A interdisciplinaridade no curso de Pedagogia das Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba: um estudo inicial

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1 A interdisciplinaridade no curso de Pedagogia das Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba: um estudo inicial Líliam Maria Born Martinelli (Faculdades Integradas Santa Cruz. FARESC Ivana Suski Vicentin (Faculdades Integradas Santa Cruz. FARESC Eixo temático: Institucionalização da Interdisciplinaridade RESUMO O presente artigo é resultado de uma pesquisa junto a alunos e professores do curso de Pedagogia das Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba, de modo especial alunos do quarto período e observações informais com alunos do segundo período, a respeito das concepções de ambos sobre interdisciplinaridade. O trabalho desenvolveu-se com a busca das concepções de autores renomados em termos de Brasil, bem como na coleta de ideias por meio de questões aos alunos e professores. Percebeu-se a aproximação das concepções e, a partir disso, a possibilidade de sugestão de continuidade da pesquisa. Palavras-chave: concepção de interdisciplinaridade, pedagogia, prática interdisciplinar. 1. INTRODUÇÃO Partindo-se do pressuposto que a palavra interdisciplinaridade tem estado muito presente nas colocações orais ou escritas dos alunos e de professores dos diferentes níveis de atuação, lançaram-se questões a respeito das possíveis concepções de interdisciplinaridade bem como o desenvolvimento de práticas interdisciplinares no curso de Pedagogia das Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba. Emerge aí uma questão mais profunda: como a interdisciplinaridade aparece no desenvolvimento das disciplinas do curso de Pedagogia, bem como seus impedimentos e possibilidades de avanços? Na formação continuada dos professores percebe-se interesse, preocupação e empenho dos mesmos em buscar estratégias capazes de incentivar os alunos a adotar uma visão sistêmica, tanto da realidade quanto do conhecimento possibilitando um bem pensar (MORIN, 2013). No entanto, observa-se ainda a dificuldade no desenvolvimento da disciplina de forma interdisciplinar. 1

2 Por outro lado, nas turmas encontram-se alunos que já desenvolvem práticas interdisciplinares no estágio ou que as vivenciaram em seus espaços escolares anteriores ao Ensino Superior. Mas também há aqueles que demonstram dificuldade em abrir-se para algo diferente do ensino tradicional. Considerando o contexto atual pode-se afirmar que é urgente a instauração de práticas que superem o ensino tradicional. É preciso preparar o formador para que ele se forme continuamente. Como afirma Morin (2000), é necessária a reforma da educação e ela não acontece sem a reforma do pensamento. Ambas devem ser simultâneas. Dessa forma, o momento é propício, pois o curso encontra-se em fase de reestruturação curricular o que facilita a abertura ao questionamento, debate e estudos a respeito. Para o desenvolvimento da presente pesquisa foram consultadas obras de Fazenda (2012), Morin (2000) para definir e ajustar o discurso teórico a respeito do que se pode entender sobre interdisciplinaridade. Por meio da proposição de uma questão foram coletadas ideias, a respeito do que entendem por interdisciplinaridade, junto aos alunos de uma turma de quarto período do curso de Pedagogia das Faculdades Integradas Santa Cruz. Nesse mesmo propósito também coletadas ideias sobre as concepções dos professores do referido curso. Sendo este um estudo inicial não se tem a pretensão de desenvolver uma análise profunda, mas sim explorar o meio e assim iniciar um processo de reflexão sobre como tal processo pode ter avanços tanto para os alunos quanto para os professores. O artigo se desenvolverá apresentando as concepções de interdisciplinaridade para Fazenda, Morin e outros autores; a interdisciplinaridade no Projeto Politico Pedagógico no curso de Pedagogia das Faresc e, por fim, os resultados da coleta de dados a respeito das concepções dos alunos e professores. 2. AS CONCEPÇÕES DE INTERDISCIPLINARIDADE EM AUTORES CONTEMPORÂNEOS A interdisciplinaridade tem sido cogitada, falada, exaltada /execrada e por fim, aceita nos processos educacionais brasileiros desde o final da década de É importante destacar que se diz aceita, mas nem sempre desenvolvida e presente no cotidiano das salas de aula das escolas brasileiras. Fazenda, desde a década de 1970, em plena ditadura militar, interessa-se pelo estudo da interdisciplinaridade e a partir disso desenvolve estudos que se convertem em sua dissertação e depois tese de doutoramento. Fazenda (2012) deixa evidente a dificuldade de obter uma educação adequada às mudanças de contexto advindas com o desenrolar do século XX. De modo especial, destaca o desenvolvimento da ciência no que se refere à percepção de que o que se esperava demasiadamente ordeiro e certo, mostrou-se em desordem e incerto. Ou seja, fala-se aqui da percepção de que tudo funcionava de 2

