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1 financeiro julho/agosto 2010 edição 64 financeiro 64 edição jul ago arevistadocrédito Acelere para crescer O PRESIDENTE DO BANCO VOLKSWAGEN, DÉCIO CARBONARI, FALA DE MERCADO E FOCO EM PESSOAS, E MOSTRA COMO INOVAÇÃO E VELOCIDADE FAZEM A DIFERENÇA ESPECIAL AS REGIÕES CARENTES DO BRASIL ONDE O CRÉDITO FAZ A DIFERENÇA

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4 conteúdofinanceiro Capa Entrevista do Mês Presidente do banco Vokswagen e da Anef 48 Raio X Lojas Maia conquista 150 filiais no Nordeste fala sobre sua gestão e o mercado de com apoio de tecnologia e pessoas 18 financiamentos de automóveis Especial Novos Mercados Bancos desbravam os recônditos 52 Debate Acompanhe o que se passou em um dos maiores eventos de crédito e cobrança do País para conceder crédito do País e financiar sonhos 30 Cartões Criação da nova bandeira nacional seções 42 Vida Pessoal Futebol e trabalho alinhados na rotina de um bancário Rápidas Tudo o que acontece no mercado Livros Obras que você não pode deixar de ler artigos 44 Cobrança Novo profissional do setor é risco Alberto Serrentino Varejo estratégico José Ricardo Alves Desafios Alberto Borges Matias Análise e perspectivas e oportunidade 66 Louis Bazire Última palavra 4 FINANCEIRO julho/agosto 2010

5 editorial C Caro executivo, 50 milhões de clientes estão lá fora, esperando você chegar. Essa é a população que não sabe o que um banco pode fazer por ela. Eles estão no Nordeste, em pleno cerrado do Centro-Oeste e até no meio da Amazônia (há meio milhão de índios à margem do consumo). Você também pode encontrar esses potenciais clientes nas grandes capitais. Não importa se estão longe ou perto, você precisa deles para crescer. Mais importante ainda: eles precisam de você. Crescimento econômico não basta para melhorar a qualidade de vida da população. Nesta edição, o leitor vai conhecer Águas Lindas de Goiás, uma das cidades que mais crescem na América Latina. Atraída pela oportunidade, a população cresce desordenadamente e assim também a pobreza. E a violência. Para resolver a equação pobreza+crescimento, os serviços financeiros são fundamentais. Como explica o professor indiano Rathin Roy, os cidadãos necessitam de uma identidade financeira. Somente a partir dela é possível obter as quatro dimensões fundamentais: poupança, crédito, finanças social e familiar (como pagamentos, transferências etc.). Muita gente está se movimentando para alcançar esse novo mercado. E levar desenvolvimento ao mesmo tempo. O Bradesco investiu em tecnologia e novos modelos para chegar navegando pelo rio Solimões com um banco no meio da Amazônia. O Banco do Nordeste estimula pequenos empreendedores nas praias e nos sertões cearenses, alagoanos e baianos, entre outros locais. E o Banco de Brasília leva correspondentes bancários a cidades sem serviços. Todos estão conquistando clientes, ampliando o negócio e ainda desenvolvendo inúmeras comunidades. Onde quer que esteja Não há melhor momento do que este. Nesta edição, trazemos na capa o presidente do banco Volkswagen, uma instituição que ainda recebe maior demanda de crédito das classes A e B. No futuro, vai ser diferente. A população de baixa renda caminha para se tornar o principal cliente tanto de carros como de imóveis. Por exemplo, confira os dados mais recentes da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac). Esse modelo de venda se torna cada vez mais um produto clássico da população de baixa renda. No primeiro trimestre, o número de imóveis contemplados em consórcio foi 13,2% maior do que no mesmo período no ano passado. E o crescimento continua. Por isso, caro executivo, afie suas estratégias e vá em busca do seu cliente. Onde quer que ele esteja. Adalberto Savioli Presidente da Acrefi julho/agosto 2010 FINANCEIRO 5

6 expediente financeiro ISSN Rua Líbero Badaró, o andar São Paulo SP Tel: (11) Fax: (11) Presidente Adalberto Savioli Vice-Presidentes Arnaldo Alves Vieira, Érico Sodré Quirino Ferreira, José Renato Simão Borges, Marcio Ronconi de Oliveira, Marco Ambrógio C. Bonomi, Sérgio Antonio Cipovicci, Aquiles Leonardo Diniz, Odílio Figueiredo Neto, Bartholomeu Ribeiro e Ricardo Annes Guimarães Secretários Paulo Tabaquim e Sérgio Marra Pereira Capella Tesoureiros Marcus André de Oliveira Diretores Regionais Athaide Vieira dos Santos, Carlos Alberto Samogim, Elcio Antonio de Azevedo, Felicitas Renner, José Antonio Rodrigues, José Newton Lopes de Freitas, Laécio Barros Junior, Leonardo Marcondes Dadalto, Paulo Henrique Pentagna Guimarães e Pedro Costa Carvalho Diretores-Executivos Gunnar Murillo, Morris Dayan, Sandro Alexandre de Almeida, Edson Froes Castilho, Marc Camp, Mateus Affonso Bandeira, Rubens Bution e Leonel Dias de Andrade Neto Diretores Conselheiros Eduardo Tavares Nobre Varella, Élcio Jorge dos Santos, Giovani Cataldi Neto, Roberto Bronzere, Paulo Sérgio Borsatto, Nelson Aguiar Junior, Marcelo Barp, Odilon Pereira Guerra e Joelcyr Carmello Filho Conselho Consultivo Membros Natos: Alkindar de Toledo Ramos, Manoel de Oliveira Franco e Ricardo Malcon Membros: Alencar Burti, Ricardo Loureiro, Jorge Hilário Gouveia Vieira, Luiz Horácio da Silva Montenegro, Miguel José Ribeiro de Oliveira, Sergio Antonio Reze e Ilídio Gonçalves dos Santos Conselho Fiscal Efetivos: Domingos Spina, Edson Ueda, David Figueiredo Suplente: Elpídio Hoffmann, Maria Madalena Américo Marinho, Gilson de Oliveira Carvalho Diretor Superintendente Antônio Augusto de Almeida Leite (Pancho) Controller Carlos Alberto Marcondes Machado Consultor Jurídico Cassio M.C. Penteado Jr. Planejamento de marketing Connexa Consultoria de Gestão e Marketing Estratégico Assessoria de imprensa Tamer Comunicação Empresarial Rua Novo Horizonte, 311 Higienópolis São Paulo SP Tel: (11) CEP Publisher Roberto Meir REDAÇAO Editor-executivo Rogério Godinho Repórteres Felipe Floresti e Juliana Jadon Fotografia Douglas Luccena Arte Editora de Arte Marina Martins Diagramadores Alexandre Braga e Érika Bernal Pré-Impressão Alexandre Lima Revisora Dora Wild Publicidade Gerente Comercial Marco Góes Gerentes de Negócios Adriana Próspero e Fabiana Zuanon Facilitadoras Ana Chiesi, Fabiana Martins e Patrícia Pinheiro Impressão IBEP Gráfica Ltda. 6 FINANCEIRO julho/agosto 2010

