Açúcar: quebra da cana, mas não do açúcar. Lucas Brunetti Economista

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1 Açúcar: quebra da cana, mas não do açúcar Lucas Brunetti Economista

2 Tópicos Crop Tour: efeito da seca El Niño: se vier será mais fraco Conjuntura no resto do mundo e preços

3 Crop Tour: São Paulo e Triângulo Mineiro Nossa recente viagem de quatro dias reforçou a ideia dos problemas que os canaviais estão sofrendo. Percorremos quase 1.8 km, principalmente, nas regiões oeste, noroeste, norte de São Paulo e no Triângulo Mineiro visitando usinas. Além das visitas in loco por áreas que representam mais de 5% da área de cana no C-S do Brasil vários dos grupos visitados têm múltiplas unidades, o que dá uma abrangência maior à amostra. Trajeto percorrido e principais impressões Trajeto da viagem - Olhando separadamente as regiões, as diferenças nas condições são gritantes. Em algumas regiões a produtividade agrícola é maior do que o ano anterior, enquanto na grande maioria a quebra de produção é regra. - Mesmo dentro das regiões a produtividade muda muito em função das características de cada fazenda e da sua sorte em relação as chuvas. Como o regime de pluviométrico foi bem menor esse ano, as chuvas foram mais esparsas e pior distribuída geograficamente, o que causou grande diferença em espaços vizinhos. Na região de Ribeirão Preto esse efeito especialmente visível. - Nas regiões com solo arenoso a seca é mais sentida, enquanto nos solos argilosos e nas áreas com mais de 8 metros de altitude as condições estão melhores. -Uma grande preocupação das usinas é a sua capacidade de produzir açúcar na quantidade suficiente para honrar seus contratos de comercialização nesse cenário de quebra de safra. O impacto de ter que pagar a multa por rescindir os contratos seria muito grande em um ano de margens apertadas

4 Crop Tour: São Paulo e Triângulo Mineiro Apesar de sempre ser causadora de um grandes custos para produtores, as lavouras apresentam um bom controle sobre as pragas nessa safra. Em um período de forte seca, em que as plantações se encontram debilitadas e mais suscetíveis a agressões, o controle das pragas é motivada pelos bons tratos culturais e a renovação dos canaviais dos últimos anos. Ferrugem Alaranjada - Uma das principais pragas que atinge os canaviais nessa safra é a ferrugem alaranjada que se espalha em diversas regiões. Chama atenção o fato de uma doença fúngica se espalhe tanto em um período de seca. No entanto, esse fungo foi mais associado a algumas variedades de cana-deaçúcar e deveria ficar restrito a áreas restritas. Broca - As pestes mais comuns dos canaviais como a broca, cigarrinha, migdolus, nematoides... continuam presentes nessa safra. Porém estão controlados e, apesar de serem um custo adicional, não devem prejudicar a produção de cana-de-açúcar.

5 Chuvas por regiões (I) Em SP as chuvas foram fracas em todas as regiões, em especial Piracicaba, Ribeirão, Jaú (ou Bauru) e Araçatuba. A região de Catanduva que apresentava uma forte seca no início do ano reverteu a situação, por causa das fortes chuvas do final de fevereiro e inicio de março. Chuvas mensais - Araçatuba/SP (mm) Chuvas mensais - Catanduva/SP (mm) Chuvas mensais - Piracicaba/SP (mm) Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Média ' Média ' Chuvas mensais - Ribeirão Preto/SP (mm) Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Média ' Chuvas mensais - Assis/SP (mm) Chuvas mensais Jaú/SP (mm) Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Média ' Média ' Média ' Fonte: CIIAGRI; Pine Research

6 Chuvas por regiões (II) As chuvas foram mais próximas da normalidade nas outras regiões produtoras do C-S Brasil. No Triângulo Mineiro as chuvas ficaram abaixo da média histórica, porém nas áreas de elevada altitude foi mais que suficiente para o bom desenvolvimento da cana. Chuvas mensais - Maringá/PR (mm) Chuvas mensais - Uberaba/MG (mm) Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Média ' Chuvas mensais - Rio Verde/GO (mm) Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Média ' Chuvas mensais - Ivinhema/MS (mm) Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Média ' Média ' Fonte: CIIAGRI; Pine Research