3 forma sistêmica e que não seria mais possível admitir a ausência de relações de interdependência entre os diversos elementos formadores do ambiente e também da sociedade. Diz Fazenda (2012, p. 15): Parece-me que o grande dilema que vem se propondo desde o final da Segunda Grande Guerra teria, por assim dizer, o seguinte perfil simplificado: a ciência questionada em suas objetividades não encontra pátria nas atuais subjetividades. A verdade paradigmática da objetividade tem sido substituída pelo erro e pela transitoriedade da ciência. Essa provisoriedade da verdade e da ciência, por conseguinte, vai nos permitir anunciar a possibilidade de um real encontro entre ciência e existência. A autora faz questão de desenvolver seu pensamento sobre a dicotomia ciência/existência, entre outras, gerada pela forma fragmentada de ver o mundo oriunda do pensamento clássico da Modernidade. Mostra que o avanço da própria ciência fez aparecer espaços para tal questionamento. Para tanto, a mesma faz uma viagem aos primórdios da humanidade com destaque aos gregos, de modo especial Sócrates e sua sempre lembrada frase: Conhece-te a ti mesmo. A sua intenção é recordar que a totalidade já foi um dia o modo de ver a realidade e que a mesma foi perdida na medida em que o homem assumiu sua razão como detentora das verdades excluindo a alma, o corpo, a subjetividade natural do ser humano. Na continuidade, Fazenda aponta aspectos históricos da interdisciplinaridade no mundo e mostra que, no Brasil tal processo seguiu, basicamente, o seguinte trajeto: 1970 procurávamos uma definição de interdisciplinaridade; 1980 tentávamos explicitar um método para a interdisciplinaridade; 1990 estamos partindo para a construção de uma teoria da interdisciplinaridade. (FAZENDA, 2012, p. 18) Ou seja, há um processo de construção da compreensão da interdisciplinaridade que passa também pelas ações pedagógicas condizentes. No entanto, Fazenda chama a atenção para os insucessos ocorridos nesse processo, os quais se relacionam à inclusão da interdisciplinaridade na reforma educacional de 1970 sem a necessária reflexão sobre a mesma gerando problemas que dificultaram e estagnaram o processo: A alienação e o descompasso no trato das questões mais iniciais e primordiais da interdisciplinaridade provocaram não apenas o desinteresse, por parte dos educadores na época, em compreender a grandiosidade de uma proposta interdisciplinar, como contribuiu para o empobrecimento do conhecimento escolar. O barateamento das questões do conhecimento no projeto educacional brasileiro da década de 1970 conduziu a um esfacelamento da escola e das disciplinas. À pobreza teórica e conceitual agregaram-se outras tantas que somadas condenaram a educação a 20 anos de estagnação. (FAZENDA, 2012, p. 26) Ainda nesse sentido Fazenda mostra o que ocorreu na década de 1990 em relação à interdisciplinaridade na educação brasileira. Tal preocupação a autora manifesta quando diz: A contradição maior encontrei na proliferação indiscriminada das práticas intuitivas, pois os educadores perceberam que não é mais possível dissimular o fato de a interdisciplinaridade constituirse na exigência primordial da proposta atual de conhecimento e de educação. (...) O número de projetos educacionais que se intitulam interdisciplinares vem aumentando no Brasil, numa progressão geométrica, seja em instituições públicas ou privadas, em nível de escolas ou de sistema de ensino. Surgem da intuição ou da moda, sem lei, sem regras, sem intenções explicitas, apoiando-se numa literatura provisoriamente difundida. 3