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8 capaentrevistadomês Por Juliana Jadon e Rogério Godinho Banco de pessoas Décio Carbonari, presidente do banco Volkswagen e da Anef A empresa é resultado da capacidade de seus funcionários. Foi com esse pensamento que Décio Carbonari de Almeida, presidente do banco Volkswagen, assumiu a gestão da instituição em 2003 e nela perpetuou grandes mudanças desde então. Sua política de recursos humanos foi lastreada nos seguintes pilares: pouca gente, bem preparada e bem remunerada. Assim, um marco da gestão de Carbonari foi investir na formação dos profissionais que nela atuam. A companhia passou a pagar bolsas de estudo em 70% do valor para pós-graduação nos melhores cursos, independentemente do valor. Por experiência própria (ver quadro com o perfil do executivo), ele sabe que vale a pena estudar. Como um contraponto perfeitamente coerente, outro traço da gestão foi aumentar a eficiência de cada funcionário. Quando Carbonari ingressou no banco, eram pessoas trabalhando para um total de ativos de R$ 3,5 bilhões. Hoje, são R$ 20 bilhões em ativos e 750 profissionais. Na prática, transformou em resultados reais a ideia de que menos pode ser mais. A rotina é corrida. O executivo viaja para a Alemanha, a Grécia e o Brasil, logo depois retorna para a Alemanha. Como preside uma multinacional presta contas com os superiores. Não há videoconferência que dê conta, mesmo com toda a tecnologia a presença é essencial para uma relação de confiança. No meio disso, arranja tempo para visitar as filiais brasileiras ao menos uma vez por ano, participa de eventos de lançamentos e ainda se ocupa da gestão do banco (há 15 comitês internos com os quais ele se reúne). Em maio deste ano, Carbonari foi eleito presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef) para um mandato de três anos. Na empresa cujo nome significa carro do povo, ele parece ser presidente de um banco de pessoas. A seguir, acompanhe a entrevista exclusiva com o executivo sobre o mercado automobilístico e o banco Volkswagen. Financeiro Como você avalia o mercado automobilístico? Décio Carbonari A indústria automobilística vai bem desde de setembro de Se olharmos para a linha do tempo dessa indústria no mercado doméstico, o único período em que houve diminuição em vendas desde essa época foi na fase posterior à crise de Foi uma queda de poucos meses em que rapidamente voltamos a vender. Na crise internacional nossa reação foi muito contundente e rápida devido ao governo brasileiro. Financeiro E a ação do governo? Carbonari Na área de incentivos, o governo reduziu o IPI para veículos, o que fez os preço cair e por si só já foi importante. Já o mercado financeiro percebeu que haveria falta de liquidez absoluta e prestigiou a indústria automobilística por meio dos bancos das montadoras. O Banco Central permitiu que uma parte dos depósitos compulsórios existentes fosse destinada para servir de funding aos bancos de médio porte e isso beneficiou diretamente os 8 FINANCEIRO julho/agosto 2010

9 Cerca de R$ 180 bilhões é o que se prevê para o saldo de financiamentos de automóveis para pessoa física neste ano julho/agosto 2010 FINANCEIRO 9

10 capaentrevistadomês bancos e montadoras. Adicionalmente, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Nossa Caixa também disponibilizaram linhas de crédito para os bancos de montadoras e, com isso, a crise de liquidez para nós foi curta. Foi no final de outubro e no final de novembro já estávamos operando com liquidez, com dinheiro. Essa combinação de redução do IPI e de financiamentos à vontade fez o nosso setor passar praticamente imune ao período de crise quando se trata de automóveis. Já para caminhões o cenário foi diferente. Como a economia desacelerou, com o resultado de -0,2% a variação do PIB no ano passado, o setor industrial demorou mais para se recuperar. Financeiro Há falta de recursos no mercado? Carbonari Em 2004 o País não tinha R$ 500 bilhões disponíveis para crédito e, em abril, chegamos a R$ 1,5 trilhão. Triplicar é ritmo chinês. Se olharmos para a origem desses recursos, vemos que é proveniente de depósitos de investidores no Brasil, principalmente. O fato é que até 2009 o funding necessário para sustentar R$ 1,5 trilhão em empréstimos está basicamente originado no mercado local, de investidores e poupadores de dentro do País. A tendência é que com o crescimento incessante da indústria a poupança interna não seja suficiente para sustentar tanta necessidade de funding, mas aí há o exterior. Hoje o Brasil atrai recursos para si. Na hora em que for necessário dinheiro de fora haverá doador com toda a certeza. Perfil Décio Carbonari, 55 anos, é formado em administração de empresas com ênfase em finanças pela Fundação Getúlio Vargas, na qual cursou também mestrado em administração e fez extensões no exterior. Iniciou a carreira na ABS Empresa de Projetos e Construções, passou pelo Banco Central do Brasil e Alpargatas. Em 84, ingressou na Ford, posteriormente foi para a Autolatina e afinal chegou à Volkswagen do Brasil. Lá exerceu funções em diferentes áreas, como controladoria, exportação e planejamento financeiro, entre outras. Conhecia bem todas as áreas, estava preparado para tudo. Em 2001, veio um convite e uma promessa: iria para a Volkswagen Serviços e logo assumiria a presidência do banco, o que aconteceu em Financeiro Qual a perspectiva para o financiamento no mercado de veículos neste ano? Carbonari De acordo com dados do Banco Central, dos R$ 1,5 trilhão de crédito concedido até abril deste ano, os veículos correspondem por R$ 163 bilhões. Nós acreditamos na Anef, que no final de dezembro de 2010 o resultado será entre 10 e 15% acima do saldo apurado no mesmo período de Ou seja, em torno de R$ 180 bilhões é que o se prevê para o saldo de financiamentos de automóveis para pessoa física neste ano. É um crescimento expressivo, uma vez que a economia vai crescer entre 6 e 7%. O que impulsionou o setor de veículos nos últimos quatro anos foi o financiamento de veículos. Esse foi o mecanismo que permitiu o acesso ao bem por parte dos brasileiros que migraram para classe média e melhoraram de vida. Eles passaram a ter poder de compra, mas para adquirir um carro é preciso de financiamento. Financeiro Qual é o perfil do maior grupo financiado pelo banco Volkswagen? Carbonari São as classes A e B. A classe A representa 22%, a B, 51%, a C, 21% e a D, 6%. Cerca de 45% dos carros financiados pela rede de automóveis Volkswagen passam pelo nosso banco. Esse é o nosso market share. Quando se fala de caminhões, temos mais participação, com 60%. O banco da montadora tende a ser o que mais financia. Temos taxas subsidiadas e que só nós oferecemos como o juro de 0,99% quando a do mercado é de 2,5%. Essa é uma operação entre a montadora e o seu banco. A montadora completa o que falta para poder oferecer ao seu cliente uma taxa mais baixa. A montadora, o banco e o concessionário trabalham para que o veículo seja vendido e esse interesse nosso nos veículos da marca das três partes é o nosso diferencial. Financeiro A indústria cresce ininterruptamente desde 2003 e a Volks conseguiu manter a participação no mercado. Carbonari Claro que no passado tivemos uma fatia de mercado maior. Mas, antes do acordo automotivo, 10 FINANCEIRO julho/agosto 2010

