O lobby visto por um lobista

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1 O lobby visto por um lobista 1 FARHAT, Saïd. Lobby: o que é: como se faz: ética e transparência na representação junto a governos. São Paulo: Peirópolis: ABERJE, Publicado em 2007, o livro de Saïd Farhat representa um exemplo daquilo que poderíamos chamar de visão da literatura não acadêmica sobre lobby. Não é uma obra feita no âmbito da pesquisa docente universitária ou da pós-graduação stricto sensu, ou seja, mestrado e doutorado. No entanto, não é também uma obra de leigo no assunto, que reproduz meramente um senso comum distante do conhecimento científico. O autor manuseia uma bibliografia variada. Ademais, ele ocupou importantes cargos públicos em órgãos governamentais, como a presidência da Embratur Instituto Brasileiro de Turismo, no governo Geisel, e o de ministro da então Secretaria de Comunicação Social do governo Figueiredo. Além disso, tem muitos anos de experiência profissional como lobista e formador de lobistas, o que propiciou ao livro um caráter mais acentuadamente rico na atividade prática do lobbying, sem que, no entanto, deixe de adentrar em algumas searas teóricas. Ademais, a riqueza informativa sobre a atividade prática do lobby torna o livro importante material para pesquisadores das ciências sociais que trabalham em uma perspectiva de vincular a pesquisa teórica à empírica. A experiência do autor com o lobby provém, sobretudo, de sua atividade empresarial na Semprel, empresa de consultoria empresarial e política, de relações governamentais e assessoria política, ou seja, empresa de lobby, criada, pioneiramente, em 1985 no contexto da redemocratização e da emergência das demandas da sociedade civil sobre o poder público, para prestar serviços ao setor privado, firmas e associações. Essa empresa ainda existe, possui um escritório em Brasília e outro em São Paulo. Entre os dez sócios fundadores da Semprel, há cinco agências de publicidade como a Salles e duas empresas do setor financeiro Brasilinvest e Finacorp. Essa origem enseja duas observações. A primeira diz respeito ao fato do autor ser um empresário do lobbying, e não um empresário qualquer, haja vista o porte dessa empresa, se não o porte econômico, o porte social, o fato de não ser uma empresa qualquer, muito pelo contrário. A segunda é o enraizamento da Semprel no setor de publicidade e propaganda, o que impacta na abordagem do lobby presente no livro de Farhat. Trata-se de uma visão do lobby muito ancorada na área de comunicação. Aliás, a edição do livro envolve, além da Editora Peirópolis, que tem uma de suas linhas editoriais direcionada ao terceiro setor, a Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), organização da sociedade civil à qual a empresa Semprel tem filiação. 1 Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF). 86

2 O recorte da abordagem do lobby na comunicação aparece, por exemplo, na p. 60, quando essa atividade é qualificada como tendo natureza eminentemente informativa. Na p. 84, o autor é mais explícito: (...) a atividade de lobby é essencialmente informativa: a técnica dos lobistas envolve, como costumo dizer, informar para convencer. Essa resenha, entretanto, é escrita na perspectiva crítica do pensamento político acadêmico, sobretudo nas áreas de ciência política e sociologia política. Nessa perspectiva, o lobby ou lobbying, mesmo que se queira defini-lo como uma atividade de caráter comunicativo, é apenas uma das ações dos grupos de interesse ou dos grupos de pressão. A sociologia e ciência políticas pluralistas, desenvolvidas nas ciências sociais americanas por autores como Arthur Bentley, David Truman e Robert Dahl, considera que a sociedade é constituída por uma imensa variedade de grupos de interesse, que se formam e se modificam incessantemente, conforme os momentos em que atuam e as questões em jogo. As interações que originam os grupos de interesse produzem uma constelação variável de coalizões de poder, que dirigem suas demandas ao Estado e este não tem como ignorá-las, pois, nas sociedades pluralistas, os governos não produzem políticas isolados dos atores sociais. Assim, o lobby é uma atividade política, mesmo quando voltado à transmissão de mensagens. E o caráter político do lobbying é tanto maior quanto um grupo de interesse sai do estado meramente portador de demanda latente e parte para ações de pressão, ou seja, torna-se um grupo de pressão. Na literatura acadêmica especializada nos estudos dos grupos de interesse, os termos lobby, lobbying e grupos de pressão são praticamente sinônimos. Farhat não ignora o caráter político dos grupos de pressão, inclusive identifica algumas formas de pressão, além de se referir a alguns dos autores supracitados e até mesmo aos Founding Fathers dos Estados Unidos da América (EUA), resgatados para trazer à tona o debate sobre a incorporação das facções pelo arranjo institucional do sistema político, ocorrido no contexto de definição da Constituição Americana. No entanto, pelo livro ser uma espécie de manual para a formação de lobistas, escrito por um ex-profissional da área de publicidade e propaganda, que migrou para o lobbying como ramo de ação empresarial, o autor dá ao lobby um caráter de atividade de informação e comunicação. Farhat adota a seguinte definição de lobby: Lobby é toda atividade organizada, exercida dentro da lei e da ética, por um grupo de interesses definidos e legítimos, com o objetivo de ser ouvido pelo poder público para informá-lo e dele obter determinadas medidas, decisões, atitudes. (p. 50-1) Mas o livro também é útil aos leitores interessados em uma visão política mais ampla do lobby. Nesse sentido, Farhat descreve várias características e facetas das instituições que conformam o sistema político brasileiro, que o lobista necessita conhecer minimamente para levar suas demandas à frente. Além de, diversas vezes, recorrer a conteúdos da Constituição Federal, a obra fornece boas informações sobre os mecanismos institucionais do Congresso Nacional, como os tipos de leis aprovadas pelo parlamento, as formas de organização dos partidos, dos parlamentares e de suas lideranças na Câmara dos Deputados e no Senado Federal e algumas características do 87

