Estudo sobre a Empresa Social como uma ferramenta para se alcançar a prosperidade duradoura. Por. Carlos Eduardo de Faria Ronca

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1 Estudo sobre a Empresa Social como uma ferramenta para se alcançar a prosperidade duradoura Por Carlos Eduardo de Faria Ronca Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso MBA em Gestão de Sustentabilidade Pós-Graduação lato sensu, Nível de Especialização Programa FGV Management Abril / 2010

2 Estudo sobre a Empresa Social como uma ferramenta para se alcançar a prosperidade duradoura Por Carlos Eduardo de Faria Ronca Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso MBA em Gestão de Sustentabilidade Pós-Graduação lato sensu, Nível de Especialização Programa FGV Management Abril / 2010

3 FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS PROGRAMA FGV MANAGEMENT CURSO GESTÃO DE SUSTENTABILIDADE Trabalho de Conclusão de Curso Estudo sobre a Empresa Social como uma ferramenta para se alcançar a prosperidade duradoura elaborado por Carlos Eduardo de Faria Ronca e aprovado pela Coordenação Acadêmica do curso de Gestão de Sustentabilidade, foi aceito como requisito parcial para a obtenção do certificado do curso de pósgraduação, nível de especialização, do Programa FGV Management. Data: Mario Prestes Monzoni Neto

4 RESUMO Este trabalho apresenta um estudo sobre como o desenvolvimento das Empresas Sociais pode contribuir na transição para uma sociedade próspera e duradoura. A Empresa Social pode ser definida como modelo de negócio empresarial economicamente rentável, no qual se busca soluções de mercado para gerar transformação socioambiental positiva. O objetivo é analisar como esse modelo inovador, ao propor a substituição do princípio da maximização dos lucros pelo princípio da maximização do benefício socioambiental, poderá auxiliar na ruptura com a dependência pelo crescimento econômico reinante nas economias mundiais, sujeição que ameaça a sustentabilidade de nossa existência nesse planeta. O trabalho revela que o desenvolvimento, mesmo no meio acadêmico, ainda é visto como sinônimo de crescimento econômico e que a finitude de recursos, entre outros fatores, impõe uma restrição física ao contínuo crescimento econômico das civilizações. Fato este que nos convida a pensar alternativas para a estabilidade econômica que não seja fundada em seu constante crescimento. PALAVRAS-CHAVE: empresa social, negócio social, sustentabilidade, desenvolvimento sustentável, prosperidade, crescimento econômico, macrotransição, maximização benefício socioambiental, responsabilidade social empresarial, entidades sem fins lucrativos.

5 SUMÁRIO Introdução Analisando o desenvolvimento O que é desenvolvimento? Desenvolvimento como liberdade (o caminho do meio ) Crescimento Econômico x Desenvolvimento Sustentável Análise do contexto social e da Macrotransição proposta por Ervin László A Empresa Social Tipos de Empresa Social e distribuição de lucro Empresa Social e empreendedorismo social Empresa Social, responsabilidade social empresarial e entidades sem fins lucrativos O Papel do Governo Oportunidades para empresas sociais Desafios para empresas sociais O que já vem sendo feito...38 Conclusão...44 Referências bibliográficas...47 Bibliografia Consultada...49

6 Dedico este trabalho a Muhammad Yunus que tanto me inspirou com suas palavras e ações conseguindo colocar no papel e na prática o que muitos ainda encaram como utopia.

7 A riqueza evidentemente não é o bem que estamos buscando, sendo ela meramente útil e em proveito de alguma outra coisa. Aristósteles

8 Introdução O modelo capitalista vigente desenvolveu nos últimos dois séculos uma cultura dependente do crescimento econômico constante para manter a estabilidade do sistema, sendo tal crescimento considerado por muitos como indispensável à prosperidade. Ocorre que renomados estudiosos do desenvolvimento, em voz crescente, vêm alertando que os limites do planeta, quais sejam, finitude dos recursos naturais e capacidade de regeneração dos ecossistemas, somados ao crescimento da população global e dos níveis de consumo, bem como das consequências das mudanças climáticas, em breve, irão impor sérias restrições ao crescimento econômico. Além disso, apontam que tal modelo não se tem mostrado capaz de trazer prosperidade em escala planetária defendendo que o desenvolvimento de forma consistente e duradoura transcende em muito a simples busca por crescimento econômico. Diante dessas contestações, o presente trabalho, apoiando-se nas lições aprendidas ao longo do Curso, pretende, de início, contrapor desenvolvimento (sustentável) e crescimento econômico, delineando seus conceitos, alcances, diferenças e apresentando visões distintas sobre cada um. Outro escopo será desenvolver a ideia de que a dependência do crescimento econômico inegável característica do capitalismo moderno guarda substancial relação com o princípio da maximização dos lucros, que pode ser considerado a força motriz das empresas convencionais. Diante disso, analisaremos como a Empresa Social, ao propor a substituição do princípio da maximização dos lucros pelo princípio da maximização do benefício socioambiental, poderá auxiliar na ruptura com a dependência pelo crescimento econômico que ameaça a sustentabilidade de nossa existência nesse planeta, e consequentemente avançar na busca por uma sociedade mais próspera.

9 Para tanto, o presente trabalho pretende analisar as principais características, oportunidades, tipos e potencial de gerar benefícios que possuem as Empresas Sociais, além de confrontá-las aos benefícios socioambientais gerados pela adoção da chamada responsabilidade social empresarial e das iniciativas de entidades sem fins lucrativos.

