Direito dos Seguros. José Caramelo Gomes

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1 Direito dos Seguros José Caramelo Gomes 1

2 Plano 1. Introdução 1.1 Definição de Direito dos Seguros 1.2 Autonomia do Direito dos Seguros 1.3 Fontes de Direito dos Seguros 2. O Mercado Interno 2.1 Direito de estabelecimento e livre prestação de serviços 2.2 O Direito Comunitário dos seguros As Directivas de primeira geração As Directivas de segunda geração As directivas de terceira geração 3. O regime jurídico da actividade seguradora 3.1 As condições de acesso à actividade seguradora O estabelecimento Condições formais Condições substantivas A livre prestação de serviços Livre prestação de serviços no território de outros Estados-membros por empresas com sede em Portugal Livre prestação de serviços em Portugal por empresas com sede no território de outros Estados-membros 3.2 As condições de exercício da actividade seguradora As garantias financeiras Provisões técnicas Margem de solvência Fundo de garantia A fiscalização das garantias financeiras Ramos de seguro e supervisão de contratos e tarifas Supervisão prudencial da actividade seguradora Sigilo profissional 2

3 3.2.6 Regime fiscal O endividamento das empresas de seguros O regime sancionatório da actividade seguradora 4. Actividade seguradora e Direito da Concorrência 5. Seguros e defesa do consumidor 6. Do contrato de seguro em geral Bibliografia Anexo A: Extractos do Código Comercial Anexo B: Decreto-lei 94-B/98 (RJAS) Anexo C: Decreto-lei 251/97 (Estatuto do ISP) Anexo D: Decreto-lei 176/95 (Regras de transparência) Anexo E: Decreto-lei 388/91 (Mediação seguradora) Anexo F: Cláusulas Contratuais Gerais Anexo G: Decreto-lei 522/85 (Seguro obrigatório RC automóvel) Anexo H: Lei 100/97 (Seguro acidentes de trabalho) Anexo I: Extractos do Tratado que institui a Comunidade Europeia Anexo J: Lei de Defesa da Concorrência Anexo L: Regulamento sobre concentrações Anexo M: Princípios gerais da actividade actuarial Índice 3

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5 1. Introdução O seguro surgiu entre os finais do século XIV e princípios do século XV, como consequência natural do desenvolvimento da viagens marítimas e dos riscos que lhes eram inerentes. A primeira regulamentação seguradora em Portugal data de , tendo como objecto a cobertura de navios de peso bruto superior a 50 toneladas. Nesta época surgiram regulamentações idênticas em França e em Inglaterra. Apenas no século XVII surgiram novos tipos de seguro, por influência do grande incêndio de Londres de 1666, aparecendo o seguro de incêndio, a que se seguiram, no século XVIII, os primeiros seguros de vida. A partir do século XIX a actividade seguradora desenvolveu-se extrordinariamente, aparecendo o seguro agrícola, o seguro de acidentes pessoais, o seguro de acidentes de trabalho e o seguro automóvel entre tantos outros. O contrato de seguro precedeu o aparecimento da seguradora, enquanto pessoa autónoma diferente do conjunto de indivíduos que as constituiam. Com efeito, esta realidade apenas surge nos séculos XVII e XVIII. As primeiras regras conformadoras da actividade seguradora em Portugal datam do final do século XIX e início do século XX, consagrando desde 1 Paula Maia Fernandes, O novo regime segurador 5

6 logo alguns dos princípios fundamentais que ainda hoje se encontram consagrados, tais como o princípio da tipicidade, da exclusividade e da supervisão dos poderes públicos, considerados indispensáveis para garantia da solidez das instituições seguradoras e da estabilidade do sector. A primeira sistematização do regime jurídico da actividade seguradora consta do Código Comercial de 1888, nos artigos 425 e sgs, a que se seguiu o Decreto de 21 de Outubro de 1907, sobre o acesso e exercício da actividade seguradora, a Lei 2/71, lei de bases do sector segurador, a Lei 46/77, lei dos sectores da economia que interditou a actividade seguradora à iniciativa privada, Lei 11/83 e Decreto-lei 406/83, que abriram este sector à iniciativa privada, Decreto-lei 102/94 que estebalece o regime actual de acesso à actividade seguradora e Decreto-lei 176/95, sobre a transparência da actividade seguradora e o regime jurídico do contrato de seguro. O actual regime da actividade seguradora em Portugal é fortemente marcado pela adesão às Comunidades Europeias e pelas consequentes obrigações comunitárias, principalmente no sentido da liberalização e realização do mercado interno dos serviços, capitais e direito de estabelecimento. O esforço das Comunidades Europeias nesta matéria 2 desenvolveu-se através de Directivas, normalmente agrupadas em três gerações. Através 2 Ver Infra 6

