DO CONTO MARAVILHOSO AO CONTO DE FADAS

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1 DO CONTO MARAVILHOSO AO CONTO DE FADAS Alessandro da Silva (G - UENP / Jac.) Penha Silvestre (Orientadora UENP / Jac) A fantasia quase nunca é pura. Ela se refere constantemente a alguma realidade: fenômeno natural, paisagem, sentimento, fato, desejo de explicação, costumes, problemas humanos etc. Eis por que surge a indagação sobre o vínculo entre fantasia e realidade, que pode servir de entrada para pensar na função da literatura. Sabemos que um grande número de mitos, lendas e contos etiológicos, isto é, são um modo figurado ou fictício de explicar o aparecimento e a razão de ser do mundo físico e da sociedade. Por isso há uma relação curiosa entre a imaginação explicativa que é a do cientista e a imaginação fantástica, ou ficcional, ou poética, que é a do artista e do escritor ANTONIO CANDIDO O motivo da escolha desta citação foi devido ao fato deste crítico literário apresentar, em seu discurso, muitas semelhanças com o livro de Nelly Novaes Coelho que versa sobre os Contos de fadas. Antônio Candido afirma a necessidade da visão fantástica, ficcionista, mágica e imaginária do mundo como fuga da realidade cientificista. Nesse ponto encontra com a visão central da autora, que segue o mesmo raciocínio deste, embora em abordagem diversa. Para Candido, a literatura é uma questão humanizadora do homem, visto que todos têm direito ao seu acesso, mesmo porque, segundo ele, todo homem tem necessidade de fantasia e de ficção, mas desde que essa fantasia seja orientada de forma a explicar a existência humana contribuir para a formação do homem e da sociedade em que vive. Em conformidade com a definição de literatura deste crítico, a autora Nelly Novaes Coelho pensa o século XXI caracterizado pela simultaneidade da inteligência racional e do pensamento mágico. Nesta duplicidade apresenta-se um caos, o qual é resultado do confronto 1

2 da lógica tradicional de explicar a existência humana e a lógica cibernética ou mágico- poética de explicar a mesma. Durante muito tempo, a ciência procurou se preocupar em descobrir as origens de toda existência humana e questionar a existência de Deus. Fundada na verdade absoluta e concreta, não teria como acreditar em algo misterioso, sobrenatural e por isso sempre buscava explicações para tudo. Com o passar do tempo, estas perspectivas científicas foram mudando e dando abertura a diversas interpretações que não, necessariamente, deveriam ser provadas para que pudessem contribuir para a explicação da existência humana e a explicação do sobrenatural. Devido a isso A ciência está sendo levada a reconsiderar o sobrenatural, a aceitar o mistério, a buscar um novo sentido para a transcendência e a remodelar a face do próprio Deus. (COELHO, 1998, p.8) Essa abertura científica contribui para a volta da visão mágica do mundo, no qual o império da literatura ficcionista, maravilhosa, fantástica, destaca-se trabalhando questões como o além-mundo, o poder da mente, e outros. Trabalha com temas que instigam a curiosidade no ser humano e procura refletir a realidade e as verdades humanas, antes tão buscadas pela lógica tradicional. As narrativas maravilhosas encontram antepassados na antiguidade, no qual o desafio diante do desconhecido fazia com que o homem buscasse a explicação para sua existência. Essas narrativas literárias também contribuíram para a legitimação de uma ordem social e da própria ideia de patriotismo de cada nação. Essas narrativas são também uma mistura de diversos temas e mitos darão origem ao conto de fadas e ao conto maravilhoso, que por trabalharem com a mesma visão maravilhosa do mundo, acabaram sendo confundidos por muito tempo. No entanto, ambos vêm de fontes diferentes e tratam de problemáticas distintas. 2

