SEMIPRESENCIAL DISCIPLINA: MEIO AMBIENTE E QUALIDADE DE VIDA MATERIAL COMPLEMENTAR UNIDADE I PROFESSOR: EDUARDO PACHECO

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1 SEMIPRESENCIAL DISCIPLINA: MEIO AMBIENTE E QUALIDADE DE VIDA MATERIAL COMPLEMENTAR UNIDADE I PROFESSOR: EDUARDO PACHECO 2 - Marco político, normativo e de contexto nacional Marco político atual para as áreas protegidas O marco político relacionado à criação e gestão de unidades de conservação no Brasil está assentado na Lei nº 9.985, que em julho de 2000 instituiu o SNUC; no PNAP e, no âmbito da gestão federal, na criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. A seguir, descrevemos a articulação entre esses três componentes da atual política nacional para as áreas protegidas O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) A preparação de um sistema de unidades de conservação no Brasil teve início ainda em 1976, num trabalho denominado Uma análise de prioridades em conservação da natureza na Amazônia, que fundamentou a elaboração do Plano do Sistema Nacional de Unidades de Conservação do Brasil, publicado entre 1979 e 1982 (MERCADANTE 2001). Concebido como um apêndice do II Plano Nacional de Desenvolvimento que incrementaria programas oficiais de colonização, infra-estrutura viária e energética e de exploração dos recursos naturais na Amazônia brasileira -, esse documento propunha a imediata criação de Parques Nacionais, Reservas Biológicas e Florestas Nacionais na região, invariavelmente em áreas descartadas pelos projetos econômicos planejados. De fato, entre 1979 e 1985, foram criados dez Parques Nacionais, quatro dos quais na Amazônia; 13 Reservas Biológicas, cinco delas na mesma região, e 15 Estações Ecológicas, 11 na Amazônia, totalizando 20 unidades de conservação de proteção integral nessa parte do país, ou 9,7 milhões de hectares (BARRETTO FILHO 2003). Nesse mesmo contexto histórico, populações amazônicas iniciaram uma mobilização contra a implantação de projetos de desenvolvimento que traziam danos ao seu estilo de vida, tendo à frente lideranças como o sindicalista Chico Mendes. Tal reação levou à interrupção de financiamentos externos a esses projetos e resultou na formulação de uma inovadora categoria de área protegida que, adaptada às condições amazônicas, conciliava uso econômico, regularização fundiária e conservação dos atributos naturais - a Reserva Extrativista, regulamentada em 1990 pelo Decreto nº como espaço territorial destinado à utilização sustentável e conservação dos recursos naturais renováveis. A emergência dessas populações no debate sobre o

2 modelo de desenvolvimento para a região do qual a criação de unidades de conservação era um componente - ensejou a gradual incorporação de uma visão mais abrangente de conservação no âmbito do debate público, nacional e internacional, influenciando, posteriormente, as normas e as políticas públicas para o setor. Em 1988, ano da promulgação da Constituição em vigor, o governo federal encomendou uma avaliação crítica das categorias de unidades de conservação existentes no país, bem como a elaboração de um anteprojeto de lei visando instituir um sistema nacional de unidades de conservação (MERCADANTE 2001). Em maio de 1992 uma proposta foi encaminhada como Projeto de Lei ao Congresso Nacional pelo então presidente da República, permanecendo em debate nessa Casa até junho de 2000, quando foi finalmente aprovado. No dia 19 de julho, foi publicado com vetos no Diário Oficial da União como a Lei nº 9.985/2000, que instituiu o SNUC. Sinteticamente, a Lei nº 9.985/2000 define 13 objetivos para o Sistema e o organiza em torno de 12 categorias de manejo, divididas em dois grupos: o grupo das unidades de conservação de proteção integral, composto por cinco categorias, e o grupo de unidades de conservação de uso sustentável, com sete categorias. Os principais avanços trazidos pela nova lei à estruturação de um sistema de unidades de conservação são: o planejamento da conservação deve assegurar representatividade à diversidade de ecossistemas terrestres e marinhos do país, protegendo amostras significativas e ecologicamente viáveis do patrimônio biológico existente no país; - o processo de criação e a posterior gestão de unidades de conservação devem ser realizados com a participação efetiva das populações locais, por meio de consultas públicas - excetuando as categorias Reserva Biológica e Estação Ecológica -, e da instituição de conselhos de gestão; - populações locais cuja subsistência dependa de recursos naturais localizados dentro de áreas declaradas como unidades de conservação devem ser justamente indenizadas ou providas com meios alternativos de subsistência; - o Sistema deve buscar proteger grandes áreas integrando diferentes categorias e formas de manejo e uso do solo, constituindo corredores ecológicos; quando existir um conjunto de unidades de conservação de diferentes categorias, próximas, justapostas ou sobrepostas, a gestão deverá ser feita de forma integrada e participativa, constituindo mosaicos; - inclusão no SNUC das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), fortalecendo a integração de reservas em propriedades privadas à estratégia de conservação do país; - estabelecimento de mecanismos de compensação para empreendimentos com significativo impacto ambiental, por meio do qual o empreendedor fica obrigado a destinar no mínimo 0,5% do valor total do empreendimento para a implementação e manutenção de unidades de conservação de proteção integral; - reconhecimento da presença humana em unidades de conservação de proteção integral

