Participação dos trabalhadores foi decisiva para a vitória no Consun

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1 SETEMBRO DE 2009 JORNAL DO SINTUPERJ 1 Jornal do Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Públicas Estaduais - RJ Ano IV - Nº 27 - setembro de 2009 Participação dos trabalhadores foi decisiva para a vitória no Consun Por unanimidade, conselheiros votaram a favor da retomada da isonomia salarial histórica. Confira na página 5 Fotos: Niko Jr. A nossa luta pelo reajuste salarial continua Pré-Vestibular do Sintuperj completa 11 anos Hupe: 59 anos de história e resistência Conheça um pouco mais sobre Dom Helder Câmara

2 2 JORNAL DO SINTUPERJ SETEMBRO DE 2009 Nossa Opinião A descoberta de Cabral Há diversas formas de reconhecer um governo. Uma delas é fazendo uma manifestação em defesa de algo que seja justo e correto. A reação das autoridades às reivindicações é a maior demonstração de sua personalidade: democrática ou autoritária. No caso do que ocorreu com os professores da rede pública do Estado do Rio de Janeiro, a revelação é assustadora e requer um posicionamento de todos os setores da sociedade comprometidos com a defesa da cidadania e dos direitos humanos. O tratamento dado aos educadores de nossos filhos em frente à Assembleia Legislativa foi revoltante. As escadarias da Alerj casa que deveria ser considerada do povo viraram praça de guerra entre policiais e trabalhadores da educação. Avançaram todos os limites da sanidade e chegaram a apontar uma pistola na direção daqueles que constroem o Estado, dos que atendem à população e são os verdadeiros responsáveis pelo atendimento digno que a sociedade merece. É lamentável ver um servidor policial sacar sua arma para ameaçar um colega de trabalho, que é o professor. Por trás das mãos do policial estão as ordens de um governo autoritário e desumano. Assim, reconhece-se o verdadeiro perfil de Cabral e seus seguidores. De voz com tom suave e desenvoltura digna de uma pessoa estadista, a ordem de reprimir trabalhadores faz Sérgio Cabral deixar descoberta sua face perversa e autoritária. Não basta a violência que tomou conta de nosso estado, o governo promove sua violência institucionalizada e trata trabalhador como criminoso. Aliás, a criminalização dos movimentos sociais é uma prática dos governos impopulares, herdeiros das piores ações da ditadura. E isto acontece logo após as comemorações dos 30 anos de anistia. O que também impressiona, é o cinismo de alguns governantes como Cabral que outrora estiveram ao lado dos subversivos, hoje não se envergonham em estar do lado dos torturadores e agirem como verdadeiros tiranos. O Estado, em tese, é aquele que defende a população e deve evitar os conflitos ou, no mínimo, solucioná-los, nunca incentivá-los, nem promovê-los. O descaramento maior vem em seguida, ao tentar inverter a lógica para convencer a opinião pública de que os manifestantes lançaram a primeira pedra. Esta pedra já foi lançada há muito tempo, com a falta de compromisso e vergonha na cara do governo Cabral que massacra nosso povo e ataca despudoradamente os servidores públicos. A pedra das fundações, do arrocho salarial, dos hospitais sucateados, da falta de saneamento básico, da violência urbana e da repressão política. Enquanto isso, o governador fica a procura de holofotes na mídia, a fim de manter-se lembrado para uma possível reeleição. Infelizmente, não se dá ênfase às vaias que tem recebido sucessivamente nos lugares por onde passa. A sociedade não pode perder a coragem nem parar de se indignar contra tais situações. Como disse o cantor e compositor da música brasileira, Gabriel Pensador: Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!) Até quando vai ficar sem fazer nada? Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!) Até quando vai ser saco de pancada? O Sintuperj se solidariza com os trabalhadores da Educação e repudia, veementemente, a atitude do governo estadual para com esses servidores que doam suas vidas em prol de um serviço público de qualidade. É vergonhoso ver trabalhadores sendo ameaçados com armas e cassetetes neste que, ao menos na teoria, é um Estado democrático de direito. EXPEDIENTE: JORNAL DO SINTUPERJ Rua São Francisco Xavier, sala 1020 D - Maracanã - Rio de Janeiro/RJ CEP: Tel: (21) / Internet: / / Coordenação de Comunicação Sindical: Rosalina Barros e Denize Santa Rita Conselho Editorial: Alberto Dias Mendes, Denize Santa Rita, Fátima Diniz, Jorge Luís Mattos de Lemos (Gaúcho), José Arnaldo Gama da Silva, Rosalina Barros, Sandro Hilário e Tania Niskier Jornalista: Silvana Sá (MTE /RJ) Estagiários: Filipe Cabral, Jessica Santos e Tatiana Lima Programação Visual: Daniel Costa Tiragem: exemplares - Fechamento: 16/09/2009 Retratos da Vida Nesses 30 anos de anistia, não podemos deixar de homenagear aqueles que tiveram suas vidas ceifadas pela repressão. Um deles foi o estudante Luiz Paulo da Cruz Nunes, assassinado em 22 de outubro de 1968, durante protesto dos estudantes de medicina no Hupe Seus Direitos Adicional noturno O Sintuperj começou um trabalho de agendamento dos servidores sindicalizados lotados no campus Maracanã da Uerj e que cumprem jornada noturna (das 23h às 5h), visando reivindicar o adicional noturno na justiça. Assim que o trabalho estiver finalizado neste campus, convocaremos os trabalhadores do Hupe e do Centro Biomédico. Antes de procurar o Departamento Jurídico, o sindicalizado deve fazer o agendamento prévio na secretaria do Sintuperj. Somente poderão entrar com ação os servidores que em algum momento já receberam o adicional noturno pela Uerj. Os documentos necessários para ajuizar ação são: cópia da identidade e do CPF; cópia do comprovante de residência atualizado; declaração