10 1. Analisando o desenvolvimento O presente trabalho parte da premissa de que o ponto crucial para a persecução de um desenvolvimento real reside na necessidade de se questionar a dependência da sociedade moderna ao crescimento econômico como única via para se alcançar à prosperidade duradoura e, nessa esteira, questionar o que há de fantasioso no pensamento hoje dominante de que sem o crescimento econômico nossa capacidade de prosperar diminui substancialmente (JACKSON, 2009). Nos últimos cinquenta anos a busca do crescimento econômico tem se mostrado uma obsessão quase uníssona no mundo. Líderes de quase todas as nações, tanto do setor público quanto do setor privado, não são capazes de dissociar desenvolvimento de crescimento econômico. Diante disso, é fundamental para o presente estudo distinguirmos estes dois conceitos, muitas vezes confundidos e até mesmo tratados como de igual significado. A confusão gerada entre os referidos conceitos decorre, em certa monta, de análise rasa acerca do desenvolvimento das nações industrializadas em comparação às nações periféricas. Isto porque, até o início da década de 1960, as nações desenvolvidas eram aquelas que apresentavam intenso crescimento econômico. Por outro lado, os países considerados subdesenvolvidos eram aqueles que apresentavam processo de industrialização embrionário, com baixo crescimento econômico. Ocorre que o intenso crescimento econômico vivenciado por algumas nações semiindustrializadas a partir da década de 1950 não significou, necessariamente, um maior acesso da população carente a bens e serviços essenciais, como foi vivenciado nos países desenvolvidos. Esta constatação deu início a um intenso debate sobre o real significado do substantivo desenvolvimento. (VEIGA, 2008).

11 1.1. O que é desenvolvimento? Para José Eli da Veiga, o vocábulo desenvolvimento comporta três diferentes teses. A primeira tese trata desenvolvimento e crescimento econômico como simples sinônimos e seguidores dessa linha, de modo simplista, medem o nível de desenvolvimento apenas por indicadores de renda per capita. A segunda tese, de certa forma oposta à primeira, encara o desenvolvimento como uma ilusão, crença, mito ou armadilha ideológica. Os pensadores mais articulados e persuasivos dessa cética corrente não cometem o simplismo de utilizar o Produto Nacional Bruto - PNB ou Produto Interno Bruto - PIB per capita para medir desenvolvimento. Em linhas gerais, os autores tentam desconstruir a ideia de desenvolvimento aludindo que a grande maioria dos países ditos em desenvolvimento sofre de inviabilidade econômica, decorrente, principalmente, de dois fatores: (i) a carência de produção científico-tecnológica; e (ii) a explosão demográfica urbana. Isso porque, conforme esclarece José Eli da Veiga: as minguadas receitas que poderão ser geradas no futuro pelos preços instáveis e pouco rentáveis de minerais, metais, produtos agrícolas, madeiras, têxteis e outros produtos pouco intensivos em tecnologia não poderão assegurar recursos suficientes para a criação de empregos e para a satisfação das necessidades de populações que crescem demais nas cidades subdesenvolvidas. (VEIGA, 2008, p. 24). Assim, segundo essa tese, o desenvolvimento seria uma armadilha ideológica construída para perpetuar as relações assimétricas entre as minorias dominadoras e as maiorias dominadas, dentro de cada país e entre os países. Apoiando-se na impossibilidade de crescimento indefinido do produto material, dado o caráter finito do nosso planeta, buscam avançar para um estágio de pós-desenvolvimento, sem explicar claramente como será feito este avanço (SACHS, 2008).

12 Cabe aqui um parêntese: essa visão faz mais sentido se voltarmos nossa análise para antes de 1970, quando os países em desenvolvimento apresentavam, de modo geral, as mesmas características: altos índices de pobreza, sérios problemas de infraestrutura, graves crises econômicas, elevado crescimento demográfico, sistema precário de saúde e de educação e carência de produção científico-tecnológica. No entanto, nas últimas décadas, esse quadro tem se alterado significativamente e muitos países a época considerados em desenvolvimento não podem mais ser representados de forma generalizada pelas características descritas. Nessa esteira, por mais engenhosos que sejam os argumentos dessa visão, seus autores não conseguem propor uma alternativa ao desejo coletivo de evolução e progresso, intrínseco ao ser humano e nem confrontar o fato de que diversos países em desenvolvimento vem conseguindo com êxito contornar a carência de produção científico-tecnológica e/ou controlar a explosão demográfica urbana, limitando-se a considerar o desenvolvimento dos países periféricos como inexequível. Retomando o pensamento dos adeptos da primeira tese, importante mencionar a posição dos teóricos da economia de mercado, os quais sustentam que o desenvolvimento resultaria naturalmente do crescimento econômico graças ao efeito gotejamento (trickle-down-effect) 1. No entanto, mesmo se funcionasse na prática, esta teoria seria inconcebível sob o ponto de vista ético, como alertou o próprio José Eli da Veiga: Num mundo de terríveis desigualdades, é um absurdo pretender que os ricos precisem se tornar ainda mais ricos para permitir que os necessitados se tornem um pouco menos necessitados. (VEIGA, 2008, p. 80). 1 Suposto efeito decorrente da realização de investimentos pela população de alta renda na infra-estrutura dos negócios e nos mercados de capitais, que resultaria em maior disponibilidade de mercadorias a preços mais baixos e em maior oferta de empregos para a base da pirâmide econômica. Segundo essa teoria, o crescimento econômico ocorre de cima para baixo, beneficiando indiretamente aqueles que não se favorecem diretamente das políticas econômicas. A partir dessa constatação é comum considerar a questão da distribuição de renda como o principal entrave ao desenvolvimento. Todavia, a comparação entre índices de desenvolvimento humano de certos países demonstra que o papel da concentração de renda ainda que seja de suma importância deve ser integrado a um quadro mais amplo e completo de prosperidade e