11 havia menos montadoras no Brasil. Na década de 90 a competição era menor. Só existiam quatro que atuavam num mercado fechado. As outras não podiam entrar. O que temos hoje em market share por montadora é próximo do que há no mundo: sempre três ou quatro lideram e o restante é dividido. Em mercados mais competitivos, como é a China, por exemplo, se detém menos ainda da totalidade do mercado. Desde o ano passado nosso número é de 22,4% no Brasil. Somos o segundo lugar em carros comerciais leves. Financeiro Qual a proporção entre financiamentos de montadora e cliente final? Carbonari O cliente final tem a maior parte. No mês de abril a carteira de recebíveis estava em R$ 15 bilhões, sendo que R$ 13 bilhões em financiamentos para o cliente final e R$ 2 bilhões para concessionárias. Financeiro Qual o desafio para o banco Volkswagen? Carbonari O mercado de veículos atrai todos os bancos e todos possuem participação. Embora a taxa de juro seja baixa, o contrato é de valor elevado e o risco para as instituições é relativamente baixo, pois a garantia é o próprio veículo. Quando o cliente não paga e o bem é retomado, ele dá prejuízo, mas não integral. Imagine conceder um crédito de R$ 20 mil ou financiar um veículo do mesmo valor. Por isso, a competição é muito forte nesse mercado. E o nosso cenário evolui. Sempre trabalhei em montadora e vim para cá em Nessa época, o objetivo da resposta da proposta de crédito era de 24 horas. Hoje o tempo médio de resposta é de 15 minutos. A busca por essa eficiência e pelas taxas baixas faz com que todos corram atrás de ser o benchmark todo o tempo. E essa é a nossa meta. Financeiro Em serviços, vocês já chegaram a um patamar de nível altíssimo. O que é possível agregar agora? Carbonari Sempre teremos o melhor serviço e a taxa mais baixa para os clientes Volkswagen. Mas, mesmo assim, a empresa deve se reinventar para oferecer mais por menos a cada ano. Se olharmos para as TVs de plasma que quando começaram a ser ofertadas custavam R$ 20 mil e hoje custam R$ 2 mil, podemos fazer uma comparação como é esse mercado. Quando eu fazia faculdade, era estagiário na Nestlé e ganhava um salário mínimo. Comprei, na época, uma calculadora em quatro prestações porque consumia um terço da minha renda, e hoje a mesma calculadora, com bem mais funções, custa R$ 5. Financeiro Qual o investimento em Tecnologia da Informação? Carbonari Investimos R$ 20 milhões em Tecnologia da Informação (TI) e teremos uma segunda fase de expansão de TI, que vai de 2010 a 2012, e que significará mais R$ 45 milhões em recursos. Esse total de R$ 65 milhões é julho/agosto 2010 FINANCEIRO 11

12 capaentrevistadomês altíssimo para nós. O banco Volkswagen Brasil se tornou a terceira atuação do banco Volkswagen no mundo. Há bancos em 37 países. O maior é na Alemanha e o segundo nos Estados Unidos. Por isso, a autorização para o investimento em TI aqui veio da matriz. Agora já ocorre a expansão do canal da informação e a expansão da capacidade da geração da informação, com servidores etc. A terceira etapa começa no segundo semestre deste ano. Um grupo de trabalho faz agora o diagnóstico para uma nova arquitetura de TI. Esse projeto é muito mais ambicioso e complexo. Sabemos que o volume de negócios pode triplicar em três anos. Então, vamos preparar a nossa arquitetura para isso. Até outubro esse diagnóstico estará completo para reformularmos e nos próximos dois anos, toda a infraestrutura de TI. Isso deverá garantir flexibilidade, segurança de dados e com capacidade de produção muito maior. As três fases são: comunicação, capacidade de produção e o redesenho da arquitetura. Financeiro Além de acompanhar o ritmo do mercado, qual a estratégia para ampliar os negócios? Como funciona a instituição O banco Volkswagen atua especificamente na rede Volkswagen de caminhões e automóveis. Financia a venda de veículos para o concessionário (processo conhecido como forplan) e, além disso, financia o cliente final. Em campo, trabalham cerca de 300 funcionários em aproximadamente 90 escritórios espalhados em sete filiais. Quando o cliente entra em uma concessionária da Volks e pede financiamento, o vendedor do carro o repassa para um funcionário interno, invariavelmente funcionário de um banco. Depois de passar os dados para o funcionário, ele os coloca em um sistema conectado em uma mesa de crédito, passando automaticamente pelo Banco Central, pela Serasa, fazendo toda a checagem de crédito para a proposta ser aprovada ou não. Há um aprovador automático, em que cerca 30% da demanda é aprovada ou rejeitada pelo sistema. Já 70% vão para um analista encarregado de verificar dados, como renda, se possui casa própria e outros, e gerar uma pontuação de crédito (credit scoring). Enquanto isso, o cliente aguarda o vendedor receber a resposta da mesa de crédito. Quando aprovada, o vendedor imprime o contrato e entrega ao cliente que já sai com o carro financiado. Carbonari Em outubro expandiremos a aplicação de recursos por meio de captações em CDBs (Certificados de Depósitos Bancários). Até hoje, o CDB era voltado só para grandes investidores, com lotes de R$ 100 milhões ou R$ 200 milhões. Em julho vamos abrir para os concessionários Volkswagen e numa terceira etapa colocar na internet para qualquer pessoa acessar e investir com valores mais baixos. Esse é só um exemplo de como aumentar a participação, expandir negócios e conseguir funding. Temos funding também agora captados na Europa via a financeira do banco na Holanda, fizemos uma captação de 50 milhões e iremos trazer mais 700 milhões de lá para cá. Essa é uma operação que para nós é barata. Financeiro Quais os modelos de crédito mais praticados pela instituição? Carbonari A média do financiamento de veículos apurada em abril pela Anef é de 43 meses. Já a do banco Volkswagen está entre 41 ou 42 vezes. Como fazemos financiamentos de caminhões também, nossa média de parcelas é pressionada para cima, pois para esses veículos está em torno de 55 parcelas. Em automóveis está entre 30 e 33. Isso é uma questão de perfil. O brasileiro gosta de trocar de carro. Um europeu, por exemplo, compra um carro em um feirão e tende a ficar com ele cinco ou seis anos. Na média, o europeu fica com carro muito mais tempo que um brasileiro. Aqui, considerando o prazo médio de financiamento, está entre dois ou três anos. Na Alemanha temos um pacote chamado Mobilidade. Da mesma maneira que se paga um condomínio, se paga uma taxa para ter a mobilidade. Lá, quando se pega um carro básico, se paga 99 por mês, incluídos o produto, o seguro, a manutenção, tudo embutido. Então, quebra a ideia de propriedade. Num apartamento se paga uma taxa de condomínio para usufruir. No caso do automóvel é possível em três anos cansar do veículo e trocar por outro. Financeiro O leasing costumava ser uma grande aposta. O que aconteceu? Carbonari No Brasil só existe o leasing operacional. O leasing tem algumas desvantagens. O prazo mínimo é de 24 meses. Outra coisa que é comum acontecer: a 12 FINANCEIRO julho/agosto 2010