3 já existentes, com sugestão de mecanismos para enfrentá-lo, assegurando respeito aos direitos dessas populações. Como destacado, o SNUC introduziu na legislação mecanismos e normas que, quando bem aplicados, trazem maior efetividade às unidades de conservação como instrumento de conservação da natureza e uso sustentável dos recursos naturais. Esses mecanismos e normas asseguram processos de criação e gestão de unidades de conservação mais participativos e, consequentemente, unidades de conservação melhor ajustadas à dinâmica social e econômica local. Uma descrição da estrutura e dos instrumentos trazidos pelo SNUC está no item Estrutura do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza O Plano Estratégico Nacional de Áreas Protegidas (PNAP) Ainda que tenha trazido mecanismos úteis para solucionar impasses históricos relacionados às unidades de conservação, o SNUC representa uma abordagem parcial face às possibilidades existentes no Brasil de instituir um planejamento mais abrangente da conservação e do uso sustentável da biodiversidade, especialmente em regiões com extensas áreas naturais bem conservadas e manejadas de forma diversificada por populações humanas, como é o caso da Amazônia brasileira. Argumentos científicos como os derivados da biologia da conservação, de que escalas maiores são mais eficazes para a conservação, pois os processos biológicos se dão em condições que extrapolam os limites das áreas protegidas - e mesmo políticos como introduzir a variável da conservação e do uso sustentável da biodiversidade no planejamento mais amplo do desenvolvimento regional - justificam plenamente a necessidade de conceber a conservação de forma ecossistêmica no país. Em 2004, diante da adoção do Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas da CDB (Decisão VII/28), aprovado na COP-7 com o apoio do governo brasileiro, o Ministério do Meio Ambiente e organizações da sociedade civil brasileira assinaram um protocolo de intenções objetivando construir e implementar uma política abrangente para as áreas protegidas no Brasil, dando origem ao Fórum Nacional de Áreas Protegidas, espaço de participação, colaboração e controle social sobre essa política. Em janeiro de 2005, foi criado o Grupo de Trabalho Ministerial para a elaboração do Plano Nacional de Áreas Protegidas composto por especialistas, gestores de unidades de conservação e lideranças de organizações da sociedade civil e de movimentos sociais, envolvendo aproximadamente 400 pessoas. Em abril de 2006, o PNAP foi oficialmente instituído por meio do Decreto nº 5.758, assinado pelo presidente da República. Coerentemente com a Decisão VII/28, o PNAP reconhece a importância das terras indígenas e das terras de comunidades remanescentes de quilombos como parte da política de conservação da biodiversidade brasileira. Ao integrá-las ao esforço de planejamento da paisagem, ao lado das unidades de conservação estabelecidas pela Lei nº 9.985/2000, o PNAP amplia de forma inovadora a abordagem ecossistêmica dada à política nacional, contemplando ainda as áreas de preservação permanente e as reservas legais2 como elementos de conectividade entre fragmentos naturais e as próprias áreas protegidas.