7 Cana-de-açúcar: pontos positivos Apesar das condições climáticas prejudicarem muito o desenvolvimento das plantações, alguns pontos que dependiam de investimentos ainda seguram a queda da produção. O aumento de área plantada e a diminuição da idade média dos canaviais fazem essa safra ser mais resilientes aos impactos climáticos. Essa informação já era conhecida há alguns meses, mas quanto mais adverso o clima mais diferença essas variáveis têm. Além de que, o ciclo perene da planta e as propriedade do solo (capacidade armazenar água, matéria orgânica) fazem dela mais resiliente ao regime de chuvas do que as culturas temporárias Idade do canavial: pequena queda Área colhida: aumento Idade média do canavial Área colhida de cana (mln ha) '14/15: +3% /9 29/1 21/11 211/12 212/13 213/14 214/ /9 29/1 21/11 211/12 212/13 213/14 214/15 Fonte: CONAB, Canasat, UNICA; Pine Research

8 Preços do etanol Os preços relativamente altos do etanol deveriam incentivar a diminuição da produção de açúcar. Em uma safra normal, nosso modelo o mix de açúcar na safra 14/15 cairia de 45% para 42% do total do açúcar produzido. No entanto, devido à quebra de safra as usinas focaram a produção de açúcar para honrar seus contratos de longo prazo de venda de açúcar, enquanto diminuíram a produção de etanol hidratado que normalmente são comercializados no mercado á vista. Preços relativos açúcar e etanol Efeito dos preços sobre o Mix de açúcar 4% 3% 2% 1% % -1% -2% Paridade de preços em relação ao açúcar (%) ESALQ_Hidratado incentivo ao etanol ESALQ_Anidro Equivalência de custos 6% 4% 2% % -2% Mix de açúcar (%a.a.) Preços relativos (%) 35% Mix açúcar Paridade preços (eta-acu/acu) 25% 15% 5% -5% -15% -3% -4% -25% -4% incentivo ao açúcar -6% -35% -5% abr-7 out-7 abr-8 out-8 abr-9 out-9 abr-1 out-1 abr-11 out-11 abr-12 out-12 abr-13 out-13 abr-14 23/4 24/5 25/6 26/7 27/8 28/9 29/1 21/11 Ano- Safra 211/12 212/13 213/14 214/15 * No % o preço do etanol em preço equivalente é igual ao açúcar Fonte: CEPEA, IBGE, UNICA; Pine Research

9 Cana-de-açúcar: queda de cana, mesmo açúcar Ponderando entre as condições atuais de queda na produção e os riscos potenciais pelo restante da safra, esperamos uma queda ainda maior na produtividade agrícola em algumas regiões produtivas. Nos casos extremos, nossa expectativa é que a quebra chega a praticamente 2% na produtividade nas regiões de oeste e sudoeste de SP. Na média, nossa produtividade em SP deve cair 9,6% na comparação anual. Dessa forma, nossa expectativa é de queda de 4,8% na moagem de cana-de-açúcar total no C-S do Brasil na safra 14/15, chegando a 568,5 mln ton. Enquanto a queda na produção de açúcar deverá ser de 6,1% na safra, alcançando a 32,2 mln ton em 14/15. No entanto, frente a estimativa passada da safra 14/15 a moagem de cana caiu (de 578,9 para 568,5), enquanto a produção de açúcar subiu (de 31,9 para 32,2). Produção de cana e açúcar por estado Evolução da produção no C-S do Brasil Safra 214/15 no Centro-Sul do Brasil Estado Cana-de-açúcar Rendimento Ind. Açúcar Alocação em açúcar (mil ton) (kg ATR/ton cana) (mil ton) (% do ATR) MT 16, % MS 44,5 13 1,79 31% GO 63, ,234 28% MG 56, ,279 46% ES 3, % RJ 1, % SP 338, ,577 48% PR 43, ,83 53% RS 9 82 % Centro- Sul 568, , % 212/13 213/14 %a,a, 214/15* %a,a, Cana-de-açúcar (mln ton) % % Açúcar (mln ton) % % Etanol anidro (bln l) % % Etanol hidratado (bln l) % % Etanol total (bln l) % % ATR/ton cana % % Mix (%) Açúcar 49.5% 45.1% 44.% Etanol 5.5% 54.9% 56.% * Projeção PINE Macro & Commodities Research Fonte: IBGE, UNICA; Pine Research