3 Dessa forma pode-se observar profundas diferenças entre o conto de fadas e o conto maravilhoso, diferenças que se discutirá em seguida. Os contos de fadas relatavam a realização existencial de um herói, que na maioria das vezes, salva uma pessoa amada (uma mulher). Essa ideia não se pode generalizar, pois um pouco antes do conservadorismo religioso, havia a idealização da mulher. Nos contos de fadas ela é quem procurava seu príncipe, e como era na maioria das vezes uma plebéia, promovia sua realização existencial materialista. Estes contos surgem a partir dos poemas e narrativas idealistas da cultura celta, na qual havia predominância do místico e do mágico como valores inerentes ao homem. Como exemplos desses contos pode-se citar: A Bela Adormecida, A Bela e o Fera, Rapunzel e outros. Já os contos maravilhosos surgidos a partir da cultura oriental, buscavam preconizar em suas narrativas uma problemática social, destacando a parte material, sensorial e ética do ser humano, e parte da miséria ou da necessidade de sobrevivência do personagem central. Neste tipo de conto, o herói ou anti-herói se realiza com bases materiais de sua vida socioeconômica. Podemos citar como exemplo: O Gato de Botas, Aladim e Lâmpada Maravilhosa, O Pescador e o Gênio, dentre outros. As raízes desses contos remontam a muito antes do nascimento de Cristo. Com o passar do tempo e do processo histórico, estes contos passaram por metamorfoses e chegaram até hoje, como literatura infantil adicionados de contos populares e folclóricos advindos da oralidade. Isso pôde ser comprovado no século XIX por estudiosos que pesquisavam a origem dessa literatura folclórica que passa de uma literatura adulta para uma literatura clássica infantil. E, ainda, argumentam que tanto as de origem celta quanto as de origem orientais possuem algo em comum, pois existem muitas coincidências nos contos. Acredita-se que os contos maravilhosos orientais são precursores dos contos de fadas. Em suas fontes primárias os contos 3

4 maravilhosos orientais eram narrativas labirínticas, no qual várias estórias eram contadas dentro de uma história, na maioria das vezes, servindo de álibi para a execução de algum plano, em particular a preservação de uma vida. É interessante notar que logo no início, estes contos divulgaram uma imagem negativa das mulheres representadas como seres malignos. Já na Europa cristã do século XIII, estes contos eram interpretados de forma a representar uma dualidade na visão que se tinha sobre a mulher, pois, ora era representada como símbolo da pureza, assim como Maria ( a Mãe de Deus ) ora era representada como impura, mulher demônio. Os contos orientais ou contos maravilhosos serão objetos de estudo apenas no século XIX, pelos filólogos e através de adaptações serão difundidos no Ocidente, principalmente depois da publicação de Perrault no século XVII. Um dos contos maravilhosos orientais que mais ficou conhecido na Europa, foi conto, As Mil e uma noites, o qual explorava temas que relacionavam o poder da palavra, a morte e o amor. Este conto foi muito questionado por estudiosos em relação a sua originalidade de trabalho com o mundo fantástico e também quanto ao seu trabalho considerado imoral pelos cristãos devido a presença do erotismo explícito na narrativa. A narração desse conto revelava aos europeus uma cultura bem diferente da sua, carregada de misticismo e de fantasias audaciosas, no qual o amor, a morte e a palavra era o eixo central da narrativa. As Mil e uma noites conta a história de um rei que após ser traído por sua esposa fica furioso e manda matá-la. Logo depois, decide recrutar todas as virgens do reino a fim de que passassem a noite com ele e ao amanhecer fossem sacrificadas. Até que Sherazade, a filha de seu vizir, pede ao pai para que este a deixasse passar a noite com o rei, pois tinha um plano, e este plano resultava das muitas leituras que havia feito durante toda sua juventude. Ao chegar lá Sharazade começou a contar estórias ao rei que ao amanhecer não a matava, pois estava curioso para saber o que aconteceria nas outras estórias, e assim foi até que se passaram mil e uma noites e Sharezade deu- lhe três filhos. 4

5 No século XX, especificamente em 1985 mais um descaso se fez com a literatura. Fanáticos religiosos queimaram exemplares das Mil e uma noites. Segundo Nelly é porque vêem na literatura um meio para o indivíduo adquirir capacidade crítica e reflexiva e isso os fanáticos não querem, pois não querem indivíduos reflexivos, apenas querem dominar suas mentes e influenciar seu modo de vida. Esta posição da autora fica claro quando ela diz: Será porque os ditadores (seja de que facção forem)- como os selvagens redutores de cabeças, com a diferença de que estes, em seu primitivismo cultural, as reduzem para usá-las como troféus de vitória e de auto-realização- servindo a um progressismo maquiavélico, querem cabeças e almas vazias, para mais facilmente escravizá-las?(coelho, 1998, p.29) Nas palavras da autora a literatura, os sonhos e a poesia são: (...) forças interiores capazes de se oporem às arbitrariedades e às injustiças dos poderes egoísticos e despóticos. (COELHO,1998, p.29) No ocidente os contos que traziam uma visão maravilhosa do mundo ganham outro nome sendo chamados de contos de fadas fundamentados na cultura celta, com seu misticismo e seu caráter extremamente espiritual, a qual atribui ao conto, as fadas. Vale assinalar que as fadas são criaturas mágicas representadas por figuras femininas com poderes sobrenaturais que interferem na vida humana para solucionar casos impossíveis através de uma solução sobrenatural. Essas criaturas não possuem data ou lugar de nascimento, estudiosos da área afirmam que talvez tenha surgido na origem dos tempos através do conflito imaginário X real, pelo qual passou a humanidade. Seu aparecimento na cultura celta é notório principalmente na literatura cavalheiresca, na qual estas são figuras representativas do amor, da delicadeza da mulher. Mas também não se pode, esquecer, que existia a anti-fada, aquela que queria estragar os finais felizes de todos os contos de fadas, as chamadas bruxas. 5

