UNIVERSIDADE ANHANGUERA-UNIDERP PÓS-GRADUAÇÃO GESTÃO DE PLANOS DE SAÚDE

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1 UNIVERSIDADE ANHANGUERA-UNIDERP PÓS-GRADUAÇÃO GESTÃO DE PLANOS DE SAÚDE UNIMED PAULISTANA: RECONSTRUÇÃO DE UMA COOPERATIVA EM TEMPOS DE CRISE ANA REGINA CRUZ VLAINICH SÃO PAULO /SP 2011 Artigo apresentada para Trabalho de conclusão de curso de pós-graduação à Universidade Anhanguera, Curso: Gestão em planos de saúde Descritivo de caso de empresa Cooperativa em planos de saúde como requisito para obtenção de título. Área de concentração: Administração Orientadora: Dra. Alba Valéria Eira Fleury

2 DEDICATÓRIA; Dedico este trabalho a meu muito amado esposo, Roberto, que sempre me estimula e sem seu apoio eu não teria conseguido crescer profissionalmente e aos meus filhos Gabriel, Catarina e Vitor pela paciência em entender a minha ausência, em uma abdicação egocêntrica que a dedicação profissional exige de companheiros de viagem. 2

3 AGRADECIMENTOS Agradecer é só o que posso fazer, num mar de doações e compreensões onde fica, solitariamente, uma mulher que escolhe o aprimoramento em detrimento do tempo que deixa de estar com os que ama. Grande é minha lista de agradecimentos, (o que me torna uma pessoa de sorte): Deus, Jesus amado, tenho antes uma obrigação, pois mesmo sabendo de minha pequenez, o Senhor se dignou a me orientar neste caminho. Agradeço a minha orientadora, Alba, pela atenção e exemplo de inteligência e dignidade, orgulho das mulheres na administração, Aos meus Pais, Adriano (in memorian) e Anna Vera, por tudo em minha vida, Ao colega e professor Marcos Santos, pelo auxílio e companheirismo, Sou eternamente grata! Um estudante tem a força do pensamento de Gandhi: O que você pensa - passa a ser. Humildemente, peço que Deus devolva a todos em paz de espírito. 3

4 RESUMO Descrição da reconstrução de Cooperativa da saúde suplementar em crise pelo grande passivo tributário, Governança Corporativa enfraquecida por direção autocrática prolongada e estrutura administrativa interna desconstruída. Estudo realizado através da análise evolutiva cronológica de balanços, documentos, dados e descrição dos fatos mais marcantes neste período tão conturbado e das ações visando a manutenção das atividades da empresa, retorno aos princípios cooperativistas, adequação às normas regulatórias da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), constituição das Provisões técnicas, reforma do estatuto e principalmente regularização do passivo tributária que constava de árdua e trabalhosa valoração do montante, reconhecimento pelos cooperados, inserção e regularização no balanço. Análise das ameaças externas concomitantes: pandemia de gripe suína, crise mundial, decreto dos SAC (Serviços de atendimento ao consumidor) e adequação às normas contábeis internacionais. Palavras-chave: COOPERATIVA, BALANÇO, CRISE, REGULAÇÃO, GOVERNANÇA CORPORATIVA, PASSIVO TRIBUTÁRIO ABSTRACT A case description of a health care Cooperative reconstruction in crisis due to the enormous tax liabilities, weakened cooperative governance by a long time of autocratic management and internal administrative structure ruined. This study was done by the analyses of the chronological evolutionary balance sheet, documents, data and descriptions of the most remarkable facts of this disturbing period and the actions done to preserve the corporation activity, return to the cooperative principles, adjustment to regulatory demands of the National Health Care Agency (ANS), constitute the technical provisions, amendment to the bylaws of the company and tax liabilities regularization by arduous and slogging determination of the real value, the cooperative members (doctors) acceptance, insertion in the balance sheet. It was also done an analysis of the external threats concurring: Swine flu pandemic, world crisis, contact-centers edict and adjustment to the International Financial Reporting Standards (IFRS). Keywords: COOPERATIVE, BALANCE SHEET, CRISIS, REGULATION, CORPORATIVE GOVERNANCE, TAX LIABILITIES 4

