Formação e protagonismo no Jequitinhonha pelo audiovisual. Tiago PISSOLATI 1 Juliana LEONEL 2. Associação Imagem Comunitária

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1 Formação e protagonismo no Jequitinhonha pelo audiovisual Tiago PISSOLATI 1 Juliana LEONEL 2 Associação Imagem Comunitária ISSN Referência: PISSOLATI, Tiago; LEONEL, Juliana. Formação e protagonismo no Jequitinhonha pelo audiovisual. In: Mídia Cidadã 2009 V Conferência Brasileira de Mídia Cidadã, Guarapuava. Anais. Guarapuava, p RESUMO Este trabalho corresponde a uma compilação de artigos, discussões, propostas e memórias da série de atividades de formação audiovisual e mobilização social que a Associação Imagem Comunitária (AIC) vem desenvolvendo com jovens dos municípios de Itaobim, Padre Paraíso e Araçuaí, no Médio Vale do Jequitinhonha, desde Tais atividades tiveram como objetivo criar condições para a tessitura de uma rede de articulação para uma juventude protagonista de seu fazer cultural, a partir de sua formação tecnológico-cultural e do fomento ao debate público e à participação comunitária tudo tendo seu princípio e fim na educação para o audiovisual. Ao longo do processo, foram constituídos três núcleos de produção audiovisual comunitária, em que videodocumentários foram produzidos pelos próprios jovens e exibidos em espaços públicos, além de veiculados no programa Rede Jovem, fruto de parceria entre a AIC e a Rede Minas de Televisão. Os três vídeos Juventude do Jequi são o resultado concreto de um projeto que focou o protagonismo juvenil, a autonomia dos sujeitos e o trabalho coletivo, colocando em contato os jovens do Médio Vale do Jequitinhonha em relação de diálogo e reconstrução com as práticas culturais de sua região. Palavras-chave: Juventude, protagonismo juvenil, audiovisual, educação. Apresentação A Associação Imagem Comunitária (AIC) é uma organização não-governamental de Belo Horizonte, Minas Gerais, que atua na promoção do acesso público aos meios de 1 Tiago Pissolati é graduado em Letras 2 Juliana Leonel é Jornalista

2 comunicação, por meio da construção de espaços na mídia em que grupos com poucas oportunidades de visibilidade possam se colocar no debate público. Fomentamos, assim, a construção da cidadania. Desde 1993, a AIC vem realizando oficinas de comunicação para a cidadania e fomentando a criação de meios de comunicação comunitários. Nossa atuação se dá junto a diversos públicos: população de rua, usuários de serviços de saúde mental, crianças moradoras de vilas e favelas, jovens atuantes em projetos sociais e culturais, ONGs e grupos de diversas regiões de Belo Horizonte e Minas Gerais. A juventude de Minas Gerais, contudo, tem sido a principal parceira da AIC na realização de iniciativas pela democratização da mídia. A associação promove projetos como a Rede Jovem de Cidadania, uma rede de mídias que atinge todo o estado, e o Juventude de Atitude séries de documentários sobre os movimentos culturais juvenis das periferias da região metropolitana de Belo Horizonte. Em 2007, a AIC começou a atuar em uma nova região: o Vale do Jequitinhonha. Tiveram início, assim, atividades de formação audiovisual e mobilização social com jovens dos municípios de Itaobim, Araçuaí e Padre Paraíso, no Médio Vale. Desde então, grupos de jovens dos três municípios veem-se envolvidos em constante reflexão e produção audiovisual processo que cria representações e imagens mais positivas sobre o Vale do Jequitinhonha. Uma visão até então não-predominante do Vale, realizadas por atores da região e para a região. As atividades da AIC no Jequitinhonha tiveram início no município de Itaobim, por meio da parceria com a Casa de Juventude (iniciativa da Associação Papa João XXIII, entidade sem fins lucrativos que há quase dez anos desenvolve projetos sociais e culturais na região). Em seguida, iniciamos uma articulação com a juventude do movimento cultural de Araçuaí, firmando parceria com o Centro Cultural Luz da Lua. Por fim, chegamos a Padre Paraíso, município em que nossas ações ainda se encontram em processo de desenvolvimento e multiplicação.