original assinada pela chefia imediata em papel timbrado da Uerj, confirmando horário noturno; cópia dos contracheques dos anos de 1997, 1998, 1999 que indiquem o recebimento do adicional noturno; cópia dos contracheques atuais; cópia da folha de ponto atual assinada pela chefia imediata; cópia da escala desde a época que começou o trabalho noturno (facultativo). Recadastramento de aposentados Todo o servidor aposentado que ainda não fez o seu recadastramento junto ao Rio Previdência deve fazê-lo o mais breve possível no Centro de Treinamento da Uerj. O agendamento deve ser realizado através do site O servidor aposentado deve informar seu nome completo, matrícula e órgão de origem onde era lotado. Para o recadastramento é necessário apresentar os originais dos seguintes documentos: identidade, CPF e comprovante de conta bancária. Aposentadorias Alertamos a todos os servidores da Uerj que tiverem quaisquer questionamentos nos seus processos de aposentadoria que procurem orientação jurídica dos advogados do Sintuperj, caso sejam chamados para dar ciência. Veja os horários dos plantões (área trabalhista) e faça seu agendamento na secretaria do Sindicato: Terça-feira: das 14h às 18h Sexta-feira: das 10h às 13h30min Arquivo Asduerj

3 SETEMBRO DE 2009 JORNAL DO SINTUPERJ 3 Campanha salarial A luta nossa de cada dia Reajuste e concurso público sob regime estatutário são as principais reivindicações dos trabalhadores Já chegamos em meados de setembro e a pergunta continua na boca da categoria: governador, cadê o reajuste salarial prometido aos servidores da Uerj? A defasagem, acumulada em 8 anos sem reajuste, é de 78,71%. O Sintuperj chega a este percentual a partir da média tirada entre três índices que medem as perdas salariais de nossa categoria: o ICV, do DIEESE; o IPC, da FIPE; e o IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas. Sérgio Cabral prometeu, também, para todo o funcionalismo público estadual, que as áreas de saúde, educação e segurança seriam prioritárias em seu governo. Até agora o que os servidores ouviram foram promessas vãs. Para defender o serviço público de qualidade, os servidores se uniram no Muspe Movimento Unificado dos Servidores Públicos Estaduais. O Sintuperj está engajado neste movimento. Negociar com o governo Nesta luta, o coletivo de servidores tenta abrir um canal de negociação com o governo pedindo, entre outras coisas, reajuste linear de 70%. Como porta-voz do governo estadual, temos o secretário de Planejamento e Gestão Sérgio Ruy. De acordo com ele, não há previsão de reajuste para os trabalhadores e coloca a desculpa na crise internacional. Sabemos bem que a crise não está associada ao não que o governador nos dá. Não somos bobos! Está clara a política neoliberal deste governo, que visa a desmontar o serviço público, privatizar os serviços e calar o movimento sindical e social. Diante deste quadro, o que precisamos, mais que nunca, é lutar! Só a mobilização abrirá, de fato, as negociações com o governo. Luta também é por concurso Outra questão que sufoca os órgãos públicos e os trabalhadores é a não abertura de concursos públicos. Os setores de saúde e educação, hoje, são os mais prejudicados. Para não fecharem as portas, as instituições, de modo geral, contratam trabalhadores temporários sob um regime absolutamente precário. O que mais nos impressiona é a hipocrisia das autoridades em momentos nos quais deflagra-se uma greve por melhores condições de trabalho. Alguns chegam a afirmar que a população é a maior prejudicada. No entanto, o povo já está sendo prejudicado com as medidas do governo Cabral. Ao continuar esse processo impopular, o cenário mais provável é o da privatização dos serviços públicos e maior arrocho salarial. Na Uerj não é diferente A cada dia, a necessidade de concursos para técnico-administrativos e docentes salta aos olhos. Esse ano, com muita luta e mobilização dos servidores técnico-administrativos, o Consun aprovou previsão orçamentária para 2010, para concursos, maior que a deste ano. Tal posicionamento do Consun sinaliza a urgência da abertura de concurso público sob regime estatutário para as diversas áreas da Uerj. Na última sessão do Conselho Universitário, o reitor declarou que abrirá concurso público para provimento de 136 vagas para docentes, o que representa um aumento de 7% do corpo docente. O Sintuperj reconhece a importância desta ação, mas sinaliza de que isto não basta! Até agora não ouvimos qualquer informação sobre abertura de concurso público sob regime estatutário para técnico-administrativos. A Uerj é formada por estudantes, professores e técnico-administrativos. Seu bom funcionamento se dá a partir do respeito a esses segmentos. E este respeito deve ser expresso por meio da valorização, da realização de concursos públicos, reajuste, fatores que ajudam na manutenção de um serviço público de qualidade. Acontece na Uerj Liberdade, Liberdade, abra as asas sobre nós Apesar do discurso pela democracia, reitor mantém porta blindada no corredor da reitoria O mês de agosto, na Uerj, foi marcado, dentre outras coisas, pela comemoração do aniversário de 30 anos da Lei de Anistia. A universidade, orgulhosamente, sediou o simpósio Apesar de você 30 anos da Anistia Política no Brasil e abriu as portas para discutir a importância da data histórica junto com a comunidade universitária e a sociedade, de modo geral. Porém, eventos esporádicos como este não são suficientes para provar que a Uerj é, de fato, um espaço democrático e de apoio à liberdade de expressão. Enquanto no Auditório 13 do campus Maracanã todos os interessados tinham livre acesso para debater a importância da anistia e o resgate dos direitos humanos, logo no andar abaixo uma porta blindada