5 SUMÁRIO: PÁGINA 1. INTRODUÇÃO PROBLEMA DA PESQUISA OBJETIVO METODOLOGIA REFERENCIAL TEÓRICO DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO HISTÓRICO e SITUAÇÃO FISCAL: a- ANO b- ANO Quadro 1: AGO realizadas, número total de cooperados, presença de cooperados na assembléia em % Quadro 2: AGE realizadas, número total de cooperados, presença de cooperados na assembléia em % e pautas c- ANO d- ANO e- ANO FATOS EXTEMPORÂNEOS COMPLICANTES de 2007 a 2009: a- CONTEXTO NACIONAL b- CONTEXTO GLOBAL CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE

6 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Parecer dos auditores ano-2005, BALANÇO 2006: AGO março Figura 2: Ativo, Passivo Figura 3: DRE (Demonstração do resultado do exercício) Figura 4: Nota explicativa sobre as Contingências passivas Figura 5: Ressalvas do Conselho fiscal Figura 6: Parecer dos auditores independentes BALANÇO 2007: AGO março Figura 7: Ativo, Passivo Figura 8: DRE Figura 9:Contingências tributárias Figura 10: Parecer dos auditores independentes. BALANÇO 2008: AGO março Figura 11: Ativo, Passivo Figura 12: DRE e Contingências tributárias Figura 13: Parecer dos auditores independentes. BALANÇO 2009: AGO março Figura 14: Conta corrente cooperados Figura 15: Ativo, Passivo Figura 16: DRE Figura 17: Parecer dos Auditores independentes. BALANÇO 2010: AGO março Figura 18: Ativo, Passivo Figura 19: Parecer dos auditores independentes. Figura 20: DRE 6

7 1. INTRODUÇÃO Este tema é particularmente interessante pois hoje o Sistema Unimed é a maior experiência cooperativista em saúde no mundo e a maior rede de planos de saúde do Brasil; 372 cooperativas detém 37% do mercado, presentes em 83% do território nacional; 17 milhões de clientes; mais de 110 mil cooperados médicos, há 17 anos marca Top of Mind (Unimed do Brasil, 2011). Neste universo, a singular Unimed Paulistana cooperativa de trabalho médico (UP) é hoje uma das maiores. As dificuldades enfrentadas por empresas são assuntos delicados para seus dirigentes havendo poucos casos descritos que tenham passado por sensíveis reformas. Deseja-se a análise retrospectiva das diversidades vividas nesta empresa que já é naturalmente do mais alto grau de complexidade: é cooperativa, com sua inerente instabilidade política e conflito de interesses pois os sócios são também dirigentes, prestadores e clientes; é composta de profissionais liberais de nível superior, médicos, todavia com pouco interesse e/ou formação administrativa; em uma metrópole com o mais alto grau de concorrência (São Paulo); é um ramo de negócio que passa por reforma regulatória da Agência Nacional de Saúde (ANS); além de já ter alto grau de regulação já existente (conselhos de classe, órgãos de vigilância sanitária nacional, estadual, municipal e órgãos de defesa do consumidor). A UP nasceu em 1971 e em 1978 assumiu um presidente que, sem cláusula estatutária restritiva à reeleição, permaneceria até 2007 (29 anos) Desde então tem seu Conselho de administração (CA) composto por 8 membros (5 vogais e 3 diretores executivos). Este case da UP teve ainda a agravante sensação de déjà vu com a falência da Unimed São Paulo em 2000, histórico assustador para todos os stakeholders (clientes, prestadores, cooperados). À partir da percepção, em 2006, pelo Conselho Fiscal (CF) da existência de perigoso passivo tributário, iniciou-se período marcado por conturbadas e imprescindíveis mudanças econômicas, financeiras e políticas. Para a manutenção das atividades da empresa foi necessária a árdua identificação do valor real das pendências tributárias, seu reconhecimento pelos cooperados, regularização no balanço, composição das provisões exigidas pela ANS, reedificação das estruturas internas (Governança) e retorno aos princípios cooperativistas. 7