7 das Directivas de primeira geração promoveu-se o direito de estabelecimento dos operadores económicos, nas de segunda geração a liberdade de prestação de serviços pelos operadores e nas de terceira geração promoveram-se aspectos relativos ao controle prudencial das empresas envolvidas na actividade. 1.1 Definição de Direito dos Seguros 1.2 Autonomia do Direito dos Seguros 1.3 Fontes de Direito dos Seguros 7

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9 2.1 Direito de estabelecimento e livre prestação de serviços O Direito de estabelecimento, artigos 52º a 58º CE, e a livre prestação de serviços, artigos 59º a 66º CE, pertencem aos fundamentos, ao acervo, da Comunidade. Em conjugação com a livre circulação de trabalhadores, artigos 48º a 51º CE, asseguram a livre circulação de pessoas singulares e colectivas no mercado comum. Pelo essencial, o direito de estabelecimento e a livre prestação de serviços asseguram aos naionais comunitários o direito de exercer uma profissão ou actividade não assalariada no conjunto do território comunitário. O Direito de estabelecimento comporta, em todos os Estados-membros, o acesso e exercício de actividades económicas não assalariadas, incluindo o direito de constituição e gestão de empresas ou sociedades, de acordo com a legislação relevante do Estado-membro de acolhimento, por parte dos nacionais comunitários artigos 52º a 58º do Tratado CE, nos mesmos termos em que essa actividade seja proporcionada aos seus nacionais. Existem duas modalidades de exercício deste direito: a transferência ou criação de um centro de actividade principal, direito de estabelecimento a título principal e a criação de agências, sucursais ou filiais, direito de estabelecimento a título secundário. O Direito de estabelecimento pode ser exercido por pessoas singulares ou colectivas nacionais de um Estado-membro da Comunidade. 9

10 Se no que respeita às pessoas singulares o critério apontado não suscita quaisquer dificuldades, o mesmo não acontece no que respeita às pessoas colectivas. O artigo 58º CE determina que um duplo vinculo deve ligar uma pessoa colectiva à Comunidade Europeia por forma a que ela possa considerar-se nacional de um Estado-membro para efeitos de beneficiar do direito de estabelecimento previsto no tratado: o ter-se constituido de acordo com a legislação de um Estado-membro e ter a sua sede estatutária ou a sua administração principal ou o seu estabelecimento principal no território comunitário. A livre prestação de serviços na Comunidade Europeia compreende, de acordo com a jurisprudência do Tribunal de Justiça 3, três vertentes distintas: a possibilidade do prestador de serviços exercer a sua actividade no Estado-membro onde a prestação deverá realizar-se, nas mesmas condições em que os naionais desse estado (deslocação do prestador de serviços), a possibilidade de realizar prestações de serviços em benefício de um sujeito com sede em Estado-membro diverso daquele onde o prestador tem a sua sede e sem deslocação do prestador (deslocação da prestação) e a possibilidade do prestador receber, na sua sede, o beneficiário da prestação (deslocação do beneficiário). 3 Ac. Manfred Sager, de 25 de Julho de 1991, P. C-76/90, C. 1991, p. I-4221; Ac. Luisi e Carbone, de 31 de Janeiro de 1984, P. 286/82 e 26/83, C. 1984, p. 377; Ac. Gauchard, de 8 de Dezembro de 1987, P. 20/87, C. 1987, p. 4879, entre outros. 10