4 Em nome da interdisciplinaridade abandonam-se e condenam-se as rotinas consagradas, criam-se slogans, apelidos, hipóteses de trabalho muitas vezes improvisados e impensados. (FAZENDA, 2012, pp ) E assim Fazenda relata a história da interdisciplinaridade no Brasil e vai discutir, nessa mesma obra, os aspectos relativos à concepção e à prática pedagógica nascente nesse processo. No entanto, o objetivo maior da presente pesquisa não está apenas na dimensão histórica, pois ela é de extrema necessidade quando se quer estudar tal processo no contexto atual: segunda década do século XXI, elevada tecnologia, mundo globalizado, sociedade da informação e a necessidade de uma educação que torne as pessoas capazes de pensar, compreender e agir na sociedade e em prol do coletivo e também do individual. Como se pode perceber, a interdisciplinaridade emerge em função das grandes mudanças tanto na ciência quanto na sociedade no decorrer do século XX. Tais mudanças exigiram um olhar além das certezas tanto sobre a ciência quanto à realidade como um todo. Considera-se então a possibilidade de trazer para a reflexão o Pensamento Complexo de Edgar Morin. A visão complexa de mundo (LE MOIGNE; MORIN, 2000) indica que é preciso identificar e compreender as relações existentes entre os diferentes elementos que compõem a realidade e assim trabalhar com a constante mudança do todo, pois as diferentes possibilidades de relações existentes entre seus elementos permitem que o todo esteja em constante mudança sendo por vezes mais e, por vezes, menos que a simples soma de suas partes. É o principio sistêmico ou organizacional. Associado a esse principio encontram-se outros seis que consistem no modo de pensar que se nega a reduzir a realidade a fragmentos, ou seja, o Pensamento Complexo (Morin, 1990). No momento não se julga desenvolver cada um dos princípios de inteligibilidade do pensamento Complexo, mas deixa-se para que ao surgir a necessidade, tais princípios possam vir a tona. Morin (2000) discute o Pensamento Complexo aprofundando as questões relativas à educação e então deixa evidente a necessidade de uma forma de organizar o pensamento e o conhecimento capaz de dar conta da realidade atual. E entre as sugestões de Morin para esse fim está a interdisciplinaridade. É verdade que o referido autor não a considera a única via para isso, mas deixa claro que a mesma é um dos meios necessários para um pensar muito mais amplo ainda, ou seja, a transdisciplinaridade. Diante da multiplicidade de formas de compreensão e da abertura para acolher essa diversidade, colocam-se a partir daqui algumas considerações sobre o modo de compreender a interdisciplinaridade a partir de autores diversos, sendo que os destaques para Morin e Fazenda se farão evidentes. Fazenda (2012) insiste em dizer que não há uma definição única de interdisciplinaridade ou então um conceito único. Ela opta por considerações resultantes de suas pesquisas a partir de Em primeiro 4

5 lugar entende a interdisciplinaridade como forma de enfrentar a dicotomia ciência/existência responsável pela fragmentação do conhecimento, a qual se percebe pela existência das disciplinas. Ou seja, a autora propõe e defende a ligação entre as disciplinas sem excluí-las. Percebe-se, então, um ponto comum com Morin (2000, p. 105) quando ele afirma que A disciplina é uma categoria organizadora dentro do conhecimento cientifico; ela institui a divisão e especialização do trabalho e responde à diversidade das áreas que as ciências abrangem (...) tende naturalmente à autonomia pela delimitação das fronteiras, da linguagem em que ela se constitui, das técnicas que é levada a elaborar e a utilizar e, eventualmente, pelas teorias que lhes são próprias. Sendo assim, é ponto pacífico que as disciplinas têm seu papel fundamental na construção do pensamento e do conhecimento acumulado pela humanidade no decorrer de sua história e, por isso, não devem ser banidas em nome de um novo modo de pensar. Ao contrário, elas fazem parte desse novo pensar e tem seu valor preservado, pois são organizativas e provedoras de conhecimentos importantes. No entanto, às disciplinas está associada a ideia de superação das dicotomias causadas pelo pensamento clássico. Nesse sentido, Morin ajuda a perceber que tal necessidade se manifesta dentro das próprias convulsões ocorridas no interior da Ciência. Morin (2000, p.107) reflete: (...) a história das ciências não se restringe à da constituição e proliferação das disciplinas, mas abrange, ao mesmo tempo, a das rupturas entre as fronteiras disciplinares, da invasão de um problema de uma disciplina por outra, de circulação de conceitos, de formação de disciplinas hibridas que acabam tornando-se autônomas; enfim, é também a história da formação de complexos, onde diferentes disciplinas vão ser agregadas e aglutinadas. Ou seja, se a história oficial da ciência é a da disciplinaridade, uma outra história, ligada e inseparável é a das inter-poli-transdisciplinaridade. Tanto Fazenda como Morin desenvolvem suas reflexões mostrando que aos poucos se percebeu a extrema necessidade de estabelecer conexões entre o que estava ordeiramente separado tanto na organização do conhecimento como na forma de pensar. E isso, diante do contexto que se desenhou nos últimos 60 anos, exige uma reflexão, opções e ações efetivas, de modo especial ao que se refere aos processos educativos. Fazenda destaca Hilton Japiassu como nome de grande importância no Brasil quando se fala de interdisciplinaridade. Assim, vale a pena recordar de que forma o referido autor expressa seu pensamento: a interdisciplinaridade se caracteriza pela intensidade das trocas entre especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas no interior de um projeto específico de pesquisa (JAPIASSU, 1976, p. 74). Buscando outros olhares sobre a interdisciplinaridade encontrou-se Nogueira (2007, p.127) afirmando que (...) a tônica é o trabalho de integração das diferentes áreas do conhecimento, um real trabalho der cooperação e troca, aberto ao diálogo e ao planejamento. As diferentes disciplinas não aparecem de forma fragmentada e compartimentada, pois a problemática em questão conduzirá à unificação. Ainda nessa busca encontra-se Etges (1993) apud Jantsch e Bianchetti (1995, p. 14) o qual diz que: 5