13 carência. Isto é, a pobreza deve ser considerada como uma privação de capacidades básicas e de direitos fundamentais, e não apenas como insuficiência de renda. China e Índia: Para ilustrar esse conceito ampliativo do termo pobreza, vejamos uma comparação entre Em 1997, os 10% mais pobres da China recebiam apenas 2,2% da renda, enquanto na Índia sua parte era dois terços maior: 3,7%. No extremo oposto, na China, os 10% mais ricos recebiam 30,9$ da renda, enquanto na Índia só lhes cabia 28,4%. Ou seja haveria mais eqüidade na Índia do que na China se avaliada pela distribuição de renda. Todavia, quase metade da população adulta da Índia continuava analfabeta, enquanto na China não chegava a um quinto. Pior, entre as mulheres o analfabetismo atingia 62% na Índia e 27% na China. É claro que a Índia tinha muito mais habitantes com educação superior, mas isso só realçava a maior desigualdade de oportunidades educacionais na Índia quando comparada à Índia. O contraste entre os dois países era mais evidente na área de saúde. Sofriam de subnutrição 63% das crianças indianas de menos de 5 anos, contra 17% das chinesas. E a taxa de mortalidade infantil era exatamente o dobro na Índia: 68 mil contra 34 na China. (VEIGA, 2008, p ) Nessa esteira, a busca do desenvolvimento restrita ao crescimento econômico representa uma perigosa distorção do bem comum e a preocupação exclusiva com a distribuição equitativa de renda significa uma redução simplista dos valores humanos fundamentais. Diante disso, José Eli da Veiga apresenta uma terceira tese acerca do que é desenvolvimento, a qual considera ser o caminho do meio entre as respostas que assimilam o desenvolvimento ao crescimento ou à ilusão Desenvolvimento como liberdade (o caminho do meio ) O caminho do meio é construído por José Eli da Veiga apoiando-se, principalmente, em lições de Celso Furtado, Amartya Sen e Ignacy Sachs e pode ser sintetizado nas palavras de

14 Amartya Sen, para quem o desenvolvimento deve ser reconhecido como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam. (SEN, 2000, p. 17) Isso porque, argumenta o autor: a ausência de liberdades substantivas relaciona-se diretamente com a pobreza econômica, que rouba das pessoas a liberdade de saciar a fome, de obter uma nutrição satisfatória ou remédios para doenças tratáveis, a oportunidade de vestir-se ou morar de modo apropriado, de ter acesso a água tratada ou saneamento básico. Em outros casos, a privação de liberdade vincula-se estritamente à carência de serviços públicos e assistência social, como por exemplo a ausência de programas epidemiológicos, de um sistema bem planejado de assistência médica e educação ou de instituições eficazes para a manutenção da paz e da ordem locais. Em outros casos, a violação da liberdade resulta diretamente de uma negação de liberdades políticas e civis por regimes autoritários e de restrições impostas à liberdade de participar da vida social, política e econômica da comunidade. (SEN, 2000, p. 18) Note-se, portanto, que para essa corrente de pensadores, o objetivo básico do desenvolvimento é ampliar as liberdades humanas, removendo as principais fontes de privação do livre arbítrio, entre as quais se destacam: (i) a carência econômica; (ii) a intolerância ou interferência de Estados repressivos; (iii) a negligência dos serviços públicos; e (iv) a destituição do exercício da cidadania e do direito de participação na vida em sociedade. José Eli da Veiga, citando Amartya Sen e Mahbud ul Haq, expõe que: só há desenvolvimento quando os benefícios do crescimento servem à ampliação das capacidades humanas, entendidas como o conjunto das coisas que as pessoas podem ser, ou fazer, na vida. E são quatro as mais elementares: ter uma vida longa e saudável, ser instruído, ter acesso aos recursos necessários a um nível de vida digno e ser capaz de participar da vida em comunidade. Na ausência destas quatro, estarão indisponíveis todas as outras possíveis escolhas. (VEIGA, 2008, p. 85) Para se ampliar as capacidades humanas de forma consistente, a liberdade individual deve ser concebida com obrigações e responsabilidade perante os demais, sempre considerando: (i) a

15 finitude dos recursos naturais (combustíveis fósseis, recursos minerais, florestais e marinhos, água, terras cultiváveis, etc.); bem como, (ii) a capacidade de regeneração dos ecossistemas. Os limites naturais impostos ao exercício das liberdades individuais demandam ainda maior atenção quando consideramos a extensão da população global que cresce a cada dia. Assim, a capacidades humanas são limitadas, de um lado pelo tamanho da população global e, do outro, pelos limites ecológicos. Desse modo, o pleno desenvolvimento, compreendido em seu sentido mais amplo, depende da expansão das liberdades substantivas de cada indivíduo e da coletividade, sem prejudicar a capacidade de arbítrio das futuras gerações Crescimento Econômico x Desenvolvimento Sustentável O próprio Dicionário da Língua Portuguesa fornece elementos que diferenciam crescer de desenvolver. Crescer significa multiplicação ou aumento em dimensão, volume, quantidade ou intensidade. Enquanto desenvolver é ação ou efeito de desenvolver-se, [...] progresso, adiantamento (HOUAISS, 2001). Assim, em síntese, podemos considerar o crescimento como uma mudança quantitativa positiva, por sua vez, o desenvolvimento envolve uma mudança qualitativa. Nessa esteira, o economista Herman E. Daly sustenta que em suas dimensões físicas, a economia é um subsistema aberto do ecossistema terrestre, o qual é finito não-crescente e materialmente fechado. À medida que o subsistema econômico cresce, ele incorpora uma proporção cada vez maior do ecossistema total e deve alcançar um limite a 100%, se não antes. Diante disso conclui o autor que é impossível sair da pobreza e da degradação ambiental por meio do crescimento econômico mundial. Em outras palavras, crescimento sustentável é impossível. (DALY, 2004, p. 197) O próprio Herman E. Daly reconhece que politicamente é muito difícil admitir que o crescimento deva ser limitado, porquanto tenhamos desenvolvido nos últimos dois séculos uma