8 2. PROBLEMA DA PESQUISA As cooperativas são modelos de empresas mundiais há quase 200 anos precursoras de governança bem antes das outras corporações, mas sua gestão ainda representa um desafio à administração moderna. De base democrática, deveriam ser extremamente transparentes, coletivas e construtivas, mas inerente ao caráter sociológico do ser humano e suas inter-relações com estruturas de poder, a participação dos cooperados (sócios) é ínfima e não são poucos os casos em que se nota a perpetuação de grupos com interesses individuais autocráticos que enfraquecem tanto as estruturas de Governança Corporativa quanto as defesas para situações de crise. Estudos que identifiquem o grau de evolução interno das empresas e a compreensão das relações psico-sociológicas em universo tão repleto de variáveis, contribuem para a escolha do melhor modo de gestão e na seleção de técnicas que serão determinantes na eficiência desta. As cooperativas se propõem a união de forças para melhorar não só a situação econômica mas também a sócio-cultural. Enquanto inseridas no mercado, algumas prosperam com modelos modernos, governança bem desenhada e sob forte regulação, contrastando com outras obsoletas, lentas, atropeladas pela eficiência das corporações de capital atuais. Nada melhor que a avaliação de erros e acertos (case) para se aprender com as experiências anteriores e valorizar, antes de criticar, o quão árduo pode ser aos dirigentes uma empreitada. Para isto este estudo usa a descrição do complexo processo de reconstrução em cooperativa de saúde suplementar em crise dado o grande passivo tributário, Governança Corporativa enfraquecida por governo autocrático e estrutura administrativa interna desconstruída embasada na análise econômico-financeira e de fatos ocorridos neste período de grande conturbação. 3. OBJETIVO O objetivo deste artigo é, através do privilégio da visão retrospectiva, perceber quão complexas são as dificuldades encontradas no enfrentamento da grave situação desta empresa, disponibilizando às gerações futuras elementos para pesquisa e estudos administrativos, servir de alicerce e aprendizado para situações 8

9 semelhantes (em cooperativas ou não) e contribuir inclusive para a construção de normas regulatórias. 4. METODOLOGIA Como método demonstrativo utilizou-se descritivo histórico retrospectivo de balanços e informações contábeis, informações na imprensa, fatos, estatutos, assembléias e outros, sendo todos os documentos de domínio público, apresentando a evolução cronológica dos caminhos percorridos nos processos de reconstrução interna e equalização do passivo tributário, melhoria da Governança Corporativa da UP de 2006 a 2010, baseando-se em Cardoso (2009) que defende a boa qualidade da informação contábil como reflexo de boa gestão. 5. REFERENCIAL TEÓRICO Entender suas fraquezas o faz descobrir quem é realmente seu inimigo. Em A arte da guerra (Sun Tzu, 2000) encontram-se recomendações que tendem a garantir segurança, diminuir riscos, referentes ao reconhecimento tático, à observação, ao patrulhamento dos flancos. Assim também devem fazer as empresas em situações de crise, criando os responsáveis CF, CA e executivos, além de estratégias, novos mecanismos de fiscalização, redimindo riscos e permitindo a perpetuação das empresas (Manual de CF, 2011). A inobservância de Leis (5764 das Cooperativas e 9656 dos Planos de saúde) e das normas dos Órgãos reguladores, aliada à baixa profissionalização são os perigos mais comuns nas empresas familiares e cooperativas. Segundo estudos do respeitado IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), Fontes Filho (2009) refere que o desenvolvimento de governança sustentável deve ser avaliado com urgência em épocas de riscos elevados, sejam internos ou externos, especialmente, complementa Ferraz, 2008, em mercado globalizado e tão complexo como o dos planos de saúde no Brasil. Como afirma Farr (2002,p.145), A principal razão de se examinar criticamente o passado é compreender melhor o presente e, acrescentamos, lançar alguma luz sobre tendências futuras. Trabalhar com história significa não 9