impedia o acesso da comunidade universitária a algumas salas da reitoria. De acordo com informações retiradas da página eletrônica do Departamento de Manutenção, Obras e Projetos (Demop) da Uerj, a porta foi instalada logo no primeiro mês de Inclusive, as fotos da obra estão disponíveis na Internet. Símbolos e significados Se a Lei da Anistia traz consigo a mensagem de exercício da liberdade, respeito aos direitos humanos e da garantia do espaço democrático, a ideia da porta blindada corre Há 30 anos, a população clamava por democracia. Hoje, quem pede democracia é a comunidade da Uerj no sentido oposto. A anistia representou a vitória da liberdade de expressão e pensamento. Representou a abertura das portas para os exilados e presos políticos. De um lado temos o abrir de portas`, do outro, o fechar portas`, comenta o coordenador de Formação do Sintuperj, Alberto Mendes, comparando as duas situações. Embora o reitor ainda não tenha justificado formalmente a necessidade de uma porta blindada no corredor que dá acesso às instalações da reitoria, é de se estranhar o fato de que a passagem foi impedida poucos meses depois que estudantes ocuparam o local durante vinte dias para reivindicar seus direitos. Inclusive, neste mês se completa um ano desde a ocupação da reitoria pelos alunos. Estudante do curso de Letras e coordenadora geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Uerj, Fabiane Simão participou da ocupação, em setembro de 2008, e considera que a instalação da porta blindada no corredor gera a criação de dois Ricardo Malta/AN Imagens espaços dentro da universidade. Como se a Uerj fosse quase pública, com um recinto reservado para a reitoria e seus convidados. Colocar uma porta como essa em um espaço público como a universidade é o mesmo que se apropriar deste espaço. Um lugar que deveria ser de livre acesso a todos de repente se torna restrito analisou Fabiane. Amanhã há de ser outro dia Na abertura do simpósio, após a execução emocionada do hino nacional, o reitor Ricardo Vieiralves, fora de seu quartel general, fez um discurso no qual relembrou os tempos passados de militância política. Desacreditado por quem deveria representar e perdido nas contradições entre seus atos e palavras, ressaltou também a importância daqueles que lutaram pela anistia e pela liberdade de pensamento. A música tema do simpósio (Apesar de você) deu o tom do evento. Há 30 anos, Chico Buarque indagava aos repressores onde vai se esconder da enorme euforia?. Hoje, a comunidade da Uerj continua com muita euforia. Resta saber se o reitor, após relembrar os anos de chumbo, decidirá pela manutenção de uma porta blindada, que faz lembrar a ditadura militar, ou contribuirá para o aprofundamento da democracia.

4 4 JORNAL DO SINTUPERJ SETEMBRO DE 2009 Notícias do Sintuperj Um pré-vestibular cidadão Sintuperj comemora neste mês o 11º aniversário do projeto Há onze anos, nasceu um projeto pioneiro dentro da Uerj: o Pré-Vestibular Comunitário do Sintuperj, fruto da determinação política de um grupo de sindicalistas da antiga Associação dos Servidores da Uerj (Asuerj), hoje Sintuperj. Em 2008, o curso atingiu uma meta surpreendente: foi responsável pela aprovação de 52 estudantes em universidades públicas. São trabalhadores, donas de casa, servidores técnico-administrativos, mães, pais e filhos que alcançaram o sonho de ingressar na faculdade através do projeto. O objetivo principal do Pré-Vestibular do Sintuperj é democratizar o acesso à educação de nível superior, além da construção da consciência política dos estudantes. O projeto dá aos alunos instrumentos necessários para enfrentar os desafios sociais e mostra a importância deles estabelecerem um compromisso com a transformação da realidade em que vivemos, explica Alberto Mendes, coordenador de Formação Sindical do Sintuperj. Fazendo a diferença Estou no Rio há cerca de três anos e me sustento como empregada doméstica. Só tive condições de me preparar para as provas dos vestibulares porque existe o curso. O Pré-Vestibular foi e é o responsável pela minha vitória e por esta nova fase de vida que vou iniciar agora em setembro, conta a ex-aluna Deise Pimenta, que foi aprovada para o curso de Serviço Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os pré-vestibulares comunitários são uma opção para estudantes de baixa renda que querem cursar uma faculdade pública, mas têm dificuldades de acesso à educação ou problemas para arcar com as altas mensalidades de um pré-vestibular tradicional. Em todo o estado do Rio de Janeiro existem dezenas de pré-vestibulares comunitários, a maioria com ofertas de vagas de baixo custo ou até gratuitas. Construção coletiva Outra característica do projeto é o incentivo à cidadania. Em geral, as decisões eram feitas com a participação dos alunos, professores e a direção do Sindicato. Em cada ano, a última reunião é um seminário de avaliação e de planejamento para o ano seguinte. O projeto sempre teve uma cara democrática. A participação dos alunos é uma aula prática de cidadania e ajuda na formação política deles para enfrentar o mundo, a vida, avalia o coordenador Alberto Mendes. Segundo Alberto, houve momentos em que as reuniões se transformavam em plenárias. Todos os estudantes queriam falar e os professores os motivavam para interferirem em sua realidade, exemplifica. Nesta dinâmica, também são eleitos os representantes de turma. Uma forma de mostrar a importância da exposição das ideias dos alunos e de fazer com que todos coloquem a mão na massa, aprendendo a discutir e organizar formas de atuação política. O resultado prático da cidadania Uma das ex-alunas do pré-vestibular é atualmente coordenadora do Sindicato. A servidora técnico-administrativa Fátima Diniz trabalhava