Novas Paisagens de Texturas Distantes por Alexandre Belém

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1 Novas Paisagens de Texturas Distantes por Alexandre Belém Alguns artistas percebem seus processos de criação como uma viagem. Outros escolhem a digressão para seguir tentando compreender a vida através da fotografia. Para estes, viajar fisicamente é o irromper de um estado para atingir um outro, no qual sentir faz parte do encontro em aproximar-se das coisas por elas mesmas. Desviar do já realizado também tem seu respeitoso sentido de desafogar, ativar outros mecanismos poéticos e, até mesmo, de reencontra-se com as memórias do afeto. No ensaio Shadows and Light, Cravo faz da sua fotografia digressão. Faz deste novo trabalho uma reflexão, um proposta de cisão estética. Ou melhor, vincula sua intuição e busca certa cartografia de paisagens arenosas, assim como é movediça nossa existência no mundo. Como um ritual, um encontro com a sua fotografia e vocação, o ato de viajar é inerente ao trabalho de Cravo. Shadows and Light é o resultado de sete incursões por cinco países africanos realizadas desde Em jornadas que duravam de 20 a 25 dias pela Namíbia, Botsuana, Zâmbia, Quênia e Tanzânia, Cravo entrava naquele que é o seu território de trabalho: a imersão fotográfica profunda e intensa. Não pensemos aqui em limites ou territórios geográficos. O espaço é mais simbólico. É onde a alma do fotógrafo encontra com o seu passado, sua raízes, suas motivações de viver e, também, procura novos caminhos e realizações. Sempre ligado aos temas das expressões populares de religiosidade, Cravo se destaca como um dos mais bem sucedidos fotógrafos brasileiros das últimas décadas. A documentação da fé no interior do nordeste brasileiro e o trabalho realizado no Haiti são obras fundamentais da história da fotografia brasileira. E com a mesma dedicação que se entrega pelos mistérios da natureza humana, Cravo foi buscar experiências e vivências nas paisagens e animais do continente africano. Nascido no estado da Bahia, num círculo artístico muito forte, Cravo viveu até os 22 anos na Dinamarca. Os seus ensaios anteriores surgiram da necessidade de conhecer o Brasil e seus aspectos culturais. O calor humano, a expressão e a manifestação religiosa, poucos presentes no país escandinavo. Depois do nordeste brasileiro, o Haiti surgiu naturalmente. Por que este giro de 360 graus na temática? Nada é tão consciente ou cartesiano. Dois fatos marcaram o novo rumo de Cravo. Em 2009, o seu pai, o artista plástico e fotógrafo Mario Cravo Neto morreu deixando uma obra magistral e gerações inebriadas de influências. No começo de 2010, um terremoto no Haiti destruiu boa parte do país. Cravo, que havia trabalhado por dez anos no local e produzido o pujante ensaio Nos Jardins do Éden, perdeu amigos. Decepção humana é a definição que o próprio artista usa para esta fase. De concreto surgiu o desafio de reinventar-se e traçar uma nova rota. Nesta exposição, as 29 obras não seguem uma lógica cronológica, certa narrativa objetiva ou dada catalogação metódica. O tom férrico e mineral das ampliações, fruto do processo platina/paládio, enfatizam ainda mais as possibilidades conceituas que se abriram para Christian Cravo. Assim, Shadows and Light com sua estética e formas abstratas aproximou o fotógrafo das suas raízes e, principalmente, das obras de seu pai e do seu avô, Mario Cravo Junior. Com sua fotografia, Cravo percebeu que desviar é uma conduta possível para vislumbrar o entendimento de si mesmo, de sua história, através da plasticidade que se pode extrair ao viajar pelo mundo. E quem sabe, conseguir algum conforto ao criar e projetar novas paisagens de texturas distantes, coladas pelo olhar de quem busca e se inquieta com a vida. Texto de Alexandre Belém sobre o ensaio Luz e Sombras de Christian Cravo.

2 Jardins do Éden por Christian Cravo Como fotógrafo busco entender o homem através de imagens que se revelam no decorrer do meu caminho. Faço da minha visão um instrumento para contar uma história que é acima de tudo humana. A partir de temas definidos procuro representar o homem numa estrutura iconográfica. Neste sentido, vejo o Haiti como a expressão máxima da essência humana. Estamos falando de uma sociedade com características muito particulares, intensamente espiritualizada, repleta de simbologias, onde a falta de pudor do povo se apresenta por meio de elementos de grande pureza. E é a pureza nas relações do homem na manifestação do seu credo que desperta meu olhar. A amplitude filosófica que podemos traçar a partir da existência humana no Haiti é algo perturbador e incrível. Jardins do Éden é, no meu entender, o título que melhor representa a singularidade do povo haitiano. Esta idéia nos remete aos primórdios, ao momento em que o homem estava intrinsecamente ligado à natureza e se descobria através dela. Momento este, em que não existia o pecado e os corpos nus habitavam todo e qualquer espaço, pois pertenciam a todos eles. Momentos de prazer profundo do homem em fusão com a natureza e seus elementos. O animismo elevado à máxima potência, realizando desejos, buscando novas esperanças para um povo oriundo da África, que possui em suas raízes relações mágicas com o divino. Texto de Christian Cravo sobre o ensaio Nos Jardins do Éden.

