A Compensação ambiental prevista no art. 36 da Lei do SNUC

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1 A Compensação ambiental prevista no art. 36 da Lei do SNUC Congresso do Ministério Público de Meio Ambiente da Região Sudeste Erika Bechara 08.Abril

2 COMPENSAÇÃO NO DIREITO AMBIENTAL No léxico, compensar é 1. Estabelecer equilíbrio entre; contrabalançar, equilibrar; 2. Reparar o dano, o incômodo etc., resultante de: contrabalançar, contrapesar (...) (Novo Aurélio Século XXI, p. 512) A compensação está, via de regra, associada a uma perda ou a um sacrifício. E no Direito, está, via de regra, associada a um DANO. 2

3 COMPENSAÇÃO NO DIREITO AMBIENTAL compensação ambiental lato sensu: engloba todas as medidas de substituição de um bem danificado por outro de valor equivalente tem por escopo aliviar as conseqüências de um prejuízo causado ao meio ambiente, com um benefício ambiental que possa ter um significado muito próximo ao bem prejudicado, em termos valorativos 3

4 COMPENSAÇÃO NO DIREITO AMBIENTAL COMPENSAÇÃO POR DANO JÁ OCORRIDO (i) reparação em dinheiro (ii) reparação por equivalente COMPENSAÇÃO POR DANO PRESUMIDO (iii) compensação para supressão de APP (iv) compensação para supressão de Mata Atlântica (v) compensação de Reserva Legal COMPENSAÇÃO POR DANO FUTURO (vi) compensação ambiental ex ante 4

5 COMPENSAÇÃO AMBIENTAL Instituída pela Resolução Conama 10/87 (exigida dos empreendimentos que pudessem destruir florestas e outros ecossistemas, em favor da implantação de uma Estação Ecológica), substituída pela Resolução Conama 2/96 (ampliou o objeto da compensação ambiental, permitindo que os recursos desembolsados pelo empreendedor a esse título fossem aplicados em outras unidades de conservação públicas de proteção integral (=uso indireto) que não as estações ecológicas) Atualmente disciplinada pelo art. 36 da Lei 9.985/00, arts. 31 a 34 do Decreto 4.340/02 (alterados pelo Decreto 6.848/09) e Resolução Conama 371/06 Reparação de danos ambientais futuros, porém certos, não elimináveis, detectados no licenciamento ambiental de empreendimentos potencialmente causadores de degradação ambiental 5

6 Art. 36 da Lei 9.985/00. Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental, assim considerado pelo órgão ambiental competente, com fundamento em estudo de impacto ambiental e respectivo relatório - EIA/RIMA, o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral, de acordo com o disposto neste artigo e no regulamento desta Lei. 1o O montante de recursos a ser destinado pelo empreendedor para esta finalidade não pode ser inferior a meio por cento dos custos totais previstos para a implantação do empreendimento, sendo o percentual fixado pelo órgão ambiental licenciador, de acordo com o grau de impacto ambiental causado pelo empreendimento. 2o Ao órgão ambiental licenciador compete definir as unidades de conservação a serem beneficiadas, considerando as propostas apresentadas no EIA/RIMA e ouvido o empreendedor, podendo inclusive ser contemplada a criação de novas unidades de conservação. 3o Quando o empreendimento afetar unidade de conservação específica ou sua zona de amortecimento, o licenciamento a que se refere o caput deste artigo só poderá ser concedido mediante autorização do órgão responsável por sua administração, e a unidade afetada, mesmo que não pertencente ao Grupo de Proteção Integral, deverá ser uma das beneficiárias da compensação 6 definida neste artigo.

7 LICENCIAMENTO DE EMPREENDIMENTOS CAUSADORES DE IMPACTO AMBIENTAL Alterações ambientais evitáveis e inevitáveis Dentre as alterações ambientais inevitáveis, há aquelas juridicamente toleráveis e alterações ambientais juridicamente intoleráveis As alterações juridicamente toleráveis permitirão o licenciamento do empreendimento mediante o pagamento da compensação ambiental; as juridicamente intoleráveis reclamarão o indeferimento das licenças ambientais. 7

8 JUSTA CAUSA PARA A COMPENSAÇÃO AMBIENTAL Há quem defenda a falta de justa causa para a exigência da compensação ambiental (p.ex., ADIN promovida pela FIESP ) pois nenhum empreendimento será licenciado se puder causar danos ambientais. Sendo assim, pagará por danos que não causará. Este entendimento não nos parece correto porque não é certo que somente empreendimentos isentos de danos ambientais serão licenciados. 8