na Uerj há 10 anos, no setor de Oftalmologia, no Hupe, quando decidiu fazer vestibular. Tentou por duas vezes e este ano passou para o curso de Contabilidade. Fiz o antigo segundo grau em Em 2008, consegui ser uma das alunas aprovadas para a Universidade onde trabalho há 12 anos. Para mim, isso é uma conquista. Mas não é só minha. Esta é uma realização de todos que acreditaram que não basta ter um pré-vestibular e sim ser o pré, defende a coordenadora. Envolvida com o projeto desde 2007, Fátima se tornou representante de turma. Em setembro de 2008, após as eleições para a nova diretoria do sindicato, tornou-se coordenadora do Prévestibular. Um exemplo de como a formação cidadã e seu exercício pode lapidar trabalhadores e estudantes. Nossos alunos são de baixa renda e vêm com muita deficiência, pois sabemos bem como infelizmente está a nossa escola pública. Mas mesmo assim a garra, a determinação e por que não dizer a vontade de vencer e ser alguém faz com que eles se dediquem muito mais, opina. Histórico Em 1998, os dirigentes da Asuerj identificaram que havia um vácuo na Uerj com relação ao acesso de seus próprios trabalhadores ao ensino superior. Existia, na Universidade, um projeto chamado Investuerj, uma espécie de curso supletivo, de educação básica, voltado exclusivamente para os servidores técnico-administrativos. Porém, após concluírem os estudos, não existiam opções que auxiliassem os técnico-administrativos a entrarem na faculdade. Foi a partir desta observação que a Asuerj decidiu criar um curso de prévestibular para auxiliar os trabalhadores. A partir do projeto Universidade cidadã, a Federação de Sindicatos de Trabalhadores das Universidades Brasileiras (Fasubra) forneceu os princípios básicos para a formulação do curso. Além disso, os dirigentes procuraram conhecer experiências semelhantes como o pré-vestibular do Sindicato dos Trabalhadores da UFRJ (Sintufrj) e também do Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações (Sinttel), que possui uma escola do ensino fundamental ao pré-vestibular. O sonho se torna realidade No dia 3 de agosto de 1998 aconteceu a primeira aula inaugural do projeto. Porém, a luta para conseguir um espaço físico para abrigar o curso continuaria por muitos anos. De dia, o pré-vestibular funcionava em duas salas cedidas pela Faculdade de Administração e Finanças (FAF), no oitavo andar do campus Maracanã. À noite, os alunos tinham que se deslocar para dois auditórios. Foi somente em junho de 2007, depois de muita negociação, que a conquista de uma sala foi possível, a partir da cessão do setor de Vestibular da Uerj. No início, os professores trabalhavam voluntariamente no projeto e as aulas eram gratuitas. A direção percebeu, porém, que havia uma grande evasão do curso. Um dos motivos era o fato de a gratuidade não trazer um compromisso de permanência. Após um período, identificamos que a gratuidade não era benéfica, nem educativa, pois tirava o compromisso com o pré. Uma infelicidade do sistema em que vivemos: o que dói no bolso, atinge a alma!, diz o coordenador Alberto Mendes. Hoje, o Pré-Vestibular conta com uma equipe de 27 professores, dois coordenadores, um funcionário específico e vários monitores. Ao todo, são 140 estudantes divididos em dois turnos: tarde e noite. Todos os professores ganham uma ajuda de custo. Os estudantes da comunidade externa contribuem com 10% do salário mínimo e os filiados e dependentes contribuem com 5%. Professora será homenageada Jéssica Santos Para comemorar os onze anos do prévestibular, a direção do Sindicato, alunos e professores preparam uma grande festa, que será realizada por meio de atos para marcar a luta, no dia 24 de setembro. Símbolo da vitória e das conquistas que marcaram a história do pré, a sala nº 1021, localizada no bloco D da Uerj, ganhará nome e sobrenome: Cristiane Guerreiro. Militante do DCE, aluna da Faculdade de Educação e professora voluntária do Pré-Vestibular, Cristiane faleceu em 03/07/2005. No dia 24, a sala ganhará uma placa com o nome da homenageada. Também será oferecido e repartido com toda a comunidade muito sorriso e consciência política. Aula inaugural do pré-vestibular realizada em fevereiro de 2009

5 SETEMBRO DE 2009 JORNAL DO SINTUPERJ 5 Acontece na Uerj Mobilização garante vitória, mas luta continua Retomada da isonomia i salarial l é aprovada por unanimidade id d no Consun Fotos: Niko Jr. Acima: Servidores lotaram a sessão do Consun participação foi fundamental. Ao lado: a conselheira Rosalina Barros entrega os abaixo-assinados ao reitor Ricardo Vieiralves enquanto o conselheiro Jorge Gaúcho lê o relato A sessão do Conselho Universitário do dia 11 de setembro trazia como pauta a discussão e votação da proposta de emenda à Lei de Carreira que pede a retomada da proporcionalidade de vencimentos entre técnico-administrativos e docentes. Desde as 9h, trabalhadores, especialmente do Hospital Universitário Pedro Ernesto, aguardavam o início da sessão. A mobilização dos servidores mais uma vez foi decisiva para a aprovação unânime da reivindicação. O conselheiro Jorge Luís Mattos de Lemos (Gaúcho) foi o relator da proposta apresentada pela bancada dos técnicoadministrativos. A vitória foi uma conquista histórica dos trabalhadores e, sem dúvidas, a retomada dos parâmetros de justiça nos quais a Uerj sempre se embasou. Todos os conselheiros presentes, inclusive o próprio reitor, professor Ricardo Vieiralves, votaram a favor da proposta de Projeto de Lei. Veja a íntegra do relato e da proposta na página eletrônica do Sintuperj: Entrega dos abaixo-assinados Antes de iniciar o relato, o conselheiro Gaúcho comunicou a entrega do abaixoassinado que pedia a retomada da isonomia salarial e da garantia, em lei, do