3 processo legislativo. O autor também aborda o poder político do Executivo, suas prerrogativas institucionais sobre o Congresso Nacional, como a medida provisória, a urgência constitucional e o veto presidencial, entre outras. Essas descrições, além de fornecerem informações úteis, propiciam um passeio do leitor nos diferentes cenários institucionais da ação dos lobistas. Algumas vezes o autor faz digressões desnecessárias, como quando resolve distinguir entre reforma e revolução para posicionar o lobby nesse espectro da mudança política. Farhat, que se posiciona como um liberal na economia e na política, afirma: Independentemente do seu objeto final, o estado da revolução, isto é, a revolução como fenômeno político permanente, costuma ser, como vimos entre nós, incompatível com a sobrevivência de opiniões livres, divergentes da verdade oficial, ou de sua versão temporal. (p.192). Ao afirmar isso, o autor esquece que a ordem social liberal veio ao mundo através de revoluções, particularmente na Inglaterra, EUA e França. Mas sua preocupação maior, aqui, é mostrar que o lobista atua dentro do sistema (p. 192). Além de ser uma atividade que respeita a ordem, o livro destaca a legitimidade ou o consentimento como outro componente fundamental para o exercício do lobby. Novamente aí a comunicação, a imagem, os meios de comunicação emergem como dispositivos indispensáveis para o empreendimento do lobby, pois arcam com grande parte da responsabilidade de produzir o consentimento imprescindível, se não ao efetivo sucesso do lobby, ao menos para que os lobistas possam sonhar com essa possibilidade. Nesse sentido, parte importante da ação do lobista deve estar dirigida aos profissionais de mídia. Estes, mais que os políticos e governantes, modulam, formam e condicionam a opinião pública. (p. 120). Farhat argumenta que não só os resultados de uma ação específica de lobby dependem de legitimidade, mas também que o lobby em si é portador de legitimidade e previsto nas instituições do Estado de Direito, que garantem direitos e liberdades como o direito de organização, de expressão, de opinião, de credo, a liberdade de imprensa, o direito de peticionar ao poder público e assim por diante. Por ser legítimo, o lobby em si, enquanto ação amparada no direito, não se confunde com qualquer conduta ilegal. Pelo contrário, o lobby exaltado por Farhat tem fundamento ético. Se lobistas cometem ilegalidades, isso nada tem a ver com o lobbying enquanto tal, assim como o direito de expressão não faculta impunemente a calúnia contra qualquer homem público. Ao longo do livro, o autor faz questão de deixar bem claro seu comprometimento com o lobby ético, aquele que é expressão de interesses legítimos de indivíduos, grupos, empresas, associações e é exercido nos limites da legalidade. Leiamos algumas palavras do autor: 88