6 A interdisciplinaridade, enquanto principio mediador entre as diferentes disciplinas, não poderá jamais ser elemento de redução a um denominador comum, mas elemento teórico-metodológico da diferença e da criatividade. A interdisciplinaridade é o princípio da máxima exploração das potencialidades de cada ciência, da compreensão dos seus limites, mas acima de tudo, é o princípio da diversidade e da criatividade. Neste momento pode-se então reunir as ideias predominantes sobre a interdisciplinaridade no estudo até aqui desenvolvido. Interdisciplinaridade é uma necessidade para a compreensão da realidade atual e para o desenvolvimento do processo educativo coerente ao mundo que nos rodeia; não tem a finalidade de encontrar um denominador comum, mas sim de abrir possibilidades de desenvolver um pensamento capaz de ligar conhecimentos, de promover espaços de trocas cada vez mais intensos gerando integrações. A interdisciplinaridade propicia o trabalho conjunto e com isso promove a valorização da diversidade e provoca a emergência da criatividade, tantas vezes impedida pelas fronteiras inflexíveis das disciplinas rigidamente defendidas. As ideias acima proporcionaram escolher as palavras-chave com as quais se dirigiu a análise das respostas dadas pelos alunos e professores. No entanto, antes disso, se faz necessário deixar evidente a presença da interdisciplinaridade no conjunto de ideias que sustentam o Projeto Político Pedagógico do curso de Pedagogia na referida instituição. 3. O PROJETO PEDAGÓGICO DO CURSO DE PEDAGOGIA DAS FARESC 1 O Curso de Pedagogia das FARESC foi alvo de discussão e reformulação durante todo ano de Foi quando a matriz curricular foi reformulada e a disciplina de Projetos Interdisciplinares permaneceu como uma disciplina de conhecimentos específicos, ofertada no 4º período. Somente sua bibliografia é que foi atualizada mais recentemente. No 4º. Período do curso das FARESC é que se prevê a iniciação das disciplinas em que se alia mais intensamente o trato com os fundamentos do ensino teórico e metodológico das áreas de conhecimento, tais como Língua Portuguesa, Matemática, Educação Física e Literatura na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental. No 5º período há a continuidade com o enfoque em Ciências, História, Geografia e Artes. Ou seja, o trabalho com a disciplina de Projetos Interdisciplinares se constitui de fundamental importância para a consolidação da intencionalidade de se abordar, de se estudar, de se pesquisar a Interdisciplinaridade e de, ao mesmo tempo, de se elaborar Projetos Interdisciplinares exequíveis num Curso 1 Sigla das Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba. 6