13 liquidação de contratos antecipados de pagamentos. A pessoa fez o pagamento e quando chega na metade já quer trocar de carro e liquidar o financiamento. No leasing isso não é possível antes de 24 meses. Para o banco também não é muita vantagem, pois o carro é do banco e o risco com o leasing assim é maior que o do financiamento. Se o usuário não pagar o IPVA, por exemplo, a conta vai para o banco. Quando se começou a constatar a perda do leasing, ele perdeu a atração. Financeiro Com o aumento da importância da classe C com o poder de compra muda o perfil do banco? Carbonari Não. A prestação não pode comprometer mais do que um quarto da renda que se possui. Então não muda o perfil em termos de responsabilidade do pagamento. O Gol é líder de vendas no Brasil há 23 anos. É uma tradição muito forte. Quando se olha para o Audi, que é uma marca Volkswagen, 50% das compras são à vista. Seguramente muito mais gente precisa de financiamento para comprar um Gol do que um Audi. Financeiro Com uma rotina tão acelerada, como se relacionar com os funcionários? Carbonari Temos aqui na Volks o projeto Conversando. Todo o gestor e seu funcionário se reúnem ao menos duas vezes por ano para falar sobre o seu trabalho, o relacionamento. Eu participo. Esse é um contato direto e seletivo. Um grupo de 20 funcionários, todos do Brasil, tanto da matriz quanto das filiais, se reúne para uma conversa que dura três ou quatro horas em que falamos abertamente sobre todos os temas, as preocupações, as vontades, os retornos, as alegrias. Eu falo de negócios, eles perguntam, mas é aberto a todo o tipo de conversa. Com o tempo eu conheço pessoalmente muita gente que trabalha para nós. Fora esse projeto, nós fazemos a cada seis meses um café da manhã aqui na matriz durante o qual eu faço uma apresentação para os funcionários daqui com transmissão simultânea para as nossas sete filiais. Temos também dois encontros de planejamento semestrais dos gestores do banco. São 80 pessoas que participam. Esses são os contatos com maior número de pessoas. Há também quatro reuniões semanais com os 15 comitês. f julho/agosto 2010 FINANCEIRO 13

14 notasmercado Empresas Portas abertas Maio último registrou o menor número de pedido de falências para o mês dos últimos cinco anos, conforme um levantamento da Serasa Experian. Foram 160 solicitações em todo o País. Do total, 93 foram de micro e pequenas empresas, 43 de médias, e 24 de grandes. As micro e pequenas empresas apresentaram a maior queda nos pedidos de falência: -43,3%. São essas últimas que sentem e medem melhor o humor do mercado. A nova Lei de Falências ajudou mesmo a diminuir os pedidos, mas o que mais pesou foi o acelerado crescimento da economia brasileira. Crédito consciente A dica é saber usar Esse é o slogan de campanha publicitária educativa sobre a utilização consciente do cartão de crédito. A iniciativa é da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), que descobriu em pesquisa realizada no ano passado que, tanto os consumidores como os estabelecimentos têm muitas dúvidas em relação ao uso do cartão. Segundo o levantamento, realizado junto ao Instituto Data Folha, as pessoas têm receio de utilizar o cartão por acreditarem que não irão saber controlar seus gastos, apesar de reconhecerem seus benefícios e sua praticidade. Pelo segundo ano consecutivo, a Abecs realiza a campanha com criação e realização da Ogilvy One. A campanha, baseada em dicas úteis e de simples execução, é veiculada em revistas, rádio, TV aberta e segue até dezembro. PIB Ritmo chinês Enfim o espetáculo do crescimento: o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil aumentou 9% no primeiro trimestre deste ano se comparado ao mesmo período do ano passado, quando o País ainda sentia os efeitos da crise internacional. O resultado é um recorde desde que a série histórica foi iniciada, em Entre janeiro e março, o Brasil teve rendimentos de R$ 826,45 bilhões Os dados, divulgados pelo IBGE no início de junho, apontam também que na comparação com o intervalo entre outubro e dezembro do ano passado também houve alta: +2,7%. Impostos Brasileiro paga R$ 400 bi Os cofres públicos nunca estivaram tão cheios. Em abril, o Impostômetro, ferramenta eletrônica desenvolvida pelo IBPT e disponível na sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), registrou dois recordes. No dia 1º de abril atingiu a marca de R$ 300 bilhões de arrecadação e, no último dia do mesmo mês, por volta das 12h30, os brasileiros já tinham pagado, em 2010, R$ 400 bilhões de impostos aos cofres públicos. Este ano a marca foi atingida 19 dias antes da registrada em 2009 e 20 com relação a A previsão para 2010 é que até dezembro ocorra recorde de arrecadação em comparação ao ano passado que foi de R$ 1,09 trilhão para aproximadamente R$ 1,2 trilhão. O Impostômetro calcula em tempo real o valor arrecadado pelos governos federal, estaduais e municipais. A ferramenta registra as arrecadações já acontecidas e faz uma estimativa das arrecadações futuras. Educação Empreendedorismo na veia A profissionalização do empreendedor brasileiro gera cada vez mais bons negócios. Somente em 2010 mais de 300 projetos já saíram da sala de aula. Eles abrangem todo tipo de segmento, como tecnologia da informação, indústria, comércio, serviços, área hospitalar e de saúde. São novos negócios criados dentro das principais escolas de negócios do País FGV, Insper e FIA. A informação veio de um levantamento gigantesco e detalhado realizado pela Ernst & Young Brasil, com apoio do Instituto Endeavor. A iniciativa dos estudantes também gera frutos em fases posteriores. Nos últimos três anos, 114 negócios originados nas escolas já foram apresentados em simulações de rodadas de negócios, que contaram com a participação de fundos de investimento venture capital e os chamados investidores-anjo. Eles têm dinheiro e estão de olho no talento dos estudantes. 14 FINANCEIRO julho/agosto 2010