11 A livre prestação de serviços abrange qualquer actividade comercial, industrial e artesanal, exercidas por pessoas singulares ou colectivas, bem como o exercício de profissões liberais, desde que essa actividade seja desempenhada a título oneroso e desde que a situação concreta não seja abrangida pela livre circulação de mercadorias, de pessoas ou de capitais, relativamente às quais a liberdade de prestação de serviços é subsidiária. 2.2 O Direito Comunitário dos seguros A criação de um mercado interno dos seguros é uma preocupação antiga da Comissão e tem em vista a realização de um duplo objectivo: a possibilidade das companhias de seguros exercerem a sua actividade no conjunto da Comunidade sem entraves e a possibilidade dos tomadores do seguro escolherem o produto que se mostre mais adequado às suas necessidades. As medidas comunitárias desenvolveram-se em várias gerações de Directivas, cada uma delas com um objectivo claro e determinado, sempre segundo uma aproximação dualista entre ramos vida e não vida 4. 4 A actividade seguradora desenvolve-se em diversas áreas designadas por ramos. Esta classificação assenta num critério material que atende ao objecto do contrato ou contratos de seguros que virão a ser propostos pelo operador. A classificação assenta numa divisão básica entre ramos vida e não vida. O legislador optou por enumerar taxativamente quais os objectos contratuais incluídos numa e noutra categoria considerando-se que integram o ramo vida os contratos e operações que incidam sobre a morte, a vida, sobre a morte e a vida, a vida com 11

12 2.2.1 As Directivas de primeira geração As directivas de primeira geração tiveram como objecto conciliar o direito de estabelecimento com as necessidades de controle e regulamentação tradicionais ao mercado segurador. Com efeito, os diversos Estados-membros submetiam, há longo tempo, a actividade seguradora a regimes de supervisão e controle mais ou menos apertados, pelo que a liberalização não poderia efectuar-se sem que tal contra-seguro, a renda, os seguros contra danos corporais, tais como a invalidez por acidente ou doença, incapacidade para o trabalho profissional, morte por acidente, nupcialidade ou natalidade, seguros ligados a fundos de investimento, quando ligados a qualquer um dos seguros anteriores, operações de capitalização e de gestão de fundos colectivos de reforma, artigo 115º do Decreto-lei 102/94. O ramo não vida inclui os contratos de seguro e as operações que tenham por objecto acidentes de trabalho, acidentes pessoais e acidentes de pessoas transportadas, doença, veículos terrestres, aeronaves, embarcações, mercadorias transportadas, incêndio, raio explosão, tempestades, outros elementos da natureza, energia nuclear, aluimento de terras, riscos agricolas, pecuários e roubo, responsabilidade civil de veículos terrestres, de aeronaves e de embarcações, responsabilidade civil geral, risco de crédito à insolvência geral declarada ou presumida, de crédito à exportação, de vendas a prestações, de crédito hipotecário e de crédito agrícola, de caução directa ou indirecta e de perdas pecuniárias, tais como emprego, insuficiência de receitas, perda de lucro, persistência de despesas gerais, despesas comerciais imprevisiveis, perda de valor venal, perdas de rendas ou de rendimentos, perdas comerciais indirectas, perdas pecuniárias não comerciais, protecção jurídica e assistência a pessoas, artigo 114º do Decreto-lei 102/94. 12

13 controle se mantivesse 5. Liberalização deveria significar, antes de mais, harmonização dos procedimentos de controle e supervisão prudencial 6, com um elevado nivel de controle e eliminação de qualquer descriminação em razão da nacionalidade. As primeiras directivas nesta matéria datam de e visaram a realização do direito de estabelecimento nos ramos não vida. No que respeita ao acesso à actividade seguradora, estas directivas estabeleceram um regime de autorização pelas autoridades do Estadomembro de acolhimento, quer se tratasse de estabelecimento a título principal quer de estabelecimento a título secundário, quer ainda de uma extensão territrorial da sua actividade. A autorização era concedida por 5 Os regimes nacionais agupavam-se essencialmente em duas grande categorias: controle do conjunto da actividade das companhias de seguros ou controle de apenas algumas actividades das companhias de seguros.. Em qualquer dos casos, havia ainda uma dupla variante: Estados-membros que exerciam esse controle apenas sobre os aspectos financeiros da actividade controlada e Estados-membros que exerciam esse controlo sobre os aspectos financeiros e sobre os aspectos juridicos da actividade controlada. 6 A supervisão prudencial é o principal obreiro da realização do princípio da confiança do utente no sistema financeiro, considerado indispensável para o bom funcionamento das instituições abrangidas, designadamente, instituições de crédito e seguradoras. 7 Directiva 73/239/CEE de 24 de Julho de 1973, L 228 p.3 e Directiva 73/240/CEE de 24 de Julho de 1973, L 228 p.20 13