3 Antes de discorrer sobre as consequências dos processos formativos e os produtos já observados, cabe aqui uma breve digressão a respeito da forma como havíamos desenhado os processos em si. Já tínhamos uma intenção em mente: contribuir para que os jovens envolvidos tivessem a possibilidade de alcançar o plano de uma apropriação efetiva de recursos midiáticos e que a auto-expressão coletiva pudesse constituir espaços públicos comunitários, propiciando um processo dialógico de autoreconhecimento, protagonismo e estima social. Apresentamos, a seguir, a forma como buscamos alcançar nossos objetivos. O pensamento por trás das ações Se já sabíamos da tendência histórica dos meios de comunicação de massa à padronização das linguagens midiáticas e a uma maneira praticamente uniforme do fazer audiovisual baseado em parâmetros como a objetividade e uma suposta imparcialidade, cabia a nós propor uma resistência a essas formas predominantes em andamento na maior parte das produções atuais. Delineava-se, portanto, nosso desafio: proporcionar, nas nossas oficinas, uma formação que passasse pela técnica e não se limitasse a ela deslocando o âmbito da simples produção para o da criação de novos estilos. Para fazê-lo, partimos para a experimentação da linguagem, desmistificando a técnica de produção de audiovisual. Os jovens participantes das nossas oficinas logo descobriram que produzir imagens não se limitava a ligar uma câmera e apontá-la para um alvo, ainda que a sua experiência prévia com o audiovisual se limitasse, na maior parte dos casos, à exposição às produções difundidas pelos meios de comunicação de massa. De fato, as primeiras imagens que os jovens produziram eram majoritariamente ancoradas a essas referências, configurando uma espécie de reprodução da imagem padronizada da televisão. Dessas primeiras experiências surgiu, contudo, material suficiente para que discutíssemos as diferenças sociais e a diversidade cultural, buscando possibilidades de reinvenção da linguagem. Oficineiros e participantes tinham um denominador comum: todos buscavam uma forma e uma linguagem próprias da

4 juventude do Vale do Jequitinhonha para veicular suas demandas e anseios. Grande parte desse processo de reinvenção e busca de uma linguagem própria veio, então, pelo erro e pelo acaso. Utilizando esses dois elementos, foi possível reinventar a linguagem padronizada, pela remoção dos padrões impostos vigentes nos meios de comunicação de massa e subsequente construção de outros parâmetros, fundados na experiência do construir junto. Construir junto implica muito mais que um intercâmbio de experiências entre formadores e participantes. Implica erguer, em conjunto, um pensamento midiático acerca das cunhadas e tradicionais formas de expressão midiática, da apropriação da técnica para a reinvenção de um fazer, da expressão de pensamentos por novos meios. Essa construção de um pensamento conjunto é, por fim, a essência da própria comunicação comunitária a de uma colcha de retalhos de opiniões e idéias, diversa em sua estrutura, única em sua forma. Implica, também, a redução e potencial anulação das hierarquias, na busca por alcançar relações mais horizontais. Buscamos, então, valorizar as diferenças, priorizar cada envolvido por sua individualidade e peculiaridade, buscando construir uma rota coletiva. Esta rota, inclusive, não era pré-concebida. Aceitávamos os erros como desvios de rota (e, muitas vezes, encaramos esses desvios), já que tínhamos a certeza que o caminho só seria construído enquanto percorrido. Todos os produtos das nossas oficinas, portanto, foram fruto dos diversos desvios que decidimos tomar. A incorporação dos erros se liga, certamente, aos acordos e princípios coletivos que estruturaram as atividades de formação e produção. A análise e crítica das formas de produção audiovisual dominantes, a busca por um fazer não tão objetivo quanto subjetivo, a valorização dos erros e do acaso, a proposição de construir junto e a não-postulação de uma rota a ser seguida foram os elementos que encontramos, na nossa metodologia de trabalho, para promover a autonomia e o protagonismo juvenil na construção de espaços públicos. Os jovens foram convocados a