15 Indústria Aquém da pré-crise O índice de empregabilidade na indústria ainda não voltou ao mesmo nível do cenário pré-crise, conforme aponta o IBGE. Está 3,3% abaixo, aliás. Na mesma semana em que foi divulgado o crescimento recorde do País, nota-se também que ainda há o que se fazer para voltar ao patamar registrado em Em abril, o emprego na indústria subiu 0,4% em comparação a março e 3,3% com o mesmo mês no ano passado. Copa do Mundo BC lança moeda comemorativa A moeda é de R$ 5, mas o preço mesmo vai ser R$ 108. O Banco Central (BC) acaba de divulgar a moeda comemorativa da Copa do Mundo da Fifa África do Sul Ela é de prata e traz o mapa do continente onde a jabulani começou a rolar. Ela poderá ser comprada nos escritórios do Banco Central em dinheiro ou pela internet, no site do Banco do Brasil (www.bb.gov.br). O pagamento poderá ser feito por débito em conta (para correntistas) ou por boleto bancário. Crédito Imobiliário Caixa empresta R$ 24,2 bi A Caixa Econômica Federal (CEF) emprestou R$ 24,2 bilhões para a compra da casa própria neste ano, até o dia 18 de maio, informou o vice-presidente de atendimento do banco, Carlos Borges. Esse volume supera o que foi emprestado em todo o ano de 2008 (R$ 23,3 bilhões). Em 2009, o banco alcançou o recorde de R$ 47,05 bilhões de crédito habitacional. A expectativa é de emprestar de R$ 57 bilhões a R$ 60 bilhões para a compra de imóveis neste ano. Nos feirões da Caixa, dos 450 mil imóveis ofertados, 200 mil estão enquadrados no programa Minha Casa, Minha Vida para famílias com renda superior a três salários mínimos. Inadimplência Entusiasmo exagerado? Em encontro na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o economista Marcel Solimeo apontou que há uma euforia exagerada quanto às taxas de crescimento do crédito no País, especialmente quando se olha para a base de comparação. A principal razão, segundo ele, para não haver aumento da inadimplência é que a concessão de crédito é voltada para mais pessoas. De 60 milhões de pessoas potenciais para a tomada de crédito, agora são 90 milhões. E esses novos consumidores possuem taxa de inadimplência maior. Entre os motivos apontados estão a falta de hábito de usar o crédito, a tendência maior de gerar novas inadimplências em mais de uma fonte e o descontrole dos gastos. Hoje, 40% dos credores que devem para uma fonte deixaram de pagar em média R$ 1,5 mil. Quem deve para duas fontes ou mais possui, em média, uma dívida muito maior: de R$ 22 mil. No total, 51% dos credores devem para uma fonte e 23% para duas. Mas apesar desse cenário alarmante, Solimeo aponta que a tendência para inadimplência é de estabilidade. O que vai ocorrer com a inadimplência vai depender do que ocorrerá com o crédito e os prazos de concessão, considera. Marcas O valor do Itaú Pela sétima vez seguida, quem lidera o ranking de marcas mais valiosas do Brasil é o banco Itaú. Segundo a consultoria Interbrand, que fez o levantamento, a instituição financeira tem uma marca avaliada em R$ 20,6 bilhões quase o dobro do valor obtido em 2008 (R$ 10,5 bi). De acordo com a consultoria, os resultados financeiros crescentes e consistentes, a consolidação das operações, como banco múltiplo sob um mesmo nome e a atuação com questões sustentáveis, ajudaram a manter o posto. Bradesco (em segundo lugar, com R$ 12,3 bilhões) e Banco do Brasil (quarto lugar, R$ 10,4 bilhões) são outros do setor que também foram listados. julho/agosto 2010 FINANCEIRO 15

16 livros Mina de ouro Não importa qual a sua situação financeira, os obstáculos que você enfrenta ou os desafios que teve de lidar na vida. Quer tenha muito ou pouco dinheiro, você pode mudar para melhor esse cenário e seu futuro financeiro. É o que promete Paul McKenna, autor da obra. Após dois anos de pesquisa sobre como funciona a mente dos milionários, o escritor combinou estratégias para o alcance do sucesso com um programa mental de enriquecimento. Um CD de hipnose acompanha o produto. Livro Eu Vou te Enriquecer Autor Paul McKenna Editora BestSeller Páginas 280 Preço sugerido R$ 44,90 Preço justo A recente onda de fusões e aquisições pela qual passaram e continuarão a passar praticamente todos os setores da economia, o número expressivo de aberturas de capital que ocorreram no Brasil e a estratégia de gestão baseada em valor, ações essas que buscam maximizar os lucros dos acionistas, mas que também geram a necessidade de calcular o preço justo dos papéis das empresas para avaliar corretamente e valor de uma companhia. Em nova edição, a obra ensina equações para se fazer isso corretamente. Livro Avaliação de Empresas Um Guia para Fusões & Aquisições e Private Equity Autores Roy Martelanc, Rodrigo Pasin e Fernando Pereira Editora Pearson Páginas 302 Preço sugerido R$ 59 >> >> >> No topo Qual é o papel da liderança nas organizações contemporâneas? Quais as implicações dos executivos que ocupam essa posição no Brasil? Como a direção contribui para a formação e criação de valor nas empresas? Segundo os autores do livro profissionais experientes na área de gestão o grande desafio de uma empresa hoje é a necessidade de cooperar, integrar e produzir valores que sirvam não só para as organizações, mas, acima de tudo, para a sociedade. Livro Liderança Baseada em Valores Caminhos para a Ação em Cenários Complexos e Imprevisíveis Autores Ângela Fleury, Carmen Migueles, João Lafraia, Kedma Nascimento, Marco Zanini, Paulo Vieira, Reivle Nascimento, Ricardo Guimarães e Sérgio Cavalieri Editora Campus Elsevier Páginas 208 Preço sugerido R$ 49,90 16 FINANCEIRO julho/agosto 2010