6 Existem muitos conflitos sobre as fadas serem reais ou apenas criaturas imaginárias, mesmo porque a cada apropriação de cada cultura esses espíritos ou seres mágicos vão ganhando representações distintas. Dora Van Gelder, uma parapsicóloga norte americana acredita que esses espíritos ou seres mágicos relacionam-se diretamente com a natureza e são de vários tipos: Anjos ou devas que orientam a natureza; Elementais, baseados nos 4 elementos, Espíritos da Natureza que mostram as diferentes manifestações da Natureza; as Fadas da Terra;do Fogo; da Água;que com seus respectivos reinos orientam a vida humana. Os celtas eram povos sedentários pacíficos que só entravam em guerra para defender seus territórios, tanto que sua influência foi muito mais cultural do que militar. Pesquisas recentes mostram resquícios desse povo como os túmulos, menires e dolmens, entre outros. Esses povos possuíam uma religiosidade que se destacava. Essa religiosidade era mantida pelos guardiões chamados de druidas, os quais tinham a função de ensinar e orientar os mais jovens na tradição celta. Tal religião se sustentava na crença em deuses, na maioria das vezes femininos, que ajudavam os seres humanos em seus conflitos diários. Os druidas eram totalmente rigorosos com sua religião, praticavam sacrifícios humanos. Estes eram praticados em cima de uma mesa de pedra, após um ritual de dança, para agradar aos deuses. As vítimas eram orientadas por eles, para se sentirem orgulhosas por serem escolhidas, pois em breve fariam parte da divindade. Nesta casta de druidas, às vezes, existiam algumas druidesas, sacerdotisas de Avallon que serviam a Senhora do Lago. Os mitos, as lendas e a História do povo celta fundem-se para o nascimento da literatura céltico-bretã: os lais; romances ou novelas cavalheirescas que tinham as fadas como personagens. Os textos fontes para essa literatura eram Beowulf, a primeira obra literatura inglesa, que retrata a passagem de uma época pagã para uma época cristã, e também Os Mabinogion, que são uma coleção de poemas que 6

7 exaltam e proliferam a lenda, a História, ou o mito do Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, e também outros poemas que representam a visão fantástica, maravilhosa e mágica do mundo pelo olhar celta. Os lais - bretões deve muito a França por sua constituição, devido ao fato de que Alienor, neta de Guilherme de Poitier, rei carolíngio, torna-se protetora das artes e mais tarde isso é passado à sua filha. Marie de France muda-se com a mãe para a Inglaterra, após o casamento desta com Henrique II. Em território britânico Marie de France começa a escrever seus lais, misturando o misticismo da cultura celta e a religiosidade cristã da cultura carolíngia, sendo considerada uma das primeiras poetisas francesa. Suas obras mais conhecidas são: Lai d Yonec, Lai de Bisclavaret, Lai de Lanval, Lai de Iwenec, Lai de Fresno, Lai de Tidorel, Lai de Eliduc, Lai de Guingamor, Lai de Tiolet, Lai da Madressilva. No século XII, ao mesmo tempo em que, existia essas poesias franco-célticas, surgia também o romance cortês. Este resultava das cruzadas, das cavalarias medievais como o cavalaria de Artur,das aventuras por terras infiéis, do exotismo, da visão maravilhosa do mundo oriental, da sensualidade e de outros elementos que permitiram a proliferação deste gênero. Neste momento apareceram figuras como Lancelot, Guineviere, Viviane, Artur, Morgana, Merlin, A Senhora do Lago, Druidas e fadas, entre outras figuras representativas da cultura celta. E é interessante que a partir da fusão da cultura celta com a cultura carolíngia francesa, nota-se que os seres divinos estabelecem correspondências como é o caso da Senhora do Lago. Para os cristãos esta, é a Virgem Maria, muda-se o nome, mas continua expressa a valorização da mulher. Quanto a isso a autora diz: Houve, pois uma coincidência de atitudes espirituais: a religiosidade mágica dos celtas (que criou a fada) e a religiosidade cristã ( que criou o culto à Virgem Maria), ambas convergindo para a valorização da mulher ( COELHO,1998,p.50) Logo após isso com o Renascimento do século XVI podemos destacar duas fontes européias que estavam ligadas ao 7