5 se posicionar a serem sujeitos de si. Como afirma Paulo Freire, O mundo não é. O mundo está sendo. Como subjetividade curiosa, inteligente, interferidora na objetividade com que dialeticamente me relaciono, meu papel no mundo não é o de quem constata o que ocorre mas também o de quem intervém como sujeito das ocorrências. Não sou apenas objeto da História, mas seu sujeito igualmente. No mundo da História, da cultura, da política, constato não para me adaptar mas para mudar. [ ] Ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra. 3 Não pensamos, contudo, em dar autonomia aos jovens, uma vez que autonomia não se dá. O intuito foi provocá-los a tomar posturas e ações autônomas que correspondam aos seus anseios ou seja, provocá-los a serem jovens protagonistas de seu lugar e história. Inicialmente houve, nos grupos (com a exceção dos jovens já mobilizados e protagonistas de outras ações, especialmente as culturais), uma dificuldade em assumir posturas, expressões e posicionamentos próprios, sem que fosse demandado aos formadores a aprovação ou desaprovação em relação ao que eles propunham ou a interferência direta no processo de produção. O que fizemos foi devolver aos jovens estes questionamentos, provocando uma tomada de decisão, num processo que perpassava reflexões, ações, escolhas e incertezas. Construiu-se, então, a parceria. A realização dos processos formativos Em Itaobim, Araçuaí e Padre Paraíso, o início das oficinas foi também marcado com o início da construção da interação jovem-equipamento. A produção em audiovisual requer, necessariamente, um mínimo de equipamento para a sua realização. Por outro lado, se objetivamos trabalhar com a formação de jovens protagonistas e autônomos na criação de espaços públicos pelo audiovisual, seria absolutamente paradoxal se eles dependessem de qualquer organização ou parceria para ter o equipamento necessário às mãos. Foram montadas nos três municípios, portanto, ilhas de edição nos três municípios, com todo o equipamento necessário para captação e edição das imagens. As ilhas foram colocadas em espaços públicos coletivos onde todos os jovens dos núcleos 3 FREIRE, 1997, p. 85.

6 formados pudessem ter acesso ao equipamento a todo momento, sendo autônomos, inclusive, na escolha de como e quando trabalhar nos vídeos quando os educadores já não estivessem presentes. É importante ressaltar que os equipamentos foram cedidos aos núcleos constituídos nos município de forma que cada coletivo de jovens teria inteira responsabilidade pelo equipamento. Também coube aos jovens gerir os equipamentos garantido o uso público e coletivo dos mesmos, garantido o acesso a outros grupos e jovens da cidade. A partir da constituição dos núcleos em cada município, com a instalação dos equipamentos, teve lugar o processo formativo em comunicação e cidadania, com foco no audiovisual. Levando em conta todas as escolhas metodológicas já mencionadas, planejamos cada oficina com o intuito de criar um espaço de diálogo em que pudéssemos ouvir as demandas e anseios dos jovens e, somente a partir daí, construir e discutir objetivos e possíveis produtos que alcançaríamos ao término dela. Também objetivamos trabalhar para que os grupos se tornassem progressivamente coesos, a fim de que eles pudessem dar continuidade ao processo de produção após a saída dos formadores. Com o objetivo de garantir a participação ativa dos jovens e de sensibilizar para as questões estéticas e linguagem audiovisual utilizamos uma série de jogos midiáticos em nossas oficinas. Buscamos sempre em nossos processos formativos garantir o espírito lúdico, criando uma atmosfera de liberdade e autonomia, com espaço para o espontâneo, a improvisação, o erro. Foram adotadas, em nossas oficinas, jogos que não tinham ganhadores ou perdedores, pontos-de-chegada conhecidos ou regras impostas. Jogos que potencialmente dessem as diretrizes para a produção midiática produção coletiva, em especial. Fomos capazes, então, de criar um espaço em que as idéias, desejos, medos, anseios e opiniões dos jovens do Vale do Jequitinhonha com que trabalhamos pudessem ser concretizados em toda forma de expressão: fotografias, desenhos, narrativas orais, textos, canções e, finalmente, vídeos.

7 Produtos e consolidações Os processos formativos diferiram em cada um dos municípios em que aconteceram. Apesar da proximidade das três cidades, os grupos de jovens que se estabeleceram em cada uma delas apresentaram percepções diferenciadas sobre a própria realidade, sobre o Vale do Jequitinhonha e vivenciaram os processos formativos de forma distinta. A produção do vídeo produto do primeiro ciclo de oficinas foi, portanto, singular em cada município, assim como foram singulares e diversos os próprios vídeos, no desfecho do processo. Juventude do Jequi foi a expressão que perpassou todo o projeto; acompanhou nossas propostas, planos de ação, oficinas e, por fim, nomeou os vídeos resultados imediatos do processo. Entretanto, ela também se refere a nosso público, ao que ele vislumbra e ao que ele de fato vê. A Juventude do Jequi formou grupos, deitou olhares sobre o mundo, reestudou conceitos, discutiu seus parâmetros e começou a consolidá-los em um espaço público que ela criou. Eles foram aprendizes, idealizadores, atores, personagens e tema em todo o processo. E foi esse o primeiro passo do protagonismo e autonomia que provocamos. O núcleo formado na Casa da Juventude em Itaobim produziu, ainda em 2007, um vídeo que discutia o próprio processo de formação em audiovisual por que os jovens passaram. Vídeo-processo metalingüístico em que suporte e tema se misturam, o primeiro Juventude do Jequi coloca, no espaço público, o jovem de Itaobim discutindo o ser jovem e propondo formato e linguagem da discussão; formam o vídeo, portanto, um ser jovem e um fazer jovem. Dois anos depois, o coletivo de jovens já produziu diversos vídeos de forma autônoma, para além das proposições dos educadores da AIC. Eles ainda buscam multiplicar a experiência, propondo oficinas para outros jovens de Itaobim e mesmo de outros municípios. O grupo já ganhou novos membros e, progressivamente, encontra rumo, propostas e linguagens próprias.