14 ramo de actividade e válida apenas para o território do Estado-membro concedente, o que em termos práticos determinava a necessidade de solicitar tantas autorizações quantos os Estados-membros em que a seguradora desejava instalar-se. A autorização ficava submetida a um conjunto harmonizado de condições: a adopção de uma forma societária determinada por cada Estado-membro; o cumprimento do princípio da exclusividade; a apresentação de um programa de actividades enunciando a natureza dos riscos, as condições gerais e especiais das apólices e as tarifas aplicáveis; apresentação de garantias de solvência, nela se incluindo a constituição de um fundo de garantia e um conjunto de regras sobre provisões e reservas técnicas 8. Os Estados-membros podiam exigir condições suplementares tais como qualificações especiais dos administradores, aprovação dos estatutos, condições imperativas das apólices de seguro e tarifários entre outras. Interdito ficava a possibilidade de exame do processo segundo critérios fundados na análise do mercado, dessa forma se afastando os comportamentos proteccionistas dos Estados-membros. A decisão sobre a autorização deveria ser susceptível de recurso jurisdicional. 8 Provisões técnicas são conjuntos de activos móveis ou imóveis, equivalentes e congruentes, que constituem patrimónios especiais garantes dos créditos emergentes dos contratos de seguro 14

15 As condições de exercício da actividade seguradora ficaram submetidas à supervisão do Estado-membro de acolhimento. Este controle, no entanto, passou a incidir sobre aspectos harmonizados: situação financeira das seguradoras, designadamente, a constituição em cada território e actividade, de provisões técnicas suficientes representadas por activos equivalentes e congruentes e a manutenção de uma margem de solvência 9 relativa ao conjunto das suas actividades. No que respeita ao controle das condições de exercício aparece uma solução dual, na medida em que se estabelece, no controle da margem de solvência, um sistema de colaboração entre as diversas autoridades de supervisão, sendo que a autoridade do Estado-membro da sede ficava incumbida do controle da margem de solvência e obrigada a reportar o resultado às suas congéneres, que por sua vez deveriam informar a autoridade da sede do conjunto de actividades da seguradora no respectivo território. O controle das condições de exercício passou a incidir também sobre a gestão da seguradora: fiscalização anual baseada na contabilidade e fiscalização sobre o conteudo dos contratos e tarifas. As directivas previam também disposições sancionatórias, tendo em vista a revogação da autorização e a correcção de irregularidades, bem como 9 Veremos adiante em que consiste a margem de solvência. Adiante-se apenas que a margem de solvência de uma empresa de seguros corresponde, ao seu património livre de toda e qualquer obrigação previsível e deduzido dos elementos incorpóreos. 15

16 disposições especiais relativas ao estabelecimento de sucursais de companhias de seguros com sede em países terceiros. O ramo vida foi objecto de regulamentação comunitária em , mediante uma transposição, com as necessárias adaptações, do regime estabelecido para os ramos não vida pelas Directivas de Como novidade surge o princípio da especialização do ramo vida, que impõe às seguradoras a interdição de acumular a exploração de ramos vida e não vida. Esta proibição não teve, no entanto, efeitos retractivos, salvaguardando-se os direitos adquiridos, desde que as empresas abrangidas mantivessem uma gestão separada para as duas actividades e duas margens de solvência distintas As Directivas de segunda geração As Directivas de segunda geração têm como objecto a realização da livre prestação de serviços na actividade seguradora dentro do mercado comum. O problema fundamental que se colocava era o de saber se uma companhia de seguros poderia exercer a sua actividade no território de um Estado-membro sem nele se instalar, a partir do território onde os seus serviços se localizavam, submetida, por isso, à legislação do Estadomembro onde a sede se encontrava localizada. 10 Directiva 79/267/CEE de 5 de Março de 1979, L 63 p. 1 16