10 chegar jamais ao fim, novos documentos e indícios podem ser encontrados e cada pesquisa contribui com uma pequena pedra para um edifício que não tem fim. Este descritivo pode ser considerado inédito, porque a literatura do ramo cooperativista descreve crises em áreas como agronegócio mas não há estudos nas cooperativas Unimed (nem mesmo nos arquivos da Fundação Unimed ou Capes), fato que enobrece esta análise. O caso da Unimed São Paulo é citado apenas na imprensa, como em 2000 no Jornal O Estado de São Paulo que já alertava do risco abranger todo o sistema. A relevância deste estudo está em valorizar o fato de que os gestores das empresas devem utilizar os índices da análise contábil-financeira para tomarem decisões relativas às forças, fraquezas, oportunidades e ameaças à organização (Macedo,2003), como também o mercado e stakeholders podem se utilizar destas informações para evitar erros e analisar riscos. 6. DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO 6.1- HISTÓRICO e SITUAÇÃO FISCAL: 6.1.a- ANO DE 2006: O CF é órgão que deve ter participação imprescindível de fiscalização e exercer seu trabalho com independência, não importando se é de situação ou oposição, pois representa os melhores interesses para a empresa conforme foi exaltado por Fontes Filho e Lancellotti (2009). Em 2006 o CF da UP trabalhando em situação precária, em sala isolada, sem qualquer tecnologia detectou que a empresa tinha montante de passivo tributário, que não constava dos balanços anteriores a não ser em apenas discreta citação no parecer dos auditores independentes em 2005,(Fig. 1) se omitindo em 2006, com valor estimado, à época, de R$339milhões (Fig. 4), os quais se acumularam pois, as direções anteriores e a assessoria jurídica interpretavam a lei das cooperativas de modo a não recolher estes impostos por terem tratamento tributário diferenciado. Neste mesmo raciocínio, também notou o CF que não havia provisão contábilfinanceira para tal fim e que a empresa nem mesmo reconhecia a ANS como reguladora do setor. O CF, de maneira responsável, levou os fatos à diretoria e ao CA mas não obteve respaldo, conforme fez constar em suas atas. Levou então, à 10

11 assembléia pela primeira vez, apesar da pressão que acompanhou tal ato, posicionamento escrito onde apontava ressalvas à gestão (Fog. 5). Isto conseguiu exercer nos cooperados efeito de alerta sobre a situação real e se tornaria um plano de vôo para os próximos anos. Inicia-se grande batalha pois as mudanças descortinariam situação extremamente complicada, própria de quedas ditatoriais, com interesses próprios de forças estabelecidas e a fragilidade interna pela realidade do passivo tributário de 30 anos a ser entendido, quantificado e equalizado; sempre sob a ameaça de instauração de direção fiscal pela ANS. Figura 1: Parecer dos auditores de 2005: Figura 2: Nota explicativa sobre as Contingências passivas-2006 BALANÇO 2006: AGO março

12 Figura 3: Ativo, Passivo Figura 4: DRE (Demonstração do resultado do exercício) 12

13 Figura 5: Ressalvas do Conselho fiscal 13

14 Figura 6: Parecer dos auditores independentes 6.1.b- ANO DE 2007: Na Assembléia Geral Ordinária (AGO), os cooperados, tomando ciência da situação fiscal e administrativa, solicitaram e a Diretoria e CA se demitiram. Em primeiro de junho, em Assembléia Geral Extraordinária (AGE) com presença inédita de 59% dos cooperados, o novo CA e Diretoria assumem, após rápido processo eleitoral disputado entre duas chapas. Não houve qualquer passagem de funções pelos antecessores ou período intermediário dificultando o conhecimento das rotinas administrativas, inclusive os diretores assinaram neste mesmo dia, que era data limite de envio à ANS, Plano de Recuperação que já estava pronto. Este seria recusado assim como alguns outros posteriores, pois havia a necessidade de real valoração do passivo tributário e inserção em balanço. Importante ressaltar que, rompendo padrões, a presença inédita (em 35 anos) da mulher na gestão da UP, foi em 2006 (CF) e em 2007 (CA e Diretoria executiva). Inicia-se então período de conturbado processo político interno. Por vários anos ninguém ousou se antagonizar ao poder do presidente; mas com a abertura 14