9 NATUREZA JURÍDICA Tributo Preço público Reparação civil por danos futuros (nossa opinião) 9

10 NATUREZA JURÍDICA Posição do STF na ADIN 3378/DF: O Ministro Carlos Ayres Brito atrelou o instituto ao princípio do usuáriopagador, afastando o seu caráter indenizatório e firmando se tratar de um compartilhamento de despesas ; o Ministro Menezes Direito também não vislumbrou caráter indenizatório na compensação ambiental mas, sim, caráter compensatório e o Ministro Marco Aurélio a enxergou como indenização prévia (e, por isso, a reputou inconstitucional). Nenhum dos ministros participantes do julgamento, porém, chegou a tratar a compensação ambiental como um tributo ou um preço público. 10

11 NATUREZA JURÍDICA a justiça da reparação antecipada inexistência de conflito entre o princípio da prevenção e o instrumento da compensação ambiental a polêmica sobre os danos ambientais posteriores, não previstos no licenciamento ambiental a compensação ambiental é um ônus ou um dever? 11

12 EXIGIBILIDADE De acordo com o art. 36 da Lei 9.985/00, a compensação ambiental é exigível apenas dos empreendimentos sujeitos ao EPIA/RIMA e os causadores de danos ambientais não elimináveis mas não sujeitos ao EPIA/RIMA? Empreendimentos públicos e privados Ampliação de empreendimentos 12

13 VALOR Lei 9.985/00: aplicação de um percentual de no mínimo 0,5% sobre os custos totais previstos para a implantação do empreendimento (art. 36, 1º) ADIN 3378: STF declarou a inconstitucionalidade parcial do 1º do art. 36 da Lei 9.985/2000 (abril/2008), determinando a redução parcial de seu texto, nos seguintes termos: O montante de recursos a ser destinado pelo empreendedor para esta finalidade, sendo fixado pelo órgão ambiental licenciador, de acordo com o grau de impacto ambiental causado pelo empreendimento. 13

14 VALOR AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ART. 36 E SEUS 1.º, 2.º E 3.º DA LEI N.º 9.985, DE 18 DE JULHO DE CONSTITUCIONALIDADE DA COMPENSAÇÃO DEVIDA PELA IMPLANTAÇÃO DE EMPREENDIMENTOS DE SIGNIFICATIVO IMPACTO AMBIENTAL. INCONSTITUCIONALIDADE PARCIAL DO 1.º DO ART O compartilhamento-compensação ambiental de que trata o art. 36 da Lei n.º 9.985/2000 não ofende o princípio da legalidade, dado haver sido a própria lei que previu o modo de financiamento dos gastos com as unidades de conservação da natureza. De igual forma, não há violação ao princípio da separação dos Poderes, por não se tratar de delegação do Poder Legislativo para o Executivo impor deveres aos administrados. 2. Compete ao órgão licenciador fixar o quantum da compensação, de acordo com a compostura do impacto ambiental a ser dimensionado no relatório - EIA/RIMA. 3. O art. 36 da Lei n.º 9.985/2000 densifica o princípio usuário-pagador, este a significar um mecanismo de assunção partilhada da responsabilidade social pelos custos ambientais derivados da atividade econômica. 4. Inexistente desrespeito ao postulado da razoabilidade. Compensação ambiental que se revela como instrumento adequado à defesa e preservação do meio ambiente para as presentes e futuras gerações, não havendo outro meio eficaz para atingir essa finalidade constitucional. Medida amplamente compensada pelos benefícios que sempre resultam de um meio ambiente ecologicamente garantido em sua higidez. 5. Inconstitucionalidade da expressão não pode ser inferior a meio por cento dos custos totais previstos para a implantação do empreendimento, no 1.º do art. 36 da Lei n.º 9.985/2000. O valor da compensação-compartilhamento é de ser fixado proporcionalmente ao impacto ambiental, após estudo em que se assegurem o contraditório e a ampla defesa. Prescindibilidade da fixação de percentual sobre 14os custos do empreendimento. 6. Ação parcialmente procedente.

15 VALOR Efeitos da declaração de inconstitucionalidade (ADIN 3378): ex tunc (retroativos) ou ex nunc? O Presidente da República e a CNI, em embargos de declaração, requereram ao STF seja dada eficácia ex nunc à decisão e determinada a produção de efeitos depois de transcorrido um certo período de tempo, contado do trânsito em julgado, para adaptação do Poder Público e do setor produtivo à nova regra 15

16 VALOR Decreto 6.848/09: inseriu o art. 31-A no Decreto 4.340/02, recriando a fórmula da alíquota sobre base de cálculo, estabelecendo a alíquota máxima de 0,5%: Art. 31-A. O Valor da Compensação Ambiental - CA será calculado pelo produto do Grau de Impacto - GI com o Valor de Referência - VR, de acordo com a fórmula a seguir: CA = VR x GI, onde: CA = Valor da Compensação Ambiental; VR = somatório dos investimentos necessários para implantação do empreendimento, não incluídos os investimentos referentes aos planos, projetos e programas exigidos no procedimento de licenciamento ambiental para mitigação de impactos causados pelo empreendimento, bem como os encargos e custos incidentes sobre o financiamento do empreendimento, inclusive os relativos às garantias, e os custos com apólices e prêmios de seguros pessoais e reais; e 16 GI = Grau de Impacto nos ecossistemas, podendo atingir valores de 0 a 0,5%.