4 O Plano define princípios, diretrizes, objetivos e estratégias para o Brasil estabelecer um sistema abrangente de áreas protegidas, ecologicamente representativo e efetivamente manejado, integrando paisagens terrestres e marinhas mais amplas até Segundo a Lei nº 4.771/65, que instituiu o Código Florestal, é considerada de preservação permanente a vegetação situada ao longo de rios, lagos, reservatórios de água e nascentes; nos topos de morro, montanhas, serras, chapadas ou tabuleiros; nas encostas com declividade superior a 45º; nas restingas, dunas e mangues. A reserva legal corresponde a uma área de vegetação, variável de 20% a 80% de cada propriedade rural, segundo o bioma onde está localizada, onde não é permitido o corte raso. Terras indígenas e conservação da biodiversidade no Brasil Com de hectares, as terras indígenas ocupam aproximadamente 12,8% da superfície do território brasileiro, sendo que 98% desse total estão localizados na Amazônia (ISA 2007). A distribuição geográfica das terras sob domínio indígena assegura a conservação de ecossistemas que já não têm mais condições de serem protegidos em dimensões adequadas à manutenção dos processos biológicos que geram e mantêm a biodiversidade. Especificamente no chamado arco do desmatamento região da Amazônia onde estão os municípios que apresentam as maiores taxas anuais de desmatamento as terras indígenas funcionam como uma barreira à especulação fundiária e à conversão da cobertura florestal em pastagens e cultivos agrícolas. Estudo publicado em 2006 concluiu, com base na análise de imagens de satélites de diferentes categorias de unidades de conservação e terras indígenas da Amazônia brasileira, que estas últimas são especialmente importantes para prevenir desmatamentos em larga escala em áreas de avanço da fronteira agrícola (NEPSTAD et al. 2006). O primeiro mapeamento das áreas prioritárias para a conservação e uso sustentável da biodiversidade no Brasil, realizado pelo Ministério do Meio Ambiente entre 1998 e 2000, concluiu que 40% da área total considerada como de extrema importância, 36,4% da área total de muito alta importância e 25% do total de alta importância estavam sobrepostas a terras indígenas (CLEARY 2004). A atualização desse estudo (veja item Áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade e análise de lacunas de representatividade), ao elevar para 80% a superfície do bioma Amazônia considerada como prioritária para a conservação, confirmou o caráter insubstituível das terras indígenas para a conservação do patrimônio biológico do país. Apesar dessas evidências, até o advento do PNAP o Brasil não incluía as terras indígenas como parte da estratégia para a conservação e uso sustentável da diversidade biológica. Sua inclusão no PNAP demandou a constituição de um grupo de trabalho específico, composto paritariamente por representantes do governo e de povos indígenas, que formulou o projeto Proteção, Conservação, Recuperação e Uso Sustentável da Biodiversidade em Terras Indígenas, que está sendo negociado junto ao Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF). Além disso, a implementação do PNAP contempla o estabelecimento de um programa nacional para a conservação da biodiversidade em terras indígenas, com detalhamento de metas e estratégias específicas O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade A necessidade de prover maior eficácia e eficiência à política nacional de

5 conservação e uso sustentável da biodiversidade levou o Governo Federal a publicar a Medida Provisória nº 366, de 26 de abril de 2007, criando o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que assumiu a gestão das unidades de conservação federais até então sob a responsabilidade do Ibama3. À nova autarquia cabe a proposição, implantação, gestão, proteção, fiscalização e monitoramento das unidades de conservação instituídas pela União, bem como a execução das políticas relativas ao uso sustentável dos recursos naturais renováveis, apoio ao extrativismo e às populações tradicionais nas unidades de conservação de uso sustentável instituídas pela União. O novo Instituto terá, ainda, o papel de fomentar e executar programas de pesquisa, proteção, preservação e conservação da biodiversidade, de acordo com as diretrizes proferidas pelo Ministério do Meio Ambiente. Sob seus cuidados está a gestão de 288 unidades de conservação que abrangem cerca de 8% do território nacional além criar e apoiar a gestão de 432 reservas privadas reconhecidas pelo órgão federal. 3 A medida provisória em questão foi convertida na Lei nº /2007, publicada no Diário Oficial da União em 28/08/07. Para detalhes das atribuições do Instituto Chico Mendes, ler o item 2.2 Marco legal para as áreas protegidas. A íntegra da lei pode ser encontrada em planalto.gov.br/ccivil/_ato /2007/lei/l11516.htm. FONTE: pdf

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