TRABALHO DIGNO COM A ECONOMIA SOLIDÁRIA NAS PRÁTICAS DE EJA

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1 TRABALHO DIGNO COM A ECONOMIA SOLIDÁRIA NAS PRÁTICAS DE EJA Francisco Negrini Romero Universidade Metodista de Piracicaba UNIMEP Resumo A experiência de Economia Solidária em EJA é relatada, na cidade de Piracicaba, na qual participam vários atores, em um cenário de extrema pobreza e violência. Os atores: Universidade Metodista de Piracicaba, Cursos de Nutrição, Gastronomia, Direito e Hotelaria, Associação de Bairro, Núcleo de Estudos e Educação Popular. O cenário, um bairro pobre de periferia chamado Bosques do Lenheiro, com famílias, pessoas vindas de favelas de áreas de risco, sem teto, ocupantes ilegais e inscritos na Empresa Municipal de Habitação. Por intermédio de EJA, criou-se o Projeto de Economia Solidária, que capacitou 20 garçons e garçonetes no primeiro modulo. Atualmente trabalha com 30 alunos, ampliando a capacitação, reforçando a matemática, o português e as áreas de conhecimento. As práticas da capacitação e formação profissionais têm levado os educandos a organizarem-se em uma cooperativa para divulgar suas competências e qualificações. Tem-se como prioridade a desmistificação de valores culturais da domesticação do trabalhador, substituindo por valores culturais emancipatórios. Trabalho apresentado na Sala 03 - Trabalho e Economia Solidária em EJA, na VII Semana da Alfabetização, promovida pela Alfabetização Solidária, de 11 a 13 de setembro de 2006.

2 2 TRABALHO DIGNO COM A ECONOMIA SOLIDÁRIA NAS PRÁTICAS DE EJA Francisco Negrini Romero Universidade Metodista de Piracicaba UNIMEP Introdução O presente artigo pretende mostrar umas das experiências de EJA e Economia Solidária realizadas na cidade de Piracicaba, por vários atores, em um cenário de extrema pobreza e violência, semelhante ao de muitos bairros de periferia do Brasil. Os atores principais são: a Universidade Metodista de Piracicaba UNIMEP com o Núcleo de Estudos e Educação Popular NEPEP, os Cursos de Nutrição, Direito, Gastronomia e Hotelaria, a Associação dos Moradores dos Bosques do Lenheiro e a população desempregada. Constituído no ano de por famílias, aproximadamente pessoas faveladas das áreas de risco, sem teto, ocupantes ilegais e pessoas das listas da Empresa Municipal de Habitação-EMDHAP, com extrema necessidade, tornou-se um caldeirão de problemas para a própria prefeitura pela péssima qualidade de suas construções, com casas de 32 m, sem infra estrututura adequada. Nesse contexto, o NEPEP inicia com três classes de alfabetização de adultos, em pelo Programa Grandes Centros Urbanos (PGCU) da ALFASOL. O Programa de Alfabetização, nesse bairro, alfabetizou mais de 200 alunos nos últimos anos. Percebendo a carência radical dos alfabetizandos e discutindo sua realidade, propôs-se capacitar profissionalmente interessados na linha da Economia Solidária para, coletivamente, encontrar soluções de empregos ou formação de cooperativa. O primeiro projeto capacitou 20 alunos em 2.004, na formação de garçons e garçonetes que, na sua maioria, foram contratados antes mesmo de terminarem os módulos educativos. O segundo projeto, iniciado em 2.005, capacitou em vários módulos, 80 pessoas, já ampliando a capacitação de garçons e garçonetes, introduzindo passadeiras, merendeiras, arrumadeiras e cozinheiros (as). Os moradores viram a capacitação como uma esperança para conquistar um trabalho digno e até de formar uma cooperativa que pudesse divulgar e oferecer trabalhadores qualificados. O objetivo da capacitação e da formação de uma cooperativa em uma comunidade com carência radical passa por várias etapas. O próprio processo de