7 de Licenciatura voltado para a formação de futuros profissionais da educação. Até porque é orientação do MEC, em seu artigo 3º. da Resolução que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação de Pedagogia 2 que, O estudante de Pedagogia trabalhará com um repertório de informações e habilidades composto por pluralidade de conhecimentos teóricos e práticos, cuja consolidação será proporcionada no exercício da profissão, fundamentando-se em princípios de interdisciplinaridade, contextualização, democratização, pertinência e relevância social, ética e sensibilidade afetiva e estética. Entende-se que esse trabalho com os alunos não ocorre por assimilação de discursos, e sim, por iniciativas intencionais de proporcionar vivências, experiências que possam ser colocadas em prática durante o curso e/ou que possam ser colocadas em prática quando os alunos estiverem efetivamente trabalhando em espaços escolares ou não escolares, mas em ações pedagógicas que, na realidade começam no período seguinte através das disciplinas de práticas pedagógicas e estágio supervisionado. Do 5º ao 7º período do curso os alunos obrigatoriamente desenvolvem práticas pedagógicas e as apresentam no fechamento desses períodos. Cada semestre o professor responsável por essa disciplina faz uma parceria com um professor de uma das disciplinas de metodologia do semestre para que haja intencionalmente um projeto que culmine com o planejamento e apresentação de uma prática pedagógica exequível e real. Daí que a disciplina de Projetos Interdisciplinares oportuniza a discussão saudável com os alunos para além da teoria sobre as possibilidades do rompimento com as fronteiras da disciplinarização. Os alunos são levados a relacionar estreitamente teoria e prática elaborando projetos nessa direção. Esse trabalho já os predispõe para que nos semestres subsequentes os alunos não vislumbrem as disciplinas de metodologia circunscritamente. É com essa intenção que no projeto Político Pedagógico do Curso das FARESC, traz como um dos princípios básicos de compromisso da Visão e Missão do curso, que: Em sentido contrário ao da massificação da sociedade contemporânea, a demanda específica da região é, além de formar prioritariamente professores e gestores educacionais, formar pedagogos com um perfil diferenciado, possibilitando novas trajetórias profissionais e valorizando o seu papel de educador frente às novas exigências da sociedade atual. Assim, faz-se imprescindível que os estudantes do curso de Pedagogia debatam e compreendam os conceitos e aspectos que rompam com a ideia da disciplinarização curricular clássica. A COLETA DE DADOS E SEUS RESULTADOS 2 Resolução CNE/CP 1/2006. Diário Oficial da União, Brasília, 16 de maio de 2006, Seção 1, p

8 Por meio da proposição de uma questão foram coletadas ideias, a respeito do que entendem por interdisciplinaridade, junto aos alunos de uma turma de quarto período do curso de Pedagogia das Faculdades Integradas Santa Cruz. Nesse mesmo propósito também coletadas ideias sobre as concepções dos professores do referido curso. A. ALUNOS DO PED 4SA A coleta de dados com os alunos do quarto período do Curso de Pedagogia se deu pela solicitação do preenchimento, de modo espontâneo, de uma filipeta contendo a questão: Escreva o que entende por interdisciplinaridade. A turma é composta de 50 alunos e no dia em que a coleta foi feita estavam presentes 38 alunos e todos se dispuseram a responder a questão. Tal evento ocorreu no dia 31 de julho de 2013, tempo em que a disciplina estava em suas primeiras aulas, visto que as aulas iniciaram na terceira semana de julho. A intenção foi mesmo detectar o que essa palavra, tão em moda, desperta nos acadêmicos, sem ainda ter desenvolvido os estudos da disciplina, e a partir disso reunir elementos para que a disciplina possa se tornar mais significativa e assim contribuir para a formação de pedagogos mais atuantes. Para a primeira análise, visto que esse é um estudo inicial, foram escolhidas palavras que se repetiram nas diferentes respostas, as quais serviram para organizar as respostas e assim desenhar um possível mapa das ideias despertadas e expostas ao pensar a respeito da interdisciplinaridade. Em um primeiro grupo de 9 respostas, talvez por ser início da disciplina, a interdisciplinaridade foi confundida com proposta pedagógica; com disciplina que ajude a compreender as outras; disciplina que engloba as demais; ou ainda, para ter mais conhecimento. Para um grupo de duas respostas, a interdisciplinaridade está associada ao trabalho conjunto entre disciplinas e assim trabalhar um assunto em diferentes disciplinas. Muito próximo disso uma resposta indica com clareza a ideia de relação entre as disciplinas destacando que essa relação é de dependência de forma que as disciplinas não avançam se não tiverem as demais. Uma outra resposta apresenta a interdisciplinaridade como forma de trabalho com a característica de envolver diferentes temas em uma atividade de forma globalizadora. contextos. Um grupo de 3 respostas usou como palavra envolvimento seja de disciplinas, conhecimentos ou Para um grupo de 3 respostas a ideia fundamental é interligação expressando a necessidade de aproximação de assuntos, exemplos, evitando o monopólio de uma das disciplinas. Um grupo de 5 respostas teve como palavra forte a ligação, a qual pode se dar entre disciplinas, áreas do conhecimento e de modo especiais duas respostas trazem a ideia de que isso deve ocorrer para evitar a fragmentação. 8