16 cultura dependente do crescimento exponencial para a sua estabilidade econômica. E questiona: se a economia não pode crescer para sempre, então quanto ela pode crescer? Ela pode crescer o suficiente para dar a todos um padrão de uso dos recursos per capita igual ao da média norteamericana? (DALY, 2004, p. 198) Considerando que se o padrão norte-americano fosse replicado para toda a população terrestre seria necessário recursos naturais equivalentes a vários planetas Terras, a resposta parece óbvia. Assim, a pergunta a ser feita é em que medida é possível aumentar as liberdades das pessoas sem que antes alcancemos o esgotamento planetário? Como vimos, na opinião de muitos, desenvolvimento tornou-se sinônimo de aumento de riqueza. Argumentam que precisamos ter crescimento econômico para sermos ricos o bastante para arcar com os custos de diminuir a pobreza, além de possibilitar que limpemos e aperfeiçoemos a produção de bens e serviços. Contudo, Amartya Sen alerta que a utilidade da riqueza reside nas coisas que ela nos permite fazer as liberdades substantivas que ela nos facilita obter. Mas essa relação não é exclusiva (uma vez que existem outros fatores que influenciam a nossa vida, além da riqueza) nem uniforme (pois o impacto da riqueza em nossa vida varia conforme outras influências). Assim, é tão importante reconhecer o papel fundamental da riqueza na determinação de nossa qualidade de vida quanto entender a natureza restrita e dependente dessa relação. Portanto, para o autor, uma concepção adequada de desenvolvimento deve ir muito além da acumulação de riqueza e do crescimento do Produto Nacional Bruto, entre outras variáveis relacionadas à renda (SEN, 2000). Com isso, Amartya Sen nos convida a enxergar muito além do crescimento econômico: é sem dúvida inadequado adotar como nosso objetivo básico apenas a maximização da renda ou da riqueza, que é, como observou Aristóteles meramente útil e em proveito de alguma outra coisa. (SEN, 2000, p. 29)

17 Nessa esteira, o relatório Prosperity without Growth, redigido por Tim Jackson, com muita propriedade faz uma análise crítica entre prosperidade e crescimento, lançando a crucial pergunta: é possível adquirir prosperidade sem crescimento? Tim Jackson demonstra que, no atual sistema econômico, o crescimento se mostra como condição indispensável à prosperidade duradoura, um mecanismo que impede o colapso. Isto porque, à medida que a economia se expande suficientemente rápido para compensar a oferta de mão-de-obra, o sistema funciona bem. Porém, se a economia não cresce, instaura-se o ciclo vicioso da recessão: menos dinheiro na economia, menos consumo, a produção cai, aumenta o desemprego, os gastos públicos são cortados e a capacidade de cobrir a dívida pública é reduzida, formando-se esse pernicioso ciclo em que um fenômeno desencadeia o outro e que depende do crescimento econômico para ser revertido. Diante disso, uma nova macroeconomia para a sustentabilidade deve romper com a necessidade de crescimento do consumo material como forma de estabilizar a economia. Deverá ser fundada no uso racional e consciente dos recursos naturais e socialmente inclusiva, aproximando-se, de forma efetiva e profunda, o fator financeiro do socioambiental. Nesse contexto, surge a Empresa Social, um inovador modelo de empreendedorismo social, representando uma forma diferente de exercer o negócio empresarial, capaz de integrar fatores sociais e ambientais ao coração da atividade econômica, segundo um novo conjunto de valores, amplamente compatíveis com o conceito de desenvolvimento abaixo pincelado e resumido com maestria por Celso Furtado: o crescimento econômico, tal qual o conhecemos, vem se fundando na preservação de privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização; já o desenvolvimento se caracteriza pelo seu projeto social subjacente. Dispor de recursos para investir está longe de ser condição suficiente para preparar um futuro melhor para a massa da população. Mas quando o projeto social prioriza a efetiva melhoria das condições de vida dessa população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento (FURTADO, 2000, p. 484).

18 1.4. Análise do contexto social e da Macrotransição proposta por Ervin László O crescimento econômico, principal e mais promissor mecanismo de desenvolvimento nos séculos XIX e XX, está criando a escalada do desemprego, a crescente defasagem nos níveis de renda, as disputas comerciais e a degradação ambiental. [...] A sociedade industrial não poderá fazer a transição para a era global com o predomínio dos valores e da visão que deram origem às tecnologias que agora a estão desestabilizando. Como disse Einstein, não se pode resolver um problema usando o mesmo tipo de raciocínio que causou esse problema. Só aprenderemos a dominar a macrotransição para um mundo global com um novo pensamento: novos valores e nova visão, uma consciência social mais evoluída. Esse é precisamente o desafio que temos diante de nós. O desafio primeiro e principal, não da contínua inovação tecnológica, mas da criatividade cultural oportuna e profunda. (LÁSZLÓ, 2001, p ) Apresentada a Empresa Social, antes de adentrarmos em seu estudo detalhado, faz-se importante traçarmos o panorama social em que este tipo de empreendedorismo social surge. Como vimos, o crescimento econômico não se tem mostrado capaz de trazer prosperidade em escala planetária. No último quarto de século a economia dobrou de tamanho; no entanto, a renda gerada a partir desse modelo vem sendo distribuída de forma absolutamente desigual. De acordo com Muhammad Yunus: 94% da renda mundial vai para 40% da população, ao passo que os outros 60% têm de viver somente com 6% da mesma renda. Assim, metade da população mundial vive com cerca de dois dólares por dia, enquanto quase um bilhão de pessoas vivem com menos de um dólar por dia. (YUNUS, 2008, p. 19). E esta constatação não é uma realidade apenas para os países periféricos; a disparidade, mesmo em países ditos desenvolvidos, em geral, não tem diminuído. Em diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento, as taxas médias de crescimento de renda per capita caíram pela metade. Em dezenas se tornaram até negativas. (VEIGA, 2008). E mais significativos são os dados que demonstram que a desigualdade hoje é maior nos países da Organização para a

19 Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OECD 2 do que era 20 anos atrás. (JACKSON, 2009). Soma-se a isso o fato de que essa busca desenfreada pelo crescimento econômico já causou a degradação estimada em 60% dos ecossistemas globais e as emissões de carbono aumentaram cerca de 40% desde 1990 ano base do Protocolo de Kyoto. (JACKSON, 2009). O consumo das sociedades ocidentais modernas, além de socialmente injusto, tem se mostrado ambientalmente insustentável. Como alerta Fátima Portilho: tornou-se quase um lugarcomum o argumento de que 20% da população mundial, que habita principalmente os países afluentes do hemisfério norte, consome 80% dos recursos naturais e energia do planeta e produz mais de 80% da poluição e da degradação dos ecossistemas, enquanto que os 80%, que habitam principalmente os países pobres do hemisfério sul ficam com apenas 20% dos recursos naturais. (PORTILHO, 2005) Assim, observamos um mundo cada vez mais globalizado, caracterizado, contudo, por uma prosperidade restrita a poucos e fundada em: (i) destruição do meio ambiente; (ii) consumo crescente e insustentável de recursos naturais; e (iii) manutenção da desigualdade social. Assiste-se a um aumento sem precedentes da opulência global, contudo, grande parte da população ainda é privada de liberdades elementares pobreza econômica, carência de serviços públicos essenciais e assistência social e liberdades civis. (SEN, 2000) Portanto, nota-se que a economia moderna, fundada estruturalmente no crescimento econômico para manter a estabilidade, tem promovido o desenvolvimento como exceção e não como regra geral. Nesse contexto, retomemos de forma sintética os ensinamentos de Ervin László apresentados no início deste capítulo. Referido filósofo da ciência, ao apresentar o conceito de 2 Sigla em inglês para Organization for Economic Co-operation and Development