15 surgem as naturais oposições e, neste clima, um dos membros do CA solicita demissão do cargo. A estratégia escolhida para a sobrevivência da empresa foi o retorno aos princípios cooperativistas e a melhoria da governança com: valorização do trabalho do cooperado (o atendimento médico era realizado em sua maioria por pessoas jurídicas); criação de espaço para estes ( Casa do cooperado );incentivo amplo à entrada de novos cooperados (aumento de 34%) (Quadro 1); valorização dos Conselhos (salas equipadas, secretarias e assessorias); criação através da eleição direta de Comissão de estatuto para incentivo à disseminação dos conhecimentos e discussão de propostas e reforma deste. Quadro 1: Participações nas AGO, número total de cooperados, presença de cooperados na assembléia em % Observar crescimento do n o. de cooperados e da presença de 2007 a 2009 AGO Nºcooperados %participação 10% 27% 21% 24% 18% A transparência incentivou o entendimento e participação dos cooperados que, sendo médicos, detinham pouco conhecimento administrativo; para tanto foram realizadas várias AGEs em 2007, além de 2 workshops de gestão.(quadro 2) Quadro 2: AGE realizadas, número total de cooperados, presença de cooperados na assembléia em % e pautas AGE 29/03/ /07/ /12/ /04/ /05/ /11/2007 Nºcooperados %participação 7% 5% 25% 14% 59% 21% Assuntos em pauta Reforma do estatuto Criação de previdência privada Plano de re - adequação Reforma do estatuto. Eleição de Diretoria e CA Reforma do estatuto. AGE 16/10/ /11/ /02/ /06/ /09/2009 Nºcooperados %participação 15% 8% 45% 24% 5% Assuntos em pauta Apresentações da gestão e gravidade da situação dos tributos Reforma ampla do estatuto Aprovação da IN 20- ANS. Não aprovada Inserção das pendências tributárias em balanço Aprovação do plano de recuperação- 24meses 15

16 Foi necessário grande esforço para cumprimento das quase 260 Resoluções e Instruções normativas (IN) já editadas de 2000 a 2007 pela ANS, que variavam desde correção de contratos com prestadores até a composição financeira das provisões exigidas, mas a tarefa principal era identificação do valor real e regularização no balanço das pendências tributárias. Para tantos desafios contou-se com a assessoria da Fundação Unimed que trouxe a visão técnica do negócio, contratando profissionais do mercado e orientando sobre particularidades da gestão complexa de planos de saúde e de cooperativas. Profundas mudanças são observadas no balanço de No parecer da auditoria é importante ressaltar o último parágrafo, onde se explica que devido aos muitos ajustes efetuados para melhorar a qualidade da contabilidade tornou-se impossível comparar os dados de um ano e outro. Nas notas explicativas é possível observar que os ajustes de exercícios anteriores (em torno de 63 milhões) consumiram todo o resultado gerado pelo trabalho incessante da nova diretoria, restando ainda, saldo a ser compensado no ano seguinte. Observe-se que a contingência tributária em 2006 era calculada pela gestão anterior em R$339 milhões, enquanto em 2007, foi constatado valor acima de R$1 bilhão, valor que seria ainda revisto nos anos subseqüentes. Em estudo sobre o endividamento das empresas baseado no balanço anual publicado, calculado pela relação exigível sobre o ativo total, a UP aparece como a empresa mais endividada do Brasil com 230,4%. (Revista Exame -2011). 16