8 Em Araçuaí, o grupo de jovens que formou o núcleo audiovisual produziu dois vídeos em 2008, durante as oficinas realizadas com a AIC. O primeiro, Histórias de Araçuaí, apresenta algumas peculiaridades da história da cidade, sempre por um prisma jovem, que estrutura forma e relação de interação próprias dos seus realizadores. O segundo, Histórias que o povo conta, expõe curiosas narrativas orais que sobrevivem ao tempo e perpassam imaginário e realidade de Araçuaí. Para a realização desse vídeo, os jovens fizeram um primeiro contato com a ficção e inclusive atuaram em algumas sequências. Lidaram também com o humor, ingrediente indispensável em todas as oficinas realizadas nas três cidades, responsável também por uma atmosfera mais propícia à espontaneidade e à expressão autônoma. Padre Paraíso, cidade em que o núcleo audiovisual foi estruturado posteriormente, já foi palco de realização e tema de um vídeo. O coletivo de jovens ainda tem algumas oficinas pela frente e atualmente busca se consolidar, deliberando sobre temas para vídeos futuros, demandas no presente e formas de executá-las, assim como captando e mobilizando novos componentes. Desde sua finalização, os vídeos foram exibidos em diversos espaços públicos dos três municípios e de Belo Horizonte. Por fim, em 2009, todos os vídeos mencionados foram exibidos no programa Rede Jovem, veiculado na Rede Minas, que há mais de seis anos mantém parceria com a AIC. A exibição dos vídeos que compõem Juventude do Jequi em um canal de sinal aberto coroa, então, um processo que havia se iniciado há dois anos se, por um lado, já vínhamos trabalhando com o acesso público à imagem, oferecendo processos de formação para que jovens se apropriassem dos equipamentos e do processo de produção midiática, agora vemos o outro lado desse acesso público: o momento em que as imagens produzida por eles são exibidas para uma ampla audiência. Além de quebrar a continuidade de um processo hegemônico de veiculação de imagens tradicionalmente estigmatizantes acerca do Vale do Jequitinhonha, a exibição dos Juventude do Jequi traz à esfera pública olhares novos sobre o Vale (tanto pela idade quanto pela originalidade dos jovens), produzidas por gente do Vale para o próprio Vale.

9 Jovens das três cidades passam então a ter linguagem, forma, suporte e meio para a veiculação do que vêem e de como vêem. Seja pelo processo educativo extra-escolar por que passaram e passam os jovens do Médio Vale nas oficinas realizadas pela AIC, seja pelos produtos desenvolvidos desde a formação dos núcleos de audiovisual, é possível enxergar em Itaobim, Araçuaí e Padre Paraíso, o embrião de um processo de protagonismo e autonomia juvenis que tende à multiplicação. Processo em que jovens refletem sobre a sua interação com um mundo imagético. Processo em que jovens se apropriam, criam, recriam e transformam as imagens do mundo em suas próprias imagens. Referências FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, MELO, Aléxia et alli. Descoberta, apropriação e reinvenção da TV. IN: LIMA, Rafaela (Org.). Mídias comunitárias, juventude e cidadania. Belo Horizonte: Autêntica/Associação Imagem Comunitária, MELO, Aléxia et alli. Metodologia: o jogo e a reinvenção. IN: IN: LIMA, Rafaela (Org.). Mídias comunitárias, juventude e cidadania. Belo Horizonte: Autêntica/Associação Imagem Comunitária, 2006.

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