17 A questão principal nesta matéria é de natureza económica. Com efeito, a disparidade entre o Direito dos Seguros nos diversos Estados-membros, na altura, era de molde a criar situações de desigualdade e, consequentemente, distorções à concorrência. Por este facto, a liberalização do mercado da prestação de serviços de seguros foi bem mais complexa que a liberalização do direito de estabelecimento, fundamentalmente pela alegada necessidade de harmonização prévia das legislações nacionais em sede de contrato de seguro. O marco fundamental determinante da liberalização da actividade seguradora nesta matéria assenta na jurisprudência do Tribunal de Justiça de 4 de Dezembro de Estavam em causa cinco acções por incumprimento e um reenvio prejudicial 12 onde basicamente se questionava a compatibilidade dos 11 Ac. Comissão c. França, de 4 de Dezembro de 1986, P. 220/83, C. 1986, p. 3663; Ac. Comissão c. Dinamarca, de 4 de Dezembro de 1986, P. 252/83, C. 1986, p. 3713; Ac. Comissão c. Alemanha, de 4 de Dezembro de 1986, P. 205/84, C. 1986, p. 3755; Ac. Comissão c. Irlanda, de 4 de Dezembro de 1986, P. 206/84, C. 1986, p. 3817; Ac. Holanda c. Federatie Nederlandse Vakbeweging, de 4 de Dezembro de 1986, P. 71/85, C. 1986, p.3855 e Ac Comissão c. Alemanha, de 4 de Dezembro de 1986, P. 179/85, C. 1986, p Sobre a acção por incumprimento e o reenvio prejudicial, entre outros, Gomes, José Caramelo & Fernandes, José Augusto, Enquadramento Jurídico da União Europeia, Petrony, Lisboa, 1994; Gomes, José Caramelo, A eficácia interna do Direito 17

18 artigos 59º e 60º CE com a exigência de estabelecimento imposta às companhias de seguros para o exercício ocasional da sua actividade noutro Estado-membro que não o da sua sede. O Tribunal de Justiça, recordou a sua jurisprudência relativa às exigências para o exercício da livre prestação de serviços, salientando que a sua imposição apenas poderia fundamentar-se em razões imperiosas de interesse geral. Da análise efectuada, o Tribunal de Justiça concluiu que a actividade seguradora constituia um dominio com características próprias que levaram os Estados-membros a legislar de forma imperativa no que respeita à situação financeira das empresas de seguros e às condições contratuais, bem como à fiscalização do seu cumprimento, pelo que existiam, nesta área, razões imperiosas de interesse geral que poderiam justificar a limitação à liberdade de prestação de serviços. Perante esta situação, o Tribunal de Justiça examinou as Directivas da primeira geração concluindo que o nivel de harmonização obtido não assegurava a equivalência das condições de exercício da actividade seguradora na Comunidade Europeia por forma a poderem ser suprimidas as restricções estaduais impostas aos prestadores de serviços. Comunitário, UCP, Lisboa, 1995 e Gomes, José Caramelo, O exercício da autoridade jurisdicional nacional na jurisprudência do Tribunal de Justiça da Comunidade Europeia, UCP,

19 Com efeito, apesar das Directivas conterem disposições detalhadas sobre a situação financeira das empresas e o seu controle pelas autoridades do Estado-membro da sede, não existiam quaisquer disposições que permitissem ao Estado-membro de acolhimento proceder a qualquer controle. Além disso, as Directivas em causa não haviam procedido a qualquer harmonização das regras nacionais relativas às provisões técnicas, pelo que aos Estados-membros seria licito exigir às seguradoras o respeito pelas suas próprias regras nesta matéria, da mesma forma que o poderiam fazer no tocante às condições contratuais. O Tribunal de Justiça, verificada que foi a possibilidade de serem impostas limitações, procedeu à analise em concreto das diversas limitações. Assim, relativamente à autorização de exercício, o Tribunal de Justiça considerou que a solução, a encarar de iure condendum, passaria pela harmonização de legislações, por forma a instituir o princípio do controle pela autoridade do Estado-membro de origem. Esta solução seria, no entanto, impraticável à data da pronúncia, pelo que se teria que admitir, transitoriamente, a solução de autorização pelo Estado-membro de acolhimento, desde que tal regime não constituisse uma solução descriminatória. No relativo à exigência de um estabelecimento estável no Estado-membro de acolhimento, o Tribunal considerou que se estaria perante a própria negação da liberdade de prestação de serviços e, consequentemente, rejeitou-a liminarmente. 19