17 BALANÇO 2007 (AGO ) Figura 7: Ativo, Passivo Figura 8: DRE 17

18 Figura 9:Contingências tributárias Figura 10: Parecer dos auditores independentes 18

19 6.1.c- ANO DE 2008: As áreas contábil, financeira e jurídica dedicaram grande esforço durante todo o ano de 2008, para identificar a verdadeira quantia deste passivo. As dificuldades advinham dos vários problemas administrativos internos, precárias descrições de processos e confuso armazenamento dos dados contábeis, dependia-se dos conhecimentos pessoais dos colaboradores pois grave era também a situação da Tecnologia de Informação com obsolescência, insegurança em sistemas e até de área física (risco de incêndio). O esforço para regularização da empresa e para se adequar às demandas do IFRS foi reconhecido neste ano, recebendo das mãos do presidente do Banco Central o Prêmio Balanço Anual Gazeta Mercantil. Ao fim do ano conseguiu-se alguma definição do valor das contingências passivas tributárias, faltava ainda, inserção em balanço. A ANS lançou a IN nº 20 em outubro de 2008 que permitia em seu Art. 4º que facultava: As Operadoras de Planos...Cooperativas Médicas...na AGO de 2008 que deliberarem pela transferência para seus cooperados da responsabilidade de pagamento das Obrigações Legais... e contabilizados...no Passivo Circulante ou no Passivo Exigível a Longo Prazo, poderão, excepcionalmente, transferi-los da conta de Lucros ou Prejuízos Acumulados para o Ativo Realizável a Longo Prazo. Restava explicar aos cooperados desta necessidade e oportunidade de inserção no passivo e ativo simultaneamente. Vários pareceres foram enviados aos cooperados, realizados workshops diários nos vários municípios da empresa, abertos inclusive à presença de advogados e contadores que fossem da confiança do cooperado. À medida que se definiam a complexidade e a gravidade da situação do passivo tributário era sensível o crescimento do temor dos cooperados, totalmente compreensível. Muitos já estavam envolvidos no processo de falência da Unimed São Paulo e eles desconheciam a real situação devido às informações vagas até 2006, conforme pode ser verificado nos balanços. Assim, sob a constante ameaça de direção fiscal, os cooperados se tornaram alvos fáceis para informações confusas pois, houve grande incentivo da nova gestão à discussão e à participação, então surgiram nas redes sociais um número enorme de s questionadores, soluções mirabolantes, ofensas pessoais e a familiares, 19

20 que não ficaram restritos aos sócios, sendo enviados a empresas clientes, concorrentes, corretores, ANS, imprensa, colaboradores e órgãos públicos. Assim, a situação financeira foi muito afetada com aumento do uso do plano pelos clientes (sinistralidade) e prejudicando suas vendas, além de perda de colaboradores importantes, como a Superintendente financeira e da saída voluntária de vários cooperados inclusive a esposa de um Conselheiro de Administração, gerando grande insegurança sobre a situação da empresa no mercado. Neste ambiente, foi realizada em fevereiro uma conturbada AGE mas os cooperados presentes (45% do total) votaram contra a opção facultada pela ANS de inserção em balanço, dissociados do resto do sistema pois as outras Unimed em situação semelhante a aprovaram. Assim, em março o balanço foi aprovado ainda fora das normas contábeis por decisão dos sócios (AGO ) Figura 11: Ativo, Passivo 20

21 Figura 12: DRE e Contingências tributárias Figura 13: Parecer dos auditores independentes. 21

22 6.1.d- ANO DE 2009: Após a AGO outro membro do CA abandona o cargo. Alguns cooperados, inclusive, entraram com ação contra a IN20 e perderam sofrendo por isto até bloqueio judicial de seus bens. Em junho de 2009 a ANS permitiu a reavaliação da inserção da contingência em balanço e, numa AGE, os cooperados aceitaram provisionar com denominação conta-corrente com o cooperado. Uma vez regularizada esta exigência foi possível o envio de Plano de Recuperação, aprovado numa AGE em setembro. Com a criação do Refis em 2009, foi decidido em Assembléia pela inscrição dos passivos tributários federais que, dadas as dificuldades do Governo Federal, só seria realizado em A empresa bastante impactada por toda esta sequência de eventos acrescida de decreto federal (do SAC) e epidemia de gripe, que elevaram em muito seus custos, crise mundial comprometendo o crédito financeiro, apresentou importante comprometimento do fluxo de caixa; diante disto, os diretores da ANS decidiram em setembro de 2009 instalar Regime de direção fiscal. Um questionamento jurídico foi aprovado pelo CA sem êxito. Em novembro de 2009 a Diretoria Executiva foi afastada com a alegação da ANS, de obstrução a este regime. Os 3 membros da Diretoria foram então substituídos pelos 3 Conselheiros vogais restantes, em polêmico processo político supostamente permitido pelo estatuto com o aval do CF. Fecha-se o ano com Resultado negativo que seria neutralizado pela devolução dos valores já realizados da Provisão de risco que a ANS extinguiu neste ano. BALANÇO 2009 (AGO ) Figura 14: Conta corrente cooperados 22