20 macrotransição, expõe que a sociedade atual e a natureza, ligadas em um sistema dinâmico, se aproximam de um ponto de bifurcação (frase crítica) que pode resultar em colapso ou avanço da civilização. Assim, para levar o desenvolvimento às sociedades que ainda não o experimentaram o que significaria alcançar a fase de avanço será necessário, como citado, um novo pensamento: novos valores e nova visão, uma consciência social mais evoluída. Esse é precisamente o desafio que temos diante de nós. O desafio primeiro e principal, não da contínua inovação tecnológica, mas da criatividade cultural oportuna e profunda. (LÁZSLÓ, 2001, pp ) Para enfrentar esse desafio de forma consistente, o próprio autor evoca a necessidade da presença de uma massa crítica que conduza a cultura da sociedade para um modo de vida mais adaptado, uma consciência social mais evoluída, ocasionando inovações socioambientais profundas e positivas. O autor demonstra que a tendência do capitalismo em criar inovações tecnológicas eficientes não será suficiente para gerar a ruptura desejada, pois continuaríamos a tentar fugir de um colapso socioambiental usando o mesmo modelo capitalista de crescimento que o criou, contrariando o lema de Einstein supramencionado. Desse modo, o real avanço exige uma mudança radical na sociedade, na maneira de pensar, na consciência, uma vez que não estamos lidando com um sistema puramente mecânico. O sistema capitalista baseado no crescimento econômico vigora há muito tempo nos países do ocidente e, há algumas décadas, vem aumentando sua hegemonia no mundo, alcançando diversos países do oriente. Desde a queda do socialismo soviético e alemão, as economias de mercado livre se alastram pelo mundo. Sem dúvida o capitalismo moderno prospera, economias emergentes crescem em ritmos espantosos, o comércio global está em franca expansão, corporações multinacionais dominam os mercados e avançam em economias em desenvolvimento, as inovações tecnológicas se multiplicam.

21 Contudo, uma sensação de desilusão em relação a esta aparente prosperidade começa a se alastrar e ganhar força nos mais diversos países. Dados como os apresentados no início do capítulo reforçam e justificam essa sensação de desilusão. É cada vez mais nítido que o crescimento econômico e a industrialização por si só não conseguiram resolver as crescentes mazelas socioambientais mundiais. Para avançarmos na macrotransição proposta por Ervin László, o presente trabalho sugere inserir, de forma gradativa e substancial, na atual estrutura do capitalismo moderno, um modelo de negócio bastante inovador, que rompe com o princípio da maximização do lucro, consagrado na iniciativa privada e, até o momento, pouco questionado. Este novo modelo de negócio permitiria avançarmos na persecução de um desenvolvimento sustentável, criando arranjos produtivos e econômicos que efetivamente integrem o aspecto econômico ao socioambiental em benefício das presentes e futuras gerações do planeta. Diante dessa demanda, surgem as Empresas Sociais 3, subconjunto do empreendedorismo social formado por instituições que buscam soluções de mercado para superar problemas socioambientais que o mundo enfrenta. Nessas empresas, o lucro não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para gerar soluções que contribuam com a redução da pobreza, da desigualdade social e da degradação ambiental. (NAIGEBORIN, 2010). É nesse ponto que reside a grande ruptura com o modelo capitalista atualmente reinante. As empresas sociais, ao substituírem a força-motriz da empresa convencional ( business as usual ): maximização de lucros pela maximização do benefício socioambiental, podem provocar uma significativa mudança no modo econômico tradicional de operar os negócios e, consequentemente, atuar como uma ferramenta importante para conduzir-nos ao desenvolvimento. 3 Este tipo de arranjo produtivo inovador de empreendedorismo social, aqui denominado de Empresa Social, também é conhecido por negócios sociais, negócios inclusivos, setor 2,5, For-benefit organizations, BOP (Botton of the Pyramid) Enterprises, Social-Business Ventures.

22 Contudo, antes de analisar o potencial transformador desse novo modelo empresarial, é necessário entender melhor o que faz de um negócio ser uma Empresa Social.

23 2. A Empresa Social A Empresa Social representa uma inovadora forma de exercer a atividade empresarial, integrando fatores econômicos, sociais e ambientais, redimensionados em sua ordem de prioridade, segundo um novo conjunto de valores compatível com o conceito de desenvolvimento como expansão das liberdades, apresentado acima. (TOLEDO e SILVA, 2009) A estrutura organizacional das Empresas Sociais é basicamente igual à das empresas hoje existentes, e deve funcionar sob as mesmas regras comerciais de qualquer outro negócio lucrativo. No entanto, a diferença fulcral está em seus objetivos. A Empresa Social não tem como prioridade a maximização da renda financeira voltada à satisfação de interesses pessoais mas, sim, a redução das mazelas sociais e da degradação do meio ambiente. Assim, pode-se dizer que o princípio da maximização dos lucros é substituído pelo princípio da maximização do benefício socioambiental. A visão do lucro evolui sob o aspecto finalístico, deixando de ser uma visão individualista, voltada à satisfação pessoal. No entanto, a busca por rentabilidade é fundamental para que se possa replicar e ampliar as atividades das Empresas Sociais, possibilitando que se alcance de forma mais efetiva a população pertencente à base da pirâmide social. Dessa feita, a substituição do princípio da maximização do resultado financeiro, de modo algum significa que a Empresa Social não buscará o lucro; pelo contrário, a sustentabilidade financeira deve ser uma meta indispensável a este tipo de negócio. Tais empresas devem ser planejadas e estruturadas para, após um período de tempo, estarem aptas a, ao menos, cobrir de forma integral os custos de suas operações.