20 Estes acórdãos estabeleceram um conjunto de princípios que facilitou enormemente a tarefa legislativa da Comunidade, que ficou claramente dotada de um objectivo: a instauração de um regime unico de autorização e controle pelo Estado-membro de origem. A tramitação subsequente reflectiu a decisão de aproximações sucessivas tomada pela Comunidade: numa primeira fase os princípios aplicar-seiam apenas na actividade seguradora em regime de livre prestação de serviços apenas nas áreas em que, de acordo com a jurisprudência do TJCE, não se suscitam necessidades de protecção especial nem se coloca a necessidade de harmonizar os direitos internos relativos às provisões técnicas e às condições contratuais; numa segunda fase alargaria este regime a todas as áreas da actividade seguradora, mediante uma coordenação das diversas legislações nacionais. A harmonização comunitária de segunda geração iniciou-se, tal como na primeira geração, pelos ramos não vida com a Directiva 88/357/CEE, de 22 de Junho de 1988, L 172, p. 1, que fixou as condições de exercício da actividade seguradora nos ramos não vida em livre prestação de serviços. O exercício da actividade seguradora em regime de livre prestação de serviços foi definido como sendo a cobertura de um risco localizado num Estado-membro diferente daquele em que a seguradora tem a sua sede. A liberalização assenta numa classificação dos riscos de acordo com um critério fundado na necessidade de protecção específica, o que levou à criação de duas categorias de riscos: os grandes riscos e os riscos de massa, os primeiros dispensando uma protecção específica ao tomador do 20

21 seguro e os segundos, pelo contrário, exigindo-a. A categoria dos grandes riscos foi definida em termos taxativos e a dos riscos de massa em termos residuais. São grandes riscos os riscos de transporte, de crédito e caução, quando tomados no exercício de uma actividade industrial, comercial ou profissional liberal e, bem assim, quaisqer outros riscos quando o tomador ultrapasse alguns valores numéricos determinados pela directiva, em função do valor do risco, do volume de negócios ou do pessoal empregado. Todos os riscos que não são definidos como grandes riscos são riscos de massa. O regime aplicável aos grandes riscos funda-se no princípio da autorização única e do controle da actividade da empresa de seguros pelo Estado-membro de origem. As seguradoras estabelecidas num Estadomembro da Comunidade que desejem desenvolver actividades em regime de prestação de serviços noutro Estado-membro devem notificá-lo previamente, podendo iniciar actividades a partir da data da notificação. O Estado-membro de acolhimento não pode submeter essa actividade à obtenção de uma autorização emitida pela sua própria autoridade. As regras aplicáveis ao montante das provisões técnicas, a sua representação e localização ficam submetidas ao controle do Estadomembro de origem de acordo com o seu direito interno. Os Estados-membros de prestação não podem não podem exigir a aprovação prévia ou a comunicação sistemática dos contratos e tarifas que a seguradora tenha a intenção de utilizar. Pode, no entanto, exigir comunicações pontuais, sem que tal possa constituir uma condição prévia 21

22 ao exercício da actividade, seja a título de estabelecimento seja de livre prestação de serviços. O Estado-membro da prestação mantém poderes alargados de controle sobre a prestação de serviços no âmbito dos seguros de massas. Pode submeter o seu exercício à concessão de uma autorização administrativa e pode submeter a sua concessão a um conjunto de condições: a entrega de um certificado de solvência emitido pelo Estado-membro de origem, o depósito de um programa de actividades indicando a natureza dos riscos cobertos, bem como a indicação das condições contratuais gerais e especiais e tarifas, quando tal exigência seja igualmente formulada para as empresas de seguros com sede naquele território. O prestador de serviços deverá constituir provisões técnicas relativas aos contratos concluídos no âmbito da prestação de serviços, representandoas e localizando-as nos termos das regras do Estado-membro da prestação, que pode ainda submeter ao controle o conteúdo dos documentos contratuais, quando as regras do Estado-membro de estabelecimento não determinem um nivel de protecção adequada aos tomadores do seguro. A lei aplicável ao contrato de seguro foi o objecto de um projecto de directiva em discussão a partir de Esta ideia acabou por ser abandonada, face às dificuldades existentes e na segunda directiva (Directiva 88/357/CEE) a solução é abordada em termos de Direito Internacional Privado, estabelecendo-se algumas regras e critérios tendo em vista a determinação da legislação aplicável ao contrato de seguro. 22