direito a matrículas de dependentes dos servidores técnico-administrativos no CAp. Ao todo foram recolhidas quase 3 mil assinaturas! Os abaixo-assinados entregues pela bancada foram iniciativa do Sintuperj, que recolheu assinaturas em todos os locais de trabalho. Isonomia: o que isso representa? Durante anos, a Universidade respeitou esta isonomia salarial. Porém, no ano passado, em meio a uma greve pelo reajuste, o governo implantou um plano de carreira para os docentes (PCD) que nada tinha a ver com o aprovado no Conselho Universitário. Além do descontentamento dos próprios docentes, com um plano que não lhes atendia na essência de suas reivindicações, o PCD quebrou a isonomia salarial histórica, causando uma distorção de 30% em média entre as carreiras. Isonomia significa o realinhamento dos salários de servidores técnicos e docentes. Historicamente, os parâmetros salariais foram os valores do nível superior. Em 1987, por ato executivo, o reitor Charley Fayal de Lyra havia corrigido uma distorção criada na época. Um professor auxiliar e um técnico de nível superior para ingressarem no cargo precisam ter diploma de graduação. É a exigência mínima. Sendo assim, os vencimentos devem ser iguais. Recuperação vai atingir a todos A readequação dos salários não pode se dar apenas no nível superior. A tabela de vencimentos dos servidores técnicoadministrativos obedece a uma lógica e coerência em termos percentuais. Em outras palavras, o restabelecimento dos 30%, perdidos com a aprovação do plano docente, serão estendidos a todos os trabalhadores da carreira. Mobilização deve continuar O próximo passo, após a aprovação pelo Consun, é o acompanhamento do projeto, que será encaminhado pelo reitor ao Governo do Estado e, em seguida de acordo, é claro, com a boa vontade do governador e com a pressão da categoria, para a Alerj. A decisão deste Conselho foi acertada, retoma o tratamento e igualdade que sempre nos movimentou nesta Universidade. Esperamos que o governo encaminhe esse projeto à Alerj o mais rápido possível, salientou o conselheiro Alberto Mendes, membro da bancada dos técnico-administrativos no Consun. É preciso lembrar que o reitor da Uerj, ao encaminhar a proposta para o Governo do Estado, deve apresentar, em anexo, o cálculo do impacto financeiro da medida. Sem essa informação o governador ganhará tempo e terá mais uma desculpa para não aprovar imediatamente nossa reivindicação. Somente com luta e muita mobilização, conforme foi demonstrado até agora, é que conseguiremos a vitória final. O Sintuperj convoca todos os servidores da Uerj a permanecerem mobilizados. Só a união dos trabalhadores será capaz de vencer as futuras batalhas e conquistar a isonomia salarial. Todos juntos somos fortes! Participe da assembleia no dia 30/9, às 14h, no auditório 31 Campus Maracanã / Uerj.

6 6 JORNAL DO SINTUPERJ SETEMBRO DE 2009 Pedro Ernesto Hupe: 59 anos de resistência Hospital Universitário comemora aniversário lutando contra o descaso do governo Silvana Sá Arquivo Sintuperj Inaugurado em 1950, o Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe) celebra, em 2009, seus 59 anos de muito trabalho e resistência. Considerado um dos maiores hospitais públicos em funcionamento no Estado do Rio de Janeiro, o Hupe se destaca ao longo dos anos pela eficiência e qualidade no tratamento à população. Contudo, nem tudo são flores nestes quase sessenta anos de história. Nos últimos anos, o hospital e, principalmente, os trabalhadores têm sofrido com o descaso do governo do Estado. Sem concursos públicos há mais de dez anos, alguns setores do Hupe, como a neurologia e a radiologia, têm que funcionar com grande parte dos trabalhadores em condições de se aposentar e, o que é mais grave, sem nenhuma previsão de substituição. Mesmo assim, com tantas dificuldades, o Hupe foi selecionado pelo governo estadual como referência no tratamento a pessoas portadoras da gripe suína. Como já aconteceu, no passado, quando foi convocado pelo Governo do Estado para tratar pacientes da dengue. A H1N1 e o Hupe Em agosto, o Sintuperj participou de uma audiência pública na Assembleia Legislativa para discutir os efeitos do vírus H1N1 no estado e avaliar a forma como tem sido aplicado o plano de prevenção da Secretaria Estadual de Saúde. Diante do cinismo do governo estadual ao falar que o plano contra a gripe foi implantado com sucesso, um dos coordenadores gerais e representante do sindicato na reunião, Jorge Augusto, fez questão de esclarecer para todos o que, de fato, ocorre diariamente no hospital: Temos ótimos profissionais no Hupe, mas, infelizmente, somos obrigados a trabalhar na velha lógica do cobertor curto`. Precisaríamos de uma estrutura própria para atender os casos da gripe. Como não temos, acabamos deixando outros setores do hospital desfalcados de leitos, pessoal e até mesmo material concluiu. Contratos Temporários Assim como outros setores da Uerj, o Hupe convive diariamente com diversas contradições. Nos últimos anos, para mostrar que tenta preencher os cargos vagos pela ausência de concursos públicos, a reitoria tem admitido centenas de trabalhadores por meio de contrato temporário. Se já não bastasse adotar a política de contratos, como forma de desmontar o serviço público, a reitoria sequer se importa em respeitar os salários de determinadas funções. Trabalhadores contratados de diversos setores exercem as mesmas atividades de efetivos, mas recebem salários menores. O extremo desrespeito ao trabalhador motivou o Sintuperj a entrar com um processo no Ministério Público em defesa do cumprimento da lei nº4.599/05. A referida lei estabelece que o trabalhador contratado deverá receber o vencimento inicial da carreira do servidor, conforme a lei nº4.796/06, que