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18 especialnovos mercados Por Rogério Godinho, Juliana Jadon e Felipe Floresti Brasil bancarizado No mundo, mais de 4 bilhões de pessoas carecem de serviços financeiros básicos, como crédito, poupança, transferências, arrendamentos e seguros. Pelo menos 2,5 bilhões não usam os serviços de uma agência bancária. No Brasil, o cenário é de crescimento e quase 30 milhões de pessoas passaram a usar banco nos últimos cinco anos. Mas ainda são cerca de 50 milhões de cidadãos chamados de desbancarizados por aqui. Veja como as instituições financeiras desbravaram a Amazônia, o cerrado e o Nordeste, e levaram crédito para financiar o sonho de pessoas em todos os cantos do Brasil Quase meio milhão de índios no Brasil vivem à margem do consumo, do dinheiro e da cidadania. A comunidade de Belém do Solimões, localizada perto da fronteira com a Colômbia, dentro da reserva indígena Evare I, é um dos pontos mais difíceis de se chegar em todo o Brasil. Fica a três mil quilômetros de São Paulo e a 12 horas de barco do aeroporto mais próximo. O local abriga uma das mais numerosas etnias indígenas brasileiras, os ticunas. A margem do Rio Solimões está rodeada pela maior floresta tropical do mundo. Nesse lugar, distante dos centros econômicos, vivem exatamente pessoas. Dessas, 300 trabalham em ONGs e órgãos públicos de água, eletricidade, escolas e defesa dos índios. Há também cerca de 400 aposentados. É no restante da população adulta que reside a força de trabalho produtiva de Belém dos Solimões (algo parecido Imagem: istockphoto 18 FINANCEIRO julho/agosto 2010

19 acontece em outras cem pequenas comunidades na Amazônia, a maior parte delas localizada ali no Alto do Solimões, na região oeste do Estado, mais próxima do Peru e da Colômbia). Lá falta dinheiro. Quando a população recebe, precisa viajar um dia inteiro debaixo de sol para chegar a um caixa eletrônico. A trajetória é feita dentro de um barco apertado que os locais chamam de pec pec (o nome vem do barulho do motor) embaixo de um sol amazônico. Os índios pagam a partir de R$ 15 para fazer uma viagem dessas e o périplo completo incluindo estada pode custar até R$ 100. Isso apenas para sacar algum incentivo do governo, como o Bolsa Família, ou a aposentadoria. Em alguns casos não vale a pena. Especialmente se for uma comunidade distante da margem do Solimões, instalada nos pequenos igarapés, cursos de água que cortam o interior da floresta. Se vier de lá, o viajante pode levar até 25 horas para chegar à cidade grande. Barco salvador Nézio Vieira é alguém que nunca havida pensado em receber um pedido de empréstimo diretamente de um índio no meio da Amazônia. Sete anos antes, ele mal havia saído de São Paulo; não conhecia nem o Rio de Janeiro. Com 20 anos de Bradesco, foi convidado a encarar um novo desafio: julho/agosto 2010 FINANCEIRO 19

20 especialnovos mercados Solução flutuante Barco navega da capital Manaus até a fronteira da Colômbia, quando aporta na cidade de Tabatinga viajar o País comandando o projeto Banco postal. Em dezembro de 2008, Nézio viu praticamente o Brasil inteiro e sentiu-se confiante. Foi quando um dos diretores perguntou ao executivo se era possível levar serviços financeiros até um lugar tão distante quanto as comunidades ribeirinhas no Solimões. Nézio disse que sim, achava viável e que havia tecnologia disponível. Antes de se preocupar com a tecnologia, Nézio precisava de um barco que levasse um ponto de atendimento até as comunidades, um que percorresse a Amazônia, em especial a região do Alto do Rio Solimões. O Rio Negro tem um número menor de comunidades e a região próxima de Manaus tem acesso mais fácil à capital. Nézio dirigia pelo tráfego pesado de São Paulo, pensando que teria de ir ao extremo noroeste brasileiro. De São Paulo, o executivo convocou uma audioconferência com todos os gerentes do Bradesco no Estado do Amazonas. Cinquenta pessoas o ouviram pedir uma dica: alguém conhecia um barco que percorresse a região? Em mês de março de 2009, cerca de 40 sugestões apareceram. Uma delas foi a do Voyager III. O barco sugerido percorre de um extremo ao outro do Amazonas; navega da capital Manaus até a fronteira da Colômbia, quando aporta na cidade de Tabatinga. A distância de mil quilômetros entre estes dois pontos se transforma em quilômetros nas voltas e curvas do Solimões, por onde o Voyager leva para as comunidades indígenas 500 toneladas de mercadoria, de telhado de zinco a bicicletas, de refrigerante a tocadores de DVDs. Os três pavimentos saem carregados e ainda sobra espaço para levar quase 200 passageiros e a tripulação de 30 pessoas. Nézio achou que servia, mas muitos gerentes duvidaram. Um deles disse que não acreditava que funcionasse. Conectar as comunidades era difícil. Havia uma tecnologia que possibilitava a conexão via satélite e era testada por fornecedores do Bradesco. Só que a antena precisava ser colocada em um ponto imóvel, e nunca se sabe em que altura vai estar o rio em relação a terra. Não parecia eficiente, nem seguro. A falta de tecnologia adequada sempre foi uma das barreiras para levar todo tipo de serviço para as comunidades ribeirinhas. Para o professor indiano Rathin Roy, esses cidadãos permanecem sem uma identidade financeira. Ele sabe do que fala: um dos maiores especialistas no tema, dirige o Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo, que aconselha o governo federal brasileiro no assunto. É ele quem enumera as quatro dimensões fundamentais: poupança, crédito, social e familiar. Sem isso, não há desenvolvimento. Na prática, índios precisam poupar, ter acesso a oportunidades na sociedade para se comunicar financeiramente com seus familiares. E precisam do crédito, se a tecnologia permitir. No começo de outubro, um dos fornecedores do Bradesco descobriu uma solução. O dono da rede Ponto Certo, empresa de tecnologia, havia encontrado algo na Espanha que parecia servir. A antena seria colocada em cima do barco e funcionaria em movimento ou não. Menos de um mês depois foi testada e o serviço financeiro estava pronto para chegar flutuando nas comunidades ribeirinhas. Na mesma época, algo relevante acontecia no mercado financeiro brasileiro. Nos últimos anos, os empréstimos consignados se tornaram importantes para os bancos. O risco era baixo e o mercado era farto. Justamente em novembro, o Bradesco venceu uma licitação do INSS para o Fotos: Douglas Luccena 20 FINANCEIRO julho/agosto 2010