24 2.1. Tipos de Empresa Social e distribuição de lucro Em relação à destinação do lucro, Muhammad Yunus apresenta duas possibilidades de se estruturar a empresa social. Quando os beneficiários são os destinatários da atividade empresarial, o lucro em sua grande parte ou totalidade 4 deve ser reinvestido na própria atividade empresarial. Por sua vez, quando os beneficiários são incluídos entre os sócios da empresa social, a distribuição de renda por si só tem o objetivo de reduzir a pobreza gerando renda para a base da pirâmide e, consequentemente, transformação social. (YUNUS, 2008) O primeiro tipo de empresa pertence a investidores, aqui entendidos como aqueles que não são carentes na acepção econômica da palavra e que busquem, mais do que retorno financeiro, proporcionar benefício socioambiental. O segundo compreende as empresas cujo benefício social emana de sua propriedade (quadro societário). Isto porque, ao pertencerem a pessoas desprovidas de recursos financeiros, qualquer dividendo distribuído por estas empresas ajudará a retirá-los da situação de pobreza. Nesse caso, relativa maximização dos lucros não descaracteriza a sua condição de empresa social, funcionando também como um projeto emancipador de geração de renda. 4 Para Muhammad Yunus, como veremos adiante, a esse primeiro tipo de Empresa Social é vedada a distribuição de qualquer parcela de seu lucro, sob pena de se descaracterizar a sua natureza de negócio social. No entanto, como também veremos, há estudiosos do tema que discordam desse posicionamento. 5 Curioso observar que essas Empresas Sociais representam o caminho inverso do que se tem assistido em termos de atuação socioambiental empresarial. Atualmente é cada vez mais recorrente as médias e grandes corporações Um terceiro grupo de Empresa Social não considerado por Muhammad Yunus, mas que também possui grande potencial de gerar transformação socioambiental seria formado por empresas cujos sócios são entidades sem fins lucrativos que realizam atividades de relevância socioambiental. Nesse caso, a distribuição de dividendos refletiria diretamente na melhoria e na ampliação dos benefícios gerados, uma vez que entidades sem fins lucrativos no Brasil devem aplicar seus recursos integralmente na consecução de suas finalidades sociais, sob pena de perderam consideráveis isenções fiscais que usufruem 5.

25 Todavia, em qualquer dos casos, deve-se atentar para que aspectos socioambientais estejam presentes na atividade empresarial, para afastar o risco de o crescimento do negócio proporcionar redução de pobreza a elevado custo ambiental. Deve-se ter o cuidado de se criar mecanismos para a Empresa Social sempre pertencer às pessoas de comunidades hipossuficientes, sob pena de desvirtuar-se o objetivo principal de maximização do benefício socioambiental. Ademais, segundo o próprio Muhammad Yunus, uma empresa social também poderia combinar ambas as formas de gerar benefício à base da pirâmide: poderia seguir um plano empresarial projetado para gerar benefícios socioambientais pelos bens e serviços que a empresa oferece e também pertencer a pessoas pobres desprovidas de recursos (YUNUS, 2008). Um ponto controverso em relação às Empresas Sociais envolve a distribuição ou não de lucro. Atualmente, existem duas correntes. A primeira, liderada por Muhammad Yunus, entende que, como em qualquer negócio, uma empresa social não pode sofrer prejuízos indefinidamente. Por outro lado, o lucro que a empresa obtém não pode ser distribuído para aqueles que investem nelas. Assim, define uma empresa social como sem perdas e sem dividendos. (YUNUS, 2008, p. 38) Para essa corrente, os investidores podem, no máximo, reaver o montante injetado no negócio, sendo todo o excedente gerado pela atividade empresarial reinvestido integralmente na atividade. Isto permite que a rentabilidade seja toda repassada para os beneficiários da atividade de várias formas: preços mais baixos, produtos e serviços melhores e menos impactantes ao meio ambiente, introdução de novas tecnologias, inovações no marketing e na distribuição, entre outras, permitindo ampliar o acesso aos bens e serviços às camadas mais pobres da sociedade. constituírem seus próprios institutos empresariais, figurando como seus associados. Aqui são institutos que constituem suas próprias empresas sociais, figurando como seus sócios.

26 Frise-se que essa lógica da não distribuição de dividendos não se aplica ao tipo de empresa social apresentado acima, cujos beneficiários são incluídos entre os sócios/acionistas da empresa. A outra corrente tem como expoentes Stuart Hart e Michael Chu que defendem a possibilidade da baixa distribuição de lucros como uma forma de atrair mais investidores e, consequentemente, permitir que negócios sociais sejam criados e desenvolvidos na velocidade necessária para se superar os desafios socioambientais existentes no mundo (NAIGEBORIN, 2010). Argumentam que a impossibilidade de obtenção de lucro, ainda que limitado, afasta investidores que aceitariam ter menor retorno financeiro em benefício de maior transformação socioambiental, mas que encaram a ausência de lucro como um aporte desestimulante. Além disso, a baixa distribuição de dividendos é ainda atrativa para pessoas com poucos recursos financeiros, mas dotadas de: ideias inovadoras, atitude empreendedora e pouca ambição econômica. Tais pessoas encontrariam nas empresas sociais uma ótima oportunidade de desenvolver um negócio de impacto socioambiental positivo que as permitam retirar algum dividendo e/ou distribuí-lo aos demais investidores e empregados. Pessoas que almejem participar da construção do desenvolvimento em seu sentido pleno, cujas ambições não giram apenas em torno do lucro e da opulência econômica. Por outro lado, argumenta-se que a possibilidade de distribuição de lucros facilitaria a inclusão de artifícios que criem uma falsa impressão nas pessoas, permitindo o surgimento de empresas que busquem à maximização do lucro travestidas de Empresa Social. Contudo, conforme alertado pela especialista em negócios sociais Vivianne Naigeborin, por tratar-se de um novo campo, precisaremos de algum tempo para observar quais são as implicações e resultados de cada um dos modelos aqui apresentados. Em qualquer dos casos o primordial é ter certeza de que o escopo principal do negócio é o impacto socioambiental e não a maximização dos resultados financeiros. (NAIGEBORIN, 2010)