4 (...) quando se somam o direito de trabalhar, a liberdade de associação para fins lícitos e o direito de informar e peticionar aos poderes públicos, obtém-se a base constitucional sobre a qual assenta a presunção de legitimidade dos grupos de interesses e de pressão, dos seus agentes e dos atos por eles praticados, a qual se completa na sujeição de tudo o que se fizer nos termos das leis existentes no país ou comunidade. (p. 207). Mas, a despeito de sua legitimidade e dele ser praticado de modo legal por vários atores, o lobby não é especificamente regulamentado no Brasil, ou seja, não há uma Lei do Lobby, que, de modo ativo, trate do conteúdo dessa prática com o objetivo de torná-la mais transparente para toda a sociedade e, assim, contribua para agregar mais legitimidade a essa atividade. Identificar quem são os lobistas e que interesses eles defendem em suas interações com o poder público seria uma importante contribuição que a almejada lei daria para a referida transparência. As normas existentes, como os regimentos internos das duas casas legislativas, a Lei da Probidade Administrativa ou o Código de Ética do Servidor Público Federal, não são suficientes para dar conta das especificidades do lobby. Os argumentos do livro sobre a importância de uma lei do lobby são bem formulados. O mais conhecido projeto que tramitou no Congresso Nacional para regulamentar o lobby teve autoria do então senador Marco Maciel, apresentado primeiramente como PLS nº 25/1984 e convertido, na legislatura seguinte, para PLS nº 203/1989. Foi arquivado em Em seu Art. 1º, lê-se: As pessoas físicas ou jurídicas, contratadas ou voltadas, por seu objetivo, para o exercício, direto ou indireto, formal ou informal, de atividades tendentes a influenciar o processo legislativo, deverão registrar-se perante as Mesas Diretoras do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. Na Câmara dos Deputados, esse projeto tramitou como PL nº 6.132/1990, e não nº 6.137, como informa a p. 61. Pelas informações do processo legislativo disponíveis no sítio da Câmara dos Deputados, lá esse projeto ainda aguarda decisão, mas o último registro de ação a ele vinculada é de Farhat não menciona, provavelmente por ter sido um fato posterior ao envio do livro para a edição, que o deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) formulou o PL n.º 1.202/2007, também visando disciplinar a atividade de lobby e a atuação dos grupos de pressão. Essa matéria foi arquivada em 31 de janeiro de Pode parecer brincadeira, mas o lobby para regulamentar o lobby está fraco, o que não deixa de ser um elemento político significativo, haja vista a pública e notória existência de lobby no Congresso Nacional e em outras esferas do poder público. Afinal, como já dito, isso não é nenhuma surpresa, pois a sociedade é pluralista e o regime democrático tem fluído sem solução de continuidade desde a segunda metade da década de 80. Se o lobby é uma prática legítima de intermediação de interesses e possui regulamentação em alguns outros países, como explicar a sua não regulamentação no 89

5 Brasil? O autor do livro não se propôs a responder essa intrigante questão. Este resenhista, por sua vez, só arriscaria uma argumentação responsiva se tivesse pesquisado o problema mais densamente. Mas, para não deixar o leitor frustrado, eu apenas opinaria evocando o problema da falta de consenso sobre a matéria como uma pista a ser investigada. Em novembro de 2008, a Controladoria Geral da União (CGU) promoveu o Seminário Internacional sobre Intermediação de Interesses: A Regulamentação do Lobby no Brasil. No resumo desse evento, publicado no sítio da CGU, pode-se ler: Todas as autoridades presentes foram unânimes ao defender a necessidade urgente de regulamentação da atividade de lobby no Brasil. O Prof. Clive Thomas, cientista político da Universidade do Alaska, um dos participantes, exortou os presentes a regulamentarem o lobby no Brasil levando em conta as características da realidade brasileira e adiantou que uma das dificuldades está exatamente em definir quem é lobista e o que é grupo de pressão. Outro participante, Luiz Alberto dos Santos, então funcionário da Casa Civil e autor de tese de doutorado sobre lobby, alertou para o problema da captura dos órgãos públicos pelos interesses privados. Um dos temas debatidos nesse seminário, e que também aparece no livro de Farhat, é o financiamento das campanhas eleitorais, questão espinhosa que vem sendo analisada há muito tempo no âmbito das discussões sobre a reforma política. Por que, então, os atores da sociedade civil, os políticos eleitos, os funcionários públicos especializados, enfim, não incorporam a regulamentação do lobby na pauta da reforma política, que até aqui tem se ocupado mais do sistema eleitoral e do financiamento de campanhas? A obra contém um conjunto de exemplos sobre ações de lobby, tanto no Brasil como internacionalmente. Ademais, propicia um panorama dos problemas práticos que os lobistas profissionais enfrentam no exercício de suas atividades. Aborda as semelhanças e diferenças entre lobby e advocacy. A crítica construtiva que eu faria ao livro é que sua leitura e mesmo sua utilização em cursos, seminários, etc. teria ficado mais fácil se o vasto material tivesse sido organizado de uma forma, por assim dizer, mais lógica, mais temática, para evitar repetições desnecessárias, o que, talvez, lhe propiciasse um melhor cumprimento da meta de ser um manual do lobista, um manual do lobby. Senti também falta, na parte da bibliografia que traz referências dos partidos políticos, a menção ao Partido dos Trabalhadores (PT) e a sua Fundação Perseu Abramo. Mas o mais importante é afirmar que o livro de Saïd Farhat é fácil de ser lido, útil e recomendável para todos os interessados em intermediação de interesses e em lobby, como estudantes, pesquisadores, jornalistas da área de política, ativistas ou futuros lobistas. Por fim, dada a importância do tema, que novas obras sejam editadas! *Os grifos em itálico entre aspas correspondem ao original de Farhat,

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