23 O texto da directiva é bastante prudente e comedido nesta matéria e a distinção entre grandes riscos e riscos de massa é, neste caso, destítuida de consequências directas. Os critérios fundamentais para a determinação da lei aplicável são o domicilio do tomador e o local do risco, em detrimento da lei ddo domicilio do segurador ou ainda do foro convencionado. Assim, quando o Estado-membro de residência do tomador coincida com o local do risco, a lei aplicável será necessariamente a desse estado; quando esses locais se encontrem em Estados-membros diferentes, incumbe às partes a escolha, de entre os dois, qual o direito aplicável; quando o tomador exerça uma actividade industrial, comercial ou liberal e o contrato cubra diversos riscos, localizados em diferentes Estadosmembros, a lei aplicável ao contrato poderá ser escolhida de entre as leis dos variados Estados-membros do risco e do Estado-membro da residência do tomador. As regras anteriores são excepcionadas quando se verifiquem algumas situações previstas na directiva. Assim, será aplicável a lei nacional da jurisdição quando esta seja imperativa, bem como será aplicável a lei do estado onde o risco está situado, quando essas normas sejam imperativas ou quando nesse estado o seguro em causa seja obrigatório. A livre prestação de serviços no ramo vida foi estabelecida nos termos da Directiva 90/619/CEE de 8 de Novembro de 1990, L 330 p. 50. A solução encontrada foi diferente da utilizada para os ramos não vida, 23

24 pese embora se prevejam ainda dois regimes distintos. Pelo essencial, o critério objectivo da importância do risco foi abandonado porque de dificil aplicação ao seguro de vida e foi adoptado um novo critério fundado na actividade ou passividade da prestação de serviços, consoante o contrato de seguro é concluído pela iniciativa do segurador ou do tomador. A ideia subjacente ao critério é de que o tomador que decide tomar um contrato de seguro fora do território do seu Estado-membro age voluntariamente e, em consciência, dispensa a sua protecção. Nos termos da directiva existe livre prestação de serviços passiva quando o tomador do seguro tem a iniciativa de contactar a seguradora, ainda que através de um intermediário estabelecido no Estado-membro e mandatado expressamente para esse efeito. O regime aplicável ao exercicio da liberdade de prestação de serviços passiva é idêntico ao regime estabelecido para os grandes riscos não vida enquanto o regime da prestação de serviços activa segue as regras aplicáveis aos riscos de massa dos seguros não vida. A segunda directiva contém ainda regras sobre a lei aplicável ao contrato de seguro: na ausência de estipulação das partes, quando o direito do Estado-membro em causa a permita, aplicar-se-á o direito d Estadomembro de residência do tomador As directivas de terceira geração 24

25 A terceira geração de directivas comunitárias sobre o mercado interno dos seguros assenta em dois documentos principais: a Directiva 92/49/CEE de 18 de Junho de 1992, L 228, p. 1, ramos não vida e Directiva 92/96/CEE de 10 de Novembro de 1998, L 360, p. 1, para o ramo vida. Pode ainda incluir-se nesta geração a Directiva 91/674/CEE, de 19 de Dezembro, relativa às contas anuais das empresas de seguros e a Directiva 95/26/CEE de 29 de Junho de 1995, relativa à supervisão prudenacial e ao reforço dos poderes das autoridades competentes especialmente no que respeita à troca de informações relativas às empresas supervisionadas. A terceira geração de directivas comunitárias completou o quadro legislativo comunitário necessário para o estabelecimento do chamado passaporte europeu das companhias de seguros. O esquema determinado assenta numa coordenação das principais regras relativas à supervisão prudencial e financeira das companhias de seguros, tendo em vista a realização da proteção dos tomadores e a estabilidade dos mercados financeiros. Com efeito, a actividade de seguro directo passou a estar submetida em todo o território comunitário ao regime de autorização única, válida para toda a Comunidade, emitida pelo Estado-membro de origem, segundo o princípio do home control, e habilitando a empresa a exercer a sua actividade, em regime de direito de estabelecimento ou de livre prestação de serviços, em qualquer Estado-membro. 25

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