criou o Plano de Cargos e Carreiras dos servidores técnico-administrativos da Uerj. A dura realidade Mesmo após 59 anos de existência, para quem atua diariamente no hospital, a realidade do Hupe não é a mesma divulgada em prêmios e comemorações. De acordo com a página do hospital na Internet, a missão da unidade é prestar assistência integrada, humanizada e de excelência à saúde, sendo agente transformador da sociedade através do ensino, pesquisa e extensão. Todavia, executar tal missão com o déficit de mão-de-obra e condições precárias de trabalho existentes, hoje, no Hupe é um grande desafio. Segundo os próprios profissionais, um hospital do porte do Pedro Ernesto deveria contar com, no mínimo, 110 anestesistas. Hoje, contamos com apenas 28. É um absurdo, ponderou Jorge Luís, auxiliar de enfermagem e também coordenador geral do Sintuperj. Provisório X Permanente Além do número reduzido de servidores e, consequentemente, a exploração de Banco de Sangue do Hupe precisa de você O Banco de Sangue Herbert de Souza, do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), está em campanha para captar doadores. A pandemia do vírus H1N1, a ampliação das férias escolares e a queda natural de doadores neste período, por conta da gripe ou o a indefinição de diagnóstico, deixou os estoques do banco abaixo do necessário. O hospital solicita que quem estiver apto faça a doação. Para isso, é necessário ter entre 18 e 65 anos, ter boa saúde e pesar mais de 50 Kg. Não precisa estar em jejum, mas devem ser evitados alimentos gordurosos. É preciso, também, levar documento de identidade com foto. Os interessados podem comparecer, de 8h as 12h30m, de segunda a sexta-feira, no Banco de Sangue Herbert de Souza, que fica na Avenida 28 de Setembro, 104, em Vila Isabel. Para mais informações, entre em contato pelo telefone seus serviços, o hospital sofre com a falta de mínimas condições estruturais. Em novembro de 2008, o prédio onde funcionava o setor de manutenção foi posto abaixo e os trabalhadores foram sujeitos a exercer suas funções dentro de containeres, conforme já foi denunciado pelo Sintuperj. Na época, a direção do Departamento de Infra-estrutura e Hotelaria Hospitalar (DIHH), garantiu que um novo prédio seria erguido assim que chegasse uma verba prometida pelo Ministério da Saúde. Porém, a situação que deveria ser temporária se estabeleceu e tornou-se permanente. Até hoje os quase cem trabalhadores da manutenção tem que se adaptar ao pequeno espaço que lhes cabe neste latifúndio da Uerj, que apesar de ser um espaço público, parece ser usado apenas em favor de muito poucos. Quem merece os parabéns Em junho do mesmo ano, o governador Sérgio Cabral realizou duas solenidades, uma no Palácio Guanabara e outra no anfiteatro Ney Palmeiro, no próprio Hupe, para comemorar os mil transplantes renais realizados no hospital. No Palácio Guanabara, Sérgio Cabral mais uma vez deixou clara sua visão em relação ao hospital. Os diretores do Sintuperj que compareceram ao evento, apesar de convidados oficialmente pelo Governo, foram impedidos de participar da cerimônia onde o governador, como de costume, celebrava a conquista ao lado do reitor Ricardo Vieiralves. A resistência a ataques como estes ressalta o valor dos 59 anos do Hupe como espaço de luta e muita garra dos trabalhadores, que apesar das péssimas condições, realizam um trabalho de excelência. Depois de assopradas as velas, só quem luta diariamente sabe quem realmente merece os parabéns.

7 SETEMBRO DE 2009 JORNAL DO SINTUPERJ 7 Movimentos Sociais Irreverência e crítica marcaram o Grito dos Excluídos Trabalhadores na rua fazem a verdadeira marcha cívica Centenas de pessoas foram às ruas do Rio de Janeiro e milhares se somaram em todo o Brasil nesta que foi a 15ª edição do Grito dos Excluídos. O tema deste ano: Vida em primeiro lugar a força da transformação está na organização popular, demonstra, com clareza, o objetivo dos movimentos sociais e de esquerda de nosso país. Movimentos sociais, culturais, partidos políticos e centrais sindicais marcaram presença no ato. Há 15 anos o Grito dos Excluídos acontece como uma tentativa de fazer ouvir aqueles que não têm voz nem vez no nosso país. A concentração começou quando ainda desfilavam as forças armadas na Av. Presidente Vargas, Centro da cidade do Rio de Janeiro. A Polícia Militar e o Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope) foram vaiados: Assassinos! Abaixo caveirão! foram alguns dos gritos dos participantes do Grito dos Excluídos durante a apresentação dessas forças do Estado. Um grupo de skinheads (jovens afeitos à violência, à intolerância e simpáticos a práticas nazistas) aplaudiu os soldados da chamada tropa de elite e insultou os manifestantes Carros da polícia tentaram impedir que a população visualizasse a faixa que abria o ato com palavrões e gestos obscenos. Manifestantes tomaram as ruas Com o fim do desfile cívico, a multidão tomou a Av. Presidente Vargas para denunciar à população a constante criminalização a qual os movimentos sociais estão sendo submetidos. Os trabalhadores também pediam emprego, salário e moradia dignos, terra, saúde e educação pública de qualidade, entre outras reivindicações tradicionais da esquerda brasileira. Mardônio Barros, uma das lideranças do MST que estava presente no ato avaliou Silvana Sá o momento: O ponto alto é colocar em evidência esse contraponto entre o culto bélico na parada militar, que não contempla a nossa luta, e denunciar a situação de miséria na qual ainda vivemos. Esse é um dia de luta e não de culto ao militarismo, disse. Esquerda precisa falar da vida Sem dúvidas, o ponto comum que uniu todas as pessoas que participaram do ato foi a busca pela dignidade humana. Temos que