21 Merceariabanco Índios compram mantimentos e sacam dinheiro ATM índígena População já faz transações pelo equipamento Norte do Brasil. A partir dali, os aposentados daquela região passariam a receber pela instituição. O nicho se tornou um grande negócio para os bancos não só pelo pagamento dos benefícios, mas também pelos empréstimos consignados. O governo percebeu isso e resolveu vender esse privilégio, daí a ideia de realizar a licitação. O Bradesco achou interessante chegar a uma região que todos achavam difícil de atender. O banco flutuante seria a ferramenta de uma estratégia para chegar aos aposentados mais distantes e inacessíveis. Nézio estava pronto para zarpar, mas precisava de uma gerente para atender ao novo mercado que se descortinava. Pediu indicação para os gerentes do Estado e descobriu Luzia Moraes, uma funcionária do Bradesco nascida no Alto do Solimões, com traços que deixam evidente sua origem indígena, e que só foi ter conta corrente com 30 anos. Em 24 de novembro, Nézio estava pronto para sua primeira viagem pelo Rio Solimões a bordo do Voyager III. Em contraste com carros, gente e prédios, via o volume de água cor de barro, que preenchia até três quilômetros de distância de uma margem a outra do rio. Nessa viagem, Nézio conheceu comunidades, entre elas Niterói, aldeia índígena com quatro mil habitantes, não muito longe de Belém do Solimões. Aprendeu que precisava falar com a comunidade, com os líderes, com o cacique de cada aldeia. Em janeiro, Nézio retornou à Amazônia. Dessa vez, aportou em Belém do Solimões, um dia depois. Pensou: se pegar o mapa do Brasil, aqui não existe. A chegada Nézio subiu a escada íngreme até chegar ao início do povoado, bem ao lado de um terreno com entulhos, restos de uma igreja recém-demolida. O Solimões engoliu um pedaço de Belém do Solimões e a Igreja de São Francisco de Assis, que estava ali desde 1936, foi a principal vítima. Estava tudo vazio ao redor, ninguém à vista. Em frente, o funcionário do banco viu a paróquia da comunidade e bateu na porta. Um homem de batina e barba loira apareceu. Era o frei Paolo Maria Braghini. Nézio já sabia que o mais prudente a fazer quando se chega pela primeira vez em uma comunidade é procurar seus líderes. Entre eles, o cacique. O frei falou de Cacique Malaquias e esse foi o primeiro contato importante em Belém do Solimões. Malaquias e dezenas de índios se reuniram para ouvir que o banco traria a comodidade do serviço financeiro ali, bem na margem do rio. Ouvem de pé, sem piscar e com os braços cruzados. Quando entendem, repetem uma, duas, três vezes, balançando a cabeça: Temos julho/agosto 2010 FINANCEIRO 21

22 especialnovos mercados Carente Com quase 200 mil habitantes, Águas Lindas só possui três agências bancárias interesse. Queremos. Ninguém precisaria sair debaixo de sol no pec pec para tirar dinheiro. O cacique aprovou. O próximo passo de Nézio era escolher correspondentes bancários. Alguém precisava ser o banco dentro de Belém de Solimões. Foi quando ele conheceu Lucila Tenazon Tananta. A mercearia da índia cocama começou quando o pai morreu, ela tinha seis anos e a mãe precisava sustentar a família. Fica na mesma rua da escola estadual, um ponto onde passam diariamente alunos. É próxima também da paróquia de frei Paolo, onde fica o telefone mais próximo. Se alguém liga para Lucila, o frei grita o nome da comerciante, que fica logo do outro lado. Se for mais longe, a pessoa pode ser chamada pelo boca-de-ferro (alto-falante usado para anúncios públicos). Apesar das boas vendas, a casa perto da escola era ruim; quando chovia, os produtos ficavam molhados. De noite, Lucila conversava com o marido sobre como seria bom ter um lugar melhor. O casal juntou dinheiro em uma caixa de madeira até conseguir o empréstimo do Bradesco: R$ 6 mil a juro de 2% em 24 parcelas. Construíram uma mercearia maior que possui até um espaço para clientes comerem. Hoje, Lucila quer antecipar o pagamento para o prazo de um ano. Depois, quer outro empréstimo, esse para montar uma casa só para o serviço de restaurante (quem vem de fora sempre visita a casa da cocama e às vezes falta espaço para receber). Por enquanto continua investindo; comprou dez fardos de roupa de segunda mão, que chegou em 23 de março junto com outras mercadorias para o comércio. Lucila aceitou a proposta de Nézio de ser uma correspondente bancária em Belém do Solimões, o que a torna um elemento fundamental para a bancarização dos que vivem por ali. O consumidor de baixa renda usualmente se constrange de entrar em um grande estabelecimento, mas se sente bem nos comércios que fazem parte de seu dia a dia. Esse seria o principal papel de Lucila. Ofereceria serviços bancários na sua pequena venda, onde tem refrigerante e cigarro, xampu e miojo. Não pode abrir contas correntes como Luzia, mas como correspondente informa saldo, oferece saques, pagamento de conta, depósito e empréstimos. Lucila aprendeu a usar as maquininhas do banco e chamou as irmãs. Com muitas tarefas não conseguiria 22 FINANCEIRO julho/agosto 2010