3 3 formação em uma população subordinada, historicamente, pelo sistema capitalista deve promover uma desmistificação da domesticação, colocando em seu lugar valores culturais emancipatórios. Alfabetizando e Capacitando com a Economia Solidária O Núcleo de Estudos e Programas de Educação Popular NEPEP da Universidade Metodista de Piracicaba UNIMEP, criado em 1983, trabalhou com mais de alfabetizandos e na formação de professores no Brasil e em Moçambique na África nesse período. Os trabalhos foram realizados também em Piracicaba, em vários municípios do Estado de São Paulo e nas regiões do Norte e do Nordeste. Para ser possível trabalhar em fabricas, bairros de periferia, áreas rurais entre outras, foi necessário o esforço e a generosidade de muitos estudantes e lideranças populares sensibilizados e formados pelo trabalho de extensão da UNIMEP. As parcerias na sociedade civil com os movimentos populares, entidades das igrejas, entidades culturais, Ongs internacionais e comitês de combate ao analfabetismo foram fundamentais na mobilização e sensibilização. A implementação de Programas/Projetos com as entidades públicas, como as parcerias que vêm se desenvolvendo nos últimos anos, com a Alfabetização Solidária ALFASOL, com o Brasil Alfabetizado BA e com o Programa Nacional de Educação para a Reforma Agrária PRONERA tornaram-se estratégicas para criar um suporte de apoio na luta contra o analfabetismo. Pretendemos, aqui, relatar uma das experiências realizada em um bairro da periferia de Piracicaba, chamado Bosques do Lenheiro. Um trabalho que foi amadurecendo com o diálogo entre a Universidade e a população do Bairro, ampliando a alfabetização para a capacitação na linha da Economia Solidária. O trabalho de extensão, alfabetização e economia solidária de que estamos falando segue alguns princípios que nos norteiam. A extensão é vista por nós como um processo educativo, cultural e cientifico, que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre universidade e sociedade. O NEPEP, desde sua formação, optou por uma extensão priorizando a educação popular. Entendemos a educação popular como uma proposta que contribui para a transformação social, tendo como objetivo a construção de uma nova sociedade, que responda aos interesses e aspirações dos setores populares. Nesse sentido, educandos e educadores devem ser sujeitos dessa transformação.

4 4 A alfabetização de jovens e adultos que nos propusemos realizar procurou trabalhar as dimensões objetivas e subjetivas. Não se tratava de constatar os dados da realidade; buscamos trabalhar o simbólico e o imaginário, ou seja, a representação que os educandos elaboram desta realidade, a visão de mundo. A economia solidária, praticada há alguns anos no Brasil e na América Latina nos programas associativos e cooperativos para geração de renda, foi ampliando suas experiências e criando novos conceitos. Entendemos e buscamos nos engajar na concepção que foi discutida e articulada no Fórum Social Mundial, em 2001, pela rede nacional de economia solidária. Hoje, no Brasil, mais de 50% dos trabalhadores/as estão sobrevivendo de trabalho à margem do setor capitalista hegemônico, o das relações assalariadas. Neste cenário, diversas experiências, com diversos nomes: economia solidária, economia social, socioeconomia solidária, economia de comunhão, economia de aproximação, etc. têm propiciado a sobrevivência e a melhora da qualidade de vida de milhões de pessoas em diferentes partes do mundo. Essa prática vai mais além do que se possa imaginar, pois seus fundamentos, os de colaboração solidária, inspiradas em valores culturais diversos, colocam o ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica, negando, portanto, a acumulação privada da riqueza em geral e de capital em particular. Segundo os princípios que as norteiam, que são convergência em quase todas as experiências e diversidades de origem e de dinâmica cultural, observa-se: a) a valorização social do trabalho humano; b) o reconhecimento do lugar da mulher e do feminino numa economia fundada na solidariedade, c) a busca de uma relação de intercâmbio respeitoso com a natureza e d) os valores da cooperação e da solidariedade. A economia solidária é, portanto, um projeto de desenvolvimento integral que visa à sustentabilidade, à justiça econômica, social, cultural e ambiental e à democracia participativa. O bairro Bosques do Lenheiro foi criado em Piracicaba em 1999, no fim de mandato de um governo municipal. Feito às pressas para ganhar dividendos políticos não planejaram áreas de lazer, infra-estrutura adequada, retiraram mais de famílias de varias favelas de áreas de risco e as transferiram para casas de 32 metros. Os materiais construtivos utilizados eram de qualidade precária, assim como as instalações elétricas e hidráulicas. Hoje, as casas demonstram a fragilidade e o perigo existentes,

5 5 revelando o engano do poder público que jogou esta população das áreas de risco em outra favela com outros tipos de risco. As famílias, que se instalaram, eram constituídas por favelados, sem teto e algumas da enorme fila de inscritos para obter uma casa da Empresa de Habitação da Prefeitura local EMDHAP. Em 2003, as Universidades e Faculdades de Piracicaba uniram-se para uma ação conjunta no bairro. Coube ao NEPEP a formação de lideranças que culminou com a criação da Associação dos Moradores dos Bosques do Lenheiro e, em seguida, a criação do Centro Comunitário do mesmo bairro. Apesar de o bairro ter uma escola municipal e outra estadual, há um grande índice de violência. A Associação de Moradores tem buscado, em parcerias com a Prefeitura e Universidades, desenvolver todo tipo de ações culturais, educativas e projetos de geração de renda. O programa de alfabetização de jovens e adultos, apoiado pela ALFASOL- Programa Grandes Centros Urbanos PGCU, iniciou-se com três classes e vem sendo realizado desde 2001; já o projeto de Economia Solidária, apoiado pela UNIMEP Fundo de Apoios a Extensão FAE iniciou-se em Desde o inicio do programa de alfabetização até os dias de hoje, mais de 200 jovens e adultos participaram das aulas e foram concluintes. Muitos deles continuaram nas salas do EJA e buscaram concluir o primeiro grau escolar. Parte desses estudantes inscreveram-se no projeto de capacitação da economia solidária. O primeiro projeto, iniciado em 2004, teve como objetivo a formação de vinte garçons e garçonetes. A capacitação foi dada por professores e alunos do curso de Nutrição e Hotelaria. Antes mesmo de terminar o projeto, por ter uma forte demanda e a necessidade de empregados nesse setor, muito deles tinham sido convidados a trabalhar em restaurantes e lanchonetes. Terminada a primeira etapa do projeto, foi realizada uma avaliação pela Universidade com a Associação dos Moradores, destacando-se a necessidade de ampliar os conhecimentos dos educandos, principalmente com relação à formação de matemática e português e de ampliar a capacitação de mais moradores desempregados do bairro. Em 2005, discutiu-se com a comunidade uma nova proposta. Desta vez, além de ampliar a capacitação, reforçando o ensino da matemática e do português, foi sugerida a ampliação de novos conhecimentos do curso de garçom e garçonete, mais os cursos novos de arrumadeira, passadeira e cozinheiro (a). Foram chamados para apoiar o Curso de Nutrição, Hotelaria, Gastronomia e Direito, além do NEPEP, que trabalha com o EJA.