9 Para um grupo de 6 respostas a palavra principal foi integração sendo que, como exemplos espontâneos apareceram: trabalho conjunto entre disciplinas; extração do que é comum entre as disciplinas; integrar conteúdos e currículos para reconstruir o conhecimento; conversa entre disciplinas; relação entre as disciplinas; trocas de conhecimentos não só na escola, mas na sociedade para que ocorram melhorias na mesma. Por fim num grupo de 4 respostas as palavras foram rede, emaranhado ( com relação de dependência), meio que liga, visão sistêmica, olhar critico sobre a realidade. Desse grupo vale destacar uma resposta a qual transcreve-se a seguir: Interdisciplinaridade é a ligação que podemos fazer entre as disciplinas de forma que os conteúdos se completem com nexo. É uma maneira de enxergar e compreender essas conexões, não isolar as disciplinas tratando-as em sua especificidade e por isso ensinando em forma de gavetas. Pode-se dizer que mesmo não tendo desenvolvido estudos específicos sobre a interdisciplinaridade os alunos demonstram que a palavra integração representa a ideia mais importante com relação à interdisciplinaridade. B. ALUNOS DO PED 2SA Os alunos do segundo período estão em fase de consolidação dos conceitos básicos necessários à formação do pedagogo. A disciplina observada é a de Paradigmas Educacionais que visa mostrar as mudanças na forma de abordar os processos educacionais por meio dos diferentes paradigmas que surgiram na história da humanidade e da educação. Tal disciplina tem muitas ligações com outras lecionadas no mesmo período, a saber: História da Educação, Didática e Filsosofia da Educação. O que foi muito interessante observar é que muitas vezes comentam: parece que estamos nas aulas de Didática ou mas isso a professora X está discutindo na disciplina de História da Educação, ou ainda: o professor Y estava falando desse teórico na aula de Filosofia. Um aspecto interessante é nessa disciplina é feita em comum, com a disciplina de Didática, a leitura do livro: Ensino: as abordagens do processo de Maria da Graça Mizukami. Tal leitura ocorre no primeiro bimestre e seus resultados vão sendo usados tanto no primeiro bimestre quanto no segundo. No entanto, de maneira informal, são lançadas questões para serem discutidas as quais são encaminhadas de tal forma que as concepções que os alunos trazem possam ser percebidas. E em vários momentos, a palavra interdisciplinaridade é mencionada. Sempre que isso ocorre, é lançada nova pergunta sobre o que se entende por interdisciplinaridade. De maneira bem informal, percebe-se que a ideia forte relaciona-se a uma forma 9