23 para os comerciantes de Belém (cinco meses atrás era feito em uma hora; o consumo da cidade cresce). E Belém deve crescer muito mais. O crédito está disponível e a comunidade pode consumir ali mesmo sem precisar fazer uma viagem longa. Hoje, apenas 300 pessoas abriram conta na comunidade. Logo, o número vai crescer e a economia também. Por isso, do meio da Amazônia o leitor vai saltar para o cerrado goiano, onde inicia a nossa próxima história. cuidar de tudo sozinha. Um índio amigo buscou candidatos a abrir uma conta e fez propaganda. Os clientes chegaram, preencheram os formulários e Lucila começou seu trabalho de bancária. Foi convidado ainda outro comerciante local para trabalhar como correspondente bancário, o indígena Juvenal Ramos Marcos. O correntista ganha um pacote com quatro transações sem pagar nada e os empréstimos normalmente são feitos a juros de 2%, taxa em geral reservada pelos bancos aos consignados. A maior parte é de aposentados pelo INSS e, só por isso, já podem abrir uma conta no Bradesco. Alguns abrem conta e comprovam residência com a fatura de luz, mesmo sem que aponte onde exatamente moram. Em março deste ano, Nézio visitou pela terceira vez as comunidades ribeirinhas. Foi até Tabatinga de avião, pegou uma voadeira e chegou a Belém do Solimões. No dia seguinte, a Voyager chegaria, vindo de Manaus em direção a Tabatinga. Na manhã do dia 23 de março todos aguardam a passagem da Voyager. O barco está mais vazio, porque fez a maior parte da viagem e logo chega a Tabatinga. Ainda assim leva quase três horas para descarregar as mercadorias O primeiro Kleber Sampaio possui o único correspondente não-bancário do BRB na região Centro-Oeste Em 2009, Águas Lindas de Goiás foi a segunda cidade que mais cresceu em toda a América Latina. Ela está ali quase no centro do Brasil, a 38 quilômetros de Brasília (DF) e 193 quilômetros da capital Goiânia. Com seus 200 mil habitantes, a cidade aumenta desordenadamente a população a cada ano. E também a pobreza. Águas Lindas cresce até demais. Para toda essa gente, há três agências bancárias. Mas isso é hoje, antes não havia nenhuma. Foi quando o comerciante Kleber Sampaio dos Santos resolveu oferecer um serviço novo. Quem for a Águas Lindas agora vai descobrir que ele ainda é o único correspondente não-bancário do município. Antes de Kleber, a população ia de ônibus, carona ou carro próprio para cidades vizinhas quando precisava ir ao banco. Ao chegar às agências, enfrentavam filas e mais filas devido à falta de opção. Claro, continuam faltando outras coisas. Falta saneamento básico, falta água encanada de qualidade, falta linha telefônica. Inclua na lista rua asfaltada, hospitais, policiamento, internet, entre outros pontos fundamentais para uma região urbana de qualidade. Mas serviços bancários eles têm. Como Kleber, o Banco de Brasília (BRB) possui outras 104 unidades de correspondentes nãobancários. Cerca de 138 mil pessoas vão, no mínimo, mensalmente nessas pequenas empresas ou lojas para sacar benefícios sociais concedidos pelo governo federal, como o Renda Minha e o Bolsa Família. A doação varia entre R$ 80 e R$ 150, de acordo com a situação de cada família e frequência dos filhos na escola. São pessoas que não ganham nem um salário mínimo julho/agosto 2010 FINANCEIRO 23

24 especialnovos mercados Incentivo João Werlang, da Coopa DF, obtém R$ 5 milhões em crédito por ano para fomentar seus negócios por mês no ramo em que atuam e possuem com essas quantias uma importante ajuda. A existência de Águas Lindas é recente. Antes conhecida como Parque da Barragem, foi emancipada em dezembro de Sua única razão de existência é Brasília. Começou a crescer às margens da BR 070 devido à exploração imobiliária. Os lotes eram oferecidos a valores baixos, o que facilitou sua aquisição por parte da população de baixa renda que morava no Distrito Federal. Por isso Kleber vende de tudo em sua lojinha. Nela é possível encontrar produtos para plantio e pesca, cama, mesa e banho, acessórios de cozinha, casinha para cachorro, ração ou o que for preciso. Desde abril deste ano ele já pode conceder crédito no correspondente. O projeto do BRB ainda está em teste de aceitação e visa, inicialmente, verificar como essa população lida com o dinheiro emprestado. O valor varia entre R$ 500 e R$5 mil e o pagamento deve ser feito em até 12 meses. A gerência de correspondentes não-bancários (Gerco) do BRB, em que Humberto Augusto Coelho atua, quer quadruplicar as unidades neste ano. A meta é de 373 correspondentes com um só caixa e 21 que, como o correspondente de Kleber, terão dois caixas. Para isso, o edital é divulgado em mídia de rádio e cartazes nos próprios correspondentes. Foi em 2007 que o BRB lançou um edital público para que as microempresas da região de Brasília e entorno participassem. Desde então o programa é anunciado também nas praças mais movimentadas dos municípios trimestralmente por 30 dias. O público principal são as cidades que não possuem nenhum banco, como Águas Lindas. Quando há empate de empresas, são avaliadas algumas características, como fluxo de pessoas, acessibilidade e tempo de existência. O banco não exige nenhum pagamento para a atuação. O contrato é de três anos e pode ser renovado por mais dois. Depois de passado o período, o lojista deve participar de um novo edital pelo qual pode ser desbancado pela concorrência. Kleber participou de uma dessas licitações em 2008 e venceu. De lá para cá a demanda que trafega no correspondente é tão grande que Kleber o separou com divisórias de sua loja e colocou um gerente e três caixas. Todos eles foram treinados pelo próprio BRB e pela Gerco. Na Agropecuária são dois atendentes. Uma das caixas foi treinada para o produto novo de crédito. Além dos benefícios do governo, as pessoas sacam pagamento, aposentadoria, INSS, pagam contas, depositam, tiram saldo. Tudo o que fariam em um banco comum. O banco não foi até Águas Lindas, mas chegou lá. Os primeiros 15 dias do mês são os mais movimentados devido ao período de pagamentos. Como resultado, uma loja de roupas e outra que vende doces na mesma rua do correspondente também estão faturando mais. Desde a abertura do BRB Conveniência até agora, o movimento da redondeza melhorou 50%. O correspondente em Águas Lindas pode incentivar o crescimento da região. Incentivo agrícola O Banco de Brasília também possui uma carteira de crédito específica para produtores da Região do Distrito Federal e Entorno (Ride). A linha financia o investimento agrícola e pecuário e trata desde a compra do terreno, de animais e equipamentos até o custeio e a estocagem de grãos. São cerca de 600 clientes que usufruem desse benefício entre pequenos e médios produtores no Ride. Os recursos são liberados em até 45 dias. Nesse período, o agricultor que precisa do impulso financeiro apresenta um projeto com as características do seu negócio. 24 FINANCEIRO julho/agosto 2010

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