27 2.2. Empresa Social e empreendedorismo social Conforme já mencionado, a Empresa Social é espécie do gênero empreendedorismo social. Portanto, o conceito de empreendedorismo social, além de ser anterior e mais amplo, é fundamental para se entender melhor esse novo modelo de negócio. O empreendedorismo social tem como essência a inovação e criatividade aplicadas ao desenvolvimento e gerenciamento de ações que visem solucionar problemas sociais. Tais características possibilitam uma ampla gama de atuação, variando de acordo com as particularidades de cada empreendedor. (TOLEDO e SILVA, 2009) De modo geral, qualquer iniciativa inovadora, econômica ou não, lucrativa ou não, que gere transformação socioambiental positiva pode ser considerada como empreendedorismo social. Um projeto social que leve medicamento e tratamento médico de forma gratuita a comunidades isoladas pode ser um exemplo de empreendedorismo social, assim como um centro de saúde com fins lucrativos que leve assistência à saúde de forma acessível a uma região carente. Por sua vez, a constituição de uma Empresa Social é também um exemplo de empreendedorismo social. (YUNUS, 2008) Sob o ponto de vista jurídico, o empreendedorismo social no Brasil pode adotar a forma de pessoa jurídica: com fins lucrativos (sociedades) ou sem fins lucrativos (associação, fundação, cooperativas e entidades religiosas). Pode também ser desenvolvido sem a constituição formal de uma pessoa jurídica, por meio de um trabalho comunitário organizado ou por uma iniciativa autônoma, por exemplo. Esclareça-se, contudo, que o empreendedorismo social realizado por empresas com fins lucrativos não é sinônimo de Empresa Social, ou seja, nem todas as empresas que desenvolvem ações de empreendedorismo social são consideradas como tal. Conforme já demonstrado, o conceito de Empresa Social abrange características próprias, as quais não devem ser confundidas com práticas de responsabilidade social empresarial, mesmo aquelas de cunho empreendedor.

28 Aliás, cabe aqui fazer uma distinção entre Empresas Sociais, responsabilidade social empresarial e entidades sem fins lucrativos, comparando a atuação e as características de cada uma Empresa Social, responsabilidade social empresarial e entidades sem fins lucrativos Não há dúvidas que o modelo capitalista prospera, as empresas continuam a crescer, o comércio e as relações estão cada vez mais globalizados, as grandes corporações alcançam resultados financeiros exorbitantes e os avanços tecnológicos continuam a se multiplicar. Observa-se, contudo, que junto com a prosperidade financeira do setor privado aumenta também a responsabilidade das empresas em relação às mazelas socioambientais. Ao longo das últimas décadas, diversas partes interessadas (sociedade civil organizada, cientistas, mídia, consumidores, políticos, entre outros) vêm pressionando as corporações para que assumam parte da responsabilidade socioambiental que até então era vista como dever quase exclusivo da administração pública. Assim, a responsabilidade social empresarial pode ser vista como um fenômeno recente que vem ganhando forças após décadas de crise de confiança em relação à atuação das empresas na sociedade. De fato, muitas empresas despertaram para as questões de responsabilidade social empresarial somente após serem publicamente responsabilizadas por temas que antes não eram considerados como suas responsabilidades. Porém, é inegável que a responsabilidade social empresarial é uma realidade necessária que vem evoluindo de uma atitude de abstenção (condutas de não-fazer: não vender produtos defeituosos, não jogar resíduos tóxicos no meio ambiente, não adotar práticas de corrupção) para uma responsabilidade social empresarial dita forte caracterizada por posturas pró-ativas tais como: inserir mecanismos de ecoeficiência na produção de bens e serviços, investir na saúde e na

29 educação de seus funcionários; adotar práticas de comércio justo, atuar junto às comunidades do entorno de seus estabelecimentos, entre tantas outras. Ocorre que mesmo a responsabilidade social empresarial forte encobre a seguinte máxima: Faça o bem para as pessoas e para o planeta (contando que isso não prejudique os lucros). (YUNUS, 2008, p. 33). Para ilustrar tal afirmação Muhammad Yunus cita um caso relacionado às empresas automotivas norte-americanas 6 que produzem grandes veículos utilitários esportivos, conhecidos pela sigla SUV. Tais veículos exigem recursos enormes para serem fabricados, consomem grande quantidade de combustível e poluem relativamente bastante. Ocorre que esses veículos são muito populares e muito lucrativos, e os fabricantes de veículos continuam a fabricá-los e vendê-los aos milhões. Para Yunus, os SUV são ruins para a sociedade, para o meio ambiente e para o mundo, mas a meta fundamental das grandes fábricas de automóveis é obter lucro logo, continuam a desenvolver e explorar algo pernicioso para a sociedade (YUNUS, 2008). Outro exemplo emblemático acerca dos limites da responsabilidade social empresarial envolveu a gigante Petrobrás, empresa reconhecida por seu pionerismo na área de responsabilidade social empresarial. No final de 2008, a empresa foi excluída da carteira de empresas que compõem o Índice de Sustentabilidade Empresarial ISE da Bovespa. A carteira do ISE, atualizada anualmente, é composta por ações de companhias que se destacam em suas práticas socioambientais. O principal fator que levou a esta exclusão foi o anúncio feito pela empresa de que não iria fornecer combustível de baixo teor de enxofre, conhecido por Diesel S-50, em quantidade suficiente ao abastecimento dos veículos novos a serem introduzidos no mercado consumidor a partir de 01 de janeiro de 2009, contrariando a Resolução CONAMA 315/02 6 Note que, apesar de mencionar expressamente as empresas automotivas norte-americanas, essa realidade aplica-se às empresas automotivas de diversos outros países, inclusive do Brasil.