10 de trabalhar em que tudo se liga a tudo, mas nota-se também que ainda não possuem uma concepção clara e a maioria repete a palavra sem a compreender. C. PROFESSORES DO CURSO DE PEDAGOGIA O curso de Pedagogia conta com 26 professores, dos quais 13 receberam a solicitação para responder as questões propostas. O número de respostas ficou em 10. As respostas trouxeram pontos comuns e também divergentes, o que já se esperava, pois como Fazenda alerta, não há e nem poderia haver uma concepção única de interdisciplinaridade, conforme já mencionado na página 5 deste artigo. As respostas serão apresentadas por grupos de ideias expressos por palavras que se aproximem às palavras selecionadas a partir tanto da revisão teórica quanto das respostas dadas pelos alunos e pelos professores. A primeira questão se referiu a o que entende por interdisciplinaridade? A ideia de comunicação aparece explicitamente em três respostas. As palavras ligação (um deles usou a expressão lincar), diálogo e troca (sendo uma delas com o uso da palavra intercâmbio) entre disciplinas aparecem em 3 das respostas. Nas dez respostas apareceram ou a palavra ou a ideia de união de disciplinas sendo que em uma delas fica clara a oposição à fragmentação do conhecimento, ou seja, reconhecem que há necessidade de interligar (aparece em duas respostas) o que estava separado. É importante observar que em 4 respostas também aparecem de forma clara a intencionalidade de favorecer a formação de postura critica e reflexiva com uma visão da realidade em forma de teia capaz de abrir o mundo ao aluno. Na pergunta você considerada a interdisciplinaridade incluída em suas aulas? 8 respostas foram sim e sugeriram situações em que isso pode ser percebido. São atitudes como ligar as falas dos autores, desenvolver leitura conjunta de um livro em duas disciplinas, usar filmes e textos relacionando com outras disciplinas, buscar conceitos de outras áreas que ajudem a compreender o conteúdo trabalhado na sua disciplina. Dois professores responderam que não usam a interdisciplinaridade. Neste caso foi solicitado que dessem uma justificativa, as quais passaram pela falta de planejamento junto aos colegas do curso sugerindo maior tempo dedicado a isso, ou ainda, que o sistema deveria fazer essa opção e não o professor. De diferentes formas, os professores aproximam-se das ideias defendidas pelos autores acima expostos, pois demonstram acreditar a ideia de união, de troca, de interligação, diálogo entre disciplinas e com a finalidade de construir conhecimento e um pensar reflexivo, despertando a colaboração. É importante destacar que todos acreditam na não fragmentação do conhecimento e isso é principio básico para viver a interdisciplinaridade. No entanto, deve-se considerar que em nenhum dos casos se percebeu a interdisciplinaridade como modo de organizar o conhecimento. 10

11 Comparando os resultados das falas dos alunos e dos professores percebe-se que ligar, interligar, unir, estabelecer colaboração são as expressões mais usadas e refletem o resultado da ação dos professores em sala. Destaque-se que o Projeto Político Pedagógico do curso tem base interdisciplinar e os resultados mostram que a mesma está presente no cotidiano das salas de aula, mesmo que de forma ainda simples, elementar. CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente pesquisa, como diz o titulo trata-se de um estudo inicial, então, se fez interessante para que se possa traçar um novo caminho tanto de pesquisa quanto de encaminhamento das atividades de formação dos professores. O momento se fez muito oportuno, visto que o curso passa pela reformulação de sua matriz curricular. Diante dos resultados das pesquisas, tanto na teoria quanto na realidade estudada, pode-se afirmar que há uma aproximação entre as concepções a respeito de interdisciplinaridade e os discursos dos diferentes teóricos. Isso mostra que o Projeto Político Pedagógico do curso é vivido por seus professores e alunos. No entanto, é visível certa timidez em relação às atividades interdisciplinares, no que se refere ao trabalho conjunto entre as disciplinas. A grande vantagem é que os professores trazem em sua formação não só uma concepção suficiente para um trabalho interdisciplinar, mas também a disposição de lançar-se a ele. Se assim não fosse, as falas dos alunos não estariam próximas do esperado. Assim sugere-se que a presente pesquisa tenha continuidade, de modo especial junto aos professores, buscando entender as dificuldades mais encontradas por eles e a partir disso propor o desafio de interdisciplinarizar com interações mais intensas, como indica Japiassu, a ação pedagógica em cada período do curso. Entende-se que tal sugestão se faz pertinente visto que a matriz curricular se encontra em momento de reformulação. Período em que os estudos e discussões atinentes a essa reformulação, pode contribuir para a continuidade de refletir junto ao corpo docente uma concepção de educação mais aberta, reflexiva; que coadune com a realidade complexa e plural da contemporaneidade. REFERENCIAS FAZENDA, I. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. São Paulo: Papirus, JANTSCH, Ari P.; BIANCHETTI, Lucidio (orgs). Interdisciplinaridade: para além da filosofia do sujeito. 5ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,

12 . Introdução ao Pensamento Complexo. 2ª ed. Lisboa: Instituto Piaget, MORIN, Edgar; LE MOIGNE, Jean L. A inteligência da complexidade. 2ª ed. Tradução: NUrimar Maria Falci. São Paulo: Peirópolis, NOGUEIRA, Nilbo R. Pedagogia dos Projetos: uma jornada interdisciplinar rumo ao desenvolvimento das inteligências múltiplas. 7ª ed. São Paulo: Erica, PROJETO PEDAGÓGICO DO CURSO DE PEDAGOGIA DAS FARESC. Documento revisado, 2009, Curitiba, PR. 12

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