10 Evolução da moagem e morte súbita A velocidade da moagem tem impressionado nesse começo de safra, porém ficam várias dúvidas sobre como permanecerá a safra até o final. Um ponto é que a produção de açúcar e etanol após outubro deverá ser menor que os últimos anos. Outro é quando ela irá parar, nosso cenário é que ela terminará na 1q/nov, mas pode ser antes caso a queda na produção seja maior. Quanto mais curta a safra for menores são os custos de mão de obra e industriais, porém a causa da redução atual faz com que os custo por unidade produzida seja maior no final. Produção de açúcar após Out: menos açúcar no 4T14 Cenários: produção após outubro e fim da safra 12. Produção de açúcar após Outubro (mln ton) Cana-de-açúcar total Cenários Cana-de-açúcar Acúcar Etanol Hidratado Anidro Final da safra 16/nov 1/dez 16/nov 16/nov 1/nov 1/nov 16/out 2. * Considerando como final de safra a primeira quinzena com moagem menor que 1 mln ton. 21/11 211/12 212/13 213/14 214/15 Fonte: UNICA; Pine Research

11 Tópicos Crop Tour: efeito da seca El Niño: se vier será mais fraco Conjuntura no resto do mundo e preços

12 Clima: El Niño Os principais modelos climáticos globais apontam para a ocorrência da elevação da temperatura da superfície das águas do Pacífico sul, fenômeno conhecido como El Nino. Com o aumento da temperatura as estimativas apontavam para o início do fenômeno em julho de 214 e podendo perdurar até o início de O efeito do El Niño (aumento da temperatura no Pacífico) mais famoso é a seca na área que engloba a Índia, o sul da Ásia e a Austrália. No sul do Brasil (e na Argentina) ocorrem chuvas maiores que a média entre dezembro e fevereiro, o que favoreceria a próxima safra de grãos. Outra característica relevante é o clima mais quente que o normal no Brasil central. 2. Anomalia na temperatura trimestral no NINO34 (ºC) ONI La Niña El Niño jan/99 jan/ jan/1 jan/2 jan/3 jan/4 jan/5 jan/6 jan/7 jan/8 jan/9 jan/1 jan/11 jan/12 jan/13 jan/14 Fonte: ABoM; NOAA/USDA; Pine Research

13 Clima: Projeções de El Niño No entanto certeza das agencias meteorológicas não é mais tão consensual como anteriormente, além de ter sua intensidade reduzida no caso da sua ocorrência. Como podemos ver o exemplo abaixo, por exemplo, em abril o escritório de meteorologia australiano tinha uma projeção de El Nino forte, porém em julho já alterou sua projeção para neutro. Outras agências também têm revisto suas projeções para o El Nino mais menos intenso Projeções em abril e julho do BoM para El Niño Consenso das projeções para Outubro/14 Fonte: Australian Bureau of Meteorology; NOAA/USDA; Pine Research

14 Tópicos Crop Tour: efeito da seca El Niño: se vier será mais fraco Conjuntura no resto do mundo e preços

15 Índia A área plantada deverá ser reduzida novamente, porém não ocorrerá nenhuma mudança estrutural ou quebra do setor. Segundo o ministério indiano as monções deverão apresentar um regime normal de chuvas (queda de menos de 3% do normal), apesar do risco de El Nino. Até o momento as monções estão com chuvas mais de 24% abaixo da média histórica, segundo o escritório de. Produção na Índia : nova queda em14/15 Produção na Índia: Maha e UP 3 25 Produção de açúcar (mln ton) Produção de açucar (mln ton) Maharashtra Karnataka Uttar Pradesh Outros /8 28/9 29/1 21/11 211/12 212/13 213/14 214/ /12 212/13 213/14 Fonte: ISMA; Pine Research

16 Tailândia Na Tailândia a área plantada de cana-de-açúcar deverá permanecer constante, porém caso a produtividade industrial volte ao normal ( a safra 13/14 foi espetacular) a produção de açúcar deverá cair quase 1% a/a. O atual problema é que ainda há muito açúcar estocado no país, esperando uma melhora de preços para ser vendido Produção na Tailândia : 13/14 excepcional Exportações na Tailândia: 13/14 ainda fraco Cana-de-açúcar (mln ton) Açúcar (mln ton) 14 Cana-de-açúcar Açúcar Exportações de açúcar (mln ton) /12 212/13 213/14 214/ /12 212/13 213/14 214/15 Fonte:USDA, OCSB ; Pine Research