6 6 As etapas foram sendo desenvolvidas com a formação de cooperativismo, direitos dos trabalhadores pelo curso de Direito, com Matemática e Português pelo NEPEP, Higiene e Organização de trabalhos em Hospitais, trabalho de conservação de alimentos pela Nutrição, a preparação de alimentos do básico ao complexo pelo curso de Gastronomia, os serviços e apresentação de cardápios pela Hotelaria, entre outras matérias de estudos. Com o sucesso da primeira experiência realizada no projeto de 2004, compareceram na primeira reunião mais de 300 pessoas, entre elas muitos adolescentes. Foi feita uma primeira seleção para ver os que tinham melhores condições de se capacitarem em uma primeira etapa. O primeiro grupo de 80 pessoas recebeu as primeiras noções gerais. No segundo momento, o grupo chegou a constituir-se de 30 alunos que ficaram até o final. Todos chegaram a terminar as várias etapas e concluíram com a entrega de certificados em um jantar para a comunidade no qual os alunos exercitaram suas profissões, fazendo o cardápio, servindo e atendendo os convidados. Muitos deles, como da primeira experiência, já contratados e exercendo a profissão. Embora haja trabalhos de formação profissionalizante desenvolvidos por agências públicas, as demandas existentes nos bairros pobres das periferias são enormes. Os trabalhos de extensão das Universidades buscam, nessas ações, o novo cultural, principalmente com os que foram excluídos, historicamente, de poderem ter seus estudos. A ação coletiva, na direção das carências radicais, propicia o questionamento de alguns valores difundidos pela concepção hegemônica na nossa sociedade, entre elas, a convicção de que toda melhoria só pode vir de cima e de fora (do grupo social) e pode dar-se somente de forma individualizada. O diálogo com essa população visa a sua percepção de que a sociedade é um produto da ação humana e, portanto, pode ser transformada, basta acreditar na sua própria força de transformação e acreditar que essa força se multiplica quando é coletiva e organizada. Este vem ser o eixo central do novo, a ação cultural e dialógica da construção da cidadania. Conclusão Ao descrever esta experiência, buscamos que o cidadão real perceba suas próprias forças e instrumentos para que crie suas formas de organização. A formação e capacitação continuada poderão dar luzes para que a busca de empregos, embora

7 7 individualizada neste momento possa, nos próximos anos, constituir-se em lutas coletivas através de uma cooperativa, que apresente os profissionais como sujeitos organizados, com plena consciência de seus direitos e apresentados com extrema competência, reconhecida pelos seus empregadores. O projeto da economia solidária e EJA propiciam diálogo com a sociedade, ajuda a contextualizar a extensão, para transmitir conhecimentos técnicos e científicos, utilizando a educação popular, produzindo conhecimentos atualizados e historicamente pertinentes para a construção da cidadania. Essa ação fortalece os movimentos sociais, fazendo com que a sociedade civil possa ter esperanças na luta contra a violência, a desigualdade e as injustiças que a população vive nesse momento. A difusão e a prática da economia solidária pode constituir-se em um setor econômico da sociedade, distinto da economia capitalista e da economia estatal, fortalecendo o Estado democrático introduzindo um novo ator social autônomo e capaz de propor novas regras de direitos e regulação de sociedade em seu beneficio. Finalmente, a proposta de EJA com a economia solidária produz uma educação com alternativas dignas e emancipatórias, produzindo menos evasões escolares e participando da criação da pedagogia da esperança. Referências Bibliográficas PALMEIRAS, Maria Rosa das. ACTA Ação Cultural e Tecnologia Apropriada, 10 anos de pratica com educação popular, Piracicaba : Ed. UNIMEP, Boletim FSM. Do Fórum Social Mundial ao Fórum Brasileiro de Economia Solidária, 02 de maio de Relatório FAE/UNIMEP, Projeto Economia Solidária Coordenador pelo Prof. Dr. Francisco Negrini Romero, Piracicaba, Universidade Metodista de Piracicaba, 2006.

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