3 Águas da Esperança por Christian Cravo O conceito científico da evolução da vida neste planeta fornece uma visão restrita do papel da água em nossas vidas. Esta visão tem de ser revista para identificar a fonte da crise de sustentabilidade que hora enfrentamos: vendo a água como uma fonte de vida e não apenas um recurso infra estrutural necessário para o bem-estar e o funcionamento de todas as sociedades. Desde os tempos primordiais, quando os quatro elementos água, terra, fogo e ar foram identificados como meios de comunicação com o sagrado, o uso sacramental da água em cerimônias de batismo e ritos de purificação deu a este líquido um lugar especial na imaginação humana e no inconsciente religioso, formando no decorrer do último milênio a nossa atual relação com a água como elemento sagrado. Texto de Christian Cravo sobre o ensaio Águas da Esperança.

4 Rome Noire por Miguel Rio Branco Debaixo das sombras escorre uma sombra mas densa. Ela se move a procura do mágico. Não mágico prestigitador, aquele que engana, mas o mágico que é mistério. Atrás das sombras existe uma profunda magia. Movimento de bicho, elo perdido, gasto no sonho de um dormir provocado, derrubado, induzido por desespero certeiro. Corpos caídos, por cima, a sombra, o negror. Real, material-prima para quem o sabe moldar a imagem de seu sentir e, assim, retratar sua busca interna. O mistério do próprio eu transmitido nas imagens. A magia do que procuramos em nós através desse lado de fora que enganosamente chamam de realidade. A faca que penteia deixa ver a cicatriz que não é dor, apenas tensão do que esta por vir. Por debaixo das sombras esta não a vontade de mostrar, mas aquela de deixar sonhar, de soltar a imaginação. Aquela silhueta no mar, afinal, estará se envolvendo em espumas? Miguel Rio Branco Texto de Miguel Rio Branco sobre o ensaio Rome Noire de Christian Cravo.

5 Irredentos por Walter Salles Jean-Luc Godard costuma dizer que a televisão fabrica o esquecimento. Já o cinema, argumenta, pode às vezes criar uma memória, um reflexo onde conseguimos nos ver representados. Não é só o cinema que nos oferece essa possibilidade. Nunca me esquecerei do dia em que vi, pela primeira vez, as fotografias de Christian Cravo feitas no sertão nordestino. Estavam expostas no espaço Pierre Verger, em Salvador, e agora fazem parte deste belíssimo livro que é Irredentos. Mãos pedindo aos céus aquilo que é negado na Terra. Rostos em transe. O olhar de um cego, superposto ao de Padre Cícero. Chapéus de palha pousados sobre o rosto da Virgem Maria. Braços que erguem sofregamente um crucifixo. Dedos negros que acariciam o caixão de um parente. Não há nessas imagens a visão apriorística de quem julga aquilo que enquadra. Não há cinismo. As fotos de Christian Cravo, ao contrário, partem do desejo de entender e retratar aquilo que vê. Esse pressuposto humanista faz com que a distância entre fotógrafo e objeto fotografado seja eliminada. Em consequência, aqui não há máscara ou representação. Apenas um daqueles raros momentos em que um povo é retratado de forma íntegra e solidária, sem manipulação ou paternalismo. É a geografia física e sobretudo humana de todo um pedaço do Brasil que ganha aqui contorno. E, se a obra de Cravo é imbuída de um sentimento de compaixão, ela não é, por outro lado, miserabilista ou dogmática. As imagens, de uma profunda beleza, são secas, ásperas, quase minerais. À nossa frente há apenas a vida como ela é, sem adorno ou mise-en-scène. Folheando o livro, percebe-se como é direta a relação entre religiosidade e necessidade. Irredentos retrata com ressonância poética e precisão cirúrgica aquilo que não queremos muitas vezes ver. A nossa incapacidade de resolver problemas estruturais, que se tornam crônicos, endêmicos. Em 1964, Glauber Rocha escreveu um texto contundente e revelador sobre o sertão, onde nega a sentença de Euclides da Cunha: O sertanejo não é, antes de tudo, um forte. ( ) um servo da mais primitiva condição à sua resistência já é na própria morte, não é na vida. As fotos de Christian Cravo nos levam a pensar que, talvez, tanto Euclides da Cunha quanto Glauber Rocha tivessem razão. Num quadro de total abandono, a sobrevivência já é em si um ato de coragem. A religião, por outro lado, aparece como a única tábua de salvação num mundo onde o Estado está secularmente ausente. O imenso talento de Cravo, perceptível nos enquadramentos surpreendentes e na expressividade luminosa dos homens retratados, cria camadas adicionais de decodificação de um universo rico em contradições. O trabalho que o fotógrafo reúne em Irredentos tem uma qualidade universal e transcendente. É, de certa forma, um milagre, mas não de caráter religioso, e sim aquele possibilitado pela ação do artista, que permite que nós possamos nos ver, subitamente, refletidos em corpos e rostos que nos pareciam tão distantes e que nos são, na verdade, surpreendentemente próximos. Algumas palavras a mais sobre essas imagens que Christian Cravo nos oferece, a meio caminho entre o céu e a terra. Ao percorrê-las mais uma vez, lembro-me de uma frase do fotógrafo suíço- -americano Robert Frank, sobre a utilização do preto-e-branco. Um dos pais da moderna fotografia

6 documental, Frank diz que o preto-e-branco traz consigo, paradoxalmente, a esperança e a desesperança. Não consigo pensar num trabalho de um jovem fotógrafo tão imbuído dessa aparente contradição. Em cada rosto que espera, em cada mão erguida para o céu, há doses iguais de sofrimento e esperança. Há, talvez, a impressão de que, por mais dura que seja a realidade, alguma transformação ainda seja possível. É desse desejo de transformação e de transcendência espiritual que é também feito este livro. Texto de Walter Salles sobre o ensaio Irredentos de Christian Cravo.

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