23 Figura 15: Ativo, Passivo Figura 16: DRE 23

24 Figura 17: Parecer dos Auditores independentes. 24

25 6.1.e- ANO 2010 Em maio, dois dos ex-diretores se demitiram, sobrando apenas uma Conselheira vogal e, baseados na fraca definição estatutária para tão profunda situação de crise e ausência de manifestação da Agência reguladora, não houve convocação de eleição para preencher o CA. Durante o ano de 2010 a cooperativa, inserida em um bom contexto nacional de tranqüilidade com eleições federais, país apresentando importante crescimento econômico, sem percalços de epidemias, realizou a inscrição no programa de parcelamento incentivado do ISS e puderam ser realizadas também várias adequações aos padrões de contabilidade internacional e ao Plano de contas padrão da ANS. A direção fiscal foi suspensa em março na AGO. Não foi realizado nenhum workshop ou AGE neste ano. BALANÇO 2010 (AGO ) Figura 18: Ativo, Passivo 25

26 Figura 19: Parecer dos auditores independentes: Figura 20: DRE 26

27 6.2- FATOS EXTEMPORÂNEOS COMPLICANTES de 2007 a 2009: 6.2.a- CONTEXTO NACIONAL: Em meio a toda esta complexidade, o Brasil decidiu seguir os padrões internacionais de contabilidade como complicador, exigindo adequação ao IRFS (International Financial Reporting Standards). Conforme o Jornal do CFC (2008) Após tramitar 8 anos no Congresso Nacional foi promulgada, em 28 de dezembro de 2007, a Lei n.º Esta adequação difícil e trabalhosa, foi sendo evolutivamente implantada nos balanços pelos departamentos financeiro e contábil. Não bastasse, foi promulgado o decreto que exigia normas rígidas encarecendo os já custosos e particularmente complexos serviços de atendimento ao consumidor (SAC) de planos de saúde (6.523/2008 -LEI 8.078/1990) mas a UP conseguiu se adequar mesmo em meio às outras premências, nunca recebendo multas e aparecendo várias vezes na imprensa como exemplo de adequação. 6.2.b- CONTEXTO GLOBAL: Crise mundial ( ): teve início ainda em 2007, no mercado subprime, um tipo de hipoteca existente nos Estados Unidos... Em 15 de setembro de 2008, a concordata do Lehman Brothers destruiu a confiança no sistema financeiro e agravou a crise. (Revista época,2009). E os Economistas refletem em seu Jornal, Adicionalmente, a redução da liquidez nos mercados financeiros internacionais vem implicando aumento do custo do (re)financiamento externo para as empresas brasileiras, além de diminuição do crédito (Filgueiras, 2008) Além disso, o temor de ser demitido levou ao maior uso do Plano de saúde, segundo o Blog das seguradoras de saúde, Epidemia de Influenza A H1N1 - Gripe suína ( ): A grande preocupação das empresas é com as despesas causadas pelo crescimento dos atendimentos, já que hospitais do Rio e de São Paulo registram alta de até 50% na demanda por atendimento emergencial... o número de atendimentos a crianças este mês aumentou 68% em relação a julho do ano passado... 95% são clientes de planos de saúde. Nos consultórios médicos, segundo a Unimed-Rio, o crescimento é de 20%. Em São Paulo, os hospitais privados registram alta de até 30% nos prontos- 27

28 socorros em relação ao inverno de dos quais oito em UTI. "...E a expectativa epidemiológica é que o volume de internação cresça até setembro". (Valor econômico, 2009) A combinação de uma epidemia global da doença e uma crise econômica mundial vem causando estragos na América do Sul. Segundo o Banco Mundial, os custos associados com a mortalidade, a doença em si, ausência do trabalho e com os esforços para evitar a infecção poderiam diminuir o PIB dos países (The Economist, 2009) CONSIDERAÇÕES FINAIS Com tantas crises atingindo empresas neste mundo globalizado vale perguntar o porquê. As pessoas não adoecem porque os germes as contaminam e sim, em geral, por que seus organismos enfraquecidos são incapazes de reagir. As empresas pelo mesmo mecanismo entram em crise. Neste caos há tanto esforço e desordem nos fatos que, os indivíduos que atuaram na luta muitas vezes são desprezados e apagados de seus memoriais. Comete-se, então, o grave erro de perderem-se lições vividas e ensinamentos da sua cultura empresarial que reduzem as possibilidades de se ganhar maior clareza às próprias operações e viabilizar mecanismos de defesa. Este estudo não tenciona dar respostas, muito antes, encorajar pessoas guardadoras de vivências em crises que realizem empreitadas equivalentes, valorizando suas experiências, já que as pessoas jurídicas não existem sem as físicas e se houvessem mais histórias descritas, tanto melhor seriam os comportamentos. Neste descritivo salta aos olhos a evidência do perigo na ausência de Governança Corporativa bem estabelecida: estatutos claros, que visem maximizar valor em prol do grupo e minimizem os interesses políticos; Conselhos atuantes, não submissos, que fiscalizem diretorias profissionais, realmente executivas, cooperados integrados, sem aprovar e perpetuar grupos por simples leniência, pois, imprescindível é a alternância de poder nas cooperativas assim como o equilíbrio da natureza precisa do dia e da noite. 28