ser mensageiros da esperança nesse mundo desencantado. Não dá para separar vida e militância, isso é papel do capital. Temos que discutir a humanidade, a subjetividade. Essa é a nossa tarefa nesse mundo. O capital nos isola, nos aprisiona. Não podemos abrir mão do encontro, do olhar, da confiança. Isso é potência humana transformadora, avaliou Mardônio. O Sintuperj entende o 7 de Setembro como um momento de reflexão: independência significa libertação. Enquano houver ricos e pobres, ainda haverá aprisionamento humano. Portanto, a verdadeira independência ainda está por vir. Só tem medo quem não produz MST conquista importante vitória com a atualização dos índices de produtividade rural Anunciada pelo governo federal há pouco mais de duas semanas, a proposta de atualização dos índices de produtividade rural tem gerado calorosos embates em Brasília. No entanto, o debate sobre esta simples lei não se encerra na capital do país, mas afeta diretamente milhares de famílias em todo o Brasil. Para que serve este índice? Conforme a constituição brasileira, toda propriedade deve cumprir com sua função social. Caso contrário, o Governo tem o direito de desapropriá-la através do pagamento de uma indenização. O índice de produtividade, portanto, é o que define se uma determinada propriedade rural atende, ou não, o interesse social. Acontece que, atualmente, mesmo com todas as inovações tecnológicas das últimas décadas, os indicadores em vigor ainda são os definidos em Ou seja, o cálculo da produção é Agência Brasil de Fato baseado em uma estrutura ultrapassada há mais de 30 anos. É importante frisar que a Lei Agrária 8.629/1993 já determinava que os parâmetros, índices e indicadores que informam o conceito de produtividade serão ajustados periodicamente, de modo a levar em conta o progresso científico e tecnológico da agricultura e o desenvolvimento regional. A polêmica A revisão do índice tem incomodado os chamados ruralistas do Congresso Nacional. A alteração da lei implica diretamente na desapropriação de suas terras para serem usadas no processo de reforma agrária. Do outro lado da discussão, milhares de famílias de trabalhadores ligados à terra podem, enfim, comemorar a conquista do direito à moradia e ao trabalho. Aliás, a discussão sobre a revisão dos índices já é, por si, uma conquista do MST, que intensificou suas atividades no mês de agosto, com marchas e ocupações de prédios públicos. Ao contrário do que os grandes latifundiários defendem, a medida não barra a produção agrícola no país. Na verdade, ela impede que grandes propriedades rurais deixem de produzir para servir à especulação imobiliária. Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) demonstram que das propriedades cadastradas, 90% não seriam afetadas pela atualização dos indicadores. Em outras palavras, a revisão não atrapalhará aqueles que, de fato, garantem o alimento, geram trabalho e renda para o país. Personagens em questão Ao contrário do que possa parecer, a atualização dos índices de produtividade não é uma questão nova. Há anos movimentos populares ligados ao campo, como o Movimento dos Sem Terra (MST), reivindicam que a lei seja revista. Todavia, representantes ruralistas, como o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, tentam a todo custo barrar ou pelo menos adiar o avanço da reforma agrária. Nos últimos dias, a desculpa escolhida para tentar adiar a medida é que os latifundiários ainda sofrem efeitos da crise econômica. Mais uma vez, o interesse de milhares de famílias sem terra, pequenos produtores, trabalhadores do campo e da classe trabalhadora em geral está em jogo contra o dos latifundiários. Cabe ao governo decidir a favor de quem a lei deve ser feita e repensada.

8 8 JORNAL DO SINTUPERJ SETEMBRO DE 2009 Entrevista com Margarida de Souza Neves Dom Helder: o guerreiro da liberdade Por Silvana Sá Nesta entrevista, a historiadora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação do departamento de História da PUC-Rio, Margarida de Souza Neves, fala, emocionada, sobre seu convívio com uma das figuras ícones da história nacional: Dom Helder Câmara. Neste ano, comemoramos o centenário do seu nascimento e relembramos a importância de sua figura na luta pelos direitos humanos, liberdade e democracia. Dom Helder morreu em 27/8/1999 aos 90 anos, foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo emérito de Olinda e Recife. Foi, também, um dos maiores combatentes da ditadura e indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz. As pessoas são pesadas demais para serem levadas nos ombros. Levo-as no coração. JORNAL DO SINTU- PERJ: Quem foi Dom Helder? Margarida de Souza Neves: Ele é um homem plural, mas ao mesmo tempo muito singular. Um dos traços da identidade dele é a capacidade de mudança. Ao mesmo tempo ele é o cearense de costumes simples e o idealista, que foi capaz de encarnar a esperança de tantos durante a ditadura militar, de ser a voz de quem não podia falar. E tudo isso está na mesma pessoa. Foi o líder que tinha tempo para os afetos e para querer bem as pessoas. Capaz de mudar por acreditar nas coisas que achava importantes. Dom Helder foi um homem que pôs a vida a serviço daquilo que acreditava e que estava na contramão daquele momento tão duro, que foi a ditadura. Dom Helder Câmara JORNAL DO SINTUPERJ: Como é, para a senhora, ter sido alguém tão próxima de Dom Helder? Margarida de Souza Neves: Ele era um grande amigo da minha família, sobretudo da minha avó. Era uma pessoa muito humana, muito próxima. Ainda que eu tenha a exata medida da pessoa pública que foi Dom Helder Câmara, eu percebo que não havia uma fratura entre a pessoa pública e a privada. Ele era ele em qualquer lugar. E era uma pessoa que não se