17 VALOR Decreto estadual (MG) /09: segue a linha do Decreto 6.848/09 e fixa o valor da compensação na base da alíquota sobre base de cálculo, estabelecendo a alíquota máxima de 0,5%: Art. 9º O valor de compensação ambiental será calculado a partir do grau do impacto apurado multiplicado pelo valor de referência: CA = GI x VR, sendo: I - CA = Compensação Ambiental; II - GI = Grau do Significativo Impacto Ambiental - GI =?FR + (FT + FA), cujos valores nas tabelas 1,2 e 3 se encontram em percentual; e III - VR = Valor de Referência (somatório dos investimentos inerentes à implantação do empreendimento, incluindo-se o montante destinado ao cumprimento de medidas mitigadoras estabelecidas como condicionantes e excluindo-se custos de análise do licenciamento ambiental e investimentos que possibilitem alcançar níveis de qualidade ambiental superiores aos exigidos 17

18 DESTINAÇÃO De acordo com o art. 36 da Lei 9.985/00, pela compensação ambiental o empreendedor apoiará a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral (estação ecológica, reserva biológica, parque, monumento natural e refúgio de vida silvestre), sendo que caberá ao órgão ambiental licenciador definir as unidades de conservação a serem beneficiadas, considerando as propostas apresentadas no EIA/RIMA e ouvido o empreendedor, podendo inclusive ser contemplada a criação de novas unidades de conservação ( 2º). Além disso, quando o empreendimento afetar unidade de conservação específica ou sua zona de amortecimento, a unidade afetada, mesmo que não pertencente ao Grupo de Proteção Integral, deverá ser uma das beneficiárias da compensação definida neste artigo ( 3º). 18

19 PRIORIDADES NA APLICAÇÃO DOS RECURSOS Art. 33 do Decreto 4.340/02. A aplicação dos recursos da compensação ambiental de que trata o art. 36 da Lei nº 9.985, de 2000, nas unidades de conservação, existentes ou a serem criadas, deve obedecer à seguinte ordem de prioridade: I - regularização fundiária e demarcação das terras; II - elaboração, revisão ou implantação de plano de manejo; III - aquisição de bens e serviços necessários à implantação, gestão, monitoramento e proteção da unidade, compreendendo sua área de amortecimento; IV - desenvolvimento de estudos necessários à criação de nova unidade de conservação; e V - desenvolvimento de pesquisas necessárias para o manejo da unidade de conservação e área de amortecimento. 19

20 PRIORIDADES NA APLICAÇÃO DOS RECURSOS Parágrafo único. Nos casos de Reserva Particular do Patrimônio Natural, Monumento Natural, Refúgio de Vida Silvestre, Área de Relevante Interesse Ecológico e Área de Proteção Ambiental, quando a posse e o domínio não sejam do Poder Público, os recursos da compensação somente poderão ser aplicados para custear as seguintes atividades: I - elaboração do Plano de Manejo ou nas atividades de proteção da unidade; II - realização das pesquisas necessárias para o manejo da unidade, sendo vedada a aquisição de bens e equipamentos permanentes; III - implantação de programas de educação ambiental; e IV - financiamento de estudos de viabilidade econômica para uso sustentável dos recursos naturais da unidade afetada. 20

21 EXECUÇÃO Direta Por adesão ao Fundo de Investimentos CAIXA Compensações Ambientais (FCA), da Caixa Econômica Federal, criado em 16 de março de 2006 (Para saber mais: manual Procedimentos para adesão ao Fundo de Compensações ambientais. Disponível em ANUAL_PROCED_FCA.pdf) 21

22 EXECUÇÃO Em Minas Gerais, de acordo com o Decreto /09: a) A compensação ambiental deverá ser cumprida por meio de depósito de recursos financeiros em conta específica do órgão gestor das Unidades de Conservação beneficiárias em até quatro parcelas iguais, mensais e sucessivas (art. 14) b) Há uma forma alternativa de cumprimento da compensação ambiental: dação em pagamento de imóvel no interior de unidade de conservação, pendente de regularização fundiária, desde que o empreendedor seja proprietário do imóvel antes do início do processo de licenciamento do empreendimento em relação ao qual incide a condicionante 22 relativa à compensação ambiental (art. 15)

23 OBRIGADA 23

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