30 A Petrobrás, apesar de dominar a tecnologia para comercializar tal combustível, não cumpriu com o prazo estabelecido, continuando a fornecer a população brasileira um produto ambientalmente condenável 7, causador de sérios danos à saúde pública. Note-se que pouco adianta a empresa manter diversas iniciativas de responsabilidade social empresarial, mas no que diz respeito à adoção de práticas que efetivamente gerem transformações socioambientais positivas esta se mostrar um tanto reticente. Outro exemplo um tanto mais sutil dos limites da responsabilidade social empresarial pode ser extraído da forma de condução dos negócios do então Banco ABN AMRO Real empresa considerada de vanguarda na adoção de práticas de responsabilidade socioambiental. Analisando-se a relevância de seus produtos socioambientais em volume de dinheiro expressa em seu relatório de sustentabilidade de nota-se que, apesar de seu pioneirismo em questões de sustentabilidade, os seus produtos socioambientais ali descritos eram irrelevantes no portfólio de negócios do banco. De uma carteira de R$ 66.1 bilhões em ativos, os produtos socioambientais respondiam por apenas R$ 825 milhões, dos quais R$ 500 milhões que estavam fora no relatório de 2006 foram incluídos em 2007 sem grandes explicações. Expresso em porcentagem, esse valor representava 1,25% do total carteira, inegavelmente um número inexpressivo. Diante dessas constatações, apesar de não se poder negar que o rumo das empresas convencionais passará inevitavelmente pelo desenvolvimento da responsabilidade social empresarial, o rumo da sustentabilidade só será encontrado se alterarmos substancialmente a 7 O índice de poluentes do diesel é determinado, essencialmente, pela quantidade de enxofre emitida na combustão, medida em partes por milhão (ppm). Atualmente, o diesel comercializado no país tem de 500 ppm a ppm (respectivamente, nas regiões metropolitanas e no interior do país). O diesel S-50, por sua vez possui 50 ppm de enxofre, ou seja, é 10 e 40 vezes menos poluente que o diesel comercializado nas regiões metropolitanas e no interior, respectivamente. 8 Utilizou-se dados extraídos do relatório de sustentabilidade de 2007, pois este foi o último relatório publicado antes da incorporação do Banco ABN AMRO Real ao Banco Santander.

31 importância do lucro no ambiente empresarial. O lucro deve ser considerado um dos fatores para o sucesso do negócio e não o principal (quase único). Até o surgimento das primeiras Empresas Sociais, dentro do setor privado, somente as organizações sem fins lucrativos conseguiam dar uma ênfase maior ao fator socioambiental. Apesar do surgimento das primeiras organizações filantrópicas no Brasil remontarem ao tempo do Império com as Santas Casas de Misericórdia, o crescimento do chamado terceiro setor no País e, em diversas outras partes do mundo, intensificou-se a partir da década de 1970, alcançando o destaque que se tem hoje no enfrentamento das questões sociais somente após os anos Desde então, as entidades sem fins lucrativos, começaram a contar com investimentos vindos das esferas pública e privada. Observa-se um crescimento no número de associações e fundações ligadas a empresas (comumente chamadas de institutos empresarias ); as redes de empresas de diferentes setores (comércio, bancário, indústrias) criaram suas próprias entidades representativas. Ademais, nota-se que organizações do terceiro setor buscam, cada vez mais, a gestão profissional do setor. Todavia, apesar de lograrem êxito crescente em seus projetos disseminados ao redor do mundo, sendo cada vez mais comum a sua atuação em conjunto com o setor público e com iniciativa privada lucrativa, as entidades sem fins lucrativos ainda se mostram muito dependentes de auxílio financeiro de terceiros, necessitando muitas vezes de financiamentos a fundo perdido. Nessa relação com o aporte financeiro, a Empresa Social é consideravelmente mais atraente para investidores do que entidades sem fins lucrativos que comercializam produtos e serviços benéficos para a sociedade. Isto porque, a necessidade de se obter a autossustentabilidade financeira do negócio, força a Empresa Social, uma vez estabelecida, desenvolver por conta própria, diminuindo a necessidade de se injetar nela capital adicional todos os anos. O que significa que o Investidor conseguirá maior benefício socioambiental com o mesmo dinheiro.

32 Outra vantagem está no fato dos investidores poderem obter seu recurso de volta, ao, por exemplo, vender sua participação societária em uma Empresa Social, possibilitando-o de investir em outra Empresa Social ou fazer o que bem entender com aquele recurso. Enquanto em entidades sem fins lucrativos, reaver seu capital é muito mais difícil ou até legalmente vetado. Igualmente, por adotar a formato empresarial já familiar aos executivos a Empresa Social representa uma instigante oportunidade para empresários aplicarem suas habilidades gerenciais e criatividade na resolução de problemas socioambientais, podendo até retirar uma pequena porção dos lucros. Além disso, diferentemente das entidades dos terceiro setor o investidor é o proprietário do negócio, tendo maior autonomia e liberdade para decidir sobre os rumos do negócio. Por outro lado, os diversos incentivos fiscais já existentes para aqueles que investem em entidades sem fins lucrativos tornam esse modelo mais atraente para determinados investimentos. Assim, deve-se ressaltar que a Empresa Social não terá o condão de extinguir as entidades sem fins lucrativos e nem ao menos ter essa pretensão. O mesmo pode ser dito em relação às empresas convencionais, a livre iniciativa privada comporta espaço de sobra para a coexistência desses três modelos de negócios. A diversidade e a complexidade dos seres humanos levam a crer que não devemos limitar as escolhas das pessoas e sim aumentar as suas possibilidades de atuação. O desenvolvimento das Empresas Sociais inevitavelmente ocupará espaços de entidades sem fins lucrativos e de empresas convencionais, no entanto, se conseguir trazer maior equilíbrio ao segundo e terceiro setor seu benefício será muito maior. Isto é, se conseguir disseminar nas empresas convencionais uma cultura menos dependente da maximização de lucros e se conseguir acelerar nas entidades sem fins lucrativos a transição para uma gestão mais moderna e eficiente.

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