deixava calar. Encontrava saídas, sempre inteligentes e inesperadas, para as mais diversas situações. Eu nunca tive essa distância reverencial em relação a ele porque éramos muito próximos. As pessoas o olhavam e pediam que abençoasse seus filhos, porque sabiam o que ele representava. Ele fazia questão de não ser extraordinário, embora o fosse. Crescia enormemente com seus gestos e palavras. Era alguém que sabia expressar o carinho, a empatia, e que abraçava acolhedoramente. JORNAL DO SINTUPERJ: Como começou o envolvimento dele com os movimentos contra a ditadura? Margarida de Souza Neves: É importante frisar que até os anos 1930 ele era um padre integralista, de direita, reacionário, com a mentalidade de boa parte da igreja católica da época. Em 1952 é nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Mas antes disso, começa a ter maior contato com a intelectualidade da época. O contato com os mais pobres, sobretudo, foi fazendo Dom Helder mudar de lugar social. Ele sempre repetia uma frase muito interessante: Eu mudei minhas ideias. Só não muda de ideias quem não tem ideias para mudar. Foi, sem dúvida, um importante articulador no Concílio Vaticano II esse concílio foi realizado de 1962 a 1965 e definiu, entre outras coisas, o compromisso da igreja católica na solução de problemas sociais e econômicos, o que fortaleceu a ala progressista da igreja, da qual Dom Helder passou a fazer parte. Depois do Vaticano II, a justiça social foi muito sublinhada na igreja, que assumiu uma postura de busca de estruturas sociais mais justas. O concílio termina em 1965 e em 1968 a ditadura recrudesce. JORNAL DO SINTUPERJ: Conte um pouco sobre a censura ao nome de Dom Helder na imprensa brasileira. Margarida de Souza Neves: A partir de 1972 Dom Helder passa a ser ostensivamente vigiado pelo Dops Departamento de Ordem Política e Social e pelos militares. Seu nome não pode sair em nenhum veículo de comunicação. Além disso, também é impedido de falar em público no país. Sequer para se defender ele podia se pronunciar. JORNAL DO SIN- TUPERJ: Sabese que Dom Helder denunciou ao mundo as torturas cometidas no Brasil. Qual foi a repercussão delas? Margarida de Souza Neves: Nesse tempo, de 1968 a 1977, a voz de Dom Helder Câmara tinha repercussão como nenhuma outra voz brasileira. Censurado no Brasil, Dom Helder aproveita suas viagens ao exterior e fala livremente para o mundo e com ampla repercussão. Tanto que foi indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz, mas o governo brasileiro interveio para que ele não ganhasse esse prêmio. Recebeu prêmios alternativos, mas o Nobel nunca lhe foi atribuído. JORNAL DO SINTUPERJ: Além do autoritarismo e das armas, o que mais Dom Helder enfrentou? Margarida de Souza Neves: Para além da repressão, da intimidação da ditadura, ele enfrentou a violência contra os que eram mais próximos a ele. Imagino que ele deve ter passado por momentos muito duros de pressão dentro da igreja também. O conflito faz parte da história. Ele, que era tão confiante na palavra e na liberdade, de repente se vê impedido de falar. Isso, para ele, deve ter sido muito duro, mas nunca o ouvi reclamar disso. JORNAL DO SINTUPERJ: Um dos golpes mais duros foi o assassinato do padre Antônio Henrique. Como a senhora percebe este episódio? Esta foi uma clara tentativa de calar a voz de Dom Helder? Margarida de Souza Neves: Sem dúvidas. Mais do que intimidá-lo, essa era uma forma de culpabilizá-lo. É uma forma terrível de praticar violência contra alguém. O Henrique foi morto de uma maneira brutal. Essa foi a violência mais terrível. Matar Dom Helder tinha um preço político muito alto, então matar quem lhe era próximo era uma forma de matá-lo. Fazia parte do arsenal de brutalidade institucional da época. JORNAL DO SINTUPERJ: E por que não conseguiram? Margarida de Souza Neves: Em parte por sua coragem, mas também porque sua voz ecoava o que de melhor existia na sociedade brasileira. Não conseguiram calar sua voz, como não conseguem calar a voz do desejo da democracia. Não calaram a voz dele, porque essa voz não era só dele, era da democracia, da justiça social, era uma voz plenamente humana. Não era uma voz isolada, mas ele teve a coragem de pô-la a serviço de tantas outras vozes caladas. JORNAL DO SINTUPERJ: Qual a interferência que Dom Helder teve na conquista da anistia política, que neste ano faz 30 anos? Margarida de Souza Neves: Ele era um grande articulador. Em geral estava nos bastidores, mas certamente foi um dos responsáveis por isso. Ele manteve-se coerente com os valores que acreditava e soube ter, em determinados momentos, gestos importantes. Exemplo disso são os episódios com o militante comunista Gregório Bezerra, torturado duramente, a quem fez questão de cumprimentar pessoalmente em uma manifestação nas ruas de Recife, seu enfrentamento às tropas militares quando cercaram estudantes na Universidade Católica de São Paulo ou ainda as denúncias à tortura. JORNAL DO SINTUPERJ: Qual o legado que Dom Helder Câmara deixou para essa e futuras gerações no que diz respeito ao processo de lutas contra as injustiças sociais? Margarida de Souza Neves: Seu legado é como ele: muito plural e muito singular. Legado de busca por justiça, de liberdade, de dignidade, de defesa de direitos humanos. De humanidade densa e plena. De capacidade de acreditar no coletivo. Cem anos depois de seu nascimento tem sentido falar sobre ele. Uma vida que tem sentido e que confere sentido. E cada pessoa buscará na pluralidade de Dom Helder o legado que deseja. Para conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra de Dom Helder Câmara, acesse as páginas eletrônicas: puc-rio.br/memoriapos/dhc e

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