29 REFERÊNCIAS As 15 campeãs de endividamento no Brasil. Revista exame, 26 set Caderno: Melhores e Maiores. Disponível em: < Acessado em BRASIL. Lei nº 5764 de 16 de dezembro de Disponível em: < Acesso em:07 de set. de BRASIL. Lei nº 9656 de 03 de junho de Disponível em: < Acesso em:07 de set. de BRASIL.Lei nº de 28 de dezembro de Disponível em: < em:07 de set de Cardoso, R.L. et al, Qualidade da informação contábil, crises e governança corporativa. In: Fontes Filho, J. R., Lancellotti, R. W. et al. Governança corporativa em tempos de crise. São Paulo: Saint Paul, p Unimed Paulistana. Estatuto social, São Paulo. Sociedade cooperativa de trabalho médico Farr, Robert. As raízes da Psicologia Social moderna. Petrópolis: Vozes, Trad. Pedrinho Guareschi e Paulo Maya Ferraz, M. B. Dilemas e escolhas do sistema de saúde. São Paulo: Medbook, Filgueiras, L. Os efeitos da crise mundial na economia brasileira. Jornal dos economistas. Disponível em: < pdf>. Acessado em Fontes Filho, J. R., Lancellotti, R. W. O papel do conselho fiscal no fortalecimento das boas práticas de GC. In: Fontes Filho, J. R., Lancellotti, R. W. et al. Governança corporativa em tempos de crise. São Paulo:. Saint Paul, 2009.p Fundação Unimed. Manual de conselhos fiscais, Disponível em: < Acesso em 11 de maio Gripe e crise afetam rentabilidade dos planos de saúde Disponível em: < de 22 de dez Produzido por Wordpress.org. Acesso em: 09 de set. de

30 Gripe suína eleva custo dos planos de saúde. Valor econômico. Seção Notícias- Ciências. Em Disponível em: < 2009/27615-gripesuinapsau-0/> Acesso em: 01 de novembro de Jinzenji, N.M. A Lei n.º /07 e a classe contábil brasileira. Jornal do CFC no. 91, jan/fev Disponível em: Acesso em: 11 de set. de Lima, J.A., Fagundes, R. D. A crise mundial, um ano depois. Revista época, São Paulo. 13, set Caderno Economia e negócios. Disponível em: <http: //revistaepoca.globo.com/revista/epoca/0,,emi ,00- A+CRISE+MUNDIAL+UM+ANO+DEPOIS.html>. Macedo, H.D.R. Análise de performance Financeira: Um Estudo de Caso em Unidades de Negócio Trabalho de conclusão de curso (Gestão e estratégia em negócios)- Universidade Federal rural do RJ.Rio de Janeiro, Martins, R.M. Princípios de governança sustentável. In: Fontes Filho, J. R., Lancellotti, R. W. et al. Governança corporativa em tempos de crise. São Paulo:. Saint Paul, p The cost of swine flue. The economist, London. 27, jul Disponível em: < >. Tzu, S. A arte da guerra.são Paulo: LPM, 2000 Unimed do Brasil. Dados do Sistema Unimed Disponível em: < Acesso em 11 de maio Unimed: crise pode ser nacional. O estado de SP, São Paulo, 01, dez Caderno Cidades. Disponível em < /not p11141.htm>. Acessado em 20 de maio de TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE: Declaro que este trabalho é original, foi elaborado individualmente por mim não sendo copiado de nenhuma outra fonte. 30

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