17 Mudanças políticas na Ásia Nas ultimas semanas ocorreram varias mudanças políticas no Sudeste da Ásia. A mais relevante para o mercado do açúcar é a eleição do governo pró-reformas e pouco intervencionista na Índia. No longo prazo, pode se refletir no fim dos subsídios ou das cotas de importação e exportação. Na Tailândia não devem ocorrer mudanças substanciais, no máximo o fim do subsídio a produção de arroz. Eleições na Índia Golpe de Estado na Tailandia Partido do Congresso : poder estabelecido -Socialista, estatizante, assistencialista - Ligado ao campo e aos pequenos proprietários de terra -Pró- globalização a partir de 2 Shinawatra: governo deposto -Populista: subsidio a produção rural e sistema de saúde -Ligado aos proprietários de terra e aos pobres -Economia em recessão e Partido do Povo (BJP) : maioria pela 1ª vez -Pró-mercado, reformas e privatização -Ligados a nova classe média urbana -Expectativa do fim das restrições de Imp/Exp da Índia Militares : 12º golpe desde Ligados a classe média e as elites -Nacionalistas Fonte: Mídia; Pine Research

18 China A política de preços pagos aos agricultores na China deverá refletir na produção após 2 anos de queda. Produção na China : 13/14 excepcional Preço da cana na China: queda em 2 anos 16. Produção de açúcar (mln ton) 6 Preço de compra de cana em Guangxi (RMB/ton) /11 211/12 212/13 213/14 214/15 29/1 21/11 211/12 212/13 213/14 214/15 Fonte: USDA; Pine Research

19 China As importações chinesas deverão cair nesse ano, pois apesar do açúcar no mercado chinês estar muito mais caro que no mercado internacional, as tarifas out-of-quote restringem fortemente as importações. Preços na China: Guangxi Atratividade de importação na China 1,3 1,2 U$ / ton Lucrativa da importação fora da quota (US$/ton) 1,1. 1, jan-11 abr-11 jul-11 out-11 jan-12 abr-12 jul-12 out-12 jan-13 abr-13 jul-13 out-13 jan-14 abr-14 jul-14 Preco do acucar na China - Nanning Guangxi Preço do açúcar Nº11 (cents/lb) Fonte: USDA/Bloomberg; Pine Research

20 Europa Área plantada de beterraba sacarina na EU28 deve ser maior, com crescimento especial na Alemanha e França (área de maior produtividade). Na Rússia a área deve cair 5% a/a e na Ucrânia o crescimento é de 8%, considerando a produtividade normal, a soma da produção ficará estável. Rússia e Ucrânia: somatório neutro União Europeia: crescimento Produção de açúcar (mln ton) Russia 4.4 Ucrania Produção de açúcar (mln ton) /11 211/12 212/13 213/14 214/ /11 211/12 212/13 213/14 214/15 Fonte: USDA; Pine Research

21 Brasil - NNE A safra 13/14 terminou com péssimos indicadores de produção agrícola e produtividade industrial (ATR/ton de cana). Já para a próxima safra, a produtividade deve retornar a normalidade, mas a produção agrícola deve permanecer abaixo dos 6 mln ton, por causa do fechamento de importantes usinas. Produção de cana-de-açúcar no NNE Produção de açúcar e etanol no NNE Cana de açúcar (mln ton) Açúcar (mln ton) Etanol (mil m3) Açúcar Anidro Hidratado ,5 1,25 1, /11 211/12 212/13 213/14 214/15. 21/11 211/12 212/13 213/14 214/15 Fonte: MAPA/Bloomberg; Pine Research

22 Preços Apesar do mercado spot estar muito ofertado com o produto, além dos estoques acumulados nas últimas safras: forte produção no Brasil, estoques na Tailândia, produto que precisa ser exportado na América Central até o início da próxima safra. A safra 214/15 deverá apresentar menor disponibilidade de produto e redução na produção. Além disso, o cenário atual deverá também prejudicar a oferta de 15/16. Os pontos que devem fazer os preços subirem devem ser: continuidade do clima mais adverso na Índia, fim prematuro da safra no Brasil e possível mudança nas políticas energéticas no Brasil. Além de possíveis problemas na oferta nos países produtores Preços e projeção Estoques mundiais 35. Açúcar - U$ cents / lb 1 Variação nos Estoques mundiais (mln ton) Projeção 3Q Q Q Q jan-9 jul-9 jan-1 jul-1 jan-11 jul-11 jan-12 jul-12 jan-13 jul-13 jan-14 jul-14 jan-15 27/8 28/9 29/1 21/11 211/12 212/13 213/14 214/15 Fonte: CEPEA, IBGE, UNICA; Pine Research

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