de homens, para realizar todos estes milagres da civilização de que a cidade é fecunda ² O que é verdade para Londres, também o é para outras grandes cidades industriais como Manchester, Birminghan, Bristol, Leeds e Liverpool. Por toda parte se observam os inúmeros contrastes sociais entre uma miséria indestrutível e uma burguesia cada vez mais próspera. A situação do pobre é tal que sobre ele recaem todas as desvantagens de uma massa de trabalhadores que não detém os meios de produção: Se é capaz de encontrar trabalho, acaba por ser mal remunerado, ao ponto de mal chegar a possuir o suficiente para a própria alimentação, o que faz com que todos os membros da família tenham de trabalhar; desde os senhores idosos às crianças mais jovens. Devemos ressaltar aqui que as Leis Trabalhistas e de regulamentação do trabalho infantil só aparecem em fins do século XIX. Mas nem todos estes trabalhadores londrinos viviam na mesma miséria; Engels cita que para cada homem que vivia em desumana miséria haviam dez que viviam melhor. Como Engels argumentou, todas estas grandes cidades citadas aqui possuíam vários bairros de má reputação onde se concentrava a classe operária, nestes estavam as piores casas na parte mais feia da cidade ³, que eram obviamente os subúrbios. As ruas, de hábito, não eram planas ou pavimentadas, eram sujas e cheias de detritos, restos de animais e vegetais, sem esgotos ou canais de escoamento, mas semeados de charcos estagnados e fétidos. Em Londres, havia o exemplo de St. Giles, um lugar de extrema pobreza, onde habitavam os trabalhadores mais mal pagos, os ladrões, os escroques, e as prostitutas. Contudo, o maior bairro operário de Londres encontrava-se em Whitechapel e Bethnal Green, onde se concentrava a grande massa do operariado urbano. Aquela massa de trabalhadores que não poderia pagar por um albergue noturno, que custava, segundo dados da época, entre 1 e 2 pence, dormiam nas esquinas, sob as arcadas, ou em lugares onde a polícia ou os proprietários não os incomodassem.

4 ². Engels, A Formação da Classe Operária Inglesa. p. 35. ³. Engels, p. 38. A miséria dessa população apresenta evidente contraste com a riqueza dos bairros aristocráticos, mais bem construídos com o bom gosto burguês em Londres do que em qualquer outra cidade britânica. Com eles, se contrastava os subúrbios, dali não muito distantes, marcados pela sujeira e assimetria das casas, o abandono e estreiteza das ruas, e a inexistência de saneamento. Em suma, a miséria se apresenta em quadros muito semelhantes na totalidade das grandes cidades industriais inglesas. Caso a ser destacado, é o da cidade de Manchester, onde a indústria do Império Britânico teve seu ponto de partida e seu centro; lá as modernas técnicas de fabricação atingiram sua perfeição. Simultaneamente, neste mesmo ambiente de fausto da Revolução Industrial, a cidade pôde observar as consequências da indústria moderna se desenvolverem por completo, e em sua forma mais pura, e lá o proletariado industrial se manifestou de forma mais clássica. O mesmo é válido para as cidades que a rodeiam, onde seus bairros operários pouco diferem dos de Manchester, ainda que neles o proletariado represente uma fração ainda mais importante da população. Em Manchester, os bairros operários estão separados com maior rigor das áreas reservadas à classe média. A velha Manchester da época pré-industrial, como ressaltou Engels, foi ocupada por uma população operária de origem predominantemente irlandesa, ao passo em que era abandonada pelos antigos habitantes que emigravam para bairros melhor construídos. Nesses bairros operários, onde quer que o urbanismo tivesse deixado o menor espaço livre, este era ocupado por casas disformes e comprimidas; segundo situa o mesmo autor, essas construções são um efeito colateral da industrialização, que permitia os proprietários dos minúsculos imóveis alugá-los como se fossem espaços habitáveis, explorando a miséria do operariado, e minando a saúde de milhares de pobres em proveito próprio. De fato, para ele, a indústria não poderia existir sem a massa do operariado, sem a miséria que os rodeava e a servidão a que estes se obrigavam.