8 maravilhoso: a de Straparola que era mais uma leitura prazerosa do que um poema estético-literário e a os contos de Basilen, os quais representavam a cultura popular e tradições do século XVII. Depois do sucesso dos romances cavalheirescos, e dos ciclos arturianos com participação das fadas no Renascimento, começa no século XVII, com Perrault as narrativas populares folclóricas. Segundo a autora: A época de Perrault correspondeu, pois, à decadência do racionalismo clássico ( A razão é a medida de todas as coisas ) e à conseqüente exaltação da fantasia, do imaginário, do sonho, do inverossímil,que empapavam uma literatura que se fazia mais ou menos à margem da literatura oficial.( COELHO,1998,p.70) Perrault publica uma reunião de contos populares, de sua autoria, fato que é questionado por seus estudiosos, com a intenção de auxiliar a ação feminista de respeito a suas liberdades emocionais e racionais e também de provar as relações entre as novas produções e as produções antigas, buscando a recriação da literatura folclórica. No início os contos de Perrault eram escritos para adultos, só depois foram adaptados para contos de fadas clássicos. No século XIX, o estudo desses contos volta a todo vapor e o interesse dos adultos por esse contos é fácil de se notar. Um dos núcleos mais importantes de estudos é o dos Grimm que coletam esse material de contos maravilhosos e fantasiosos, mistificados e interessantes e publicam. Tanto em Perrault quanto nos contos de Grimm as fontes têm um fundo comum, seja ele celta, oriental, ou europeu e em todos existe o conflito entre o real do cotidiano e o mistério do imaginário. Ainda no século XIX, Hans Christian Andersen reuni contos populares e cria alguns, denominando-os contos infantis. Este escritor é muito lembrado e considerado, pois consegue unir um pouco do pensamento mágico à crítica existencial racional romântica sem comprometer as características desse último.nas palavras da Nelly Novaes Coelho. 8

9 ...Andersen revela-se como o grande criador da literatura infantil romântica, pois conseguiu, de maneira admirável, a fusão entre o pensamento mágico das origens arcaicas e o pensamento racionalista dos novos tempos. ( COELHO, 1998,p.76) O romantismo de Andersen se preocupou com os níveis de satisfação do indivíduo, tanto social como existencial, de forma que ele revolucionou os antigos contos nórdicos que através do imaginário fantástico e maravilhoso o indivíduo procurava encontrar seu lugar no universo. Os contos de fadas vêm sendo tratado com muito descaso ultimamente, sendo alvo de preconceitos por parte de diretrizes educacionais. Com o avançar do racionalismo cientificista e sua febre de conhecimento exato e objetivo, o maravilhoso dos contos de fadas, de natureza sobrenatural ou mágica, foi sendo gradativamente marginalizado e inclusive recusado pelas novas diretrizes do Ensino. O pragmatismo da sociedade progressista que então começa a se consolidar não tem espaço para a pura fantasia ( COELHO,1998,p.80) Assim, este artigo tem por intuito mostrar a importância do conhecimento do contexto histórico desses contos, suas manifestações e representações ao longo do processo histórico e alerta a importância dos estudos dos contos de fadas e dos contos populares, mostrando as várias possibilidades de análise. Para finalizar esta discussão, encerra-se este texto com uma afirmação da autora: É nesse sentido - o de descobrir, no imenso acervo dos contos de fadas ou contos maravilhosos, as pegadas daquilo que, desde as origens dos tempos, os homens quiseram dizer com eles que se vêm desenvolvendo as mais recentes pesquisas. Destas, resultaram as várias teorias que têm tentado domar, nos limites da lógica e do conhecimento objetivo, a matéria maravilhosa dos contos, que a imaginação popular vem guardando e transformando há milênios... (COELHO, 1998, p.82) 9

10 REFERÊNCIAS CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. Texto recebido para publicação em 8/8/1972. São Paulo. COELHO, Nelly Novaes. Panorama Histórico da Literatura Infantil e Juvenil. São Paulo: Ática, COELHO, Nelly Novaes. O Conto de Fadas. 3ª ed. São Paulo. Ática:

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