5 Figura 1: Desenho retratando Londres na primeira metade do século XIX, destaque para as enormes chaminés que brotam do alto das fábricas, cobrindo o céu de uma fumaça negra. Fonte: brasilescola.com/historiag/revoluçãoindustrial.html A mesma miséria que se observavam nas habitações, também estava presente no vestuário e na alimentação. Aos trabalhadores coube o que a burguesia industrial considerava essencialmente mau; os artigos de boa qualidade custavam muito caro para um operário típico, o que os obrigava a comprar os tecidos da mais baixa qualidade, sendo que alguns duravam por poucas semanas, e os obrigava a remendá-las constantemente, até que da roupa não se pudesse mais distinguir as cor original; os sapatos não eram exceção: os ingleses acabaram por adotar o costume outrora desconhecido de andarem descalços, que provinha dos trabalhadores irlandeses. Em relação ao consumo de carne, esta era vendida nos mercados locais a preços irrisórios (em média, 1 pence), era de péssima qualidade, geralmente magra e fétida; o trabalhador era geralmente vítima da falsificações das mercadorias. O que se pode dizer das classes mais altas, é que estas podiam pagar os altos preços das mercadorias, o que lhes garantia a qualidade: o rico, mimado pela boa mesa, de paladar apurado, descobria facilmente uma falsificação. A alimentação habitual do trabalhador assalariado variava, evidentemente, segundo o seu salário: nas famílias que ganhavam menos, carne só aos domingos ou duas a três vezes por semana no máximo; em contrapartida, havia mais pães e batatas. O chá era artigo de extrema necessidade, mais necessário que o café para a sociedade atual: as casas em que nem chá havia eram sempre o antro da mais negra miséria. E o que fazer quando o salário (pago semanalmente) acabava antes do fim do mês? Geralmente as famílias que não passavam fome possuíam somente o estritamente necessário para a sua sobrevivência. Como explicitara Engels, no pior dos casos, a miséria poderia variar da ausência de fogo e de habitação, até a morte pela fome (haviam casos, mesmo que não fosse algo frequente), em média, a situação do operariado inglês estava mais para o pior do que para o melhor dos casos. É indiscutível o fato de que relativamente, os pobres empobreceram ainda mais, enquanto suas classes média e alta obviamente enriqueceram. No mesmo momento em que os pobres se viam

6 assolados pela mais vil miséria, no começo e meados da década de 1840, a classe média não tinha mais onde pôr o seu dinheiro, investindo seus capitais excedentes em ritmo constante nas ferrovias e nas reformas de suas residencias palacianas que começavam a brotar nas fumacentas cidades do norte. Além disso, não há controvérsia em relação à pressão anormal sobre o consumo da classe trabalhadora no início da era industrial, que se refletia em sua relativa pauperização. Na Inglaterra, não houve, como argumenta Hobsbawm, a menor escassez geral de capital, dada a riqueza do país e o custo relativamente baixo dos primeiros processos industriais, mas aqueles que se beneficiavam do desvio de renda (os mais ricos entre eles, pelo menos) investiam seu dinheiro na ostentação, fora do desenvolvimento industrial, o que obrigava o restante dos empresários menores, como os Self made mens, os homens que se faziam por si mesmos, a pressionarem cada vez mais a classe trabalhadora. Nas décadas de 1830 e 1840, nenhum visitante das grandes cidades industriais britânicas se deteria a falar em operários felizes e bem nutridos, mas em homens que viviam na mais vil miséria, sob a exploração, a baixa remuneração e a sujeira. Não seria então de nos surpreendermos que a primeira geração dos trabalhadores da Inglaterra (da Grã-Bretanha de forma geral) examinasse os resultados dessa primeira Revolução Industrial e os rejeitasse veementemente. Figura 2: O aparecimento das ferrovias foi um importante impulsionador da revolução industrial, nela a burguesia industrial investiu seus capitais excedentes em busca de lucro rápido. Fonte: brasilescola.com/historiag/revoluçãoindustrial.html

7 Figura 3: Operários trabalhando em tear (aproximadamente 1840). Fonte: coladaweb.com/historia/revolucaoindustrial Bibliografia utilizada: HOBSBAWM, Eric. J. A Era das Revoluções, Editora Paz e Terra. São Paulo. 25º Edição, 3º reimpressão, A Era dos Extremos, Editora Paz e Terra. São Paulo. 15º Edição revista, 2º reimpressão, Da Revolução Industrial ao Imperialismo. Editora Forense Universitária. 4º Edição, BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. Editora Brasiliense. 1 Edição, ENGELS, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Editora Boitempo. 1º Edição, Filmografia recomendada: Oliver Twist (2005). Direção de Romam Polanski, 130 minutos. Germinal (1993). Direção de Claude Berri. Bélgica, 170 minutos. Tempos Modernos ( Direção de Charlie Chaplin. Estados Unidos, 87 minutos.

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